I. Sunset Boulevard, 18 de Março de 1988
Mickey Rourke acordou às onze e vinte da manhã, com os estores mal fechados a riscarem a cara com luz. Tinha dormido em cima do sofá, vestido com umas calças de fato-de-treino encardidas e uma t-shirt com o logotipo do Barfly. O cão dormia enroscado na carpete. Uma garrafa vazia de Bourbon tombada ao lado, e uma sandes de atum esquecida em cima do piano compunham a pintura hiper-realista.
Ficou ali, deitado, a olhar o tecto. Não pensava em nada. Ou, pelo menos, em nada que valesse a pena dizer em voz alta para si mesmo. Mickey falava sozinho muitas vezes com a sua voz calma e serena, igual à dos filmes. Sentia o corpo como um armário mal fechado e tinha a conta bancária cheia com trabalho de estúdio e capas de revista. Às vezes não sabia o que fazer ao dinheiro. Este dia guardara-o só para si. Iria ser calmo. Como gostava.
Tinha um almoço com um produtor às treze horas — um dandy fora de época que usava camisas brancas com suspensórios e falava devagar, como se cada frase tivesse de ser escutada por fantasmas. O papel era num filme qualquer de acção, com tiros a mais e diálogos a menos sobre nada. Mickey disse que ia pensar, mas já sabia que ia dizer que não, embora não soubesse bem gerir a carreira – ou talvez a carreira não o soubesse gerir bem a ele.
Gostava de argumentos com frases curtas e personagens estragadas, mas motivantes e idiossincráticas.
Levantou-se, foi à casa de banho. Enxaguou a cara. Olhou-se ao espelho. Sorriu e decidiu deixar ficar a barba pela qual era conhecido. Uns dias antes, uma jornalista de uma revista qualquer escrevera que Mickey tinha a barba de três dias mais bela e sexy do planeta. E agora estava ele ali, na casa de banho, sozinho com a sua barba de três dias.
Estava bonito de uma forma que começava já a parecer perigosa. O rosto ainda era o de um deus grego com olheiras, mas havia já pequenas fissuras na estátua, que só ele conhecia.
Desceu para o Chateau Marmont. Pão tostado, ovos mexidos, e sumo de laranja deram-lhe algum ânimo.
Leu a Variety. Havia uma nota pequena sobre um projecto novo do Coppola. Pensou em ligar-lhe.
Mas não ligou.

Encontrou-se com o produtor mas, como previsto, não aceitou a proposta. O projecto tinha tiros a mais e frases a menos. Que se foda o cinema.
Às três da tarde, foi ter com o seu treinador de boxe no ginásio em Venice. Trinta minutos de corda, saco pesado, e um pouco de sombra com um cubano calado que batia como se o mundo lhe devesse explicações. Mickey adorava o som dos punhos no couro – era uma música mais sincera que os diálogos de qualquer filme.
Ao sair, comprou cigarros e uma Coca-Cola. Um puto reconheceu-o:
— Ei, tu és o gajo do Nove Semanas e Meia!
Mickey fez um gesto com a cabeça. Sorriu. O sorriso de quem já sabe que está a ser visto em câmara lenta.
Ao final da tarde, subiu a Mulholland Drive. Parou num miradouro qualquer. E um cigarro apareceu na sua boca como que por magia. O céu tinha aquela cor indecisa de um corpo a arrefecer. Pensou em escrever um guião. Pensou em chamar a mãe. Pensou em nada. Pensou em tudo. Pensou em Kim Basinger quando lhe chamava cinzeiro humano durante a rodagem de Nove Semanas e Meia.
Voltou para casa no seu carro com o rádio a bombar Sonic Youth dos primeiros tempos. Passou pela loja de animais, comprou comida para o cão. Às oito da noite, encomendou comida chinesa. Jantou em silêncio, a ver o Raging Bull na televisão. Mas as coisas não andavam bem com De Niro desde Angel Heart.
Sentia-se menosprezado por todos, mesmo que fosse capa da Variety. Na sua cabeça era tudo inexplicável. O que acharia o pai disto tudo?
Às dez e vinte acendeu dois cigarros de uma vez. Pegou num caderno de capa preta. Escreveu uma frase só:
“A câmara nunca mente, mas também nunca conta tudo.”
Depois fechou o caderno. Foi até ao quarto. Tinha que acordar cedo na manhã seguinte.
Antes de se deitar, abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira. Lá dentro encontrava-se um bilhete dobrado, escrito por ele próprio, meses antes.
Letra torta, lápis gasto. Um dia serás Napoleão.
Gostava de ler essa frase antes de dormir. Era uma mania.
Voltou a dobrar e guardou o papel. Fumou mais um Lucky imitando-se a si mesmo e depois adormeceu com o cão aos pés da cama, como se isso bastasse para segurar o mundo no lugar.
O cão chamava-se Napoleão.
II. Downtown LA, 4 de Outubro de 1995
Mickey Rourke acordou com frio. Estava mal vestido. Um casaco de cabedal coçado, umas calças de ganga velhas e uma t-shirt que dizia “Kill Your TV”. Dormira vestido numa espécie de apartamento que era também cozinha, armário e ginásio falhado. Não era pobre. Também já não era rico da maneira absurda como tinha sido. Tinha dinheiro suficiente para não pensar nele todos os dias e pouco, o suficiente para começar a pensar nele outra vez.
Ficou sentado na cama algum tempo, a olhar para as mãos. As articulações doíam. O nariz já fora partido mais do que uma vez desde que voltara ao boxe. Os filmes não tinham parado exactamente, mas tinham ficado piores, com papéis mais pequenos, e cada vez menos gente dava por eles. Os amigos também se afastavam.
Não eram bem amigos.
Tinha um encontro às dez com um tipo que prometera apresentá-lo a um produtor russo. Um papel secundário num filme de gangsters que provavelmente acabaria directamente no mercado de vídeo, algures na Europa de Leste. Mickey disse que ia.
Vestiu-se com outra roupa do mesmo estilo. Saiu para a rua. Ninguém o reconheceu. Uma mulher empurrou-lhe o ombro por acidente e pediu desculpa em espanhol. Mickey ainda disse, naquele sotaque de Hollywood em que só aparecem duas ou três palavras em espanhol no meio de outras tantas, parecendo sempre mais mexicano:
— Tranquilo. Já não sou ninguém. E no ombro nunca me dói.
Tomou um café num bar ao lado de uma lavandaria. Uma televisão no canto passava um episódio repetido de Baywatch. Pamela corria em câmara lenta naquele momento. Mickey olhou-a como quem olha um quadro antigo, já sem saber se gostou ou não.
Foi até ao ponto de encontro. O russo não apareceu. O amigo que o ia apresentar disse que tinha sido um mal-entendido. Mickey não se zangou. Já aprendera que o ressentimento é um luxo ao qual não se iria entregar.
Ao voltar para casa, passou por um cartaz de Pulp Fiction meio rasgado. Parou um segundo. Sabia que o papel tinha ido parar ao Bruce Willis. Tarantino tinha-o querido para aquele papel e Mickey recusara. Estava demasiado metido nos combates, ou demasiado fora de si. Já nem sabia. Só sabia que agora o filme estava em todas as esquinas — e ele, em nenhuma.
Continuou a andar.

Em casa, abriu o frigorífico. Havia cerveja, leite, meio limão, mostarda e uma caixa de comida chinesa com dois dias. Bebeu a cerveja de pé.
Num armário encontrou uma cassete VHS sem caixa. Na etiqueta, escrita à mão, dizia apenas: RUMBLE.
Meteu-a no vídeo.
A imagem apareceu com riscos. Matt Dillon estava sentado numa mota. Dennis Hopper parecia já ter nascido cansado. Depois apareceu ele.
Mickey aproximou-se da televisão e ficou a olhar para a própria cara durante alguns segundos. Andou para trás e carregou no play. Viu novamente. Recuou outra vez.
À terceira desligou a televisão.
Foi até ao canto da sala onde tinha pendurado um saco de boxe. Tirou o casaco, ficou de t-shirt e começou a bater.
Devagar primeiro Esquerda. Direita. Esquerda. Depois mais depressa.
O saco abanava sobre a sala enquanto o Mickey Rourke de 1983 permanecia congelado na sua mente. Como se a sua mente fosse um ecrã.
Bateu durante quinze minutos. Talvez vinte. Parou quando começou a doer-lhe uma das mãos. Sentou-se no chão. O telefone tocou. Mickey deixou-o tocar.
Voltou a tocar. Não atendeu. Devia ser a namorada.
Ao fim da tarde saiu outra vez. Comprou cigarros, comida para levar e uma revista de cinema que folheou enquanto esperava. Havia actores novos que não conhecia. Um deles tinha vinte e poucos anos e alguém lhe chamava “o novo Mickey Rourke”. Mickey fechou a revista.
— Boa sorte.
Voltou para casa já de noite. Encontrou um postal de aniversário na caixa de correio. Estava quase três semanas atrasado. Era da mãe.
Dizia: “A vida ainda te vai dar uma surpresa. Beijo.”
Levou o postal para cima.
Comeu em frente à televisão desligada. Depois pegou num velho guião do The Pope of Greenwich Village do qual nunca se desfizera e começou a ler uma cena. No verso de uma das páginas encontrou uma frase que escrevera à mão anos antes.
A lápis, quase apagada:
“Um homem pode perder tudo menos a sua última frase.” Sorriu.
Dobrou o papel e pensou que aquilo podia não querer dizer nada. Gostava da ideia das frases tanto destilarem enigma como estupidez.
Deitou-se no sofá a lembrar-se de quando foi Mickey Rourke. Já fora uma marca. Agora era uma anedota. Uma anedota com pouca piada.
Do outro lado da rua, um cão vadio tinha parado junto à janela entreaberta. Ficou ali a olhar para dentro.
Mickey olhou para ele. Durante alguns segundos nenhum dos dois se mexeu.
O cão acabou por atravessar a rua e desapareceu.
Mickey fechou os olhos.
Fez-lhe lembrar o Napoleão.
III. Nova Iorque, 23 de Fevereiro de 2009
Mickey Rourke acordou num hotel de quatro estrelas em Manhattan. Na noite anterior tinha perdido o Óscar para Sean Penn. Depois de meses a ouvir falar do seu regresso, da ressurreição, do milagre, da segunda vida, acordava agora sem a estatueta em cima da mesa. Não era particularmente grave. Já tinha perdido coisas muito mais importantes. Cães, por exemplo.
O telefone tocou. Era um jornalista inglês que queria confirmar uma entrevista para as 11h. Disse que sim, com a voz ainda meio mergulhada em álcool.
Olhou-se ao espelho. A cara já não era a mesma. Havia ali um Frankenstein afectivo feito pelo bisturi, quedas, combates e noites mal dormidas. Mas os olhos ainda eram dele. Iguais aos do detective do Ano do Dragão. Iguais aos do chavalo de Miami que só queria salvar o irmão da prisão.
Tomou banho. Vestiu-se com vagar. Jeans, camisa preta, botas velhas. Desceu. Café duplo, dois ovos cozidos, torradas secas. Um fã pediu-lhe um autógrafo com um DVD de Sin City. Outro tirou uma foto com ele no hall. Mickey posou sem sorrir. Nunca gostou de sorrir para máquinas, muito menos humanas.
Às onze, fez a entrevista. Falou da infância. Do pai que o deixou. Do boxe. Do cão. Do cão novo. Do outro que morreu. E disse, a certa altura, quase em sussurro:
— A fama destrói o que não consegues esconder. Sabias que um cão já me salvou do suicídio?
O jornalista não percebeu mas ele não corrigiu.
À tarde, deu um salto ao ginásio. Dez minutos de bicicleta. Quatro séries leves. Suor discreto, mantinha-se em forma apesar de tudo. The Wrestler provava-o.
Pensou que continuava a ter medo de morrer de repente, como um lutador que não ouve o sino. Ao sair, ligou a um velho amigo da altura do Rumble Fish.
— Ainda estou aqui!
Do outro lado, silêncio. Depois riram. Mais uma ou outra piada ocasional e desligaram. Mickey gostava de falar ao telefone com os amigos, mesmo que fosse para não dizer nada.

À noite, jantou sozinho num italiano pequeno em Chelsea. Risotto de cogumelos e um copo de tinto. Um casal jovem olhava-o com curiosidade, mas não se aproximou. Mickey estava sereno. Já não precisava que o mundo lhe batesse à porta. Gostava de não ser reconhecido, mas isso era quase impossível, por tudo o que tinha sido a sua vida e até pela nomeação repentina ao Óscar.
De regresso ao quarto, tirou os sapatos. Pegou num envelope antigo, guardado entre páginas de um livro de Faulkner. Dentro, um bilhete escrito por ele, talvez dez anos antes.
Letra insegura, suja de gordura:
“Se te voltarem a aplaudir, finge que não ouves. Só os cães é que voltam quando são assobiados.”
Conseguiu rir. Dobrou novamente, acendeu um cigarro e apagou a luz com a leveza de quem já sabe que nunca se morre porque todas as mortes são inúteis.
IV. Hollywood Forever, 17 de Maio de 2032
Mickey Rourke foi enterrado numa segunda-feira cinzenta, sem escândalo, sem imprensa, sem discurso de celebridade e sem qualquer sinal de que o mundo, mesmo o pequeno mundo da indústria do entretenimento, tivesse dado por isso. Talvez fosse esse o desfecho mais justo para alguém que passou metade da vida a tentar sair da própria pele e a outra metade a tentar voltar para dentro dela.
A cerimónia, se é que se pode chamar cerimónia ao que aconteceu, consistiu num funcionário do cemitério a confirmar os dados num tablet rachado, três palavras ditas por uma voz sintética com sotaque britânico e quatro pessoas que não se percebia bem se estavam ali por afecto, por culpa, por acaso, ou por erro de localização no Google Maps.
O corpo tinha sido cremado duas horas antes numa unidade automatizada que processava vinte e dois cadáveres por dia, com temperatura regulada e opção de música ambiente – uma funcionalidade que, segundo o sistema, ele não activara, talvez por esquecimento, talvez por desinteresse, ou talvez por achar, com alguma razão, que qualquer música de fundo no momento da incineração era um insulto à sua última performance.
Os presentes eram um ex-agente com casaco de napa, cabelo pintado com espuma e um relógio de pulso digital com ecrã partido que, ainda assim, vibrava de quinze em quinze minutos com alertas de reuniões inexistentes; uma mulher que dizia ter partilhado com ele um quarto de motel e um par de comprimidos numa noite dos anos noventa que ninguém registou; um actor falhado com cara de figurante permanente e um ficheiro PDF com as falas de Rourke num filme que nunca chegou a ser feito; e ainda um miúdo magro, com calças demasiado curtas e um iPhone nas mãos, provavelmente à procura de um título de artigo para o seu blog “Necropolítica Estética em Hollywood”.
A voz sintética começou a falar às onze em ponto. Disse:
“Michael Rourke, conhecido como Mickey, actor, lutador, símbolo de uma época em que o rosto ainda dizia mais do que os dados”.
E depois houve uma falha no sistema. Já era habitual desde 2030.
Repetiu-se a palavra “ícone” três vezes, como se até a máquina não soubesse bem o que ele foi, ou como nomeá-lo agora, que já não vendia nada.

O ex-agente aproveitou para fazer scroll num feed de notícias falsas.
A mulher olhava para a urna com as cinzas como quem olha para um móvel barato comprado à pressa.
O actor encostou-se a uma árvore e disse para ninguém em particular que Mickey era “intratável, mas verdadeiro”. O miúdo abriu uma aplicação de notas e escreveu:
“A última estrela analógica morreu num mundo que já não sabe distinguir um actor de um avatar.”
Guardou o telemóvel. Não parecia triste. Parecia atento, clínico, quase aliviado por poder finalmente classificar Rourke como um artefacto.
Depois disso não se passou mais nada. Não houve flores. Não houve palmas. Não houve drones com câmaras. A única coisa que apareceu foi uma notificação automática da conta verificada de Mickey Rourke no novo X, o Y, programada meses antes por um gestor de redes despedido entretanto, com a frase:
“Continuo vivo nos vossos ecrãs. Vemo-nos na próxima sessão. Não desistam”.
Teve 17 likes, 2 reposts e um comentário:
“Já foste, champ.”
O ex-agente disse:
— É melhor irmos andando.
A mulher acendeu um cigarro electrónico todo partido mas que ainda bombava nicotina e disse que tinha 8% de bateria no carro e alguma gasolina que andava bem cara, e se queria boleia para algum lado. 8% ainda dava para alguma coisa.
O actor falhado não quis, foi a pé. O miúdo ficou mais um bocado, tirou uma foto da campa e perguntou à Siri em voz baixa:
— Quem foi Mickey Rourke?
E a Siri respondeu:
— Mickey Rourke foi um actor norte-americano. Viveu entre 1952 e 2032. É conhecido por filmes como Nove Semanas e Meia, Rumble Fish, The Wrestler, Sin City. Queres que abra a Wikipedia?
— Não.
Guardou o telemóvel, cuspiu no chão e foi-se embora.
Era um tempo em que não havia controlo sobre nada, embora as pessoas pensassem o contrario.
Passados alguns segundos, sem que ninguém desse por isso, as cinzas soltaram-se da urna quase sem a acção do vento e esvoaçaram para um tempo que ainda há-de vir.
Texto de Ruy Otero (artista media). Imagens: The Swimming Pool Project.
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