Do tédio

À saída do recinto José Alvalade, um adepto brasileiro do Corinthians caçoava com razão “deu até para cochilar”. Gerir jogos com o vagar de quem sobe, quando na frente do marcador, é um costume táctico do nosso treinador mirandês.

Até lá chegar, à vantagem, vi uns rasgos do meu quase homónimo Zalazar, a quem ainda não topei o furor guerreiro trazido do Minho e mais arreigado dos genes uruguaios, os mesmos estampados na língua marota e nos pezinhos espertos de Maxi Araújo.

De resto, ainda muito poucochinho de vitalidade e entrosamento, de jogo da bola. Este novo Sporting vai cumprindo os mínimos exigíveis a atletas de alta competição e pagos como CEOs. Um treinador e sua equipa técnica são os maestros, é deles que vem a batuta e a leitura de jogo e do rendimento dos seus pupilos, mas a raça é ou não é matéria prima de cada um.

Fresneda, por exemplo, entrou titubeante quando chegou à casa do leão, porém fez-se um jogador endiabrado e fiável. Faz das pernas coração e sai de campo enlameado e a pingar. Além de ganhar jogos ou dar tudo por vencê-los, requer-se aos artistas vontade e seriedade. Galgas ou dias menos felizes, toca todos. Dormir na formatura ou pôr a clientela a cabecear de tédio é que não, meus caros.

Outro pedido aos cavalheiros que domam ou instigam as feras do reino do leão é tratar de fazer das bonitas palavras expostas nas bancadas em letreiros uma prática arreigada. Altimira creio ser um leitor atento da ideologia do clube que aliás se repete onde haja estádios. É um estádio de espírito, vestir a camisola e dar o litro e o caparro. Fazer dos adeptos chaparros ou tratá-los a ansiolíticos é gozar com quem paga e por vezes falta ao trabalho.

Tiago Salazar rumo ao estádio.

Ando mais convencido das aptidões do grego matulão para ombrear com o cafeteiro mandrião na titularidade. Sinto umas saudades danadas do húngaro sueco tractor. Foram dois anos de puro deleite. Gyokeres são cometas e eclipsam-se. Por essas e por outras o futebol em Portugal é uma volúpia do aborrecimento.

A parte mais divertida de ir à bola, nestas condições, está no patuá das bancadas, nas recolhas de vocabulário e na permissão de um cronista fumar um charuto.

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