Estamos perante um pequeno livro (52 páginas) que se lê de um só folego, mas com a intensidade que nos leva a ficar suspensos nas emoções. Gosto quando isso acontece, por isso ainda bem que deitei as mãos ao texto da mais recente peça de Teatro de Tiago Rodrigues (Amadora, 1977).
Em A Distância, Amina é a filha que está em Marte, enquanto o pai, Ali, ficou na Terra. Comunicam através de mensagens a uma distância de milhões de quilómetros, mas esse é o menos importante dos abismos que os separam. Ela pertence aos chamados Esquecidos, pois quer, e pode, começar de novo uma vida. Construir um mundo sem as pedras do anterior. O pai Ali pertence àqueles que ainda acreditam que alguma coisa se salva precisamente porque alguma coisa se recorda.
É uma bela discussão para se ter no fim do mundo. A filha diz ao pai que a humanidade passou séculos a procurar entre as ruínas as pedras com que haveria de construir o mundo seguinte. As pedras da memória, da História, das guerras, das injustiças. Geração após geração, repetimos que é preciso conhecer o passado para não voltar a cometer os mesmos erros. E geração após geração voltamos a cometê-los na mesma.
Em Marte, os Esquecidos querem experimentar outra coisa: esquecer. À primeira vista, percebe-se a tentação. Se a História é um peso, talvez seja preciso largá-la para conseguirmos andar sem esse lastro. Se as pedras antigas produziram sempre edifícios imperfeitos, talvez seja necessário procurar pedras novas. Se este mundo não resultou, talvez não valha a pena consertá-lo. Talvez seja preferível mudar de mundo.
O pai responde com uma ideia muito mais incómoda. A esperança de destruir tudo para começar do zero também tem História. E não é uma História particularmente feliz. Todas as gerações que acreditaram ter finalmente encontrado a fórmula para fabricar um homem novo começaram por descobrir que havia demasiados homens antigos no caminho.
Como estamos perante o novo projecto do criador de Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, sabemos que a mensagem política também está presente nesta metáfora. A missão de Amina conduz-nos aos planos de Elon Musk para a civilização humana em Marte, onde há também uma dimensão de recomeço político.
Musk imagina uma civilização marciana autossuficiente, suficientemente grande para sobreviver mesmo que uma guerra, um cataclismo ou o nosso próprio declínio destruam a civilização terrestre. Marte seria uma espécie de cópia de segurança da humanidade. Uma semente guardada longe do incêndio, capaz, no limite, de um dia ajudar a trazer novamente a civilização à Terra.
E também aí aparece a velha tentação das pedras novas. Musk já imaginou Marte com regras políticas diferentes das nossas, democracia directa e uma legislação que não se limitasse a transportar para outro planeta todos os códigos acumulados durante séculos na Terra. Mudar de planeta seria também, em alguma medida, uma oportunidade para experimentar outra sociedade.
É precisamente aqui que A Distância se torna perturbadora. Porque Tiago Rodrigues leva essa ideia um passo mais longe. E se, para construir verdadeiramente um mundo novo, não bastasse abandonar a Terra? E se fosse necessário abandonar também todas as memórias que levámos connosco? A História. A memória. Os ressentimentos. As culpas. Até os nomes.
Os Esquecidos querem fazer aquilo que todas as utopias prometem e nenhuma conseguiu fazer: começar do princípio. Só que ninguém começa do princípio.
Até a vontade de esquecer tem memória. Até a ideia de construir uma humanidade nova é uma ideia antiga. E o pai percebe aquilo que a filha ainda não quer perceber: podemos viajar milhões de quilómetros para fugir das ruínas, mas levamos connosco a pessoa que aprendeu a caminhar sobre elas.
É por isso que Tiago Rodrigues nos dá uma canção. No meio das conversas entre planetas, aparece uma velha canção brasileira. Sonhos, de Peninha, gravada por Caetano Veloso em 1982. Uma canção sobre alguém que descobre que a pessoa que ama, afinal, ama outra pessoa.
Poderia ser uma canção de abandono. Mas não é exactamente isso. O amor sobrevive à impossibilidade de possuir aquilo que ama. No fim, o pai escreve uma carta à filha onde não a tenta convencer, mas diz-lhe aquilo que talvez seja a forma mais difícil de amor: preferia que ficasses, mas aceito que vás.
E oferece-lhe uma canção. Tiago, oferece-nos essa canção onde responde a tudo. E obrigado, dizemos nós, os que se lembram de como ainda é amar.
Simone Veil (Nice, 1927 – Paris, 2017) foi deportada para Auschwitz em 1944, aos dezasseis anos, com a mãe e a irmã. Perdeu a mãe e um irmão. Sobreviveu. Recusou apagar o número tatuado no braço – 78651 – como forma de nunca deixar esquecer. Magistrada de formação, foi ministra da Saúde de França entre 1974 e 1979, período em que conduziu a aprovação da lei que despenalizou o aborto, a designada Lei Veil, que defendeu numa Assembleia Nacional quase exclusivamente masculina, sob gritos de “assassina”. Em 1979, tornou-se a primeira mulher a presidir ao Parlamento Europeu. Presidiu também à Fundação para a Memória do Holocausto. Em 2008, foi eleita para a Académie française. Em 2018, os seus restos mortais foram trasladados para o Panteão de Paris. Era, como disse Macron, o melhor de França.
Para as gerações futuras, com posfácio do filósofo Dan Arbib, é uma carta de Simone Veil que deve ser lida agora, com urgência, e sempre que necessário para nos lembrarmos do sofrimento e dor que os seres (por vezes pouco) humanos são capazes de infligir uns aos outros.
Se numa das últimas recensões se escreveu sobre a biografia de uma mulher que viveu durante a II Guerra Mundial (GM) (Pamela Churchill Harriman) como espia e cortesã, este livro é escrito por outra mulher que, como vários milhões de outras, viveu e sofreu as consequências dessa mesma Guerra Mundial. Uma sobrevivente que escolheu viver com a missão de lutar pela memória dos que morreram e dos que sobreviveram ao maior flagelo da História da (des)humanidade.
Com o intuito de tentar evitar outra guerra, Simone Veil deixou-nos esta carta para as gerações futuras, na qual conta algumas das atrocidades cometidas durante a II GM, mas não só. Descreve ainda como os judeus continuaram a sofrer e a ter de se deslocar no pós-guerra.
Numa época em que Israel está sob os holofotes pelas barbaridades a que tem sujeitado o povo da Palestina e outros países do Médio Oriente, recomenda-se esta leitura aos judeus contemporâneos. Quem sabe alguns se recordem e descubram, como Simone, como se reconciliar, sem esquecer, mas com o mesmo otimismo de Simone Veil (cf. p. 32).
Infelizmente, está à vista de todos que a reconciliação não aconteceu, pelo menos, por parte do governo israelita, caso contrário não estaríamos a assistir ao genocídio na Palestina e aos ataques mencionados. Guerras que nos mostram que a História se repete sem que aprendamos com o passado.
Mas a esperança, como se diz, é a última a morrer. Por isso vale a pena publicar e ler a reflexão de uma otimista que viveu e observou o sofrimento de quem passou fome, de quem foi torturado e de quem viu os seus entes queridos entrarem nas câmaras de gás para nunca mais serem vistos.
A política e activista destaca e bem a necessidade de se estudarem as causas destes e de outros crimes contra a humanidade, começando por especificar aquilo que são. Como afirma Simone Veil:
… quando se fala de genocídios, quando se fala de crimes contra a humanidade, é muito importante especificar o que são. Porque acredito que apenas podemos prevenir certos acontecimentos se identificarmos as suas razões. Porque, infelizmente, essas razões existem. Qual é, então, a razão invocada? Por que razão o que está a acontecer está a acontecer dessa forma? (…) Do ponto de vista histórico e sociológico, parece-me muito importante, assim que surgem certos sintomas de uma qualquer ameaça, identificá-la para tentar preveni-la. Porque existem meios para isso. Não é fácil, mas existem meios que permitem tentar intervir. Em certos casos, as Nações Unidas, mesmo quando estavam no terreno, não obtiveram realmente autorização para agir militarmente ou não tiveram capacidade para o fazer. No entanto, é necessário poder fazê-lo quando há ameaças de genocídio à humanidade. E preciso ter coragem para empreender uma intervenção verdadeira (p. 31)
O que não foi o caso da Palestina, é preciso dizê-lo, como Simone Veil.
A sua reflexão vai além dos campos de concentração e recorda o esforço empreendido para encontrar os milhares de crianças separadas das suas famílias, desaparecidas e deportadas. Uma tentativa para que essas crianças tivessem a oportunidade de se reconstruírem como pessoas humanas. Sim, porque o que aconteceu foi uma desumanização total de quem ali morreu e dos que, como Simone Veil, sobreviveram. Razão também para que a autora chame ainda a atenção para uma espécie de negacionismo que persistiu, como foi o caso do filme A Dor e a Piedade, cujas estatísticas escamoteiam a verdade sobre o número de crianças escondidas em França.
A propósito de filmes e já na secção do livro dedicada às respostas a questões formuladas por estudantes, Simone Veil expressou a sua indignação e, mesmo preocupação, em relação ao filme de Mel Gibson, A Paixão de Cristo (p. 48-49), o qual, na sua opinião, incitava ao antissemitismo. Uma forma de retrocesso, diz, na medida em que Mel Gibson terá ignorado os esforços ecuménicos e históricos, em especial do Concílio Vaticano II da Igreja Católica, que absolveu formalmente o povo judeu da culpa colectiva pela crucificação de Jesus. “É realmente um filme muito perverso e que não foi realmente denunciado” (p. 49), acusou Simone Veil.
A leitura deste livro é uma verdadeira lição de História e de Humanismo. O posfácio de Dan Arbib contextualiza a Shoah e ajuda-nos a compreender o papel importantíssimo de Simone na construção da memória colectiva. As mais de quarenta notas de fim complementam e aprofundam os argumentos que Simone Veil apresenta e defende, tanto mais que são já muito poucos aqueles que sobreviveram ao Holocausto. Sim, Holocausto. Aconteceu e é urgente que nos relembremos coletiva e individualmente do nosso papel no emergir de novos actores, cujo poder crescente nos deveria assustar e assim agirmos em conformidade.
Luísa Sobral (Lisboa, 1987) é cantautora, compositora e produtora, licenciada pelo Berklee College of Music, em Boston. Lançou sete álbuns em nome próprio e compôs para artistas como Ana Moura, António Zambujo, Gisela João e Sara Correia. Em 2017, escreveu “Amar Pelos Dois”, que entregou ao irmão Salvador Sobral para interpretar no Festival da Eurovisão, naquela que foi a primeira vitória (e única) de Portugal. Tem também obra para o público infanto-juvenil, com dois livros ilustrados, e em 2025 publicou o seu primeiro romance, Nem Todas as Árvores Morrem de Pé. Da Minha Janela, uma colecção de crónicas, é uma faceta diferente da mesma voz, talvez mais próxima e mais quotidiana.
Nunca fui grande apreciadora da cantautora Luísa Sobral. Não aprecio o seu estilo de música. Isso não significa que não lhe reconheça o devido valor artístico; muito pelo contrário. Além de saber que tem um trabalho diverso e de grande qualidade, são várias as pessoas do meu círculo que a apreciam vivamente. Estava, portanto, totalmente receptiva à leitura deste livro de crónicas, um género que aprecio bastante. Fiquei ainda mais curiosa quando soube que já publicara dois livros para o público infanto-juvenil e que estava prestes a estrear-se na ficção.
Logo na ficha técnica fiquei surpreendida: a aguarela da capa e as ilustrações que antecedem cada crónica são também da sua lavra. Assim, este livro é muito mais do que o seu conteúdo escrito, é um livro-objecto, quase à semelhança do livro-artefacto da literatura infanto-juvenil, e que nos faz agradecer pelo livro recebido.
Ao contrário do que é habitual num livro de crónicas, este Da Minha Janela lê-se numa noite. A escrita é caracterizada perfeitamente pelo adjectivo ‘cristalina’, tratando o quotidiano de que a vida é feita com leveza e graça suficientes para nos reconhecermos em quase tudo. O caricato das situações é o ingrediente que torna a leitura compulsiva.
A sua leitura é um descanso, uma pausa no mundo frenético em que vivemos. Um bálsamo para ler sempre que a vida nos avisar que é hora de abrandar, e para relembrar que ela é composta por coisas simples: a janela de casa de onde se contempla o nascer ou o pôr-do-sol, ou as crianças que ainda brincam na rua como se não houvesse mais nada a acontecer no mundo. E quando uma criança brinca livremente, ela é a brincadeira, não existe mais nada naquele momento. Nada mais.
Das cerca de três dezenas de crónicas, são várias as que mostram, com graça, que o machismo ainda está vivo, ou que está de volta, e provavelmente mais consciente e, por isso, mais difícil de combater. A crónica “Águas Passadas” fez-me lembrar o meu primeiro beijo, sobre o qual também eu senti necessidade de escrever. “Push Pop” tem um dos finais mais hilariantes do livro.
Recomenda-se uma leitura pausada, e não de uma assentada como foi o meu caso. Sendo certo que revisitarei Da Minha Janela muito em breve.
O que é o Tempo? Que poder exerce sobre os humanos? Que futuro nos reserva, efetivamente, o Destino que as ciganas leem nos traços das nossas mãos? Que imagens nos assomam ao espírito, quando pensamos em liberdade? E quando se fala em direitos humanos? Que lutas estamos dispostos a travar, hodiernamente, se almeja(r)mos um mundo (mais) equitativo e mais justo, onde o Outro deva ser respeitado e honrado nas e pelas suas diferenças?
A página inicial do novo romance de Ana Filomena Amaral expõe o encontro acidental(?) entre uma jovem, dona de uma invulgar determinação, e um rapaz de etnia cigana. No cenário descrito, emerge essa figura feminina e ex-cêntrica (Hutcheon 1991) que é Saha, a rapariga que integra a rebelião contra os movimentos estudantis pelos Aiatolas e mullahs, líderes supremos do Irão, lutando pelos direitos dos jovens Bahai no acesso ao ensino superior. Em termos sociais, tal facto aponta, de imediato, para os mecanismos coercivos do regime teocrático que se faz sentir naquele país.
Título: Poder Absoluto: Caravanas de Liberdade (março de 2026) Autora: Ana Filomena Amaral Editora: Kotter Editorial
Envergando “calças e blusa, sem chador nem hijab a cobrir[-lhe] a cabeça” (16), auxiliada por Zot, ingressa na caravana cigana, onde é recebida no núcleo cigano com efusividade, não obstante a(s) sua(s) diferença(s). Enquanto é acolhida sem reservas, no seio “daquela família tão alargada, quantos os que dela carecessem” (22), e indo ao encontro das suas tradições e crenças, a velha anciã que lidera a caravana – figura evocativa da sabedoria e da autoridade espiritual ciganas –, pede-lhe a palma da mão, para ler.
O diálogo que se estabelece entre Zot e Saha fá-los imergir no Velho Mundo, expressão que intitula a primeira parte do romance, e que focaliza a repressão com que se inicia a diegese. Mas, a partir do fortuito encontro que se realiza entre estas personagens, a narrativa passa a assumir uma estrutura marcadamente itinerante, acompanhando a deslocação da caravana por diversos territórios afetados por formas distintas de autoritarismo e violência institucional e muitos outros focos caracterizados por fenómenos de discriminação, perseguição étnica, migrações forçadas e pela relegação da condição feminina em diferentes regiões do globo:
— […] As mulheres aqui [Irão] têm de violar constantemente a lei e vencer o medo, doutra forma não conseguem viver, eles cheiram o pavor como os cães e controlam tudo. Nós queremos um governo democrático e secular, sem imposições absurdas, como o hijab. (19)
De entre os espaços citados pela inscrição opressiva ou totalitária, destacam-se o Irão, a Turquia, marcada pelas consequências dos expurgos políticos pós-2016; a Síria, devastada pela guerra civil; a Nigéria, onde artistas e ativistas enfrentam mecanismos de repressão; a sujeição de Myanmar exercida por Pequim; o tráfico humano; o contrabando de mulheres para a China, ou o contrabando de droga na Venezuela; as minas ilegais e as consequências na saúde das pessoas e no ambiente…
Num outro contexto geográfico, numa dessas itinerâncias realizadas pela caravana, Mubaraka denuncia os abusos perpetrados pelos poderes absolutos da Nigéria:
— Neste país […], todos os dias assistimos a execuções e assassínios em massa, sem que isso choque as pessoas em parangonas nos jornais, parece que todos já aceitamos com indiferença a morte dos nossos irmãos e irmãs, os raptos das nossas crianças das escolas, a violação e tráfico das nossas jovens, como sendo absolutamente normal, é como se este fosse o destino fatídico do nosso país ordenado por um qualquer Deus, e todos os que tentam reagir e lutar contra a situação são perseguidos e levados para as cadeias.” (69)
Um dos aspetos mais relevantes da obra em foco reside na representação do espaço. A narrativa afasta-se de uma conceção territorial fixa e privilegia a mobilidade enquanto condição existencial. Neste sentido, trazemos à colação a epígrafe que serve de abertura à obra, e que evoca um ditado cigano: “A terra é o meu lar, o céu o meu teto e a liberdade a minha religião.” Nesta conjuntura, revela-se pertinente evocar a reflexão de Gaston Bachelard, para quem a casa constitui o espaço privilegiado da intimidade: “a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz” (2000 [1957]: 201).
Mubaraka, Persona non grata por excelência, porque dá voz ao descontentamento e aos anseios do povo que vive na Ilha da Vitória, na Nigéria, acolhe a família cigana na “mansão amarela de traço colonial” (67) onde habita e as suas palavras, que validam o conceito propugnado por Bachelard, propiciam a Zot uma reflexão sobre essa problemática:
— Bem, vamos todos para dentro de casa, hoje vão poder dormir numa cama e cada um no seu quarto, também já não se devem lembrar da última vez que isso aconteceu.
Ao ouvir aquelas palavras, Zot pensou nunca tal haver sucedido na sua vida. (65-66)
A noção de «não-lugar», formulada por Marc Augé (1995), oferece um relevante enquadramento produtivo para a leitura do romance. Segundo o antropólogo francês, os não-lugares são espaços de passagem desprovidos de identidade, historicidade e relações duradouras. Em Poder Absoluto: Caravanas de Liberdade, os territórios atravessados apresentam frequentemente essas características transitórias:
Depois abandonámos a Índia e temos andado pelo Irão, já estivemos em várias cidades onde eu atuo com o meu violino e as minhas três irmãs cantam e dançam, para ganharmos algum e nos podermos alimentar, quando nos começam a perseguir e a enxotar, mudamos de cidade. (18)
No entanto, e contrariando esta asserção, em termos simbólicos, a caravana converte-os, temporariamente, em lugares de pertença, através das relações humanas que se estabelecem ao longo da viagem, pelo acolhimento de novos membros:
Aqui têm a minha saga, com setenta e quatro anos, sem família, sem pátria, sem esperança, só me restam vocês, queridos amigos, que me receberam na vossa caravana de liberdade. (34)
A caravana cigana converte-se, progressivamente, numa comunidade alternativa, fundada na solidariedade, na partilha e na preservação da liberdade individual. A (bis)avó, guardiã da memória coletiva cigana, encarna a autoridade espiritual e essa preservação da tradição aproxima-se das reflexões de Edward Said (1978) sobre a construção discursiva da alteridade:
— Olha Saha, nós somos um povo que acredita em bolas de cristal, leitura das mãos, feitiços, superstições, amuletos, num mundo dividido entre o que é limpo e sujo, que nós chamamos de marimé. (64)
Por outro lado, a caravana constitui um espaço híbrido de encontro intercultural, onde diferentes identidades coexistem sem se dissolverem numa cultura dominante. Tal configuração aproxima-se da noção de hibridismo formulada por Homi Bhabha (1994), para quem os espaços interculturais favorecem novas formas de combinação identitária. Neste contexto, a pertença deixa de depender de um território fixo e passa a assentar numa rede de relações humanas, valores partilhados e práticas culturais comuns. A caravana transforma-se, assim, numa comunidade que desafia as fronteiras convencionais de Estado-nação:
A vida do cigano e a do circo sempre foi a mesma e os dois nunca se preocuparam em ter uma pátria, a nossa pátria é o mundo e nós ajudamos a construir todas elas. (18)
Figuras como Aidin, Farhad ou Mubaraka, corporizam diferentes experiências de perseguição política, religiosa ou social. A centralidade dessas personagens marginalizadas aproxima a obra das tendências identificadas por Linda Hutcheon (1991), segundo as quais o romance contemporâneo desloca o foco narrativo das figuras centrais para os sujeitos periféricos da História. Consideremos o testemunho de Zot:
— […] Um sobrevivente judeu de Auschwitz testemunhou o extermínio do campo de ciganos numa noite de um só golpe todos foram enfiados nas câmaras de gás, houve apenas um sobrevivente desse genocídio, que começou a registar os nomes dos que conheceu e a recolher outros […].
— Não sabia, ouvimos sempre falar dos judeus e vocês afinal também sofreram tanto, a História deixa sempre esquecidos para trás. Rematou Saha pensativa. (38-39)
A análise deste aspeto pode ser aprofundada através das formulações de Michel Foucault (1975), sobretudo no que respeita aos mecanismos de vigilância, disciplina e controlo dos corpos. Os regimes representados exercem o poder através de sistemas de exclusão, perseguição ideológica e limitação das liberdades individuais. Paralelamente, a narrativa evoca a noção de «estado de exceção» desenvolvida por Giorgio Agamben (1998), e que serve de título a um dos capítulos, na medida em que muitos dos protagonistas vivem em contextos onde os direitos fundamentais são suspensos e a vulnerabilidade humana e religiosa se torna condição permanente, como testemunha Saha:
— Já ouvi falar desta catedral [Santa Cruz] […]. Em 1915, quando se deu o genocídio, os monges que aqui viviam foram massacrados, a catedral saqueada e o mosteiro arrasado. Depois em 2006 restauraram-na e todo o processo foi considerado um genocídio cultural, porque a Turquia apropriou-se deste monumento e incorporou-o na sua rede de museus, proibindo celebrações religiosas. (36-37)
Na Turquia, as personagens são alvo de impropérios e de injúrias:
— Eu vou pescar no riacho, tenho a certeza de que trago peixe para o jantar. Aidin correu todo entusiasmado com a cana na mão e escarranchou-se no galho retorcido da árvore sobre a água, foi quando, pela primeira vez, Saha ouviu os impropérios da boca dos locais.
— Malandros, vão trabalhar em vez de nos andarem a roubar o nosso sustento. Gritaram dois homens que passavam pedalando nas suas bicicletas. (39-40)
Nessa trajetória percorrida pela caravana, a Autora, ainda que subtilmente, e pela voz narrativa, remete para a problemática da colonização portuguesa:
Deram à costa do gigante de África, Lagos, a cidade batizada pelos colonos portugueses oriundos da homónima no seu país, Èkó, para os iorubás. Naquela metrópole congestionavam-se as esperanças, os sonhos, os desejos de todos os que nas suas terras não tinham condições de sobreviver e ali sabiam conseguir vender tudo, mesmo nada tendo. (65)
Segunda Parte
Novo Mundo
Vários estudos dedicados ao romance hodierno apontam para a construção de uma (nova) geografia narrativa, dedicada ao ser invisível, silenciado e marginalizado (Salem 2006; Hutcheon 1991). Apesar dos traços dramáticos apresentados, o romance em foco não constitui uma narrativa somente focada na denúncia. A resistência das personagens emerge numa constelação de sonhos, como uma força motriz e estruturante da narrativa. Qual casa protetora, a caravana figura, simultaneamente, como refúgio, movimento e combate ético e moral contra as diversas formas de autoritarismo.
A literatura contemporânea tem vindo a afirmar-se como um espaço privilegiado de problematização das dinâmicas de poder, das migrações forçadas e das múltiplas formas de exclusão que caracterizam a sociedade global. Através de uma narrativa centrada na experiência de comunidades em permanente deslocação, Ana Filomena Amaral constrói uma poderosa alegoria da resistência humana perante os sistemas de opressão. Atentemos no diálogo que entre Zot e Diubis se institui:
— É este exemplo que nós temos de seguir, de coragem e resistência, não nos deixarmos reprimir nem calar pelos regimes absolutos, pelos ditadores. Precisamos de instituir o primado da cidadania, cada um de nós tem de exercer o seu direito e dever de lutar por uma vida melhor e mais justa para todos, sem abandonar a pátria onde nasceu e que é nossa! (216)
E seja por força do Destino, que, por vezes, traça caminhos diferentes do que inicialmente previra, seja por intercessão da Padroeira dos Ciganos, Santa Sara, Laila e Eda trarão ao mundo os seus rebentos. Num outro momento, a alegria ingénua das crianças confere à narrativa uma ambiência de paz e de alento na vontade de construção de um novo mundo: “As risadas das crianças felizes encaracolavam as águas, contagiando os dois bebés ao colo das mães” (222).
Poder Absoluto: Caravanas de Liberdade afirma-se como uma obra relevante da literatura contemporânea portuguesa, distinguindo-se pela forma como articula ficção, testemunho histórico e reflexão filosófica. Recorrendo ao motivo da caravana, Ana Filomena Amaral constrói uma poderosa metáfora da resistência humana perante as múltiplas manifestações do poder absoluto.
Ao chegar ao fim, tal como a vida, o romance cumpre o seu ciclo. Depois das trevas, (sempre) irrompe a luz. Quando a opressão e a tirania parecem instaurar-se e derrubar os sonhos, a vida sempre renasce. Sob diversas formas, também este romance (re)lembra que a esperança não se evolou da caixinha de Pandora. No fecho da obra, o caminho aponta – se não para a redenção, para um futuro menos agonizante e mais ecléctico. Saha dá à luz uma nova progénie e iniciará um novo ciclo, uma trajetória invulgar e significativa na comunidade, tornando-a mais ecléctica e mais universalizante, substituindo a anciã no seu estatuto de matriarcado, mesmo sendo gadja (não cigana de nascimento):
— […] Quando li a tua mão, vi que o destino da nossa família iria ser conduzido por ti quando eu faltasse, tu me irias suceder. […] Assim herdarás tudo de mim e a tua filha ficará com o meu nome secreto, Dai, que quer dizer mãe na nossa língua. (243)
Referências Bibliográficas:
AMARAL, A. F. (2026). Poder absoluto: Caravanas de liberdade. Kotter Editorial.
AGAMBEN, G. (1998). Homo sacer: Sovereign power and bare life. Stanford University Press.
AUGÉ, M. (1995). Non-places: Introduction to an anthropology of supermodernity. Verso.
BACHELARD, G. (2000 [1957]). A poética do espaço (A. Danesi, Trad.). Martins Fontes.
BHABHA, H. K. (1994). The location of culture. Routledge.
FOUCAULT, M. (1975). Surveiller et punir: Naissance de la prison. Gallimard.
HUTCHEON, L. (1991). Poética do pós-modernismo: História, teoria, ficção. IN-CM.
SAID, E. W. (1978). Orientalism. Pantheon Books.
SALEM, Diana (coord.) (2006). Narratologia y Mundos de Ficción. Editorial Biblos.
A Fazedora de Reis – A vida de sedução, Intriga e Poder de Pamela Churcill Harriman
Autora
SONIA PURNELL (Tradução: Francisco Agarez)
Editora
Dom Quixote (Julho de 2026)
Cotação
19/20
Recensão
Sonia Purnell é uma biógrafa e jornalista britânica, autora de quatro biografias, entre as quais Clementine: The Life of Mrs. Winston Churchill, dedicada à mulher de Winston Churchill, e A Woman of No Importance, sobre a espiã norte-americana Virginia Hall, obra que lhe valeu o Plutarch Award de Melhor Biografia, em 2020. Trabalhou em órgãos de comunicação como The Economist, The Telegraph e The Sunday Times e é reconhecida pela investigação rigorosa e por uma escrita de forte pendor narrativo. A Fazedora de Reis, publicada originalmente em 2024, é a sua mais recente biografia e retoma, de certa forma, o universo dos Churchill que Purnell já havia explorado na biografia de Clementine Churchill.
Até receber este livro de quase quinhentas páginas (sem contar com as notas!) nunca ouvira falar de Pamela Churchill Harriman. À data da sua morte, em fevereiro de 1997, via pouca televisão (como agora, aliás) e, como tal, não me dei conta do aparato que rodeou o seu funeral. Bill Clinton, então presidente dos EUA e seu amigo, prestou-lhe uma sentida homenagem no seu discurso, em que destacou o seu trabalho como embaixadora e o serviço que prestou aos Estados Unidos. O corpo de Pamela foi levado de volta para os EUA e o funeral realizou-se na Catedral Nacional de Washington.
Seguindo, de algum modo, as pisadas da sua tia-bisavó Jane Digby (1807–1881), Pamela, ambiciosa e pouco dada a escrúpulos ou pudores, usou os recursos de que dispunha, entre eles, a beleza, o charme, a inteligência social e a capacidade de sedução, para se aproximar dos círculos onde o poder se concentrava. Purnell recupera, assim, uma mulher que durante décadas foi sobretudo conhecida pela sua vida amorosa e pela reputação de cortesã. Com esta obra procura demonstrar que, por detrás dessa imagem, existia uma mulher politicamente astuta, com uma notável capacidade para construir relações e influenciar homens poderosos.
A protagonista desta biografia é Pamela Digby, que casou, em 1939, com Randolph Churchill, filho de Winston Churchill. Durante a Segunda Guerra Mundial, a sua proximidade com Churchill e com figuras políticas e diplomáticas norte-americanas permitiu-lhe desempenhar um papel informal de intermediária entre britânicos e americanos. Purnell defende mesmo que Pamela contribuiu para aproximar os dois países e para a obtenção de apoio americano à causa britânica. É uma das dimensões mais controversas da biografia, na medida em que o papel que Purnell lhe atribui na política de guerra parece, para alguns críticos, maior do que aquilo que as evidências permitem concluir.
O livro é, sem dúvida, resultado de um trabalho hercúleo de pesquisa. Uma biografia construída a partir de inúmeras e distintas fontes, muitas delas inéditas ou pouco exploradas, que são documentadas nas extensas notas finais. Mas o mérito de Purnell vai muito além da quantidade de informação recolhida. A autora consegue articular documentos, testemunhos e memórias de modo a construir uma narrativa que, apesar da sua extensão, se lê como um romance. Um romance repleto de personagens, intrigas, relações, mudanças de cenário, reviravoltas e, sobretudo, uma protagonista cujo destino queremos conhecer, mesmo sabendo, desde o início, que morrerá no fim da história.
A capacidade de transformar uma investigação biográfica numa narrativa envolvente é um dos maiores méritos da obra. Purnell cria uma personagem e acompanha a sua metamorfose ao longo de mais de sete décadas. Pamela passa de jovem aristocrata de uma família com estatuto, mas poucos recursos, a nora de Winston Churchill, socialite internacional, esposa de homens poderosos, cidadã norte-americana, angariadora de fundos do Partido Democrata e, finalmente, embaixadora dos Estados Unidos em França, cargo para o qual foi nomeada por Bill Clinton em 1993, aos 73 anos.
De facto, o modo como a biógrafa consegue juntar e articular todos os testemunhos obtidos nesta biografia tem de ser relevado. Créditos também à sua editora, a quem Purnell agradece a colaboração na construção de uma narrativa tão extensa e, simultaneamente, tão fluida.
Mas há uma questão que perpassa toda a obra e que não pode ser ignorada: até que ponto Purnell procura recuperar a reputação de Pamela ou, em alguns momentos, acaba por construir uma imagem demasiado favorável da sua protagonista? A intenção de contrariar a visão tradicional de Pamela enquanto simples cortesã e oportunista é evidente. Vários críticos reconheceram esse esforço de reavaliação, considerando Kingmaker uma espécie de recuperação de uma mulher cuja influência política e diplomática terá sido obscurecida pela sua vida sexual e social. Outros, porém, consideraram que Purnell vai longe demais na defesa da importância histórica da sua biografada.
Não obstante, Pamela não precisa de ser transformada numa heroína para ser reconhecida como uma mulher extraordinariamente hábil na construção e no aproveitamento das redes de poder. A sua influência na política norte-americana parece menos discutível nas décadas finais da sua vida. Em Washington, tornou-se uma importante angariadora de fundos do Partido Democrata, criou o comité de ação política PamPAC e percebeu, antes de muitos outros, o potencial político de Bill Clinton, contribuindo para a sua ascensão. A nomeação para embaixadora em França, em 1993, constituiu o culminar dessa trajetória.
A biografia ganha, por isso, uma dimensão que ultrapassa a história de uma mulher sedutora que colecionou amantes e casamentos. É também uma reflexão sobre a forma como as mulheres que procuram poder são julgadas de maneira diferente dos homens. A própria Purnell questiona a redução de Pamela à sua sexualidade ao mostrar como os seus relacionamentos com homens poderosos foram simultaneamente instrumento de ascensão, fonte de influência e motivo para que a sua actuação política fosse desvalorizada. O problema é que, ao tentar corrigir esse desequilíbrio, a autora corre por vezes o risco de fazer o movimento inverso e de empolar a importância da protagonista.
Ainda que muitos críticos aludam, portanto, à tentativa da historiadora de construir uma imagem mais nobre de Pamela do que aquela que prevaleceu durante décadas, não há dúvida de que estamos perante uma obra de grande valor. Não só pelo trabalho de investigação, mas também pelas fontes a que Purnell conseguiu aceder e pela capacidade de lhes dar forma narrativa. Até a autora reconhece que Pamela permaneceu, em certa medida, um enigma. Quanto mais se investigava a sua vida, mais difícil parecia separar a mulher que ela foi da personagem que construiu para si própria.
As referências ao atual presidente dos EUA também deixam os republicanos incomodados. É natural, tão-só esse homem é capaz de deixar qualquer pessoa de cabelos em pé. Mas este livro não é sobre ele, é sobre Pamela Churchill Harriman e sobre a forma como ela aprendeu a aproximar-se do poder, a reconhecer quem o detinha e, principalmente, a perceber quem poderia vir a detê-lo.
O valor desta biografia reside ainda na forma como somos instruídos acerca das dinâmicas das relações políticas e diplomáticas entre o Reino Unido, os EUA e, mais tarde, a França. Pamela esteve próxima de alguns dos acontecimentos e das figuras mais relevantes da história política do século XX, de Winston Churchill a Averell Harriman e de Bill Clinton a Gorbachev. A sua trajectória permite acompanhar, a partir de uma perspetiva muito particular, transformações profundas na política internacional.
Vale realmente a pena ler esta lição de História. Mesmo que a personagem de Pamela seja, por vezes, construída de forma empolada – como poderão confirmar os leitores mais céticos e/ou rigorosos –, a pesquisa e a narrativa biográfica são, com efeito, de louvar.
Resta-me agradecer a Sonia Purnell a história de uma das mulheres mais controversas e influentes do século XX e os capítulos de História recente que, por intermédio de Pamela, nos dá a conhecer.
A Educação Física, de Rosario Villajos, é um grito encadernado sobre desconforto, falta de espaço, ausência de lugar e procura de identidade.
Se considerarmos a dimensão dos temas abordados no livro, o título parece insuficiente, porque esta não é uma obra sobre educação física, mas antes sobre a educação do corpo feminino no sentido da culpa, do medo, da vigilância e da sensação constante de inadequação. O corpo como terra de desconforto desde a infância, num mundo em que os homens ocupam o centro do universo e as mulheres parecem ter nascido para reduzir a sua existência a funções que excluem a sua felicidade.
O romance decorre entre as 18h16 e as 21h46, desde o fim de uma tarde até ao princípio da noite. Um curto espaço temporal que Rosario Villajos transforma num verdadeiro percurso de angústia interior. Tudo começa com um episódio inesperado e violento em casa de uma amiga, que leva a protagonista adolescente a fugir da situação que a constrange, tentando regressar a casa à hora imposta pelos pais. Na berma da estrada, pede boleia. Mas aquilo que começa por ser uma tentativa de fuga rapidamente se transforma numa exposição a novos perigos: entrar no carro de um desconhecido sem saber o que poderá acontecer a seguir.
Enquanto os carros passam sem parar, o medo e a ansiedade crescem. E é nesse intervalo suspenso que o livro ganha corpo: nos pensamentos da protagonista, nas dúvidas, nos nojos, nas descobertas, nas ignorâncias e nos sentimentos contraditórios de uma adolescência feminina marcada pela culpa e pela estranheza em relação ao próprio corpo.
Há momentos particularmente comoventes, como a descoberta das bibliotecas enquanto espaços de abrigo, de leitura e de possibilidade. A biblioteca surge quase como um lugar de salvação silenciosa, um raro espaço amigo que empresta livros sem pedir nada em troca (num mundo em que tudo parece ter uma contrapartida).
A escrita de Rosario Villajos é feita de uma tinta forte, como sangue que jorra de ferida. A autora, a certa altura, escreve que “não há melhor maneira de estar ou de não estar no mundo do que a escrever. Para ela isso equivale a sentir algo, além de medo ou culpa; escrever serve para transformar as suas disforias, a sua vontade de matar, o seu desejo de não existir ou de existir sem um corpo, escrever faz com que essa aflição corporal, com a qual ela convive há muito tempo, se transforme num luto passageiro, algo a ser exorcizado.”
Nesta passagem compreende-se aquilo que sustenta verdadeiramente o romance: a escrita enquanto tentativa de sobrevivência. Não como exercício estético, mas como necessidade vital, como forma de expulsar para o papel aquilo que o corpo sozinho já não consegue aguentar.
No final do livro percebemos que a obra, distinguida com o Prémio Biblioteca Breve, possui uma forte dimensão autobiográfica. Nos agradecimentos, Rosario Villajos escreve: “E obrigada ao júri (…) por premiar um manuscrito que eu não deixara ninguém da minha intimidade ler. Não o sabem, mas também premiaram a minha auto-confiança, a minha promessa de voar sozinha, como uma borboleta.”
É neste voar que a escrita faz cumprir a missão de quem escreve.
O agradecimento da autora ilumina retrospectivamente toda a leitura. Não porque a ficção seja menos verdadeira, mas porque pode existir uma outra batida cardíaca quando a escrita se aproxima da experiência íntima de quem escreve.
Pela brutalidade emocional que transporta, pela forma crua como expõe medo, vergonha, desejo, solidão e raiva, A Educação Física é um livro profundamente humano. Rosario Villajos escreve sem procurar embelezar a dor; interessa-lhe mais a honestidade do sentimento do que o acabamento estético da frase. E é precisamente nessa recusa do artifício que o romance encontra a sua maior força.
No fim, permanece a ideia da escrita como possibilidade de resistência: um meio de compreender o mundo, de enfrentar o medo e de sobreviver dentro de um corpo e de uma vida que tantas vezes parecem difíceis de habitar.
Hermann Hesse (Calw, 1877 – Montagnola, 1962) é um dos grandes nomes da literatura alemã do século XX. Romancista, poeta e ensaísta, laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1946, escreveu obras que atravessam gerações pela forma como tratam a busca de identidade, a tensão entre o indivíduo e a sociedade, e a procura de um sentido que exceda as imposições do mundo exterior. Já aqui se escreveu sobre uma das suas obras mais marcadamente autobiográficas, Hans: sob o peso das rodas, na qual o jovem protagonista sucumbe ao peso de um sistema de ensino desumanizador. Rosshalde, publicado originalmente em 1914, é a face adulta desse mesmo problema, ou seja, o adolescente que não resiste à pressão foi substituído pelo homem que lhe sobreviveu e que não sabe o que fazer com essa sobrevivência.
O posfácio desta edição é da autoria do ensaísta e biógrafo alemão, Volker Michels, responsável pela compilação das obras completas de Hermann Hesse (HH) na editora Suhrkamp e figura central na preservação e divulgação do seu legado literário. Michels situa Rosshalde com precisão, ao descrever que HH terá iniciado o romance em julho de 1912, na Alemanha, e o terá concluído em janeiro de 1913, na Suíça, numa casa da zona de Schoßhalde, topónimo que não é alheio ao título da obra. Mais uma vez, o contexto biográfico é inseparável do texto; com efeito, à data da escrita, o casamento de HH com Maria Bernoulli atravessava uma crise profunda, e a viagem à Indonésia que empreendera em 1911 havia sido uma espécie de fuga que o protagonista do romance ainda não conseguira concretizar. Rosshalde parece ser, assim, um livro escrito para resolver o que a vida ainda não resolvera.
Johann Veraguth, quarenta anos, é um pintor de renome internacional que detém uma reputação consolidada, mas um casamento desfeito que insiste em manter-se de pé. Vive no atelier que ocupa parte dos terrenos de Rosshalde, uma propriedade extensa e bela; a mulher, Adele, habita a casa principal com o filho mais novo, Pierre, de sete anos. O filho mais velho, Albert, está num colégio interno e, quando regressa nas férias, fica claro que o ódio que sente pelo pai é a consequência natural de anos de ausência afetiva. O único elo que ainda une Veraguth e Adele é Pierre, criança luminosa e curiosa, que os dois amam com uma intensidade que não conseguem dirigir um ao outro. Quando esse elo se rompe, cria condições para a libertação.
A chegada de Otto Burkhardt, amigo de infância e agricultor de borracha na Malásia, surge como o catalisador da narrativa e da eventual libertação, uma vez que é Otto quem nomeia o que Veraguth não consegue. Por meio da amizade franca que os une, Veraguth escuta Otto dizer-lhe que está a viver entre ruínas e mais tarde ou mais cedo o belo e o fértil que ainda habitam em si apodrecerão. O convite para o acompanhar à Ásia é, ao mesmo tempo, uma porta e um espelho. Veraguth hesita por causa da sua razão para permanecer, o filho de sete anos a correr pelo jardim. A tensão entre a urgência de partir e a impossibilidade de abandonar Pierre sustenta o miolo do livro com uma força que não recorre ao melodrama.
Mas Pierre adoece. A meningite instala-se com a crueza dos factos inevitáveis. HH descreve a agonia do menino e o desamparo do pai com uma sobriedade que torna as páginas quase insuportáveis. Há uma cena que HH descreve como uma observação limpa, quando Veraguth, de joelhos ao lado da cama do filho, percebe que já não há caminho até àquela alma: “toda a suplicante tentativa de o reconfortar e todo o terno sussurro não faziam já sentido, eram incapazes de romper a solidão terrível do moribundo” (p. 211). No posfácio, Volker Michels relembra que a doença de Pierre tem correspondência biográfica, também Martin, o filho mais novo de Hesse, apresentou os primeiros sintomas da mesma doença, ainda que detetada a tempo.
Pierre é, juntamente com Veraguth, a personagem mais construída do livro. As suas conversas com o pai têm uma qualidade de luz particular, na medida em que a criança fala com a simplicidade dos que ainda não aprenderam a esconder o que pensam. Quando diz que não quer ser crescido porque os adultos costumam ser tão desagradáveis, ou quando confessa que quer perceber o que dizem os piscos-de-peito-ruivo uns aos outros, dá-nos a saber o que os adultos à sua volta perderam (p. 63).
A escrita de HH em Rosshalde é, como observou o crítico Ernst Weiß contemporâneo do livro (citado por Volker Michels, p. 227), a de quem consegue fazer sentir “o frio, o calor e o cansaço no coração”. HH é capaz de descrever um fim de tarde de verão ou o esforço físico de nadar, enquanto transporta para o nosso íntimo a textura desse momento. Numa prosa precisa e sem ornamento excessivo, os diálogos carregam o peso da história sem que nada seja explicitado em demasia. Ainda que Rosshalde não apresente a profundidade mística de Siddhartha ou a vertigem de O Lobo das Estepes, contribui para a coesão do conjunto da sua obra. É, como notou Michels, o ponto de chegada de um HH que ainda acreditava que podia resolver pela objectividade o que a vida lhe impunha; o ponto de partida de um outro HH que perceberia, com a guerra e com a terapia, que a objectividade não chega.
Publicado em 1914, às vésperas de uma guerra que viria interromper o romance seguinte, Rosshalde chegou tarde a Portugal, mas como se costuma dizer, mais vale tarde do que nunca. Fica também, em quem leu, a pergunta a que o livro não responde, a de saber se a liberdade que se conquista à custa de tudo aquilo é, de facto, liberdade.
A barata diz que tem sapatinho de fivela. É verdade da barata, que o sapato é mesmo dela!
Gigi foi descoberta por Tiago Salazar na Rua do Benformoso. Está cansada de ser perseguida. Ainda assim, procura pessoas que a queiram conhecer. A Gigi parece disposta a alargar o seu círculo de amigos.
A Barata Gigi na Rua do Benformoso é o novo livro de Tiago Salazar. Aparentemente, trata-se de uma história para crianças.
Gigi é uma barata “fala-barata”, que fala naturalmente pelos cotovelos. Fala como se estivesse realmente a falar com uma criança. Num discurso entre o afecto, o humor e a pedagogia, Gigi nunca pede piedade. Limita-se a contar quem é. E é precisamente nessa recusa do papel de vítima que reside grande parte da força da personagem. Sabendo que a diferença é um alvo a abater pelos que se encaixam na normalidade socialmente pré-estabelecida, o autor, através da barata Gigi, chama a atenção para a diferença, que não deve ser objecto de discriminação.
Num mundo em que os influencers lançam tendências e ditam regras aos que não querem ser ultrapassados por modas, a barata Gigi atreve-se a olhar a beleza insuspeita das coisas e as pessoas que são boas, independentemente das cores das suas bandeiras.
Talvez as palavras, tão importantes, falem mais alto do que as imagens.
Nas ilustrações deste livro, sabiamente desenhadas por Fátima Mateus, é possível uma barata voar, encavalitando-se nas costas de uma vespa, que assim lhe permite ver o mundo de outra perspectiva. E há algures no mundo uma vaca sagrada, respeitada por todos, que nos ensinará que todos temos a nossa importância.
O autor conduz a narrativa com um discurso caloroso e divertido. Ensina sem dar lições. Diz coisas que parecem surgir de passagem, mas que acabam por despertar a curiosidade, o afecto e a atenção – precisamente aquilo de que as crianças mais gostam.
A barata Gigi acredita que todos aprendemos com todos e que todos carregamos connosco o peso mágico da nossa origem, da nossa cultura, da nossa família.
Enquanto procurava saber mais sobre esta barata, descobri que Tiago Salazar já tinha escrito, no Página Um, um texto sobre a xenofobia que continha muitas das ideias – e até muitas das frases – que agora encontramos em A Barata Gigi na Rua do Benformoso. Não as simplificou. Não lhes retirou densidade. Condensou-as numa história. É talvez esse um dos maiores méritos do livro: provar que uma criança é capaz de acolher um pensamento complexo sem que seja necessário empobrecer a linguagem.
Não importa se a xenofobia nasce num quadrante político, numa seita religiosa ou dentro de uma casa de família. Importa educar as nossas crianças bem, preparando-as para a relação com qualquer tipo de diferença. A empatia, a simpatia ou antipatia por uma pessoa, não pode nascer da raça, do credo ou da aparência, mas da essência. Se queremos futuros adultos equilibrados, sensíveis e justos, temos de começar o nosso trabalho nos primeiros anos de vida de uma criança.
Uma história assim pode ter um senão, apenas: é que depois de ler este livro, uma criança, quando for grande, pode querer ser barata, por questões nucleares.
Este livro de Tiago Salazar é uma convocação social de humanismo.
Um dia estava na redacção do Página Um e um estrangeiro bateu-me à porta, porque pensou que tínhamos uma Biblioteca Pública e queria muito ver o livro da Barata Gigi, que não encontrava em livraria nenhuma.
– Sabe, eu moro muito perto da Rua do Benformoso e queria muito conhecer esse livro.
Temos publicado actualmente uma rúbrica na nossa secção de cultura, dedicada aos livros que chegam à nossa Biblioteca.
Uma coisa interessante que pode acontecer na cabeça de um estrangeiro é a palavra Biblioteca ser sempre um lugar público, partilhável. Naquele dia, foi. E um homem de 40 anos devorou A Barata Gigi na Rua do Benformoso. Pelo brilho dos seus olhos, pode ter feito uma viagem no tempo.
Fernando Aramburu(tradução: J. Teixeira de Aguilar)
15/20
Recensão
Depois do extraordinário impacto de Pátria, Fernando Aramburu passou a escrever sob o peso inevitável da comparação com a obra que o consagrou. A partir dela, cada novo livro do autor parece confrontar-se com uma expectativa quase impossível de satisfazer. Maite confirma essa dificuldade. Embora revele a mesma escrita cuidada e a atenção aos pequenos gestos da vida quotidiana que caracterizam Aramburu, está longe da profundidade psicológica, da complexidade narrativa e da intensidade emocional que fizeram de Pátria um romance memorável.
Aramburu continua a escrever com elegância. A sua prosa é depurada, os diálogos são naturais e mantém um olhar atento sobre os pequenos gestos da vida quotidiana. No entanto, uma escrita competente não basta para sustentar um romance quando as personagens carecem de densidade e o conflito dramático nunca ganha verdadeira força.
A maior fragilidade do livro reside na construção da protagonista. Maite é apresentada como uma mulher adulta, mas a sua forma de olhar o mundo aproxima-se frequentemente da de uma criança. A ingenuidade com que interpreta os acontecimentos, a dificuldade em compreender as motivações dos outros e a maneira como reage aos conflitos tornam-na pouco convincente. Não se trata apenas de vulnerabilidade ou sensibilidade; trata-se de uma imaturidade emocional persistente que reduz a credibilidade da personagem e dificulta a identificação do leitor. Em vez de uma personalidade rica em contradições, encontramos uma figura excessivamente linear, cuja visão infantil da realidade acaba por limitar o alcance do romance.
A personagem da irmã, vítima de violência doméstica, acaba igualmente por ficar aquém do que prometia. O tema possui enorme relevância humana e social, mas é tratado sem a profundidade necessária. A violência funciona sobretudo como elemento dramático, sem que o romance explore verdadeiramente os mecanismos de dependência, medo e manipulação que caracterizam este tipo de relações.
Um dos fios condutores do romance é o passado recente do País Basco e a herança deixada pela ETA. Embora este universo seja menos central do que em Pátria, continua a marcar as personagens e a condicionar as suas escolhas. Contudo, o tratamento deste tema parece aqui menos incisivo. Em vez da complexidade moral e política que distinguia Pátria, Aramburu limita-se a recuperar um pano de fundo já conhecido, sem lhe acrescentar novas perspectivas ou um verdadeiro aprofundamento. A presença da ETA acaba por funcionar mais como memória difusa do que como elemento estruturante da narrativa.
Ao contrário de Pátria, onde cada personagem possuía voz própria e uma notável espessura psicológica, Maite apresenta figuras que raramente ultrapassam os limites da função narrativa que lhes foi atribuída. O enredo avança sem grandes sobressaltos e o resultado é um livro que se lê com facilidade, mas que dificilmente permanecerá na memória do leitor.
A edição portuguesa também não ajuda. A tradução revela opções pouco felizes e um português por vezes pouco natural. Torna-se particularmente repetitiva a expressão “fazer castelos”, utilizada inúmeras vezes para descrever os diálogos imaginários ou as conversas que Maite estabelece consigo própria. Independentemente da fidelidade ao original, a insistência nesta fórmula soa artificial em português e acaba por distrair o leitor, quando uma tradução literária deveria precisamente ser invisível.
Maite não é um mau romance. Beneficia da experiência e da qualidade literária do seu autor, mas confirma a impressão de que os livros publicados depois de Pátria perderam alguma da ambição e da capacidade de surpreender. Quem descobrir Fernando Aramburu através deste livro dificilmente compreenderá o entusiasmo que Pátria despertou entre leitores e críticos. Quem já conhece a sua melhor obra encontrará inevitavelmente motivos para a comparação, e essa comparação não favorece Maite. Trata-se de um romance discreto, excessivamente contido e emocionalmente pouco intenso, cuja protagonista nunca adquire a consistência necessária para sustentar todo o edifício narrativo.
No conjunto da obra de Aramburu, Maite ocupa um lugar secundário. Não compromete o prestígio do escritor, mas também não acrescenta nada de decisivo ao seu percurso literário. É um livro que se lê sem dificuldade, mas que dificilmente permanecerá na memória do leitor muito tempo depois de fechada a última página.
Agatha Christie (1890–1976) dispensaria apresentações, ainda assim vale a pena dizer que é a escritora de ficção mais vendida de todos os tempos, com mais de dois mil milhões de exemplares vendidos em mais de cem línguas, um número que só Shakespeare e a Bíblia superam. A Rainha do Crime, como ficou conhecida, escreveu 66 romances policiais, 14 colectâneas de contos e a peça de teatro com mais tempo em cena no mundo — A Ratoeira, em representação contínua em Londres desde 1952. Em 1971, foi condecorada pela Rainha Isabel II com o título de Dama-Comendadora da Ordem do Império Britânico.
Mas há uma Agatha Christie que a maioria dos seus leitores nunca conheceu.
Entre 1930 e 1956, a autora publicou seis romances sob o pseudónimo Mary Westmacott, um nome construído a partir do seu segundo nome próprio e de apelido de familiares distantes. São romances sem crimes para Poirot e Miss Marple investigarem. São obras sobre o amor, a perda, a obsessão e a natureza humana, com alguns elementos da sua própria biografia, e que a sua filha Rosalind Hicks terá descrito como “histórias agridoces sobre o amor” – pode ler-se no sítio oficial da autora. Christie manteve a identidade de Mary Westmacott em segredo durante quase vinte anos. Quando foi finalmente descoberta, continuou a publicar sob o pseudónimo. A Rosa e o Teixo, publicado em 1948, é o quarto destes romances e é descrito na capa como o romance favorito da autora. É fácil compreender porquê.
O título vem de T. S. Eliot, com os versos que abrem este texto e que reaparecem no final do romance, na boca de uma personagem, quase como uma sentença. A rosa e o teixo são metáforas que estruturam a história, em que a rosa é Isabella Charteris, aristocrata, de uma beleza tão simples que se torna assustadora, uma pessoa que não reconhece nada para além do essencial. O teixo é John Gabriel, um herói da guerra, uma pessoa rústica e cheia de ambição. Inveja e anseia o que nunca poderá ser, a graciosidade inata de quem tem ‘sangue azul’. Entre eles, temos Hugh Norreys, o nosso narrador, que está inválido, e que é um observador exímio, até pela incapacidade de se mover sozinho. Assiste à história dos dois sem poder intervir, descobrindo, ao longo da narração autodiegética, os limites do que é capaz de conhecer sobre os outros… e sobre si próprio.
A acção decorre na Inglaterra do pós-Segunda Guerra, em tempo de eleições. Gabriel candidata-se à Câmara dos Comuns pelo Partido Conservador, numa circunscrição de difícil conquista, e a campanha serve de palco para uma reflexão afiada sobre o que é a política na sua versão mais prosaica. Mais do que ideias e ideais, importam as promessas. Mais do que convicções, a arte de dizer às pessoas o que querem ouvir.
O que é a política, afinal, senão barracas adjacentes na feira do mundo, cada uma oferecendo a sua banha da cobra específica para curar todos os males? – pergunta Hugh (p. 211). Gabriel sabe-o bem e não se coíbe de o dizer. É ao mesmo tempo cínico e fascinante, e ‘Mary Westmacott’ constrói-o com uma inteligência sem o condenar, tão-pouco o absolver.
Isabella é o contraponto. Quase ausente durante grande parte do romance, está sempre presente pela forma como as outras personagens a percepcionam, pelo que desperta nelas. Hugh não a compreende; Gabriel, que a deveria compreender, só no fim alcança um vislumbre.
A cena em que Teresa, cunhada de Hugh, lhe explica que Isabella foi “uma coisa perfeita em si mesma”, que a vida dela, por mais breve que tenha sido, não foi abreviada nem quebrada, foi completa, é um dos momentos mais perturbadores e mais belos do livro. “O momento da rosa e o momento do teixo são de igual duração” (p. 296), Eliot dito baixinho, como uma verdade que se não impõe e facilmente reconhece.
Agatha Christie sabia ler a natureza humana. Não admira que tenha criado Poirot e Miss Marple, e não admira que, quando quis escrever de outra forma, tenha precisado de outro nome. Mary Westmacott é a escritora que observa sem resolver, que não oferece um culpado nem um final arrumado. As grandes dimensões da vida estão aqui: o amor, o sofrimento, a política, a vaidade, o egoísmo, a violência doméstica, o cuidado pelos que ficam para trás. Tudo entretecido com a mestria de quem levou décadas a construir histórias, mas desta vez sem a armadura do género policial a servir de distância.
Faz-se necessária uma ressalva, a de que o livro é datado no que respeita a papéis de género e a certas representações sociais, o que é, de resto, inevitável num romance de 1948. Isso não diminui a sua força; é, sim, uma forma de a contextualizar. O que não envelhece é a observação da essência humana, a vaidade de quem quer ser mais do que o vizinho, o amor que não se explica, a política que se faz de cinismo e de esperança em partes iguais.
Na capa lê-se que é o romance favorito de Agatha Christie. Tem um senão: lê-se num ápice.