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  • CEJ: conheça todas as 344 perguntas (e as 197 mais insólitas) do inquérito psicológico aos futuros juízes

    CEJ: conheça todas as 344 perguntas (e as 197 mais insólitas) do inquérito psicológico aos futuros juízes


    Há testes que parecem nascer de uma estranha alquimia entre a psicologia e o absurdo. O PAI — Personality Assessment Inventory, no seu nome pomposo e internacional — é um desses instrumentos que, à primeira vista, pode provocar o riso ou a incredulidade de quem o lê sem conhecer a sua lógica interna.

    Centenas de afirmações – 344 para ser exacto – dispostas em série, numeradas como uma ladainha laica, pedem ao respondente que diga, para cada uma, se é “falsa”, “ligeiramente verdadeira”, “bastante verdadeira” ou “completamente verdadeira”. Lidas de forma literal, parecem um retrato caricatural da mente humana, um mosaico do absurdo.

    a man holds his head while sitting on a sofa

    Mas a psicometria não é literatura — embora, neste caso, pareça imitá-la. De facto, os psicólogos explicam que a razão destas perguntas reside nas nuances e nas intersecções entre respostas. Um teste como o PAI não se lê linha a linha, mas em padrões. A magia — ou a ciência — está no cruzamento das respostas, nos desvios estatísticos e nas correlações discretas entre, por exemplo, a afirmação 19 e a 244, entre o nervosismo declarado e a paciência negada.

    Aparentemente inócuas, certas perguntas funcionam como espelhos cruzados: servem para medir a consistência interna do respondente, detectar incongruências ou indícios de falsificação. Há até um nome para o fenómeno em que o examinado responde não o que sente, mas o que acha que deve sentir: chama-se viés de desejabilidade social — a tendência de dar as respostas “boas”, as respostas que se imagina que o avaliador espera.

    Porém, por mais que se possa compreender a utilidade de tais instrumentos no diagnóstico clínico, a sua aplicação a candidatos ao Centro de Estudos Judiciários levanta um desconforto ético e intelectual, até porque não estamos a inquirir pessoas com suspeita de problemas clínicos, de sociabilidade ou mesmo reclusos. Trata-se de pessoas que já superaram provas escritas de Direito e de cultura geral, avaliações orais de painéis de júris e avaliações de raciocínio jurídico — e que, de repente, são sujeitas a um questionário em que se pergunta se ouvem vozes, se se sentem controladas por forças invisíveis ou se gostam de coleccionar selos ou se têm diarreia frequente.

    Sede do Centro de Estudos Judiciários. / Foto: D.R.

    É, convenhamos, uma experiência desconcertante – e reside aí, porventura, terem chumbado mais de metade dos candidatos que tinham ultrapassado todas as provas técnicas – e isso fez com que o CEJ tenha sido obrigado a fazer uma segunda avaliação, atrasando o início das aulas em quase dois meses.

    Compreende-se até bem que um jurista lúcido e emocionalmente equilibrado – e que, como candidato ao curso de juízes e magistrados do Ministério Público – se tenha irritado perante algumas perguntas, que parece querer testar sobretudo a paciência perante a estupidez.

    Não é preciso ser Freud para reconhecer que há algo de profundamente literário neste tipo de experimentos — basta, “apenas”, ter lido Machado de Assis. Na novela “O Alienista”, publicada em 1882, o doutor Simão Bacamarte, tomado de um zelo científico quase divino, decide internar os alienados de Itaguaí em nome da razão. Primeiro encerra os loucos evidentes, depois os excêntricos, a seguir os virtuosos, os prudentes e, por fim, todos os que se desviam — mesmo que minimamente — da sua noção de equilíbrio. Na sua própria loucura metodológica, o alienista Bacamarte, obcecado em definir o que é sanidade, acaba por ter um lampejo de lucidez: reconhece que a loucura é, afinal, a norma, e encerra-se a si próprio na Casa Verde. É o desfecho irónico de um enredo que desmonta o delírio científico e a pretensão de medir a alma humana com réguas de laboratório.

    photo of person reach out above the water

    O PAI, na sua forma moderna, não chega a tanto, mas transporta a mesma tentação — a de reduzir o espírito humano a uma soma de variáveis e percentagens —, ainda mais inquietante quando se pretende aplicá-lo a futuros juízes e magistrados do Ministério Público, que, antes de tudo, deveriam continuar a ser humanos como os demais.

    Entretanto, esta tarde o PÁGINA UM recebeu um “aviso” da editora Hogrefe, que se diz detentora dos direitos do PAI em Portugal, exigindo a cessação imediata de qualquer divulgação adicional dos seus conteúdos e até a remoção dos já publicados. E diz ainda que aquilo que o PÁGINA UM publicou são de “versão não autorizada” e que não correspondem à versão “utilizada no processo de selecção do Centro de Estudos Judiciários”.

    Convém referir que a editora não diz quais, em concretos, são as questões apresentadas como exemplo pelo PÁGINA UM que não foram usadas no CEJ, sendo que a instrumento PAI está padronizado internacionalmente, ou seja, apenas admite pequenas alterações ao modelo Leslie Charles Morey. Assim, comparando a versão espanhola com a portuguesa (ambas na posse do PAGINA UM), as diferenças são de pormenor de tradução ou de adatação ao contexto do país. Por exemplo, a pergunta 40, em português é: “O meu poeta favorito é o Daniel Sampaio“, enquanto na versão em espanhol é: “Mi poeta favorito es Ruperto Miralles“.

    Sala de audiências do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. / Foto: D.R.

    O gesto da editora (que, na verdade, comercializa a versão portuguesa adaptada por Mauro Paulino, da empresa Talking About, contratada pelo CEJ), além de intimidatório, é revelador da opacidade com que certos instrumentos “científicos” são tratados. Como se compreende, o PÁGINA UM não está a divulgar segredos industriais ou a violar a privacidade de alguém, mas a discutir a adequabilidade de um teste aplicado em concursos públicos — e, portanto, sujeito ao escrutínio público.

    Por essa razão, decidimos publicar a totalidade das 344 afirmações do PAI, destacando a negrito aquelas que considerámos mais relevantes ou questionáveis. A selecção não foi fácil, tal a profusão de curiosidades insólitas e intrusivas que, com frequência, se imiscuem mesmo nos recantos da vida íntima dos candidatos — expondo-os perante os psicólogos — e, em certos casos, descem mesmo a pormenores de natureza escatológica (no sentido literal do termo).

    Note-se que os candidatos eram ‘convidados’ a assinarem um “consentimento informado” antes do preenchimento do inquérito, mas, na prática, jamais poderiam recusar: sem o preenchimento do inquérito seriam automaticamente desclassificados.

    Mauro Paulino, gerente e psicólogo principal da Talking About, contratada pelo Centro de Estudos Judiciários, para elaborar os inquéritos aos candidatos.

    A decisão de publicar na íntegra as 344 afirmações do questionário do PAI, apesar do aviso da editora de capital alemão, é sustentada por um princípio que deveria ser elementar numa democracia: o interesse público. Quando um instrumento de avaliação é usado para excluir ou condicionar o acesso a carreiras públicas — como a de juiz ou magistrado do Ministério Público —, a sociedade tem o direito de conhecer a sua natureza, os seus pressupostos e as suas implicações.

    A liberdade de imprensa não é um luxo: é o antídoto contra a arbitrariedade. E a transparência é a única garantia de que a psicologia não se transforma numa nova forma de censura científica, onde o cidadão é reduzido a um código estatístico. O PÁGINA UM não se move por curiosidade mórbida, mas por convicção democrática: quem aspira a julgar os outros não pode ser julgado por um algoritmo. E quem acredita na razão não deve temer a transparência. Destaque-se ainda que a empresa Talking About e o CEJ mantêm silêncio quanto às questões formuladas pelo PÁGINA UM na passada semana.

    INQUÉRITO DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA APLICADA PELA EMPRESA TALKING ABOUT AOS CANDIDATOS AO CURSO DO CENTRO DE ESTUDOS JUDICIÁRIOS

    (a negrito estão as afirmações – às quais se deveria responder com uma de quatro opções (“falsa”, “ligeiramente verdadeira”, “bastante verdadeira” ou “completamente verdadeira”) – que o PÁGINA UM considera mais insólitas no contexto em causa)

    1 — Os meus amigos estão disponíveis quando preciso deles.

    2 — Tenho alguns conflitos internos que me causam problemas.

    3 — A minha saúde tem limitado algumas das minhas atividades.

    4 — Em algumas ocasiões, sinto tanta tensão que custa-me muito suportá-la.

    5 — Às vezes, preciso de fazer as coisas de uma certa forma para não ficar nervoso.

    6 — Estou triste, grande parte do tempo, sem que haja uma razão.

    7 — Frequentemente, penso e falo tão rápido que os outros não me conseguem acompanhar.

    8 — A maior parte das pessoas que conheço são dignas de confiança.

    9 — De vez em quando, perco completamente a memória.

    10 — Tenho algumas ideias que os outros acham estranhas.

    11 — Estraguei intencionalmente os pertences de outras pessoas.

    12 — O meu estado de saúde é muito bom para a minha idade.

    13 — Sou uma pessoa muito sociável.

    14 — Tenho mudanças de humor repentinas.

    15 — Às vezes, sinto-me culpado pela quantidade de álcool que bebo.

    16 — Sinto-me confortável nas situações em que tenho que orientar ou coordenar outras pessoas.

    17 — Frequentemente, mudo a imagem e a ideia que tenho de mim.

    18 — Tenho um caráter bastante mau.

    19 — Tive alguns relacionamentos atribulados.

    20 — Em certas ocasiões, gostaria de estar morto.

    21 — As pessoas têm medo do meu feitio.

    22 — Às vezes, tomo drogas para me sentir melhor.

    23 — Experimentei quase todos os tipos de droga.

    24 — Às vezes, até as coisas pequenas preocupam-me demasiado.

    25 — Tenho dificuldades em concentrar-me por causa dos meus nervos.

    26 — Frequentemente, tenho medo de “meter a pata na poça” e dizer algo inconveniente.

    27 — Sinto que dececionei todo o mundo.

    28 — Tenho muitas ideias brilhantes.

    29 — Existem pessoas que me querem magoar.

    30 — Parece-me que não me relaciono bem com as pessoas.

    31 — Já pedi dinheiro emprestado sabendo que não podia pagar.

    32 — A maior parte do tempo, não me sinto bem.

    33 — Frequentemente, sinto-me inquieto.

    34 — Continuo a viver algo horrível que me aconteceu.

    35 — Quase não tenho energia.

    36 — Irrito-me quando as pessoas são demasiado lentas a perceber as minhas ideias.

    37 — Geralmente, as pessoas tratam-me bastante bem.

    38 — Os meus pensamentos tornaram-se bastante confusos.

    39 — Dá-me prazer fazer coisas perigosas.

    40 — O meu poeta favorito é o Daniel Sampaio.

    41 — A maior parte das pessoas, no meu meio, estão disponíveis quando preciso.

    42 — Preciso de fazer algumas mudanças na minha vida.

    43 — Tive algumas doenças que os médicos não foram capazes de explicar.

    44 — O meu nervosismo impede-me de fazer algumas coisas bem.

    45 — Tenho certos impulsos que luto para controlar.

    46 — Esqueci-me o que é sentir-me feliz.

    47 — Assumo tantos compromissos que não sou capaz de os cumprir.

    48 — Devo estar alerta perante a possibilidade de algumas pessoas não serem leais.

    49 — Quase não tenho boas memórias da minha infância.

    50 — Às vezes, as outras pessoas metem ideias na minha cabeça.

    51 — Fiz coisas que não eram completamente legais.

    52 — Os meus problemas de saúde são muito complicados.

    53 — Faço novos amigos com facilidade.

    54 — Experimento estados de ânimo muito intensos.

    55 — Tenho alguma dificuldade em controlar a quantidade de álcool que bebo.

    56 — Geralmente, atuo como um líder de forma natural.

    57 — Às vezes, sinto uma sensação intensa de vazio interior.

    58 — Nunca tenho problemas por culpa do meu feitio.

    59 — Quero que algumas pessoas saibam que me causaram muito dano.

    60 — Já pensei em algumas formas de me suicidar.

    61 — Às vezes, expludo e perco o controlo sobre mim.

    62 — Algumas pessoas já me disseram que tenho problemas com as drogas.

    63 — O consumo de drogas provocou-me alguns problemas de saúde.

    64 — Não aceito bem as críticas.

    65 — Frequentemente, acho difícil divertir-me porque tudo me preocupa.

    66 — Tenho medos excessivamente grandes.

    67 — Às vezes, penso que não valho nada.

    68 — Tenho muitas qualidades interessantes que outras pessoas não têm.

    69 — Algumas pessoas fazem coisas para me deixar mal.

    70 — Tenho pouco que dizer a outras pessoas.

    71 — Aproveitar-me-ia dos outros se fosse fácil.

    72 — Tenho muitas dores.

    73 — Às vezes, preocupo-me tanto que parece que vou desmaiar.

    74 — Frequentemente, vêm à minha mente memórias do passado que me provocam mal-estar.

    75 — Adormeço com facilidade.

    76 — Não tenho paciência para as pessoas que me tentam controlar.

    77 — Creio que na minha vida tive tanta sorte como a maior parte das pessoas.

    78 — Às vezes, misturo os pensamentos uns com os outros.

    79 — Faço muitas coisas perigosas só pela emoção que me causam.

    80 — Às vezes, recebo por correio anúncios que não me interessam nada.

    81 — Quando tenho problemas, tenho pessoas com quem posso contar.

    82 — Tenho que mudar alguns aspetos, mesmo que me custe muito.

    83 — Certas partes do meu corpo ficaram sem sensibilidade, em algumas ocasiões, sem que eu saiba o porquê.

    84 — Algumas vezes, sinto medo sem que haja razões para isso.

    85 — Incomoda-me que as coisas não estejam no seu sítio.

    86 — Qualquer atividade exige-me um grande esforço.

    87 — Os meus amigos não são capazes de seguir todas as minhas atividades sociais.

    88 — Grande parte das pessoas tem boas intenções.

    89 — O meu destino é ser infeliz desde o dia que nasci.

    90 — Às vezes, parece que os meus pensamentos se produzem em voz alta e que os outros conseguem ouvi-los.

    91 — Já disse muitas mentiras para livrar-me de situações comprometedoras.

    92 — Custa-me muito fazer as coisas por causa dos meus problemas de saúde.

    93 — Gosto de conhecer pessoas novas.

    94 — Às vezes, meto-me em problemas porque ajo de forma muito impulsiva.

    95 — Algumas pessoas próximas acham que bebo demasiado.

    96 — Gosto dos trabalhos em que tenho que coordenar os outros.

    97 — Preocupo-me muito que as outras pessoas possam abandonar-me.

    98 — Quando estou a conduzir e me indigno com os outros condutores, faço para que deem conta disso.

    99 — Algumas pessoas muito próximas já me abandonaram.

    100 — Já fiz planos para matar-me.

    101 — Quando me enfureço, é muito difícil acalmar-me.

    102 — Já tive problemas económicos devido ao consumo de drogas.

    103 — Sou incapaz de controlar o meu consumo de drogas.

    104 — Às vezes, queixo-me demasiado.

    105 — Frequentemente, sinto grande preocupação e nervosismo que mal consigo suportar.

    106 — Quando tenho que fazer algo diante de outras pessoas, sinto-me muito nervoso.

    107 — Sinto-me sem forças para continuar.

    108 — Tenho planos de me converter, algum dia, numa pessoa famosa.

    109 — As pessoas que me rodeiam são leais comigo.

    110 — Sou uma pessoa solitária.

    111 — Fazia qualquer coisa se me pagassem o suficiente.

    112 — Tenho boa saúde.

    113 — Às vezes, sinto tonturas quando estive debaixo de uma forte pressão.

    114 — A recordação de uma má experiência afetou-me durante muito tempo.

    115 — É raro ter dificuldades para adormecer.

    116 — Às vezes, irrito-me porque as outras pessoas não compreendem os meus planos.

    117 — Tenho dado muito, mas é pouco o que tenho recebido em troca.

    118 — Algumas vezes, custa-me separar uns pensamentos dos outros.

    119 — Às vezes, comporto-me de forma desenfreada e insensata.

    120 — O desporto que mais gosto de ver pela televisão é salto em altura.

    121 — As pessoas que conheço preocupam-se comigo.

    122 — Necessito de ajuda para enfrentar os problemas importantes.

    123 — Em algumas ocasiões, as minhas pernas estavam tão fracas que não podia caminhar.

    124 — Frequentemente, tenho a sensação que está prestes a acontecer algo horrível.

    125 — Sou capaz de descansar ainda que a minha casa esteja desarrumada.

    126 — Parece que nada me proporciona prazer.

    127 — Em certas ocasiões, os meus pensamentos movem-se a uma velocidade excessiva.

    128 — Geralmente, as pessoas ocultam as suas verdadeiras intenções.

    129 — Tenho problemas psicológicos graves que começaram de forma repentina.

    130 — Existem pessoas que tentam controlar os meus pensamentos.

    131 — Nunca tive problemas com a lei.

    132 — Parece que os meus problemas de saúde são sempre difíceis de tratar.

    133 — Sou uma pessoa acolhedora.

    134 — Às vezes, não consigo conter a minha raiva.

    135 — O meu hábito de beber trouxe-me alguns problemas nas relações com os outros.

    136 — Custa-me muito defender-me sem ajuda.

    137 — Frequentemente, pergunto-me o que deveria fazer com a minha vida.

    138 — Seria capaz de gritar com os outros de forma a que fiquem claros os meus argumentos.

    139 — Quando estou zangado, tendo a fazer coisas que me magoam.

    140 — Nos últimos tempos, tenho pensado no suicídio.

    141 — Às vezes, parto coisas quando estou muito zangado.

    142 — Nunca consumo drogas ilegais.

    143 — Prejudica-me o meu comportamento excessivamente impulsivo.

    144 — Às vezes, sou demasiado impaciente.

    145 — Os meus amigos dizem-me que preocupo-me demasiado.

    146 — Raramente, sinto medo.

    147 — Por mais que tente, nada me sai bem.

    148 — Creio que tenho as respostas a algumas perguntas importantes.

    149 — Algumas pessoas procuram impedir-me de evoluir.

    150 — Há poucas pessoas de quem me sinto próximo.

    151 — Penso em mim antes de tudo e deixo que os outros cuidem de si próprios.

    152 — São raras as vezes que me queixo do meu estado de saúde.

    153 — Às vezes, custa-me respirar quando estou submetido a muita tensão.

    154 — Parece que não me posso livrar de certos acontecimentos do passado.

    155 — Tenho-me movido com mais lentidão do que o normal.

    156 — Tenho planos importantes e incomoda-me muito que outras pessoas tentem meter-se no meio.

    157 — Muitas pessoas não são capazes de apreciar o que fiz por elas.

    158 — Às vezes, parece que alguém está a bloquear os meus pensamentos.

    159 — Tenho prazer em conduzir muito depressa.

    160 — Grande parte das pessoas deseja ir ao dentista.

    161 — As pessoas não compreendem o quanto eu sofro.

    162 — Tenho muitos problemas económicos.

    163 — Recentemente, têm acontecido muitas mudanças na minha vida.

    164 — Na minha casa existe pouca estabilidade.

    165 — As coisas não vão bem com a minha família.

    166 — Perdi interesse em coisas que antes gostava.

    167 — Ultimamente, tenho tido mais energias que o normal.

    168 — Geralmente, presumo que as pessoas dizem a verdade.

    169 — Sinto-me sozinho, na maior parte do tempo.

    170 — Oiço vozes que mais ninguém consegue ouvir.

    171 — Gosto fazer coisas só para provar se consigo sair delas impune.

    172 — Tenho tido unicamente problemas de saúde que a maioria das pessoas tem.

    173 — Necessito de tempo para sentir-me confiante com pessoas que não conheço.

    174 — Sempre fui uma pessoa bastante feliz.

    175 — A bebida ajuda-me a suportar certas situações sociais.

    176 — Sou o tipo de pessoa que toma conta das coisas.

    177 — Não posso suportar separar-me das pessoas que são muito próximas de mim.

    178 — Nunca perco o controlo quando estou demasiado furioso.

    179 — Cometi alguns erros graves em relacionamentos com pessoas que escolhi como amigas.

    180 — Durante muito tempo, pensei em suicídio.

    181 — Ameacei magoar outras pessoas.

    182 — Utilizei medicamentos para me animar.

    183 — Normalmente, tenho poucas mudanças de humor.

    184 — Às vezes, tento evitar as pessoas de quem não gosto.

    185 — A minha preocupação com as coisas é geralmente igual à da maioria das pessoas.

    186 — Não me assusta conduzir em autoestradas.

    187 — Acho que me custa muito concentrar-me.

    188 — Tive alguns êxitos notáveis.

    189 — Algumas pessoas mudam os seus planos para me incomodar.

    190 — Desfruto a companhia de outras pessoas.

    191 — Não gosto de sentir-me ligado a outra pessoa.

    192 — Tenho problemas de costas.

    193 — Sou capaz de relaxar com facilidade.

    194 — Tive algumas experiências terríveis que fazem com que me sinta culpado.

    195 — Com frequência, acordo cedo pela manhã e não sou capaz de voltar a dormir.

    196 — Posso ser muito exigente quando quero que as coisas se façam rapidamente.

    197 — Geralmente, reconhecem o que eu faço.

    198 — A minha mente tende a saltar rapidamente de umas coisas para outras.

    199 — A ideia de uma vida tranquila e ordenada nunca me interessou.

    200 — Os meus passatempos favoritos são o tiro com arco e coleção de selos (filatelia).

    201 — Gosto de estar com a minha família.

    202 — Gosto de ser como sou.

    203 — Em certas ocasiões, perdi a sensibilidade nas mãos.

    204 — São raras as vezes que sinto tensão ou ansiedade.

    205 — Normalmente, dou conta de quando algo tem muitos germes.

    206 — Não tenho interesse pela vida.

    207 — Tenho a sensação de que necessito estar em constante atividade, sem descansar.

    208 — As pessoas pensam que sou demasiado suspeito.

    209 — Às vezes, não me recordo de quem sou.

    210 — Outras pessoas podem ler os meus pensamentos.

    211 — Nunca me expulsaram da escola durante a minha infância, nem mesmo temporariamente.

    212 — Já tive doenças ou incómodos bastante raros.

    213 — É preciso tempo para as pessoas chegarem a conhecer-me.

    214 — Em algumas ocasiões enfureci-me de tal forma que era incapaz de manifestar toda a ira que sentia.

    215 — Em algumas ocasiões tive que deixar a bebida.

    216 — Prefiro que sejam os outros a tomar as decisões.

    217 — Normalmente, não me aborreço.

    218 — Sempre que posso, evito as discussões.

    219 — Quando tenho um amigo ou amiga, é para muito tempo.

    220 — A morte seria um alívio.

    221 — Os outros pensam que sou uma pessoa agressiva.

    222 — Nunca consumo drogas para ajudar-me a enfrentar o mundo.

    223 — Raras vezes, sinto-me uma pessoa solitária.

    224 — Às vezes, deixo as coisas para o último momento.

    225 — Geralmente, preocupo-me pelas coisas mais do que devia.

    226 — Não me assustam as alturas.

    227 — Creio que no futuro vão-me acontecer coisas favoráveis.

    228 — Creio que podia ser um bom comediante.

    229 — É muito raro que as pessoas me tratem mal de propósito.

    230 — Sempre que posso, gosto de estar com outras pessoas.

    231 — Não gosto de manter um relacionamento durante muito tempo.

    232 — Tenho problemas de estômago.

    233 — Às vezes, noto que o meu coração bate muito forte.

    234 — Continuo a ter pesadelos sobre o passado.

    235 — Tenho um bom apetite.

    236 — Incomoda-me muito se uma pessoa trata de impedir que cumpra os meus objetivos.

    237 — As pessoas que têm tido êxito, geralmente merecem-no.

    238 — Às vezes, parece que me roubaram os pensamentos.

    239 — Quando me canso de um sítio, vou para outro imediatamente.

    240 — Não gosto de comprar coisas que me parecem excessivamente caras.

    241 — Na minha família, discutimos mais do que falamos.

    242 — Muitos dos meus problemas são consequências da minha atitude.

    243 — Já tive experiências de visão dupla e visão turva.

    244 — Sobressalto-me com facilidade.

    245 — Os outros consideram que dou muita atenção aos detalhes.

    246 — Nos últimos tempos, sinto-me geralmente feliz.

    247 — Ultimamente, tenho menos necessidade de dormir que o habitual.

    248 — Geralmente, as coisas não são o que aparentam à primeira vista.

    249 — Às vezes, vejo apenas em preto e branco.

    250 — Tenho um sexto sentido que me avisa das coisas que vão acontecer.

    251 — Geralmente, portava-me bem quando ia para a escola.

    252 — Já fui, muitas vezes, ao médico.

    253 — Tento acolher as pessoas que parecem estar sós.

    254 — Às vezes, bebo um copo de bebida alcoólica quando acordo.

    255 — A bebida causou-me alguns problemas em casa.

    256 — Digo sempre o que penso.

    257 — Geralmente, faço o que as pessoas me pedem.

    258 — Às vezes, posso ser uma pessoa violenta.

    259 — É muito difícil ficar irritado.

    260 — Tenho estado a pensar no que podia dizer numa carta de suicídio.

    261 — Não tenho motivos para continuar a viver.

    262 — Nunca tive problemas no trabalho por causa das drogas.

    263 — Gasto dinheiro com demasiada facilidade.

    264 — Às vezes, faço promessas que não posso cumprir.

    265 — Às vezes, fico tão nervoso que parece que vou morrer.

    266 — Evito andar de avião.

    267 — Posso contribuir com coisas importantes.

    268 — Ultimamente, confio tanto em mim que acredito conseguir o que me proponho.

    269 — As pessoas implicam comigo.

    270 — Faço amigos com facilidade.

    271 — Tenho sempre algo a dizer ou a opinar sobre qualquer coisa.

    272 — Dói-me a cabeça com mais frequência que as outras pessoas.

    273 — Frequentemente, fico com as mãos suadas.

    274 — Tive uma experiência muito má que me fez perder o interesse por algumas coisas que antes desfrutava.

    275 — Frequentemente, acordo a meio da noite.

    276 — Às vezes, estou muito desconfiado e aborreço-me facilmente.

    277 — Não sou uma pessoa que costuma guardar rancor.

    278 — Os pensamentos desaparecem rapidamente da minha cabeça.

    279 — Nunca corro riscos se os puder evitar.

    280 — Grande parte das pessoas prefere ganhar do que perder.

    281 — Passo pouco tempo com a minha família.

    282 — Sou capaz de resolver sozinho os meus problemas.

    283 — Algumas partes do meu corpo ficaram paralisadas em alguma ocasião.

    284 — Não sou das pessoas que se assustam facilmente.

    285 — Controlo-me de uma forma muito rigorosa.

    286 — Quase sempre, sou uma pessoa alegre e positiva.

    287 — Quase nunca compro coisas por um impulso repentino.

    288 — As pessoas têm que ganhar a minha confiança.

    289 — Tenho visões onde me vejo obrigado a cometer certos crimes.

    290 — Não creio que existam pessoas capazes de ler mentes.

    291 — Nunca roubei dinheiro ou objetos de outras pessoas.

    292 — Gosto de falar com outras pessoas sobre os seus problemas de saúde.

    293 — Sou uma pessoa afetuosa.

    294 — Se bebo, nunca conduzo.

    295 — Quase nunca bebo álcool.

    296 — As pessoas costumam pedir-me opinião.

    297 — Se me atendem mal num estabelecimento, reclamo ao responsável.

    298 — Repreendo as pessoas se o merecem.

    299 — Procuro evitar levantar a voz.

    300 — Já me perguntei como é que as pessoas reagiriam se eu me suicidasse.

    301 — Tenho muitos motivos para viver.

    302 — Partilho o consumo de drogas com os meus melhores amigos.

    303 — Sou uma pessoa imprudente.

    304 — Às vezes, podia ter agido de uma forma mais refletida do que aquela que o fiz.

    305 — Não me preocupo com as coisas que escapam ao meu controlo.

    306 — Não me preocupa andar de autocarro ou comboio.

    307 — Tenho bastante êxito com os meus projetos.

    308 — Sou incapaz de me ver como uma pessoa famosa.

    309 — Sou alvo de uma conspiração.

    310 — Mantenho contato com os meus amigos e amigas.

    311 — Quando faço uma promessa, não sinto a necessidade de a cumprir.

    312 — Tenho diarreia com frequência.

    313 — Tenho o pulso firme.

    314 — Evito certas coisas que trazem más recordações.

    315 — Tenho pouco interesse por sexo.

    316 — Sou pouco paciente com as pessoas que não estão de acordo com os meus planos.

    317 — A longo prazo, uma pessoa vê-se recompensada se ajudar alguém.

    318 — Sou capaz de me concentrar tão bem como nos meus melhores tempos.

    319 — Não sou uma pessoa que se assusta com os desafios.

    320 — No meu tempo livre, costumo ler, ver televisão ou simplesmente descansar.

    321 — Gostaria de entender o porquê de agir da forma que o faço.

    322 — A minha vida é completamente imprevisível.

    323 — Em algumas ocasiões, a minha visão piorou e depois voltou a melhorar.

    324 — Sou uma pessoa muito tranquila e relaxada.

    325 — As pessoas dizem que sou perfecionista.

    326 — Satisfaz-me plenamente a minha situação laboral.

    327 — Preocupa-me não ter bastante dinheiro para ir em frente.

    328 — A minha relação conjugal não vai bem.

    329 — Creio que dentro de mim há três ou quatro personalidades completamente diferentes.

    330 — Sou uma pessoa bastante compreensiva.

    331 — É importante, para mim, ter relacionamentos pessoais íntimos.

    332 — Tenho pouca paciência com as pessoas.

    333 — Tenho mais amigos do que a maior parte das pessoas que conheço.

    334 — Nunca tive problemas por ter bebido.

    335 — Tive alguns problemas no trabalho por causa da bebida.

    336 — Costumo tentar que os outros não se apercebam quando discordo deles.

    337 — Sou uma pessoa muito independente.

    338 — As pessoas ficariam surpreendidas se me vissem a gritar com alguém.

    339 — Desde que sou uma pessoa adulta, nunca comecei uma luta.

    340 — Estou a pensar na possibilidade de me suicidar.

    341 — As coisas nunca me correram tão mal ao ponto de pensar em suicídio.

    342 — O consumo de drogas nunca me causou problemas com a família ou os amigos.

    343 — Tenho muito cuidado com a forma como gasto o dinheiro.

    344 — Quase nunca estou de mau humor.

  • Gente rasca

    Gente rasca


    A sentença do Tribunal Administrativo de Lisboa que condenou quatro dirigentes da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) a uma sanção pecuniária compulsória de 70 euros por dia, no caso de não cumprirem uma intimação colocada pelo PÁGINA UM há 40 meses — para aceder a uma base de dados dos internamentos hospitalares — pode dar a aparência de encerrar um longo processo judicial.

    Mas seria ingénuo pensar que tudo termina aqui. Há muito mais para dizer — e, sobretudo, muito para aprender — sobre este caso (não único) que expõe, de forma cristalina e vergonhosa, a podridão burocrática e moral de certos sectores da Administração Pública portuguesa.

    Carlos Galamba, Sandra Brás, Paula Oliveira e André Trindade: por cada dia sem cumprir a sentença, dirigentes da ACSS vão ficar sem 70 euros.

    Aquilo que o juiz Miguel Crespo julgou — e devo destacar-lhe o brio, tal como a semana passada critiquei a atitude da sua colega Telma Nogueira (os magistrados são criticáveis, de forma positiva ou negativa — não foi apenas o incumprimento de uma sentença: foi o confronto entre o dever de transparência e o vício da opacidade.

    Desde Julho de 2022 que o PÁGINA UM lutava para obter a base de dados dos internamentos hospitalares — os chamados Grupos de Diagnóstico Homogéneos (GDH) — que o então presidente da ACSS, Victor Herdeiro, sob a tutela da ministra Marta Temido, não quis dar, mesmo se a legislação previa a disponibilização dessa informação devidamente anonimizada.

    Essa base de dados mostra-se essencial para que qualquer investigador ou jornalista possa avaliar a incidência de doenças, o desempenho dos hospitais, as desigualdades regionais e até a eficácia das políticas públicas de saúde. Em suma, é um instrumento de escrutínio democrático.

    Victor Herdeiro: saiu incólume do mais abjecto obscurantismo, tendo perdido em três instâncias, mas nem assim quis cumprir a sentença até sair da ACSS em 2024, porque mudou o Governo e o cargo lhe caíra por ser amigo de longa data da ex-ministra Marta Temido.

    Mas o Estado português — esse que se auto-intitula “de Direito” — decidiu comportar-se como um delinquente reincidente. Durante o processo os tribunais administrativos, mentiu, ocultou, distorceu, manipulou e fez tudo para não cumprir a lei. Primeiro, sob a tutela de Marta Temido. Depois, com Manuel Pizarro. E agora, já com Ana Paula Martins. E mesmo saindo Victor Herdeiro — um lacaio servil e cobarde (nunca deu a cara) dos Governos socialistas e da sua política de saúde —, a atitude do conselho directivo da ACSS não mudou com a entrada de Artur Trindade, homem vindo dos sombrios gabinetes políticos. Ou seja, não está parta servir o país, mas sim o partido (PSD, neste caso) que lhe vai dando de comer com cargos públicos.

    E esta ‘gente’ serve o seu amo. E assim, o padrão de Trindade foi similar ao do Herdeiro: esconder o que é público, desrespeitar decisões judiciais transitadas em julgado e, quando tudo falha, recorreu à estratégia mais rasteira de todas — fingir que o carteiro nunca tocou à porta da ACSS.

    É difícil descrever a extensão do absurdo. Após três derrotas judiciais — no Tribunal Administrativo de Lisboa, no Tribunal Central Administrativo do Sul e no Supremo Tribunal Administrativo, esta em 2023 —, a ACSS ainda continuou por mais dois anos a não querer cumprir uma sentença, tentando depois ludibriar a Justiça, oferecendo versões mutiladas da base de dados, amputadas de variáveis fundamentais e desprovidas de valor científico. Chegaram, ainda no tempo de Victor Herdeiro, a propor-me “negociações” indecentes, como se a transparência fosse uma mercadoria passível de ser trocada por conveniência.

    Ao centro, Ana Paula Martins, ministra da Saúde; na ponta direita, André Trindade, actual presidente da ACSS; e na ponta esquerda, Victor Herdeiro, ex-presidente da ACSS, que durante mais de dois anos lutou para esconder e manipular uma base de dados,. Foto: ACSS.

    Queriam que o PÁGINA UM aceitasse pedaços de informação, numa tentativa infantil de me fazer desistir, talvez acreditando que eu preferiria uma vitória a meias (uma parte da informação) a uma verdade inteira (toda a informação).

    Não vacilei. Nem eu, nem o advogado do PÁGINA UM, Rui Amores. Sabíamos que, por trás desta resistência absurda, não estava apenas o receio de divulgar dados: estava a arrogância de um poder administrativo, feita de lacaios, habituados à impunidade, convencidos de que podem enganar a Justiça e intimidar quem o enfrenta. E tínhamos razão.

    A sentença agora proferida pelo juiz Miguel Crespo — impondo uma multa diária a cada um dos dirigentes até cumprirem a ordem judicial — é, pois, mais do que um acto de Justiça. É um acto moral.

    E digo moral porque tacitamente concede-me o direito de chamar esta gente pelo nome que merece: RASCA.

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    Rasca a atitude de quem mente perante um tribunal. Rasca a cobardia de quem foge de notificações oficiais. Rasca a hipocrisia de quem fala em transparência e age como se fosse dono da informação e temesse pela vida que esta fosse pública. Rasca a cultura que se enraizou na administração portuguesa, onde o poder é um escudo e o dever uma inconveniência.

    Infelizmente, será um erro ver neste episódio um caso isolado. Aquilo que aconteceu com a ACSS é o sintoma de uma doença profunda: a transformação do Estado português num aparelho que protege os seus próprios vícios e despreza os cidadãos. Quando um jornal precisa de gastar 40 meses, atravessar três ministros e vencer três instâncias judiciais para obter dados públicos, algo está estruturalmente errado. O problema nem é a falta de leis — é a falta de vergonha.

    Durante décadas, a Administração Pública tem sido ocupada por carreiristas, por gestores de confiança política e por técnicos sem espírito de serviço, mas com muita arte para adiar, disfarçar e escapar. Estes casos mostram que a degradação não é apenas funcional, é moral. Aqueles que exigem cumprimento fiscal, legalidade e pontualidade aos cidadãos, acham-se no direito de contornar sentenças judiciais, de brincar com a Justiça e de se esconder atrás do expediente.

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    O caso da ACSS é, por isso, um espelho daquilo em que o Estado português se tornou: uma estrutura pesada, hipócrita, onde a desobediência à lei é tolerada se vier de dentro. E o mais revoltante é que tudo isto se passa em torno de algo tão simples como uma base de dados que deveria estar publicamente acessível. Uma base que permitiria conhecer melhor a realidade sanitária do país, identificar desigualdades, avaliar desempenhos hospitalares, detectar erros e melhorar políticas. Uma base que o Estado, ironicamente, deveria ter orgulho em divulgar para se melhorar — mas que prefere esconder, manipular e distorcer.

    Ao fim de quase quarenta meses, esta sentença é mais do que uma vitória do PÁGINA UM. É uma denúncia viva de como a máquina pública se transformou num labirinto de má-fé. E é também uma lição amarga: em Portugal, ainda é preciso lutar como um insurgente para exercer um direito básico. Luta-se para que a Justiça, mesmo que tarde, chegue e meta gente rasca na ordem. Mas isso quase nunca purifica — apenas recorda o quanto o Estado se sujou pelo caminho…

  • O mau vinho do David Marçal, os maus fígados do Público e a má vontade contra o PÁGINA UM

    O mau vinho do David Marçal, os maus fígados do Público e a má vontade contra o PÁGINA UM


    Há quem confunda ciência com religião, e divulgação científica com catequese. David Marçal, com crónica residente do Público, é um desses casos paradigmáticos — um personagem que, nos últimos anos, foi entronizado por certa comunicação social como uma espécie de sumo-sacerdote da “boa ciência”. Não se sabe bem por que méritos — talvez por ubiquidade mediática, talvez por conveniência ideológica —, mas o estatuto de “voz da razão” que lhe atribuíram sempre me pareceu suspeito. E digo “suspeito” porque a ciência, quando é ciência, é essencialmente dinâmica, provisória e contestável. Aquilo que é dogmático não é ciência: é fé travestida de método.

    Assisti de perto a essa ascensão mediática de David Marçal, sobretudo durante a pandemia. O seu discurso moralizador sobre a desinformação — que confundia divergência com heresia — encontrou paralelo apenas no seu próprio dogmatismo e na sua ânsia persecutória contra qualquer visão que não seguisse o catecismo sanitário dominante.

    woman in black spaghetti strap top holding green glass bottle

    Foi ele um dos zeladores do pensamento único, caricaturando posições racionais e prudentes sobre o impacto social e económico da pandemia, como se só houvesse uma forma legítima de pensar em tempos de crise de saúde pública. Esqueceu-se de que uma crise de saúde pública — ao contrário de uma emergência sanitária — exige complexidade, ponderação e, acima de tudo, debate que não se restringe à ciência do momento.

    Não foi por acaso que, ao longo deste ano, voltei a cruzar-me com o “paradigma Marçal”. Em Março, escrevi O pedantismo cientifista de David Marçal, sacerdote da Verdade Absoluta, onde mostrei como a sua análise sobre o sarampo nos Estados Unidos era um exercício de viés ideológico: apontava o dedo ao “negacionismo” americano, ignorando olimpicamente que surtos mais graves ocorriam na Europa — em países como a Roménia, a França, a Itália ou a Holanda. Era a velha arte de escolher os factos que servem a tese e de omitir os que a desmentem.

    Meses depois, em Julho, publiquei O dogmatismo ‘científico’ e a desinformação: o paradigma David Marçal, porque, numa nova crónica no Público, ele voltou a exibir a mesma rigidez moral: denunciava as falhas do cidadão comum, mas calava os erros das instituições científicas, dos especialistas mediáticos e dos organismos internacionais — como se estes fossem infalíveis. Essa omissão não é inocente: é uma forma subtil de manipulação. A meia-verdade, como se sabe, é sempre mais perigosa do que a mentira.

    David Marçal

    Mas o clímax desta história chegou há duas semanas. Depois de publicar, no Público, uma crónica intitulada Beber vinho é dar cancro a muitos portugueses — um texto que é um monumento de sensacionalismo sob a capa de cientificidade —, decidi analisá-lo linha por linha, desmontando os exageros, as simplificações e a retórica alarmista. O resultado foi o meu artigo Não andar a beber vinho (provavelmente) transformou o David Marçal num mau divulgador de ciência, publicado no PÁGINA UM no passado dia 19. A minha crítica, sustentada com referências científicas, teve mais de 50 mil leituras, segundo o Google Analytics. Para que o confronto de ideias fosse leal – ou seja, os leitores do PÁGINA UM conhecessem o texto visado –, não apenas coloquei a ligação para o site do Público como, por ser artigo pago, disponibilizei o texto integral em pdf.

    Além de leal, o meu procedimento foi perfeitamente legítimo e encontra amparo directo no artigo 75.º, n.º 2, alínea c) e h) do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, lei portuguesa que regula a protecção das obras intelectuais, a qual admite expressamente a seleção regular de artigos de imprensa periódica, que não tenha por objectivo a obtenção de vantagem económica ou comercial, directa ou indirecta, ou ainda de trechos para serem usados “com fins de crítica, discussão ou ensino, e na medida justificada pelo objectivo a atingir”.

    A transcrição integral pareceu-me, portanto, justificada e necessária – e mesmo adequada para protecção das posições de David Marçal. Se transcrevesse apenas trechos, colocar-se-ia em dúvida se eu não teria apagado alguns por conveniência. Seria impossível discutir com rigor o conteúdo sem o reproduzir na íntegra. A crítica, para ser honesta, precisa de todo o contexto — e o contexto, neste caso, era o texto completo. Os visados deveriam ser os primeiros a reconhecer tal propósito.

    Além disso, não houve qualquer exploração comercial — directa ou indirecta. O PÁGINA UM é, como se sabe, de acesso livre, não tem publicidade, nem paywall, nem assinaturas. Incluir o texto do David Marçal não gerou qualquer vantagem económica e aquilo que sempre esteve em causa foi o exercício da liberdade de imprensa e de crítica, garantido pelos artigos 37.º e 38.º da Constituição da República Portuguesa.

    Presumo que isto tenha incomodado — e muito — o Público e o Dr. Marçal.

    Aquilo que para mim era um confronto legítimo de ideias, um exercício de crítica jornalística com base em factos, passou, para o Público (e presumo para o próprio Marçal), a ser tratado como uma “usurpação de direitos de autor”. E nem sequer se deram ao trabalho de pedir esclarecimento, mandaram logo uma ‘bazuca’: recorreram à Visapress — uma cooperativa de defesa de direitos autorais cujo conselho de administração inclui, curiosamente, uma administradora do próprio Público.

    Alegaram que a reprodução integral do texto de Marçal violava direitos de autor – e pacientemente expliquei o meu entendimento e, depois da troca de diversas longas mensagens, pedi que me fornecessem os documentos que transmitiam os direitos de autor de David Marçal ao Público no pressuposto que este os tivesse transmitido. E colocava à consideração dirimir esta questão nas instâncias legais.

    Não respondeu a Visapress, mas agiu extrajucialmente por uma via soez. A Visapress não tem sequer uma qualquer validação da sua interpretação por parte da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, nem da Sociedade Portuguesa de Autores, nem da Inspecção-Geral das Actividades Culturais, que é quem detém competência de fiscalização nesta matéria.

    body anatomy mannequins on table

    Não tem, mas o Público, através da Visapress, tem outros mecanismos mais capciosos, e assim identificou e contactou a empresa (estrangeira) que aloja o site do PÁGINA UM, que, de forma cega e burocrática, ameaça agora suspender o PÁGINA UM se não for retirado o texto — como se estivéssemos num regime de censura preventiva.

    Independentemente da resposta jurídica que já fizemos chegar à empresa que aloja o PÁGINA UM, aquilo que mais se lamenta neste episódio é o sinal de intolerância. O Público, e provavelmente o próprio David Marçal, parecem incapazes de lidar com o escrutínio. Confundem crítica com ofensa, confronto de ideias com afronta pessoal. E usa uma questão de lana caprina – que deve ser esclarecida no local próprio, sem ameaças de suspensão de serviços do site do PÁGINA UM – para silenciar um jornal incómodo.

    ‘Ameaça’ da empresa de web hosting de suspender os serviços do PÁGINA UM após a queixa da Visapress.

    A ironia maior é que o Público — esse mesmo que diz defender o “debate público informado” — reaja como uma instituição clerical ferida no dogma. A mesma direcção editorial que, poucos dias antes, sentiu necessidade de apor uma nota final à crónica de Marçal — provavelmente para acalmar os patrocinadores da sua secção de vinhos, Terroir —, não hesita usar uma cooperativa a que preside e a recorrer a meios extrajudiciais e moralmente questionáveis para tentar silenciar um contraditório legítimo.

    Por mim, continuarei a escrever — com liberdade, com documentos e com argumentos. Porque o jornalismo independente – mesmo quando exercido com a aparência de um ‘one man show’ (como depreciativamente escreveu há dias Bárbara Reis, ex-directora do Público Bárbara Reis, sobre o PÁGINA UM) – não existe para confortar os dogmas, mas para os testar até ao limite. E para denunciar deslealdades.

    N.D. Independentemente da resposta da empresa de alojamento do PÁGINA UM, ponderamos mudar o servidor para outra empresa, mesmo com custos mais elevados, porque inaceitável que uma empresa desta natureza, sem sequer auscultar previamente um jornal, e aparentemente sem conhecer a legislação nacional, ameace suspender um serviço que afectaria toda a divulgação do jornal. Este exemplo mostra também como se podem exercer pressões extra-judiciais sobre um órgão de comunicação social independente.

  • Uma democracia que até na música desafina

    Uma democracia que até na música desafina


    Como os velhos rezingões ou as senhoras de missa diária que confundem rotina com virtude, aos 51 anos a democracia portuguesa julga-se amadurecida, mas está apenas apodrecida. Vive de pose e de liturgia, convencida da sua própria perfeição, enquanto o cheiro do bolor se entranha nos alicerces do Estado.

    Temos orientações, leis, regulamentos, decretos e portarias – e, vejam lá, até uma Constituição –, tudo redigido com a solenidade de quem acredita no mito da exemplaridade democrática. Fala-se de princípios de grande democraticidade, de transparência, de escrutínio e de direitos fundamentais. Mas, na prática, tudo se empata, tudo se obstaculiza, tudo se arrasta até ao esquecimento — ou até aos tribunais, que são, por cá, apenas uma forma de esquecimento judicializado.

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    A lentidão da Justiça é apenas uma parte do problema. A outra, mais grave, é a indiferença com que o próprio Estado — ou melhor, aqueles que vivem da máquina do Estado — desrespeitam as decisões dos tribunais. A cultura de impunidade está tão enraizada que as instituições públicas já não se sentem obrigadas a cumprir sentenças. É o “Estado de direito” a gozar consigo mesmo.

    No campo da comunicação social, o retrato não é mais animador. Relatórios internacionais repetem, ano após ano, que Portugal é um dos bastiões da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa. Tirando o facto de não se fazerem prender jornalistas, tudo o resto é balelas. Não há lápis azul porque seria demasiado vistoso. Hoje, são poucos os jornalistas que se podem dizer verdadeiramente livres. A autocensura tornou-se hábito, o silêncio é moeda corrente e a ginástica argumentativa para contornar temas incómodos já é parte do treino diário das redacções.

    Porém, aquilo que mais me impressiona é o desrespeito institucional pela figura do jornalista. Multiplicam-se os casos em que ministérios, autarquias e entidades públicas recusam prestar esclarecimentos, negar documentos ou simplesmente ignorar perguntas. Como se a função política, uma vez conquistada, se transformasse em propriedade privada, imune a qualquer forma de escrutínio.

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    E quando, como faz o PÁGINA UM, os casos chegam aos tribunais administrativos, o cenário não melhora. As instituições mentem, distorcem factos, recorrem a manobras dilatórias e, não raras vezes, incumprirem sentenças com total impunidade. Que o digam a Administração Central do Sistema de Saúde e o Infarmed, exemplos paradigmáticos de como o poder público se protege, contornando a lei e desprezando o dever democrático de transparência. E depois há também os juízes que, a pretexto do excesso de trabalho, empatam processos e aguardam que o tempo passe — e podem ser 34 meses — até serem transferidos, deixando a sua incompetência a salvo do escrutínio.

    Contudo, nos últimos meses deparei-me com outro campo, aparentemente inócuo, onde se expõe a mesma lógica de arbitrariedade: o mundo da música.

    Quando decidi introduzir no PÁGINA UM uma secção de crónicas musicais — note-se, crónicas e não crítica musical, porque os meus dotes não vão além de tocar campainhas —, encontrei um universo de convivências promíscuas e amiguismos que parecem ser regra na esfera cultural portuguesa: os produtores de espectáculos são amigos dos jornalistas, e vice-versa, esforçando-se por agradar mutuamente. Um espelho daquilo que sucede em outros sectores da sociedade, mas aqui feito sem sequer disfarçar. E, portanto, alguns produtores sentem-se livres, perante os órgãos de comunicação social, para concederem ofertas e obterem dividendos.

    gold bell on brown wooden table

    Clarifique-se um aspecto essencial sobre a relação entre os jornalistas e qualquer entidade pública e privada no acesso a eventos com público. O Estatuto do Jornalista, diploma aprovado pela Assembleia da República, confere direitos especiais — acima dos do cidadão comum — em matéria de acesso àquilo que se classifica como eventos públicos. Por princípio, tudo o que for público, no sentido de ser disponibilizado às pessoas, é acessível a um jornalista em funções, sem que sejam colocados obstáculos, incluindo os de natureza financeira. Ou seja, um jornalista não deve pagar para noticiar um evento, nem deve contribuir activamente para que um terceiro beneficie directamente daquilo que escreve.

    Nessa linha, as produtoras e promotoras de espectáculos musicais são obrigadas a conceder acreditação a jornalistas com fins informativos, salvo critérios objectivos de limitação de acesso, devidamente fundamentados. Essa obrigação decorre do mesmo princípio que impõe regras de segurança ou licenciamento — o de garantir o exercício livre da actividade jornalística.

    Iron Maiden: só após uma deliberação da ERC, sob a ameaça de dois crimes (contra a liberdade de imprensa e de desobediência) a produtora Prime Artist permitiu o acesso ao concerto em Julho passado, no Meo Arena.

    Pois bem: em cerca de uma dezena de pedidos de acreditação apresentados pelo PÁGINA UM, duas produtoras recusaram de forma ostensiva o acesso, invocando — directa ou subtilmente — o facto de o jornal não ter publicado notícias prévias sobre os respectivos espectáculos. Ou seja, o PÁGINA UM não servia de plataforma de promoção, logo não merecia entrar.

    Esta visão utilitária da imprensa é, em si mesma, um sintoma grave de degradação democrática. Os promotores culturais tratam os jornais como parceiros de marketing e os jornalistas como influenciadores ao serviço do negócio. E o mais preocupante é o silêncio cúmplice dos órgãos de comunicação social, que aceitam o jogo, beneficiam dele e o reproduzem.

    Por mim, recuso-me a compactuar. E, mais do que denunciar, jdecidi agir. Assim, pela segunda vez em cinco meses, depois de já o ter feito em Junho contra a Prime Artist, apresentei queixa contra a Free Musica na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), a quem cabe fiscalizar o cumprimento desta obrigação legal. Em ambos os casos, as deliberações (aqui, em Junho, e ontem, aqui) confirmaram o óbvio: as produtoras violaram o direito de acesso dos jornalistas e incorrem, se mantiverem a recusa, na prática de dois crimes — um contra a liberdade de imprensa e outro de desobediência.

    Haverá quem diga que tudo isto é uma tempestade num copo de água, que não se justifica tanto zelo por causa de um simples espectáculo musical, que bastaria comprar um bilhete e resolver o assunto. Mas enganam-se. Aquilo que está em causa não é o acesso gratuito a um concerto; é o respeito pelos direitos fundamentais que estruturam uma democracia. Uma sociedade que se habitua a aceitar pequenas arbitrariedades acaba, inevitavelmente, por normalizar as grandes.

    Leprous, uma banda norueguesa de metal progressivo, com concerto marcada para dia 2 em Lisboa e no dia seguinte no Porto: a promotora Free Music acha que pode recusar arbitrariamente o acesso a jornalistas.

    Além disso, o jornalismo nunca pode ser visto como entretenimento. Exerce uma função pública essencial à vitalidade democrática. E quando se começa a condicionar o trabalho de um jornalista — seja num ministério, numa câmara ou numa sala de concertos —, o que se está a corroer é a base do próprio Estado de direito.

    Portugal vive hoje uma democracia de fachada, cheia de normas e relatórios, mas incapaz de garantir o cumprimento das leis mais simples. Uma democracia desafinada, onde os solistas do poder tocam para si mesmos e quem ousa pedir partitura é expulso da orquestra.

  • De ‘This is not America’ até ‘Isto não é o Bangladesh’: deixem o Ventura ser grunho

    De ‘This is not America’ até ‘Isto não é o Bangladesh’: deixem o Ventura ser grunho


    Nos anos 80, enquanto a América de Reagan voltava a vestir-se de luzes patrióticas e a projectar sobre o mundo o esplendor da sua força moral, o camaleónico David Bowie compunha, em parceria com Pat Metheny, uma canção que soava como murmúrio de desencanto.

    This Is Not America — parte da banda sonora do filme The Falcon and the Snowman (1985) — não era um protesto ruidoso nem um manifesto político. Era antes um espelho embaciado onde se reflectia a dúvida: a América que o mundo venerava ainda correspondia ao seu ideal fundador? Bowie, britânico e distante, oferecia uma elegia discreta à inocência perdida, um cântico melancólico sobre um país que se olhava ao espelho e já não se reconhecia.

    Foto: DR

    O filme que inspirou a canção, baseado em factos verídicos, narrava a história de dois jovens norte-americanos — um deles, o “falcão”, outro, o “homem de neve” — que vendiam segredos à União Soviética.

    Era, portanto, um retrato do colapso moral dentro do próprio sistema, uma traição nascida não do ódio, mas da desilusão. Bowie captou esse clima de queda interior. “A little piece of you / the little peace in me / will die”, cantava ele, jogando com a homofonia entre piece e peace: uma parte de nós — e a nossa paz — morre quando o ideal se corrompe.

    A frase que dá título à canção, This is not America, repetida como um mantra, não é uma negação geográfica, mas simbólica. É o lamento de quem observa um país perder a pureza das suas promessas e o brilho da sua crença em si mesmo. “Blossom fails to bloom this season”, escreveu Bowie — a flor não floresce nesta estação — como se dissesse que o sonho americano secou antes de dar fruto. Não há raiva nem panfleto: há desalento, uma espécie de tristeza civilizacional diante do abismo que separa o que se proclama do que se pratica.

    Não se esperaria que o também camaleónico — mas num sentido puramente táctico — André Ventura tivesse a subtileza de Bowie para falar da decadência, neste caso, não da América, mas de Portugal.

    O líder do Chega parece confundir provocação com pensamento, barulho com ideia, cartaz com ideologia. Os seus outdoors — sobretudo “Isto não é o Bangladesh” e também “Os ciganos têm de cumprir a lei” — são o reverso moral de This Is Not America: onde Bowie dizia “isto não é” para lamentar uma perda de valores, Ventura usa o mesmo gesto linguístico para excluir, dividir e afirmar uma identidade pela negação, usando ainda por cima um país terceiro.

    O líder do Chega usa o patriotismo tosco de quem acredita que a pátria se constrói à custa de um inimigo simbólico, de um bode expiatório. E, todavia, numa democracia, a resposta a uma criatura assim não deve ser a tentação punitiva, mas o exercício sereno da liberdade — porque, se os tribunais se apressam em casos destes (quando tudo o resto é lento), apenas trocam a justiça pelo palco, e Ventura não podia pedir melhor iluminação.

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    A deliberação recente da Comissão Nacional de Eleições, que remeteu para o Ministério Público as queixas sobre os cartazes de Ventura, evidencia precisamente esse risco. A CNE admitiu que as mensagens fazem referência a grupos étnicos, mas declarou-se sem competência fora do período eleitoral. A Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) seguiu o mesmo caminho, enviando o caso para o Ministério Público. Ventura, como era previsível, reagiu recusando retirar os cartazes, invocando a liberdade de expressão e negando qualquer teor racista. Ou seja: conseguiu o que queria. A controvérsia não apaga a sua mensagem; amplifica-a.

    A estratégia do Chega é tão velha quanto eficaz: chocar, provocar indignação e, logo a seguir, vestir a pele de vítima da censura. Quanto mais se fala dele, mais ele cresce — não pelas ideias (porque não as tem), mas pela reacção que provoca. A comunicação social cai no truque como um gato atrás do reflexo de um laser: noticia o cartaz, depois a queixa, depois a resposta de Ventura, depois as reações à resposta, depois os comentários sobre as reacções. Um ciclo infinito de propaganda gratuita. Ventura não precisa de comprar espaço publicitário: basta-lhe ser escandaloso. E o escândalo é, hoje, a moeda mais estável da política.

    Por isso, a resposta certa a Ventura não é judicial — é política e, sobretudo, cultural e eleitoral. Não se combate o ruído com mais ruído, mas com indiferença activa: a que o deixa falar até que o eco se canse. A democracia não se defende punindo o disparate, mas mostrando que o disparate é livre, e que a liberdade é mais forte do que o insulto.

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    Por vezes, há quem critique o PÁGINA UM por não abordar tantas vezes (como talvez se esperaria) as diatribes do Chega e de André Ventura. Mas isso deve-se, sobretudo, ao facto de eles já ocuparem um tempo de antena desmesurado noutros órgãos de comunicação — ávidos por mostrar tudo o que fazem, por transmitir as reacções, e as reacções das reacções, num ciclo autoalimentado de promoção involuntária.

    Por mim, os cartazes de André Ventura sobre o Bangladesh e os ciganos deviam manter-se — mesmo que ele agora o quisesse retirar. Se ele quer ser grunho e mostrar que é grunho, então ninguém tem o direito, nem ele, de o fazer esquecer nas próximas eleições presidenciais. Porque, ao contrário de Bowie, Ventura não canta a decadência — é a decadência que se auto-proclama. E, às vezes, o melhor serviço à memória colectiva é deixar o retrato exposto, para que ninguém diga um dia, em tom de espanto: isto não era Portugal. Era — mas não vingou.

  • O PÁGINA UM está a recrutar

    O PÁGINA UM está a recrutar


    O PÁGINA UM — e os seus projectos jornalísticos complementares a lançar ainda este ano — está a reforçar a redacção em Lisboa e procura profissionais motivados, independentes e rigorosos, com paixão pelo jornalismo e sentido de missão pública.

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    As vagas abertas são:

    2 Estágios curriculares ou profissionais (para efeitos de inscrição na CCPJ) — bolsa de estágio e formação incluída;

    1 Jornalista Júnior, com contrato inicial a termo certo, em regime de tempo inteiro e presencial;

    1 Jornalista Sénior, com experiência comprovada e espírito crítico, igualmente em regime de tempo inteiro e presencial;

    1 Administrativo, com domínio das rotinas editoriais, tratamento documental e apoio à gestão.

    Todos os candidatos devem enviar:

    Curriculum vitae detalhado;

    Três trabalhos distintos (publicados na imprensa escrita ou, no caso dos estagiários, trabalhos académicos relevantes);

    Intervalo remuneratório pretendido.

    As candidaturas devem ser enviadas até 7 de Novembro de 2025 para o e-mail:
    📩 pavieira@paginaum.pt

    O PÁGINA UM privilegia a independência editorial, a investigação documental e a escrita rigorosa. Procuramos quem queira fazer jornalismo de verdade — sem concessões nem filtros.

  • Habitação e urbanismo: um mundo de ideologias e certezas fáceis

    Habitação e urbanismo: um mundo de ideologias e certezas fáceis


    Há um novo tipo de alquimia académica que prospera à sombra dos números e dos microfones: transformar correlações frouxas em verdades absolutas. A imprensa, ávida de narrativas morais e de culpados prontos a usar, trata-as como dogmas científicos. O caso mais recente vem do Público, que proclamou ontem, com ar de epifania sociológica, que “as regiões com maior aumento da construção são onde os preços das casas mais sobem”. A frase soa bem, dá manchete, indigna o leitor e conforta o preconceito. Mas é estatisticamente falsa, logicamente invertida e intelectualmente preguiçosa.

    Os investigadores citados — quase todos de um certo círculo universitário urbano-progressista, entre Lisboa e Porto, em áreas onde a Estatística é pouco assídua — erguem-se como sacerdotes do anti-mercado. Falam em “subsídios à especulação”, em “unidades imobiliárias como instrumentos económicos”, como se fosse uma descoberta de laboratório que o imobiliário é… um activo.

    several cranes above the buildings

    Estranha surpresa: o capital investe onde há rendimento. Não há conspiração global; há procura. Mas, para esta geração de cientistas sociais, tudo o que não cabe na cartilha da redistribuição coerciva é, por definição, perverso. E o Estado, que deveria ser o regulador do mercado, intervindo no planeamento e na construção de forma activa — porque tem capacidade de influenciar preços —, é “convidado” a interferir coercivamente na propriedade privada e em actividades económicas legítimas.

    O problema básico é que, sob o verniz da denúncia, não há método. Nenhum. O artigo que lhes dá palco confunde, de forma absurda, associação com causalidade, ignora variáveis elementares — juros, rendimentos, migração, turismo, custo dos materiais, crédito — e cita séries temporais sem qualquer controlo de contexto.

    Provavelmente isto assustará os leitores comuns, mas tem de ser, para desmontar falácias: pegando nos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) — que não foram, como deveriam ter sido, cruzados com outras variáveis e séries mais longas —, observa-se que a correlação entre aumento de construção e valorização de preços é moderada (r≈0,55). Ou seja, há correlação positiva, mas não causalidade. Quando se aplicam modelos simples de regressão linear aos dados (Y = β₀ + β₁X), o coeficiente β₁ estimado situa-se apenas em torno de 0,25 — isto é, um aumento de 100% na construção associa-se, em média, a apenas 25 pontos percentuais de subida de preços. E o r²≈0,30 mostra que apenas 30% da variação dos preços pode ser explicada pela variação da construção.

    Notícia do Público.

    Mas, talvez induzido pela “narrativa” dos investigadores, em vez de o reconhecer, o Público prefere reinventar a Economia: diz que, quanto mais casas se constroem, mais as casas sobem. É como afirmar que os hospitais provocam epidemias porque as camas ficam cheias quando há doentes.

    A análise regional, aliás, desmente por completo a tese propagada. De acordo com os próprios dados do INE, a Área Metropolitana do Porto registou o maior aumento de construção no período 2019-2024 (+273,7%) e uma subida expressiva dos preços (+79,2%). Contudo, a Região Autónoma da Madeira, com crescimento de construção inferior (+213,9%), apresentou o maior aumento de preço (+97,3%). Em contraste, a Península de Setúbal teve apenas um acréscimo de 69% em novos fogos, mas foi a segunda maior valorização do país (+85%). Já o Algarve, com crescimento de construção moderado (+93,4%), viu os preços subir 62,3%, próximo da média nacional.

    E, no extremo oposto, a Beira Baixa, com crescimento quase nulo da construção (+0,5%), registou também a menor variação de preços (+1,75%). Ou seja, aparentemente, vai tudo no mesmo sentido, mas esse “mesmo sentido” é apenas uma aparência superficial.

    Na realidade, a construção e os preços movem-se em simultâneo porque respondem à mesma força: o crescimento da procura e das expectativas de valorização. Quando há mais compradores, crédito e investimento, constroem-se naturalmente mais casas — não o inverso. Assim, o que o Público apresenta como causalidade é, na verdade, um reflexo do ciclo económico e demográfico, e não uma lei do mercado imobiliário.

    Dados do INE usados pelo Público para concluir que as “regiões com maior aumento da construção são onde os preços das casas mais sobem”.

    Porém, há um erro ainda mais profundo: a variação da construção não é uma variável independente, porque depende directamente da procura habitacional e de fenómenos demográficos e económicos locais. Constrói-se mais onde há crescimento populacional, investimento, crédito e emprego; e constrói-se menos onde há despovoamento e ausência de dinamismo económico. A construção é, portanto, endógena — responde ao mercado, não o determina. Ignorar esta endogeneidade é o mesmo que culpar o termómetro pela febre.

    Por isso, o restante — os 70% que escapam à regressão — resulta de factores estruturais: turismo, rendimento disponível, atracção de investimento, políticas fiscais, fluxos migratórios e confiança económica. A estatística revela aquilo que o discurso ignora: a valorização imobiliária não decorre da oferta, mas da procura. As regiões com maior dinamismo económico e demográfico são aquelas que simultaneamente constroem mais e valorizam mais, não porque o cimento inflacione o preço, mas porque o mercado responde à procura. É um reflexo clássico: quando a expectativa de valorização é positiva, constrói-se mais; quando é negativa, a construção retrai-se.

    Tomemos outro exemplo. O Oeste, com forte crescimento populacional e turismo interno, aumentou a construção em 113% e os preços em 70%. Já o Baixo Alentejo, onde a procura é débil, teve apenas 10% de novos fogos e valorização de 28%. Esta simples comparação destrói a tese do “quanto mais se constrói, mais sobe”. A realidade é a oposta: constrói-se mais onde os preços já estão a subir — e os preços sobem onde há procura e rendimento, não betoneiras.

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    A notícia do Público e a narrativa dos especialistas contactados tratam-se, portanto, de uma infeliz inversão causal clássica — o erro que qualquer estudante de Estatística aprende a evitar. Mas, na academia mediática portuguesa, a lógica é facultativa: não importa demonstrar — basta narrar. Assim, quando a evidência concreta desmente a ideologia, torce-se a evidência. Os investigadores convocados pelo Público têm em comum uma obsessão moral: o capitalismo como mal absoluto, a habitação como campo de luta, o investidor como inimigo de classe. Falta-lhes o desconforto da dúvida e o exercício da refutação. Sobram-lhes certezas e epítetos.

    A imprensa, por sua vez, mostra-se uma cúmplice voluntária: já não se questionam os pressupostos, apenas se amplificam os ecos. Esta cumplicidade académica-jornalística constitui uma das formas mais perniciosas de agenda setting: transformar a opinião militante em “facto verificado” e a hipótese especulativa em “evidência empírica”. O jornalismo abdica da crítica para se tornar extensão do discurso universitário dominante — aquele que confunde urbanismo com engenharia social. Quando os media reproduzem sem escrutínio a tese de que “aumentar a oferta não resolve o problema da habitação”, estão a fazer política, não ciência.

    Há, porém, um dado inescapável: onde há mais crescimento populacional e económico, há simultaneamente mais construção e mais valorização. A correlação observada é o reflexo da procura, não da oferta. As regiões que atraem investimento e emprego — Porto, Lisboa, Madeira — são também as que têm preços mais altos. O fenómeno é o mesmo que leva o preço do trigo a subir quando há boas colheitas: se a procura cresce mais depressa do que a produção, o preço sobe. E não há decreto ideológico que o contrarie.

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    É nesta recusa da complexidade que o urbanismo académico se transforma em militância. Em vez de compreender as dinâmicas sociais e económicas, reduz tudo a moral política: há “especuladores”, “fundos”, “nómadas digitais”, “casas vazias”, “alojamento turístico”. Bodes expiatórios convenientes, que desviam a atenção do essencial: rendimentos estagnados, políticas fiscais erráticas e ausência de mobilidade laboral. O problema da habitação não está nas gruas; está na Economia e num país cada vez mais litoralizado, que não pode continuar a crescer apenas em torno da Grande Lisboa e do Grande Porto. Mas é mais fácil culpar o investidor do que discutir o Estado.

    Nota-se cada vez mais uma estética do simplismo que domina a ciência social portuguesa: gráficos sem análise, conceitos inflacionados e uma fé quase teológica no Estado redentor. E há uma imprensa que, incapaz de escrutinar, cede ao conforto da unanimidade. O resultado é a colonização ideológica do espaço público — uma paródia de empirismo que legitima medidas contraproducentes, como a proibição de alojamentos turísticos ou a demonização da propriedade privada.

    A ciência serve para descrever o mundo, não para o moralizar. A Economia serve para compreender o comportamento humano, não para o disciplinar. Quando investigadores abandonam o método para agradar à tribo, deixam de ser cientistas e tornam-se propagandistas. E quando jornalistas abdicam da dúvida para vender indignação, deixam de informar e passam a catequizar.

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    A verdade é que o preço das casas sobe porque Portugal cresceu em procura, investimento e exposição internacional. Subiu porque a impressão desmesurada de massa monetária pelo Banco Central Europeu causou inflação e canalizou dinheiro para o tijolo, porque a confiança no euro e no crédito aumentou, e porque o Estado é lento a disponibilizar solo e a simplificar licenciamentos.

    Seria sensato devolver o rigor à análise e o cepticismo ao jornalismo. O problema da habitação não se resolverá com indignações impressas nem com teses que confundem ideologia com evidência. E talvez fosse hora de os urbanistas descerem dos seminários e aprenderem a ler um gráfico antes de o usarem como bandeira. Até porque o debate público precisa de ciência, não de sermões — e de jornalistas que saibam distinguir entre um dado e uma doutrina.

  • É verdade que o Polígrafo sabe fazer verificação científica? Falso

    É verdade que o Polígrafo sabe fazer verificação científica? Falso


    Há muito que o Polígrafo deixou de ser um órgão de “verificação de factos” para se tornar um curioso laboratório de legitimação de financiadores. O projecto, que nasceu sob o pretexto da “verificação da verdade”, é hoje uma caricatura daquilo que pretendia denunciar: consolida-se como um veículo de desinformação institucionalizada, moldado aos patrocínios que lhe asseguram os lucros.

    Se o maná da pandemia lhe trouxe os milhões — sim, já ultrapassou um milhão — do Facebook e, também, agora do TikTok, o Polígrafo virou-se para uma estratégia sui generis e despudorada: em poucos meses abriu três linhas de facturação explícitas — futebol (financiada pela Betclic), finanças (financiada pela Ordem dos Contabilistas Certificados) e cancro (financiada pela Fundação Champalimaud, desde Agosto). Não se conhecem montantes envolvidos nem condições.

    O Polígrafo dá a mão a quem lhe dá dinheiro para fazer fact checking.

    Se calhar houve mais parcerias que me passaram despercebidas — ou que o seu fundador, Fernando Esteves, se esqueceu de nos revelar. Não se conhecem valores, contratos nem condições editoriais. Conhece-se apenas o resultado: uma deriva editorial que substitui o espírito crítico pelo conformismo rentável.

    Nada disto surpreende. O Polígrafo é um projecto torto, nascido do conceito de que a desinformação vem de fora — sobretudo das redes sociais —, quando, na verdade, radica na perda de credibilidade da imprensa e na sua incapacidade de convencer os leitores a usar informação fidedigna e produzir análises rigorosas sem enviesamentos. E fazer secções editoriais a pedido — ou seja, criar secções se houver patrocinador, como sucede num programa televisivo de domingo com o João Baião — é cavar ainda mais a sepultura da moribunda credibilidade jornalística.

    E isto com a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) a fingir que nada vê. A ERC, aliás, tem sido cúmplice silenciosa desta perversão: permite, sem pestanejar, que se pratique um “jornalismo a pedido” — não de cidadãos, mas de quem paga. A verificação de factos tornou-se, assim, um serviço de consultoria disfarçado de jornalismo.

    Qual a razão para o Polígrafo se dedicar ao futebol agora com afinco? Porque uma empresa de apostas de Malta, a Betclic, lhe começou a pagar para escrever especificamente sobre futebol – e não sobre outros temas quaisquer.

    O caso mais revelador desta promiscuidade é a secção Vital — o portal do cancro, financiada pela Fundação Champalimaud —, que tanto surge em site autónomo, com textos não assinados, como no próprio Polígrafo, assinados por jornalistas. Só isso já choca, porque, obviamente, o Polígrafo analisa questões relacionadas com o cancro porque há uma entidade que trabalha nessa área que lhe paga. Se um dia houver uma congregação que lhe mande fazer fact-checking sobre enchidos, aparecerão textos, tal como sucede no futebol e nas finanças.

    Enfim, sempre se poderá defender que o tema das doenças oncológicas — onde subsistem muitos mitos e desinformação — é bastante relevante e que, enfim, até justifica que a imprensa possa contribuir para melhorar a informação.

    Porém, o Polígrafo, mais uma vez — e com a chancela da Fundação Champalimaud e a pena de jornalistas inexperientes —, aventura-se por terrenos científicos com a ligeireza de quem nunca abriu um artigo numa revista científica, pretendendo combater a desinformação em saúde com um amontoado de simplificações, erros conceptuais e juízos dogmáticos que ofendem a inteligência de quem conhece minimamente o método científico.

    Escrever sobre cancros: o espaço alargou-se no Polígrafo por uma só razão: a Fundação Champallimaud paga.

    Tomemos o exemplo recente de um artigo sobre a vitamina D, que o Polígrafo classificou como “FALSO”. Segundo a peça, um “alegado médico e escritor de livros de auto-ajuda” teria dito, numa entrevista, que a vitamina D funcionava como uma “vacina para o cancro”. O Polígrafo decidiu pegar na frase — isolada, sem citar o nome do autor nem o contexto — e analisá-la literalmente. Ora, esse é o primeiro erro científico: confundir linguagem metafórica com proposição factual. Quando alguém diz que a vitamina D é “como uma vacina”, a comparação não é imunológica, é simbólica — remete para o potencial preventivo ou terapêutico, não para um mecanismo biológico idêntico ao das vacinas contra bactérias ou vírus.

    O segundo erro é mais grave: o Polígrafo ignora a complexidade epistemológica da ciência biomédica e submete o raciocínio ao mesmo esquema binário com que decide se um político mentiu sobre o preço do gasóleo. Em ciência, a dicotomia “verdadeiro/falso” é um disparate. A investigação opera sobre probabilidades, evidências parciais, correlações, hipóteses e margens de erro. Nenhum investigador sério, nem na Fundação Champalimaud, nem em Harvard, classificaria, por regra, um enunciado científico com um carimbo de “FALSO” — porque o conhecimento científico é, por definição, provisório e refutável.

    Curiosamente, no caso em apreço, o próprio Polígrafo, ao tentar justificar o seu veredicto, cita estudos que desmontam a sua própria sentença. Refere o ensaio clínico VITAL, publicado no New England Journal of Medicine em 2019, que concluiu que a suplementação de vitamina D não reduziu significativamente a incidência de cancro, mas revelou uma tendência favorável para menor mortalidade em quem já estava diagnosticado. Em português corrente: a vitamina D não previne o aparecimento da doença, mas pode ajudar quem já a tem. Acrescenta ainda uma meta-análise que confirmou o mesmo padrão: ausência de efeito preventivo, mas sinal positivo na sobrevivência.

    Analise-se a qualidade da análise do Polígrafo em fact checking de ciência feita por uma jornalista ‘junior’ formada em Comunicação Social.

    Ou seja, a própria evidência que o Polígrafo cita demonstra que o enunciado não é “falso” — é, na melhor das hipóteses, não comprovado em termos preventivos e parcialmente corroborado em termos de prognóstico. O jornalismo científico, se o fosse, deveria dizer isto. Mas o Polígrafo prefere a sentença categórica. É mais vistosa. E, sobretudo, mais conveniente para um patrocinador que, ironicamente, é uma fundação ligada à investigação oncológica e que dificilmente apreciaria um artigo a sugerir que a vitamina D possa ter efeitos benéficos que a sua própria instituição ainda não estudou.

    Esta ironia é amarga: um projecto financiado pela Fundação Champalimaud escreve artigos de fact-checking que impõem certezas onde a ciência admite dúvidas. Por isso, é o contrário da investigação científica: é a dogmatização do provável.

    Em ciência, não se trabalha com selos de “verdadeiro” ou “falso”. Trabalha-se com níveis de evidência: plausível, não comprovado, consistente, em revisão, refutado. Quando um estudo sugere associação, outro contesta e um terceiro encontra efeito apenas num subgrupo, o papel do comunicador científico é explicar essa incerteza, não abafar a discussão. A missão do jornalista na área da ciência não é decretar sentenças, é iluminar zonas de dúvida.

    O Polígrafo, porém, transforma o conhecimento em moral, a nuance em pecado e o método científico em catecismo. Usa a retórica da ciência para impor uma autoridade dogmática — e fá-lo em nome da luta contra a “desinformação”. Eis um paradoxo digno de figurar num manual de epistemologia: o verificador que desinforma ao simplificar.

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    Secções do Polígrafo crescem em função do patrocínio. Os temas editoriais em função de critérios financeiros: a antítese do jornalismo.

    A culpa, contudo, não é apenas do Polígrafo: é de um ecossistema mediático e regulatório que permite esta farsa. A ERC, que devia garantir a independência editorial, assiste calada enquanto órgãos de comunicação social se financiam por rubricas temáticas pagas por entidades com interesse directo na narrativa. Até porque secções patrocinadas estão a invadir as redacções e a infeccionar o jornalismo. Já não surpreende se houver laboratórios farmacêuticos a pagar aos jornais para decidir o que é “falso” ou “verdadeiro” em farmacologia. A independência morre, o jornalismo prostitui-se e a verdade torna-se um produto com recibo verde.

    Este caso da vitamina D é apenas um exemplo. Amanhã será outro. O Polígrafo, e outros, já abriram a porta. No fundo, aquilo que este episódio revela é um fenómeno mais vasto: a transformação da verificação de factos num mercado de opiniões sancionadas. A verdade já não é investigada; é subcontratada. O Polígrafo é o sintoma perfeito de uma era em que o jornalismo prefere agradar a quem paga — e está intimamente ligado aos temas tratados — do que enfrentar a complexidade do real. Até porque nunca se assumem quais os valores envolvidos.

    O verdadeiro jornalista, como o verdadeiro cientista, sabe que a dúvida é a forma mais elevada de honestidade. O Polígrafo, infelizmente, parece ter optado pela certeza remunerada.

  • O jornalismo independente sentado no ‘banco dos réus’ do Tribunal do Bolhão

    O jornalismo independente sentado no ‘banco dos réus’ do Tribunal do Bolhão


    Está na moda falar em “defesa da democracia” e na importância de existir uma “imprensa livre”. Ainda bem. Afinal, ninguém no mundo Ocidental quer mergulhar numa era de condicionamento da imprensa nem em regimes autoritários. Portugal já viveu em ditadura e sabe o preço que acarretou para as liberdades fundamentais e para os jornalistas.

    O problema é que, até pode estar na moda “defender a democracia” e a “imprensa livre”, mas soa cada vez mais a falso. Parecem palavras ocas num mundo em que a comunicação social se confunde com uma indústria de conteúdos para alimentar as massas de smartphone na mão. E para servir os clientes e parceiros de negócios, que pagam para terem promoção e publicidade, seja através de eventos, seja através de conteúdos pagos mais ou menos disfarçados de informação.

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    Foto: D.R.

    Afinal, o que é isto de “imprensa livre”? Será um mantra para acalmar os receios, perante os sinais de que o passado de autoritarismo no continente europeu ainda deixou sementes que progridem a olhos vistos?

    Esta quinta-feira, a partir das 9h00, o director deste jornal vai, de novo, estar sentado no banco dos réus para a segunda sessão de um julgamento que nem deveria estar a decorrer, não fosse pela acção do Ministério Público que se esqueceu que Portugal é um país em que (ainda) existe liberdade de expressão e liberdade de imprensa.

    Pedro Almeida Vieira está a ser acusado de mais de três dezenas de crimes de difamação, entre os quais de ter criticado um péssimo poema de Gustavo Carona.

    Mas este não é o único julgamento que o director do PÁGINA UM vai ter ainda este ano. Há já datas para as sessões de mais um julgamento. Mais uma tentativa de intimidação e silenciamento.

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    O facto de se aceitarem sequer estas acções de perseguição judicial para silenciar e intimidar jornalistas (conhecidas como SLAPP) alimenta o “sonho” de outros que almejam esmagar o jornalismo livre, o verdadeiro.

    É o caso de Dino d’Santiago que deixou uma ameaça a Pedro Almeida Vieira por ter investigado e publicado notícias sobre o financiamento público que o empresário e artista arrecadou nos últimos anos.

    Outro caso, é o de Pedro Guerra Alves, advogado da consultora BDO, que não se coibiu de ameaçar Pedro Almeida Vieira com processos judiciais, como forma de o intimidar. Tudo para que não publicasse uma notícia sobre a auditoria da BDO à campanha “Todos por quem cuida”, dinamizada por Miguel Guimarães, Ana Paula Martins e Eurico Castro Alves.

    Voltando à questão sobre o que é “imprensa livre”, a resposta é simples. Se alguém tiver dúvidas sobre o que é, basta seguir o rasto dos processos judiciais, as migalhas das ameaças, os e-mails de intimidação.

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    O jornalismo verdadeiramente livre não teme estas tentativas de silenciamento. Pelo contrário, esses esforços para calar reforçam ainda mais a vontade de se investigar e escrutinar.

    O jornalismo verdadeiramente livre é aquele que é respeitado e também temido por aqueles que têm algo a esconder.

    Hoje, o jornalismo não é temido. Está, em geral, domesticado. Parece livre, mas não é. Não verdadeiramente.

    A imprensa verdadeiramente livre questiona, investiga, escrutina. Exige acesso a informação que deve ser pública. Exige transparência de quem tem de prestar contas à população. Avança com processos na justiça, se necessário, para que a transparência e a lei se cumpram, libertando informação que nunca deveria estar fechada num cofre por ser pública.

    É isso que o PÁGINA UM tem procurado fazer. E, por isso, o seu director se senta no banco dos réus. Não porque “difama” ou emite informação falsa. Mas porque faz o que muitos não estão habituados a ter: escrutínio.

    A defesa da democracia só é verdadeira se também se defender a verdadeira imprensa livre, a que não serve “clientes” nem “parceiros comerciais”.

    Até porque uma imprensa verdadeiramente livre é, em simultâneo, o termómetro da democracia e a bússola que aponta o caminho. Para que não se caia na tentação de seguir por atalhos e desvios que levam ao passado, ao tempo em que a imprensa existia mas tinha um ‘polícia’ a dizer o que se podia investigar e escrever.

  • Vá lá, Dino d’Santiago, tu és capaz: processa lá um jornalista por fazer jornalismo

    Vá lá, Dino d’Santiago, tu és capaz: processa lá um jornalista por fazer jornalismo


    O primeiro dever de um jornalista é o da verdade, e o segundo é o da coragem. Entre ambos não pode existir hesitação. O jornalismo não serve para confortar consciências nem para proteger reputações, mas para escrutinar o poder e a influência — sejam de ordem política, económica, social ou cultural.

    Dito isto, toda a actividade nobre deve ser reconhecida, mas nenhuma, por mais virtuosa que se proclame, pode ser transformada em reduto imune ao olhar público. A missão do jornalista é, de facto, desconfortável: quando cumpre o seu dever, inevitavelmente fere susceptibilidades. Porém, se o medo das consequências orientar a sua investigação, então já não se pratica jornalismo — pratica-se reverência.

    Não coloco em causa o mérito de causas sociais cívicas – fui dirigente nacional da Quercus nos anos 90 – nem o valor de quem as promove; o que coloco em causa é a ideia de que a nobreza de um propósito justifica o silêncio sobre a origem e a aplicação dos dinheiros públicos. O Estado não deve ter beneficiários especiais. Quando a visibilidade mediática se torna porta de acesso privilegiado a fundos públicos, o dever de escrutínio torna-se ainda mais imperativo. As boas intenções não substituem a prestação de contas.

    O PÁGINA UM publicou, em dois artigos ao longo desta semana (aqui e aqui), uma investigação documentada sobre os financiamentos públicos recebidos pelo músico Dino d’Santiago — quer através da sua empresa unipessoal, a Batuku Roots, quer através da associação que fundou e preside, a Mundu Nôbu. É uma história que não se resume a música ou a filantropia, mas que envolve quase 1,6 milhões de euros de dinheiros públicos.

    A associação, criada há menos de dois anos, garantiu já perto de 800 mil euros em apoios e contratos, incluindo concertos a preço hiperinflacionado. E, apesar de se apresentar como entidade de intervenção social, não divulga os seus órgãos sociais, não revela o número de associados, não promove adesões e não apresenta relatórios e contas aprovados. Aparenta ser um clube de Dino d’Santiago e Liliana Valpaços sob a capa de associação para se livrar do estatuto de empresa, menos escrutinável.

    Sublinhe-se: em democracia, ninguém, por muito admirado que seja, está acima do escrutínio. Não é o talento musical, a cor da pele, a fé política ou o empenho comunitário que conferem imunidade à fiscalização pública. Quando um cidadão, como Dino d’Santiago, gere dinheiros do Estado, a opacidade é um insulto a todos os contribuintes. É precisamente em nome da igualdade e da justiça que o jornalismo não pode distinguir entre “bons” e “maus” destinatários de fundos.

    Reconheço — e é preciso dizê-lo sem hipocrisia — que investigações como esta podem gerar reacções indesejáveis, e pessoalmente não aprecio absolutamente nada (e até abomino) algumas reacções que li nas redes sociais sobre os artigos do PÁGINA UM. Há quem procure distorcer a crítica legítima em ataque pessoal, ou até em insinuação racial.

    Mas o jornalista que se retrai, por receio das interpretações do seu trabalho, trai o próprio sentido da profissão. Um jornalista não é juiz de intenções nem profeta de reacções; é apenas alguém que procura e expõe a verdade factual. Se dessa verdade emergem desconfortos, e reacções inflamadas, que se trate então de os resolver com transparência — não com vitimizações ou ameaças ao mensageiro.

    Aquilo que é verdadeiramente se mostra intolerável é transformar o mérito artístico ou o activismo social em arma contra a liberdade de imprensa. Quando um protagonista público, como fez Dino d’Santiago, responde a perguntas legítimas de um jornal com ameaças de processos judiciais e acusações de difamação, demonstra precisamente o contrário do que proclama: falta de abertura e ausência de confiança na força dos seus próprios argumentos. A transparência não teme perguntas; teme-as quem tem algo a esconder.

    Não ignoro que existam associações de base voluntária, frágeis na sua gestão e sustentadas por orçamentos diminutos. Essas merecem compreensão e até auxílio técnico. Mas não é esse o caso da Mundu Nôbu: em menos de dois anos, obteve somas avultadas de várias entidades públicas e estabeleceu mais de uma dezena de parcerias privadas. Uma estrutura com tal envergadura deve cumprir escrupulosamente as obrigações legais e morais de prestação de contas – até para dar o exemplo aos jovens que auxilia. Se o não faz, a legítima suspeita instala-se.

    Dino d’Santiago, cidadão português nascido em democracia, com plenos direitos e também (presumo) deveres, deve compreender que viver de apoios públicos implica responsabilidade pública. Nenhuma biografia, por mais inspiradora, suspende as regras da República. As causas sociais não são licença para o sigilo, e a popularidade não é escudo contra o dever de transparência. É esse o princípio elementar de uma sociedade decente — e é esse o princípio que o PÁGINA UM defenderá até ao fim.

    Deixo, pois, um repto claro: se Dino d’Santiago se julga injustiçado e difamado, que concretize a ameaça e me processe. Terá então oportunidade de nos explicar, em tribunal, como foram geridos os fundos públicos que recebeu. Do meu lado, não espere simpatias. Aliás, porque também sou cidadão, e não aprecio ameaças desta natureza (que andam a aumentar) pedirei à Inspecção-Geral das Finanças e ao Tribunal de Contas uma averiguação rigorosa sobre o destino das verbas públicas entradas na associação de Dino d’Santiago.

    A transparência, devia ele saber, não é ofensa; é um dever. E o jornalismo não é instrumento de perseguição; é um serviço público. Quem verdadeiramente acredita na sua integridade não teme a luz da verdade. Que se acendam, pois, todos os holofotes: não apenas para a música de Dino d’Santiago, mas para a sua postura.