O mais perto de um título (não nobiliárquico) de nível superlativo é a conquista da Taça das Taças, em 1964. A final exigiu uma finalíssima, ganha por 1-0 ao MTK Budapest, com um golo de canto directo apontado por João Morais, conhecido como o “Cantinho do Morais”.
Está nos anais da bola e tem valor como todas as mais de 22 mil do museu leonino. Tripeiros e lampiões arrecadaram duas Champions cada um, e no caso dos tripeiros vi e celebrei à medida do feito. As taças da Liga dos Campeões dos lampiões até podiam ser mais, é facto. Nesse tocante devo ser patriota, pois torço pelo produto nacional (até daria jeito haver sempre três ou quatro equipas na competição máxima do mundo).
O ano passado fizemos uma competição de excelência e não fosse o Maxi acertar na barra em Alvalade e talvez o Arsenal tivesse ido de vela. O mais importante é haver jogos de encher o olho e mexer com as entranhas pela positiva.
No campeonato nacional, de 34 jornadas, são raros haver mais de uma mão cheia de jogos dignos do espectáculo. É disto que se trata, como antes se ia Coliseum ou aos hipódromos do império romano ver corridas de carlingas. Havia-as onde é hoje o Rossio, a Praça D. Pedro IV, I do Brasil.
Agora vou fazer uma pausa e já volto para dizer deste Sporting versus Galatasaray. Antes, façamos um minuto de silêncio pelas vítimas do Nepal.
Então isto começou assim. Os turcos entraram no jogo mais afoitos, de cimitarras ao alto e a baterem-se feio e forte em todo o terreno. Cedo se percebeu das dioptrias mal calibradas do senhor boi, perdão, do senhor árbitro. Falta aqui, falta acolá a favor do visitante, e num lance de insistência, com o leão ainda muito mansinho apesar de várias vezes admoestado, o Rui não conseguiu tirar a bola para fora da linha de golo. A ganhar ganharam ainda mais peito, acolitados no boi, perdão, no árbitro, disposto a inverter faltas e cartões no sentido contrário às ocorrências, umas quantas de flagrante delito.
Mas, porém, contudo, o leão foi implementando a sua ideia de jogo habitual, a trocar bolas em velocidade e a explorar o cafeteiro (em dia de amplos sorrisos), até chegar o momento de Geny, o génio por vezes adormecido, que quando activa o óleo da lamparina, não falha na consumação dos desejos. Até ao apito da primeira parte houve futebol do Sporting para assinar mais um tento, que só não entrou porque o boi interrompe uma jogada limpa de contra-ataque e levou as bancadas a um coro de vaias e insultos, digamos, merecidos.
Escrevi ao director Pedro Almeida Vieira que duvido não vir a haver sangue, umas bandarilhas ou ferros curtos espetados nos lombos do homúnculo do apito.
E aí está o que é. Sporting a mostrar quem manda em casa. Como é possível mudar a caixa de velocidades! Embelezar um jogo que se quer e pode de nota artística. Eis que chega a jogada de ataque de onde provém a grande penalidade. O sucedido em volta da marcação é matéria de livro de guerrilha com os turcos a darem o tudo por tudo para atazanar o seráfico Suarez. Limpinho lá para dentro. Nem cinco minutos volvidos nova jogada de ataque do Sporting com uma cueca de Geny a levar o estádio abaixo.
Só faltou a pontaria no disparo final. Temos jogo. E raça para mandar o Rafael leãozito para a casa do caralho. O terceiro golo logo em seguida é um tento de antologia num livro em arco do meu querido Zalazar!
À saída do recinto José Alvalade, um adepto brasileiro do Corinthians caçoava com razão “deu até para cochilar”. Gerir jogos com o vagar de quem sobe, quando na frente do marcador, é um costume táctico do nosso treinador mirandês.
Até lá chegar, à vantagem, vi uns rasgos do meu quase homónimo Zalazar, a quem ainda não topei o furor guerreiro trazido do Minho e mais arreigado dos genes uruguaios, os mesmos estampados na língua marota e nos pezinhos espertos de Maxi Araújo.
De resto, ainda muito poucochinho de vitalidade e entrosamento, de jogo da bola. Este novo Sporting vai cumprindo os mínimos exigíveis a atletas de alta competição e pagos como CEOs. Um treinador e sua equipa técnica são os maestros, é deles que vem a batuta e a leitura de jogo e do rendimento dos seus pupilos, mas a raça é ou não é matéria prima de cada um.
Fresneda, por exemplo, entrou titubeante quando chegou à casa do leão, porém fez-se um jogador endiabrado e fiável. Faz das pernas coração e sai de campo enlameado e a pingar. Além de ganhar jogos ou dar tudo por vencê-los, requer-se aos artistas vontade e seriedade. Galgas ou dias menos felizes, toca todos. Dormir na formatura ou pôr a clientela a cabecear de tédio é que não, meus caros.
Outro pedido aos cavalheiros que domam ou instigam as feras do reino do leão é tratar de fazer das bonitas palavras expostas nas bancadas em letreiros uma prática arreigada. Altimira creio ser um leitor atento da ideologia do clube que aliás se repete onde haja estádios. É um estádio de espírito, vestir a camisola e dar o litro e o caparro. Fazer dos adeptos chaparros ou tratá-los a ansiolíticos é gozar com quem paga e por vezes falta ao trabalho.
Tiago Salazar rumo ao estádio.
Ando mais convencido das aptidões do grego matulão para ombrear com o cafeteiro mandrião na titularidade. Sinto umas saudades danadas do húngaro sueco tractor. Foram dois anos de puro deleite. Gyokeres são cometas e eclipsam-se. Por essas e por outras o futebol em Portugal é uma volúpia do aborrecimento.
A parte mais divertida de ir à bola, nestas condições, está no patuá das bancadas, nas recolhas de vocabulário e na permissão de um cronista fumar um charuto.
Alvalade foi o meu primeiro bairro. Ali fiz o tirocínio das artes da guerra que são as de crescer na rua, entre uma rapaziada danada da breca e ciganada dos bairros periféricos do Cambodja e Vietname (em Chelas).
Nos primórdios da adolescência, por curiosidade antropológica, comecei a visitar a aldeia cigana ao cimo da Avenida dos Estados Unidos da América. Queria ser adoptado pelo rei dos ciganos e tardava em voltar a casa, deixando-me estar até anoitecer deitado à etrusca nos tapetes da família Lelo que vivia de expedientes de feira e outros, dos quais não me apercebi ao certo, mas deviam ser marginais.
Mais tarde vim a saber que eram contrabandistas e traficantes de haxixe e isso explicava os carros de luxo, os molares doirados e o ceptro (uma moca cravejada de diamantes) do grande chefe. Havia sempre guitarras, dança, cantos e lamentos, gataria e vira-latas e um vozear roufenho. Chamavam-me o russo de má-pêlo e acolhiam-me como um dos seus, mal sabendo que Salazar era de origem romani.
Fui parar ao ramo dos tuk-tuks por causa do Frederico Duarte Carvalho, um carolas da História e das narrativas orais, além de escritor prolífico e de valor (com quem editei o livro Cartas do Confinamento). Sabia dos ventos de glória de um par de antigos compagnons de route do Jornalismo, que ali viram uma forma de compensar a míngua das redacções, continuando a fazer da arte de comunicar a bordo de um riquexó o seu ganha-pão, com a tripla vantagem dos vazios legais, o ajuste de contas poético com o Sistema e o grito de liberdade.
Dava-me jeito para compensar um azar de percurso e vim a descobrir na vida de feirante um verdejante pasto de crónicas e reportagens, que me levariam a escrever O Moturista Acidental, e a gravar uma série homónima para TV. Para quem nunca experimentou a vida de tuktukeiro, isto é, visto de fora, e julgando o monge pelo hábito, quem o faz não passa de uma estirpe de diletantes. Um escol de janados, maltrapilhos, indigentes, impostores. A escória da sociedade, que, não tendo onde cair morta, caiu no cockpit de um tuk para arrebanhar uns cobres fáceis.
Ora, o guia, se tiver brio, estuda e dedica-se. Além de saber meia dúzia de línguas, os meandros da História, e de entreter, tem que usar da fineza dos vendedores avisados. Está na rua, mas podia estar numa livraria ou alfaiataria, a dissertar sobre a obra de autores ou a vender fatos por medida. Se sabe quem foi o olisipógrafo Júlio Castilho ou quem são Appio Sottomayor e a Maria João Martins, tanto melhor.
Se pode levar o viajante à mesa do British Bar onde Cardoso Pires escreveu o seu Lisboa: Livro de Bordo ou à viela onde desafinou o papillon de Baptista-Bastos por avanços sobre a sua esposa; ao Martinho da Arcada, onde Pessoa bebeu absinto e caligrafou A Mensagem; ou à passagem esconsa e sombria junto às Portas de Santo Antão onde Luís Vaz se travou de argumentos que o levariam ao cárcere, ali vindo a escrever o primeiro canto de Os Lusíadas, melhor ainda. Se anda munido dos mistérios desvendados por Victor Mendanha ou sabe dos passos secretos e da geometria dos maçons, é pura questão de gosto e apreço pelo que não está à vista.
Alvalade é falar do meu Sporting, indo um pouco mais além. Avô e pai Gomes, adeptos do Sporting, trouxeram-me, por ADN, a paixão leonina. Tenho bem presente o baptismo no velho estádio José Alvalade. Era uma tarde ensolarada e lá fomos, eu, pai e avô (das poucas vezes que nos recordo juntos), assistir a uma partida do campeonato.
Vi-me fascinado com o espectáculo ao vivo, embora me lembre de ter passado mais tempo ocupado a comer queijadas e a emborcar sumóis de ananás. Ganhámos o jogo e por cada golo (uma cabazada) vi-me içado como um papagaio de papel entre leões em êxtase. A emoção do golo tem a sua razão de ser na explicação para a irracionalidade do clubismo.
Ao passear um turista em Lisboa dou por mim a pensar no poema Invitation au Voyage, de Baudelaire, e de como a minha ideia de Portugalidade insiste em ser a de um lugar ao sol onde povos sucessivos campearam para se instalarem, mas no final sobrou um gueto feliz, oásis de turistas em sobressalto, um dos poucos lugares do mundo onde é possível uma mesma rua alojar um muçulmano, um judeu e um ateu sem a noite acabar num paiol de pancadaria.
Penso em discussões pífias de futebol, em poetas e versejadores, em mandriões e mânfios e tanas e badanas e sacanas (como lhes chamou o Nuno Bragança), mas tudo malta convencida de que é porreira e de bom coração, penso no Ernesto Sampaio que dizia ser esta uma terra de bimbos, mas a ocidente não conhecer outra melhor.
Viajar fez-me concluir que o português emigrado é um tipo orgulhoso do seu torrão deixado para trás onde sempre voltará, de peito feito à conquista da terra escolhida como canteiro adoptivo, mas sem nunca perder de vista a pátria por mais anafada a conta bancária.
Dei por mim, na qualidade de exilado (que me levou a escrever o livro de crónicas e contos Quo Vadis, Salazar? Escritos do Exílio), saudoso de um pão capaz, uma sopa da avó, uma diatribe de bola olho no olho na tasca do senhor Abílio, o mar ao sair da porta, a luz coada do Verão quando ainda é Inverno, o burburinho das ruas estreitas da Mouraria e Alfama onde sempre voltei e me vi guia acidental.
Se professor é quem ensina (a andar, falar, pensar…) a minha avó Vessadas que morava em Alvalade foi a primeira e grande mestra da minha vida. Antes de sentar o rabo na 1.ª classe, no Bairro de S. Miguel, comecei por ir com a minha avó para o Campo de Santa Clara, onde ela dava aulas aos neófitos. Eu ficava à retaguarda, nos bancos dos fundos, ao lado de um calmeirão angolano.
Tiago Salazar no ‘local de trabalho’, onde escreveu esta crónica.
Como era o neto da “stôra”, olhavam para mim de lado, mas, com o tempo, acabei por ser incluído e ganhei mesmo a alcunha de Tintim, graças a um redemoinho no meio da testa que perdurou até aderir ao semblante heavy-metal na adolescência.
Nas aulas da avó Vessadas aprendi o bê-á-bá (e as linhas de caminhos-de-ferro e os rios e a tabuada), como os mais velhos costumam dizer, “à moda antiga” (com açoites de régua e demais ensinamentos).
“Ir à bola! é uma expressão de belo efeito. Significa agrado, empatia, traços em comum, gramar. Podia dizer(-vos) gramo o Sporting Clube de Portugal, e acrescentar à brava, mas isto requer umas achegas, porque há condições neste amor que se quer recíproco.
Não se trata de impor ou ditar leis, do género das regras conjugais estabelecidas nos códigos civil e eclesiástico, os limites do esticar da corda, o até onde estou capaz de aguentar o sofrimento, os tiros nos (meus) pés de adepto com os títulos perdidos; ainda a memória recente a latejar da vergonha alheia pela ausência do futebol no Estádio Nacional e a perda (justa) da Taça de Portugal para uma equipa que quis ganhar. O Torreense, esse colosso de vontade colectiva, como se quer tudo na vida, do casal ao partido, da equipa de uma redacção ao país e ao mundo, como se gostaria que tudo fosse, pacífico, feliz e ganhador, sem que perdas signifiquem mais do que derrotas necessárias, como a morte que sempre vem.
Mas íamos nisto do meu Sporting.
Enquanto adepto ninguém da varanda do Varandas ou do gabinete, seja o próprio ou outro alguém, me pergunta se concordo ou discordo com o que quer que seja feito “em nome do clube”. É o poder da Democracia e de delegar o voto, para que outros nos governem.
Bem posso gritar a plenos pulmões no estádio, insultar o Presidente num encontro casual, maldizer o treinador e a equipa técnica, assobiar o colectivo de jogadores ali à mão de semear, além dos árbitros, claro está, cujo p*** que te pariu é um exercício de purga recomendável por especialistas de saúde mental.
Quando se diz que o futebol é o ópio do povo, há que acrescentar o incenso dos turíbulos das claques, as pirotecnias, o rufar dos tambores, os símbolos da geometria sagrada, além dos mantos sagrados que justificam os crimes, como as matanças do Islão e do Cristianismo.
Estou a dar voltas ao texto de propósito, para que vós, leitores, sejais obrigados a pensar. Onde quer este sujeito chegar? A sinopse aqui vai: jornalista vai à bola, destacado para o estádio do seu clube de coração, sem “ir à bola” com tudo o que ali vê, viu e verá.
Começo por um alerta aos poderes leoninos sobre o acesso aos lugares de trabalho dos camaradas jornalistas, que para vossa informação, se encontram no sétimo andar, e se fazem somente por dois elevadores.
Ora, este vosso jornalista, estreante nestes domínios de idas profissionais à bola (ainda para mais no terreno do seu clube de estima) chegou, como o padrinho de uma boda, a tempo e horas de preparar o estaminé e nada faria prever o tormento sucedido.
Recolhida a credencial, a lunch-box (marmita) com a respectiva sandes de queijo flamengo, uma maçã golden, uma barra de cereais sem açúcares adicionados e uma água de 33 centilitros, fiz-me ao piso. Isto é, ao acesso às alturas de onde me seria colocada ao dispor uma secretária exclusiva, tomadas e cabos de ligação ao computador, zonas de fumo e um WC decente, além de máquina de café à descrição.
Sendo homem de meia-idade e ainda viçoso graças ao método anti-aging do Dr. Manuel Pinto Coelho, não me fez grande mossa ter de subir os 900 degraus até ao sexto piso e em vão como já percebestes, após o aviso de que os elevadores não se encontravam em funcionamento e era somente por eles o acesso à tribuna de Imprensa; acontece que se estivesse mais atento teria poupado a ascese e a perda de calorias, porventura essenciais ao esforço de ver um jogo entre o mediano e o assim-assim (lá iremos).
Dizia (e digo e repito) aos poderes leoninos que é disfuncional, disjuntivo e disruptivo ter o acesso a uma zona, em particular de trabalho, limitado a dois elevadores que podem avariar e depois? É o ai-jesus? Deu-se ainda o caso destes elevadores estarem neste dia de giraldinha a ser manipulados somente por um conciérge de ocasião, ao que me pareceu instruído para dar prioridade de ascensão aos acreditados VIPs; ora, estando este vosso escriba anónimo e ronceiro há mais de meia hora pendurado à boca dos elevadores, após ter subido em vão o escadório dos acreditados e esbarrado com uma parede no suposto sétimo piso (sétimo céu), eis que se abre o sésamo; mas, ao avançar para dentro com o ímpeto de Luís Suaréz vi-me chutado para fora, estando ali uma celebridade com prioridade de ascensão e não podendo esta ser acompanhada; faltavam neste preciso instante 7 minutos para o apito inicial do jogo e e mantinha-me ao nível do rés-do-chão.
Podeis questionar-vos: e os outros colegas de media? Porventura mais experientes, deverão ter ali chegado três horas antes ou então são todos Vips menos eu. Ou então ainda, hipótese plausível, terão subido às alturas do estádio por algum feijoeiro oculto. Quando o apito soou, e esse chegou-me aos ouvidos abafado pelo eco da Maria José Valério e das claques perdoadas e reunidas, ainda me achava nos confins da escadaria, entre o desesperado e o conformado.
Nem sequer tinha a quem barafustar, excepto ao aparecer no saguão uma moça da Prosegur que embora nada tenha resolvido, se veio a revelar um achado de simpatia e apaziguamento da minha raiva e frustração. Enquanto os minutos passavam e os ecos dos primeiros instantes da partida se ouviam dispersos pelas caixas de som das escadas, a moça ia-me dando pareceres dos andamentos dos elevadores; munida de um auricular, ouvia o relato do sobe e desce do conciérge e dava-me esperança de chegar ao meu assento de trabalho, talvez antes do intervalo, a hora limite decretada para poder instalar-me ou ser recambiado.
Chegaram então do nada dois jovens bombeiros, afogueados de equipamentos de sobrevivência, de bochechas coradas como o defesa Gonçalo Inácio. Tive esperança de ter nestas duas almas a minha boleia para cima, ainda que tudo estivesse à mercê de um conciérge totalitário, a quem a moça da Prosegur se limitava a auscultar o relato… da cabina do elevador. Não pude deixar de me interrogar onde seria a zona de embarque destes seres tão importantes, pois dali, do rés-do-chão, não era, nem de nenhum piso percorrido na minha subida de véspera.
O suor escorria-me agora em catadupa pelas têmporas, o pescoço, o peito e as costas, como se eu próprio estivesse ao serviço da equipa. Limpei-me com os guardanapos da lunch-box como se fosse esta a minha pausa para hidratação, isto após já decorridos uns vinte minutos de jogo. Do aquecimento até então nada vi, a não ser as paredes do saguão, o sorriso amarelo da moça da Prosegur e os esgares dos jovens bombeiros a quem fora atribuída a missão de dar assistência a alguém em desespero no piso 6.
Depois de tamanho suplício e o verter de suores, um dos elevadores voltou a abrir; sem esperar guia de marcha ou autorização do conciérge supremo, entrei lado a lado dos bombeiros em sobressalto. Tinha uma missão a cumprir, se não de vida e morte, de dar crónica da disputa do Troféu dos Cinco Violinos.
Não vi pois os lances do recém contratado uruguaio Rodrigo Zalazar, que podia ter inagurado o marcador aos 15 minutos, não fora a falha na abordagem, que ainda sobrou para o moçambicano Geny Catamo pontapear em arco ao poste da baliza defendida pelo guardião do Mónaco, Lukas Hradecky; logo a seguir, pelo que vim a ler mais tarde nos jornais, foi a vez do extremo português Flávio Gonçalves falhar o golo certo, a passe de calcanhar do jovem e promissor avançado Rafael Nel. Aos 21 minutos, estando quase quase a desembocar no lugar que me era devido para o exercício da minha função, Geny voltou a tentar a sorte, sem sucesso.
O cronómetro do estádio marcava 23 minutos no instante em que me sentei no lugar C6 do estádio José Alvalade, onde em mais de mil idas nunca tinha estado. Após tamanha provação, o êxtase e a bonança de um lugar de excelência devolveram-me a paz, mais ainda ao ser-me permitido fumar um puro Churchill das Honduras, como podeis atestar pelas imagens recolhidas em modo selfie.
Até ao fim da primeira parte anotei no caderninho as notas de um futebol bem entrosado, para a quantidade de mudanças na equipa que durante as últimas semanas tem feito correr tinta. A ver pelo endurance do todo e alguma lufada de talento individual, para fazer esquecer Trincão e outros saídos do plantel, a coisa promete. Rafael Nel marcou o primeiro tento, de cabeça, após uma jogada pela direita do brasileiro Luís Guilherme que fez o passe ao estreante Silas Andersen, este devolveu a Pedro Gonçalves “Pote” – em dia de despedida para as arábias, após seis anos de leão ao peito -, e “Pote” fez o que tinha de ser feito como tantas vezes o fizera, ou seja, passar a bola sem espinhas com um toque em habilidade por forma a ser tirado o cruzamento de linha para a cabeça de Nel num culminar de salto de peixinho.
O marcador alterou-se de vez para 2 a 0, aos 68 minutos, por intermédio de mais um estreante, o inglês Jesse Derry, num lance de fino recorte técnico, sem que o Mónaco tivesse ameaçado ou esboçado uma reacção, excepto em lances de bola parada. Anotei como muito promissoras as prestações dos médios Doumbia, Altimira e Pedro Lima e o continuar da chama de Maxi Araújo. Vi uma vez de relance o mister Rui Borges à boca do relvado. Pareceu-me mais magro, próprio de quem tem andado a dar o litro, e gostei de o ver com umas peúgas pretas. Terminei a prosa que vos trago com um “foi canja”.
Comecei a interessar-me pela morte mal vim ao mundo. O cordão umbilical enrolou-se no pescoço e saí roxo e asfixiado da passagem no útero da minha mãe. A parteira salvou-me a vida. Podia ter morrido antes sequer de nascer como sucede a muito boa gente. Quando se nasce ou renasce, já agora? É sobre isto que vos quero fazer algumas considerações.
Gosto de escrever, de tomar notas de tudo. Não tenho ambição de vir a ser escritor ou de mudar o que quer que seja, a não ser eu próprio e as minhas obsessões. Sou aquilo que se chama um obsessivo compulsivo. É uma doença como outra qualquer. Sou também hipocondríaco e isso dá-me uma variante obessiva que é saber um pouco de muitas e variadas condições. Prefiro dizer condições no lugar de doenças ou maleitas porque me parece mais humano.
Uma das minhas patologias é a limpeza. A higiene nunca me larga e além de lavar as mãos e os braços ao ritmo de uma toma de medicação evito toda a espécie de contacto social. Limito-me a fazer o meu trabalho de tanatologia e a publicar pequenos textos nas redes sociais onde sou quase sempre apelidado de mórbido ou fatalista.
Na minha vida íntima, escassa, devo dizê-lo e por própria vontade, o meu momento de eleição é a pequena morte. Esse lugar onde a consciência dá lugar à inconsciência até ocorrer o resultado da volta. Nessas alturas questiono quem seja o caso de estar ali comigo.
Já ouvi as versões mais extraordinárias ou mesmo estranhas, como chamarem ao desfalecer o clique da iniciação ou a rendição a uma luta escusada do organismo segundo uma bióloga dada às mais variadas experiências. Uma entrega incondicional, em suma. Faço mais perguntas do que dou respostas, mas de uma coisa estou certo: o homem é tanto um ser para a vida como para a morte.
Já aconteceu ter em cima da marquesa homens que morreram durante o acto, de síncopes, decerto fruto de abusos nas doses de substâncias excitantes. Nem todos demasiado entrados na idade.
O sexo tem algo de conflito físico como num combate corpo a corpo, uma fricção que chega a ser dolorosa mas da qual se retira uma forma de prazer como matar alguém e submeter o outro. Isto, creio, brota de uma ambição. O poder de dar vida e de matar caminham juntos. É possível existir uma vida inteira sem se conhecer a sensação de estar vivo a não ser porque se respira.
Nunca conheci ninguém que se dissesse feliz por saber que não viverá para sempre. Procuram-se em todas as religiões inventadas maneiras de aceitar o inevitável. A possibilidade de um regresso mais auspicioso, se a vida tiver corrido com mais durezas do que alegrias, ou então voltar a sentir os prazeres que se viveram quando a vida sorriu. Alguns suicidas tiram a sua vida por curiosidade.
Não deve haver ninguém que não queira saber o que está do outro lado. Deve ser nada. Ou nada disto. Almas sem rosto, voz, pernas, tronco, mãos, pés e braços, órgãos bombeados por sangue, válvulas e orifícios, vómitos, diarreia e pruridos, dores, suor e lágrimas, acções concretas ou maquinais, truques de prestidigitação, jogos de sedução e arrivismos, recordes e fortunas, o Diabo vestido de vermelho. Deus barbudo e anafado, de túnica branca ou todo nu à espera de todos os convivas para um banquete ou um juízo final.
O Diabo (XV), as paixões, materialismo, vícios, instintos e o lado sombra do ser humano, mas também a necessidade de confrontar as ilusões e a busca por poder pessoal, mostrando que os grilhões são, muitas vezes, autoimpostos e podem ser rompidos pela força de vontade, significando desafios, tentações, mas também oportunidade de libertação através da autoconsciência e do poder de escolha.
FUTUROLOGIA I Não é preciso ser bruxo para saber que mais mês, menos ano vamos levar com mais uma pandemia. O pandemónio é lucrativo. Mais: o medo é altamente lucrativo. A teoria da selecção natural está a par da solução final. O paradoxo dos agiotas é que precisam de rebanhos ordeiros, de crentes e doentes (da indústria farmacêutica ao que se come). Tudo está feito para criar enfermos (estafermos) e semear o pânico. A desconfiança, o medo, traz a agressividade e a militarização, o uso da força como desculpa para a ordenação. A melhor defesa pessoal é o conhecimento, mas até esse é selectivo. Uma coisa é certa: o mundo continua perigoso e não tende a melhorar.
VIRILHAS I Fetichistas de pés ou seios, já os conhecia, agora um fanático de virilhas, nunca tal vira de perto. Virgílio, de sua graça, ficava em ponto de rebuçado só de ouvir a palavra vi-ri-lha. Posso imaginar tal sentimento com pés macios, de unhas pintadas e cortadas na medida certa, como uma extensão de mãos arranjadas por mani e pedicure. O problema de Virgílio era ser acanhado e carecer de figura para abordar senhoras e cavalheiros. Ah, sim, Virgílio tinha um crivo alargado e tanto lhe faziam os habitantes dos arredores e o tipo de pilosidade. As virilhas eram como caminhos na estrada de um viajante. Um jardim onde todo o bem confluia depois de se bifurcar.
ADEPTOS I O adepto ferrenho é um militante de um partido extremista. Pode descambar num nó cego de façanhas menos dignas como atear e lançar very lights para a bancada adversária, ecoar a plenos pulmões o grito de FDP por cada chuto do guarda-redes adversário. Há num adepto deste jaez um terrorista em potência, quase sempre impune e defendido por um ajuntamento do seu calibre. Levar de vencida é o trabalho da equipa, do clube, por quem o adepto dará a vida se for preciso. Campeiam adeptos de ideologias fratricidas por todos os lados. Pequenos submundos regionalistas acolitados que dizem améns e se benzem como Ayatolas equipados de bombas incendiárias. No terreno de jogo têm a extensão do seu ódio ao rival. Lá em baixo, no relvado, os soldados não medem o impacto da violação da integridade física dos colegas de trabalho.
PEOPLE I Lidar com pessoas, a começar e acabar na nossa própria e suas facetas poliédricas, é o pão nosso. A cada dia, hora, instante, sucedem coisas. Agora deu-me para aqui, e no lugar de guardar este solilóquio, vou pôr-me a jeito de reacções (comentários). Vocês, em geral, são um people civilizado e ternurento e não se esticam. Também já sabem o que esta casa gasta. Sou daqueles sujeitos que não fazem fretes e comem e calam, mas tendo cada vez mais a pôr na borda do prato tudo o que não acrescenta. Neste caso, pessoas e as suas manias. É um arejo fantástico. Quanto ao trabalho podem suceder momentos insólitos, como ir passear um turista que fala uma língua desconhecida e só essa e mais nenhuma. Tentamos o Google e a tradução maquinal para estabelecer a possibilidade de comunicar já que nada lhe agrada, é tudo scheiße. Concluo a passeata a perguntar: se não gosta de nada (nem de si próprio, certamente) veio cá fazer o quê? Exercitar o sadomasoquismo?
DAS COISAS SIMPLES I Ao ver-ouvir a biopic do Bob Zimmerman ocorreu-me o mesmo de sempre com os “imortais”; para além da forma, da estética, do groove, da panache, do eco, dos groopies, a importância da linguagem e da mensagem. Simples e efectiva, e de uma poética medular.
Temos por cá o nosso Dylan, o Palma. Ou o Zeca, o Sérgio e o Fausto. A condição de quem toca em todas as esferas, transforma a sua viagem numa tocata universal. O Chico, no Brasil.
É claro que tudo isto é do domínio do sentir e do íntimo.
Há trinta anos ou coisa que o valha dei por mim hospedado num apartamento em Manhattan e o vizinho de cima era o Bob. Um dia, fui ao café da rua onde tomava a sua bica e dei-lhe um bacalhau. O shake hands é codfish em português, disse-lhe. O autógrafo ficou-me no toque de mão. Elogiou os caracóis da minha farta cabeleira de heavy metal além de mencionar o Pessoa, esse “nosso” poeta.
AUTOCONHECIMENTO I A voz na cabeça não sou Eu. Eu é tudo, cabeça, tronco, membros, escolhas, órgãos, acções e contradições. Quanto a vidas passadas, há disso nesta vida. Tal como órfãos e tiranos de púlpito ou de trazer por casa. Quanto ao julgamento final, julgamentos, vitórias e derrotas, é parte desse todo confluente. Curas, soluções, paliativos…? Há quem se drogue, medite, enclausure, abstraia, ignore, vá à bola e ao bordel, lute em vão ou por justas causas, claudique, vá passear o cão ou o macaco. Há quem se borrife, incense, esteja nas tintas ou pinte Guernicas. Há quem dispare ou faça inalações profundas e vá até ao fim do seu mundo para voltar de banho tomado.
LANA CAPRINA I Daqui a 250 milhões de anos, se o planeta resistir aos humanos, a terra firme voltará a estar toda unida, na chamada Pangeia. A união das placas tectónicas é um vaivém como a união amorosa. Isto tudo para dizer que o mais importante é aprimorar a arte de ser humano. À vista desarmada, tendo a dizer que a balança dos marados, estragados, dos malparidos, surdos, cegos e deficientes de espírito tem mais peso. A começar pelos mandantes. A tortura faz-se com pacotes laborais, salários medíocres, imposturas e impostos sobre o oxigénio e o culto da desinformação. O convite a seguir é o da liberdade, da expansão da consciência e de uma criatividade com tanto de lúdica como de construtiva. Se for preciso, comprar uma caçadeira de canos serrados e ter licença de porte de arma, para dar caça aos animais, os que chamam de racionais.
AS MELHORAS DA MORTE I Lisboa, coitada, não tem culpa. Até o Afonso I deve andar às voltas na tumba, arrependido da morosa reconquista. No meu laboris causae, um deles, ocupo-me de contar histórias, ir aos lugares, falar e mostrar os livros valiosos (da crónica de Osberno aos enredos de Lobo Antunes, da ousadia Fenícia aos sufis, e por aí fora e afora). Abrilhantar o território pátrio é o pretexto de guiar. Honrar os honráveis sem ocultar os desprezíveis e dispensáveis, toda a sorte de agiotas e soldados da ganância. Falo do edil panhonha e seu escol de atrevidos. Lembro os anónimos que levantaram as obras públicas. A luz e a água boa, a enseada amena que acolhe toda a gente como pede um remanso filosófico. Tenho alguma dificuldade em explicar a beatice, o conservadorismo, a estultícia. A carência de um asfalto polido. Gosto de lembrar a generosa qualidade dos poetas. Os mestres calceteiros, a importância do jogo da bola. O código penal e a balbúrdia dos ácidos que sempre proliferam quando o dinheiro rola. Perguntam-me do que mais gosto no meu burgo, no meu país? De aviar um bom charuto e esticar as pernas e pensar em dias melhores.
VIVÊNCIAS I Volta e meia dou por mim a tomar notas no caderno de pensamentos. Esta: para quem detém o capital, a banca, os proprietários (senhorios), hotéis e outros pardieiros, o Moedas e seus confrades, o Montenegro e sua agremiação, a generalidade da classe politica, os patrões e seus testículos atrofiados, a vida monetária deve correr às mil maravilhas. Não falta clientela de paradeiros diversos que vem ver as gruas e inalar o cheiro fétido do Tejo e encher-lhes os cofres. Lisboa é um palco cosmopolita, sujo de urina e fezes, de um halo a ganância. No intervalo desta chuva de corredores de fundo e pilantras estão os sobreviventes, os vendedores de rua. Vivem da sorte, do acaso e das manhas alimentícias. Quem perora de alto é porque não tem de se ralar com a demanda dos euros para sustentar o pão de ló. Tem assegurados os víveres, o tecto e pode ocupar-se do seu divertimento de escrever e postar nas redes sociais. Almejo uma influência de desatar a ira de Poseidon e de Zeus e opere a selecção natural.
GARRAS I Se formos a ver há uma garra omnipresente e omnipotente a estrangular os indivíduos. O livre pensamento, o livre arbitriio, colidem com o Estado, a máquina. Barafustar é como sacudir a sarna. Há uma forma subtil de lidar e fintar a opressão, o humor satírico. É como estar a ser torturado e pedir que nos cocem os tomates. Andamos nisto vidas inteiras, a procurar deslindar o caminho da grande liberdade. Meditar pode auxiliar a ampliar os instantes de vazio. Um vazio de ideologias, de julgamentos, de ataques motivados pelo estrangulamento desse Estado que taxa, taxa, taxa e recompensa com a precariedade, a indiferença, o esbulho sistemático. A propriedade intelectual aliada a uma consciência espiritual sem Deus ou deuses à mistura traz uma espécie de luz a quem se acha impotente para mudar o curso das coisas. Por exemplo, escrever uma frase memorável como um aforismo sem fúria. Outra insignificância é querer ser reconhecido, ter sucesso, deixar uma marca. Todo o serviço para a posteridade é um segredo bem guardado que só deve ser revelado por quem dele beneficiou. Quem e o que amamos só por amar.
SITUAÇÕES I Vamos imaginar que vos violam uma filha ou espancam um filho. Que fazeis? Confiais nos senhores juízes para lhes aplicar a sentença, o correctivo (quantos dias de cárcere ou euros valem tais situações?)
E se no rescaldo da violação vier uma DST, do arreio uma lesão irreversível ou mesmo o falecimento? Ficais desolados à espera do veredicto? Ficais satisfeitos com a pena aplicada ou ponderais a retaliação por medida?
Nem quereis pensar nisso, eu sei.
Há disto todos os dias em todos os lugares onde o homúnculo respire.
É o horror do desrespeito. A genética da guerra humana
ZAMBUJAL I Estive com o Mário seis vezes ou coisa que o valha. Mas antes de o conhecer numa entrevista em 1998 era como se fosse um amigo de longa data. Devo ter lido umas trinta vezes a Crónica dos Bons Malandros, além de tudo que o Mário esgalhava. Era um prato, uma alma boa, gentil, tipo um budista sem ser monge. Ninguém conseguia ficar zangado ao pé do Mário. Passar uma vida a dizerem isto de nós é um ritual de passagem para o Olimpo. Os livros, esses, são puro deleite intemporal. Para que conste assinou-me um mui generoso prefácio de As Rotas do Sonho, que por graça ou gralha, quase saía as Ratas.
FAVORZITOS I A plebe está chocada porque a escritora Inês (Pedrosa) voltou a trazer à liça um suposto avanço de piça do escritor Lobo, que, segundo se diz, também era mauzinho com as mulheres. Era tão mau que o assumiu, dizendo-se, no tocante ao gineceu, de desonesto e rasca, até certa altura. Presume-se do mea culpa ter sido adúltero e promíscuo, um gajo de foder, como o seu grande amigo Zé Pires, para não mencionar uma lista de outros dados a investir, por antitese aos chatos intelectuais, cujos marranços se ficariam pelos livros. Mas atenção: o homem e a obra são coisas distintas. Tudo depende, se a obra é ou não moralista. No caso do ALA, o moral da história é que gostava muito de agasalhar o palhaço. Enquanto lhe deu para aí. O favorzinho ou ito seria o quê, já agora? Um broche à troca de um livre de poche?
OS BONS SAMARITANOS I Hão-de reparar na iminência de mais uma guerra mundial. Se reparardes melhor essa guerra nunca acabou desde o início dos tempos. Tem pausas quando um esbirro espirra. Há muita guerra a decorrer nos íntimos, o conflito pela supremacia, a dominação e a afirmação do nhãnhãnhãna. De dedo esticado, este, aquele e aqueloutro lá vai ditando as suas noções de superioridade moral. Entre os Ayatolas e os Nethanyaus, os Donalds e os mujahedins e seus seguidores venha o Diabo e escolha. O direito internacional é um eclipse parado numa galáxia distante. A guerra é como qualquer negócio lucrativo. Quem se f… é sempre o mexilhão.
P.S. Também não há cu para os gurus da liberdade espiritual, aqueles que inalam e exalam um fedor a vaidade e ganância. Os vendedores de sonhos de auspiciosa facturação.
CONFLITOS E GUERRAS I Tive e tenho o meu quinhão de conflitos e guerras. Tios, pais, namoradas, amantes, esposas, família em geral e particular, amigos, patrões e colegas de trabalhos, mas nenhum supera a AT. A forma desumana, maquinal, o bombardeio de setas cartas, execuções, juros tortura, uma guerra desigual, onerosa e fratricida, afinal falamos de uma instituição da terra pátria. Não é assim tão complexo explicar as guerras. Começam e não acabam. Os interlúdios de paz, os armistícios, o perdão e o eventual reparo dos irreparáveis, são apenas o intervalo da próxima guerra e da seguinte. O trabalho dos mediadores é apressar o fim. A guerra é de tal ordem imanente que tem foros de Arte. O Homem fez-se para guerrear, enquanto sobrevivente. Há guerras constantes em todos os organismos, dentro do corpo, abaixo do sangue. Há guerras porque há quem reaja. Há guerras no Universo entre substâncias. Porém, ninguém pode tirar a paz a quem vive nela e com ela, até ao dia em que…
ALA I Entre os incontornáveis, para quem se interessa por Literatura daquela que toma a parte pelo todo, onde a fala do local se faz universal, tivemos, temos e teremos o António. Até a sua poesia, ele que humildemente dizia que gostaria mesmo era de ter sido poeta. Desdenhava as crónicas e as letrinhas para canções, pondo o romance à frente, onde jogava tudo. Estou-me nas tintas para os seus detractores. Obrigado António, por me ter feito amar ainda mais a Literatura e posto a olhar as pedras. E também por vincar onde estão os reles, os desonestos e os dispensáveis. Quanto às mulheres, ide em paz.
DELITOS DE OPINIÃO I Nas exéquias de Lobo Antunes não podia faltar o comparativo idiota com o “rival” Saramago. Diatribes de escola, de classe, de linhagens, levam ao delito do julgamento de carácter. No caso destas duas figuras de alto coturno literário – que é o relevante -, não é mais do que nota biográfica se foram mulherengos, canalhas de pilas irrequietas, eunucos ou mesmo uns pulhas cruéis e reféns do id e do ego. De todos há e haverá quem diga mal, bem ou até diga não gosto e não li. A título pessoal gosto de autores que me emocionem. Os cerebrais costumo lê-los como autores de ensaios. Não que um ensaio não mexa e agite. É só uma questão de gostar de privar mais de perto com um autor. Se fode ou não fode, se é fodido ou bonzinho, é lá com ele. Notar-se na sua criação é o mais importante. O que o mover, quase sempre a vingança. Quando leio Hesse, Tagore ou o nosso Pina fico mais leve e feliz.
Que, portanto, da ficção genealógica do compadre Lobo muito restará (e para sempre) por contar. Da barbie Pedrosa não restará sequer história.
MACACOS I A minha companheira chamou macaco ao padre (um branquelas) quando este lhe derramou a água benta na testa. Foi absolvida e entrou no reino dos cristãos. Há um macaco lá no Porto, à solta e tido por perigoso. Tão feroz que precisa de reabilitação atrás de grades, quando a sentença transitar em julgado. O Vinícius Jr. queixa-se de ter sido chamado de mono que é macaco em castelhano. É sempre a mesma ofensa. Nunca é preto do caralho, escarumba, barrote queimado ou troglodita.
Numa coisa o mister Mou tem razão: o Jr. devia rever as formas de celebrar os seus golos. Assim mais para o festivo inócuo, de braços ao alto e a bailar um sambinha, e menos provocador. Eu se fosse ao Vini, no lugar de ir fazer queixinhas ao árbitro, teria passado o resto do jogo a fazer o gesto a pequeno Prestianni de que a piroca dele é pequena, ao contrário da língua comprida. No campo, no pitch, são raros os senhores que se comportam e resistem aos insultos e provocações, com controle das emoções. Parece a aldeia de Sete Rios.
EXIBIÇÕES I Quem não tem mamas, caça com o rabo. Quem não tem shape, depreda com o guito. Quem não tem nada de nada, a não ser uma carreira política, ataca no Tinder.
Quando mostro o meu shape estou a guzar o prato. Vá, venham lá dizer os correctores, os correctos, os pedantes, queguzar é com o. Gozar. Gozo, uma ilha do arquipélago de Malta, por sinal muito apetecível de tão pouco habitada.
Gosto daqueles inquéritos de pé de página onde fazem perguntas telúricas. Se tivesse que escolher um só livro para ler até ao final dos seus dias de eterno náufrago num atol incógnito no mapa e no Google Maps, qual seria? A Bíblia? O Velho e o Mar? A Pérola? A Morte de Iván Ilitch? É pá. Porque não um dos meus, o Hei-de Amar-te Mais, onde fiz um striptease literário, no sentido contrário ao dos escritores que querem mostrar mas só escondem.
Esconderijo, esconder, refundir, ocultar. Mostrar tudo é que não. Ainda há lugar a detenção por atentado ao pudor. E os portugueses são muito púdicos.
RESCALDOS I Se um arrufozito incomoda muita gente, até quando andará à bolina nas cordilheiras do pensamento-sentimento um ódio estrutural? Um racismo imperialista.
Os acordos de paz são o intervalo até às próximas guerras. Se uma coisita de lana caprina (torcer por um clube a quem se dá o suor, as lágrimas e verba das quotas, do calção e camisola do ídolo) dá azo a homicídios, o que não faz um homem tal bicho acossado torturar, estuprar e matar? Embora sejamos Todos entes humanos, só a espaços há mobilização solidária.
A espaços de calamidade e catástrofe, quando é a Natureza a destruir. Aqui na terra sacudida pela borrasca os empreiteiros largaram as obras e foram acudir os vizinhos. A custo zero. É isto que nos aproxima. A política, a bola, a religião, tudo onde cheire a negócio ou maniqueísmo, só afasta e agasta. Um desperdício de energia e força vital.
OS SENÃOS DA BELA I Tendemos a mostrar uma impressão lisonjeira a nosso respeito. É ou não é? De igual forma defendemos ideias, convicções, dogmas, credos, ideologias, crenças, achando com isso, demonstrado com mais ou menos encarniçamento ou benevolência, estarmos a ser coerentes, correctos e avisados.
A liberdade é um espaço onde tudo isto é permitido, afinal a liberdade só termina no espaço do outro. A maior liberdade é a do espírito que não se aprisiona em nada mais do que praticar o bem, sem que tal conduta relativa (pois o meu bem pode não ser o vosso) perturbe ou invada o lugar de ninguém.
Esta é a parte Bela. O senão, que requer consciência dos factos, é quando um punhado destes entes humanos que somos todos nós, quer aprisionar e impôr a sua Ordem. A sua ideia de Bem. Um bem que vem por mal.
Todo e qualquer partido que se queira único é uma ameaça.
Todo o que se acha omnipotente é um perigo ambulante.
Não basta escrever, não basta ver (está à vista). Nestes casos é necessário identificar. Apresentar o ónus da prova. Sem esperar pelo Tribunal do Altíssimo. Nada de mentiras e imposturas. Sobretudo intelectuais.
Esta conversa de pano para mangas é a História Universal da Infâmia.
Cabe a cada um identificar os problemas e solucioná-los. Nada diz só respeito a cada um. Tudo esta ligado.
PRIORIDADES I Acontece uma calamidade e quem vale? Os amigos. Axioma: os amigos são muito importantes. Dá-se um problema de saúde assim mais para o complexo e a quem recorremos? Aos médicos, enfermeiros e seus recursos humanos e paliativos. Axioma: os médicos e enfermeiros e seus conhecimentos e equipamentos são muito importantes. Sucede um desaire mais ou menos complicado e quem nos escuta? O amor da nossa vida. Axioma: o Amor é muito importante, a par da ternura.
A escrita de uma Constituição, uma Declaração dos Direitos Humanos, um código penal, um livro honesto que seja, é uma base de Trabalho, como os Dez Mandamentos.
Lá consta a Cooperação.
SINAIS I Tal como a falta de respeito e empatia é um sinal de defeito de fabrico (ou educação ou outro elo qualquer onde tudo se joga, que é no cérebro), também a forma como um governante, partido ou instituição se apresenta ao serviço deve levar a uma reflexão aprofundada. Que andar no mundo é perigoso, que a vida é frágil e efémera, que o egoísmo prevalece, tudo isso são favas contadas. Há, porém, aspectos virtuosos, consciência altruísta de grupo, noção de que é possível, por mais sujeitos da impermanência, fazer perdurar um certo sentido de Humanidade. Querer a exclusão, a dor e a morte de alguém é um sinal de grave deformação mental e espiritual. Se há milhões que afinam por este diapasão – chamemos-lhe fascista -, outros tantos haverá que procuram a paz, a beleza, a Criação, o Amor e a prosperidade, a Felicidade digamos assim.
O BEM COMUM I Volta e meia passa um cometa e deixa um rasto, uma cauda brilhante. Por exemplo, um Bob Marley, um Ali, um Gandhi, um Tesla… A mensagem ecoa, até vir outro, outra, outros, que a entendam e prossigam. A mensagem é sempre a mesma: mais Amor, mais Paz, mais Justiça. Todos eles e as suas obras são afins de um diapasão: dizer não à barbárie.
Ter no Chega uma opção aos estragos socialistas e liberais de PSD, CDs e companhia lda, é um retrocesso. É mais grave: é levar a pensar que habita entre nós o desejo de espezinhar e magoar, que é o anti-cristo. Por favor, não me venham com a conversa do combate à corrupção quando tresandam a tudo o que é podre e promíscuo. Tenho amigos que tomo por cônscios dispostos a dar uma abébia ao católico Andrezito. Já é mais do que suficiente para saber ao que vem ao ver o método da metralha e dos irmãos metralha.
Então em quem confiar a tessitura do fio da roca?
Na consciência, meus senhores e senhoras, onde mais vos toque.
SINAS I Entre a certeza divinatória do vindouro, que é como quem diz adivinhar o porvir, saber o que aí vem, de bom, mau ou assim-assim, e viver ao sabor das marés, qual preferis? Ides à bruxa, às cartomantes, tarólogas, médiuns e leitores de búzios e runas? Ou basta-vos a missa de domingo e o sinal da cruz? Tendes curiosidade por saber o que o futuro vos reserva? Se assim for, as ciganas já saberiam da vinda do seu carrasco Venturini, ao olharem as palmas das suas mãos engelhadas.
Intuição e instinto são coisas distintas. Ambas podem salvar vidas mas o destino está escrito e de nada vale ouvir a sentença e encerrar-se sozinho e a sete chaves ou desaparecer, pois o que tem que ser tem muita força.
O que foi não se repete, embora pareça.
Eis um exemplo de um arcano maior
O Diabo (XV)
As paixões, materialismo, vícios, instintos e o lado sombra do ser humano, mas também a necessidade de confrontar as ilusões e a busca por poder pessoal, mostrando que os grilhões são, muitas vezes, auto impostos e podem ser rompidos pela força de vontade, significando desafios, tentações, mas também oportunidade de libertação através da autoconsciência e do poder de escolha.
CAUSA E EFEITO I O mais provável é a reconstrução das zonas afectadas pelas borrascas ficar a cargo de mão-de-obra estrangeira, supervisionada e avençada pelo Estado e fundos europeus. Os portugueses de bem lá estarão, a colher os louros e a estalar o chicote. Toda e qualquer acção, mesmo a não acção, gera reacção. Para os beatos de outrora, o terramoto de 1755 foi o castigo divino face à promiscuidade, ao indecoro, à agiotagem e usura desses tempos. Desses? Acontece uma catástrofe e estamos à mercê do acaso. Do durante e do depois. A protecção civil e a conduta dos governantes é como a defesa pessoal: o melhor é ter um plano. Contar com os outros é como contar com o ovo no cu da galinha.
DISCURSOS DAS TRETAS I Se eu vos disser que tenho um cancro no pâncreas nível IV e estou cheio de metástases, mas que preciso de uns trocos para realizar um último desejo que é ir dar uma volta ao Mundo (aí 500 mil euros chega, ou seja 100€ a cada um), aposto que papam o grupo, como papam todas as bodegas que por aí circulam. Vocês nem têm a certeza de que eu existo.
Se vos disser que já publiquei 18 livros, a maioria disponível para aquisição numa livraria perto de si, que até gramava viver da escrita, e se cada um de vós arrecadar um ou dois exemplares, como não sou homem de grandes gastos até daria para me consolar (apesar de uns certos cretinos me acharem um burguês capitalista e anarco-liberal só porque fumo charutos e ando bem vestido, gozando com a minha esquerda caviar).
Outra coisa: estou a morar na rua. E nem sequer tenho direito ao RSI. Alguém quer enviar umas lecas?
P.S. os charutos são os meus amigos cubanos que me oferecem.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL I Há tempos pediram-me uma crónica sobre IA. Respondi “iá, eu faço”. Não pedi à IA para a fazer, apesar de ter a certeza que se lhe pedisse a coisa passava como um texto do je. A marca de autor é o que nos distingue. Ler e dizer “isto é deste gajo ou então é de um copista exímio”. Só se distingue nos detalhes. Vamos lá ver: tudo o que é bom para o ócio e o desejo de ser inútil ou louvar a preguiça é de valor. É como ter uma governanta ou um mordomo, pau para toda a obra. O meu bisavô António Gomes, quando já estava assim para o velhote, tinha uma criada que lhe levava o penico, abria-lhe a carcela, fazia o serviço e até sacudia. Não era para todos. A IA dá jeito para sacudir a água do capote, os pingos e descansar os membros, incluindo o cérebro. Talvez melhore a qualidade do serviço.
MULHERES I As mulheres maduras (nada tem a ver com a idade) não emasculam; aceitam a fragilidade masculina tanto como dançam com lobos; podem e devem ser loucas mas têm a humildade de reconhecer os seus (c)erros; não se fazem de vítimas de enredos onde prejudicam tanto como dão tiros nos pés. Em louvor das mulheres maduras faço o meu apelo a que nunca caiam de podres.
PARAR I Parar, escutar, olhar (Ver), sentir e experienciar, comunicar (sem ir aos arames), não tomar a parte pelo todo, Ser (sério, sem ser enfadonho ou moralista). Isto aplica-se a tudo. A pressa é inimiga da perfeição.
Posto isto, o post é sobre reflexos condicionados, a chamada reacção emocional.
Estamos carecas de saber, eu estou, qual o móbil dos políticos: almejar o poder. O poder é como um reflexo de quem o exerce. Eu, por exemplo, exerço o mais possível o poder de me aposentar. Todos os dias ensaio o desejo de não fazer nada. Nada de que me arrependa.
Que a, b ou z se reveja num ideário ou idiota, é lá com ele. Eu revejo-me no Jodorovsky e em todos os amigos da Liberdade que não cerceiem a minha.
NO FUNDO, NO FUNDO I Por detrás do espelho, quem está? Quanto mais feroz, mais medo esconde a presa tomada por predador. Num todo frágil, de força bruta aparente, de gente movida a gasóleo de competição, pode bem estar uma criança aflita, magoada e carente. A lei do mais forte agremia exércitos liderados por Átilas, Neros, Adolfos e seus pupilos. Todos têm cu, todos têm medos.
VER PARA CRER I Acho piada aos rezingões como o anão zangado. Também curto bué os monges budistas e aquele sorriso imaculado. Ou seja, gosto tanto de quem protesta e com razão diz bardamerda, porracaralhofodasse ou se vê um tratante lho diz desabridamente de cenho arreganhado “o cavalheiro tem a espinha fora do sítio”. Aprecio o carácter definido e não aquela roupagem insonsa de maria ou manel vai com as outras e outros, numa onda da moda. Acho graça particular a quem diz não li e não gostei. Tal como admiro o crítico que dá o corpo às balas e rejeita o produto. Já fiz prefácios para autores “menores” em quem vi o mais importante: uma verdade só sua. Houve e haverá bandidos (à luz da lei) muito bem intencionados. Perdoar a quem não sabe o que faz é de louvar. Quanto a dar a outra face, aí já é de reconsiderar.