Categoria: Editorial

  • O revisionismo no jornalismo lusitano: o caso da Visão, ou como o Estado agradecerá os donativos

    O revisionismo no jornalismo lusitano: o caso da Visão, ou como o Estado agradecerá os donativos


    No jornalismo não basta invocar palavras nobres — “independência”, “qualidade”, “liberdade” — para que estas recuperem automaticamente o sentido que perderam. Há marcas que se gastam. Há títulos que se tornam resíduos simbólicos. E há redacções que, por acção ou por omissão, atravessam processos históricos decisivos sem jamais prestarem contas do papel que desempenharam. A revista Visão é hoje um desses casos.

    A campanha de angariação de fundos lançada por um grupo de jornalistas da Visão, apresentada como um gesto de resistência cívica e defesa do jornalismo independente, assenta numa premissa falsa e num exercício de amnésia selectiva: a ideia de que a Visão é, ou foi recentemente, um bastião de jornalismo livre, crítico do poder e imune a agendas. Não foi. E não é.

    Na verdade, aquilo que está em curso não é apenas uma recolha de fundos para adquirir um título em leilão da massa insolvente da Trust in News: é um processo de reescrita da história recente. Pretende-se separar artificialmente a marca Visão do jornalismo que efectivamente produziu nos últimos anos, como se a responsabilidade editorial pudesse ser depositada num vácuo metafísico chamado “gestão” ou “contexto”. Não pode.

    A Visão foi o epicentro de uma operação financeira em 2018, nunca devidamente explicada, de alienação do portefólio de revistas da Impresa — que implicou a assumpção de perdas por imparidade de 23,2 milhões de euros por parte do grupo da família Balsemão — para uma empresa com 10 mil euros de capital social, dirigida por Luís Delgado.

    A venda foi anunciada por 10,2 milhões de euros, mas nunca foi cumprido qualquer plano de pagamentos. Tudo evidencia que se tratou de um negócio de fachada para transferir um ‘buraco financeiro’ da Impresa e lesar, mais tarde ou mais cedo, os contribuintes. Só num país de compadrio e sem regulação séria se pode admitir uma transacção desta natureza, ainda mais envolvendo tantos periódicos.

    Visão: um jornalismo que viveu ladeado pelo poder e que agora quer sobreviver através de um revisionismo. Foto: DR.

    Desde cedo, a Trust in News, com a Visão à cabeça, acumulou incumprimentos fiscais e contributivos, opacidade contabilística e um passivo crescente. Um passivo que hoje recai, sobretudo, sobre o Estado — Segurança Social e Autoridade Tributária —, o principal credor da Trust in News, com estatuto prioritário. Tudo isto enquanto a Visão via as vendas descambarem: no terceiro trimestre de 2017 ainda estava acima dos 60 mil exemplares por edição; no final de 2023, último ano com dados auditados, não chegava aos 24 mil. Nos últimos tempos, consta que vende menos de 10 mil.

    É aqui que o discurso moral da campanha dos “12 resistentes” jornalistas da Visão, agregados num grupo auto-denominado “Movimento Imprensa Livre” (MIL), colapsa por completo. O dinheiro que está a ser angariado junto dos leitores para “salvar a Visão” não servirá, na prática, para fazer jornalismo. Servirá, isso sim, para compensar muito parcialmente o Estado pelo buraco deixado por Luís Delgado. E, ainda assim, será uma gota de água num passivo milionário (mais de 30 milhões de euros), é certo, mas suficiente para permitir que a marca continue a circular como se nada tivesse acontecido.

    Portanto, a angariação de fundos que já mobilizou quase cinco mil doadores não visa qualquer investimento editorial; trata-se de uma operação de saneamento simbólico de uma insolvência privada à custa da boa-fé dos leitores. Basicamente, o Estado agradece esse “donativo”.

    Mais: se os jornalistas promotores desta campanha quisessem, de facto, usar os mais de 200 mil euros já angariados para fazer jornalismo “limpo”, independente e sem heranças tóxicas, não precisariam de tentar comprar uma marca já registada e penhorada. Bastava-lhes registar uma nova marca no INPI — um procedimento que custa cerca de 160 euros —, criar uma nova newsmagazine e investir os mais de 200 mil euros de dinheiro já angariado nas primeiras fases da estrutura da redacção.

    Aliás, nomes disponíveis de jornais mortos ao longo de décadas e décadas não faltam. O próprio PÁGINA UM (re)nasceu assim em 2021, registando-se uma marca que já fora utilizada pelo menos duas vezes: primeiro como programa da Rádio Renascença (que chegou a ser suspenso em 1972 pelo Estado Novo) e depois como jornal de extrema-esquerda, criado em 1976 por Carlos Antunes e Isabel do Carmo. Usar um título “penhorado” com o dinheiro de donativos seria, para mim, uma insanidade. Ainda mais se tivesse de pagar 200 mil euros, que representam o orçamento dos primeiros três anos do PÁGINA UM.

    Os jornalistas “resistentes da Visão”, através do MIL, optam assim por tentar gastar 200 mil euros numa marca — Visão —, através de uma operação que nem sequer tem garantias de ser bem-sucedida, por estar em causa um leilão. Preferem comprar uma marca, entregando dinheiro que vai para o Estado, a começar um projecto renovado.

    Luís Delgado e Francisco Pedro Balsemão, presidente-executivo da Impresa, na assinatura do acordo de venda do portefolio tóxico de publicações da Impresa Publishing, que foi celebrado em Janeiro de 2018, aliviando a crise financeira em que se encontrava o grupo dono do Expresso e da SIC. O Novo Banco financiou a operação e também comprou no mesmo ano o edifício-sede à Impresa. / Foto: D.R.

    E é aqui que entro em conflito, porque mais grave do que a degradação financeira da Trust in News foi a degradação editorial da Visão. Aparentemente, os jornalistas do MIL insistem em colocar a Visão como o último dos moicanos do jornalismo pátrio — e isto é já profundamente ofensivo. Durante anos, esta revista tornou-se um exemplo acabado de jornalismo situacionista, particularmente durante o Governo socialista e a pandemia, adoptando uma postura de alinhamento quase militante com o poder político, com as autoridades sanitárias e com a narrativa oficial dominante. Quem questionava, quem investigava, quem pedia documentos, quem exigia contraditório verdadeiro, era tratado como herege, conspiracionista ou irresponsável.

    Sob a direcção de Mafalda Anjos, a Visão não apenas falhou no escrutínio do poder: perseguiu activamente quem ousou fazê-lo fora da cartilha autorizada. E esta jornalista, que saiu do barco quando este estava a naufragar — e tinha especiais responsabilidades porque, como publisher das revistas e directora da Visão durante anos, tinha o direito e a obrigação de conhecer as contas —, chegou mesmo a reputar como “fantasiosas” as investigações do PÁGINA UM que revelaram, em Julho de 2023, o descalabro financeiro da Trust in News. Desqualificou jornalismo sério, enquanto protegia uma estrutura empresarial insustentável, beneficiária de complacência institucional, silêncio regulatório e indulgência política.

    E afinal, os jornalistas da Visão, incluindo muitos do MIL, nem sequer se aperceberam que a marca já estava penhorada pelo Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social desde o ano 2020. Convenhamos que jornalistas que nem sequer sabem bem o que se passa na sua loja não podem dar uma boa visão do que se passa na sua rua quanto mais no mundo.

    Foto: PÁGINA UM

    É esta mesma Visão que agora se apresenta como símbolo de “jornalismo independente”? É esta marca que se quer salvar, como se fosse um património moral da democracia portuguesa?

    Não. Aquilo que está em causa não é salvar jornalismo. É salvar uma marca tóxica, profundamente associada a um período de mau jornalismo, de promiscuidade com o poder, de falência ética e de colapso financeiro que já custou mais de 15 milhões de euros aos contribuintes portugueses. E fazê-lo sem uma única palavra de mea culpa, sem um único balanço crítico, sem uma linha de autocrítica.

    Os jornalistas que hoje angariam mais de 200 mil euros — com uma eficácia notável, diga-se, por via da solidariedade mediática da imprensa tradicional, que de forma corporativista não parou de lançar loas ao MIL — até demonstram que existe capital humano, capacidade de mobilização e apoio público. O PÁGINA UM, de uma forma mais modesta, tem mostrado essa evidência: é um jornal em acesso livre, sem publicidade nem parcerias comerciais, mas que consegue sobreviver e crescer apenas com donativos dos leitores.

    Rui Tavares Guedes, director da Visão, em campanha de angariação de fundos do MIL. O jornalista foi director adjunto da Visão entre Janeiro de 2007 e Setembro de 2016, depois director executivo entre Outubro de 2016 e Dezembro de 2023, e director desde Janeiro de 2024. Atravessou todo o período de descalabro financeiro da Visão, desde os tempos da Impresa, e sobretudo na gerência da Trust in News, sem ver nada,,, talvez porque fechou os olhos.

    Mas é precisamente por isso que a opção tomada pelo MIL é ainda mais grave. Com esse apoio, com essa legitimidade, poderiam criar de raiz uma nova newsmagazine, liberta do peso simbólico da Visão, sem heranças tóxicas, sem pactos implícitos, sem necessidade de limpar o passado.

    Não o fizeram. Preferem gastar dinheiro de donativos (mais de 200 mil euros) e comprar a marca. Apropriar-se da memória selectiva. Fingir que a história começa agora, aproveitando, em todo o caso, um valor de marca. Nesse aspecto, demonstram sobretudo preguiça e falta de coragem.

    Em suma, este editorial não questiona o direito de nenhum jornalista a lutar pelo seu trabalho. Questiona, isso sim, a honestidade intelectual de um discurso que pretende fazer crer que a Visão “não existe sem os seus jornalistas”, quando foram precisamente decisões editoriais tomadas por jornalistas — não por administradores invisíveis — que contribuíram para a perda de credibilidade do título.

    A bustling urban street filled with people walking in the sunlight.

    Acredito que há marcas que não merecem ser salvas. Há nomes que precisam de morrer para que algo melhor possa nascer. Enterrar a Visão enquanto marca seria um acto de higiene democrática, não um atentado ao jornalismo. O jornalismo não vive de títulos históricos nem de nostalgia de bancas. O jornalismo não é fetichismo de logótipos nem nostalgia de bancas — é feito de prática, de ética, de método, de coragem e de ruptura.

    Por isso, se surgisse um mecenas que, em leilão, batesse a proposta do MIL e adquirisse a marca Visão apenas para impedir o seu uso futuro, estaria a prestar um serviço à higiene do espaço mediático português. Talvez então os jornalistas do MIL ganhassem, finalmente, visão. E talvez o dinheiro agora angariado pudesse ser usado para aquilo que realmente importa: em vez de entregar dinheiro ao Estado para tapar um ‘buraco privado’, criar uma newsmagazine nova, exigente, sem culpas herdadas, sem revisionismos, sem necessidade de fingir que nada aconteceu.

  • 8 Unidades de Conta: Os casos (também) julgam os tribunais

    8 Unidades de Conta: Os casos (também) julgam os tribunais


    Disse-me um antigo juiz desembargador, não há muito tempo, uma frase que ficou a ecoar: um tribunal julga um caso, mas um caso também julga um tribunal. Não a disse com cinismo, mas com a gravidade de quem sabe que a Justiça, além de decidir, se expõe; além de aplicar a lei, se dá a ver; além de condenar ou absolver, se revela.

    Essa frase aplica-se, inteiramente, ao julgamento que decorre no Tribunal da Comarca do Porto (também conhecido por Tribunal do Bolhão), onde estou a ser julgado por 31 crimes de difamação – ou seja, por alegado abuso da liberdade de expressão num país democrático (não numa ditadura) – contra Gustavo Carona, um médico que, durante a pandemia, encontrou nos media uma ribalta permanente, sustentada na retórica do medo e da urgência, no alarme contínuo que dividiu cidadãos entre bons e maus, entre responsáveis e irresponsáveis.

    ‘Banco dos réus’ onde me tenho sentado no julgamento no Tribunal do Bolhão.

    Entre as imputações que me são feitas contam-se algumas que dispensariam comentário ou então comentários jocosos – não fosse o facto de serem hoje objecto de acusação criminal: no contexto da pandemia da covid-19, eu critiquei-lhe um mau poema; recorri a alcunhas — Full HD e Braveheart de Leixões — ambas por antonomásia irónica, no registo satírico que a liberdade de expressão protege há séculos; afirmei que o visado não possuía especialidade de Medicina Intensiva —algo que, a 5 de Dezembro de 2025, se mantinha factual, tanto assim que o próprio bastonário o confirmou por oficio — e, por fim, apontei-lhe contradições, omissões e mentiras reiteradas ao longo da pandemia, no exercício de cidadania crítica (de que uso desde os anos 1990) e que, mais tarde, mostrou a genética do PÁGINA UM.

    No início, confesso, surpreendeu-me sobretudo que em 2025 o Ministério Público português ainda subscrevesse uma acusação desta natureza, mais típica de sistemas anti-democráticos do que de uma democracia plena — sobretudo quando o arguido é um jornalista e os factos imputados se inserem no debate público, na crítica e na sátira.

    Hoje, porém, aquilo que mais me surpreende não é já a acusação em si, mas a condução das audiências e, sobretudo, a leitura que delas fez o Tribunal da Relação do Porto, quando, após uma sessão atribulada onde pareceu que valeu tudo para me ser feita um ‘julgamento de carácter’ — e não sobre a matéria factual — me decidi a apresentar um incidente de recusa da juíza deste processo para o Tribunal da Relação do Porto. O acórdão sai ontem, indeferindo o pedido e aplicando-me custas de oito Unidades de Conta (UC), que representarão uma penalidade de 816 euros (102 euros por cada UC).

    Um dos 31 crimes, subscritos pelo Ministério Público, é este: gozar com um mau poema de Gustavo Carona que voluntariamente publicou nas redes sociais.

    Não podendo por lei divulgar ainda esse acórdão por estar apenso ao julgamento em curso — mas será um dia, daí que o título deste editorial —, pode-se dizer, segundo a minha interpretação como jornalista (em causa própria, é certo), que os desembargadores passaram ao lado do essencial, refugiando em fórmulas e desvalorizando aquilo que, felizmente, ficou integralmente gravado e que um dia será conhecido para lá da retórica habitual. Sim, porque uma das grandes vantagens dos julgamentos é a sua gravação para memória futura.

    De facto, quando um tribunal superior considera normal que se peça, antes mesmo de ser iniciada qualquer audiência, uma avaliação prévia das condições de vida de um arguido de ‘folha limpa’— questionando se eu, como jornalista, até se tenho água corrente em casa, como passo os meus tempos livres ou se tenho conflitos com vizinhos —, querendo ignorar que tal diligência apenas está prevista quando há indícios de condenação; quando sanciona com oito UC o simples acto de me insurgir contra desvios processuais; quando normaliza uma condução de audiência que, a meu ver, revela uma quebra grave da aparência de imparcialidade (e quando se puderem revelar as gravações ouvir-se-á isso mesmo); então já não estamos apenas a julgar um caso. Estamos a observar um tribunal a julgar-se a si próprio.

    Depois deste acórdão do Tribunal da Relação do Porto, que em nada se debruça sobre matérias de facto (a questão a dirimir era apenas a imparcialidade da juíza), não escondo já que a minha expectativa quanto a uma absolvição em Portugal é hoje limitada. O episódio do incidente de recusa, que no nosso país é quase sempre indeferido pela Relação (temerosos de se abrirem caixas de Pandora), serviu também como ‘statement’. Digo-o sem dramatismo, mas também sem fingimento. Não se trata de antecipar sentenças nem de clamar perseguições; trata-se somente de reconhecer padrões, atitudes e leituras que, acumuladas, não permitem grande optimismo.

    Gustavo Carona

    Apesar disso, e apesar de ainda restarem audiências nas quais apresentarei testemunhas de defesa, não alimento ilusões convenientes. Poderia optar pela água morna, repetir os lugares-comuns sobre a confiança abstracta na Justiça, vestir a prudência retórica que tantos aconselham. Nunca o farei. Mantenho tudo o que disse sobre Gustavo Carona como verídico e como enquadrado na liberdade de expressão. E continuarei a dizer. E não o faço por bravata, mas por lucidez.

    Os últimos quatro anos — marcados pelo confronto do PÁGINA UM com alguns poderes instituídos e instalados, incluindo até o Conselho Superior da Magistratura (onde se consegui obrigar o seu presidente, simultaneamente presidente do Supremo Tribunal de Justiça, a dar acesso a documentos sob pena de multa — condicionam inevitavelmente a forma como encaro este julgamento.

    A minha esperança — e essa sim muito realista — desloca-se para os recursos a este julgamento no Tribunal do Bolhão e, sobretudo, para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Não por fetichismo internacionalista, mas por experiência empírica: Portugal tem sido, de forma reiterada, condenado e envergonhado pela sua postura relativamente à liberdade de expressão e à liberdade dos jornalistas.

    Um dos casos recentes, envolvendo o antigo embaixador Seixas da Costa, foi curiosamente como epicentro inicial o mesmo Tribunal do Bolhão. Mas só no ano passado, salvo erro, houve quatro ‘reversões’ de sentenças envolvendo liberdade de expressão. Olhar para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos como o sítio mais relevante não se trata de hostilizar a Justiça portuguesa: trata-se apenas de reconhecer que há sistemas que, por hábito, por medo do precedente ou por fechamento corporativo, esvaziam conceitos que deveriam ser estruturantes, como o da liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e a aparência de imparcialidade.

    Este editorial não é, por isso, um apelo à impunidade, nem um ajuste de contas pessoal — é um registo para memória futura. Um lembrete de que a Justiça não se esgota na sentença, nem se protege com multas pedagógicas. Protege-se com transparência, com coragem institucional e com respeito efectivo pelos direitos fundamentais — mesmo quando o arguido incomoda, mesmo quando escreve com ironia, mesmo quando satiriza. Porque é precisamente nesses casos que a democracia se mede.

    Este caso julgará um tribunal. E é o tempo que ditará o veredicto.

  • Efeitos adversos em Portugal: os párias de um deus menor

    Efeitos adversos em Portugal: os párias de um deus menor


    Na retórica da “saúde pública” atinge-se, demasiadas vezes, um ponto em que esta se transforma em álibi moral para a desresponsabilização do Estado. Esse ponto é atingido, por exemplo, quando o poder político, em nome de um bem colectivo abstracto, aceita silenciosamente que os danos concretos sofridos por cidadãos reais sejam tratados como meros infortúnios privados.

    A postura do Governo — não apenas do actual, mas, de forma particularmente eloquente, da ministra da Saúde, Ana Paula Martins — perante as reacções adversas a medicamentos e vacinas revela uma opção política clara: a de proteger o sistema, proteger a indústria e proteger a narrativa, mesmo que isso implique abandonar quem, por azar biológico, predisposição genética ou simples contingência estatística, foi prejudicado por um fármaco que lhe foi administrado sob recomendação, pressão ou enquadramento do próprio Estado.

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    Convém começar pelo óbvio, para evitar caricaturas: o sector farmacêutico foi e é decisivo para o progresso da Medicina, para o aumento da esperança média de vida e para o controlo de inúmeras doenças. Mas a maturidade de uma política pública mede-se precisamente na capacidade de lidar com o que corre mal, e não apenas com o que corre bem. No meio do trigo, há sempre joio. E, por vezes, há mesmo azares trágicos. Não existem medicamentos 100% seguros. Nunca existiram. Nunca existirão.

    Por isso, os Estados modernos — e sublinhe-se: modernos há décadas — criaram sistemas de indemnização “no-fault”, assentes num princípio simples de justiça distributiva: quando o risco residual decorre de uma política pública legítima, esse risco não pode ser suportado apenas pelo indivíduo lesado. A colectividade beneficia; a colectividade responde.

    Contudo, Portugal recusa esse princípio.

    E o problema não é apenas jurídico, administrativo ou financeiro — é, antes de mais, humano. As pessoas que sofrem reacções adversas — algumas raras, outras graves, outras ainda incapacitantes ou permanentes — enfrentam frequentemente uma segunda violência, mais silenciosa e mais corrosiva: a negação institucional da sua própria condição. Não apenas não são indemnizadas; muitas vezes nem sequer são reconhecidas.

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    São cidadãos que, ao procurarem ajuda no SNS, se deparam com médicos que recusam aceitar, sequer como hipótese académica, a possibilidade de nexo causal entre o medicamento administrado e os sintomas apresentados. Em muitos casos, porque médicos ‘lobbistas’ da indústria farmacêutica inculcam na opinião pública que a simples referência à existência de efeitos colaterais significa negar os benefícios. Assim, encontram serviços que evitam aprofundar investigações clínicas, processos de farmacovigilância estática que se esgotam em recolher sem nexo dados agregadas e uma cultura institucional que parece temer que reconhecer esses casos “crie pânico”.

    Mas o pânico nunca nasce do rigor científico nem da transparência institucional. O pânico nasce quando os cidadãos percebem que, se algo correr mal, o Estado os abandonará. Que poderão ser tratados como incómodos estatísticos, como ruído indesejado numa narrativa de sucesso, como danos colaterais aceitáveis. O pânico nasce quando se instala a convicção de que há vítimas de primeira e vítimas de segunda, cidadãos protegidos e cidadãos descartáveis.

    E esse pânico é racional.

    Não estamos a falar de abstrações nem de fantasias colectivas. Estamos a falar de pessoas reais, com nomes, histórias clínicas documentadas, vidas profundamente alteradas ou mesmo ceifadas. Algumas terão sido vítimas de infortúnio estatístico; outras, de negligência médica; outras ainda de decisões empresariais marcadas por excesso de pressa, insuficiente prudência ou ambição sem escrúpulos. Usar o silêncio, a negação ou o desdém institucional como resposta política não protege a saúde pública — mina-a.

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    Na passada segunda-feira, como o PÁGINA UM noticiou, uma petição subscrita por 3.019 cidadãos deu entrada na Assembleia da República, exigindo a criação de um Programa Nacional de Indemnizações para vítimas de reacções adversas às vacinas contra a covid-19. A iniciativa não cria um problema novo: limita-se a tornar visível um problema estrutural que Portugal arrasta há décadas. O país continua a integrar um núcleo residual de Estados europeus que não dispõe de qualquer mecanismo administrativo de compensação por danos farmacológicos — nem para vacinas da covid-19, nem para o Programa Nacional de Vacinação, nem para medicamentos em geral.

    Este atraso não se explica por dificuldades técnicas, nem por impossibilidades jurídicas. Explica-se por opção política consciente — uma opção que aceita o princípio da compensação quando tal é promovido em fóruns internacionais, mas o rejeita quando estão em causa responsabilidades internas do Estado.

    Essa opção torna-se ainda mais grave quando se observa o papel do Infarmed. O sistema nacional de farmacovigilância reconhece estatisticamente a existência de reacções adversas, mas não fornece aos cidadãos qualquer instrumento eficaz para estabelecer nexo de causalidade individual com efeitos indemnizatórios. O Estado reconhece que os efeitos adversos existem; recusa assumir as suas consequências. Trata-se de uma arquitectura institucional perfeita para a desresponsabilização.

    Ana Paula Martins, ministra da Saúde.

    A ironia aproxima-se do grotesco quando se constata que Rui Santos Ivo, presidente do Infarmed com passado profissional na indústria farmacêutica, ascendeu no ano passado à presidência da Agência Europeia do Medicamento (EMA). Ao contrário da esmagadora maioria dos países abrangidos pela EMA, Portugal continua a remeter as vítimas para uma via judicial kafkiana, lenta, onerosa e, na prática, quase inacessível e de impossível vitória. Ao invés, um cidadão vacinado num país africano de baixo rendimento, ao abrigo da COVAX, dispõe hoje de um mecanismo administrativo de compensação que um cidadão português não tem.

    Confrontado pelo PÁGINA UM com questões directas, técnicas e factualmente sustentadas — que perguntam, sem rodeios, se o Governo considera aceitável transferir integralmente para os cidadãos o risco residual de políticas públicas de saúde —, o Ministério da Saúde optou pelo silêncio absoluto. Nem uma linha de resposta. Nem um argumento. Nem um esboço de justificação. Três assessoras de imprensa não chegaram para produzir uma resposta nem que fosse a dizer que a ministra está a borrifar-se para o assunto — ou, vá lá, para o PÁGINA UM. Neste contexto, o silêncio não é neutral: é uma declaração política.

    Os partidos com assento parlamentar têm agora uma oportunidade clara. Se forem capazes de abandonar a postura dogmática que transformou as vacinas contra a covid-19 em objectos quase teológicos — salvificadas, imunes a problemas de segurança e blindadas contra qualquer escrutínio adulto — poderão colocar Portugal na linha dos países que levam a sério a responsabilidade do Estado. Nem sequer é uma questão de modernidade: existem hoje 137 países com programas de indemnização “no-fault”.

    Rui Santos Ivo; presidente do Infarmed.

    Quanto à ministra da Saúde, a expectativa é mais sombria. O seu percurso, com ligações profundas à indústria farmacêutica, não sugere grande sensibilidade para este tipo de responsabilidade social. A sua actuação recente confirma-o. Entre proteger a arquitectura do sistema e proteger os cidadãos lesados, a escolha tem sido clara. E profundamente errada.

    Em todo o caso, sejam poucas ou muitas as pessoas afectadas, não podemos aceitar que um Estado democrático trate cidadãos lesados por políticas públicas como filhos de um deus menor. Como párias a serem escondidos. Um Estado que promove políticas de saúde não pode comportar-se como seguradora ausente quando algo corre mal. Se o fizer, perde legitimidade moral para exigir confiança pública.

    E sem confiança, nenhuma política de saúde pública sobrevive. O resto será sempre propaganda.

  • Invasão da Venezuela: Trump encarna os Estados Unidos em modo normal

    Invasão da Venezuela: Trump encarna os Estados Unidos em modo normal


    A ideia de que a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela constitui um desvio excepcional, explicável apenas pela personalidade errática e sociopata de Donald Trump, assenta numa leitura infantil da história contemporânea. Parte essa simplificação do pressuposto confortável de que a política externa norte-americana é, por natureza, respeitadora da soberania dos outros Estados, sendo Trump uma espécie de acidente moral no percurso de uma democracia virtuosa. Esse pressuposto é absolutamente falso. A intervenção dos Estados Unidos numa linha do ‘quero, posso e mando’ não é um excesso — é uma constante.

    Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos comportam-se como aquilo que são: uma superpotência militar que projecta poder para além das suas fronteiras sempre que considera os seus interesses estratégicos ameaçados.

    Trump com Zelensky.

    Essa projecção assumiu múltiplas formas — golpes de Estado, guerras abertas, operações encobertas, sanções económicas, bombardeamentos ‘humanitários’, guerras por procuração — mas obedeceu sempre à mesma lógica fundamental: a soberania dos outros é aceitável apenas enquanto não colide com a vontade de Washington.

    Desde 1945, os Estados Unidos exerceram a sua condição de superpotência através de um padrão contínuo de intervenção externa que atravessa décadas, geografias e administrações, sejam de republicanos, sejam de democratas. Começaram com a ocupação militar e a reorganização política da Alemanha e do Japão no imediato pós-guerra, intervieram decisivamente na guerra civil grega no final dos anos 40 e manipularam processos eleitorais em países aliados como a Itália.

    Seguiu-se a Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, e quase em simultâneo a institucionalização da ingerência encoberta: o golpe que derrubou Mohammad Mossadegh no Irão, em 1953, a queda de Jacobo Árbenz na Guatemala, em 1954, e a sucessão de intervenções no Médio Oriente e no Sudeste Asiático ao longo da década de 50.

    Foto de Nicolás Maduro após captura pelas forças norte-americanas que invadiram Caracas.

    Nos anos 60, a lógica intensificou-se com a invasão falhada da Baía dos Porcos em Cuba, a escalada total no Vietname, os bombardeamentos secretos no Laos e no Camboja, a invasão da República Dominicana e operações directas ou indirectas em vários países da América Latina e de África. A década de 70 não marcou qualquer inversão. Pelo contrário: foi o período do apoio activo ao golpe militar no Chile, em 1973, da consolidação de ditaduras aliadas no Cone Sul através da Operação Condor entre 1975 e 1980, da intervenção por procuração em Angola, do aval tácito à invasão de Timor-Leste pela Indonésia e da continuação de uma política externa baseada na contenção violenta de autonomias estratégicas.

    Nos anos 80, essa doutrina assumiu formas ainda mais explícitas: o financiamento dos mujahidin no Afeganistão, a guerra clandestina contra a Nicarágua dos Contras, o apoio a regimes e forças armadas em El Salvador, a invasão directa de Grenada em 1983, novas operações militares no Líbano e, no final da década, a invasão do Panamá. O fim da Guerra Fria não trouxe qualquer travão. Vieram a Guerra do Golfo em 1991, a intervenção na Somália, a ocupação do Haiti, os bombardeamentos na Bósnia e, em 1999, a destruição de infra-estruturas civis na Jugoslávia sem mandato das Nações Unidas.

    O século XXI aprofundou, em vez de corrigir, este padrão. A invasão e ocupação do Afeganistão a partir de 2001, a guerra do Iraque em 2003 com base em pretextos falsos, o uso sistemático de drones no Paquistão, no Iémen e na Somália, a presença militar permanente em múltiplos teatros, a intervenção decisiva na Líbia em 2011 que resultou num Estado falhado, a actuação directa na Síria desde 2014, o envolvimento político e militar na Ucrânia a partir de 2014, as operações no Médio Oriente e no Mar Vermelho e, mais recentemente, a pressão contínua sobre países como a Venezuela, através de sanções, ameaças militares e operações encobertas.

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    Nada disto foi episódico. Até se resumiu a lista. Nada disto dependeu de um único presidente. Nada disto pode ser explicado como desvio ocasional. Nada disto dependeu do bem ou do mal. Dependeu somente dos interesses dos Estados Unidos. Pode discutir-se em que situações foram benévolos ou malévolos, justos ou injustos, justificados ou injustificados — mas isso torna-se secundário sabendo-se que se executaram sempre numa óptica de calculo de poder.

    É neste quadro que deve ser lida a recente actuação de Donald Trump, sendo certo que ele não inaugura a ingerência, nem a radicaliza de forma inédita. Limita-se a expô-la sem verniz, quando, por exemplo, afirma confiante que a Venezuela se abrirá às petrolíferas norte-americanas.

    Onde outros presidentes falavam em “ordem internacional baseada em regras”, Trump fala de força, sucesso e submissão. Mas o gesto é o mesmo; desapareceu foi a liturgia. Talvez seja essa franqueza brutal que perturba uma parte da opinião pública ocidental, mais habituada à hipocrisia bem-embalada do que à verdade dita sem rodeios.

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    Em suma, a Venezuela, neste contexto, não é uma excepção nem um capricho — é um caso previsível dentro de uma longa tradição de ingerência. Tratar esta realidade como uma anomalia psicológica de Trump é não apenas um erro histórico, mas uma forma conveniente de absolver o sistema que o produziu, porque apenas transforma a regra em acidente e o padrão em desvio.

    O problema, portanto, não é Trump. O problema é a naturalização da intervenção como instrumento legítimo de política externa. Na verdade, o verdadeiro escândalo não é que os Estados Unidos intervenham — é que se continue, oitenta anos depois do início, a fingir surpresa.

  • Meritíssima Juíza Presidente Cristina Bento Duarte, este é o seu tribunal

    Meritíssima Juíza Presidente Cristina Bento Duarte, este é o seu tribunal


    Meritíssima Juíza Presidente Cristina Bento Duarte,

    Os tribunais administrativos existem para uma função elementar numa democracia digna desse nome: permitir que os cidadãos — e, em particular, os órgãos de comunicação social que actuam em nome do interesse público — possam reagir contra abusos, opacidades e ilegalidades da Administração Pública.

    Não são um apêndice cerimonial do poder executivo, nem um espaço de deferência institucional onde o tempo funciona como aliado do segredo. São, ou deveriam ser, um pilar activo da soberania popular, essa mesma soberania que legitima os governantes e, indirectamente, toda a arquitectura do Estado.

    Cristina Bento Duarte, juiz presidente do Tribunal Administrativo Fiscal de Lisboa e Ilhas.

    É por isso que o legislador criou mecanismos excepcionais, como as intimações para acesso a documentos administrativos. São processos urgentes porque protegem direitos fundamentais. Não se suspendem nas férias judiciais porque a urgência não conhece calendários. E existem para impedir que o direito de acesso se dissolva na prática administrativa do “depois logo se vê”. Quando uma intimação destas se arrasta por três anos sem sentença, algo de profundamente errado se passou — não no plano teórico da lei, mas na realidade concreta da justiça.

    O caso em apreço, envolvendo o pedido do PÁGINA UM para acesso aos contratos e à correspondência relativos à compra de vacinas contra a covid-19, não é apenas mais um processo pendente. É o maior negócio público do Estado português com farmacêuticas. Envolve centenas de milhões de euros, compromissos financeiros plurianuais, compras antecipadas, desperdício de doses e decisões tomadas sob segredo. É, por isso mesmo, um caso-limite para testar se os tribunais administrativos funcionam quando o poder político prefere que não funcionem.

    Aquilo que choca já nem é a possibilidade de uma má decisão. Uma decisão errada pode ser recorrida. O PÁGINA UM já venceu em instâncias superiores várias vezes. O que choca é a não decisão. O empatar. O adiar sistemático. A sucessão interminável de despachos interlocutórios que evitam enfrentar o núcleo do litígio.

    A transformação de um processo urgente num ritual burocrático onde se gerem pen drives, traduções inúteis (porque relativos a documentos não pedidos) e prazos dilatados, enquanto o essencial — decidir — é sucessivamente postergado.

    Durante 34 meses, desde 31 de Dezembro de 2022, uma juíza do seu tribunal conseguiu não decidir. E quando essa não decisão se tornou insustentável, surgiu a solução administrativamente elegante: a transferência. Uma saída salvífica que deixa para trás um processo urgente sem sentença e uma denegação de justiça prolongada, agora sem rosto imediato, mas com responsabilidade institucional clara. Porque os processos não desaparecem com os magistrados. Ficam nos tribunais. Nos seus tribunais.

    Aquilo que agora se pede já nem é heroísmo judicial nem actos de coragem épica. Pede-se decência democrática. Se o entendimento do tribunal — qualquer que ele seja — é o de que o Estado pode manter secretos estes contratos, então que isso seja escrito numa sentença. Assinada. Fundamentada. Escrutinável. Se o entendimento é o inverso, o mesmo se exige. O que não é aceitável é este limbo processual onde o poder político beneficia do silêncio judicial e o direito fundamental de acesso à informação é esvaziado pelo tempo.

    Num Estado de direito, a demora excessiva num processo urgente não é neutral — constitui uma forma de decisão por omissão. E quando essa omissão ocorre em matérias politicamente sensíveis, a aparência de deferência ao poder executivo deixa de ser aparência e passa a ser um problema institucional.

    Meritíssima Juíza Presidente do Tribunal Administrativo Fiscal de Lisboa e Ilhas, este é o seu tribunal. É nele que se decide — ou não se decide — se os cidadãos, e particularmente os jornalistas, podem escrutinar os actos da Administração. É nele que se testa se a urgência legal tem algum significado prático ou se é apenas retórica normativa. É nele que se percebe se a justiça administrativa existe para conter o poder ou para o contemplar respeitosamente enquanto o tempo passa.

    Já não se pede justiça perfeita neste caso. Pede-se o mínimo democrático: uma decisão. Mesmo que seja para indeferir. Mesmo que desagrade. Porque uma sentença injusta pode ser combatida. Uma sentença inexistente apenas corrói, em silêncio, a confiança na função jurisdicional.

    a button with the word press on it

    Se, no limite, as leis em Portugal servem para ser torcidas quando convém ao poder, então talvez fosse mais honesto que algum magistrado — qualquer um, à mão — escrevesse apenas isto: “Indefere-se o requerido porque não nos convém”. Ao menos poupava três anos de ficção processual.

    Mas enquanto isso não acontece, resta lembrar o óbvio, que parece ter sido esquecido: os tribunais administrativos não existem para proteger o Estado da transparência. Existem para proteger os cidadãos dos abusos do Estado.

    E este é, queira ou não, o seu tribunal.

  • 7 milhões: o balanço anual de um jornal que tem de existir

    7 milhões: o balanço anual de um jornal que tem de existir


    PÁGINA UM termina 2025 com um desempenho absolutamente ímpar, e isso deve-se não apenas ao trabalho persistente que temos desenvolvido, mas sobretudo a vós — aos leitores, cada vez em maior número, mais atentos, mais exigentes e mais presentes.

    No momento em que vos escrevo, somamos 6.943.666 visualizações em 2025. Ficaremos, portanto, a um passo simbólico dos 7 milhões. É um número que fala por si e que representa um crescimento de 119%, mais do que o dobro do alcançado em 2024, ano em que registámos 3,17 milhões de visualizações. O crescimento não foi episódico nem artificial: foi sustentado, contínuo e construído conteúdo a conteúdo.

    Este foi, claramente, um ano de consolidação. De entre um pouco mais de 900 artigos de várias temáticas publicados ao longo de 2025 (uma média de quase três por dia), cerca de 110 notícias (e também artigos de análise e de opinião) registaram mais de 10 mil visualizações27 ultrapassaram as 50 milquatro superaram as 200 mil e uma foi além das 300 mil. São números raros no panorama do jornalismo independente português e demonstram que há público para um projecto exigente, crítico e sem concessões.

    E talvez o mais importante: conseguimos tudo isto mantendo exactamente o mesmo perfil com que iniciámos o PÁGINA UM em 2021. Sem parcerias comerciais, sem publicidade, sem sistemas de acesso condicionado, sem financiadores ocultos. O acesso continua livre. O financiamento continua a vir apenas dos leitores — muitos deles com contribuições individuais que, não raras vezes, equivalem ao valor de subscrições mensais ou anuais de órgãos de comunicação social tradicionais.

    Apesar das insistentes tentativas de nos colarem a “financiadores misteriosos”, a verdade é simples: são os leitores, e só os leitores, que sustentam o PÁGINA UM.

    Mas mais do que os números — que impressionam, sim, para um projecto da nossa dimensão — orgulha-nos o trabalho realizado. Um trabalho que, paradoxalmente, nos parece sempre aquém do que gostaríamos de fazer, porque não entramos em auto-louvores e porque a gestão tem sido criteriosa, quase austera, para garantir que o projecto não se asfixia financeiramente.

    Close-up of an antique typewriter with a vase.

    Ainda assim, revelámos casos com impacto real, gerámos debate público e incomodámos quem prefere o silêncio. Sabemos bem o impacto do que publicamos, por muito que haja quem tente menorizar ou desvalorizar esse trabalho.

    Também sabemos das nossas fragilidades. Os últimos dois meses foram particularmente exigentes. Enquanto o jornal manteve um ritmo de produção contínuo — dois a três conteúdos diários, com apenas dois jornalistas a ‘tempo inteiro’ — tive de gerir, em paralelo, três processos judiciais em curso, no Porto e em Lisboa. Não é um detalhe, nem um lamento: é apenas parte da realidade de fazer jornalismo independente em Portugal.

    Além disso, continuamos a lutar pela transparência, muitas vezes num trabalho silencioso e de formiga, apresentando e acompanhando diversas intimações nos tribunais administrativos, algumas já com anos de verdadeira luta judicial. Lutamos até ao fim, como se viu com a base de dados dos internamentos hospitalares de 2000 a 2025, cuja análise necessária constituirá um dos projectos de 2026.

    a button with the word press on it

    Mas esta batalha pela transparência tem sido percurso onde temos constatado que nem sempre a magistratura acompanha as exigências mínimas de uma democracia madura, seja por decisões objectivamente absurdas, seja pelo prolongamento indefinido da ausência de decisão.

    O caso mais flagrante — e mais revelador — é o de uma intimação dirigida ao Ministério da Saúde em 31 de Dezembro de 2022, para acesso aos contratos das vacinas contra a covid-19. Três anos depois, num processo classificado como urgente — onde nem sequer se aplicam as interrupções das férias judiciais — não existe, inexplicavelmente, qualquer decisão de primeira instância. Um facto que dispensa grandes comentários e ajuda a explicar, por si só, a situação profundamente vergonhosa de um país que se diz democrático, mas onde o acesso à informação pública continua a ser tratado como uma concessão graciosa e não como um direito fundamental.

    No meio de tudo isto, houve também espaço para criar. Foi com enorme prazer que abrimos uma nova linha editorial no PÁGINA UM, com a publicação do Correio Mercantil de Brás Cubas. Um projecto literário, satírico e crítico, assumidamente fora dos circuitos comerciais tradicionais. Mesmo sendo de venda directa e sem presença em livrarias, ultrapassámos já os 750 exemplares vendidos, o que corresponde a meia edição. No próximo ano, haverá mais livros. Fiquem atentos.

    Este final de ano fica também marcado por uma perda: a morte de Clara Pinto Correia, que nos honrou com alguns dos seus textos e reflexões. O tempo — acreditamos — ainda lhe fará justiça, como faz aos que pensam pela própria cabeça e escrevem sem medo.

    Por fim, uma nota simples, mas sincera: desejamos-vos um Feliz Ano Novo. Para nós, o dia 31 de Dezembro e o dia 1 de Janeiro serão apenas dias de menor intensidade, nunca de menor empenho.

    Obrigado por estarem desse lado.
    Obrigado por confiarem.
    Obrigado por lerem.

    Seguimos juntos em 2026.

  • Obituário antecipado de José Jorge Letria, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores

    Obituário antecipado de José Jorge Letria, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores


    Morrerá um dia — como morrem todos, até os que se julgam eternos por decreto associativo — uma criatura chamada José Jorge Letria, nascida em Cascais, em 1951, de méritos escassos e currículo generosamente inflacionado, cuja principal contribuição mensurável para a indústria cultural portuguesa tem sido indirecta: o estímulo involuntário à proliferação de eucaliptais, indispensáveis ao fornecimento de celulose para o papel onde se imprimiram centenas dos seus romances, ensaios, poemas e declarações de intenções de reduzido fulgor literário e nula necessidade histórica.

    Não se lhe conhece obra que tenha deslocado o eixo do pensamento, perturbado consciências ou acrescentado uma vírgula essencial à literatura portuguesa. Conhecemo-lo, isso sim, pela longa e pachorrenta ocupação de cargos — não no sentido nobre de servir, mas no sentido viscoso de ocupar a Sociedade Portuguesa de Autores: cadeira aquecida, clube fechado, presidência inamovível, dessas que trespassam décadas como as pirâmides atravessam desertos, desde os tempos em que Moisés azucrinava a paciência de um faraó com pragas pedagógicas até ao presente burocrático, onde a rotina colapsa qualquer ideia de grandeza.

    Foi nesse contexto — de longevidade institucional sem equivalente em produção intelectual — que surgiu a proeza final. O senhor José Jorge Letria, ou alguém por ele (o que, tratando-se de instituições fossilizadas, vai dar ao mesmo), subscreveu uma nota de pesar pelo falecimento da Clara Pinto Correia que conseguiu a rara façanha de ser simultaneamente mesquinha, falsa, injusta, infeliz e mal escrita — aquilo a que, com rigor geométrico, se poderá chamar a ‘pentatura do círculo’ da mediocridade cultural portuguesa.

    Não foi apenas um nojo por conter uma afirmação sobre uma suposta carreira académica “complexa” marcada por uma acusação de plágio inexistente — frase lançada sem rigor, sem contexto e sem pudor, como quem atira lama para um caixão ainda quente. É um nojo maior por reduzir uma mulher de obra científica e literária ímpar a uma nota lateral, quase uma cláusula subordinada de rodapé moral, numa hora que exigia contenção, elevação e respeito.

    Mais grave ainda: afirmar que Clara Pinto Correia estaria “afastada dos círculos culturais e mediáticos” quando, no ano anterior, lançara novo romance, mantinha vários projectos literários em curso e se aproximava já da centena de crónicas publicadas no Página Um, onde escrevia com regularidade desde Setembro de 2022. Não é ignorância: é desleixo travestido de autoridade.

    Trecho da versão inicial da nota de pesar da Sociedade Portuguesa de Autores.

    Mas o que torna o parágrafo verdadeiramente imperdoável — e aqui entramos no domínio elementar da filologia — é o português da Sociedade Portuguesa de Autores. Um português de escola primária fatigada: gramática manca, tempos verbais em guerra civil — “tendo”, “viria a ter”, “teve”, “tendo estado” — arremessados em duas frases onde cabem três ideias malcozinhadas e nenhuma consciência sintáctica. Um estilo que faria corar um aluno desleixado da quarta classe do Estado Novo e que, vindo de quem passou décadas a administrar direitos de autor, se constitui como uma performance conceptual involuntária sobre a falência da forma.

    E ainda assim, o mais grave nem foi o erro inicial. Erros cometem-se. Foi o gesto subsequente: corrigir em silêncio, apagar à socapa, fingir que ninguém reparou e não pedir desculpa.

    A Sociedade Portuguesa de Autores do senhor José Jorge Letria, de má letra e pior decência, eliminou a versão original e substituiu-a por um texto anódino, saturado de banalidades, como se a memória colectiva fosse um rascunho editável. Nem à memória de Clara Pinto Correia, nem aos leitores, nem à língua portuguesa — ali violentada sem consentimento — foi dirigido um pedido sincero de desculpas.

    Clara Pinto Correia e o seu cão Sebastião.

    Este não é, pois, o obituário de um homem. É sobretudo o obituário de um estilo de poder cultural neste portugalzinho mesquinho: o do dirigente que confunde longevidade com relevância, cargo com autoridade moral e nota pública com licença para o desleixo ético e linguístico. Um estilo que sobreviverá talvez mais alguns anos, alimentado por papel de eucalipto e solenidades ocas, até que, como tudo o que é oco, colapse por falta de substância.

    Quando esse dia chegar, não será preciso escrever nota de pesar. Bastará fechar o parágrafo.

  • Gripe, máscara e a saúde pública (de novo) politizada

    Gripe, máscara e a saúde pública (de novo) politizada


    De repente, como se o calendário tivesse recuado para 2020, regressam as máscaras. Não porque novos estudos tenham demonstrado eficácia miraculosa contra a gripe, não porque a ciência tenha produzido um súbito consenso, não porque a evidência epidemiológica o exija. Regressam porque é o gesto mais fácil, mais barato e mais politicamente cómodo para mostrar que “se está a fazer alguma coisa”. É um símbolo — nada mais do que isso. Símbolo de zelo higiénico, de submissão à autoridade sanitária ou de pseudociência travestida de ciência: cada um escolhe o que quer ver.

    Desde a pandemia da covid-19 que a máscara se tornou um objecto estranho, simultaneamente fetiche e culpa. Fetiche, porque as autoridades a erguem como instrumento de salvação colectiva — mesmo quando os melhores ensaios clínicos apontam para benefícios residuais ou inexistentes no uso comunitário. Culpa, porque sempre que um surto cresce, o argumento é o mesmo: a culpa é de quem “não usou”, “não colocou bem”, “não cumpriu”. A máscara tornou-se o bode expiatório pré-fabricado das políticas públicas de saúde: se tudo correr bem, foi mérito dela; se correr mal, foi insuficiência do povo. Eis a alquimia política mais perfeita que alguma vez um pedaço de tecido conseguiu produzir.

    man in gray crew neck t-shirt covering his face with white textile

    É neste contexto que vemos agora a Unidade Local de Saúde da Região de Leiria a decretar o uso obrigatório de máscara nas unidades de saúde e a suspensão da actividade não urgente, enquanto a ministra Ana Paula Martins recomenda o seu uso em espaços fechados e vaticina oito semanas “exigentes”. A narrativa é a mesma: aumento de infecções respiratórias, pressão nos hospitais, a gripe que “chegou mais cedo” e uma solução que, apesar de pouco eficaz, soa familiar. A ciência, propriamente dita, é tratada como nota de rodapé.

    A gripe, recorde-se, não é a covid-19. Tem uma carga viral que atinge o pico muitas vezes antes dos sintomas, um período de incubação curto, uma elevada capacidade de transmissão por aerossóis finos e um padrão sazonal recorrente. As máscaras comunitárias — e mesmo as cirúrgicas — nunca demonstraram capacidade substancial para travar a transmissão da influenza.

    Em termos estritamente científicos, existe plausibilidade mecânica para que uma máscara reduza a emissão e a inalação de partículas respiratórias — algo demonstrado em estudos laboratoriais realizados em condições controladas. Contudo, quando se avalia o impacto em situações reais, o benefício clínico demonstrado é fraco ou modesto: antes do SARS-CoV-2, os ensaios comunitários sobre gripe revelavam pouco ou nenhum efeito robusto; durante a pandemia da covid-19, os ensaios mais rigorosos apontaram para reduções pequenas e frequentemente não significativas, sem prova sólida de um impacto populacional relevante. As máscaras de maior desempenho (como as FFP2/N95) podem ter utilidade em contextos de alto risco e exposição prolongada, como hospitais ou lares, mas isso não justifica a sua aplicação genérica à população.

    Por isso, posições absolutas não são compatíveis com a evidência. Não é correcto afirmar que “as máscaras nunca funcionam”, porque há sinais de benefício em situações específicas com uso consistente e adequada adaptação ao rosto; mas também não é correcto afirmar que “as máscaras são altamente eficazes para controlar epidemias na comunidade”, porque tal não é sustentado pela melhor ciência disponível.

    A formulação mais honesta é esta: as máscaras podem reduzir modestamente o risco individual de infecção em circunstâncias particulares, mas a evidência de um benefício substantivo e consistente em contexto comunitário é limitada e incerta, sendo o seu impacto populacional isolado provavelmente pequeno.

    Mas as autoridades agem agora como se a máscara fosse um talismã. Não porque desconheçam a evidência, mas porque a psicologia política é mais poderosa do que a Epidemiologia. Em momentos de tensão, governa-se primeiro pela percepção; depois, pelo conhecimento. A máscara é visível, teatral, fácil de implementar e — para muitos — ainda transporta a aura messiânica da pandemia. É o instrumento perfeito para o “gesto político de contenção”: aquele que nada resolve estruturalmente, mas transmite solenidade e acção.

    black and gray stethoscope

    Há também outro elemento que começa a instalar-se sub-repticiamente no discurso público: a nostalgia reguladora. A pandemia lançou uma geração política e administrativa que encontrou no controlo sanitário um mecanismo de poder. Confinamentos, certificados, cancelamentos, recomendações permanentes: tudo isso criou um imaginário de governação onde a acção se mede pela capacidade de restringir. Hoje, as máscaras surgem como último reduto dessa pulsão. Não se confina, não se suspende circulação, não se fecha comércio — mas ressuscitam-se pequenos rituais que lembram tempos de autoridade reforçada. A máscara tornou-se, assim, uma miniatura de confinamento psicológico.

    Nada disto significa que a gripe seja irrelevante ou que os hospitais não estejam sob pressão — estão, como sucede ciclicamente nos picos invernais. A situação actual é agravada pelo facto de se verificar uma efectividade vacinal reduzida, consequência de um desajustamento entre a estirpe do vírus influenza A actualmente predominante (H3N2) e as estirpes incluídas na formulação vacinal desta época, fenómeno conhecido como mismatch antigénico, que diminui a protecção conferida pela vacina.

    person holding orange and white toothbrush

    A diferença é que, desta vez, a resposta institucional parece querer reenquadrar a gripe na gramática da pandemia da covid-19: dramatização antecipada, medidas de visibilidade imediata e um apelo quase moral à obediência sanitária. Mas a gripe não precisa de dramaturgia; precisa de capacidade assistencial, planeamento e comunicação honesta.

    Honestidade — eis a palavra que falta no discurso público. Quando se impõe o uso de máscara, mas não se explica que a sua eficácia para influenza é limitada; quando se recomenda o seu uso indiscriminado, mas não se diz que o efeito real depende quase exclusivamente da qualidade (N95/FFP2) e da adesão perfeita; quando se promove o ritual em vez da medida eficaz, isso não é ciência: é política mascarada de ciência. E quando a política se disfarça de ciência, o resultado não é confiança — é superstição institucionalizada.

    Ao contrário da covid-19, que chegou sem manual e exigiu decisões numa névoa de incerteza, a gripe é velha conhecida. Tem décadas de estudos, modelos e vigilância. A sua dinâmica é conhecida dentro da imprevisibilidade: pode iniciar-se mais cedo, manifestar-se tardiamente, apresentar picos múltiplos até Março ou manter uma circulação contínua ao longo do Inverno.

    Aquilo que se exige não é uma resposta dramatizada, mas sim um controlo assistencial rigoroso, especialmente dirigido aos lares de idosos, onde a combinação de idade avançada, fragilidade imunológica e múltiplas comorbilidades aumenta substancialmente o risco de complicações, designadamente pneumonias bacterianas secundárias e outras infecções oportunistas. Nestes contextos, a vigilância clínica, a identificação precoce de agravamentos e a gestão das recaídas têm maior impacto sanitário do que medidas simbólicas aplicadas à população em geral.

    person wearing red jacket

    Durante a pandemia, o discurso sanitário descobriu que a máscara é, acima de tudo, um marcador de alinhamento: os bons usam, os maus resistem. Essa dicotomia — infantil e, sobretudo, científica e politicamente fraudulenta — está a ser, de forma discreta, recuperada.

    É por isso que, quando vejo a máscara voltar, não vejo ciência; vejo nostalgia regulatória e falta de coragem política para dizer o essencial: a gripe é sazonal, aumenta todos os anos, pressiona sempre os hospitais — em especial numa população envelhecida — e não há solução simples. A máscara nada vai resolver: serve apenas para mostrar movimento, com a ciência a ser reduzida a uma coreografia.

  • Adeus, rainha

    Adeus, rainha


    Há vidas cuja grandeza assusta os medíocres, e poucas, como a de Clara Pinto Correia, foram tão meticulosamente desfiguradas pela inveja baixa que fermenta nos recantos mais mochos do nosso país. Hoje, que nos deixou, continuo a ver nos obituários a frieza moralista de quem encontra até na morte um álibi para continuar a humilhar — confirmando esse traço triste do nosso carácter colectivo: a incapacidade de reconhecer a complexidade humana sem reduzir tudo ao momento mais frágil de alguém.

    De facto, é quase obsceno ver como certas penas, tão ágeis em autoproclamar-se guardiãs do rigor, aproveitaram, ainda na morte da Clara, a calculada elegância cínica para voltar a espetar-lhe a mesma farpa, como se temessem que o brilho dela ressurgisse até depois do seu passamento.

    Essa persistência em revisitar, com um zelo quase necrológico, o episódio de um plágio ocasional entre milhares de textos revela mais miséria em quem escreve do que em quem é visado. A Clara foi tratada, durante anos, como uma ré perpétua, condenada ao degredo simbólico por um erro que, em qualquer país com maturidade cultural, teria sido absorvido pelo contexto, pela obra e pela vida.

    Mas Portugal não perdoa facilmente quem um dia ousou ser demasiada em demasiadas coisas: demasiado inteligente, demasiado bonita, demasiado brilhante, demasiado livre. É o preço que se cobra a quem um dia teve asas. E há décadas que o país se especializou em cortar asas a quem voa acima da mediocridade.

    Quando a Clara chegou ao PÁGINA UM, no Verão de 2022, quase por razões terapêuticas — um escritor definha se não escreve —, trazia ainda essas cicatrizes abertas há mais de duas décadas. Mas trazia também a fome de escrever — uma fome que nunca perdeu, nem nos dias de maior sombra. Recebemo-la com entusiasmo, como se se resgatasse uma autora injustamente atirada para as margens. E depressa percebi que, por trás do mito da ‘diva’, havia uma mulher frágil e de uma simplicidade desarmante, que me tratava por “Boss” com um humor trocista que dissolvia qualquer formalidade. Nas teleconferências, chegava a brincar com a distância dos meus dentes da frente — e era exactamente nessa irreverência afectuosa que se revelava o que ela era: uma mulher cuja ternura sobrevivia à dureza do seu mundo em pantanas.

    Houve, sim, períodos difíceis. Instabilidade, hesitação, noites que seriam pesadas, mil e um desnortes em que nem sei se eram reais ou fantasiados. Mas até nas suas fragilidades havia uma espécie de grandeza. A Clara era obsessiva no melhor sentido: escrevia, reescrevia, refazia, enviava mais duas ou três versões porque nenhuma lhe parecia suficientemente lapidada. Buscava uma perfeição que sabia inatingível — e, no entanto, persistia, com uma disciplina involuntária que só quem já conheceu o desamparo entenderá.

    Clara Pinto Correia e Mário de Carvalho, em entrevista na RTP em 1996, após a publicação em livro do famoso folhetim do Diário de Notícias, “E se Tivesse a Bondade de Me Dizer Porquê?” (1985-1986)

    Entre todos os gestos que recebi dela, há um que guardo com um cuidado quase religioso: a crónica que escreveu sobre a morte do meu pai em Setembro de 2022. Tínhamo-nos conhecido pessoalmente há poucas semanas, nada nos ligava ainda além da promessa de colaboração. No entanto, quando soube da minha perda, a Clara não hesitou um instante: enviou-me um texto de uma delicadeza tão funda que, ainda hoje, me comove ao recordá-lo.

    Foi uma crónica feita não para cumprir um dever profissional, mas para segurar um desconhecido pela mão no exacto ponto onde a vida se quebra. Foi ali, naquele impulso espontâneo de generosidade, que percebi quem era verdadeiramente a Clara: alguém que, mesmo caída, mesmo magoada, mesmo ferida por julgamentos alheios, ainda encontrava dentro de si um núcleo intacto de bondade. E é a esse momento — mais do que a qualquer polémica, mais do que a qualquer rumor — que volto sempre quando penso nela.

    Ao longo destes três anos no PÁGINA UM, a Clara deixou-nos 97 textos, incluindo crónicas e até um delirante folhetim-novela. Noventa e sete mundos. Noventa e sete formas de continuar a existir nas letras quando a vida tantas vezes já lhe pesava, mesmo se na companhia do seu Sebastião. O último publicámo-lo hoje, antecipando-o do fim-de-semana, num gesto que não sei se é homenagem ou se é apenas a tentativa ingénua de adiar a ausência.

    Sebastião e Clara, em Estremoz.

    Ao longo destes anos, nunca soube delimitar com precisão onde terminava a sua memória e começava a ficção. Mas isso pouco importa: o grande escritor é, como escreveu Pessoa, um fingidor que finge tão completamente que chega a fingir a dor que deveras sente. A Clara sabia isso melhor do que ninguém. A sua escrita não era autobiografia pura — era a reinvenção literária de si mesma, num país que nunca lhe perdoou ter ousado ser mais do que se espera de uma mulher inteligente.

    A única crónica que me aterrorizou, pela possível verdade nela contida, foi a do ‘Me Too‘. A primeira versão chegou-me em Agosto, excruciante, quase insuportável. Durante meses pedi-lhe que ponderasse: não porque duvidasse da sua coragem, mas porque temia pela ferida que pudesse reabrir — nela e nos leitores. Um dia, porém, enviou um e-mail, dirigido a mim e a um amigo em comum, que nunca esquecerei: “Peço-vos o que nunca pedi: leiam com atenção e falem comigo. Encaro isto como um dever cívico, mas não me sinto segura. Coragem.” Naquele apelo estava toda a Clara: a vulnerabilidade íntima e a valentia pública. Acreditava — e bem — que há silêncios que são complacências.

    Publicámos o texto no final do mês passado, depois de ela ter refinado, por várias vezes, as sucessivas versões. E nada aconteceu. Talvez ela esperasse que acontecesse — ou talvez soubesse, com aquela ironia fina que a vida lhe depurou, que Portugal raramente está preparado para verdades desconfortáveis, sobretudo quando vêm de uma mulher que ousa dizer “eu”.

    silver diamond studded crown with black background

    Hoje, multiplicam-se os curiosos tardios, os abutres que farejam mais escândalo do que luto. A eles não devemos nada. À Clara devemos tudo: a inteligência que nunca perdeu, a generosidade que ofereceu mesmo quando lhe doía oferecer, a coragem de quem, mesmo esmagada, insistiu em escrever como quem luta contra a extinção.

    Nos três anos em que a acompanhei, e que ela nos acompanhou no PÁGINA UM, lamento apenas uma coisa: não ter tido mais tempo para insistir para que escrevesse sempre mais. O jornal devora-nos. A vida também. Mas a escrita dela — aquela escrita feita de luz e cicatriz — merecia outro fôlego, outro país, outro espelho onde pudesse reencontrar-se sem ser julgada, mas antes apenas idolatrada.

    Adeus, rainha.

  • Psicologia, ou a Casa Verde da doutora Sofia Ramalho

    Psicologia, ou a Casa Verde da doutora Sofia Ramalho


    Há corporativismos discretos, há corporativismos ruidosos e depois há o corporativismo da Ordem dos Psicólogos, presidida pela doutora Sofia Ramalho, que parece determinada a reeditar, em pleno século XXI, a Casa Verde de Itaguaí. Tal como Simão Bacamarte, acredita que só ela e o seu círculo de devotos compreendem a realidade e definem aquilo que é ciência e método científico e o que é permitido aos comuns mortais pensar.

    O artigo que publicou hoje no Expresso é disso prova eloquente: uma defesa audaciosa — e totalmente infundada — do uso do Personality Assessment Inventory (PAI) para seleccionar juízes e procuradores, como se Portugal estivesse prestes a liderar uma revolução psicométrica que nem os países mais experimentais do planeta ousaram tentar.

    Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses

    É revelador que a bastonária não responda ao essencial. Como é possível que um método supostamente rigoroso, aplicado por uma equipa supostamente experiente, tenha produzido tal hecatombe que uma segunda avaliação reverteu nove em cada dez exclusões feitas pela empresa do seu amigo Mauro Paulino — ele próprio membro do Conselho Jurisdicional da Ordem?

    O simples enunciado desta pergunta dispensaria qualquer comentário adicional. Mas não: Sofia Ramalho prefere ignorá-la. Não responde porque não pode; não justifica porque não há justificação que resista à matemática; e, para escapar ao fiasco, recorre ao expediente clássico dos fracos argumentadores, desviando a discussão para onde a poeira é mais densa e mais conveniente.

    Insiste em dar lições de psicometria a quem não as pediu, como se a incompetência metodológica pudesse ser compensada com uma avalanche de jargão. Segundo a bastonária, o problema não está na grelha de avaliação, nem na escolha dos instrumentos, nem na metodologia aplicada, mas nas “interpretações” dos leigos, da ministra, dos juristas, dos candidatos e — inevitavelmente — do jornalista que ousou perguntar o que não devia. É a velha táctica da autoridade que se substitui à evidência, da condescendência que se sobrepõe ao escrutínio. Se alguém não concorda, é porque não percebe. Um truque tão antigo como medíocre.

    Mauro Paulino, comentador televisivo e psicólogo, aplicou uma avaliação que chumbou dezenas de candidatos ao CEJ, mas uma segunda avaliação, por equipas de psicólogos, reverteu nove em cada 10 ‘chumbos’

    Mais grave é a forma como ela tenta deslocar a crítica para um plano emocionalmente confortável, insinuando que o questionamento do uso do PAI equivale a colocar “a Psicologia no banco dos réus”. Nada mais falso. Aquilo que está em causa não é a Psicologia, mas o mau uso de um instrumento específico — um teste desenhado para contextos clínicos e forenses, destinado a avaliar psicopatologias, fronteiras diagnósticas, imputabilidade, risco de reincidência ou adequação parental.

    Andei a pesquisar — e não existe, em nenhum país do mundo, um único caso em que o PAI seja utilizado para seleccionar candidatos ao ingresso de escolas de magistrados. E só encontrei um que o aplique a magistrados: no Equador, este teste é aplicado a quem queira ir para a luta anti-corrupção. Deve estar a dar um resultado fantástico, visto que o Equador ocupa a posição 121, entre 180 países, no Índice de Percepção da Corrupção da Transparency International. A Dinamarca, a Finlândia, Singapura, a Nova Zelândia, a Suíça, a Noruega, o Luxemburgo, a Suécia, a Holanda e a Austrália — que estão no top 10 dos países com menor percepção de corrupção — deviam já contratar o doutor Mauro Paulino e a sua ‘advogada’ Sofia Ramalho para melhorarem ainda mais a performance dos magistrados com o PAI.

    Além de tudo isto, a bastonária confunde uma racionalização apressada com ciência, numa tentativa desastrada de justificar um erro monumental. E, pior ainda, varre do seu texto, com um silêncio ensurdecedor, o resultado da segunda equipa de psicólogos, igualmente credenciada, igualmente formada, igualmente conhecedora de psicometria — e até escolhida pela própria Ordem dos Psicólogos — que invalidou quase tudo o que fora feito na primeira fase com a empresa do seu amigo Mauro Paulino. Quando 90% das exclusões são revertidas, não estamos perante interpretações “leigas”: estamos perante um falhanço metodológico de proporções épicas, que deveria preocupar qualquer pessoa que, de facto, preze o rigor científico

    Algumas perguntas do PAI: m inquérito perfeitamente desajustado ao objectivo, com uma Ordem dos Psicólogos incapaz de admitir o óbvio por uma questão corporativa.

    Ao invés, Sofia Ramalho prefere transformar o desastre numa pirueta retórica. Tudo está errado — menos, claro, o que ela defende. O problema nunca está na primeira avaliação: está, presume-se, na segunda, ou nos candidatos, ou na comunicação social, ou na ministra, ou no CEJ, ou no clima, ou no alinhamento dos astros. A única coisa que não pode estar errada é aquilo que ela decidiu proteger. E para isso corre para o Expresso, porto de abrigo habitual das teses frágeis que precisam de acolhimento acrítico. É uma estratégia antiga: quando o argumento é fraco, procura-se o conforto de uma imprensa que não faz perguntas difíceis. O Expresso, sempre pronto a confundir solenidade com autoridade, dá-lhe o palco. E ela aproveita-se.

    O texto da bastonária da Ordem dos Psicólogos é um festival de falácias que Schopenhauer aprovaria sem pestanejar — talvez até lhe dedicasse um capítulo suplementar. Lá estão todas: a falácia da autoridade (“nós é que sabemos”), a falsa equivalência (“há literatura, logo serve para tudo”), a cortina de fumo (“o público não percebe, logo cala-se”) e a infantil crença de que a validade de um instrumento transfere, por osmose, validade para qualquer uso que dele se faça. É como elogiar uma panela de pressão por ser excelente — o que é verdade — e concluir, com a mesma cientificidade, que é perfeita para fazer gelado. Ou sugerir que, porque um bisturi corta bem, pode substituir uma motosserra.

    O problema de Sofia Ramalho e de Mauro Paulino não é técnico — é político, ético e epistemológico. Ambos pretendem uma Psicologia sem escrutínio, onde decisões administrativas se escondem atrás de uma fórmula mágica chamada “evidência científica”, mesmo quando os resultados contradizem a própria evidência. Querem uma Psicologia que não tem de explicar nada, que não responde a ninguém, que se irrita quando alguém ousa pedir contas. Mas ciência que não admite perguntas não é ciência: é dogma.

    Rita Alarcão Júdice, ministra da Justiça, criticou a aplicação do PAI.

    A bastonária Sofia Ramalho exige respeito pela Psicologia. Pois bem: o maior respeito que se pode ter por uma ciência é submetê-la ao debate, aceitar a crítica e corrigir o erro quando ele ocorre. E quando uma equipa erra nove em cada dez avaliações, a única resposta admissível — a única verdadeiramente científica — seria reconhecer o erro, corrigi-lo e garantir que não se repete. Em vez disso, tivemos um exercício de contorcionismo retórico que nem Simão Bacamarte ousaria ensaiar. Ao menos o alienista de Machado tinha coerência — e até uma certa doçura lunática. Na Ordem dos Psicólogos, sobra apenas uma obstinada recusa a admitir o óbvio.

    E o óbvio é este: o problema não são os candidatos, não são os jornalistas, não é a ministra, não é o CEJ. O problema é uma avaliação mal concebida, pior aplicada e ainda pior defendida. Se a Psicologia quer credibilidade — institucional, pública e científica — terá de começar pelo princípio básico do método científico: reconhecer que errou.

    Até lá, a Casa Verde, ali para os lados da lisboeta Avenida Fontes Pereira de Melo, continua aberta. E, pelos vistos, arrisca lotação esgotada.