Nasceu em Berlim, em 1968. Chamaram-lhe Aníbal, como o pai e o avô antes dele. Por lá, no entanto, soava estranho, e rapidamente passou a ser o Hanni.
Aos pais, que o viam crescer cada vez mais distante da sua própria cultura e valores, esta deformação do nome não agradava. Passada a soleira da porta, voltava a ser Aníbal. Isto nos dias bons, porque nos outros era Aníbal Augusto. E quando o Hanni se recusou a envergar o traje do rancho folclórico da comunidade portuguesa e a tocar acordeão, o Aníbal foi contemplado com um bilhete de ida sem volta para a Beira Baixa.
Decidido a pôr o filho no bom caminho, o pai manteve o seu emprego na fábrica e coube à mãe acompanhar o adolescente no regresso.

Antecipou-se assim a inauguração da loja de ferragens que sonhavam montar na terra natal. Quatro vitrines e duas portas numa rua movimentada. Orgulhosa, a nova proprietária e gerente aplicou a mesma disciplina aprendida na Alemanha às prateleiras, que ficaram impecavelmente alinhadas, e ao rapaz, que também haveria de ficar.
— Isto aqui não é Berlim, meu menino. Aqui penteias-te, vestes-te e portas-te como deve ser.
E o Aníbal portou-se. Foi para a escola, onde as dificuldades com a língua lhe valeram a fama de pouco inteligente. Tentou encaixar-se, mas sem sucesso. O Hanni não cabia ali e o Aníbal andava perdido. A mãe dizia-lhe que fosse normal. Teria sido, se soubesse como.

Aos poucos foi construindo um ser que coubesse dentro das camisas engomadas, dos pullovers de losangos e dos sapatos de vela que agora usava todos os dias. O espelho mostrava-lhe um jovem ridículo. A risca ao meio, lambida com gel, dava o toque final.
Uma vez por mês, porém, era o centro das atenções. Só ele conseguia decifrar a BRAVO. No princípio, lia-lhes a revista devagar, palavra a palavra. Prolongava o momento de glória. Depois, recusou-se a voltar a fazê-lo. Fechou-se de vez. Deixou a escola e foi trabalhar para a loja.
A mãe ficava no atendimento; ele sabia de cor o lugar dos milhares de caixas, de peças e pecinhas. Um pedido ao balcão e, em segundos, o cliente estava atendido. A eficiência valeu-lhe o nome pelo qual se tornaria conhecido e respeitado: o Lopes das Roscas.

O tempo foi-lhe acrescentando barriga e papada, enquanto lhe levava o cabelo e os dentes. Os pais envelheceram. Cuidou de ambos. Fê-lo até ao fim, sem uma queixa.
E depois ficou só.
Foi nessa altura que os vizinhos começaram a ouvir música vinda lá de casa, tão alta que fazia estremecer os vidros. Viam-no pela janela: a dançar, a saltar, a abanar a cabeça como se tivesse uma farta cabeleira, a dedilhar com fervor uma guitarra inexistente.
Até que um dia apareceu no estabelecimento com uma pequena crista pintada de azul e um cartão preso ao peito.

E, a quem lhe chamava Lopes, corrigia, apontando:
— H-A-N-N-I, o meu nome é Hanni.
Na pequena cidade, não foi preciso mais para a história se espalhar: o Lopes das Roscas tinha enlouquecido com o desgosto. Coitado.
Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.




































