Regressei ao derby contra o Sporting como deve regressar um benfiquista dos tempos modernos: sem grande fé, sem grande expectativa e com aquela teimosia quase antropológica de quem acredita que, um dia, talvez veja um jogo inteiro do início ao fim. Na época passada perdi meia parte do jogo — e a paciência com o Metropolitano, que decidiu tirar uma folga nesse dia, obrigando-me a ir de Uber. Nada mais humilhante para um cidadão que ainda acredita nos transportes públicos do que chegar à Luz dentro de um Toyota híbrido.
Este ano, como manda a tradição, voltei a não ver o início. Mas, justiça seja feita, não por culpa da engenharia soviética do Metropolitano de Lisboa. Não — desta vez a responsabilidade foi inteiramente do Benfica, que decidiu encerrar a Porta 30, o acesso habitual dos jornalistas. Talvez para testar a nossa resiliência física, talvez para demonstrar que a orientação espacial também deveria contar na estatística.
Eu e mais uns quantos jornalistas lá fomos, como peregrinos enganados, conduzidos até à Porta 11-D, uma entrada que, sinceramente, ficaria melhor num parque temático ou num túnel de fuga de um parque eólico. A partir daí seguiu-se a travessia épica pelos subterrâneos da Luz: corredores intermináveis, rampas, portas que só abrem com códigos e — deixemos esta parte ficcionada, porque o parque é como todos os parques subterrâneos do mundo —, para terminar, negociações diplomáticas com um segurança que tinha, naquele momento, mais poder do que o Pedro Gonçalves no lance do golo aos 12 minutos. Que, claro, também não vi.
A verdade é que perdi mais de meia parte da primeira parte. Não vi o golo do Sporting, essa oferta generosa da defesa benfiquista. Não vi o empate embrulhado de Sudakov, que — dizem — terá empurrado a bola quase por acidente, mas não há acidentes estatísticos: a bola entrou, logo vale. Mas vi, isso sim, algo que a esmagadora maioria dos 65.247 espectadores não viram: os subterrâneos da Luz. E devo confessar algo que nunca pensei formular publicamente: são deslumbrantes.
Porque, ao contrário do que se passa à superfície — onde o Benfica insiste em alternar entre jogos sofríveis e empates que oferecem vantagem ao Porto —, nas catacumbas chega-se à conclusão de que Portugal é afinal um país eficientíssimo, um país rico. Riquíssimo! Uma potência que só não aparece nos relatórios da OCDE porque, aparentemente, eles nunca foram ao piso -3 do Estádio da Luz. Ali, onde o PIB tem forma de berlina alemã, percebe-se verdadeiramente a distribuição do rendimento: desigual, sim, mas muito fotogénica.
Enquanto atravessava o parque subterrâneo — esse Olimpo automóvel onde a cilindrada é argumento moral — dei por mim a reconsiderar décadas de análise económica. Não há crise em Portugal. Não há austeridade. Não há salários estagnados. Tudo isso é ficção literária. A realidade estava ali, luzidia: BMWs e Mercedes como quem colecciona cromos, Teslas a brotar como orquídeas de estufa, e até um punhado de Range Rovers, Porsches, Ferraris e Maseratis estacionados com a displicência de quem encosta um Fiat Punto em Santo Amaro. No meio da opulência, encontrei um Smart, encolhido, constrangido, quase a pedir desculpa por existir. O dono, creio eu, deve ser alvo de intervenção psicológica urgente.
Quando finalmente cheguei ao elevador de serviço — após vencer portas, rampas e um segurança que exigiu mais explicações do que um juiz de instrução — e mordisquei o meu farnel, o jogo ia embalado para o intervalo. Sentei-me e percebi que o futebol português continua a oferecer aquilo que melhor domina: imprevisibilidade organizativa, golos que perco sistematicamente e uma sensação de déjà vu que Freud teria prazer em facturar.
Na segunda parte, observando um jogo de caca, percebi algo extraordinário: o desfile automóvel tinha sido infinitamente mais emocionante do que o próprio derby. O Benfica dominou mas não convenceu; o Sporting respirou mas não existiu; e Prestianni tratou de acrescentar irritação à noite sendo expulso ao minuto 90, para que os descontos acabassem em sofrimento. Resumindo: um empate tão útil para o Benfica e para o Sporting quanto um saco de moedas de chocolate numa reunião do FMI.
No fim, embora continue sem perceber a decisão de encerrar a Porta 30, reconheço que, ao cabo e ao resto, ofereceram-me material para reportagem. Fosse outro jogo menos relevante, teria ficado ali, no piso -3, a fazer um levantamento sistemático deste fenómeno sociológico: um país pobre ao ar livre e riquíssimo no subsolo.
Se na próxima vez me obrigarem a repetir a romaria pelos corredores subterrâneos, farei então o inventário exaustivo daquela fauna mecânica. Quem sabe se não encontrarei um Koenigsegg tímido atrás de um pilar, à espera pacientemente do próximo derby — e de nós, peregrinos ludibriados da Porta 30.
PACOTE LABORAL I Desde 2005 libertei-me de entidades patronais. O meu último patrão foi o sr. Paulo Ferreira, mentor do universo Blue. Saí do remanso azul depois de um quiproquo com o sr. Tiago Silveira Machado, esse modelo de virtudes. Era ele ou eu. Depois de uns meses na prateleira acertámos a saída e ficou o leal director até este engenheiro da lisura sair airosamente para fazer o seu produto alternativo e a Blue dar o badagaio. A Blue foi um grande projecto até certo ponto. Devo a essa revista muitos meses na estrada, mundo e antecâmara de livros. E amizades. Depois passei a freelancer.
Um bom patrão reparte e não parte. Não alinha por partidos a não ser a defesa dos seus empregados. Não toma os accionistas como os únicos merecedores de lucros.
No mundo do trabalho o melhor patrão que tive foi um mestre da Cabala. É por ele que me sigo.
A venda de rua é um trabalho, embora não pareça. Neste mundo há poucos amigos, e os que há não padecem de invejite aguda. Eles sabem quem são, e eu idem.
Andam ao sol, ao frio, à chuva e respeitam a inclemente acção do tempo. Não têm salário, subsídios e os descontos são por sua conta. Tirando meia dúzia de empresas que se querem exemplares. As benesses são como as das empresas sediadas nos Países Baixos.
Creio que no dia da greve geral furarão o protesto. Afinal, não é nada com eles.
MANEL JOÃO I O jogral João faz falta. O problema é haver dois palhaços ricos na corrida a Belém. Quero ver o face a face Ventura Vieira. Num país de aflitos, o humor de salvação nacional é uma lufada de aerofagia, um hino ao peido. O MJ foi meu vizinho ou fui eu dele, no bairro de Campo de Ourique. É um blasée costurado, veste fatos por medida. Um actor, poeta fingidor, necessário para desconstruir a falsa seriedade do candidato bem intencionado cuja intenção é sacar umas viagens e uma avença vitalícia. O Vieira não quer nada disso, a começar porque não precisa. Tem dote. Costumava ir ao Maxim ver os Ena Pá. O alívio da tensão facial é imperativo. Se é para morrer, que se morra de riso. Se tudo isto já é uma desbunda triste, venha o tinto. Troco o Ferrari por um Aston.
ADN I Estava aqui a falar com o meu botão esquerdo sobre genealogia. Saber de onde vimos, pode dar uma ajuda para onde vamos. Sei por onde não vou (emprenhar por ouvido, a título de exemplo). Talvez deva ao avô Garcia (jornalista, escritor) a mania de só falar e escrever a partir da escuta e observação, acompanhada da leitura. Levar a carta a Garcia é bonito. É como o belicismo justiceiro dos Gomes. O Salazar tem patine e ecoa dos bascos. E o Abel, claro. O Sousa rima com todos e vem de pai e mãe. Agora, vamos ao carácter do indivíduo entrelaçado com os povos, as origens. Um quinhão sefardita via Morão de Campos também cá mora e nutro curiosidade e simpatia por hebraicos (filósofos, artistas, humanistas, mestres de Krav Maga), como por Ibn-Arabi ou Ibn-Batuta. Adão Cadmon ou Jesus de Nazaré, serei parente ou basta a afinidade? Já chamei pai ao Miller e mãe à Clarice, num auto-baptismo literário. Ou à Cristina Carvalho que bate todas as mães. Lede a breve trecho o seu livro sobre a Yourcenar, essa rainha da lucidez retrospectiva que me deu ensejo para chamar Margarida à minha mais pequena. Tudo está ligado, até o pó de Cassiopeia.
AMIGOS I A Amizade é do melhor que o mundo tem. Amistad, de amistoso, de aligeirar a carga, partilhar larachas, chorar ombro a ombro, rir até voltar a pingar a lágrima, emprestar algum sem receio de calote. É por aí, livre de ciúme, orgulho, inveja, leva e trás, chibaria. Coisa nobre de guardar segredos até à tumba. Saber que se pode contar. Discordo quando os pais dizem aos filhos “eu não sou teu amigo”. Os pais deveriam ser os primeiros e maiores amigos, para se estabelecer um lastro de confiança nesse traço de união. Os Estados (e os governos) deveriam ser os melhores amigos dos cidadãos e não os seus primeiros inimigos. Os amigos, os grandes, dão por dar, sem moeda de troca. Aturam-nos como nós a eles. Gosto de amigos que dizem o que pensam e sentem. Um amor sem amizade é coxo. Não é Amor.
DA RELEVÂNCIA I Para um amblíope é relevante andar por passeios desimpedidos (incluindo de ciclistas e trotineiros nas suas montadas apressadas), além de ter um cão-guia com benefícios fiscais e outros que tais, pois a cegueira limita. Para quem tem fome ou quem vive para se enfartar a comida é relevante. É de igual maneira relevante dormir descansado e ter sonhos fúcsia, livre de ameaças de despejo, aumento de renda ou da taxa de juro do crédito, incluindo as desferidas na própria casa. A relevância abrange o livre acesso à informação dos direitos e deveres de um cidadão ou de quem o pretenda ser numa pátria adoptada. É de extrema relevância o domínio da língua bem como das emoções. Tal pode estender-se à compreensão de um texto. Comunicar, seja a quem for, oralmente ou por pomba-correio, o resultado de uma reflexão, sem preconceitos e hostilidade, munido apenas da razão e da ternura, é de relevância superlativa.
Era aqui que queria chegar: comunicar com ternura, ainda que o assunto seja difícil. Na irrelevância de uns, pode estar a relevância de outros.
Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)
Já se passaram 45 anos e continua-se a discutir se Camarate foi atentado ou acidente. O assunto pode vir à tona durante o Natal em família, tanto mais que vamos ter eleições presidenciais, algo que também estava no plano político de 1980. Por isso, aqui ficam algumas dicas sobre como pode ser abordado o assunto de Camarate de modo a evitar estragar a harmonia sempre tão necessária nesta festa da família.
Placa em memória das vítimas do atentado que tirou a vida ao então primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, instalada junto ao local onde se deu a tragédia, em Camarate. / Foto: D.R.
1 – Diga que foi acidente
Ainda há dias, numa entrevista na rádio da rua João Saraiva, o candidato a candidato à Presidência da República, — o “não sou maçon” — Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo, disse de forma muito enfática e sem espaço para dúvidas que Camarate foi “acidente”. Como não creio que o ex-militar tenha sido testemunha ocular do acidente, deduzo que estivesse apenas a produzir uma opinião pessoal.
É bem mais seguro dizer que Camarate foi acidente do que atentado. O acidente encerra logo ali o assunto, pelo que podemos seguir em frente na vida, sem mais questões. Esta opinião é até aquela que mais agrada a jornalistas, pois não têm depois de fazer perguntas que podem ser incómodas. Agrada igualmente a juízes, investigadores judiciais e a outros ligados à área, que assim podem dar o assunto por encerrado e não se fala mais nisso. E agrada ainda a certos meios políticos, já que não abre caminhos para se ir mexer em assuntos delicados e que não interessam nada aos seus interesses.
O recém-falecido ex-primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão, por exemplo, era adepto do acidente e, no caso dele, sabemos bem que também não podia ter sido testemunha ocular, pois há testemunhas de que estava no Porto, no aeroporto de Pedras Rubras, à espera da chegada de Francisco Sá Carneiro para o comício extra que iria ter lugar no Coliseu da Rua Passos Manuel.
Foto: D.R.
Por isso, se não quiser arranjar problemas na conversa da família, diga que Camarate foi um infeliz acidente, que o avião estava podre, os pilotos andavam cansados e, sobretudo, não havia maneira de saber se Sá Carneiro iria estar ou não naquele avião, mas que, à última da hora, Sá Carneiro mudou para o aparelho podre. Ah! E ainda havia o avião da TAP, para onde ele tinha reservas.
Por isso, acidente. Sem sombra de dúvidas. É bem mais seguro e evita chatices.
2 – Diga que ainda não está bem esclarecido
Se é daqueles que, por uma questão intelectual, não pode ficar calado e não consegue dizer que foi acidente, pois parece que é uma posição simples e de alguém que está mal informado, é então obrigado a dizer que foi atentado. Sabe que o acidente nunca foi verdadeiramente explicado e, um avião, mesmo podre, não cai assim. Que a falha de um motor até pode ser compensada pelos pilotos — por muito cansados que estivessem.
E como seguiu a polémica, leu os livros do Cid, sabe ainda que havia um segundo avião, aquele que Balsemão pediu ao dono da RAR, o empresário João Macedo e Silva, e em melhores condições. Também esteve atento às inúmeras comissões de inquérito, pelo que pode sempre dizer mal do exagerado número de comissões — foram 10, mas metade delas foram a continuação da outra, após terem sido interrompidas pelo fim das legislaturas até serem retomadas na seguinte. Esta é também uma maneira segura de mostrar que até se interessou pelo assunto e procurou informar-se melhor sobre o caso. Que não tem uma opinião ligeira.
Foto: D.R.
Pode sempre demostrar alguma superioridade perante aqueles que dizem ter sido acidente, dando a entender que até sabe mais sobre o assunto. Mas, como não quer ser visto muito deslocado do resto da família e convém não ser desagradável em relação aos que estão sentados na confortável ideia do acidente, o melhor a fazer é dizer que, mesmo sendo atentado, ainda existe muita confusão. Embora pense que o atentado é algo plausível, ainda assim não sabe explicar muito bem como foi e, por isso, seria melhor haver mais uma comissão, mas o problema dessa confusão toda é precisamente por ter havido já muitas comissões, pelo que não faz sentido haver mais outra, mas lá que seria necessário, lá isso seria.
Uma posição informada, segura e que não ofende ou coloca em perigo a convicção daqueles que vivem tranquilamente na segurança do acidente.
3 – Diga que foi atentado, mas o alvo era o Adelino
Este já está um nível mais acima, mas ainda assim dentro daquele conforto que também não cria perigos e não provoca choques sociais. Está apenas ao alcance de um grupo de pessoas muito específicas. Ainda há dias ouvi, por exemplo, o antigo grão-mestre da maçonaria regular, José Manuel Anes, a justificar as acusações da sua filha nas redes sociais — onde ele era acusado de ter feito a bomba de Camarate —, a dizer que as palavras da filha não faziam qualquer sentido, pois ele investigou o caso e concluiu que houve uma bomba. E que até foi ameaçado de vida — por quem? Não disse.
Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.
Manuel Anes, que na altura dos factos era funcionário do laboratório científico da PJ desde 1978, é uma daquelas pessoas, que ao contrário do Henrique Melo, não pode dizer que foi acidente. Mas como também não pode parecer ter dúvidas quanto a ter sido um atentado, acrescentou à jornalista Tânia que o atentado foi contra Adelino Amaro da Costa e não contra Francisco Sá Carneiro. E a jornalista nem tugiu nem mugiu.
Esta opinião foi aquela que Conceição Monteiro, a secretária de Sá Carneiro e principal testemunha do que se passou durante aquele dia, começou a propalar quando se viu perante as evidências de um atentado, confirmado depois por Manuel Anes. Disse a senhora que, como não havia tempo para preparar um atentado contra Sá Carneiro, o alvo seria o ministro da Defesa, Amaro da Costa.
Como se a morte de um ministro fosse algo que se pudesse varrer depois para baixo do tapete e não merecesse uma investigação cabal. Mas, como o mais importante é retirar o nome de Sá Carneiro desta equação, para evitar uma investigação mais aprofundada, esta posição é aquela que deve ser usada por aqueles que não têm mesmo hipóteses de negar o atentado e que, tal como Anes, não podem discutir as conclusões oficiais das últimas comissões de inquérito e não podem parecer ter dúvidas.
Adelino Amaro da Costa na tomada de posse como ministro da Defesa do Executivo liderado por Sá Carneiro. / Foto: D.R.
Dizer que foi para o Adelino é uma boa maneira de dizer que foi atentado, mas depois arrumar o assunto sem ter de dar muitas mais explicações.
4 – Sobretudo, nunca diga estes factos:
Sá Carneiro estava no avião que caiu em Camarate porque era o único táxi-aéreo disponível no País depois de, uma semana antes, a 26 de Novembro, os aviões da campanha presidencial de Soares Carneiro terem sido apreendidos pela Guarda Fiscal no aeródromo de Tires. Essa apreensão, levada a cabo por uma autoridade que dependia do ministro das Finanças, Cavaco Silva, tem de ser considerada como parte do plano e demonstra que, ao contrário do que dizia Conceição Monteiro, houve mesmo tempo para preparar um atentado contra o primeiro-ministro Sá Carneiro.
Sá Carneiro nunca teria tido necessidade de ir ao Porto de avião se não lhe tivessem marcado um comício extra no Coliseu do Porto, facto de que foi informado a 1 de Dezembro, quando estava em Évora. De acordo com a agenda há muito feita, o comício onde ele deveria ter ido era o de Setúbal e não no Porto. O comício do Porto fora no dia anterior.
Foto: D.R.
Havia um segundo avião privado, mas Sá Carneiro nunca foi informado da existência desse aparelho. Esse era o avião privado da RAR que Balsemão garantiu que iria haver e que, depois, a sua prima, a secretária Conceição Monteiro, desmarcou após o encontro de Sá Carneiro e Amaro da Costa à hora do almoço.
Sim, havia reservas no voo comercial da TAP, mas isso era apenas uma medida de último recurso caso o avião privado não fosse autorizado a descolar devido ao mau tempo. Também havia, dentro da mesma linha de pensamento, reservas para o comboio. Aliás, o avião privado foi solicitado para levar Sá Carneiro de volta para Lisboa após o comício e permitir cumprir a agenda de primeiro-ministro na manhã do dia seguinte. E não havia avião da TAP para fazer esse regresso após o comício.
Quem insistiu na ideia do avião da TAP como uma mudança de última hora, ampliando as dúvidas em relação a um acidente e não a um atentado, foi o então director-interino do semanário Expresso, Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República.
Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.
A morte ocorreu numa altura em que Sá Carneiro andava a ameaçar fazer um ajuste de contas com os traidores no seu partido, andava a extremar a luta presidencial contra o general Ramalho Eanes e colocava em perigo a estabilidade democrática de Portugal, recusando um futuro bloco central com o PS de Mário Soares.
No campo internacional também coincidiu com o negócio de tráfico de armas para o Irão e que levara à derrota, um mês antes, do presidente norte-americano, Jimmy Carter, perante Ronald Reagan e George Bush. As ligações à CIA ainda estão por esclarecer, mas estão lá, pois Bush tinha sido chefe da CIA e o chefe da sua campanha presidencial, e principal mentor do negócio de tráfico de armas ilegal para o Irão no sentido de atrasar a libertação dos reféns norte-americanos em Teerão, William Casey, foi depois nomeado chefe da CIA. Na altura da morte de Sá Carneiro, o número dois da CIA era o ex-embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, uma pessoa que não tivera boas relações pessoais com o primeiro-ministro durante a sua permanência no nosso País.
Seja o 25 de Novembro ou o 25 de Abril, jornalistas estavam lá para cobrir os acontecimentos. Hoje, uma crónica que publicámos no PÁGINA UM inclui uma foto que aqui republico porque é especial, para mim.
Na imagem, um grupo de jornalistas recolhe os comentários e respostas a perguntas do embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, na sua chegada à capital em Janeiro de 1975. Entre eles, a segurar num dos microfones, de gravador na mão, está um querido colega: Carlos Pontes, companheiro na Reuters.
Frank Carlucci, na altura embaixador dos Estados Unidos em Portugal, na sua chegada ao aeroporto de Lisboa em meados de Janeiro de 1975. Carlos Pontes é o jornalista que está quase de frente para o fotógrafo. / Foto: Embaixada dos Estados Unidos
Imagino que, logo a seguir, desatou a correr para uma cabine telefónica, tirou as muitas moedas que carregava nos bolsos, e ligou para ditar a notícia, que seria depois difundida para todo o mundo. (Agora já sem os riscos da censura da PIDE que rasuravam os muitos takes que guardava do tempo da ditadura.)
O Carlos estava lá. Estava em Santa Apolónia, aquando da chegada de Mário Soares, também. E era uma delícia ouvi-lo contar como se “apoderou” de uma cabine que havia na estação antes de outros jornalistas, os quais faziam fila para poderem também enviar as suas notícias para a redacção.
Gostaria de poder ouvi-lo hoje a contar uma das suas histórias do 25 de Novembro … e a acabar por escutar outras tantas, de outros acontecimentos históricos do país, que ele testemunhou e noticiou.
Sinto que, de algum modo, falou comigo hoje, na mesma, ao aparecer-me essa foto. Consigo imaginar alguns dos comentários que provavelmente faria sobre os tempos que vivemos. E recordo, em silêncio, algumas das muitas suas histórias que tive o privilégio de escutar.
Os nossos vizinhos espanhóis evocaram há dias os 50 anos do 20-N, que lhes corresponde ao dia 20 de Novembro, data da morte do ditador Francisco Franco. Esta forma abreviada, ao colocaram o número do dia seguido pela primeira letra do mês, é uma maneira assaz interessante que os habitantes do outro lado da fronteira desta nossa Península Ibérica têm para evocar os seus acontecimentos históricos recentes. Por cá, não é comum escrever 28-M, 25-A, 28-S, 11-M, 25-N, ou 4-D.
Costuma-se dizer que Portugal e Espanha são dois países separados pela mesma História. E a expressão nunca esteve tão perto da verdade. Reconhecemos que temos um certo desconhecimento da História de cada um, muitas vezes partilhada em factos paralelos, mas frequentemente ignorada nas suas leituras comuns.
Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República, e José Pedro Aguiar-Branco, presidente da Assembleia da República, na Sessão Solene Evocativa dos 50 anos do 25 de novembro de 1975 que decorreu hoje. /Foto: D.R.
De vez em quando, procuro colmatar esse desconhecimento e, há dias, acabei de ler uma banda desenhada vinda de Espanha, “La Caja de Pandora”, de Angel de la Calle. É um romance gráfico, que recomendo a quem aprecia o género (e sugiro, a quem consegue ler em espanhol, como um bom exemplo para quem ainda não descobriu a força impactante desta forma de arte literária e gráfica). O autor faz um passeio introspectivo e semi-biográfico pelos anos da transição espanhola da ditadura para a democracia (1975-1978). Um período semelhante aos nossos primeiros anos pós 25-A.
Em mensagem pessoal que enviei para Angel de la Calle, a agradecer a oportunidade, qualidade e importância da produção desta obra, mencionei uma frase que cito de memória, onde o próprio rei Juan Carlos terá dito ao seu amigo do Estoril, o nosso recém-falecido ex-primeiro-ministro, Pinto Balsemão: “Em Portugal, houve uma Revolução. Em Espanha, morreu um homem”. Se o rei nunca disse esta frase, não é essa a questão, pois digo-a eu na mesma por a achar verdadeira. Nela, resume-se uma diferença, mas não esconde o que se seguiu depois nos dois países até, pelo menos, 1985, ano em que Portugal e Espanha assinaram, no mesmo dia, a entrada na CEE. Portugal, de manhã. Espanha, depois do almoço.
O Angel, na resposta à minha mensagem, disse-me que, em Portugal, tivemos mais sorte, pois a nossa revolução foi pacífica. E numa entrevista que deu a um canal de televisão espanhol, relatou que, em Portugal, no 25-A, só morreu uma pessoa e foi porque seria atropelada por um camião militar numa manobra de marcha-atrás. Quero acreditar que essa afirmação era uma alegoria, pois temos de incluir as vítimas dos tiros da PIDE e contar ainda com os anos bombistas que se seguiram e a Guerra Civil nos territórios ultramarinos portugueses que tiveram de ficar independentes.
Sessão Solene Evocativa dos 50 anos do 25 de novembro de 1975. / Foto: D.R.
A Espanha não fez uma descolonização em apenas um ano após o dia em que o carro militar fez marcha-atrás. Nem teve de integrar, em dias, meio milhão de retornados. Tivemos um PREC, que acabou no 25-N e, dez anos depois, lá entramos, Portugal e Espanha, na CEE. Após os sacrifícios que fizemos a nível económico, ao dar um sinal de unidade europeia, sem ditaduras, com a “Democracia”, foi dado um sinal a Moscovo que a Alemanha tinha de ser unida. E isso aconteceu quatro anos depois, em 1989, ao cair o muro. A própria URSS caiu em 1991 e foi criado o Euro, onde os países da Península Ibérica, apesar de não termos um sistema económico forte, ainda assim tivemos de entrar para dar mais um sinal de unidade europeia.
Até que, juntamente com outros países do sul da Europa que ajudaram ao fortalecimento do centro da Europa – Irlanda, Itália e Grécia –, puseram-nos no clube dos PIIGS. Os porcos da Europa. Obrigadinho, Europa comunitária e solidária. De nada. Afinal, para quê queixar-nos se até temos uma representação do PCP no antigo Hotel Vitória – imóvel de interesse público, arquitectura de 1934, de Cassiano Branco –, situado na luxuosa Avenida da Liberdade, ao lado de lojas de luxo? Podemos sempre ir exorcizar os nossos sentimentos de Liberdade com desfiles de 25-A nessa avenida da alegada liberdade e depois ir fazer compras – os que podem, claro – nas lojas bem recheadas de produtos que a liberdade do mercado e das condições laborais permite existirem.
Agora que estamos a evocar os 50 anos do 25-N, aquela madrugada que muitos esperavam, o tal dia inicial, inteiro e limpo de 1975 (E então? Acaso, não são assim todos os dias para aqueles que gostam de os viver sem se cansar?), convém lembrar que nenhuma comemoração estaria completa sem a menção de dois nomes que muito contribuíram para o sucesso da estabilização da Democracia em Portugal: Frank Carlucci e Henry Kissinger.
Frank Carlucci, na altura embaixador dos Estados Unidos em Portugal, na sua chegada ao aeroporto de Lisboa em meados de Janeiro de 1975. A sua primeira conferência de imprensa foi em português, algo inédito para um diplomata norte-americano. / Foto: Embaixada dos Estados Unidos
O primeiro até tem um azulejo com o seu nome – diz “Casa Carlucci” – na fachada da residência do embaixador dos Estados Unidos na Rua do Sacramento à Lapa. Era aí que costumava reunir-se com o líder do PS, Mário Soares, a conspirarem, na lavandaria do palacete – era onde havia menos hipóteses de serem escutados. Os serviços de Carlucci em prol da Democracia do 25-N foram depois recompensados com um emprego em Langley, nos Estados Unidos, como director-adjunto da CIA. A mesma CIA à qual ele sempre negou pertencer enquanto esteve em Lisboa – e é verdade que não perten…cia, mas depois de ter adquirido experiência no terreno, passou a pertencer.
Quanto a Henry Kissinger, por sua vez, teve o mérito de confiar no julgamento de Carlucci, adiando a ideia de que Portugal estava perdido para uma Democracia previsível e obediente ao interesse norte-americano, e que até poderia funcionar como “vacina” ao ser a Cuba da Europa.
Bem revelador da importância de Kissinger para o 25-N e o sistema de partidos que temos hoje em vigor, é a declaração de Melo Antunes, então ministro dos Negócios Estrangeiros, que num encontro com Frank Carlucci, duas semanas após o 25-N, quando o embaixador lhe perguntou o que teria acontecido se os comunistas tivessem vindo para a rua, Melo Antunes disse que havia uma coisa na sua mente: “A oferta da ajuda de Kissinger”. Isto data de 5 de Dezembro de 1975 e, para que não haja dúvidas, está aqui uma cópia certificada. Se não está ainda numa exposição sobre esta data, aqui fica a referência da mesma para que sejam incluídas nas comemorações oficiais: https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1969-76ve15p2/d169
Henry Kissinger (ao centro), em Paris, em 28 de Setembro de 1970. / Foto: D.R.
Daqui a dias teremos ainda os 45 anos do 4 de Dezembro, a data do assassinato de Sá Carneiro – sim, porque já se concluiu na Assembleia da República que a explicação mais lógica para a queda do avião teria sido devido à deflagração de um engenho explosivo a bordo. Mas, nestes 45 anos, iremos continuar a ouvir que foi acidente, pois isso é mais tranquilizador para as mentes que não querem investigar o móbil do atentado. Talvez daqui a cinco anos se saiba mais.
E, finalmente, daqui a seis meses, vamos celebrar os 100 anos do 28 de Maio, outro momento em que os militares agiram com a intenção de salvar o país do caos e da ruína. Teremos, portanto, com a força da democracia, encarar uma data em que o chefe dos militares portugueses de há 100 anos, Gomes da Costa, dizia aos jornalistas de há 100 anos coisas como estas (Entrevista a Gomes da Costa, Diário de Lisboa, 3 de junho de 1926):
“Fazer uma revolução nacional desta força e significação para nos instalarmos no Terreiro do Paço a fumar charutos tranquilamente também não pode ser”.
Edição do Diário de Lisboa, 3 de junho de 1926.
“A imprensa é útil, é uma força nacional. Tem liberdade para dizer o que pensa. Não abafaremos o pensamento de ninguém. Também acreditamos que ninguém desvirtuará as nossas intenções. Sou militar. Falo a linguagem da verdade. O país estava cansado dos políticos que nos arrastaram para a miséria que aí estava”.
“Se é ditadura meter o país nos eixos, sim, ditadores somos. Mas nunca uma ditadura no conceito antigo, suprimindo liberdades, perseguindo e vexando. De porcarias estávamos nós fartos. Liberdade bem distribuída, justiça para todos, saneamento das finanças e dos serviços públicos – eis a nossa ditadura”.
O general Gomes da Costa. / Foto: D.R.
No livro de Angel de la Calle, numa conversa em Cuba, uma amiga sua pergunta-lhe: “Em Espanha, têm Rei?” Sim, há rei, responde o autor. “E Guardia Civil?” Sim, há Guardia Civil. E concluiu a amiga: “Então de que transição estás a falar”? Poderíamos fazer o mesmo exercício sobre Portugal: Em Portugal, existe um Presidente da República e um primeiro-ministro? Sim. E GNR? Sim. Então de que revolução estamos a falar?
Os democratas de hoje, em Portugal e Espanha, sabem que, no tempo das ditaduras de Salazar e Franco, os Estados Unidos e União Europeia não tinham tanto poder sobre as decisões internas da “democracia orgânica” de cada nação ibérica. Se houve depois uma transição em ambos países, essa foi para entregar o poder de Lisboa e Madrid aos bons servos dos poderes de Washington e Bruxelas.
“O fascismo é belo, é vertiginoso. Vivere pericolosamente.”
Últimas palavras que a linda Eunice dirige a Vasco em OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO, de Eurico Veríssimo.
É vergonhoso irmos já no dia 23 de Julho de 2025 quando finalmente é reconhecida na Assembleia da República a Lei contra a violação das mulheres, mas enfim. É melhor que nada. Esta Lei permite que os violadores sejam julgados sem que a sua vítima, ou várias vítimas, tenha de passar pelo Tribunal e ser filmada, julgada, e exposta aos olhos de toda a gente. E, mais ainda, permite que os atacantes ao que a nossa privacidade tem de mais sagrado recebam penas tão pesadas que na oportunidade seguinte, se chegarem a sair da cadeia a tempo, pensem duas vezes antes de repetirem a proeza – ou então são acabados psicopatas que gostam de estar presos porque é onde se encontram presas mais fáceis para actividades sodomitas, e só compete à sociedade fazer-lhes a vontade em celas isoladas.
Mas acreditem, por favor acreditem. Acreditem que as leis não bastam. Nada mudará, nunca, por muito rígidas que sejam as novas normas de penalização da violação às quais ninguém parece ter ligado grande coisa, se as mulheres não se revoltarem frontalmente, e acusarem os seus vampiros com todas as letras, por forma a acabar com os divertimentos de gente porca e viciosa, como por exemplo o Guarda da Estação e o Tiago.
Há cinco anos atrás, o Guarda da Estação e o Tiago foram os dois tarados que juntaram esforços para tornar possível a minha violação.
E depois, como fazem todas as mulheres violadas, falei com a minha médica[1] mas não falei com mais ninguém.
Mas, agora que temos uma lei que nos protege, é imprescindível conseguirmos falar. Só depois de ouvir a nossa voz é que a sociedade pode acordar e revoltar-se, e iniciar a prática, agora possível, de pôr os que nos desfiguram a beleza natural da vida e a alegria de estarmos vivas em tribunal… de onde, de hoje em diante, teremos a certeza que hão de seguir para a prisão.
Agora, isto só acontece a partir do momento em que as vítimas se organizarem[2] e começarem a fazer ouvir a sua voz. Conto-vos a minha história para que as outras mulheres se sintam mais acompanhadas ao fazerem o mesmo.
E também porque o meu caso é um verdadeiro clássico.
Pensei que, envolvendo-me bem no meu silêncio em torno deste nojo, estaria a proteger todos os familiares e amigos, todos os filhos e netos que estão longe, os muitos que costumavam juntar-se regularmente comigo e que não haviam de querer andar a ter de aturar histórias porcas de foi assim ou assado. Pelo contrário, vejo agora, passados mais cinco anos, que o meu desaparecimento das nossas festas, das nossas conversas, e das nossas intimidades mais profundas, magoou de certeza toda a gente que esperava de mim a pessoa que eu era dantes, e agora vou tarde para dizer “queridas manas e mais família, queridas amigas e amigos, queridos filhos e netos, só posso pedir-vos desculpa mas não dei por isso, fiquei traumatizada até ao mais fundo do meu coração por um janado que me violou na Malorada[3] numa noite de chuva, com a complacência do Guarda da Estação”.
Era noite de Natal, aquela única noite do ano em que toda a minha família se junta e se ri a por a escrita em dia, a saborear tudo quanto há de bom e a visitar os que nos são queridos. Foi tudo como manda a lei, mas o regresso foi complicado. Vivia-se uma fase caótica do confinamento, chovia a potes, e eu ia esperar pelo último expresso para Estremoz, com o bilhete enrolado entre os dedos.
Eram as minhas primeiras Festas aqui, e eu vinha de boleia, com uma grande amiga que nem sequer vive na Malorada, vive num monte a seguir ao castelo romano, mas teve o carinho de me depositar sã e salva na estação, a essa hora cheia de gente, e de se certificar que eu já estava de posse do bilhete. Demos muitos beijos e muitos abraços, soltámos alguns murmúrios de “epá foi tão bom voltar a ver-te” e de “agora já podemos fazer isto mais vezes”, mas eu não tive lata de lhe pedir dinheiro emprestado. O meu chegava para duas bicas, mas, pela conversa que viemos a ter pelo caminho, eu sabia que não era a única que estava a tinir.
Destes Natais com toda a família voltamos para casa felizes, mas muito, muito cansados. Fiquei a dizer adeus aos faróis do Mehari dela, depois entrei no café ao lado da estação para tomar um dos dois cafés a que tinha direito, e a seguir ali fiquei, numa mesinha encostada ao vidro da janela, à espera do expresso que me levaria a Estremoz pelo meio da chuva da Noite de Natal.
É aqui que a festa degenera.
Desde que as estações da Rodoviária deixaram de ter um balcão próprio, onde podemos esclarecer dúvidas sobre os nossos bilhetes, e com verdadeiras pessoas a quem podemos perguntar o que é que fazemos a seguir, todas estas viagens, por pacatas e pequenas que sejam, ficaram tão profundamente desumanizadas que quem ainda não conhece o terreno sujeita-se a ir parar onde não quer. Se fosse agora, depois de cinco anos de treino, nada disto aconteceria. Mas, à época, eu estava a estrear-me na arte dos expressos de Estremoz para o mundo e nem tudo fazia sentido. À noite, a chover, em pleno confinamento que subvertia os horários gerais das camionetas, com toda a gente a quem perguntei a dar-me indicações estranhas e sobretudo erradas, fui deixando passar uma camioneta atrás de outra até deixar passar a última camioneta para Estremoz.
Logo a seguir, sempre com chuva, apareceu o guarda da Rodoviária para fechar a estação.
E eu estritamente com moedinhas para uma bica na carteira.
Mais: com tanto azar, naquela altura o meu telemovel ligava para toda a gente, mas, numa daquelas birras electrónicas que a gente não pode esperar que venham algum dia a ter explicação, recusava-se a ligar exactamente para aquela minha grande amiga da Malorada – exactamente a única pessoa que poderia voltar à estação para vir resgatar-me. Quando queríamos falar uma com a outra, tínhamos de recorrer ao Skype, ao Messenger, agora muitas vezes ao Zoom – com os telemómeis mortos pousados ao lado dos nossos PCs, a todos os títulos inúteis para qualquer tipo de ligação entre nós.
E isto não me acontecia a mim com mais ninguém, nem lhe acontecia a ela com mais ninguém.
Há Forças.
Eu sei que é muito difícil de acreditar, mas há mesmo Forças.
E, entretanto, ia-se fazendo cada vez mais tarde.
Fui explicar a minha situação ao guarda da estação, que não pareceu particularmente preocupado e disse logo que havia um AL ali mesmo por trás. Eu insisti que, por confusão entre as nossas malas, a minha carteira ficara com a minha amiga[4]. E ele repetiu então por que é que eu não ligava a essa amiga, a quem eu já dissera que não conseguia ligar. Ou era surdo ou estava a gozar comigo. Apetecia esmurrá-lo.
“Eu levo-te a Estremoz,” disse uma voz por traz de mim.
“Ah!”, disse o guarda, de onde se prova que não era surdo. “Muito bem, Tiago. Muito bem.”
Era um jovem de pernas finas e olhos brilhantes.
“Muito obrigado,” disse eu. “Mas Estremoz ainda é longe e vai gastar bastante gasolina por minha causa.”
“Ora, não tem importância,” disse o Tiago. “O carro tem o depósito cheio para ir até Lisboa.”
Devia ser um menino do papá a exibir as suas posses. E o guarda da estação parecia venerá-lo.
“É assim mesmo, Tiago,” repetiu ele. “Assim mesmo é que se trata uma senhora.”
Virou-se para mim e sorriu-me um sorriso rasgado, depois do que encerrou a conversa com alguns pronunciamentos sobre a minha sorte.
Agarrei no saco pesado e lá fui atrás do Tiago, a pensar na conjuntura estranha de acontecimentos daquela noite. Estava tão perdida nos meus pensamentos que já era tarde para voltar para trás, sempre pendurada do meu saco pesado, quando percebi que tínhamos entrado numa viela estreita e escura, onde era absolutamente impossível alguém guardar um carro. O Tiago deu-me um empurrão para dentro do abarracamento onde morava, deduzo eu, porque, graças a Deus, lá dentro não havia qualquer luz. Houve só uma conversa interminável de “olha que não te armes em boa que eu trouxe-te para aqui para te mandar um fodão, e se não vai a bem vai a mal que estou com uma puta tesão, e fica sabendo que já comi velhas muito mais velhas do que tu e é do que eu mais gosto. Anda lá, meu, deixa entrar, abre-me essas pernas ou eu parto-te toda,” e mais débitos infindos de ordinaricesque acabaram por vencer-me pelo cansaço. Então o miúdo satisfez-se comigo uma data de vezes, a dizer uma data de porcarias. Acho que queria tanto que aquela tortura acabasse que acabei por adormecer entretanto[5].
Acordei com o Tiago a sair-me de cima, enquanto dizia “tenho de ir buscar uma coisa.” Eu lembrei-me das pernas de alicate e dos olhos brilhantes, pensei “este pobre rapaz não vai viver muito;” nem reparei nos pormenores do casinhoto à minha volta, desapareci dali assim que ele desapareceu, fui andando com tudo a doer e o saco a arrastar até chegar à zona do centro onde fica a praça dos táxis, entrei no café mais próximo onde só estavam homens que olharam todos para mim com desconfiança[6], pedi o tal único café que ainda podia pagar, e, depois de pensar muito, liguei para a Isa – a mulher que já na altura era a minha empregada, e ainda hoje o é. Contei-lhe a história de perder o último Expresso, de não conseguir ligar para a minha amiga, dei-lhe o telefone dela e pedi-lhe que lhe ligasse. Mas a Isa ficou tão horrorizada com a minha noite sabe-se lá como e com só ter dinheiro para um café que me disse para me meter logo num táxi para Estremoz que ela pagava. Por acaso estava um táxi na praça, e estes são daqueles momentos em que a pessoa não vai dizer que não. A Isa ainda foi comigo e ficou comigo para me devolver a tranquilidade e a segurança da minha própria casa, até eu parar de suar e de tremer.
Foi nesse mesmo dia, pelas 18h, que o Bruno apareceu à minha porta com uma caixa de vinho, sem dizer uma palavra.
Como o homem era o taberneiro da esquina e era dia de Natal, pareceu-me perfeitamente normal que me oferecesse uma garrafa de vinho – e assumo desde já que a primeira coisa que me passou pela cabeça foi ligar a televisão na CNN ou qualquer um desses programas alheios, e distanciar-me cada vez mais do meu mundo a beber devagarinho a garrafa do Bruno até ao fim.
Mas o que saltou de dentro da caixa foi antes um Sebastião minúsculo, animadíssimo, eternamente curioso, bichinho alacre e sedento de focinho pontiagudo que explora através de tudo em perpétuo movimento, que logo nessa noite me fez rir como uma perdida e me encheu a cama de pulgas.
Não sei se notaram que já vos falei por várias vezes do dia em que o Bruno apareceu lá à porta com o Sebastião na caixa de vinho, mas a versão que vos contei nunca correspondeu inteiramente à verdade. E eu nem dei por isso. Até agora, que foi quando me lembrei da verdade pela primeira vez.
Com o tempo, creio que com os anos, ainda cheguei a contar a história à Isa só para não carregar o fardo sozinha. Tirando isso, fiz o que fazem todas as mulheres violadas, sejam quais forem as nossas razões para as nossas escolhas: tomei duche, calei-me, e nunca, mas nunca na vida, contei nada a ninguém.
Em grande medida, calei-me porque fiquei bem, e, na ausência da lei da violação, não quis ser obrigada a trazer todos estes monstros à superfície. E também não quis que pessoas que eu amo tivessem de lidar com semelhantes porcarias.
Mas – esperem lá. Eu escrevi, mesmo, “fiquei bem”?
Só agora é que reparo que não, que fiquei mal, mas mesmo muito mal, depois do que aconteceu. Diga-se que fiquei traumatizada, por que não – a palavra existe para uso em casos como este. Por exemplo, nunca mais passei nenhum Natal com aqueles ajuntamentos ciclópicos de família de que, no entanto, gosto tanto. Tem sido sempre por motivos de saúde – mas, e se não fosse? Instintivamente, é como se me acontecesse alguma coisa horrível se não ficar calmamente em Estremoz com o Sebastião.
O bebé que cabia dentro da garrafa de vinho agora é um colosso.
Toda a gente diz que eu sou muito corajosa. Mas a verdade é que tenho medo, um medo pânico, de ir à Malorada. Vivo sozinha há mais de vinte anos e já não tenho medo de quase nada, nem sequer da coisa que está debaixo da cama e me perseguiu até tarde. A casa dela no monte é grande, linda, e tem a toda a volta um jardim muito bem concebido, com oliveiras, chocalhos de ovelhas, e glicínias em Junho.
Essa chaveta da taxonomia familiar adora fazer festas.
E eu confesso, de uma vez por todas, o que nunca tive a coragem de confessar até hoje. Desde que conheci o Tiago e o Guarda da Estação, cada uma dessas festas é um suplício para mim. Sou sempre a primeira a vir embora, com o coração apertado pelo terror de ser engolida, uma vez mais, pela noite da Malorada.
O Sebastião não pode sair do carro porque é tão grande, e ladra tão alto, que assusta os meninos. Mas o que interessa neste particular é que, havendo carro, eu nunca deixo de levar o Sebastião comigo[7]. Sempre conversamos pelo caminho.
E, se não houver carro e me pedirem para me meter no Expresso em Estremoz e ir ter à estação da Malorada[8], onde alguém irá buscar-me vindo do monte, acabou-se toda e qualquer racionalidade. Entro num pânico tão violento que deixo, pura e simplesmente, de conseguir pensar.
E é então começam a acontecer coisas que eu nunca sei de onde vieram, coisas parvas que se vão alinhando uma atrás da outra, coisas que deveriam ser fáceis de resolver mas de súbito o pânico lobotomiza-me, quero fazer tudo bem mas cada vez faço mais porcaria – e pronto, como já se percebeu nunca consigo chegar à Malorada. Se a festa fosse em Viseu, eu punha-me lá nas calmas[9]. Chegava a Finisterra num instante. No outro dia descobri que também há um directo Estremoz-Lagos, vários por dia vindos sabe-se lá de onde. Apanhei um naquela vaga de calor dos quarenta graus, e lá dentro as janelas estavam protegidas, o ar condicionado estava ligado e bem ligado, tínhamos à disposição mantinhas e almofadas, eu agarrei numa almofada, tapei-me com uma mantinha, adormeci profundamente e nem dei pela viagem. Mas dei pela chegada a Lagos. O final desta sequência não é exactamente “… de tal maneira que só acordei em Sagres.” Gaita, comecei a viajar sozinha aos doze anos, em viagens que vinham de Alfândega da Fé para Lisboa com seis mudanças de linha, e finalmente lá estava a Mãe à minha espera em Santa Apolónia, de lágrimas nos olhos porque achava tudo aquilo muito arriscado.
Quando eu tinha vinte anos, a Mãe suplicou-me, de mãos postas, que não tentasse usar o velho acordo celebrado entre o Xá e o Salazar para os portugueses poderem entrar no Irão sem documentos por forma a ser mais fácil recrutá-los para as plataformas de petróleo, onde eram muito apreciados. Isto aconteceu quando o Khomeini acabava de tomar o poder e logo a seguir de expulsar todos os jornalistas do país, mas eu e o Cáceres Monteiro socorremo-nos desse velho acordo de que eu tivera conhecimento por mero acaso, ignorei a súplica da Mãe e fomos mesmo – de camioneta, a correr as montanhas durante três dias, quando tudo aquilo era uma aventura extremamente perigosa.
Não tive medo nenhum.
E agora aqui estou eu a descobrir que por qualquer razão ainda não voltei a passar o Natal com a família desde a minha noite trágica na Malorada, um pionés importantíssimo no mapa das festas familiares que faz cinco anos que me aterroriza ter de revisitar, e no entanto eu só agora reparei que aterroriza.
Como eu estarão neste momento, certamente, centenas ou milhares de mulheres portuguesas, vítimas de outras histórias que lhes roubaram outras liberdades. E, quando finalmente é aprovada a lei da criminalização da violação, passa-se à frente como se nada tivesse menos importância neste mundo.
Talvez por “criminalização da violação” ser um termo novo extremamente difícil de encaixar na língua portuguesa.
Mas nada disto é desculpa, minhas senhoras.
Temos a lei a nosso favor. A bola está no nosso campo. Apanhá-la é aceitarmos a nossa responsabilidade, o nosso dever de começarmos a falar.
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] Quer dizer, falei… o mais laconicamente possível, e pronto. Só queria ter a certeza de que o Tiago não me tinha pegado nenhuma porcaria nascida do esterco.
[2] Por muito que eu deteste a palavra “partilhar”, mas que se lixe. Quando é preciso, é preciso mesmo.
[3] Nome fictício da cidadezinha alentejana onde isto se passou.
[4] História improvisada para uso da criatura, claro. Pura e simplesmente, eu era pobre. Perdida aquela camioneta, já não tinha mais recursos. Cartão de crédito também não tinha. Nem tenho.
[5] Versão extremamente resumida, como hão de compreender e agradecer.
[6] Está bem que estes homens são uns rústicos. Mas neste caso alguma razão teriam ao verem entrar uma senhora que já devia ter andado toda muito composta e agora estava toda descomposta, com rasgões na roupa, arranhões no peito, palha no cabelo, e tudo. Seria, porventura, alguma fugitiva de um novo filme do James Bond onde o Alentejo fazia as vezes de velho West?
[7] Os meus sobrinhos e sobrinhos netos quando o vão lá ver, numa excitação impensável: “A Tia tem um Lobo dentro do carro! A Tia tem um Urso dentro do carro! A Tia trouxe o Abominável Homem das Neves no carro!”
[8] Uns meros 30 minutos de distância. Imensas crianças fazem esta viagem sozinhas, pelo amor de Deus.
[9] Também, estou a exagerar a minha capacidade de resolver problemas rodoviários. Quando vivia no Burgau, juntei-me a um encontro dos Missionários Comboiamos que ficava exatamente em Viseu. Foi assim que descobri que o velhinho “ESPRESSO DA GUARDA”, que partia de Lagos, corria o Algarve, e a seguir virava a Norte e subia até à Guarda com paragem em vários pontos importantes do caminho – e um deles era Estremoz! Entretanto as camionetas melhoraram as suas capacidades, e o “ESPRESSO DA GUARDA” vai hoje até Viseu. Gosto sempre de ir no lugar da frente, com a sua impressionante visão panorâmica, que me vai contando histórias e escrevendo páginas inteiras de romances na cabeça. O pior são os dois motoristas, necessários para a execução perfeita dos horários e da segurança da paisagem: estão permanentemente, mas é que mesmo permanentemente, ao longo de todo o percurso, de onde é que há os melhores restaurantes do caminho, com os pratos preparados como e aquele sítio onde o vinho da casa vem do Céu. Ora, Gaita!
Agora que já tudo foi dito e redito sobre a vida de Francisco Pinto Balsemão, o jornalista Frederico Duarte Carvalho deixa aqui o testemunho de cinco momentos-chave da sua vida profissional em que se cruzaram directa e indirectamente e que acabam por constituir um retrato de um País.
Momento nº 1
Dia 6 de Outubro de 1992. Estava de passagem em Lisboa, vindo do Algarve, onde tinha ido assistir ao concerto da Samantha Fox na discoteca Kiss, como jornalista estagiário de “O Primeiro de Janeiro” – ao mesmo tempo que frequentava a Escola Superior de Jornalismo do Porto – e resolvi ir com o Rui Arala Chaves fazer a reportagem sobre o primeiro dia da SIC. Vi Balsemão pela primeira vez, mas não falei com ele. Testemunhei o início histórico do primeiro dia da televisão privada em Portugal e escrevi depois um texto para “O Primeiro de Janeiro”.
Momento nº 2
Pouco tempo depois do lançamento da SIC – não consigo precisar quando, Balsemão foi ao Porto fazer uma apresentação sobre o Expresso e fui ao hotel onde decorria a sessão. Tinha na minha mente duas perguntas para lhe fazer: “Pode um jornalista ser candidato a Presidente da República” e a outra era saber onde iria ser a delegação da SIC no Porto.
Balsemão sorriu com a pergunta sobre o Presidente da República, pois considerou que era a pensar na hipótese de ser ele próprio o candidato, quando, na realidade, era eu a pensar na sempre eterna questão da isenção dos jornalistas. Quanto à localização da delegação, fiquei a saber que era no Edifício Capitólio, na Avenida da França, e que até nem era longe de minha casa. Mais tarde, fui perguntar ao delegado da SIC, José Manuel Lemos, se podia fazer um estágio.
Fiquei um mês até que me mandaram embora. Foi o suficiente para aprender como funciona o jornalismo televisivo e ficar amigo do Mário Augusto e do Alberto Serra.
Captura a partir de vídeo da SIC
Momento nº 3
Junho de 2010. Estou em Sitges, nos arredores de Barcelona, para assistir à reunião de Bilderberg. Pelo menos, até onde os jornalistas são autorizados a ir, fora do hotel e para lá do cordão policial. Balsemão convidou Paulo Rangel, então eurodeputado do PSD e o ministro das Finanças do governo socialista de José Sócrates, Fernando Teixeira do Santos. Será este último que, meses depois, em Abril de 2011, manda chamar a “Troika” à revelia do primeiro-ministro que, por sua vez, também fora um convidado de Balsemão para uma reunião de Bilderberg, em 2004, meses antes da sua ascensão ao cargo em S. Bento.
Momento nº 4
Março de 2011. Vou entrevistar Francisco Pinto Balsemão no seu palacete na Lapa, na Rua Ribeiro Sanches, para o meu livro sobre Camarate. Recebe-me com simpatia e temos uma conversa agradável, apesar da delicadeza do tema. Confirma-me aquilo que já era conhecido: estava no Porto desde quarta-feira, dia 3 de Dezembro de 1980, véspera da tragédia.
Coordenou com a direcção de campanha para que o empresário da RAR, João Macedo e Silva, emprestasse o avião Cessna da empresa e, no dia seguinte, levassem o primeiro-ministro Sá Carneiro de Lisboa ao Porto e, depois do comício extra no Coliseu, garantisse o regresso a Lisboa, de modo que o primeiro-ministro cumprisse a sua agenda oficial na sexta-feira. Estava no aeroporto à espera da chegada de Sá Carneiro quando soube da notícia da tragédia e arranjou um avião privado que o levou imediatamente para Lisboa. Sorriu quando disse que processou Augusto Cid pelas insinuações de que estava dentro de um plano para matar Sá Carneiro, nomeadamente quando o colaborador de “O Diabo” e autor de vários livros sobre Camarate contou que a sua mulher, Mercedes, teria desabafado num cabeleireiro que recebera um aviso do marido para não viajar com Sá Carneiro. “Fui até aos tarecos”, afirmou.
No fim do encontro, aproveitei para lhe fazer uma pergunta sobre a sua participação nas reuniões do Grupo Bilderberg. Disse-lhe que já ganhara várias apostas sobre quem seria primeiro-ministro em Portugal, bastando-me olhar para a lista das pessoas que ele convidava anualmente. E acrescentei que até tinha estado em Sitges. Ele perguntou como é que as pessoas que iam assistir de fora aos encontros “tinham dinheiro para estarem ali”.
Disse-lhe que, no meu caso, foi pago pelo meu próprio bolso. Lancei a provocação: “Se as reuniões não são assim nada de especial, então que tal levar-me a uma um dia para confirmar?”. Ele disse-me, com um sorriso de charme, que o meu estatuto profissional não o permitia. Três meses depois, para o encontro anual que decorreu na Suiça, Balsemão convidou António Nogueira Leite e… Clara Ferreira Alves, a ex-jornalista do Expresso e regular comentadora da SIC. Confesso que sorri e não levei a mal: confirmei que quem faz os estatutos não são as pessoas, mas sim o que Balsemão decidia sobre o que são os estatutos.
Momento nº 5
Noite de 22 de Outubro de 2025. Estou na fila para o velório de Balsemão. Atrás de mim está João Soares, que acabou de dar uma entrevista a José Manuel Mestre. Abordo o filho de Mário Soares e pergunto se se lembra da vez em que, antes das eleições europeias de 2004, fui a casa dele, junto ao Príncipe Real, para o entrevistar sobre uma possível candidatura à liderança do PS. E disse-lhe então, mal cheguei: “Então, o José Sócrates é que vai ser o próximo líder do PS!”.
Perante o espanto de João Soares, expliquei que acabara de ler que Balsemão convidara Santana Lopes e José Sócrates para o encontro de Bilderberg, que iria ter lugar em Junho, em Itália. Mencionei ainda ao filho do antigo Presidente da República que acabara de publicar um livro, em Novembro de 2003 – “Eu Sei Que Você Sabe” –, onde explicava como é que as reuniões do Grupo Bilderberg eram bons indicadores para futuras escolhas políticas. “Isso é que ainda vamos ver!”, respondeu-me João Soares, cheio de confiança.
Em Setembro, quando Sócrates venceu a corrida para a liderança do PS, telefonei ao João Soares para ouvir a sua opinião: “Frederico, acabei de sair da SIC onde encontrei Balsemão. Ele veio cumprimentar-me e dizer que tinha apreciado a forma como eu me tinha batido nas eleições. E eu, enquanto olhava para ele, só pensava: tenho de ler o livro do Frederico”. Lembrei isto ao antigo candidato e ele desabafou: “Já nem me lembrava”. A irmã, Isabel, não sei se ouviu toda a nossa conversa mas ouviu o meu desabafo: “O que Portugal não teria vivido se não tivesse sido o apoio de Balsemão a Sócrates”.
Conclusão: Agradeço a Balsemão a sua vida e o esforço que fez em deixar o mundo melhor da forma que ele acreditava como deveria ser o mundo. Foi ao fazer exactamente o contrário daquilo que os seus seguidores sempre acharam que eu deveria fazer, pude conquistar um dos mais preciosos bens que podemos ter na Terra enquanto cá estamos: liberdade de pensamento. E isso, felizmente, ao contrário de alguns que conheço, Balsemão nunca me conseguiu tirar. Antes pelo contrário, pois se não tivesse sido ele, nunca teria tido motivos para lutar pela Liberdade. Por isso, só lhe posso dizer: Obrigado por me ter dado a conhecer o que é ser-se livre de verdade!
Com o Benfica não se faz farinha — porque a farinha, ao menos, quando se amassa, dá pão. O Benfica, por estes dias, dá apenas azia.
Mas comecemos pela parte mais divertida da epopeia encarnada: o Guinness Book of Records, essa Bíblia dos exageros humanos, recusou sancionar o recorde da primeira volta das eleições para a presidência do Benfica. Razão? Havia 86.297 sócios votantes, o que superaria um sufrágio do Barcelona, mas — pasme-se — não houve eleito.
Porém, como o povo benfiquista é resiliente, e talvez também algo supersticioso, as águias juntaram-se em bando ainda mais cerrado e, na segunda volta, este sábado, lá bateram o recorde — sem penugem nem hesitação — e tiraram as peneiras aos blaugranas:93.891 sócios a exercer o seu voto. Um mar humano. Ou melhor: um bando de águias em romaria cívica.
Poderia ter sido 93.892, se este vosso cronista tivesse ido cumprir o seu “dever” cívico. Contudo, abstive-me — não por desinteresse, que o Benfica é coisa séria, mas por prudência moral. Já bastam as bocas ocasionais de que, por escrever nesta modesta varanda, não abordo os muitos temas sensíveis da bola. E agora, se aparecesse de boletim em punho, diriam logo que tentei influenciar as eleições em favor de um candidato — especialmente depois de ter escrito, na última semana, que a holding familiar de Rui Costa é um inferno.
Assim sendo, preferi não dar azo a rumores. E, convenhamos, a abstenção no desporto também tem a sua poesia: é o direito de quem ama, mas não quer ser cúmplice.
De qualquer modo, a democracia benfiquista continua a ser um hino à complexidade: eu, com 25 anos de sócio, teria direito a 50 votos — e isto, sim, é uma verdadeira democracia, daquelas em que uns valem por cinquenta e outros por um. No fundo, é o Benfica a antecipar o futuro da política portuguesa. Mas pronto, também não se perdeu muito: Rui Costa venceu Noronha Lopes com larga vantagem, e o único voto que o Guinness perdeu foi o meu.
Depois deste feito monumental, esperava-se que o Benfica serenasse os nervos e, liberto das tensões eleitorais, mostrasse em campo a mesma força que mostrou nas urnas.
Afinal, quem é capaz de mobilizar quase cem mil pessoas devia ter potência para mobilizar onze jogadores. Mas não: a equipa, qual símbolo da nação, continua a jogar como quem espera que alguém faça por si o trabalho. Contra o Casa Pia — sim, o Casa Pia, e não o Real Madrid — esperava-se uma exibição tranquila, um banho de bola, um resultado folgado. No ano passado foi 3-0.
Afinal, o que se viu neste domingo foi mais uma sinfonia de passes inúteis: trocam bolas, recuam, lateralizam, atrasam, contemporizam… Fintar, cruzar com precisão ou rematar à baliza já é pedir um esforço quase revolucionário.
O primeiro golo até apareceu cedo, por Sudakov, num remate de belo efeito aos 17 minutos — daqueles que enganam o público e fazem sonhar os adeptos com um milagre.
Foi sol de pouca dura. O Benfica, fiel à sua nova doutrina táctica do tédio, retomou o carrossel de passes para o lado, como se o futebol fosse um concurso de quem adormece o adversário primeiro. Ao intervalo, a plateia já bocejava. Ou, pelo menos, eu. Salvou-se a sandes — que tinha alguma carne de verdade — e a pêra do farnel, que estava rijinha, como deve ser.
No regresso ao relvado, o destino fez o favor de nos recordar que o Benfica moderno tem um pacto secreto com o infortúnio. O inevitável penálti a favor ainda surgiu — é quase uma cláusula contratual de cada jogo — e Pavlidisnão falhou.
Mas quando se esperava alguma serenidade, eis que António Silva, que parece ter sido abençoado com o dom de complicar o simples, decide oferecer um momento de suspense. Fez das dele, com um penálti discutível — é certo —, mas penálti. Trubin, que anda a jogar o papel de santo padroeiro dos desgraçados, ainda defendeu o castigo. Só que, no Benfica, até as defesas se tornam tragédias: Tomás Araújo, num gesto de solidariedade suicida, resolveu limpar a área, evitando uma recarga, com um pontapé que acabou, certeiro, dentro da própria baliza.
Foi um autogolo tão sincero que até pareceu ensaiado. O público não sabia se devia rir, chorar ou pedir uma auditoria às leis da física.
A partir daí, o destino fez o resto: houve um golo (bem) anulado a Leandro Barreiro, para dar um toque de injustiça, e, como manda a tradição desta época, houve golo do adversário nos descontos — porque, no Benfica, o relógio é sempre inimigo.
Mais um empate caseiro — o terceiro concedido esta época na Luz, depois de Santa Clara e Rio Ave —, mais uma exibição de sonolência, mais uma prova de que esta equipa é previsível até na mediocridade.
O Benfica transformou-se numa espécie de dramaturgia grega: conhecemos o início, o meio e o fim — e o coro já canta o lamento antes da tragédia acontecer.
Rui Costa, reeleito com pompa e circunstância, bem podia aproveitar o embalo das urnas e tentar governar também o relvado, porque José Mourinho parece mais preocupado em garantir posse de bola do que golos — e, convenhamos, os adeptos não pagam bilhete para ver passes horizontais.
Há, todavia, uma beleza estranha nesta desgraça. O Benfica mostra-se o espelho perfeito de Portugal: tem talento, tem história, tem paixão e até recorde no Guinness — mas tropeça sempre nos próprios pés.
De qualquer forma, eis-me aqui a revelar aquilo que sou: a Da Varanda da Luz mantém-se fiel à sua tradição — crítica, sim, mas com amor. Até ao próximo desaire.
PEDRADAS NO CHARCO I Há axiomas a levar em conta nisto de intervir. Por exemplo, o Jornalismo é o quarto poder, e o seu papel é noticiar com isenção, expôr com factos e enfrentar os poderes, ouvir todas as partes. A mercantilização da Imprensa tornou o negócio dos Media um pardieiro de favores, promíscuo e servil. Um matrimónio entre a publicidade e a manipulação. O espaço de opinião é onde se pode e deve fazer a exposição de tendências e idiossincrasias. Goste-se ou não. Se me der para lembrar numa crónica factos ocorridos em 1900 e carqueja, não vou tergiversar ou cometer delitos gratuitos de opinião, ataques velhacos ad hominem, mas tenho direito a tecer retratos parciais fruto da minha experiência com tratantes (ou elogiosos, se for o caso). Outra coisa: escrever para agradar a gregos e troianos é um mau princípio. A escrita criativa é por natureza uma actividade subversiva. Tal como a escrita de Imprensa (artigo, notícia, reportagem) um espaço de informação.
A SALVAÇÃO I Talvez a paz de espírito permita deixar este mundo sem conflitos (internos e externos). Não faltam livros de ajuda, terapias, exemplos de gurus e influencers de serviço à grande causa da paz entre os homens. O humor (negro ou de outra tonalidade) é uma arma eficaz, mas os picaros sofrem de cinismo. Um cinismo de sobrevivência, idealista, mas cinismo na mesma. Os guerrilheiros idealistas querem limpar a face da terra da corja que explora o homem. A morte do inimigo é o seu credo. Há uma pestilência de competição encarniçada que vai das ruas ao parlamento, dos estádios aos templos. Nasce tudo de cabeças onde a cooperação é tomada apenas no sentido de acabar com o inimigo. Onde estás, amigo? Onde estás, amor? Há um refúgio secreto onde se ouvem os bateres do coração, o murmúrio de um cão fiel e leal, um caminhar de mãos dadas. Se o têm não o divulguem. Até isso é motivo de cobiça e inveja, o motor da frustração que leva à apologia da inimizade. Só é inimigo quem vos quer governar e pôr a pata na jugular.
O CAPITAL I Quem precisa de bulir para sobreviver (e observa as notícias sérias e isentas) é natural que se indigne, insurja ou até parta para a angariação directa de fundos perante o regabofe com os dinheiros”públicos”. Se o fizer é uma justa causa. Por outro lado, ninguém deveria abrir o bico sem ter passado por duras realidades (ditaduras, estupros, violações, violência gratuita, bullying ou assim). Não falo de perder os pais segundo a ordem natural da vida. Falo de perder um filho, por exemplo, raptado, torturado, violado e depois atirado aos bichos ou de tiro na nuca ou alvo de tiro de um sniper como um pato. Vale para um ou outro lado da barricada de quem perpetra. Falo do patrão coçar a micose enquanto os assalariados se esfalfam (estudasses, não é? Ou não tivesses dignidade para não subir na horizontal). Falo de não ter pais ricos, heranças, e ser incorrupto e dar o litro a trabalhar por uma vida decente e nunca sair da cepa torta porque o sistema é o que é. Falo de haver fome quando há desperdícios. Falo de andar a roubar, espancar e assassinar pobres diabos só por serem doutro país (pobres diabos pois claro). Falo de usar a lei cabotina do mais forte para subjugar no lugar de carregar em ombros e alcandorar quem trabalha e enriquece os accionistas. Falo de usar o panegírico do socialismo, do comunismo e da social democracia e ser um déspota ou arrivista de trazer por casa. Falo de escrever sem lágrimas.
EXERCÍCIO I Antes de qualquer actividade física é preciso aquecer, alongar, para prevenir o risco de lesão. Na escrita o princípio é idêntico. Alinhar o tico e o teco, dar a primeira demão, limpar a ganga (gordura), corrigir os excessos e só então publicar. O público leitor agradece. Até é capaz de reler ou guardar e partilhar como se guardam recortes de jornais e revistas. Por falar nisso é raro ver aqui textos fotografados com as respectivas caligrafias. A escrita manual diz muito da persona. É como uma voz silenciosa na forma de gatafunho ou um desenho letra a letra, símbolo a símbolo, frase a frase, ideia a ideia, irrepreensível.
Hoje é dia de mudar o mundo, depois da tempestade varrer a madrugada.
Começar o dia com um abraço e um beijo sem desejos.
Agradecer a quem nos ensanduicha o papo seco, tira a bica sem um gesto maquinal. A quem nos conduz ao trabalho, o motorista, o carro bem oleado e de travões revistos, o político e seu partido que se batem por leis justas e guardam a língua no saco, os jogadores que deram o litro para vencer mesmo que tenham sido derrotados. Agradecer aos músicos, aos artistas, aos escrevinhadores de redes sociais ou aos jornalistas que se ocupam em escrever a verdade dos factos. A Divina só Deus sabe.
BILHETE DE IDENTIDADE I Não tenho cadastro, mas não significa não ter aprontado. E não falo de meter chupa-chupas ou chocolates Regina ao bolso. Estou a falar de outras cenas, e não me arrependo. A acção directa é um instrumento de defesa pessoal. Quando nos atacam a defesa deve ser proporcional. Um insulto, toma lá outro. Um soco, esquiva, e pimba. Um tiro já é mais complicado. Se alguém tocar nos meus, a resposta é na mesma moeda, ou um pouco mais contundente. Estou a fazer uma simulação para o entendimento do estado do mundo. Evolução é ignorar, dar a outra face, recorrer ao coro dos tribunais ou ter a guarda alta? Posso beliscar ou mesmo ir à jugular num texto. Mas isso é coisa pouca se a maldade é refinada.
Em puto sofri de bullying. Levei porrada da grossa, além das bofetadas correctivas. Ouvi barbaridades. Passei por humilhações. Emasculações disfarçadas de amor a cargo de vítimas piores do que carrascos Fui gamado pelo Estado e ciganos. Tenho uma catarata no olho esquerdo à conta de um ajuste de ciganos que trouxeram os primos por causa de uma luta que me correu bem. Fui gamado pelo Estado de tal ordem que quase sucumbi a uma depressão. Não há lutas leais. Talvez nos ringues e nem todas.
Sou pouco crente na bondade generalizada. Há gente boa. Há gente do Amor e da Paz. São esses que quero comigo, ao meu lado, nem à frente nem atrás.
A CAPITAL (O jornal defunto)
Não esperei 28 anos para falar deste assunto na última crónica “A Glória Perdida”. O nome do chefe de redacção (que exerceu o seu contraditório) ocorreu-me somente num contexto de histórias lamentáveis ao serviço do Jornalismo. Podia escrever um ensaio sobre esses 30 anos e picos a dar a cara e o corpo ao manifesto, mas só digo que conheci diversos vespeiros e fiz um punhado de amigos. Também amigos, amigos, negócios à parte.
Sobre a situação em concreto, tal como disse o chefe nasceu de um erro meu, fruto da ingenuidade. Bastaria ter confirmado se o nome e a patente correspondiam ao entrevistado. A impressão que guardei foi de nada do sucedido ter sido inocente.
Sobre a intenção da peça, foi encomenda do editor Rodrigues, que me disse para me deslocar ao comando-geral da PSP no pressuposto de entrevistar o Comandante. Se fosse apenas para recolher um depoimento de um relações públicas tê-lo-ia feito por telefone. Fui tolo ao comprar lebre por gato.
É facto que fui levado à sala da direcção para ser despedido e nunca mais me esqueci do vil cenário que presenciei. Se o chefe diz que me apoiou, fico satisfeito por saber, mas não foi essa a impressão que guardei, sobretudo pelo terror psicológico que vivi nos meses seguintes até sair do jornal por minha livre vontade.
Quanto à directora Helena Sanches Osório (com quem mantive uma boa amizade até ao fim e depois do sucedido ainda me convidou para ver o filme do Taveira e umas belas jantaradas na sua casa do Estoril) limitou-se a mudar-me para a secção de Cultura. O chefe sabe o que estou a dizer porque estava lá. Se foi sugestão sua salvar-me, aqui fica um obrigado extemporâneo.
De resto chegámos a ter uma conversa os dois, na mesma noite, no corredor à saída da redacção, sobre o que achava daquele incidente e da irrelevância de me chamar Salazar. O Gomes, homem de guerra, soa mais bonito.
Também faltou dizer que toda a redacção sabia que eu ia ser pai (aos 25 anos) e caso tivesse sido despedido seria de uma tremenda crueldade.
Nada de anormal neste mundo e não só nos pés de vento do Jornalismo.
Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)
É A ECONOMIA, ESTÚPIDO I A violência nasce da frustração. Pode ser apenas um grito de raiva ou uma acção colectiva. Por exemplo, sabemos (sabeis, certo? Talvez até tirais partido da propriedade) que arrendar uma casa não é para todos. Ide aos sites e vede quanto custam e o que é pedido. Os ordenados (quando os há) não batem certo com o valor da renda. O certo é uma renda representar um terço do salário e nunca acima das possibilidades. Isto, de cobrar os olhos da cara, não vai mudar. Quanto à aquisição e ao recurso ao crédito bancário são outros 500.
Depois, há o acesso aos alimentos e bens essenciais, nas mãos de galifões de grandes superfícies que recrutam na base do salário mínimo africano. Já para não falar da qualidade dos alimentos. Viver custa e não é barato. Enquanto isso, peleja-se pelas quinas e símbolos da agremiação desportiva onde o dinheiro é de outra galáxia. Aspiram os putos a serem artistas da bola. Pudera. Ou então entrarem na vida política e juntarem-se aos coros de sapos. Exibirem o que se constrói num chatgpt ou fazerem de conta que são felizes. Isto não vai mudar. O dinheiro é quem mais ordena e nós (a maioria) somos as tetas para ordenhar e manter ordenadas. De ordenado mínimo, se possível. Se escrever aqui for a pagantes, haverá deserção em massa, como quando a necessidade pede acção. Acção directa.
À MERCÊ DE MERCEEIROS E MERCENÁRIOS I O desastre do elevador da Glória levanta questões graves e sérias sobre a gestão e a política. Acidentes sucedem, mas podem ser evitados se houver o cuidado de não facilitar. Há uma manutenção imperativa a fazer e remunerada a condizer com a responsabilidade. Há a lotação para respeitar. Se for apurada a ausência de contrato de manutenção há pelo menos um mês (como se aventa) é um crime. Tal como muitos crimes e impunidades que se alastram onde cheira a dinheiro. Lisboa tresanda a esturro e avidez. Este acidente é muito mais do que um acidente. É um presságio.
P.S. Ando a alertar para a falta de obrigação de inspecções obrigatórias aos veículos de animação turística, que mais cedo ou mais tarde redundará num acidente fatal, fora o imperativo não obrigatório de certificado profissional para o exercício da profissão, ou mesmo o cadastro limpo. Leram aqui.
DESGRAÇAS I Se um tuk perder os travões numa rua íngreme e a descer pode dar-se o caso de morrerem 6 passageiros, mais o condutor e uns quantos transeuntes de passagem, vítimas do acaso. Não faço a mínima ideia de quantos tuks há a circular, ou quantos há no mercado (registados ou não, com matrículas falsas) mas serão mais de 500, todos os dias. Uma coisa é certa: não é obrigatório fazer inspeções aos veículos e duvido que os donos lhes dêem assistência regular. Ou seja, é mais um ramo de uma tragédia à espera de acontecer. Dou de barato que os governos se estejam nas tintas para a obrigatoriedade de certificação profissional, de cadastro limpo ou quem tem competências para este ofício.
Porém, nesta matéria de segurança não facilito. Até sou capaz de arriscar que há tuks a circular sem todos os seguros obrigatórios ou registos de animação turística. Como é próprio das repúblicas das bananas. Conduzir sob o efeito de estupefacientes são outros 500. Haveria mais temas de peso para analisar mas deixemos o tema de lado e voltemos à segurança. Não sinto segurança de qualquer espécie a circular nas ruas de Lisboa, seja pela condução mentecapta, seja pela agressividade lactente no rol de doentes mentais que pululam. Dou por mim sempre em guarda e volta e meia lá tenho que me socorrer do directo à cana do nariz sem me pôr com solilóquios. Imagino-me a viver um drama com família ou amigos, de uma desgraça fruto de incúria. Estou preparado para a vinda do fascismo. Tal como não vejo nada de auspicioso num mundo onde nos querem matar. Falo dos sem fortuna, como eu, cuja maior fortuna é Ver. Ver como nos tratam. E nos atiram areia para os olhos.
DA RESPONSABILIDADE I Tudo está ligado, a começar. Se vendo um “tour”, passeio, uma volta ao bilhar grande, um recojido, ballade ou giro, estou a vender uma experiência sensorial, cultural, histórica, política, social, antropológica, sociológica, filosófica que me exige rigores. Se for apeado, o dever implica certificar-me das informações prestadas além da voz colocada e da elegância. Da bastardia do mestre de Avis à zaragata de Luís Vaz, da passagem de Cagliostro por Lisboa e arredores à desbunda do Conde Duque de Olivares, da vida lisboeta de Cristóvão Colombo e seu irmão Bartolomeu, da graduação dos últimos vinte sete terramotos à negligência no Elevador (Ascensor) da Glória, da deambulação e flanneries de artistas à engenharia de Monsieur Ponsard, dos exilados brasileiros aos invasores franceses, dos sefarditas mais ou menos ilustres aos Califas e centuriões. É todo um trajecto de possibilidades infinitas. Convém ter bibliografia avisada e ler sem empinar. Os euros da viagem têm razões de ser. Tal como a condução segura, o brio e a seriedade intelectual. A negligência neste ramo só é ofensiva perante a concorrência desleal. Quando um patas de urso se achega a tentar o dumping o turista incauto só pensa na poupança. No poupar não está o ganho.
O QUE FAÇO EU ALI I De 1991 a até 2016 vivi materialmente do Jornalismo e, em parte, da venda de livros e cursos de Escrita de Viagens. Ou seja, paguei as minhas contas e outras contas que me foram imputadas pela ingenuidade de casar com comunhão de bens adquiridos. De confiar na idoneidade de quem entreguei o meu coração e tudo o que tinha. Cheguei ao mundo dos tuks por mero acaso. Para escrever ‘O Motorista Acidental’.
Escrever é tudo para mim. Em dez anos de tuks publiquei vários livros, sempre na esperança de poder viver somente da escrita. Fui encarando esta actividade como um serviço de embaixada cultural, e como não sou hipócrita, para beneficiar do vazio legal como 100% dos ramificados. Seria o primeiro a ser ordeiro nessa matéria se fossem martelar um a um dos que ali andam.
Pagaria outra vez o meu quinhão. O que mais me enoja é haver gajos que nunca na vida – a não ser como ladrões e vigaristas – teriam o soldo que têm e andam na rua a vender tours cujo passeio equivale ao embuste que são, a amedrontar os colegas, a picar, a espicaçar e a dropinar, cheios de papo com os seus euros amealhados sem vergonha do embuste que vendem. Gajos que não valem o chão que pisam, muitos deles iletrados e sujos da cabeça aos pés. Merda humana. Em todos os ofícios há disto. Pena que não morram nas tragédias da Glória. Oxalá a vida os foda bem fodidos. Eles sabem de quem falo.
FALAR DE COR E SALTEADO I O Jornalismo ensinou-me (entre outras coisas) a ouvir todas as partes visadas. É claro que onde há um sujeito há idiossincrasias, tendências, gostos, afinidades e recalcamentos e opiniões mais ou menos bem formadas. Quando o escritor Graham Greene escreveu “odeio mexicanos” pagou caro o preço da boutade. Ódios destes, generalizados, são comuns. Contra clubes rivais, religiões sectárias e ideologias políticas. Contra raças e cor de pele. A capacidade de aceitar a diferença é rara.
O caso de Gaza é um paradigma do ódio mútuo. Da tentação do mal. Se pudessem, e quando podem, as vítimas tornam-se carrascos. Um dia entrevistei um Rinpoche violentamente torturado no Tibete de sorriso nos lábios e na face. Tinha as marcas da tortura no corpo e decerto na alma, mas falava dos carrascos com compaixão. Afinal só cumpriam ordens. É como culpar os pais e o país pela atitude ressabiada. Ainda o melhor é ir às origens da maldade e avaliar as possibilidades de restauro. No lugar de pegar em armas.
DA MALDADE I Quando descobri a maldade era criança como todos nós. Um tio cobarde batia-me só por sadismo. Dava-me carolos na cabeça e deixava-me a chorar agarrado aos galos. Porquê o fazia, não sei. Talvez por querer fazer o mesmo ao meu pai e não ter coragem. Na rua havia uma resma de velhacos, caceteiros, invejosos e ardilosos vigaristas.
A minha estreia na maldade foi ir ao lote de papelão de um andrajoso e torná-lo a patacos. Tal como o fiz com os pinheiros dos ciganos da avenida da Igreja ou a aliviar as hóstias da sacristia para vender na padaria. Só parei a maldade do tio pulha no dia em que lhe dei com um cinzeiro nas fuças. No Jornalismo cruzei-me com vários tratantes, um deles o grande comunista Pedro Tadeu que me quis fazer a cama na Capital. Embirrava com o meu apelido e armou-me uma cilada como meu editor. Alterou o artigo (a patente do oficial da Polícia) e fez-me passar por um embaraço que quase me custava o emprego. Valeu-me a confiança da Helena Sanches Osório. Teria um rol simpático de histórias com patifes na minha vida profissional, como a equipa de produção e realização do Endereço Desconhecido, a começar e acabar no José Carlos Santos, esse biltre cocaínómano, psicopata e narcisista. No ramo dos tuks achei o pior da raça humana. Talvez por ser um trabalho de vendilhões de rua, cuja única lei é a do mais forte e astuto. É a condição humana animal fruto mormente da inveja do carisma.
GUIAS I Se me fosse dado poder de veto, só uma elite ilustrada faria serviços de guia. Nem eu o faria sem antes me sentar nos bancos universitários e dali saísse ornado de diploma. Toda a choldra teria guia de marcha e estou certo de que em havendo fiscalizações 99,99% teriam contas a ajustar com o fisco, a IGT e a ASAE. Para os Moedas da vida é mais fácil atiçar os cães da EMEL e da PM, do que ir ao cerne da questão. Ou seja, ser guia é guiar e quem o faz precisa de competências além de um bigode com laca ou um decote pronunciado. De arranhar as línguas aprendidas enquanto emigrantes de vão de escada ou citar a Wikipédia quando o faz. Já nem vou falar da chusma de asiáticos que descobriu uma mina de ouro ao conduzir um riquexó que nas suas terras lhes serve de táxi. Um embuste generalizado é o que é. Óbvio que há guias diplomados como a Dona Lígia ou arquitectos frustrados e empresários ávidos de dinheiro sem espinhas.
A Literatura levou-me ao ofício de guia. Primeiro em Istambul, depois em Praga e por fim, Lisboa, a minha menina rainha. Só preciso de um tuk para subir ribanceiras. De resto, posso sentar-me no British Bar, pedir um Jameson e brindar ao Zé Cardoso Pires, para nomear apenas um ilustre que decerto todos estes guias de ocasião devem achar ser um falecido jogador do Benfica.
Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)
Esta crónica teve um texto de direito de resposta, da autoria de Pedro Tadeu, que pode ser lido aqui.