Nos últimos tempos tenho sofrido muito. A minha cabeça não pára e o coração também não. Por um lado, isso é bom, claro. Significa que não estou em morte cerebral nem em morte total. Por enquanto.
É que aconteceu-me uma grande desgraça. Ou vai acontecer. Depende do fuso horário em que cada um vive. E na verdade nem foi bem uma desgraça que me aconteceu, fui mais eu que aconteci à desgraça. Sempre que estou bem arranjo inevitavelmente uma maneira de me meter mal. Cheguei à vida inapta para a tranquilidade. Mas desta vez nem foi de prepósito. A sério. Desta vez não fui estúpida nem tentei contrariar nada.
Já tinha ouvido falar sobre o assunto, sim, muito vagamente, mas simplesmente pensei: ah, isto não vai fazer assim tanto mal. E fiz, fiz o que não devia ter feito. Mas foi sem querer, juro. É que foi mais forte do que eu. Agora ando com medo das consequências disso e até me custa pronunciar o acto que cometi. Foi em plena luz do dia, o que revela que não pensei muito.

Se é para contar a minha versão dos factos, devo começar pelo início da história. É muito simples. Estava com fome e apetecia-me comer pão. Sempre gostei de comer pão seco. Nem o meu palato é de gostos extravagantes, o que se adequa ao resto do meu ser. É um orgulho provar a minha coerência. Enche-me muito mais a barriga do que certas coisas que se servem para aí. Entrei numa padaria e comprei um saco com cinco carcaças. Na altura não prestei grande atenção ao que estavam a meter dentro do saco, estava distraída com um cão que se estava a sacudir para cima das queijadas.
Quando ia já a descer a rua tirei uma carcaça para fora e assim que a vi fiquei muito irritada. Estava mal cozida. Olhei para as outras e estavam igualmente esbranquiçadas. Detesto pão mal cozido. Os apressadinhos que tiram o pão do forno antes de tempo não devem ter amor ao que fazem. Mas quase ninguém tem, não é?
A produção em massa e a rotatividade das fornadas deve exigir que cada pão tenha cada vez menos tempo para ir ao forno. Qualquer dia inventam pão líquido num daqueles pacotes de plástico que depois é para voltarem não sei para onde. Devem ter família para quem voltar. É, deve ser isso.
No caminho, sentei-me num banco de jardim. Estava fraca, mal-humorada e continuava com fome. Mas não queria comer o pão mal cozido. Foi quando tudo aconteceu e de uma forma muito rápida. Primeiro, apareceu um. Tinha um andar esquisito, mas não estava a olhar para mim. Depois veio o segundo, que era menos esquisito, mas ainda assim era esquisito. Entretanto, chegou o terceiro. O terceiro era bonito e começou a olhar para mim. Eu também olhei para ele. A minha mão direita estava pousada no saco das carcaças. Esse terceiro fez um som a olhar para o saco e os outros dois também começaram a olhar. Comecei a sentir alguma pressão naquele momento. Até que pensei: ah, já que não vou comer e eles são só três…

E eis que se dá o crime. Começo a dar pão aos pombos. Eu gosto de pombos. Quando era pequena vi os Bravos do Pombal, que conta a história de um grupo de pombos que vão salvar um pássaro mensageiro que é preso por falcões nazis. Fiquei com a ideia de que os pombos são revolucionários, fiquei com uma boa impressão deles. Porque é que não havia de lhes dar pão? O problema foi quando aqueles três resolveram chamar os outros cem. E o problema maior foi quando as pessoas começaram a dizer que era proibido alimentar os pombos, que eles transmitem doenças e que agora quem estava naquele jardim podia morrer.
Pergunto-me se já alguém que tenha feito a pergunta “mas morreu de quê?” tenha ouvido a resposta “morreu de pombice. Estava perto de um pombo, e olha, quinou”.
Naquele momento eu estava entre cento e três pombos revoltados porque o pão tinha acabado e muitas pessoas revoltadas pela assembleia de pombos que juntei no jardim. Alguém acabou por fazer uma denuncia e é por isso que tenho dormido mal.

Vivo neste momento numa cela com cento e três pombos. Estamos em quarentena. Tenho dormido mal porque ainda não me habituei a dormir só em cima de uma perna. É assim que eles dormem, mas eu não consigo. E fazem muito barulho. Às vezes até acasalam. Eu não sei se deva olhar ou não. Sinto que estou a invadir a privacidade deles. Mas eles também estão a invadir a minha. Somos colegas de cela. Eles não deviam estar a fazer aquilo à minha frente. Tem sido esquisito. Eles estão sempre a olhar para mim e cagam-me em cima.
No filme que vi quando era pequena eles tinham ideias fantásticas para fugir, mas estes aqui ainda não disseram uma palavra. Se calhar ainda não confiam em mim. Vou dar-lhes tempo. Quando cumprirmos a pena toda, eles vão ser expulsos da cidade. Nunca mais podem voltar a Lisboa. No meu caso, fui acusada de traição à pátria. Supostamente coloquei a vida de muita gente em perigo. Estou à beira da deportação e quem sabe não se esteja neste momento a discutir a possibilidade de se voltar a instaurar a pena de morte. É triste. Eu só queria comer pão.
Texto e imagens de Diana Canha (artista media).








