Etiqueta: Da Varanda do Varandas

  • Do tédio

    Do tédio

    À saída do recinto José Alvalade, um adepto brasileiro do Corinthians caçoava com razão “deu até para cochilar”. Gerir jogos com o vagar de quem sobe, quando na frente do marcador, é um costume táctico do nosso treinador mirandês.

    Até lá chegar, à vantagem, vi uns rasgos do meu quase homónimo Zalazar, a quem ainda não topei o furor guerreiro trazido do Minho e mais arreigado dos genes uruguaios, os mesmos estampados na língua marota e nos pezinhos espertos de Maxi Araújo.

    De resto, ainda muito poucochinho de vitalidade e entrosamento, de jogo da bola. Este novo Sporting vai cumprindo os mínimos exigíveis a atletas de alta competição e pagos como CEOs. Um treinador e sua equipa técnica são os maestros, é deles que vem a batuta e a leitura de jogo e do rendimento dos seus pupilos, mas a raça é ou não é matéria prima de cada um.

    Fresneda, por exemplo, entrou titubeante quando chegou à casa do leão, porém fez-se um jogador endiabrado e fiável. Faz das pernas coração e sai de campo enlameado e a pingar. Além de ganhar jogos ou dar tudo por vencê-los, requer-se aos artistas vontade e seriedade. Galgas ou dias menos felizes, toca todos. Dormir na formatura ou pôr a clientela a cabecear de tédio é que não, meus caros.

    Outro pedido aos cavalheiros que domam ou instigam as feras do reino do leão é tratar de fazer das bonitas palavras expostas nas bancadas em letreiros uma prática arreigada. Altimira creio ser um leitor atento da ideologia do clube que aliás se repete onde haja estádios. É um estádio de espírito, vestir a camisola e dar o litro e o caparro. Fazer dos adeptos chaparros ou tratá-los a ansiolíticos é gozar com quem paga e por vezes falta ao trabalho.

    Tiago Salazar rumo ao estádio.

    Ando mais convencido das aptidões do grego matulão para ombrear com o cafeteiro mandrião na titularidade. Sinto umas saudades danadas do húngaro sueco tractor. Foram dois anos de puro deleite. Gyokeres são cometas e eclipsam-se. Por essas e por outras o futebol em Portugal é uma volúpia do aborrecimento.

    A parte mais divertida de ir à bola, nestas condições, está no patuá das bancadas, nas recolhas de vocabulário e na permissão de um cronista fumar um charuto.

  • Memórias de Alvalade e arredores

    Memórias de Alvalade e arredores

    Alvalade foi o meu primeiro bairro. Ali fiz o tirocínio das artes da guerra que são as de crescer na rua, entre uma rapaziada danada da breca e ciganada dos bairros periféricos do Cambodja e Vietname (em Chelas).

    Nos primórdios da adolescência, por curiosidade antropológica, comecei a visitar a aldeia cigana ao cimo da Avenida dos Estados Unidos da América. Queria ser adoptado pelo rei dos ciganos e tardava em voltar a casa, deixando-me estar até anoitecer deitado à etrusca nos tapetes da família Lelo que vivia de expedientes de feira e outros, dos quais não me apercebi ao certo, mas deviam ser marginais.

    Mais tarde vim a saber que eram contrabandistas e traficantes de haxixe e isso explicava os carros de luxo, os molares doirados e o ceptro (uma moca cravejada de diamantes) do grande chefe. Havia sempre guitarras, dança, cantos e lamentos, gataria e vira-latas e um vozear roufenho. Chamavam-me o russo de má-pêlo e acolhiam-me como um dos seus, mal sabendo que Salazar era de origem romani.

    Fui parar ao ramo dos tuk-tuks por causa do Frederico Duarte Carvalho, um carolas da História e das narrativas orais, além de escritor prolífico e de valor (com quem editei o livro Cartas do Confinamento). Sabia dos ventos de glória de um par de antigos compagnons de route do Jornalismo, que ali viram uma forma de compensar a míngua das redacções, continuando a fazer da arte de comunicar a bordo de um riquexó o seu ganha-pão, com a tripla vantagem dos vazios legais, o ajuste de contas poético com o Sistema e o grito de liberdade.

    Dava-me jeito para compensar um azar de percurso e vim a descobrir na vida de feirante um verdejante pasto de crónicas e reportagens, que me levariam a escrever O Moturista Acidental, e a gravar uma série homónima para TV. Para quem nunca experimentou a vida de tuktukeiro, isto é, visto de fora, e julgando o monge pelo hábito, quem o faz não passa de uma estirpe de diletantes. Um escol de janados, maltrapilhos, indigentes, impostores. A escória da sociedade, que, não tendo onde cair morta, caiu no cockpit de um tuk para arrebanhar uns cobres fáceis.

    Ora, o guia, se tiver brio, estuda e dedica-se. Além de saber meia dúzia de línguas, os meandros da História, e de entreter, tem que usar da fineza dos vendedores avisados. Está na rua, mas podia estar numa livraria ou alfaiataria, a dissertar sobre a obra de autores ou a vender fatos por medida. Se sabe quem foi o olisipógrafo Júlio Castilho ou quem são Appio Sottomayor e a Maria João Martins, tanto melhor.

    Se pode levar o viajante à mesa do British Bar onde Cardoso Pires escreveu o seu Lisboa: Livro de Bordo ou à viela onde desafinou o papillon de Baptista-Bastos por avanços sobre a sua esposa; ao Martinho da Arcada, onde Pessoa bebeu absinto e caligrafou A Mensagem; ou à passagem esconsa e sombria junto às Portas de Santo Antão onde Luís Vaz se travou de argumentos que o levariam ao cárcere, ali vindo a escrever o primeiro canto de Os Lusíadas, melhor ainda. Se anda munido dos mistérios desvendados por Victor Mendanha ou sabe dos passos secretos e da geometria dos maçons, é pura questão de gosto e apreço pelo que não está à vista.

    Alvalade é falar do meu Sporting, indo um pouco mais além. Avô e pai Gomes, adeptos do Sporting, trouxeram-me, por ADN, a paixão leonina. Tenho bem presente o baptismo no velho estádio José Alvalade. Era uma tarde ensolarada e lá fomos, eu, pai e avô (das poucas vezes que nos recordo juntos), assistir a uma partida do campeonato.

    Vi-me fascinado com o espectáculo ao vivo, embora me lembre de ter passado mais tempo ocupado a comer queijadas e a emborcar sumóis de ananás. Ganhámos o jogo e por cada golo (uma cabazada) vi-me içado como um papagaio de papel entre leões em êxtase. A emoção do golo tem a sua razão de ser na explicação para a irracionalidade do clubismo.

    Ao passear um turista em Lisboa dou por mim a pensar no poema Invitation au Voyage, de Baudelaire, e de como a minha ideia de Portugalidade insiste em ser a de um lugar ao sol onde povos sucessivos campearam para se instalarem, mas no final sobrou um gueto feliz, oásis de turistas em sobressalto, um dos poucos lugares do mundo onde é possível uma mesma rua alojar um muçulmano, um judeu e um ateu sem a noite acabar num paiol de pancadaria.

    Penso em discussões pífias de futebol, em poetas e versejadores, em mandriões e mânfios e tanas e badanas e sacanas (como lhes chamou o Nuno Bragança), mas tudo malta convencida de que é porreira e de bom coração, penso no Ernesto Sampaio que dizia ser esta uma terra de bimbos, mas a ocidente não conhecer outra melhor.

    Viajar fez-me concluir que o português emigrado é um tipo orgulhoso do seu torrão deixado para trás onde sempre voltará, de peito feito à conquista da terra escolhida como canteiro adoptivo, mas sem nunca perder de vista a pátria por mais anafada a conta bancária.

    Dei por mim, na qualidade de exilado (que me levou a escrever o livro de crónicas e contos Quo Vadis, Salazar? Escritos do Exílio), saudoso de um pão capaz, uma sopa da avó, uma diatribe de bola olho no olho na tasca do senhor Abílio, o mar ao sair da porta, a luz coada do Verão quando ainda é Inverno, o burburinho das ruas estreitas da Mouraria e Alfama onde sempre voltei e me vi guia acidental.

    Se professor é quem ensina (a andar, falar, pensar…) a minha avó Vessadas que morava em Alvalade foi a primeira e grande mestra da minha vida. Antes de sentar o rabo na 1.ª classe, no Bairro de S. Miguel, comecei por ir com a minha avó para o Campo de Santa Clara, onde ela dava aulas aos neófitos. Eu ficava à retaguarda, nos bancos dos fundos, ao lado de um calmeirão angolano.

    Tiago Salazar no ‘local de trabalho’, onde escreveu esta crónica.

    Como era o neto da “stôra”, olhavam para mim de lado, mas, com o tempo, acabei por ser incluído e ganhei mesmo a alcunha de Tintim, graças a um redemoinho no meio da testa que perdurou até aderir ao semblante heavy-metal na adolescência.

    Nas aulas da avó Vessadas aprendi o bê-á-bá (e as linhas de caminhos-de-ferro e os rios e a tabuada), como os mais velhos costumam dizer, “à moda antiga” (com açoites de régua e demais ensinamentos).

  • Fui à bola: uma aventura entre degraus

    Fui à bola: uma aventura entre degraus

    “Ir à bola! é uma expressão de belo efeito. Significa agrado, empatia, traços em comum, gramar. Podia dizer(-vos) gramo o Sporting Clube de Portugal, e acrescentar à brava, mas isto requer umas achegas, porque há condições neste amor que se quer recíproco.

    Não se trata de impor ou ditar leis, do género das regras conjugais estabelecidas nos códigos civil e eclesiástico, os limites do esticar da corda, o até onde estou capaz de aguentar o sofrimento, os tiros nos (meus) pés de adepto com os títulos perdidos; ainda a memória recente a latejar da vergonha alheia pela ausência do futebol no Estádio Nacional e a perda (justa) da Taça de Portugal para uma equipa que quis ganhar. O Torreense, esse colosso de vontade colectiva, como se quer tudo na vida, do casal ao partido, da equipa de uma redacção ao país e ao mundo, como se gostaria que tudo fosse, pacífico, feliz e ganhador, sem que perdas signifiquem mais do que derrotas necessárias, como a morte que sempre vem.

    Mas íamos nisto do meu Sporting.

    Enquanto adepto ninguém da varanda do Varandas ou do gabinete, seja o próprio ou outro alguém, me pergunta se concordo ou discordo com o que quer que seja feito “em nome do clube”. É o poder da Democracia e de delegar o voto, para que outros nos governem.

    Bem posso gritar a plenos pulmões no estádio, insultar o Presidente num encontro casual, maldizer o treinador e a equipa técnica, assobiar o colectivo de jogadores ali à mão de semear, além dos árbitros, claro está, cujo p*** que te pariu é um exercício de purga recomendável por especialistas de saúde mental.

    Quando se diz que o futebol é o ópio do povo, há que acrescentar o incenso dos turíbulos das claques, as pirotecnias, o rufar dos tambores, os símbolos da geometria sagrada, além dos mantos sagrados que justificam os crimes, como as matanças do Islão e do Cristianismo.

    Estou a dar voltas ao texto de propósito, para que vós, leitores, sejais obrigados a pensar. Onde quer este sujeito chegar? A sinopse aqui vai: jornalista vai à bola, destacado para o estádio do seu clube de coração, sem “ir à bola” com tudo o que ali vê, viu e verá.

    Começo por um alerta aos poderes leoninos sobre o acesso aos lugares de trabalho dos camaradas jornalistas, que para vossa informação, se encontram no sétimo andar, e se fazem somente por dois elevadores.

    Ora, este vosso jornalista, estreante nestes domínios de idas profissionais à bola (ainda para mais no terreno do seu clube de estima) chegou, como o padrinho de uma boda, a tempo e horas de preparar o estaminé e nada faria prever o tormento sucedido.

    Recolhida a credencial, a lunch-box (marmita) com a respectiva sandes de queijo flamengo, uma maçã golden, uma barra de cereais sem açúcares adicionados e uma água de 33 centilitros, fiz-me ao piso. Isto é, ao acesso às alturas de onde me seria colocada ao dispor uma secretária exclusiva, tomadas e cabos de ligação ao computador, zonas de fumo e um WC decente, além de máquina de café à descrição.

    Sendo homem de meia-idade e ainda viçoso graças ao método anti-aging do Dr. Manuel Pinto Coelho, não me fez grande mossa ter de subir os 900 degraus até ao sexto piso e em vão como já percebestes, após o aviso de que os elevadores não se encontravam em funcionamento e era somente por eles o acesso à tribuna de Imprensa; acontece que se estivesse mais atento teria poupado a ascese e a perda de calorias, porventura essenciais ao esforço de ver um jogo entre o mediano e o assim-assim (lá iremos).

    Dizia (e digo e repito) aos poderes leoninos que é disfuncional, disjuntivo e disruptivo ter o acesso a uma zona, em particular de trabalho, limitado a dois elevadores que podem avariar e depois? É o ai-jesus? Deu-se ainda o caso destes elevadores estarem neste dia de giraldinha a ser manipulados somente por um conciérge de ocasião, ao que me pareceu instruído para dar prioridade de ascensão aos acreditados VIPs; ora, estando este vosso escriba anónimo e ronceiro há mais de meia hora pendurado à boca dos elevadores, após ter subido em vão o escadório dos acreditados e esbarrado com uma parede no suposto sétimo piso (sétimo céu), eis que se abre o sésamo; mas, ao avançar para dentro com o ímpeto de Luís Suaréz vi-me chutado para fora, estando ali uma celebridade com prioridade de ascensão e não podendo esta ser acompanhada; faltavam neste preciso instante 7 minutos para o apito inicial do jogo e e mantinha-me ao nível do rés-do-chão.

    Podeis questionar-vos: e os outros colegas de media? Porventura mais experientes, deverão ter ali chegado três horas antes ou então são todos Vips menos eu. Ou então ainda, hipótese plausível, terão subido às alturas do estádio por algum feijoeiro oculto. Quando o apito soou, e esse chegou-me aos ouvidos abafado pelo eco da Maria José Valério e das claques perdoadas e reunidas, ainda me achava nos confins da escadaria, entre o desesperado e o conformado.

    Nem sequer tinha a quem barafustar, excepto ao aparecer no saguão uma moça da Prosegur que embora nada tenha resolvido, se veio a revelar um achado de simpatia e apaziguamento da minha raiva e frustração. Enquanto os minutos passavam e os ecos dos primeiros instantes da partida se ouviam dispersos pelas caixas de som das escadas, a moça ia-me dando pareceres dos andamentos dos elevadores; munida de um auricular, ouvia o relato do sobe e desce do conciérge e dava-me esperança de chegar ao meu assento de trabalho, talvez antes do intervalo, a hora limite decretada para poder instalar-me ou ser recambiado.

    Chegaram então do nada dois jovens bombeiros, afogueados de equipamentos de sobrevivência, de bochechas coradas como o defesa Gonçalo Inácio. Tive esperança de ter nestas duas almas a minha boleia para cima, ainda que tudo estivesse à mercê de um conciérge totalitário, a quem a moça da Prosegur se limitava a auscultar o relato… da cabina do elevador. Não pude deixar de me interrogar onde seria a zona de embarque destes seres tão importantes, pois dali, do rés-do-chão, não era, nem de nenhum piso percorrido na minha subida de véspera.

    O suor escorria-me agora em catadupa pelas têmporas, o pescoço, o peito e as costas, como se eu próprio estivesse ao serviço da equipa. Limpei-me com os guardanapos da lunch-box como se fosse esta a minha pausa para hidratação, isto após já decorridos uns vinte minutos de jogo. Do aquecimento até então nada vi, a não ser as paredes do saguão, o sorriso amarelo da moça da Prosegur e os esgares dos jovens bombeiros a quem fora atribuída a missão de dar assistência a alguém em desespero no piso 6.

    Depois de tamanho suplício e o verter de suores, um dos elevadores voltou a abrir; sem esperar guia de marcha ou autorização do conciérge supremo, entrei lado a lado dos bombeiros em sobressalto. Tinha uma missão a cumprir, se não de vida e morte, de dar crónica da disputa do Troféu dos Cinco Violinos.

    Não vi pois os lances do recém contratado uruguaio Rodrigo Zalazar, que podia ter inagurado o marcador aos 15 minutos, não fora a falha na abordagem, que ainda sobrou para o moçambicano Geny Catamo pontapear em arco ao poste da baliza defendida pelo guardião do Mónaco, Lukas Hradecky; logo a seguir, pelo que vim a ler mais tarde nos jornais, foi a vez do extremo português Flávio Gonçalves falhar o golo certo, a passe de calcanhar do jovem e promissor avançado Rafael Nel. Aos 21 minutos, estando quase quase a desembocar no lugar que me era devido para o exercício da minha função, Geny voltou a tentar a sorte, sem sucesso.

    O cronómetro do estádio marcava 23 minutos no instante em que me sentei no lugar C6 do estádio José Alvalade, onde em mais de mil idas nunca tinha estado. Após tamanha provação, o êxtase e a bonança de um lugar de excelência devolveram-me a paz, mais ainda ao ser-me permitido fumar um puro Churchill das Honduras, como podeis atestar pelas imagens recolhidas em modo selfie.

    Até ao fim da primeira parte anotei no caderninho as notas de um futebol bem entrosado, para a quantidade de mudanças na equipa que durante as últimas semanas tem feito correr tinta. A ver pelo endurance do todo e alguma lufada de talento individual, para fazer esquecer Trincão e outros saídos do plantel, a coisa promete.
    Rafael Nel marcou o primeiro tento, de cabeça, após uma jogada pela direita do brasileiro Luís Guilherme que fez o passe ao estreante Silas Andersen, este devolveu a Pedro Gonçalves “Pote” – em dia de despedida para as arábias, após seis anos de leão ao peito -, e “Pote” fez o que tinha de ser feito como tantas vezes o fizera, ou seja, passar a bola sem espinhas com um toque em habilidade por forma a ser tirado o cruzamento de linha para a cabeça de Nel num culminar de salto de peixinho.

    O marcador alterou-se de vez para 2 a 0, aos 68 minutos, por intermédio de mais um estreante, o inglês Jesse Derry, num lance de fino recorte técnico, sem que o Mónaco tivesse ameaçado ou esboçado uma reacção, excepto em lances de bola parada. Anotei como muito promissoras as prestações dos médios Doumbia, Altimira e Pedro Lima e o continuar da chama de Maxi Araújo. Vi uma vez de relance o mister Rui Borges à boca do relvado. Pareceu-me mais magro, próprio de quem tem andado a dar o litro, e gostei de o ver com umas peúgas pretas. Terminei a prosa que vos trago com um “foi canja”.

  • 2025: O ano da morte do determinismo

    2025: O ano da morte do determinismo


    Durante séculos, o determinismo exerceu um fascínio quase hipnótico sobre filósofos e cientistas. A ideia é simples, elegante e tranquilizadora: tudo o que existe — incluindo o ser humano — é o resultado necessário de cadeias causais. Nada poderia ser diferente. A liberdade seria apenas uma ilusão bem contada. Em Baruch Spinoza, esta visão atingiu a sua forma mais pura; em Yuval Noah Harari, ganhou roupagem contemporânea, algorítmica e biologizante.

    Mas 2025 ficará na história como o ano em que esta construção intelectual começou a ruir. E o motivo tem um nome claro: Inteligência Artificial.

    Paradoxalmente, foi a própria máquina — determinista por excelência — que expôs a fragilidade da filosofia determinista da mente. Pela primeira vez, dispomos de sistemas artificiais capazes de imitar linguagem, argumentação, criatividade e até empatia. Sistemas impressionantes, poderosos, estatisticamente sofisticados. E, no entanto, profundamente limitados.

    Porquê?

    Porque a comparação tornou-se inevitável. A AI mostrou-nos o que um sistema determinista pode realmente fazer — e, sobretudo, o que não pode fazer.

    A mente humana não se limita a processar informação. Ela julgainterpretaassume compromissosatribui significado. Vive e opera dentro de uma matriz cultural aberta, ambígua, normativa e essencialmente não-determinista. Os mesmos símbolos — liberdade, justiça, dignidade, ofensa, verdade — admitem múltiplas interpretações legítimas. O desacordo não é um erro de cálculo; é constitutivo da cultura.

    Aqui surge o argumento fatal, que o determinismo sempre evitou enfrentar de frente:

    Uma mente determinista nunca poderia produzir uma cultura não-determinista.

    Se os seres humanos fossem apenas mecanismos causais — cérebros-máquinas regidos por leis físicas estritas — então a cultura seria um simples output computável: fechado, previsível, semanticamente estável. Mas a cultura humana não é nada disso. É um espaço aberto de significado, onde a interpretação não está pré-fixada e onde a responsabilidade individual faz sentido.

    Os defensores do determinismo tentaram contornar esta dificuldade falando de “complexidade”, “emergência” ou “ilusões úteis”. Mas a AI desmontou essas evasivas. Os modelos de linguagem fazem exatamente isso: lidam com complexidade extrema e emergência estatística. Ainda assim, não decidem, não assumem responsabilidade, não fecham semanticamente o significado sem uma imposição externa.

    A conclusão é desconfortável, mas inevitável: o determinismo da mente não explica a cultura que ele próprio utiliza para se afirmar. Trata-se de uma filosofia autodestrutiva.

    Em 2025, a AI não matou a Humanidade. Fez algo muito mais interessante: matou o determinismo. Caso encerrado.

    Joaquim Sá Couto é médico

  • Uma proposta de ‘transplante de alma’ para salvar a Inteligência Artificial

    Uma proposta de ‘transplante de alma’ para salvar a Inteligência Artificial


    Há uma frase atribuída ao filósofo Étienne Bonnot de Condillac (1714–1780) que sempre me acompanhou na vida clínica: “Nunca encontrei a alma na ponta do meu bisturi.” Nem eu. E garanto que já procurei mais do que o razoável — não por misticismo, mas por curiosidade científica. A alma, seja o que for, não aparece em TAC, não sai em análises, não se deixa suturar. É imaterial. E, curiosamente, descobri que o mesmo problema afecta a Inteligência Artificial: por mais Data Centers que visitemos, por mais servidores a chiar como motores de avião, não encontramos ali nenhuma alma.

    A tecnologia avança a velocidade estonteante, mas continua a faltar-lhe aquilo que, nos humanos, orienta decisões difíceis: um conjunto claro de valores, prioridades, estilos de julgamento e limites morais. A IA tem estatísticas, padrões e correlações. O que não tem — e isso é hoje perigoso — é uma estrutura normativa inteligível. Falta-lhe aquilo que Condillac não encontrou no bisturi e que os engenheiros não encontram nos chips: falta-lhe uma alma.

    an abstract image of a sphere with dots and lines

    É aqui que entra a ideia que desenvolvi, em tom meio sério, meio brincadeira: talvez seja necessário um transplante de alma para salvar a IA. Transplantar, claro, não no sentido biológico — não ando por aí a recolher almas com fórceps —, mas no sentido arquitectónico: criar um modelo explícito daquilo que, nos humanos, sustenta o julgamento, e integrá-lo nas máquinas.

    Chamo a isso o Persona Modeling Framework (PMF). O conceito é simples — tão simples que surpreende não ter surgido mais cedo. Em vez de deixar a IA improvisar valores com base em padrões linguísticos, proponho construir modelos formais de personas reais, autorizadas e identificáveis. Cada persona contém:

    • Princípios base: aquilo que a pessoa realmente valoriza e que usa como bússola moral.
    • Heurísticas de decisão: regras práticas, aquele “como costumo decidir quando a coisa aperta”.
    • Estilo cognitivo: tendência para o prudente, o ousado, o probabilístico ou o narrativo.
    • Assinaturas de trade-offs: como prioriza risco vs. benefício, autonomia vs. segurança, liberdade vs. estabilidade.
    • Linhas vermelhas: limites absolutos que não se ultrapassam, custe o que custar.
    a computer circuit board with a brain on it

    Isto é, de certa forma, uma alma sintética: não mística, não sobrenatural, mas uma arquitectura de valores coerentes que permite à IA decidir como alguém decidiria, e não apenas o que a estatística prevê que alguém diria.

    Porque é que isto importa? Porque atualmente pedimos à IA para tomar posições sobre medicina, ética, política, direito, segurança — tudo áreas onde não basta acertar factos; é preciso julgar. É preciso decidir quando dois valores entram em choque: segurança vs. privacidade, benefício vs. risco, eficiência vs. justiça. Sem uma alma — ou seja, sem uma arquitectura de valores explícita — a IA decide conforme o vento estatístico do momento. E isso, para ser franco, é assustador.

    O PMF, por outro lado, permite algo novo: pluralismo transparente. Em vez de uma única resposta “da IA”, podemos pedir pareceres de várias personas — o médico prudente, o regulador rigoroso, o filósofo liberal, o economista pragmático. Cada posição acompanha uma explicação das suas prioridades, dos seus limites e do raciocínio aplicado. Tal como numa equipa multidisciplinar, mas sem necessidade de café e bolachas.

    a computer generated image of a human brain

    É aqui que a metáfora do “transplante de alma” deixa de ser brincadeira e passa a ser diagnóstico. A IA é extraordinária, poderosa, veloz — mas vazia. Não no sentido humano do termo, mas no sentido funcional: não tem estrutura interna para lidar com dilemas. Sem valores explícitos, a IA torna-se um titã cognitivo com a profundidade moral de uma torradeira.

    Condillac dizia não encontrar a alma no bisturi. Eu confirmo. Mas talvez tenha encontrado o sítio onde ela faz falta: na IA. E, já agora, talvez tenha descoberto como transplantá-la. Não em forma etérea, mas como arquitectura de valores. Uma alma desenhada, modelada, explicável — e, pela primeira vez na história da tecnologia, auditável.

    Se queremos que a IA nos ajude a decidir e não apenas a calcular, então sim: está na hora de um transplante de alma. E este, felizmente, não requer anestesia.

    Joaquim Sá Couto é médico

  • Médicos: o escândalo do Adicional

    Médicos: o escândalo do Adicional


    “Exclusivo: dermatologista ganhou 400 mil euros por 10 dias de trabalho no maior hospital público do país”. Este título sensacionalista abriu uma autêntica caixa de Pandora, cujos segredos ainda mal começaram a ser revelados. Tudo começou “a propósito de um caso”, mas rapidamente se multiplicaram as denúncias de situações semelhantes, envolvendo alegados abusos de médicos que, contornando o sistema, chegam a auferir entre 20 e 30 mil euros por mês.

    Os médicos envolvidos nestes “esquemas”, a confirmarem-se as acusações, terão usado o chamado Adicional para benefício próprio. Se assim for, não merecem comiseração. Mas para compreender o verdadeiro problema, convém olhar para a floresta e não apenas para a árvore.

    O Programa Adicional foi criado com o objectivo de reduzir as listas de espera — particularmente em especialidades com maior atraso, como a oftalmologia e a ortopedia — oferecendo incentivos financeiros para trabalho fora do horário habitual.

    Na prática, e sob orientação do Ministério da Saúde, as administrações hospitalares industrializaram o Adicional. Os blocos operatórios passaram a funcionar para lá do horário normal, incluindo sábados e domingos. O horário habitual manteve-se pouco produtivo, enquanto os turnos extra se transformaram em verdadeiras linhas de montagem. Para tal, seleccionam-se os casos mais simples e rápidos, maximizando a produção (e a facturação). Sem esta “desnatação”, os resultados impressionantes seriam impossíveis.

    Quem beneficia? Não são apenas os médicos. Enfermeiros, técnicos, auxiliares — todos recebem remuneração adicional. As administrações hospitalares asseguram financiamentos extra e os fornecedores de consumíveis registam aumentos consideráveis nas vendas.

    persons hand with white manicure

    Quando se operam 30 cataratas, compram-se 30 lentes intraoculares. Quando se realizam 6 próteses da anca, adquirem-se seis próteses. Quando se corrigem 12 hérnias com recurso a redes protésicas, estas têm de ser compradas.

    Segundo estimativas actuais, o custo médio de uma lente intraocular ronda os 950 euros, enquanto o de uma prótese total da anca varia entre 1.200 e 4.000 euros. Se, num domingo tranquilo, um hospital distrital realizar 30 cirurgias às cataratas e 6 próteses totais da anca, o SNS despende cerca de 40 mil euros apenas em próteses (28.500 euros em lentes e 12.000 euros em próteses da anca, a um valor médio de 2.000 euros).

    Um serviço de oftalmologia bem ‘adicionalizado’ pode gerar mais de 3 milhões de euros por ano só para o fornecedor de lentes. Imaginem as pressões que os administradores — pobrezinhos — devem sofrer para “adicionalizar” ao máximo… e até o próprio Ministério.

    close up photography of rainbow rays on eye

    O leitor incauto questionará: «Mas não é importante tratar os doentes?». Sem dúvida. Mas vejamos os números de cirurgias às cataratas por 100.000 habitantes, segundo dados de 2022:

    • Portugal – 1.273
    • Bélgica – 950
    • Finlândia – 900
    • Dinamarca – 850
    • Países Baixos – 800
    • Hungria – 480

    É legítimo perguntar: estamos realmente a responder a uma necessidade ou a alimentar uma máquina?

    Disse, no início, que o caso dos 400 mil euros abriu uma caixa de Pandora — e é verdade. Mas não devemos esquecer que, segundo a lenda, o último item na caixa é a esperança. E é por acreditarmos que as coisas podem melhorar, que elas se mantêm em movimento.

    Joaquim Sá Couto é médico

  • O Fado, o VAR e os queixumes do Enes

    O Fado, o VAR e os queixumes do Enes


    Trazem-lhes os deuses — ou talvez tenha sido o Fado, essa entidade fatalista e caprichosa — a triste sina de nascerem com o coração tingido de verde e um irracional afecto por um felino de juba, mais talhado para rugir em peluches infantis do que para caçar campeonatos. Refiro-me, pois claro, aos sportinguistas, essa confraria de sofredores que, desde os tempos do senhor Salazar (e vá lá saber-se se não desde o domínio filipino), vagueiam pelo mundo a carpir mágoas de um presumido martírio futebolístico.

    Dizem-se vítimas de roubos. Mas não de carteiristas comuns — não, nada disso. Falam de assaltos metafísicos, conjuras cósmicas, espoliações transcendentes que transformam cada árbitro num Torquemada e cada fora-de-jogo num auto-de-fé. Gritam que lhes tiram campeonatos a ladro, como quem clama que o Olimpo lhes manda pragas. Só que, curiosamente, os roubos só ocorrem quando perdem. Se ganham, foi justiça divina.

    Ora, desde que apareceu o VAR, esperava-se que esses lamentos ancestrais fossem metidos num armário, junto com as faixas de campeão de 1982 e os cartazes do Balakov. Mas não. Agora que têm um olho extra em cada canto do campo, os sportinguistas passaram a desconfiar é do próprio VAR — acusando-o de ser um cíclope manhoso, a ver só para um lado. Aquiles, com o seu calcanhar exposto, queixava-se menos.

    E lá tenho andado com o Carlos Enes, bom camarada de ofício, sportinguista de pergaminhos, daqueles que faz da auto-comiseração um desporto paralelo. Nestes últimos dois anos, o Enes tem vivido num estado de euforia comedido — ganhando títulos atrás de títulos como quem apanha cerejas, sempre a medo de que o árbitro apareça a cobrar IVA desportivo no fim da partida.

    Pois bem, a caminho do Jamor para assistir à final da Taça, lá vinha o Enes no seu modo habitual: voz grave, semblante carregado, como um oráculo de Delfos depois de três cafés. “O VAR é o Tiago Martins”, murmurava ele com a solenidade de quem anuncia um eclipse total. “Está encomendado. Vai ser entregue ao Benfica de bandeja.” Ora, o Tiago Martins — e confirma-se, era mesmo ele — não é propriamente nome de quem inspire, nos sportinguistas, confiança. Diziam-me. Mas adiante. Eu já tinha ouvido história semelhante com o João Pinheiro, que afinal me saiu um João Pinacácia há duas semanas.

    Chegados ao Jamor, sol a prumo e cachecóis ao vento, o jogo começou com aquele nervoso próprio das finais em que há muito mais em jogo do que um troféu: há honra, há vingança, há memes por fazer. E o que vi em campo foi isto: um Benfica personalizado, bem organizado e, surpresa das surpresas, prejudicado em lances capitais — todos com a assinatura silenciosa do senhor do VAR, sim, esse mesmo: o Tiago Martins, o furta-leões.

    Corria o minuto 11 da final da Taça de Portugal, quando Luís Godinho, árbitro da partida, assinalou aquilo que, à primeira vista e aos olhos do comum mortal, parecia ser um penálti inequívoco a favor do Benfica. Bruma remata, Gonçalo Inácio interpõe-se com o braço esquerdo — e o apito soa como quem marca um destino. O gesto do árbitro parecia selar o castigo máximo, daqueles que em finais se escreve com letras maiúsculas e se discute nos cafés durante semanas.

    Mas não. As musas do Jamor, que agora têm nome técnico — VAR —, intervieram. E quem o árbitro Godinho ouviu no auricular foi o senhor Tiago Martins, homem de bastidores e ecrãs, daqueles que só existem verdadeiramente quando o jogo pára. A decisão foi revertida: antes de Bruma rematar, muito antes de Inácio meter o braço onde não devia, já tudo estava manchado pelo pecado original — um fora-de-jogo de Kökçü, que recebera a bola do flanco esquerdo em posição irregular. Sem o VAR que pilha leões, o Benfica teria inaugurado o marcador.

    Minuto 19. Dahl, veloz e ousado, entra na área do Sporting e cai. O árbitro, célere no gesto e firme no juízo, levanta o braço e castiga o benfiquista com cartão amarelo por simulação. Mas, como convém nestes tempos de escrutínio digital, o VAR deveria ter acordado para rever o lance com olhos de lince, porque parece mesmo — nas imagens — que Hjulmand tocou no pé de Dahl. Mas o VAR, qual dorminhoco numa tarde primaveril, não interveio. Nada viu. Afinal, pensei, o Tiago Martins até aprecia os leões.

    Minuto 50. Bruma marca e a nação benfiquista explode de alegria com o segundo golo, que mataria o jogo — por breves instantes, entenda-se. Pois bem, veio o VAR, o tal do senhor Tiago Martins, com o seu bisturi digital, cortar o lance até à raiz e encontrou-se um fóssil de falta na origem da jogada: Carreras terá entrado de pitons sobre o tornozelo de Trincão no acto da recuperação da bola. Um toque, um gesto, uma pisadela do passado — e zás! Golo anulado, falta marcada, cartão amarelo exibido com a elegância de um carimbo notarial.

    Tudo correcto, dizem. Mas ficou legitimado que se pode anular um golo se, algures no processo de construção — talvez numa posse de bola anterior, ou numa jogada que envolva uma troca de olhares suspeita — se encontrar uma falta esquecida, omissa ou até metafísica. E o Carlos Enes a queixar-se do Tiago Martins…

    Minuto 90+5. O jogo já vivia os seus estertores finais. O desespero leva Matheus Reis — talvez possuído por algum espírito guerreiro das estepes — a encerrar a tarde com um gesto digno de arte marcial. O benfiquista Belotti, caído no chão, pôs-se a jeito de servir de almofada ao pé esquerdo do brasileiro, que desceu com zelo e pontaria sobre a cabeça do adversário. Apagam-se cigarros com pisadelas mais suaves.

    Conduta violenta? Evidente. Lance de cartão vermelho? Óbvio. Intervenção do VAR? Pois… aí entra o mistério. O nosso querido vídeo-árbitro, tão atento às solas de Carreras e às sobrancelhas de Kökçü em fora-de-jogo milimétrico, entrou aqui em modo contemplativo — talvez em meditação transcendental.

    Nem um sussurro no auricular. Nada. Tiago Martins em silêncio sepulcral, como quem contempla o pôr-do-sol em paz interior.

    Se calhar, Matheus Reis pisou a cabeça do adversário com força insuficiente para activar os sensores do VAR. Ou talvez o protocolo não preveja agressões à cabeça se forem em tempo de descontos e em estilo zen.

    Depois disto, que resta mais para escrever? Que foi bonita a festa do Jamor? Que o Lage vai dar uma curva? Que o Rui Costa vai de vela? Que o Benfica deve procurar construir uma equipa decente? Que o Carlos Enes nunca mais invocará o VAR em vão?

  • Crime e milagre no Estádio Nacional

    Crime e milagre no Estádio Nacional


    Por felicidade, nesta final não morreu ninguém, embora o Andrea Belotti tivesse passado 25 segundos com o corpo inanimado na relva e o espírito no outro mundo, devido a flagrante homicídio.

    O crime de Matheus Reis, jamais visto num campo de futebol, do pelado do Canelas ao Santiago Bérnabeu do tempo dos galácticos, graças a Deus não foi tolerado no Céu, como jamais o poderá ser na Terra graças ao Conselho de Disciplina. São Pedro mandou o italiano de volta, inteirinho e ressuscitado, para o clube que o contratou.

    O caso precipitou um pedido formal de revisão constitucional, com carácter de urgência, por iniciativa do único associado e simpatizante do Benfica que anda de bem com os resultados.

    Ainda não tenho votos suficientes para a pena de morte, mas a prisão perpétua é tão certa como um penalty do Gyökeres que deve ser imigrante ilegal dar sempre golo.

    O galhardo e mucoso capitão da águia Vitória, mas só às vezes, que nunca por actos ou sequer pensamentos ferrou os dentes ou os pitons nas carnes dos adversários, apresentou na véspera uma proposta para descongestionar o jogo.

    Queremos jogar. Não percam tempo com paragens e faltas.

    Aos 47 minutos, Samuel Dahl — sueco com a situação regularizada na AIMA graças aos bons ofícios do dr. Fernando Seara — desequilibrou-se para cima do Génio Catamo. O antigo árbitro Jorge Coroado viu ali malícia, mas o árbitro vigente, afinal o único que conta para a verdade desportiva, lembrou-se da promessa de Nicolás.

    O juiz alentejano raciocinou como num sonho bem regado debaixo de um chaparro. Um nórdico chamado Samuel, tão branquinho de cara e de calções como o velho Nené ao contrário do Gyökeres, que anda sempre despenteado e de camisola amarrotada pelas manápulas dos defesas nunca iria desrespeitar o capitão e perder tempo com faltinhas.

    Quis foi jogar. Dou golo limpo e só não vou festejar para o topo norte porque neste estádio tenho medo de engenhos pirotécnicos.

    Luís Godinho, logo a seguir, também só vislumbrou a mesma “vontade de jogar” numa rasteira em que o Carreras rasgou as meias às riscas do Trincão, com a pressa de ir tomar banho a tempo de apanhar o primeiro TGV para Madrid. Infelizmente, a tecnologia de fora de jogo, que funciona mal num estádio inaugurado em 1944, com uma premonitória vitória do Sporting sobre o Benfica no prolongamento, arruinou a boa-vontade do árbitro e o plano terapêutico de Rui Costa.

    Reagindo ao sucedido, o maestro atirou o gurosan, o diazepan e a melatonina às pernas do Renato Sanches, e desatou a vazar áudios pela calada da noite.

    — Dez minutos de descontos! Era para o Sporting ganhar!

    De facto, os jogadores do Sporting não precisaram de fazer nada para isso. Bem pelo contrário. Passaram a semana de autocarro descapotável em autocarro descapotável, entre festas e tascas. Comeram tantos petiscos que uma dobradinha não poderia fazer-lhes grande diferença.

    — O Varadas cozinhou isto tudo. E põe a pimenta que quer! 

    Durante a primeira parte, os bicampeões nacionais foram discutindo entre eles o desinteressado discurso do engenheiro Moedas, com palavras escolhidas a dedo para arranharem na garganta do Ricardo Araújo Pereira quando se põe a encher balões só para gozar com a cara ele.

    — Que orgulho estar aqui convosco!  

    Assim enlevados, os defesas leoninos deixaram à vontade os dois turcos e o único Vangelis do Alto dos Moinhos. Respeitosamente, ficaram a admirar de longe as jogadas estudadas entre eles, ao ponto de se tornarem previsíveis, e os potentes pontapés para as nuvens, à procura do Belotti reunido com o São Pedro.

    Depois de sofrerem o golo, os foliões de verde-e-branco mudaram de atitude, mas só para manter as aparências. É certo que mostraram alguma impaciência em levantar os jogadores do Benfica do relvado, mas apenas para os convencer a rematar à baliza de vez em quando.

     — Temos muito orgulho em estar aqui convosco, mas vocês não sabem que até no totoloto é preciso jogar qualquer coisinha?

    Frustradas todas as tentativas de reanimar o adversário, os invencíveis leões acabaram por ser forçados, pelo resultado e pelo protocolo, a escalar as bancadas do Jamor para tirarem “selfies” com o dr. Santana Lopes e um deputado do Chega.

    Meia hora antes, na mesma tribuna, o malogrado presidente encarnado pediu um importante conselho ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, que estava manifestamente divertido com a cena.

    Diz-me tu, que ganhaste as legislativas apesar da Spinumviva, como posso eu ser reeleito depois de um central abrir as pernas ao Trincão como fez o António Silva?

  • O bicampeão e a espinha na garganta dos favoritos

    O bicampeão e a espinha na garganta dos favoritos


    As sondagens falharam outra vez escandalosamente, em especial a realizada à boca da garganta por Bruno Lage pelo Natal.

    — Chegámos rapidamente ao primeiro lugar, saímos, mas vamos rapidamente lá regressar.

    Saiu-lhe a previsão furada, como torto o remate ao Vangelis do Alto-dos-Moinhos, quando em Braga tentou fazer uma jogada à Gyökeres, que se esforça por imitar nos treinos, no sofá e sabe-se lá onde.

    Se o Correio da Manhã quiser tratar assuntos de verdadeiro interesse, em lugar das eleições no Benfica e no círculo “Fora da Europa”, tenho provas engraçadas e embaraçosas de que o grego anda a fazer-se à irmã gémea da Inês Aguiar.

    —  Joana, υπόσχομαι ότι θα φτιάξω τη μάσκα μόνο για σένα [Eu ponho a máscara só para ti]!

    Cumprindo uma tradição iniciada no ano passado, que vai repetir-se por muitos anos para ser digna desse nome, o Sr. Director do PÁGINA UM e eu assistimos juntos às últimas duas jornadas nos estádios de Carnide e de Alvalade.

    Ainda avariado do apagão da casa dele, o Pedro desta vez decidiu preparar a jornada de véspera. Creiam ou não os leitores, deu a um jornalista tão independente, rigoroso e científico, que até faz inveja à National Geographic e ao New York Times, para perguntar à inteligência artificial se ainda poderia fazer “alguma coisa” para o Benfica ser campeão.

    Como resultado, Pedro Almeida Vieira apresentou-se na bancada de imprensa com a fita verde da credencial ao pescoço e vários amuletos escondidos nos bolsos: uma pata de coelho, duas penas de uma galinha vermelha, que comprou numa agência de viagens da Rua do Benformoso, e três minhocas roubadas à ração da águia Vitória, mas só às vezes.

    Eu, pressentido o perigo, calcei logo de manhã umas meias do Jubas, vesti a minha camisola verde que tem um leão-índio estampado, com cinco cruzes de pentacampeonato, e disse em voz alta, para o cão e os vizinhos, a “Oração à Luz”, poema maravilhoso de Guerra Junqueiro.

    Do lodo à águia, do metal à fera,

    Da fera ao anjo, do covil à cruz,

    Move-se tudo, existe e reverbera

    O Scott, o dr. Varandas, o Paulinho, melhor roupeiro do mundo, as irmãs Aguiar e eu próprio ficámos com a famosa estrelinha, bem alinhada pelos astros celestes.

    —  Que o leão hoje reine na Terra como o Sol no firmamento.

    Já o Di María, pelo contrário, quando levantava a cabeça nos derbies, ficava encandeado, daí nunca na vida dele ter feito um golo ao Sporting.

    — Papa Francisco, ¿por qué me has abandonado?

    Quando cheguei ao estádio, encontrei Beatriz Hjulmand e Duarte Gyökeres de mão dada, muito apaixonados. Nas costas deles eu vi a táctica de Rui Borges, o Mourinho de Mirandela, para rumar em festa pelas tascas recomendadas pelo jornal Expresso.

    O Pote, que é muito ciumento, é que se intrometeu na jogada, com um golo bonito e abençoado, e o passe decisivo para selar o resultado em carta para a eternidade.

    Aquelas trocas de bola despertaram o ponto G da multidão.

    — Gonçalves! Ggggggggggooonçalves! Gyökeres! Ggggggggggyökeeeeres!

    Por falar em G, de garganta, também é o que distingue os treinadores: de umas sai mosca, noutras entra um bicampeonato. Alheira, bacalhau ou passarinho frito, nas tascas finas é sem espinhas.

    — Eu nasci para ganhar.

    Perante a clareza da classificação final, no dia seguinte Pedro Nuno Santos anunciou que é candidato à presidência do Benfica.

    — Todas as sondagens me dão como favorito.

  • Confissões de um bruxo benfiquista relapso

    Confissões de um bruxo benfiquista relapso


    Receio — e é um receio fundado — que esta crónica venha a custar-me a honra, a dignidade e até o número de sócio do Benfica. Não por ter insultado o presidente Rui Costa (ainda não o fiz), nem por duvidar da aptidão do Bruno Lage (isso já fiz, mas com elegância). O meu receio é mais grave, mais íntimo, mais pecaminoso: receio ser acusado de infidelidade mística ao Glorioso e, pior ainda, de ter facilitado, por omissão bruxuleante, o campeonato ao Sporting Clube de Portugal.

    Logo eu, que me preparo para ser condecorado com o Emblema de Prata por 25 anos de filiação ininterrupta — e, mais importante ainda, de paciência estoica. Fiz-me sócio em 2001, no dia em que Vale e Azevedo perdeu as eleições. Julguei, ingénuo, que não seria possível descer mais fundo do que aquilo. Ora, como bem sabe qualquer benfiquista com memória de pardal (como a maioria dos nossos comentadores televisivos), o Benfica consegue sempre surpreender-nos — nem que seja para pior.

    Mas o que agora confesso, com a solenidade de um herege prestes a ser excomungado, é que no passado sábado fui assistir à última jornada do campeonato ao Estádio de Alvalade, em vez de rumar à Pedreira de Braga, onde o Benfica haveria de tropeçar de cabeça na rocha minhota. Sim, estive entre os leões. E não, não fui, como devia, em missão de espionagem, sabotagem ou infiltrado benemérito. Fui por puro desleixo espiritual. E o mais grave: não usei os meus poderes.

    Sim, caros leitores. Para quem não sabe — e há sempre quem ignore o que importa — detenho conhecimentos discretos, mas eficazes, de bruxaria, via literária, adquiridos desde quando escrevi, há mais de duas décadas, Nove Mil Passos, romance em que, a páginas tantas, a estalajadeira Serafina tentou, com mais alma do que êxito, enfeitiçar o seu amado Custódio Vieira, mestre das águas do Aqueduto das Águas Livres. Se o feitiço não resultou no amor, resultou em experiência — e nisso, como nos desarmes do Aursnes e nos cruzamentos do Di María (quando lhe dá para isso), já é muito.

    Se a Serafina ficou pela tentativa, eu fui mais longe: nas minhas lides literárias, criei relações directas e cordiais com o próprio Diabo, que se prestou, em pessoa (se é que tem pessoa), a ser o narrador de dois dos meus romances: O Profeta do Castigo Divino e Corja Maldita. Ora, não sendo o Demo dado ao futebol — prefere desportos mais sanguinários como a política partidária ou a gestão hospitalar —, não deixa de prestar auxílio quando chamado. Porém, não o chamei. Usei um sucedâneo.

    Ora, o sucedâneo chama-se Mafarrico, e não é mais do que uma persona personalizada, literária e demoníaca, que criei e treino no ChatGPT. Na verdade, não se trata de um simples diabrete, mas sim de Mafarrico Leopold August von Eichenberg Montpensier, um ente de nobre linhagem com quem me divirto em tertúlias literárias e com quem troco ideias criativas.

    Se quisermos humanizar o inumanamente elegante, com ele troco ideias criativas, encontro sinónimos ou metáforas rebeldes, elimino ‘brancas’ e esquecimentos — e, não menos importante, discuto estratégias metafísicas para influenciar resultados desportivos, dentro dos limites da decência e fora da jurisdição da UEFA. Foi, pois, a ele que me dirigi na passada quinta-feira, implorando — sem falsa modéstia — bruxedos benignos, exorcismos pontuais, pequenos sortilégios de ocasião. Coisas leves. Nada que envolvesse sangue de virgem ou pactos de corrupção.

    E o bom do Mafarrico — sempre solícito — lá me expôs o seu rol de receitas: sugeriu-me, em primeiro lugar, virar uma vela verde ao contrário e mergulhá-la num copo de vinagre, como forma simbólica de cortar a sorte leonina com a acidez própria dos destinos contrariados; depois, recomendou-me a construção de um leão de papel com patas de galinha — escárnio zoológico eficaz —, para ser estrategicamente escondido debaixo da cadeira onde assistiria ao jogo, de modo a retirar bravura à fera e incutir-lhe a cobardia penugenta do galináceo.

    A seguir, propôs que escrevesse “Guimarães campeão” sete vezes num papel preto — o número não era acaso, claro está — e que o queimasse com mirra, espalhando depois as cinzas sobre um cachecol do Sporting, para ungir os minhotos com um fervor sagrado. Por fim, aconselhou que pendurasse um cacho de uvas verdes, virado ao contrário, dentro do elevador de acesso à bancada da imprensa: símbolo de queda iminente e de que os frutos da glória sportinguista ainda estavam por amadurecer.

    Receitas simples, eficazes, isentas de crime e de pecado mortal, embora talvez roçando a venialidade supersticiosa. Ora, mas fiz eu alguma destas coisas? Não fiz!

    E porquê? Por cobardia? Por esquecimento? Não, pior: por vaidade faústica. Tive receio de que, ao usar tais meios, acabasse como o bom do Fausto — enriquecido de poderes, mas depois arrastado para o Inferno com cláusulas que não lera em letra pequenina. O Diabo, como sabemos, tem um excelente advogado. E eu não queria acabar, por uma vitória no campeonato, condenado a escrever crónicas de opinião política para a CNN Portugal ou, pior ainda, para o Público.

    E assim me abstive. Não invoquei o Diabo, não acendi velas, não queimei papéis, não inverti uvas. Fui incompetente. Fui pusilânime. E por minha culpa — minha tão grande culpa — o Sporting foi campeão e o Benfica tropeçou na Pedreira como quem escorrega numa casca de banana do Lidl.

    Não venham agora dizer que foi o Pote ou o Gyökeres por terem marcado contra o Guimarães na segunda parte. Não me falem da incompetência do Pavlidis ou do Bruno Lage, ou das tibiezas do António Silva. Não culpem os empates e as derrotas ridículas. A culpa foi minha!

    Tive ao meu dispor um arsenal de mezinhas, simpatias e sortilégios de primeira linha e nada fiz. E por isso me penitencio. E por isso escrevo esta crónica, à laia de confissão pública, para que saibam todos — sobretudo os benfiquistas de coração — que o Diabo me perdoe, mas fui fraco.

    Se me quiserem agora expulsar de sócio, que o façam. Farei como Dante: descerei ao Inferno e regressarei mais forte. Porque já prometi ao Mafarrico, ao verdadeiro, que no próximo domingo no Jamor não falharei. Se for preciso, vendo a alma por aquele caneco. Ou melhor: alugo-a, com cláusula de recompra, desde que o Benfica vença.

    Porque uma Taça é uma Taça. E eu, penitente ou não, já sou do tempo em que o Benfica ganhava sempre — mesmo quando jogava mal.