Autor: Diana Canha

  • Há penas e penas

    Há penas e penas

    Nos últimos tempos tenho sofrido muito. A minha cabeça não pára e o coração também não. Por um lado, isso é bom, claro. Significa que não estou em morte cerebral nem em morte total. Por enquanto.

    É que aconteceu-me uma grande desgraça. Ou vai acontecer. Depende do fuso horário em que cada um vive. E na verdade nem foi bem uma desgraça que me aconteceu, fui mais eu que aconteci à desgraça. Sempre que estou bem arranjo inevitavelmente uma maneira de me meter mal. Cheguei à vida inapta para a tranquilidade. Mas desta vez nem foi de prepósito. A sério. Desta vez não fui estúpida nem tentei contrariar nada.

    Já tinha ouvido falar sobre o assunto, sim, muito vagamente, mas simplesmente pensei: ah, isto não vai fazer assim tanto mal. E fiz, fiz o que não devia ter feito. Mas foi sem querer, juro. É que foi mais forte do que eu. Agora ando com medo das consequências disso e até me custa pronunciar o acto que cometi. Foi em plena luz do dia, o que revela que não pensei muito.

    Se é para contar a minha versão dos factos, devo começar pelo início da história. É muito simples. Estava com fome e apetecia-me comer pão. Sempre gostei de comer pão seco. Nem o meu palato é de gostos extravagantes, o que se adequa ao resto do meu ser. É um orgulho provar a minha coerência. Enche-me muito mais a barriga do que certas coisas que se servem para aí. Entrei numa padaria e comprei um saco com cinco carcaças. Na altura não prestei grande atenção ao que estavam a meter dentro do saco, estava distraída com um cão que se estava a sacudir para cima das queijadas.

    Quando ia já a descer a rua tirei uma carcaça para fora e assim que a vi fiquei muito irritada. Estava mal cozida. Olhei para as outras e estavam igualmente esbranquiçadas. Detesto pão mal cozido. Os apressadinhos que tiram o pão do forno antes de tempo não devem ter amor ao que fazem. Mas quase ninguém tem, não é?

    A produção em massa e a rotatividade das fornadas deve exigir que cada pão tenha cada vez menos tempo para ir ao forno. Qualquer dia inventam pão líquido num daqueles pacotes de  plástico que depois é para voltarem não sei para onde. Devem ter família para quem voltar. É, deve ser isso.

    No caminho, sentei-me num banco de jardim. Estava fraca, mal-humorada e continuava com fome. Mas não queria comer o pão mal cozido. Foi quando tudo aconteceu e de uma forma muito rápida. Primeiro, apareceu um. Tinha um andar esquisito, mas não estava a olhar para mim. Depois veio o segundo, que era menos esquisito, mas ainda assim era esquisito. Entretanto, chegou o terceiro. O terceiro era bonito e começou a olhar para mim. Eu também olhei para ele. A minha mão direita estava pousada no saco das carcaças. Esse terceiro fez um som a olhar para o saco e os outros dois também começaram a olhar. Comecei a sentir alguma pressão naquele momento. Até que pensei: ah, já que não vou comer e eles são só três…

    E eis que se dá o crime. Começo a dar pão aos pombos. Eu gosto de pombos. Quando era pequena vi os Bravos do Pombal, que conta a história de um grupo de pombos que vão salvar um pássaro mensageiro que é preso por falcões nazis. Fiquei com a ideia de que os pombos são revolucionários, fiquei com uma boa impressão deles. Porque é que não havia de lhes dar pão? O problema foi quando aqueles três resolveram chamar os outros cem. E o problema maior foi quando as pessoas começaram a dizer que era proibido alimentar os pombos, que eles transmitem doenças e que agora quem estava naquele jardim podia morrer.

    Pergunto-me se já alguém que tenha feito a pergunta “mas morreu de quê?” tenha ouvido a resposta “morreu de pombice. Estava perto de um pombo, e olha, quinou”.

    Naquele momento eu estava entre cento e três pombos revoltados porque o pão tinha acabado e muitas pessoas revoltadas pela assembleia de pombos que juntei no jardim. Alguém acabou por fazer uma denuncia e é por isso que tenho dormido mal.

    Vivo neste momento numa cela com cento e três pombos. Estamos em quarentena. Tenho dormido mal porque ainda não me habituei a dormir só em cima de uma perna. É assim que eles dormem, mas eu não consigo. E fazem muito barulho. Às vezes até acasalam. Eu não sei se deva olhar ou não. Sinto que estou a invadir a privacidade deles. Mas eles também estão a invadir a minha. Somos colegas de cela. Eles não deviam estar a fazer aquilo à minha frente. Tem sido esquisito. Eles estão sempre a olhar para mim e cagam-me em cima.

    No filme que vi quando era pequena eles tinham ideias fantásticas para fugir, mas estes aqui ainda não disseram uma palavra. Se calhar ainda não confiam em mim. Vou dar-lhes tempo. Quando cumprirmos a pena toda, eles vão ser expulsos da cidade. Nunca mais podem voltar a Lisboa. No meu caso, fui acusada de traição à pátria. Supostamente coloquei a vida de muita gente em perigo. Estou à beira da deportação e quem sabe não se esteja neste momento a discutir a possibilidade de se voltar a instaurar a pena de morte. É triste. Eu só queria comer pão.

    Texto e imagens de Diana Canha (artista media).

  • Os espelhos são revelações

    Os espelhos são revelações

    Aqui há dias estava eu a descer uma dessas ruas lisboetas – dessas como quem diz, que elas até são todas diferentes – quando me deparei com um homem especado a encarar-se numa montra. O homem devia estar nos seus trinta e muitos, quarenta anos. Não é que isso seja para aqui chamado, mas não pude deixar de reparar. Há sempre coisas em que as pessoas não podem deixar de reparar nas outras: a falácia do tempo no corpo, a perspicácia da língua e para que lado se pende a cabeça.

    Posso assegurar ter aprendido que uma cabeça não tem necessariamente de tombar para a esquerda ou para a direita. Notemos que pairar centrada acima dos ombros já é uma tarefa árdua por si só. Realmente, é preciso mesmo ter cuidado com isso de se virar a cabeça para o lado. Há risco de lesão permanente: uma espécie de torcicolo que afecta a imparcialidade e o pensamento crítico. Mas o que é que eu sei? Muitas das vezes até ando é com a cabeça na lua. 

    Esse tal homem tinha a perna esquerda engessada e suportavam-no duas muletas. A montra revelava carteiras de pele de todos os formatos e tamanhos. Primeiro desconfiei que ele não tivesse qualquer interesse em comprar uma carteira. Afinal de contas, não tinha nas suas roupas qualquer bolso onde a pudesse guardar. Depois, confirmei a suspeita quando o vi a olhar-se nos olhos, a reconhecer velozmente o seu reflexo. Talvez ele se reconhecesse na própria cabeça, mas não no corpo. Há corpos que não pertencem às cabeças, ao espírito ou à vontade. Há corpos que não passam de empecilhos. Pois ele instigava isso no seu esqueleto. O olhar escorregava-lhe pela perna engessada, para a sua condição aleijada. No meio do ruído urbano, o tempo suspendeu-se para que eu pudesse ouvir o seu pensamento: Foda-se, e agora?

    E agora? Perguntei-me também. Depois é que pensei, foda-se. Aqui a ordem inverteu-se, é claro, mas não seria a angústia a mesma? Ele estava ali sem saber o que fazer e eu estava ali a interromper a minha acção para perceber como é que ele sairia dali. Quando se olha em frente tem-se por obrigação o acto de reconhecimento do outro. Errado. Não se pode afirmar que seja uma obrigação, mas vá lá, até parecia muito bem que fosse. O grande equívoco dos nossos tempos, dos vivos e dos mortos, é que existe uma universalização do objecto. O espelho transcendeu-se para além da sua composição física e podemos encontrá-lo até numa pele opaca. Distanciamo-nos do ser que se insurge à frente do nosso nariz para ver nele justamente as nossas próprias narinas que abrimos para farejar um narcisismo nauseabundo. Se isto não convida ao vómito então não sei. As pessoas já devem é sofrer de uma intoxicação crónica e assintomática. Essas coisas das condições assintomáticas não são de fiar. Vai-se a ver e o caixão já está aberto.

    Mas lá estava o homem, fora do caixão, a começar a reagir. Começou por fazer força nas mãos até conseguir posicionar a coluna e dar um forte anseio. Preparava-se para sair dali, para seguir em frente, logicamente. Errado. Quando dei por ele, estava a caminhar para trás. Assim, dando passos largos ao contrário, com foco nas pedras da calçada. Desceu toda a rua de costas como quem quer voltar atrás no tempo. Terá feito aquilo por ingenuidade ou por estupidez? Sejamos francos, ninguém anda por aí a andar para trás. Talvez ele fosse detentor de um poderoso truque de magia. Talvez ele conseguisse mesmo enganar o tempo e chegar ao fim da rua e tudo aquilo ter desaparecido. As muletas, o gesso, o ar melancólico.

    E ali estava eu a testemunhar a possibilidade de um mundo do avesso. Não me parecia que andar para trás pudesse ter algo de bonito, mas o homem da perna partida desenganou-me com aquela sua decisão transgressora. Seja lá porque motivo for, é preciso ter coragem para se transgredir a regra. Pressupõe-se um acto rebelde como revolucionário, como ponto de partida para um acto de fé. Dizer que não traz muito mais responsabilidade do que dizer que sim. Andar para trás é muito mais poético do que andar para a frente. Acredito que a beleza resida mesmo aí. Num corpo que se permite ir ladeira abaixo, no sentido contrário ao cardume. Na tentativa de uma redefinição de realidade. E tão pouco lhe interessou se existia qualquer lunático que fosse com os olhos postos nele.

    Foi aí que me dirigi apressadamente até ele. Depois disto não podia deixar de querer confirmar a limpidez do meu próprio espelho, então perguntei-lhe: “Está a andar para trás, para impedir que isso lhe tenha acontecido?”. Ao que ele me respondeu prontamente: “Não. Que estupidez. A fisioterapeuta é que me mandou andar assim”.

    Texto e iilustrações de Diana Canha (artista media).

  • Milhares

    Milhares

    Hoje fui ao banco fazer os depósitos da empresa. Não tenho um tostão, mas carrego os milhares dos outros. Não gosto de carregar os milhares dos outros. Tanto podem ser milhares de euros, como milhares de micróbios, ou até mesmo milhares de bit-culpas.

    Quem é que sabe? Pois.

    É que sempre que levo aquele envelope no bolso começo a agir como suspeita.

    Suspeita, sim. Meto a mão no bolso, olho por cima dos ombros, e ponho-me a andar de forma apressada como quem foge ao fisco. Não gosto. Não gosto mesmo nada de carregar os milhares dos outros. Sinto que a qualquer momento um mendigo me pode fazer uma placagem. Sabem, como no futebol americano. Se calhar, não sabem, isso não há cá. Não há cá, mas é o futebol americano, que mendigos há muitos. Aos milhares. Há uns que até saem das Amoreiras, tiram a gravata e depois se sentam à chinês a pedir uma moedinha. Mas não me quero dispersar. Eu nem gosto de porcos-mealheiros.

    Estava eu a dizer, hoje fui ao banco fazer os depósitos da empresa. Estava nervosa.

    Sempre que vou lá tenho de esperar pela minha vez, e eu não gosto de esperar pela minha vez. Os civilizados esperam sentados, mas eu não me enquadro nessa pintura.

    Então, comecei a andar de um lado para o outro. Para trás e para a frente. Da esquerda para a direita. Às voltas. Sempre com a mão no bolso, a proteger o envelope. A proteger os milhares dos outros. E depois decidi pôr-me a contar as câmaras de vigilância. Contei 12. Naquele claustrofóbico espaço, contei 12. Eram redondas, pretas e brancas. Um jogo de damas pregado no teto. Que jogo estúpido. Voltei a contá-las algumas vezes.

    Quando estou nervosa perco-me na contagem. Um segurança começou a dirigir-se a mim e eis que surge a conversa:

    (o eu começa a interpretar-se a si e ao outro)

    S: Porque é que está a contar as câmaras de vigilância?

    Eu: Porquê, não posso?

    S: O que é que tem aí?

    Eu: O que você não tem aí.

    S: O que é que está aqui a fazer?

    Eu: Pergunto-lhe o mesmo.

    S: Quem faz as perguntas sou eu.

    Eu: Quem faz as perguntas sou eu.

    S: Bom.

    Eu: Bom.

    (o eu recomeça a contar as câmaras para se acalmar)

    Eu: Você faz parte dos outros?

    S: Como?

    Eu: Coma.

    (S começa a perder a paciência)

    Eu: Eu carrego os milhares dos outros. Você é os outros? Estas câmaras são suas?

    S: Esse envelope não é seu?

    Eu: Não.

    S: Roubou-o?

    Eu: Não. Acho que não. Estarei a roubá-lo?

    S: Você tem aspecto disso.

    Eu: Você também.

    S: Como?

    Eu: Coma. Você tem mais aspeto de roubar do que eu. Estas câmaras estão aqui para me proteger de si. Tanto quanto sei você pode ser um mendigo fardado.

    (o eu cai ao chão, s faz-me uma placagem)

    Perdi-me. Estou a fazer de quem? De mim ou do segurança? Tenho mais aspeto de quê, de mim própria ou dele? Ai merda. Então mas, eu sou eu ou sou ele? Ou ele é ele, ou ele sou eu? Sou os dois? Ou não sou nenhum? Eu acho que hoje nem fui ao banco. Ia ao banco fazer o quê? Eu não tenho um tostão, já disse. Mas havia um envelope… um envelope com os milhares dos outros. Eu só carrego os milhares dos outros.

    Já sei. Vou pedir acesso às câmaras de vigilância. Elas vão-me provar se estive.lá.

    Diana Canha é artista media.

    Ilustrações: Ruy Otero