Kirkland ou a terra das coincidências

Tenho falado ultimamente com um amigo, o Nuno Ribeiro, grande especialista em Fernando Pessoa, sobre sincronicidade, alinhamento e equilíbrio.

Mas também existem coincidências banais e coincidências obscenas. Chamemos-lhe o que quisermos, que pouco interessa. As coisas geralmente são o que são, mas também, segundo outro amigo chamado Pocinho, as coisas são frequentemente o que não são.

O assassinato de Charlie Kirk, no dia 10 de Setembro de 2025, e o filme Snake Eyes, de Brian De Palma, habitam precisamente essa zona de obscenidade: não é uma teoria da conspiração, é talvez sincronia pura, esse lugar onde a realidade parece ter um prazer doentio em plagiar a ficção.

No filme, um político chamado Charles Kirkland é baleado durante um combate de boxe. No mundo real, um político-activista chamado Kirk é baleado durante um comício.

No filme, o pugilista que encobre o crime chama-se Tyler, “o Executor”; no real, o atirador chama-se Tyler Robinson e foi o suposto executor. No filme, a data do assassinato é 10 de Setembro, mas não é claro.

No filme, o tiro atinge o pescoço; no real, é no pescoço que a bala vai morrer. No filme, há um furacão chamado Jezebel a cercar o estádio; na realidade, o site Jezebel tinha publicado, dias antes, textos virais sobre Kirk. No filme, o cenário é o Trump Taj Mahal; no real, as teorias surgidas após o crime arrastaram Trump, judeus e Mossad para o rol de suspeitos virtuais.

O filme é sobre conspirações políticas e corrupção.

Isto não é uma profecia. É outra coisa. É talvez o que Jung chamaria de sincronicidade e que eu prefiro chamar de cinema quântico: imagens que, uma vez filmadas, ficam suspensas no tempo, prontas a colidir com a realidade quando esta tropeça no mesmo arquétipo.

Para Jung, a sincronicidade é a experiência de dois acontecimentos sem ligação causal, mas unidos por um fio de significado. Não é uma coincidência estatística; é uma coincidência carregada de sentido.

O mundo deixa de ser uma sucessão mecânica de causas e efeitos para se tornar um tecido de símbolos que se activam mutuamente. É a carta de tarot que, virada na mesa, diz mais do que podia saber; é o sonho que antecipa o encontro; é o acontecimento que ressoa com outro, distante no tempo, como se houvesse um campo invisível de ligações. Jung chamou-lhe “princípio acausal” e fez dele uma alternativa ao determinismo.

A sincronicidade é uma questão de linguagem.

O tiro em público, o nome repetido, o palco e o ringue, o mesmo dia. Não há causalidade — há um eco. E esse eco é, por definição, perturbador: nunca sabemos se o ouvimos porque o som regressou ou porque ainda não partiu.

A tentação é cair no delírio interpretativo viral, mas o que interessa aqui não é a explicação.

Pelo menos para mim, que sou leigo em conspirações.

É mais a sensação de curto-circuito entre ficção e real que me mata (embora nunca se morra).

O que Snake Eyes mostra é que a América é um género cinematográfico antes de ser um país e o que o assassinato de Kirk prova é que esse género continua a produzir sequências sem guião, em que os vivos desempenham os papéis que o cinema já ensaiou.

Onde os vivos parecem mortos e vice-versa.

Onde a realidade mata a ficção e esta volta como zombie à realidade.

As coincidências pedem sobretudo atenção.

A filosofia do acaso não é procurar quem manuseou os cordéis, se existem marionetas ou se tudo é fruto do acaso. Nunca o saberemos, mesmo que tudo tenha sido pensado ou mesmo que não tenha sido. Mas já é muito perceber que vivemos num palco saturado de imagens que se repetem porque são demasiado fortes para morrer.

E manipular faz parte. Convenhamos. Não sejamos ingénuos.

Não será este próprio texto um exercício de manipulação?

Bem, acho que não.

É um bocado só…

No fundo não foi De Palma que previu alguma coisa; foi a América que decidiu viver dentro do seu próprio filme. 

E qual é o problema? 

Bem… há muitos problemas. Mas isso já não é para aqui chamado.

Quer dizer…

Texto e ilustrações de Ruy Otero (artista media)

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