Categoria: Editorial

  • Adeus, rainha

    Adeus, rainha


    Há vidas cuja grandeza assusta os medíocres, e poucas, como a de Clara Pinto Correia, foram tão meticulosamente desfiguradas pela inveja baixa que fermenta nos recantos mais mochos do nosso país. Hoje, que nos deixou, continuo a ver nos obituários a frieza moralista de quem encontra até na morte um álibi para continuar a humilhar — confirmando esse traço triste do nosso carácter colectivo: a incapacidade de reconhecer a complexidade humana sem reduzir tudo ao momento mais frágil de alguém.

    De facto, é quase obsceno ver como certas penas, tão ágeis em autoproclamar-se guardiãs do rigor, aproveitaram, ainda na morte da Clara, a calculada elegância cínica para voltar a espetar-lhe a mesma farpa, como se temessem que o brilho dela ressurgisse até depois do seu passamento.

    Essa persistência em revisitar, com um zelo quase necrológico, o episódio de um plágio ocasional entre milhares de textos revela mais miséria em quem escreve do que em quem é visado. A Clara foi tratada, durante anos, como uma ré perpétua, condenada ao degredo simbólico por um erro que, em qualquer país com maturidade cultural, teria sido absorvido pelo contexto, pela obra e pela vida.

    Mas Portugal não perdoa facilmente quem um dia ousou ser demasiada em demasiadas coisas: demasiado inteligente, demasiado bonita, demasiado brilhante, demasiado livre. É o preço que se cobra a quem um dia teve asas. E há décadas que o país se especializou em cortar asas a quem voa acima da mediocridade.

    Quando a Clara chegou ao PÁGINA UM, no Verão de 2022, quase por razões terapêuticas — um escritor definha se não escreve —, trazia ainda essas cicatrizes abertas há mais de duas décadas. Mas trazia também a fome de escrever — uma fome que nunca perdeu, nem nos dias de maior sombra. Recebemo-la com entusiasmo, como se se resgatasse uma autora injustamente atirada para as margens. E depressa percebi que, por trás do mito da ‘diva’, havia uma mulher frágil e de uma simplicidade desarmante, que me tratava por “Boss” com um humor trocista que dissolvia qualquer formalidade. Nas teleconferências, chegava a brincar com a distância dos meus dentes da frente — e era exactamente nessa irreverência afectuosa que se revelava o que ela era: uma mulher cuja ternura sobrevivia à dureza do seu mundo em pantanas.

    Houve, sim, períodos difíceis. Instabilidade, hesitação, noites que seriam pesadas, mil e um desnortes em que nem sei se eram reais ou fantasiados. Mas até nas suas fragilidades havia uma espécie de grandeza. A Clara era obsessiva no melhor sentido: escrevia, reescrevia, refazia, enviava mais duas ou três versões porque nenhuma lhe parecia suficientemente lapidada. Buscava uma perfeição que sabia inatingível — e, no entanto, persistia, com uma disciplina involuntária que só quem já conheceu o desamparo entenderá.

    Clara Pinto Correia e Mário de Carvalho, em entrevista na RTP em 1996, após a publicação em livro do famoso folhetim do Diário de Notícias, “E se Tivesse a Bondade de Me Dizer Porquê?” (1985-1986)

    Entre todos os gestos que recebi dela, há um que guardo com um cuidado quase religioso: a crónica que escreveu sobre a morte do meu pai em Setembro de 2022. Tínhamo-nos conhecido pessoalmente há poucas semanas, nada nos ligava ainda além da promessa de colaboração. No entanto, quando soube da minha perda, a Clara não hesitou um instante: enviou-me um texto de uma delicadeza tão funda que, ainda hoje, me comove ao recordá-lo.

    Foi uma crónica feita não para cumprir um dever profissional, mas para segurar um desconhecido pela mão no exacto ponto onde a vida se quebra. Foi ali, naquele impulso espontâneo de generosidade, que percebi quem era verdadeiramente a Clara: alguém que, mesmo caída, mesmo magoada, mesmo ferida por julgamentos alheios, ainda encontrava dentro de si um núcleo intacto de bondade. E é a esse momento — mais do que a qualquer polémica, mais do que a qualquer rumor — que volto sempre quando penso nela.

    Ao longo destes três anos no PÁGINA UM, a Clara deixou-nos 97 textos, incluindo crónicas e até um delirante folhetim-novela. Noventa e sete mundos. Noventa e sete formas de continuar a existir nas letras quando a vida tantas vezes já lhe pesava, mesmo se na companhia do seu Sebastião. O último publicámo-lo hoje, antecipando-o do fim-de-semana, num gesto que não sei se é homenagem ou se é apenas a tentativa ingénua de adiar a ausência.

    Sebastião e Clara, em Estremoz.

    Ao longo destes anos, nunca soube delimitar com precisão onde terminava a sua memória e começava a ficção. Mas isso pouco importa: o grande escritor é, como escreveu Pessoa, um fingidor que finge tão completamente que chega a fingir a dor que deveras sente. A Clara sabia isso melhor do que ninguém. A sua escrita não era autobiografia pura — era a reinvenção literária de si mesma, num país que nunca lhe perdoou ter ousado ser mais do que se espera de uma mulher inteligente.

    A única crónica que me aterrorizou, pela possível verdade nela contida, foi a do ‘Me Too‘. A primeira versão chegou-me em Agosto, excruciante, quase insuportável. Durante meses pedi-lhe que ponderasse: não porque duvidasse da sua coragem, mas porque temia pela ferida que pudesse reabrir — nela e nos leitores. Um dia, porém, enviou um e-mail, dirigido a mim e a um amigo em comum, que nunca esquecerei: “Peço-vos o que nunca pedi: leiam com atenção e falem comigo. Encaro isto como um dever cívico, mas não me sinto segura. Coragem.” Naquele apelo estava toda a Clara: a vulnerabilidade íntima e a valentia pública. Acreditava — e bem — que há silêncios que são complacências.

    Publicámos o texto no final do mês passado, depois de ela ter refinado, por várias vezes, as sucessivas versões. E nada aconteceu. Talvez ela esperasse que acontecesse — ou talvez soubesse, com aquela ironia fina que a vida lhe depurou, que Portugal raramente está preparado para verdades desconfortáveis, sobretudo quando vêm de uma mulher que ousa dizer “eu”.

    silver diamond studded crown with black background

    Hoje, multiplicam-se os curiosos tardios, os abutres que farejam mais escândalo do que luto. A eles não devemos nada. À Clara devemos tudo: a inteligência que nunca perdeu, a generosidade que ofereceu mesmo quando lhe doía oferecer, a coragem de quem, mesmo esmagada, insistiu em escrever como quem luta contra a extinção.

    Nos três anos em que a acompanhei, e que ela nos acompanhou no PÁGINA UM, lamento apenas uma coisa: não ter tido mais tempo para insistir para que escrevesse sempre mais. O jornal devora-nos. A vida também. Mas a escrita dela — aquela escrita feita de luz e cicatriz — merecia outro fôlego, outro país, outro espelho onde pudesse reencontrar-se sem ser julgada, mas antes apenas idolatrada.

    Adeus, rainha.

  • Psicologia, ou a Casa Verde da doutora Sofia Ramalho

    Psicologia, ou a Casa Verde da doutora Sofia Ramalho


    Há corporativismos discretos, há corporativismos ruidosos e depois há o corporativismo da Ordem dos Psicólogos, presidida pela doutora Sofia Ramalho, que parece determinada a reeditar, em pleno século XXI, a Casa Verde de Itaguaí. Tal como Simão Bacamarte, acredita que só ela e o seu círculo de devotos compreendem a realidade e definem aquilo que é ciência e método científico e o que é permitido aos comuns mortais pensar.

    O artigo que publicou hoje no Expresso é disso prova eloquente: uma defesa audaciosa — e totalmente infundada — do uso do Personality Assessment Inventory (PAI) para seleccionar juízes e procuradores, como se Portugal estivesse prestes a liderar uma revolução psicométrica que nem os países mais experimentais do planeta ousaram tentar.

    Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses

    É revelador que a bastonária não responda ao essencial. Como é possível que um método supostamente rigoroso, aplicado por uma equipa supostamente experiente, tenha produzido tal hecatombe que uma segunda avaliação reverteu nove em cada dez exclusões feitas pela empresa do seu amigo Mauro Paulino — ele próprio membro do Conselho Jurisdicional da Ordem?

    O simples enunciado desta pergunta dispensaria qualquer comentário adicional. Mas não: Sofia Ramalho prefere ignorá-la. Não responde porque não pode; não justifica porque não há justificação que resista à matemática; e, para escapar ao fiasco, recorre ao expediente clássico dos fracos argumentadores, desviando a discussão para onde a poeira é mais densa e mais conveniente.

    Insiste em dar lições de psicometria a quem não as pediu, como se a incompetência metodológica pudesse ser compensada com uma avalanche de jargão. Segundo a bastonária, o problema não está na grelha de avaliação, nem na escolha dos instrumentos, nem na metodologia aplicada, mas nas “interpretações” dos leigos, da ministra, dos juristas, dos candidatos e — inevitavelmente — do jornalista que ousou perguntar o que não devia. É a velha táctica da autoridade que se substitui à evidência, da condescendência que se sobrepõe ao escrutínio. Se alguém não concorda, é porque não percebe. Um truque tão antigo como medíocre.

    Mauro Paulino, comentador televisivo e psicólogo, aplicou uma avaliação que chumbou dezenas de candidatos ao CEJ, mas uma segunda avaliação, por equipas de psicólogos, reverteu nove em cada 10 ‘chumbos’

    Mais grave é a forma como ela tenta deslocar a crítica para um plano emocionalmente confortável, insinuando que o questionamento do uso do PAI equivale a colocar “a Psicologia no banco dos réus”. Nada mais falso. Aquilo que está em causa não é a Psicologia, mas o mau uso de um instrumento específico — um teste desenhado para contextos clínicos e forenses, destinado a avaliar psicopatologias, fronteiras diagnósticas, imputabilidade, risco de reincidência ou adequação parental.

    Andei a pesquisar — e não existe, em nenhum país do mundo, um único caso em que o PAI seja utilizado para seleccionar candidatos ao ingresso de escolas de magistrados. E só encontrei um que o aplique a magistrados: no Equador, este teste é aplicado a quem queira ir para a luta anti-corrupção. Deve estar a dar um resultado fantástico, visto que o Equador ocupa a posição 121, entre 180 países, no Índice de Percepção da Corrupção da Transparency International. A Dinamarca, a Finlândia, Singapura, a Nova Zelândia, a Suíça, a Noruega, o Luxemburgo, a Suécia, a Holanda e a Austrália — que estão no top 10 dos países com menor percepção de corrupção — deviam já contratar o doutor Mauro Paulino e a sua ‘advogada’ Sofia Ramalho para melhorarem ainda mais a performance dos magistrados com o PAI.

    Além de tudo isto, a bastonária confunde uma racionalização apressada com ciência, numa tentativa desastrada de justificar um erro monumental. E, pior ainda, varre do seu texto, com um silêncio ensurdecedor, o resultado da segunda equipa de psicólogos, igualmente credenciada, igualmente formada, igualmente conhecedora de psicometria — e até escolhida pela própria Ordem dos Psicólogos — que invalidou quase tudo o que fora feito na primeira fase com a empresa do seu amigo Mauro Paulino. Quando 90% das exclusões são revertidas, não estamos perante interpretações “leigas”: estamos perante um falhanço metodológico de proporções épicas, que deveria preocupar qualquer pessoa que, de facto, preze o rigor científico

    Algumas perguntas do PAI: m inquérito perfeitamente desajustado ao objectivo, com uma Ordem dos Psicólogos incapaz de admitir o óbvio por uma questão corporativa.

    Ao invés, Sofia Ramalho prefere transformar o desastre numa pirueta retórica. Tudo está errado — menos, claro, o que ela defende. O problema nunca está na primeira avaliação: está, presume-se, na segunda, ou nos candidatos, ou na comunicação social, ou na ministra, ou no CEJ, ou no clima, ou no alinhamento dos astros. A única coisa que não pode estar errada é aquilo que ela decidiu proteger. E para isso corre para o Expresso, porto de abrigo habitual das teses frágeis que precisam de acolhimento acrítico. É uma estratégia antiga: quando o argumento é fraco, procura-se o conforto de uma imprensa que não faz perguntas difíceis. O Expresso, sempre pronto a confundir solenidade com autoridade, dá-lhe o palco. E ela aproveita-se.

    O texto da bastonária da Ordem dos Psicólogos é um festival de falácias que Schopenhauer aprovaria sem pestanejar — talvez até lhe dedicasse um capítulo suplementar. Lá estão todas: a falácia da autoridade (“nós é que sabemos”), a falsa equivalência (“há literatura, logo serve para tudo”), a cortina de fumo (“o público não percebe, logo cala-se”) e a infantil crença de que a validade de um instrumento transfere, por osmose, validade para qualquer uso que dele se faça. É como elogiar uma panela de pressão por ser excelente — o que é verdade — e concluir, com a mesma cientificidade, que é perfeita para fazer gelado. Ou sugerir que, porque um bisturi corta bem, pode substituir uma motosserra.

    O problema de Sofia Ramalho e de Mauro Paulino não é técnico — é político, ético e epistemológico. Ambos pretendem uma Psicologia sem escrutínio, onde decisões administrativas se escondem atrás de uma fórmula mágica chamada “evidência científica”, mesmo quando os resultados contradizem a própria evidência. Querem uma Psicologia que não tem de explicar nada, que não responde a ninguém, que se irrita quando alguém ousa pedir contas. Mas ciência que não admite perguntas não é ciência: é dogma.

    Rita Alarcão Júdice, ministra da Justiça, criticou a aplicação do PAI.

    A bastonária Sofia Ramalho exige respeito pela Psicologia. Pois bem: o maior respeito que se pode ter por uma ciência é submetê-la ao debate, aceitar a crítica e corrigir o erro quando ele ocorre. E quando uma equipa erra nove em cada dez avaliações, a única resposta admissível — a única verdadeiramente científica — seria reconhecer o erro, corrigi-lo e garantir que não se repete. Em vez disso, tivemos um exercício de contorcionismo retórico que nem Simão Bacamarte ousaria ensaiar. Ao menos o alienista de Machado tinha coerência — e até uma certa doçura lunática. Na Ordem dos Psicólogos, sobra apenas uma obstinada recusa a admitir o óbvio.

    E o óbvio é este: o problema não são os candidatos, não são os jornalistas, não é a ministra, não é o CEJ. O problema é uma avaliação mal concebida, pior aplicada e ainda pior defendida. Se a Psicologia quer credibilidade — institucional, pública e científica — terá de começar pelo princípio básico do método científico: reconhecer que errou.

    Até lá, a Casa Verde, ali para os lados da lisboeta Avenida Fontes Pereira de Melo, continua aberta. E, pelos vistos, arrisca lotação esgotada.

  • A Psicologia segundo Mauro Paulino, ou Portugal segundo os iluminados

    A Psicologia segundo Mauro Paulino, ou Portugal segundo os iluminados


    Há momentos na vida pública portuguesa que parecem escritos por um argumentista especializado em “tragicomédias institucionais”. O episódio dos testes psicológicos dos candidatos ao curso de magistrados no CEJ — e, sobretudo, a reacção de Mauro Paulino, o psicólogo responsável pela aplicação dos inquéritos — pertence a esse género raro em que a realidade ultrapassa a ficção. Se alguém me dissesse que um concurso para juízes e procuradores dependia de perguntas como “gostaria de estar morto” ou “tenho diarreia com frequência”, ou “ouço vozes”, eu diria que era exagero. Mau gosto, talvez. Mas verdade? Ora, estamos em Portugal: é sempre verdade.

    Semanas depois, e no decurso das críticas da ministra Rita Alarcão Júdice sobre os absurdos inquéritos, veio Mauro Paulino, num registo que mistura zelo corporativo com paternalismo científico, declarar ao Nascer do SOL que qualquer crítica ao teste não passa de “achismos”. ou ainda “percepções pessoais”. Os leigos — incluindo ministros, jornalistas e, presume-se, candidatos a magistrados — não têm competência para questionar a ‘ferramenta’. A ciência, explica ele, pertence a um pequeno grupo de iniciados. O resto do país deve limitar-se a baixar a cabeça, preencher quadrículas e confiar na iluminação psicométrica dos doutos. É a velha lógica do não percebem nada disto: o argumento preferido de quem não quer discutir nada.

    Mauro Paulino, comentador televisivo e psicólogo.

    Convém recordar que, no seguimento das noticias do PÁGINA UM, a ministra da Justiça — usando um saudável senso comum que tem faltado a meio governo — disse, com todas as letras, que o inquérito não era adequado e que deveriam ser apuradas responsabilidades. E a resposta de Paulino foi essencialmente esta: “a ministra não percebe o que diz”.

    Mas a pergunta que se impõe é outra: haverá alguém, fora do círculo da vidinha de Mauro Paulino, que ache razoável avaliar magistrados perguntando-lhes se têm vontade de morrer ou se sofrem de distúrbios intestinais? Que relação científica existe entre diarreia frequente e capacidade para decidir casos de corrupção, homicídios ou violência doméstica? Falhou-me esse capítulo nos manuais.

    O psicólogo veio com a ladainha de que o Personality Assessment Inventory (PAI) possui uma “extensa literatura científica, com mais de 14 mil publicações”. É verdade: também há milhares de artigos sobre o uso da aspirina em cardiologia e não é por isso que se prescreve aspirina para tratar miopia. A existência de literatura académica não legitima qualquer utilização, ainda mais porque o senhor doutor ainda não apontou nenhum sítio, nem que fosse em Ouagadougou, que aplique o PAI em avaliações de candidatos a ‘escolas de juízes’. A existência de um teste clínico — criado para identificar psicopatologia — jamais poderia ser usado como instrumento eliminatório num concurso de elevada responsabilidade institucional. A ciência, quando invocada de forma acrítica, corre o risco de se transformar em fetiche.

    Mas Paulino vai mais longe: citou escalas de validade, argumentou que itens isolados não têm significado e sublinhou ainda que alguns itens “aparentemente absurdos” servem para detectar respostas ao acaso. Tudo verdade, tecnicamente. Mas falta o detalhe crucial: mesmo escalas de validade podem ser interpretadas de forma errada, sobretudo quando o contexto é high-stakes (testes usados em decisões de grande impacto) e os candidatos respondem sob pressão, sabendo que uma resposta mal calibrada pode ditar o fim de um percurso de meses. Paulino jamais poderia esquecer (e ignorou) que não estava a avaliar reclusos ou pessoas com problemas de índole psicógica, mas sim mais de duas centenas de licenciados em Direito que tinham ultrapassado exigentes provas escritas e orais. A psicometria não elimina a subjectividade; apenas a reorganiza.

    E, claro, surge uma parte divertida: afinal, o PAI não foi o único instrumento culpado da razia psicológica dos candidatos. Foram oito! Oito instrumentos mágicos que, combinados, permitiram uma decisão “colegial e integrativa”. Ora, se o processo era tão robusto, porque razão dezenas de candidatos foram excluídos com uma taxa de “não favoráveis” anormalmente elevada? A culpa, apressa-se Paulino a esclarecer, não é dos psicólogos — nunca é. Nem atrasaram o concurso, nem reprovaram demasiados candidatos; tudo não passou de percepções erróneas, mal-entendidos, confusões, ignorância do público. O país não compreende, ponto final.

    Mas eis o ponto que Paulino não explica — e é aqui que a tragicomédia atinge o seu auge: afinal, como é possível que um método tão “científico”, tão “validado”, tão “robusto”, tenha produzido um número tão absurdo de chumbos que, quando avaliados por outra equipa de psicólogos, nove em cada dez foram revertidos?

    Sede do Centro de Estudos Judiciários. / Foto: D.R.

    É uma estatística que desarma qualquer tentativa de retórica.
    Se um cirurgião errasse 90% das operações, seria afastado.
    Se um juiz se enganasse em 90% das sentenças, seria destituído.
    Se um meteorologista falhasse 90% das previsões, tornava-se humorista. Mas um psicólogo que reprova candidatos em massa e vê 90% das suas decisões anuladas… esse, pelos vistos, considera-se vítima de incompreensão pública.

    Para alguém que realiza avaliações forenses — usadas em tribunais, em processos de regulação parental, em perícias decisivas — convém reconhecer que uma taxa de falhanço tão monumental não é propriamente um selo de credibilidade. É um alarme.

    Aqui, surge-me a tentação literária: o psicólogo Mauro Paulino faz-me lembrar Simão Bacamarte, o alienista de Machado de Assis, aquele que se julgava o supremo intérprete da sanidade e da loucura em Itaguaí. Mas esta comparação é ingrata e injusta — para Bacamarte. Na loucura do alienista da Casa Verde havia método, havia lógica interna, havia até uma doçura involuntária. Era uma loucura ingénua, quase nobre na sua obsessão. Já em Mauro Paulino não há doçura nem grandeza trágica. Há apenas duas coisas: petulância e uma gigantesca cara de pau, revestidas de jargão científico.

    A convicção de infalibilidade de Mauro Paulino é tão firme que transforma qualquer contestação em ignorância. A ministra não sabe. Os jornalistas não sabem. Os candidatos não sabem. A segunda equipa de psicólogos não sabe. Só ele sabe. Só ele vê. Só ele compreende os mistérios do PAI e dos sete instrumentos suplementares. Só o Mauro Paulino acerta. Sempre.

    A ciência, infelizmente para Paulino, não funciona assim. A ciência que importa — a verdadeira — aceita escrutínio. Admite falhas. Revê-se. Corrige-se. E, sobretudo, responde quando falha 90% das decisões. Não se esconde atrás de tecnicismos.

    Mauro Paulino pede rigor no debate. Concordo inteiramente. Comecemos então com a única pergunta que realmente importa: “Quem avalia os avaliadores?” Se a resposta for “ninguém”, então o problema não é o PAI. O problema é o país — e pessoas como ele.

  • Quatro anos depois, Filipe Froes, o ‘marketeer das farmacêuticas’, ainda não ganhou vergonha

    Quatro anos depois, Filipe Froes, o ‘marketeer das farmacêuticas’, ainda não ganhou vergonha


    Quatro anos depois, Filipe Froes continua igual a si mesmo: sem ética nem vergonha.

    No processo judicial que ele intentou contra mim, cujo julgamento decorre no Campus da Justiça de Lisboa, falou-se hoje, manhã e tarde, em vários dos textos que sobre ele escrevi em 2021, razão pela qual estou ali a responder como arguido.

    Filipe Froes, um dos médicos portugueses com mais ligações à indústria farmacêutica, mantém-se como consultor da DGS e com intenso palco mediático.

    Dos vários textos (quase uma vintena), chamou-me a atenção este – considerado difamatório (logo se verá na sentença) pelo Ministério Público, a Ordem dos Médicos e, claro, o doutor Filipe Froes —, escrito em 27 de Agosto de 2021, e que reza assim:

    “[Filipe Froes] não quer admitir que há uma evidente e flagrante diferença entre Lei e Ética, e que a existência de transparência (por imposição legal) não significa a existência de Ética; em muitos casos a transparência somente revela que não se tem nem Ética nem vergonha na cara. O Doutor Filipe Froes pode e tem o direito de aproveitar a sua inteligência e saber para angariar palestras e serviços de farmacêuticas. Longe de mim limitar esse seu objectivo, conquanto que ele não esteja a dar palestras e a prestar serviços às farmacêuticas durante o período em que deve estar a exercer as suas funções, pagas pelo SNS, de director de serviços do Hospital Pulido Valente. Não pode é o Doutor Filipe Froes achar que é só a sua inteligência e saber que fazem as farmacêuticas contratarem os seus serviços. Se porventura o Doutor Filipe Froes se demitisse – como deve e me parece de irremediável caminho – das suas funções de consultor da DGS (e aliás, convinha conhecer os seus pareceres, sobretudo as eventuais recomendações para aquisição de fármacos), de membro do painel de especialistas da Comissão Técnica de Vacinação e de líder do Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos, prevejo que as solicitações das farmacêuticas se reduziriam… E mais ainda se reduziriam as solicitações e pagamentos se o Doutor Filipe Froes – que sempre se apresentou como um especialista isento e falando apenas ‘baseadas na melhor evidência disponível e independente’ (blá blá blá) – começasse a ser apresentado como consultor de farmacêuticas quando fosse convidado para falar aos media… Por exemplo, quando ele recomenda que se compre mais vacinas para a gripe, deveria ser apresentado também como consultor da Sanofi… Bom, talvez a própria Sanofi não gostasse disso. A discrição é a alma dos bons negócios.

    Post integral publicado no Facebook em 27 de Agosto de 2021

    Ironias da vida: hoje mesmo, o doutor Froes publica no Diário de Notícias um artigo de opinião, “Gripe ou Flu a mesma solução: vacinar!”, onde apela fervorosamente à vacinação no seguimento de um alerta do ECDC — o centro europeu de prevenção e controlo das doenças — sobre uma nova mutação do subtipo H3N2. Alega que tal mutação implica uma “provável menor efectividade da vacina”, mas garante, paradoxalmente, que “o objectivo deste alerta é reforçar a preparação e aumentar as taxas de vacinação, sobretudo nas pessoas com 65 ou mais anos, que tendem a sofrer maior impacto pelo subtipo H3N2”.

    Nada tenho contra apelos à vacinação — desde que feitos com transparência. E que o médico não funcione como marketeer. Porém, Froes reincide no seu velho hábito: esconde o essencial e funciona como ‘delegado de propaganda médica’. De facto, tal como sempre fez durante a pandemia – em que escondia as suas relações com farmacêuticas que beneficiavam dos seus conselhos junto da administração de saúde, neste seu texto no DN identifica-se simplesmente como “doutorado em Saúde Pública e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública”.

    E omite, obvia e descaradamente, as suas relações financeiras com a Sanofi, principal fornecedora de vacinas da gripe. E não se diga que, ao menos oficialmente, tais ligações são pequenas. Eis apenas os registos deste ano (seria fastidioso revelar a de todos os anos conhecidos) dos financiamentos da Sanofi: 5.942,06 euros pela participação no Scientific Meeting on Influenza (por quatro dias em Viena); 1.698,94 euros pela participação nas Jornadas de Medicina Geral e Familiar; 1.130,74 euros por uma palestra no Flu Summit 2025; e mais 1.070,10 euros pela participação no Congresso de Pneumologia do Centro-Ibérico.

    Artigo do Diário de Notícia em papel onde Filipe Froes se identifica como “Doutorado em Saúde Pública e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública” para falar sobre vacinas da gripe, sendo que este ano a Sanofi lhe pagou quase 10 mil euros, incluindo uma viagem a Viena de Áustria.

    Tudo somado, apenas um relance do “gato escondido com o rabo de fora”. A estratégia é antiga: nunca, jamais, em tempo algum, Froes revela as suas ligações às farmacêuticas enquanto exibe as credenciais públicas. E não se pense que este padrão é apenas doméstico.

    Agora, pavoneia-se ele por ser membro do Advisory Committee on Public Health Emergencies da União Europeia — um comité que, em regra, é zeloso quanto à transparência dos conflitos de interesses. Mas, chegada a ficha do doutor Froes, nada consta: apenas autorizou a divulgação da última página (a sexta de seis), sem qualquer informação sobre as suas ligações comerciais.

    Convém notar que, entre os 44 peritos desse comité, 34 revelam os seus conflitos; 10 optam por esconder. Froes, coerente consigo mesmo, integra o segundo grupo – daqueles que esconde.

    person holding orange and white plastic bottle

    Neste aspecto, Froes é coerente na escuridão e na falta de vergonha. Até para me meter em tribunal, por lhe dizer umas verdades, decidiu poupar no advogado. Quem está a pagar a conta é a Ordem dos Médicos.

    Afinal, quem aufere um salário público de director de serviços num hospital público e uns 50 mil euros anuais de pagamentos oficiais de farmacêuticas prefere que os honorários de patrocínio para perseguir judicialmente um jornalista seja distribuídos pelos seus colegas médicos. Isto não é para qualquer um…

  • Vale a pena ser jornalista para acabar no banco dos réus?

    Vale a pena ser jornalista para acabar no banco dos réus?


    Vale a pena ser jornalista em Portugal? A pergunta, que tantas vezes ouvi colocada em surdina por colegas mais novos, hoje ecoa-me com uma intensidade que não esperava sentir. Talvez porque, nas próximas duas semanas, estarei de novo — já nem sei se quatro ou cinco vezes vezes — sentado no banco dos arguidos no Campus de Justiça de Lisboa. No Porto já estive três desde Setembro. Não por ter mentido, inventado, manipulado ou caluniado. Apenas por ter incomodado. E porque o Ministério Público preferiu achar que a liberdade de expressão e de imprensa são direitos de um ‘deus menor’. Ou então por dar demasiado trabalho e ‘chatice’ investigar com seriedade aquilo que revelei sobre as negociatas da vacinação em plena pandemia. Em vez de olhar para os factos, escolheu olhar para mim.

    Pergunto-me, pois: vale a pena?

    Valeu a pena investigar que, em Fevereiro e Março de 2021, em plena escassez de vacinas, foram desviadas cerca de oito mil doses para vacinar quatro mil médicos não-prioritários — de entre o universo de 64 mil —, violando normas que nunca foram alteradas (embora a IGAS tenha depois inventado uma alteração fantasma)?

    Vale a pena expor que essa vacinação paralela tinha por detrás dinheiros de uma campanha de angariação de fundos patrocinada sobretudo pela indústria farmacêutica, e movimentados a partir de uma conta pessoal titulada por Miguel Guimarães (actual deputado do PSD), Ana Paula Martins (actual ministra da Saúde) e Eurico Castro Alves (amigo íntimo do primeiro-ministro)?

    Vale a pena mostrar que a task force, liderada por Gouveia e Melo, não tinha competência legal para criar excepções, e que tudo aquilo foi feito no silêncio conveniente das instituições? Até um político foi vacinado á socapa por “conveniência”.

    Pelos vistos, para o Ministério Público, não vale.

    E, no entanto, o MP até mantém processos de investigação em aberto sobre a gestão da campanha de angariação de fundos e sobre pagamentos ao Hospital das Forças Armadas. Porém, estão em banho-maria. E avançou com uma acusação contra mim porque Gouveia e Melo se queixou. E, num outro processo, também, porque aparentemente não se pode criticar a Ordem dos Médicos, e os médicos Miguel Guimarães, Filipe Froes e Luís Varandas por terem sido promíscuos com a indústria farmacêutica durante a pandemia.

    a wooden judge's hammer sitting on top of a table

    Pergunto outra vez: vale a pena?

    Vale a pena passar horas num banco de arguidos por ter feito jornalismo? Vale a pena ver magistrados, como me sucedeu no Porto, a tratarem-me um jornalista como ignorante, insinuando que, apesar da minha formação académica, não tenho competência para analisar e interpretar dados epidemiológicos, como se o conhecimento científico fosse reserva espiritual de um grupo profissional (médicos)?

    Vale a pena assistir a julgamentos onde não se discutem documentos, factos, evidências, mas apenas a forma como o jornalista “incomodou” pessoas com poder ou influencers sanitários ‘bonzinhos’?

    Vale a pena, afinal?

    Quando vejo o que se passa noutros países — ataques à imprensa, processos para intimidar, SLAPPs usados para silenciar — percebo que Portugal não é excepção. Aquilo que muda é apenas o decoro: entre nós, fazem-se as mesmas coisas, mas com uma cortesia cínica que tenta mascarar o propósito. E o propósito é sempre o mesmo: cansar o jornalista, desgastar o jornalista, empurrar o jornalista para um canto onde a exaustão suplante a convicção.

    Sala de audiências do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. / Foto: D.R.

    E é assim, confesso, que estou: exausto. Mas exausto sobretudo do país com 51 anos de uma democracia podre — de uma democracia que não censura, mas que asfixia pelo cansaço, o que é uma forma ainda mais hipócrita de condicionar a liberdade.

    Pergunto-me: vale a pena revelar documentos que ninguém queria mostrar? Vale a pena ganhar processos administrativos que provam que o segredo era injustificado, mas depois ser processado por difamação por revelar aquilo que se escondia? Vale a a pena expor contratos, trocas de e-mails, relatórios escondidos, decisões opacas, contas paralelas, abusos de poder e omissões deliberadas? Vale a pena ser arguido e sentir que ali sou um criminoso que, na melhor das hipóteses, vai ‘safar-se’?

    Por norma, diria que vale. Sempre valeu.

    Valerá porque o jornalismo não existe para agradar, mas para incomodar.

    Valerá porque os direitos não se defendem com silêncios convenientes.

    Valerá porque, se o jornalista se cala, quem fala?

    Hoje, em cansaço, não digo que vale — digo apenas que valerá, algures fora deste dia exausto. Amanhã, talvez o ânimo volte.

  • Como se pode enterrar a liberdade de imprensa? Com a ajuda dos tribunais

    Como se pode enterrar a liberdade de imprensa? Com a ajuda dos tribunais


    Há decisões judiciais que não apenas desafiam a lógica: desafiam a própria ideia de que Portugal é um país onde a liberdade de imprensa tem valor real. Ontem, uma juíza do Tribunal Administrativo de Lisboa decidiu aceitar uma providência cautelar apresentada por uma promotora musical, a Prime Artist, para suspender temporariamente uma deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) que ordenava a minha acreditação para o concerto de Marilyn Manson no Campo Pequeno. E fê-lo com tal denodo que andaram até a telefonar para a empresa de segurança das instalações da ERC para que a citação ao regulador fosse efectuada ontem ao início da noite, conforme a descrição das diligências.

    O caso parece absurdo – e é. E absurdo em toda a sua extensão, incluindo para mim, que pensava que introduzir umas simples crónicas literárias no PÁGINA UM sobre espectáculos musicais, era uma forma descontraída e útil de promover a Cultura e de ‘fugir’ ao jornalismo mais intenso. Porém, sucede que fui encontrar, em alguns casos, ao longo da dúzia de espectáculos que cobrimos desde Março, uma oposição de algumas produtoras que olham para os jornalistas independentes com desconfiança, ou até desprezo, porque lhes é mais produtivo relacionar-se com ‘jornalistas de confiança’ ou sites e influencers que não apenas escreverão sempre bem como garantem promoção dos espectáculos (e vendas de bilhetes).

    O jornalismo, porém, não faz publicidade nem promoção – e, por isso, já tenho tido algo que nunca desejei para escrever simples crónicas (e nunca fui a um espectáculo em que não tenha escrito): solicitar ao regulador o cumprimento do Estatuto do Jornalista na acreditação de jornalistas. Não é pedir favores: é fazer cumprir uma lei de 1999 que consagra, em democracia, direitos de acesso aos jornalistas. Acham que é um privilégio que não devem ter? Se sim, então revoguem a lei.

    Convém recordar o que estava em causa. A ERC analisou uma recusa arbitrária da Prime Artist, promotora do evento, que decidiu atribuir acreditações a uma extensa lista de websites e plataformas de promoção comercial, marketing musical e entretenimento – alguns sem jornalistas, outros sem qualquer prática redactorial identificável –, enquanto excluía órgãos de comunicação registados na ERC e jornalistas devidamente acreditados.

    O PÁGINA UM não foi o único a ser preterido, diga-se. E entre as entidades privilegiadas estavam páginas dedicadas a “lançamentos de singles”, “entretenimento artístico”, “marketing de concertos” e projectos que operam essencialmente como extensões promocionais da própria indústria musical. A lista enviada à ERC pela Prime Artist mostra isso com clareza embaraçosa: o critério não era jornalismo, era conveniência comercial.

    A large building with a clock tower on top of it

    Perante este quadro, a ERC actuou como lhe competia neste caso: declarou que a promotora violou a transparência, a igualdade e o Estatuto do Jornalista – e determinou, com base na lei da Assembleia da República, que a acreditação fosse atribuída. A deliberação era clara e vinculativa, sendo que o seu incumprimento levaria a um crime de desobediência qualificada.

    A Prime Artist, incapaz de justificar a discriminação e menos ainda de demonstrar qualquer critério objectivo, recorreu a um expediente processual que lhe custará a comissão de muitos bilhetes dos Marilyn Manson, de quem nem sou particular fã: pediu uma providência cautelar para suspender a deliberação.

    E é aqui que começa a tragédia judicial – e já nem falo na inusitada rapidez. A juíza Maria Carolina Duarte aceitou liminarmente essa providência, o que significa que assumiu que a Prime Artist poderia ser “lesada” se fosse obrigada a cumprir a deliberação da ERC, ou seja, a deixar entrar um jornalista que iria escrever uma singela crónica sobre um concerto. Se há coisa onde não se vislumbra dano – ou haverá? – é permitir o acesso de um jornalista a um espaço público para escrever para o público.

    Ou seja, num volte-face jurisprudencial digno de uma república de opereta, a juíza considerou que esse suposto prejuízo tinha mais peso do que o dano ao jornalista que, impedido de trabalhar, vê o seu direito anulado.

    Mas o mais grave não é isto – é o significado disto. A juíza sabia, ou tinha a obrigação funcional evidente de saber, que a decisão, mesmo sendo temporária – a acção principal decorrerá em linha diferente e mais lenta –, teria um efeito irreversível: o concerto decorre já amanhã, enquanto o julgamento do mérito só ocorrerá nos próximos meses.

    Significa, assim, que mesmo que a ERC vença no mérito da sua deliberação – e a lei, os factos e a interpretação da deliberação indicam claramente que vencerá –, o jornalista já terá perdido. Não há forma de recuperar uma crónica sobre um espectáculo que nunca pôde ser feita, nem de restaurar o exercício de um direito profissional destruído pelo decurso do tempo. Isto chama-se, no jargão jurídico, inutilidade superveniente da lide. E foi precisamente isso que a juíza criou com a sua decisão.

    Afinal, escrever crónicas de espectáculos incomoda mais do que jornalismo de investigação?

    Uma providência cautelar existe para evitar danos irreparáveis – não para causá-los. Aqui, o tribunal fez o contrário: transformou um processo legal num ritual vazio, anulando antecipadamente o direito que deveria ser protegido. A tutela judicial efectiva foi substituída pela tutela do mais ousado. Um promotor de espectáculos vence por desgaste temporal, porque um magistrado lhe abriu esse caminho.

    Nada disto é conciliável com o Estado de Direito. A liberdade de imprensa não pode ser suspensa por conveniências comerciais. Uma empresa privada não tem qualquer “direito” a controlar quem escreve sobre os seus espectáculos – isso é uma das regras do jogo democrático –, e muito menos a alegar que “sofre prejuízo” por ter de cumprir uma lei nacional.

    A juíza, no entanto, decidiu que sim: decidiu que um alegado interesse económico de uma promotora vale mais do que um direito legal, constitucional e profissional de um jornalista.

    O caso é tanto mais perturbador quanto revela uma fragilidade crescente para o Jornalismo em Portugal: a facilidade com que já se aceita subalternizar a imprensa em benefício de operadores privados (e daqui a nada públicos, e não apenas na cultura e lazer), que distribuem acreditações, notícias, publicidade e parcerias ao sabor da conveniência – privilegiando páginas de promoção comercial e marketing musical, e barrando jornalistas independentes. Que uma empresa tente este expediente não surpreende. Que um tribunal o aceite, isso já é devastador.

    Actuação dos Marylin Manson ocorrerá este domingo no Campo Pequeno.

    Com este episódio – que receio se venha a repetir –, fica claro que o problema não é apenas a recusa da Prime Artist em cumprir a lei – e em gastar dinheiro numa providência cautelar que lhe custará centenas de euros. É a complacência judicial que transforma essa recusa num acto eficaz. É a mão do Estado a empurrar o jornalismo para fora da porta – e a entregar o espaço informativo aos produtores, aos promotores, aos que confundem imprensa com publicidade.

    O editorial de hoje, infelizmente, escreve-se a si próprio: uma juíza enterrou o jornalismo, mas também enterrou o respeito pela lei e pela liberdade de imprensa. E quando um tribunal falha deste modo, não falha apenas um caso: falha o país que insiste em dizer que é uma democracia.

  • Os fariseus do jornalismo

    Os fariseus do jornalismo


    O jornalismo constrói-se sobre um princípio simples: a busca dos factos e da verdade factual. Para isso, o verdadeiro jornalista, antes de ser escritor, é um investigador: recolhe documentos, analisa informação, ausculta testemunhos, consulta especialistas e contacta entidades sempre que tal seja necessário para confirmar dados ou esclarecer dúvidas.

    Neste processo, confirmar factos pode, ou não, implicar ouvir os visados. Mas ouvir os visados não serve para confirmar factos em si mesmo, porque estes têm, à partida, uma posição subjectiva, por vezes bastante enviesada, que procuram até, em muitos casos, deturpar ou tentar desmentir factos verdadeiros recolhidos com base em documentação e outros elementos objectivos. As palavras ditas são maleáveis, manipuláveis – e tem de ser o faro jornalístico a determinar, após a recolha de outros meios de prova, se haverá necessidade de recorrer à auscultação do visado.

    André Carvalho Ramos: a ERC lava mais branco…

    Aliás, defendo que nem sempre é aconselhável ouvir os visados em casos polémicos: nem sempre acrescenta rigor; e, por vezes, até o prejudica. Dar o mesmo relevo à opinião do visado – que nada acrescenta para o conhecimento da verdade – e ao facto indesmentível pode lançar uma falsa dúvida no leitor, transformando um elemento comprovado numa suposta controvérsia.

    Isto não significa, longe disso, que nunca se ouçam os visados. Seria absurdo defender isso. Aquilo que se defende é que ouvir um visado é uma decisão editorial — tão útil na esmagadora maioria dos casos quanto dispensável noutros. Não é uma imposição legal nem sequer uma exigência deontológica. Ouvir o visado não é qualquer espécie de obrigação fundada num alegado “direito ao contraditório”.

    A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e, tristemente, o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas insistem, porém, em tratar este procedimento técnico – o de auscultar um visado – como um “direito de contraditório” erigido a dogma regulatório. E fazem-no mesmo quando os factos são públicos, auto-evidentes ou comprovados documentalmente — alguns, até, baseados em declarações anteriores do próprio visado.

    Por exemplo: se um jornalista anuncia publicamente que vai participar num curso de media training incompatível com o Estatuto do Jornalista — como sucedeu com André Carvalho Ramos, pivot de um canal televisivo por cabo — e outro jornal noticia esse facto, que sentido teria “ouvi-lo” apenas para cumprir um pseudo-imperativo de um “direito ao contraditório” que não existe na lei? O facto estava assumido pelo próprio, estava já publicado anteriormente na imprensa, documentado. Ouvi-lo seria irrelevante. Exigir que fosse ouvido antes da publicação da notícias seria absurdo, porque permitiria ao visado negar uma evidência com o mesmo destaque da evidência.

    Chegados aqui, eis a verdade crua: o “direito de contraditório” é um termo que não existe como direito autónomo no ordenamento jurídico português no contexto do jornalismo. Não está na Lei de Imprensa, não está no Estatuto do Jornalista, não está no Código Deontológico. A ERC e o Conselho Deontológico não citam nenhuma norma porque não a podem citar. Inventaram o conceito. Fantasiaram-no. E, não encontrando suporte normativo, produzem relatórios com malabarismos interpretativos, defendendo que tal direito estaria “implícito”. Implícito onde? Em que frase? Em que artigo? Fica sempre por demonstrar.

    O que existe, e apenas isso, é o direito de resposta e de rectificação, exercido após a publicação e regulado de forma clara e restrita. O resto é imaginação regulatória. A ERC tenta transformar uma prática editorial — útil em certas circunstâncias, desnecessária noutras — numa obrigação universal, aplicável mesmo quando o jornalista dispõe de documentos autênticos, muitos assinados pelo próprio visado, ou de observações directas e inequívocas que não carecem de comentário adicional. Pouco lhe importa que a ausência de auscultação prévia nada altere quanto à verdade factual.

    O resultado desta imposição à força de um “direito de contraditório” — que permite ao visado, em muitos casos, preparar uma resposta estratégica para mitigar o impacto da notícia, funcionando quase como uma contra-narrativa antecipada — é uma tentativa de redefinir o jornalismo como uma actividade dependente da vontade do visado, tornando impossível qualquer investigação séria.

    Mais grave: esta invenção terminológica é agora usada para classificar como “violação do rigor informativo” qualquer notícia que desagrade ao poder ou às corporações, mesmo quando assente em provas irrefutáveis. O truque é simples: não se contestam os factos; acusa-se o jornalista de não ter cumprido um “contraditório” imaginário. É o expediente perfeito para quem prefere silenciar, intimidar ou adiar o escrutínio público.

    O PÁGINA UM conhece bem esta táctica abusadora da ERC, que é safadamente reincidente. Investigamos com documentos, relatórios oficiais, pareceres, registos públicos, e-mails e comunicações assinadas pelos próprios protagonistas. Mas para a ERC nada está bem: insiste no relambório da ficção jurídica do contraditório, concedendo “trunfos” até a jornalistas promíscuos como André Carvalho Ramos, que agora até apresenta um programa ao lado de Pedro Costa, filho de António Costa e actual director-geral da empresa de comunicação onde o pivot da CNN Portugal anunciou dar aulas de media training. Seria cómico, não fosse trágico: nunca nenhum tribunal desvalorizou um documento autêntico por falta de contraditório. Só a ERC seria capaz de semelhante alquimia.

    Aquilo que está em causa não é doutrina; é liberdade. Se um jornalista tem de telefonar ao visado para “equilibrar” documentos autênticos, então está condenado a produzir notícias anémicas, domesticadas, inócuas — notícias que servem o visado, não o público.

    Helena Sousa, presidente da ERC.

    Obviamente, as repetidas deliberações da ERC – um regulador que não cumpre as suas verdadeiras atribuições no combate às promiscuidades na imprensa e que esconde documentos numa obscuridade incompreensível – moem, mas estão longe de vergar o PÁGINA UM. São actos administrativamente inócuos, ao nível do bitate de um treinador de bancada, e vindos de um regulador cuja presidente tem um passado jornalístico pouco superior ao medíocre.

    Por isso, continuaremos a cumprir a lei e a deontologia, mas não aceitaremos deveres que a lei não contém. A ERC e o seu séquito podem continuar a inventar o que quiserem — mas não conseguirão impor aos jornalistas aquilo que não tem existência jurídica. Pelo menos aqui no PÁGINA UM.

  • Filipe Alves, ou a hipócrita solidariedade de um torpe homúnculo

    Filipe Alves, ou a hipócrita solidariedade de um torpe homúnculo


    Decorre, desde a semana passada, no Campus de Justiça de Lisboa um julgamento em que me sento no banco dos arguidos por, entre outros, obra e graça do Almirante Gouveia e Melo. O meu ‘crime’ foi denunciar no PÁGINA UM as negociatas realizadas em Fevereiro de 2021 entre o então líder da task force e o então bastonário da Ordem dos Médicos (e actual deputado do PSD) Miguel Guimarães para se vacinarem cerca de quatro mi médicos que não se inseriam nas prioridades da norma 002/2021 então em vigor.

    O agora candidato a Presidente da República não só extravasou as competências que detinha à data como contrariou de forma grave a norma da DGS, numa altura de escassez, pelo que, dessa forma, tanto como ele Miguel Guimarães preferiram vacinar quatro mil médicos sem contacto com doentes em vez quatro mil idosos com mais de 80 anos. Estas notícias do PÁGINA UM caíram em saco roto nos restantes media, o que até permitiu que numa análise prévia da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS), a inspectora Aida Sequeira a data de uma alteração da norma 002/2021 para dar uma aparência de legalidade onde só havia negociata e falta de ética.

    Presumo que não é todos os dias que um jornalista no exercício das suas funções se senta no ‘banco dos réus’ por iniciativa de um candidato presidencial – e ainda mais no contexto deste caso. Mas, apesar disso, e por aquilo que me apercebi, só a Lusa fez uma breve (e muito incompleta) notícia sobre o tema, tendo a jornalista perdido, pelo facto de não ter estado presente à tarde, a oportunidade de saber que corre no DIAP não apenas uma investigação sobre alegadas irregularidades em pagamentos ao Hospital das Forças Armadas (no âmbito da tal negociata da vacinação dos médicos não-prioritários) como outra investigação sobre a gestão da campanha ‘Todos por quem cuida’ que envolve directamente a a actual ministra da Saúde, Ana Paula Martins, Miguel Guimarães e Eurico Castro Alves, amigo íntimo de Luís Montenegro.

    No decurso deste processo judicial – que é duplo, porque está apenso outro em que os assistentes são a própria Ordem dos Médicos e os médicos Miguel Guimarães, Filipe Froes e Luís Varandas – tenho recebido muitos apoios e solidariedade de leitores do PÁGINA UM, e alguns (não muitos) de camaradas de profissão.

    Mas é sobre solidariedades que esta crónica se faz. Porque há solidariedades que nascem da amizade, outras da confiança, outras da nobreza de espírito – mas há também aquelas, raras mas inconfundíveis, que exalam um perfume tão barato quanto o carácter de quem as oferece.

    Neste outdoor em Alcântara esteve antes um cartaz da campanha da coligação liderada pelo PS na corrida às autárquicas. No mesmo local, esteve também um cartaz a criticar Carlos Moedas. / Foto: D.R.

    A recente manifestação de “solidariedade” de Filipe Alves, director do Diário de Notícias, pertence, sem sombra de dúvida, a esta última categoria: um mimo de pacotilha disfarçado de magnanimidade pública, que não engana quem ainda conserva intactos o olfacto moral e a paciência para distinguir trigo de palha.

    Vejamos: o director do Diário de Notícias — esse mesmo que dirige um jornal cuja uma empresa está em falência técnica, atolada em dívidas ao Estado e que, em prodigiosa demonstração de opacidade, se recusa há 120 dias entregar a Informação Empresarial Simplificada na Base de Dados das Contas Anuais — publicou uma prosa melíflua na qual se apresenta como apóstolo da liberdade de expressão e mártir da tolerância. Fá-lo, no entanto, com a subtileza de um hipopótamo a dançar sobre cristais.

    Antes de manifestar a sua “solidariedade”, avisa os seus incautos leitores (nas redes sociais) de que recentemente não avançou judicialmente contra mim porque tem causas mais úteis para a sua saúde mental e familiar — uma forma oblíqua de insinuar que só um tresloucado me processaria, e que, em boa verdade, me não processa por magnanimidade, não por falta de razão. Nada seria mais enternecedor, não fosse isto apenas a antecâmara do seu golpe de rins.

    A “solidariedade” de Filipe Alves, director do Diário de Notícias.

    Porque o homem, para me conceder solidariedade, reincide nas mesmas acusações absurdas que pespegou o seu jornal em Agosto passado: repete que “não declaro rendimentos”, que confundo funções, que sou um disparate ambulante. Ou seja, a sua solidariedade é uma espécie de dádiva que lhe permite voltar a caluniar-me com redobrada condescendência. Isto não é solidariedade: é pulhice. Ainda mais quando arrisca ser obrigado pelo tribunal judicial a publicar direitos de resposta que me negou no jornal que, sendo já uma sombra decrépita do passado, conjunturalmente dirige.

    E depois vem o remate sublime: Filipe Alves — sempre com aquele tom de virgem ofendida por se ver apanhada num bordel — declara que “compreende e respeita as pessoas que se sentiram ofendidas” por aquilo que eu escrevi, entre os quais se encontram o seu colunista Filipe Froes e o seu querido e idolatrado Gouveia e Melo.

    E fá-lo sem demonstrar o menor interesse em saber o que está realmente em causa, como convém ao devoto que nunca questiona o oráculo. A sua melhor solidariedade seria enviar um jornalista ao julgamento para fazer jornalismo. Mas Filipe Alves dispensa inquéritos, factos e documentos: basta-lhe uma fé cega, conveniente e politicamente alinhada.

    Filipe Alves, primeiro à esquerda, na companhia de Marco Galinha, accionista de referência da Global Notícias, dona do DN, que ainda não apresentou contas de 2024.

    Mas a verdadeira pérola surge quando se refere à minha “forma de estar na vida”, para contrapor que é diferente da dele — supostamente mais elevada. Que sabe ele da minha vida, das minhas escolhas, do meu trabalho, do meu percurso? Nada — mas isso nunca impediu um hipócrita de pontificar. A solidariedade, aqui, não passa de pretexto para repetir insinuações, reavivar manipulações e tentar, com mão leve, embrulhar lama em papel de embrulho de Natal.

    Dir-me-ão: por que não o processo depois do que escreveu em Agosto e desta repetição pública. E a resposta é simples — mas tem de ser dita com franqueza. Primeiro, porque é de mau tom processar profissionais do mesmo métier, mesmo se maus — a punição deve ser concedida pelos leitores, algo que já sucede no caso do Diário de Notícias.

    Segundo, receio sinceramente que, perante a exuberância do seu texto e a fragilidade das suas ilações, um tribunal acabe por declará-lo inimputável, não por malícia, mas por generosa compaixão clínica.

    Terceiro, porque sempre me pareceu mais elegante brindá-lo, não com o estrépito da litigância, mas com aquilo a que os nossos prosadores oitocentistas chamariam umas bordoadas de pena: dou-lhe golpes de escrita à moda antiga, vibrados com a compostura aristocrática de uma luva de pelica, que não esmagam o corpo mas, com paciente crueldade, reduzem o amor-próprio do visado a pó — pó esse que nada mais é do que a decantação natural da lama retórica que os seus intestinos, usurpando funções ao cérebro, têm o deplorável hábito de esguichar sobre o mundo.

    Convenhamos: quem se aventura a escrever aquilo que Filipe Alves escreveu sobre mim não merece o solene aparato de um tribunal; merece antes os correctivos literários que outrora Camilo ou Eça reservavam aos espíritos tacanhos, que, não podendo elevar-se, insistem em rastejar.

    E aqui convém acrescentar também algo óbvio: a credibilidade do personagem está ao nível da tiragem do Diário de Notícias, e o impacto das suas palavras rivaliza com o de uma nota de rodapé mal impressa. Mas isso, em todo o caso, não me impede de sentir um profundo asco perante a teatralização deste súbito abraço simbólico, que mais não é do que uma tentativa de encenar generosidade onde só existe cálculo.

    Termino como comecei: há adversários cuja solidariedade se aceita, porque nasce da grandeza, da frontalidade, do respeito mútuo, mesmo quando se combate. Filipe Alves, director do Diário de Notícias, não é adversário de ninguém; é apenas um torpe homúnculo, desses seres civicamente anões que acreditam que gestos falsamente amáveis podem mascarar carreiras feitas de velhacaria ladina, petulância imberbe e hipocrisia saloia.

    Que me poupem, pois, às solidariedades de opereta. Prefiro a hostilidade honesta de quem assume a própria posição à solidariedade fingida dos que se ajoelham apenas para parecerem grandes.

    Assim, fica dito. Com a precisão e a higiene que o caso merece.

  • Eu, (mesmo) arguido, denuncio

    Eu, (mesmo) arguido, denuncio


    Esta quinta-feira, no Campus de Justiça, com a primeira de sete audiências, começa o meu julgamento que resultam de duas queixas-crime que, apesar de formalmente autónomas, nascem do mesmo caldo corporativo e político: o almirante Henrique Gouveia e Melo, a Ordem dos Médicos, o seu ex-bastonário Miguel Guimarães, e os médicos Filipe Froes e Luís Varandas decidiram que eu, Pedro Almeida Vieira, mereço estar sentado no banco dos arguidos, acusado de difamação e calúnia. E o Ministério Público foi atrás, sem sequer se incomodar sobre as notícias com factos que fui escrevendo sobre os visados ao longo destes anos.

    Não deixa de ser irónico — e, para quem tem sentido crítico, também esclarecedor — que este duplo processo judicial tenha sido brandido, noutro julgamento em curso, como ‘prova’ de que eu seria um ‘difamador intratável e profissional, alguém que deve ser silenciado judicialmente. Uma espécie de delinquente da palavra, um perigo social armado em jornalista. Eis o primeiro sinal: os lobos, quando querem parecer ovelhas, uivam em coro sobre a “honra” ferida.

    Mas vamos aos factos — porque são eles, sempre eles, que sustentam o meu trabalho.

    Quem é, afinal, o arguido?

    Sou o mesmo cidadão e jornalista que lutou três anos para obrigar a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) a libertar 38 milhões de registos hospitalares dos últimos 25 anos — dados essenciais para escrutínio científico e jornalístico, indevidamente escondidos pelo Estado. A minha luta resultou numa sentença, em dois acórdãos e numa sanção pecuniária compulsória dirigida pessoalmente aos quatro membros do Conselho Directivo.

    Sou também o cidadão que recorreu à Justiça por mais de duas dezenas de vezes para defender o direito constitucional de acesso à informação pública, vendo até o Conselho Superior da Magistratura — imagine-se — resistir ilegalmente à entrega de documentos. Neste caso, só cedeu quando uma sentença do Tribunal Administrativo ameaçou, novamente, com um sanção compulsória o próprio presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Cura Mariano.

    Sou ainda o jornalista que, ao longo de quatro anos, escreveu críticas e investigações fundamentadas em documentos, análises estatísticas rigorosas, conhecimento académico e escrutínio independente — num país onde a transparência continua a ser vista como afronta, e onde certos poderes só aceitam elogios, nunca perguntas.

    woman holding sword statue during daytime

    A ironia dos processos

    Dizem que os processos judiciais são cegos a conveniências. Permitam-me sorrir. Aqui, a ironia é demasiadamente luminosa para ser ignorada.

    A queixa da Ordem dos Médicos e dos seus três digníssimos representantes — Miguel Guimarães, Filipe Froes e Luís Varandas , que se assumem como funcionários públicos para nem sequer pagarem custas de justiça nem honorários dos advogados— nasce directamente de uma intimação que apresentei em 2022 para aceder aos documentos operacionais e contabilísticos da campanha “Todos por Quem Cuida”. Uma campanha com mérito, sem dúvida, mas envolvida em indícios sérios de contabilidade paralela, fuga ao fisco e declarações falsas — matéria sobre a qual, pasme-se, ainda se aguarda decisão do Ministério Público sobre as ilegalidade cometidas por, entre outros, a própria ministra da Saúde.

    Ora, a primeira vez que soube que os três médicos e a Ordem me queriam criminalmente perseguir foi… no meio desse processo administrativo.

    Na ausência de argumentos legais, tentaram convencer um juiz do Tribunal Administrativo de Lisboa de que eu não deveria ter acesso aos documentos da campanha porque estaria, alegadamente, ‘a perseguir’ os senhores doutores escrevendo sobre as suas ligações à indústria farmacêutica durante a pandemia. A tentativa foi tão ridícula quanto reveladora: queriam impedir um direito cívico através de uma acusação pessoal fantasiosa.

    Ana Paula Martins e Miguel Guimarães foram dois dos gestores (em conta pessoal) da campanha “Todos por quem cuida”: a participação criminal contra o director do PÁGINA UM foi feita para tentar evitar o acesso aos documentos.

    O Tribunal, naturalmente, não foi na conversa.

    Mas a Ordem dos Médicos tem bolsos profundos — ou melhor, tem as quotas de todos os médicos, que financiam estas aventuras — e a queixa criminal seguiu viagem, permitindo que os três “ofendidos” se pudessem exibir como vítimas da minha suposta maldade.

    E o almirante?

    Quanto ao almirante Gouveia e Melo, a sua queixa existe apenas porque, ao analisar os documentos da mesma campanha — entregues por ordem judicial — encontrei evidências de negociações entre ele e o então bastonário Miguel Guimarães para vacinar médicos não prioritários, ao arrepio das normas da Direcção-Geral da Saúde (DGS), envolvendo uma compensação monetária ao Hospital das Forças Armadas.

    À data, lembre-se, Gouveia e Melo era adjunto do Planeamento do Estado-Maior-General das Forças Armadas, o que torna a operação ainda mais sensível.

    Relatei factos. Apresentei documentos. Registos de e-mails. E, por isso, estou hoje aqui: arguido.

    A reputação em julgamento?

    Durante as sete audiências, sei bem o que me espera.
    Sei que tentarão descredibilizar o meu carácter, a minha idoneidade, o meu profissionalismo. Que tentarão transformar três décadas de jornalismo rigoroso, três licenciaturas, um mestrado, um doutoramento em curso, dezena e meia de livros e zero máculas profissionais numa caricatura de “delinquente digital”.

    Nada disso me surpreende. Quando o poder é confrontado com factos, tenta destruir o mensageiro.

    Gouveia e Melo

    Uma fé racional na Justiça

    Apesar de tudo, acredito na Justiça. Critico-a, sim — porque não está acima da crítica, e nunca poderá estar numa democracia madura. Mas acredito na Justiça porque, ao longo dos últimos anos, recorri a ela mais de vinte vezes para defender direitos fundamentais: acesso à informação, transparência, fiscalização do poder público.

    E ganhei grande parte dos casos. Ganhei repetidamente, quando a derrota seria o mais natural, por cansaço. E é por isso que aqui estou: porque me querem calar porque incomodo, e querem incomodar-me com julgamentos contínuos até me convencerem que não vale a pena denunciar. Aviso que ainda estão longe dessa vitória.

    Se for condenado…

    Não vou dizer aqui que estou inocente — a “inocência” é a palavra usada para quem se tem de defender de uma suspeita de culpa, e eu jamais aceitarei esse enquadramento. Não estou aqui para me limpar de suspeitas: estou aqui porque, com a permissão e consentimento do Ministério Público, me acusam de difamação e calúnia, porque, tendo eu confiado nos belos princípios da Constituição de uma República democrática, escrevi com base em documentos, investiguei factos, confrontei poderes e cumpri o meu dever de jornalista e cidadão.

    Mas se, porventura, hélas, vier a ser condenado, antecipo já que parafrasearei Galileu Galilei — que, em boa verdade, nunca disse a frase que lhe é atribuída, apócrifa embora célebre.

    Marble statue of a bearded man holding scroll

    Dizem que, depois de forçado a renegar o heliocentrismo, Galileu murmurou: “E, no entanto, move-se.”

    E eu direi então:

    “E, no entanto, investiguei.”
    “E, no entanto, revelei.”
    “E, no entanto, era verdade.”

    Porque, tal como a Terra não deixou de girar só porque a autoridade no século XVII assim o exigia, também os factos não deixam de existir porque incomodam ordens, almirantes ou corporações no século XXI.

    Por tudo isso, eu, mesmo arguido, denuncio.

    E continuarei a denunciar.

    Porque esse é — e será sempre — o meu dever.

    ***

    AGENDA DO JULGAMENTO

    1) 20 de Novembro – 09h00

    (com eventual continuação às 14h00)
    – Declarações do arguido Pedro Almeida Vieira
    – Declarações dos Assistentes da Ordem dos Médicos:
     • Bastonário Carlos Cortes
     • José Miguel Ribeiro de Castro Guimarães


    2) 25 de Novembro – 09h00

    (com eventual continuação às 14h00)
    – Declarações dos Assistentes:
     • Luís Filipe Froes
     • Luís Manuel Varandas
     • Henrique Gouveia e Melo


    3) 27 de Novembro – 09h00

    (com eventual continuação às 14h00)
    – Inquirição das três testemunhas de acusação
     (processо 144/23.0T9LSB)


    4) 2 de Dezembro – 09h00

    (com eventual continuação às 14h00)
    – Inquirição das primeiras oito testemunhas do PIC
     (processо 1076/22.5T9LSB)


    5) 4 de Dezembro – 09h00

    (com eventual continuação às 14h00)
    – Inquirição das restantes sete testemunhas do PIC
     (processо 1076/22.5T9LSB)


    6) 9 de Dezembro – 09h00

    (com eventual continuação às 14h00)
    – Inquirição das três testemunhas de defesa
     (processо 144/23.0T9LSB)
    – Inquirição de duas testemunhas de defesa
     (processо 1076/22.5T9LSB)


    7) 11 de Dezembro – 09h00

    (com eventual continuação às 14h00)
    – Inquirição das últimas cinco testemunhas de defesa
     (processо 1076/22.5T9LSB)
    – Demais actos da audiência

  • O rei vai nu, ou o estado psicótico da Justiça

    O rei vai nu, ou o estado psicótico da Justiça


    Há momentos na vida de um país em que não basta revelar factos: mostra-se necessário afirmar, com todas as letras, que o rei vai nu. O concurso para ingresso no Centro de Estudos Judiciários (CEJ), retratado em exclusivo pelo PÁGINA UM — um procedimento que deveria ser o expoente do rigor, da transparência e da seriedade republicana, consistindo assim num exemplo aos futuros magistrados — transformou-se num exercício de nonsense científico e institucional que envergonha qualquer nação minimamente adulto.

    A utilização, para selecção de futuros juízes e procuradores, de um questionário psicológico com 344 perguntas, muitas delas próprias de um consultório de psiquiatria do século XIX ou de um inquérito de revista cor-de-rosa, não é apenas um erro técnico: é um abuso institucional, uma confusão profunda entre Estado e devassa, entre avaliação e intrusão, entre mérito e psicometria de papel químico.

    Imagem produzida por inteligência artificial em estilo Caravaggio.

    É absurdo — e não há adjectivo mais suave para usar — que candidatos a magistrados tenham sido obrigados a responder se têm diarreias frequentes, se já pensaram suicidar-se, se acordam a meio da noite com palpitações, se coleccionam selos, se ouvem vozes, se gostam de conduzir depressa, se sentem “vazio interior”, se têm impulsos de partir coisas, ou ainda se o seu “poeta favorito é Daniel Sampaio”.

    Não estamos perante um exame de aptidão.

    Estamos perante uma sondagem estatal à intimidade, uma recolha digna de um laboratório de psiquiatria autoritária — e, ironicamente, validada pela Ordem dos Psicólogos, que deveria ser a primeira a denunciar a caricatura científica do instrumento.

    Além disso, o CEJ deveria ter tido o mínimo de prudência institucional. Não teve.

    Fernando Vaz Ventura, ex-director do CEJ e actual juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, foi o responsável pelos procedimentos para a admissão dos formandos para os cursos de magistrados.

    A Ordem dos Psicólogos deveria ter defendido a ética da avaliação. Não defendeu.

    O Ministério da Justiça deveria ter questionado a proporcionalidade e a legalidade do método, até porque foi a ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, que assinou o despacho a nomear a empresa de um psicólogo e comentador da SIC, a Talking About. Ignorou.

    E os candidatos deveriam ter-se insurgido contra um obrigatório inquérito intrusivo para o qual foram coagidos, ainda por cima, a assinarem um patético “consentimento informado”. Acobardaram-se

    O resultado está à vista: um concurso contaminado por um teste que nunca deveria ter sido aplicado, que falhou redondamente na sua função e que, perante a razia da avaliação da Talking About, acabou desautorizado pelos próprios psicólogos que foram chamados a corrigi-lo. Nove em cada dez reprovações foram revertidas — o que revela, de forma cristalina, que o teste não mediu o que prometia medir e que a Talking About faz um deplorável trabalho de avaliação.

    Um inquérito perfeitamente desajustado ao objectivo, com uma Ordem dos Psicólogos incapaz de admitir o óbvio por uma questão corporativa.

    Não estou a exagerar no qualificativo, pois tem um aspecto quantitativo associado: nove em dez reprovações jamais deveriam ter sucedido. Não ser admitido numa carreira profissional, depois de meses de estudos e provas de Direito, por causa de uma avaliação psicológica atamancada é mais do que injusto: é inaceitável.  E ainda mais grave quando se sabe que Mauro Paulino, o gerente da empresa, elabora avaliações forenses. Mostra-se legítimo questionar se as suas avaliações, usadas em julgamentos, também têm um erro de 90%.

    Quando uma ferramenta científica reprova em série e a revisão técnica corrige quase tudo sem esforço, a conclusão não é difícil: a falha não estava nos candidatos — estava no método.

    Pior ainda: o teste serviu como instrumento de exclusão, não de selecção. E serviu como filtro arbitrário — e opaco — num processo que deveria ser exemplar em justiça e robustez.

    Contudo, não culpemos apenas Mauro Patrício e os psicólogos que o assessoraram, nem a Ordem dos Psicólogos – onde ele integra o Conselho Jurisdicional –, que veio em seu socorro validar o invalidável.

    O Ministério da Justiça não pode lavar as mão de um processo esconso argumentando com a autonomia administrativa do CEJ.

    Este inquérito revela que há algo de profundamente inquietante quando o Estado passa a exigir confissões íntimas que nada têm a ver com a competência para julgar. Isto é a medicalização da vida pública, o moralismo burocrático mascarado de ciência, o regresso — agora com assinatura digital — da velha pulsão higienista que tantos estragos fez no passado.

    Portugal não precisa de juízes que se confessem em 344 itens.

    Portugal precisa de juízes que conheçam a lei, que apliquem a lei e que se mantenham independentes face ao poder político, face ao poder económico e, já agora, face aos modismos pseudocientíficos.

    Por isso, tudo que este episódio revela é grave. Temos uma ‘escola de magistrados’ fragilizada e permeável a práticas avaliativas sem escrutínio. Temos uma Ordem dos Psicólogos incapaz de assumir que errou na defesa corporativa do método. Temos um Ministério da Justiça que, conhecendo as polémicas dos últimos meses, preferiu assobiar para o lado. E temos um país que aceita com uma passividade perigosa que a escolha dos seus magistrados dependa de respostas sobre hábitos intestinais e palpitações nocturnas.

    Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos: será pior um inquérito desta natureza ser aplicado para avaliar futuros juízes ou defender a sua aplicabilidade?

    Há momentos em que a moderação é cumplicidade. E este é um deles.

    Se o Estado quer magistrados competentes, comece por ser competente.

    E se o sistema de Justiça quer credibilidade, que deixe de procurar loucuras nos candidatos e comece a procurar lucidez nos seus próprios corredores.