Trust in News: é possível uma directora financeira deixar falir uma empresa de media e depois ir gerir fundos públicos? Claro que sim…

No Tribunal de Sintra, de forma discreta mas indelével, tem decorrido o julgamento, como epílogo, de uma empresa de media mal gerida — mas que se mostra, sobretudo, como o retrato de um sistema mediático que escolheu, deliberadamente, não se olhar ao espelho.

Desde 2023, o PÁGINA UM alertou, com dados concretos e persistência documental, para a situação financeira absolutamente calamitosa da Trust in News, dona de cerca de uma dezena e meia de títulos, com destaque para a revista Visão. Fê-lo quando poucos queriam ouvir. Fê-lo quando o silêncio era mais confortável do que a confrontação. E fê-lo, também, quando destapi o véu de um dos processos mais obscuros e rocambolescos da história recente da imprensa portuguesa: a (suposta) venda por 10,5 milhões de euros de um portefólio relevante de revistas da Impresa — pertencente à família Francisco Pinto Balsemão — a uma empresa de Luís Delgado com um capital social de apenas 10 mil euros.

Foto: D.R.

A desproporção entre o valor da transacção e a estrutura financeira do comprador não era apenas um detalhe curioso: era um sinal de alarme. Um de muitos. No PÁGINA UM já se denunciava em 2023 um passivo crescente, com dívidas ao Estado na ordem de muitos milhões e, sobretudo, uma engenharia financeira que levantava dúvidas sérias quanto à transparência das contas. Em particular, destacava-se uma rubrica onde figuravam mais de 10 milhões de euros na rubrica “outras contas a receber” — uma categoria contabilística que, como se tem vindo a confirma em tribunal, serviu para inflacionar artificialmente resultados e ocultar prejuízos estruturais.

Aquilo que era suspeita está a tornar-se prova. Aquilo que era indício está a tornar-se num testemunho da falibilidade do jornalismo até a verificar o seu edifício – e a manter-se com um comportamento de avestruz.

No julgamento em curso à gerência da Trust in News, tem sido exposto um padrão reiterado de registos contabilísticos sem suporte documental, incluindo receitas futuras fictícias ou não comprovadas, utilizadas para “transparecer” uma realidade financeira que nunca existia. Dora Rodrigues, então directora financeira, confirmou em tribunal que tais lançamentos eram feitos por indicação da gerência, admitindo a existência de ordens verbais para registar valores sem documentação que os sustentasse. Não era meia dúzia de tostões. Eram milhões de euros que, simplesmente, nunca existiram.

Luís Delgado, gerente e proprietário único da Trust in News: um investimento de 10 mil euros que terminou em dívidas de mais de 30 milhões de euros. Foto: D.R.

Mais: esses mecanismos permitiram à empresa apresentar lucros fictícios sucessivos enquanto, na verdade, acumulava prejuízos e dívidas superiores a 30 milhões de euros, incluindo mais de 15 milhões ao Estado.

Este não foi apenas um caso de má gestão – foi um caso de construção deliberada de uma realidade paralela.

E, no entanto, perante a gravidade do colapso de uma empresa que detinha mais de uma dezena de títulos — entre os quais a emblemática Visão —, a imprensa portuguesa generalista tem optado pelo silêncio. Nem a Lusa, nem o Expresso, nem o Público, nem o Diário de Notícias, nem qualquer televisão, está a acompanhar este julgamento que expõe práticas que deveriam alarmar qualquer redacção minimamente consciente da sua função.

Este silêncio não é neutro: é uma escolha editorial.

E essa escolha revela um problema mais profundo: a incapacidade — ou falta de vontade — da comunicação social em escrutinar o seu próprio sector. Num momento em que a credibilidade dos media enfrenta um desgaste crescente junto da sociedade, este fechamento corporativo não só agrava a desconfiança como a legitima.

Foto: D.R.

Mas talvez o elemento mais perturbador de todo este processo não resida apenas no passado da Trust in News, mas no presente de alguns dos seus protagonistas. Por exemplo, Dora Rodrigues, directora financeira durante os anos em que se registaram estes lançamentos contabilísticos de milhões sem suporte documental — e que, no mínimo, teve responsabilidade operacional directa sobre essas práticas — transitou de imediato, após o colapso, para funções no Estado, integrando a Estrutura de Missão Recuperar Portugal, responsável pela gestão de fundos do PRR.

A questão que se impõe já nem sequer é, neste caso, jurídica — essa será dirimida nos tribunais. A questão é política, institucional e ética. Como é possível que alguém que esteve no centro de um sistema contabilístico que, segundo o próprio tribunal está a apurar, terá servido para mascarar prejuízos e iludir credores, trabalhadores e reguladores, passe a gerir fundos públicos?

Como é possível que não exista, sequer, um escrutínio público sério sobre estas transições? Como é possível que o Estado absorva quadros provenientes de contextos de falência e suspeita sem uma avaliação rigorosa do seu percurso?

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Foto: Tingey Injury Law Firm

A resposta, infelizmente, é simples: porque ninguém pergunta. E quando ninguém pergunta, tudo passa.

O caso Trust in News não é um acidente isolado – é um sintoma. Um sintoma de um sistema onde a promiscuidade entre sectores, a opacidade dos negócios e a ausência de escrutínio interno criam as condições ideais para que o colapso não seja apenas possível — mas previsível.