LANA CAPRINA I Daqui a 250 milhões de anos, se o planeta resistir aos humanos, a terra firme voltará a estar toda unida, na chamada Pangeia. A união das placas tectónicas é um vaivém como a união amorosa. Isto tudo para dizer que o mais importante é aprimorar a arte de ser humano. À vista desarmada, tendo a dizer que a balança dos marados, estragados, dos malparidos, surdos, cegos e deficientes de espírito tem mais peso. A começar pelos mandantes. A tortura faz-se com pacotes laborais, salários medíocres, imposturas e impostos sobre o oxigénio e o culto da desinformação. O convite a seguir é o da liberdade, da expansão da consciência e de uma criatividade com tanto de lúdica como de construtiva. Se for preciso, comprar uma caçadeira de canos serrados e ter licença de porte de arma, para dar caça aos animais, os que chamam de racionais.

AS MELHORAS DA MORTE I Lisboa, coitada, não tem culpa. Até o Afonso I deve andar às voltas na tumba, arrependido da morosa reconquista. No meu laboris causae, um deles, ocupo-me de contar histórias, ir aos lugares, falar e mostrar os livros valiosos (da crónica de Osberno aos enredos de Lobo Antunes, da ousadia Fenícia aos sufis, e por aí fora e afora). Abrilhantar o território pátrio é o pretexto de guiar. Honrar os honráveis sem ocultar os desprezíveis e dispensáveis, toda a sorte de agiotas e soldados da ganância. Falo do edil panhonha e seu escol de atrevidos. Lembro os anónimos que levantaram as obras públicas. A luz e a água boa, a enseada amena que acolhe toda a gente como pede um remanso filosófico. Tenho alguma dificuldade em explicar a beatice, o conservadorismo, a estultícia. A carência de um asfalto polido. Gosto de lembrar a generosa qualidade dos poetas. Os mestres calceteiros, a importância do jogo da bola. O código penal e a balbúrdia dos ácidos que sempre proliferam quando o dinheiro rola. Perguntam-me do que mais gosto no meu burgo, no meu país? De aviar um bom charuto e esticar as pernas e pensar em dias melhores.
VIVÊNCIAS I Volta e meia dou por mim a tomar notas no caderno de pensamentos. Esta: para quem detém o capital, a banca, os proprietários (senhorios), hotéis e outros pardieiros, o Moedas e seus confrades, o Montenegro e sua agremiação, a generalidade da classe politica, os patrões e seus testículos atrofiados, a vida monetária deve correr às mil maravilhas. Não falta clientela de paradeiros diversos que vem ver as gruas e inalar o cheiro fétido do Tejo e encher-lhes os cofres. Lisboa é um palco cosmopolita, sujo de urina e fezes, de um halo a ganância. No intervalo desta chuva de corredores de fundo e pilantras estão os sobreviventes, os vendedores de rua. Vivem da sorte, do acaso e das manhas alimentícias. Quem perora de alto é porque não tem de se ralar com a demanda dos euros para sustentar o pão de ló. Tem assegurados os víveres, o tecto e pode ocupar-se do seu divertimento de escrever e postar nas redes sociais. Almejo uma influência de desatar a ira de Poseidon e de Zeus e opere a selecção natural.

GARRAS I Se formos a ver há uma garra omnipresente e omnipotente a estrangular os indivíduos. O livre pensamento, o livre arbitriio, colidem com o Estado, a máquina. Barafustar é como sacudir a sarna. Há uma forma subtil de lidar e fintar a opressão, o humor satírico. É como estar a ser torturado e pedir que nos cocem os tomates. Andamos nisto vidas inteiras, a procurar deslindar o caminho da grande liberdade. Meditar pode auxiliar a ampliar os instantes de vazio. Um vazio de ideologias, de julgamentos, de ataques motivados pelo estrangulamento desse Estado que taxa, taxa, taxa e recompensa com a precariedade, a indiferença, o esbulho sistemático. A propriedade intelectual aliada a uma consciência espiritual sem Deus ou deuses à mistura traz uma espécie de luz a quem se acha impotente para mudar o curso das coisas. Por exemplo, escrever uma frase memorável como um aforismo sem fúria. Outra insignificância é querer ser reconhecido, ter sucesso, deixar uma marca. Todo o serviço para a posteridade é um segredo bem guardado que só deve ser revelado por quem dele beneficiou. Quem e o que amamos só por amar.
SITUAÇÕES I Vamos imaginar que vos violam uma filha ou espancam um filho. Que fazeis? Confiais nos senhores juízes para lhes aplicar a sentença, o correctivo (quantos dias de cárcere ou euros valem tais situações?)
E se no rescaldo da violação vier uma DST, do arreio uma lesão irreversível ou mesmo o falecimento? Ficais desolados à espera do veredicto? Ficais satisfeitos com a pena aplicada ou ponderais a retaliação por medida?
Nem quereis pensar nisso, eu sei.
Há disto todos os dias em todos os lugares onde o homúnculo respire.

É o horror do desrespeito. A genética da guerra humana
ZAMBUJAL I Estive com o Mário seis vezes ou coisa que o valha. Mas antes de o conhecer numa entrevista em 1998 era como se fosse um amigo de longa data. Devo ter lido umas trinta vezes a Crónica dos Bons Malandros, além de tudo que o Mário esgalhava. Era um prato, uma alma boa, gentil, tipo um budista sem ser monge. Ninguém conseguia ficar zangado ao pé do Mário. Passar uma vida a dizerem isto de nós é um ritual de passagem para o Olimpo. Os livros, esses, são puro deleite intemporal. Para que conste assinou-me um mui generoso prefácio de As Rotas do Sonho, que por graça ou gralha, quase saía as Ratas.
Tiago Salazar é escritor e jornalista





































