Autor: Sílvia Quinteiro

  • O Lopes das roscas

    O Lopes das roscas

    Nasceu em Berlim, em 1968. Chamaram-lhe Aníbal, como o pai e o avô antes dele. Por lá, no entanto, soava estranho, e rapidamente passou a ser o Hanni.

    Aos pais, que o viam crescer cada vez mais distante da sua própria cultura e valores, esta deformação do nome não agradava. Passada a soleira da porta, voltava a ser Aníbal. Isto nos dias bons, porque nos outros era Aníbal Augusto. E quando o Hanni se recusou a envergar o traje do rancho folclórico da comunidade portuguesa e a tocar acordeão, o Aníbal foi contemplado com um bilhete de ida sem volta para a Beira Baixa.

    Decidido a pôr o filho no bom caminho, o pai manteve o seu emprego na fábrica e coube à mãe acompanhar o adolescente no regresso.

    Antecipou-se assim a inauguração da loja de ferragens que sonhavam montar na terra natal. Quatro vitrines e duas portas numa rua movimentada. Orgulhosa, a nova proprietária e gerente aplicou a mesma disciplina aprendida na Alemanha às prateleiras, que ficaram impecavelmente alinhadas, e ao rapaz, que também haveria de ficar.

    — Isto aqui não é Berlim, meu menino. Aqui penteias-te, vestes-te e portas-te como deve ser.

    E o Aníbal portou-se. Foi para a escola, onde as dificuldades com a língua lhe valeram a fama de pouco inteligente. Tentou encaixar-se, mas sem sucesso. O Hanni não cabia ali e o Aníbal andava perdido. A mãe dizia-lhe que fosse normal. Teria sido, se soubesse como.

    Aos poucos foi construindo um ser que coubesse dentro das camisas engomadas, dos pullovers de losangos e dos sapatos de vela que agora usava todos os dias. O espelho mostrava-lhe um jovem ridículo. A risca ao meio, lambida com gel, dava o toque final.

    Uma vez por mês, porém, era o centro das atenções. Só ele conseguia decifrar a BRAVO. No princípio, lia-lhes a revista devagar, palavra a palavra. Prolongava o momento de glória. Depois, recusou-se a voltar a fazê-lo. Fechou-se de vez. Deixou a escola e foi trabalhar para a loja.

    A mãe ficava no atendimento; ele sabia de cor o lugar dos milhares de caixas, de peças e pecinhas. Um pedido ao balcão e, em segundos, o cliente estava atendido. A eficiência valeu-lhe o nome pelo qual se tornaria conhecido e respeitado: o Lopes das Roscas.

    O tempo foi-lhe acrescentando barriga e papada, enquanto lhe levava o cabelo e os dentes. Os pais envelheceram. Cuidou de ambos. Fê-lo até ao fim, sem uma queixa.

    E depois ficou só.

    Foi nessa altura que os vizinhos começaram a ouvir música vinda lá de casa, tão alta que fazia estremecer os vidros. Viam-no pela janela: a dançar, a saltar, a abanar a cabeça como se tivesse uma farta cabeleira, a dedilhar com fervor uma guitarra inexistente.

    Até que um dia apareceu no estabelecimento com uma pequena crista pintada de azul e um cartão preso ao peito.

    E, a quem lhe chamava Lopes, corrigia, apontando:

    — H-A-N-N-I, o meu nome é Hanni.

    Na pequena cidade, não foi preciso mais para a história se espalhar: o Lopes das Roscas tinha enlouquecido com o desgosto. Coitado.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • Antes que chegue o inverno

    Antes que chegue o inverno

    Há uma quietude melancólica na forma como o mar chega à costa em setembro. Em como as ondas languidamente se começam a dissolver ao longe. Longas, muito longas, tão baixas que mal se notam.

    Depois, desfazem-se moles sobre a areia e, por fim, retiram-se devagar. Percebem, certamente, que já lá não está quase ninguém e que têm tempo. Têm todo o tempo do mundo, até ao próximo verão.

    A luz da tarde derrama sobre a água uma doçura cansada de lantejoulas douradas. O calor da areia já não queima os pés, mas lembra que o outono ainda não chegou.

    Na areia, os vestígios dos dias que passaram. As marcas dos guarda-sóis arrancados, as construções semidesfeitas, as pegadas humanas a que se sobrepõem as das gaivotas.

    Aos poucos, distingue, junto à rebentação, um homem sentado de costas. Tão quieto que quase se confunde com a paisagem. Observa o contorno dos ombros, a inclinação da cabeça, a maneira de estender as mãos à água e reconhece-se naquele corpo. Sabe que a água que avança e recua sem pressa vem buscar os risos, as conversas, o rumor das brincadeiras das crianças, os mergulhos, o brilho dos corpos bronzeados. Sabe que, em setembro, a maré dobra cuidadosamente os dias de verão antes de os levar. Ficarão impecavelmente preservados e prontos para serem devolvidos no ano seguinte.

    A um passo, indiferente à sua presença, uma chilreta em busca de alimento fá-lo sorrir. Depois levanta voo em direção ao infinito. Onde quer que fique o infinito da minúscula ave.

    Pergunta-se como sobreviverá a criatura ao inverno.

    O horizonte encara-o novamente e mostra-lhe os seus verões. Todos os seus verões.

    Os primeiros. As mãos assustadas da mãe, que não sabia nadar, e o segurava com demasiada força mal a água passava do tornozelo. O cheiro a óleo de coco. A mãe cheirava a óleo de coco. A merenda trazida pela avó: pão com manteiga e uvas. A promessa da bola de Berlim, se não se afastasse muito. As sombras que protegiam os adultos e puniam os miúdos. A toalha do Sandokan. Os baldes, os moinhos, as pás e os moldes que se renovavam a cada ano.

    Os verões da adolescência: os amigos, as noites na areia, as canções, os amores eternos que chegaram tão depressa quanto partiram. Os dias que julgou sem fim, porque na juventude o fim é uma miragem.

    Vê os filhos a chapinhar com a água pela cintura. As mãos abertas, o medo e a excitação. O instante em que deixara de os segurar. A felicidade única das primeiras braçadas. As palmas, as filmagens, as fotografias ainda no móvel da entrada.

    Uma onda gelada desperta-o. Arrepia-se, mas não se move. Tranquiliza-o a certeza de que o mar guardou todos os seus verões num recanto onde continuam a existir e os poderá procurar.

    A onda recua, levando a marca da sua presença. A areia fica lisa.

    Fora ali que vira pela primeira vez a mulher. Exatamente ali. Susurrara-lhe ao ouvido que se o Tom Jobim a tivesse visto caminhar na praia, a música teria sido outra. Ela riu-se, mas ele nunca duvidou.

    Levanta-se. Olha uma última vez para o lugar onde estivera sentado, despede-se e afasta-se com a serenidade de quem sabe que antes que chegue o inverno regressará para habitar eternamente esses verões felizes.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • Professor de segunda

    Professor de segunda

    Finda agosto. Os biquínis e as toalhas ainda no estendal, a sombrinha na mala do carro, sardinhas na grelha, sangria e melancia em cima da mesa. Na televisão, os primeiros anúncios de material escolar. A miudagem dividida entre o desejo de um verão infinito e o fascínio pelo cheiro a mochilas, cadernos e lápis novinhos em folha.

    Para os que aguardam uma vaga no ensino superior, são dias intermináveis. Saber se entram no curso pretendido, onde irão morar nos próximos anos, com quem. Tudo está suspenso. A imprensa não dá descanso:  número de vagas, médias de entrada de anos anteriores, procura, preços de quartos. As famílias fazem contas, antecipam cenários, medem as possibilidades. O resto do país acompanha e faz figas por estes jovens.

    Poucos se lembrarão, porém, dos professores. Parte-se do princípio de que aguardam tranquilamente o início do novo ano letivo. E é, de facto, assim com os docentes de carreira. Mas não com os contratados. Esses ingressam a qualquer momento, em números absurdos, e são professores por um tempo indefinido: um ano, um semestre, um mês, umas semanas. Enquanto der jeito.

    Contratos? Contratosinhos? Nem sei bem o que chamar ao tipo de vínculo que as instituições estabelecem com estes profissionais, mas tem muitas semelhanças com o tipo de acordo que fazemos com aquele senhor a quem telefonamos para vir reparar uma torneira avariada ou trocar uma telha partida.

    Ser professor contratado do ensino superior é isso. É ir fazer umas horitas. Desenrascar. E poderíamos entender a situação como normal, se se tratasse de exceções. Mas não. Finge-se que é normal. Só que fingir e ser, mesmo nos dias que correm, ainda não são a mesma coisa.

    Esta precariedade pode manter-se ao longo de décadas. Contrata, interrompe, contrata, interrompe… Mão de obra barata, a quem se vai cinicamente lembrando que um dia pode abrir concurso. Em troca, espera-se disponibilidade para tudo o que for preciso. Pau para toda a obra. E, já agora, um sorriso na cara nunca matou ninguém.

    As condições são tão boas que o ensino superior se transformou numa espécie de Carochinha dependurada à janela, com um tostão furado na mão, a tentar seduzir quem passa.  Há sempre quem se deixe encantar. Uns por extrema necessidade. Outros, porque não viram o furo. Outros ainda, porque é uma linha que fica sempre bem no currículo, embora já seja difícil encontrar quem não a tenha.

    E recordo alguém que entrou iludido com a tal vaga que nunca veio, foi rejeitando outras possibilidades e acabou por ficar preso pela necessidade. Aos 60 anos, percebeu pelo horário em branco que o seu contrato não seria renovado.  

    Disponível. Prestável. Tudo entregue a tempo e horas, com rigor e dedicação, semestre após semestre, ano após ano, renovação após renovação. Questionou então o diretor, na esperança de que fosse mais uma interrupção “necessária”. A resposta veio com naturalidade:

    – Eras contratado. Sabias que podia acabar. Já não és necessário.

    Disse-me que se sentiu agora como quando regressou de África. Quando na escola a professora lhe chamava retornado e o sentava ao fundo da sala, deixando bem claro que havia portugueses de primeira e de segunda.

    Ao fim de vinte anos de serviço, foi como se nunca tivesse saído do lugar ao fundo da sala: percebeu que sempre fora um professor de segunda.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • O menino com vento dentro

    O menino com vento dentro

    Mal abria a pestana, saltava da cama. O silêncio da casa chegava ao fim. Com ou sem chinelos, o percurso até à cozinha era mais rápido descendo pelo corrimão. Ao pequeno-almoço, o desassossego: ora à mesa, ora na bancada, de pé, sentado, ajoelhado na cadeira. A caminho da escola, saltava poças, subia muros, trepava árvores, fazia caretas aos cães dos vizinhos… Os olhos descobriam novidades a cada instante. O corpo ia atrás delas.

    Os adultos suspiravam. A manhã mal tinha começado e já estavam exaustos. Não conseguiam perceber de onde lhe vinha tanta energia.

    Certo dia, os pais decidiram levá-lo até ao cimo do monte que se erguia perto de casa. Acreditaram que uma boa caminhada o acalmaria.

    Saíram cedo. O caminho era longo e íngreme. Os pais caminhavam devagar, parando de vez em quando para recuperar o fôlego. O menino seguia à frente. Corria atrás das lagartixas que se esgueiravam por entre as estevas, recolhia folhas, flores, pedras com formas estranhas. Aos pais restava pedir que não se afastasse muito.

    Ao fim de algum tempo, alcançaram o miradouro. Dali via-se a serra, os campos, os moinhos espalhados pelas colinas, o mar.

    O pai, ainda ofegante, retirou um binóculo da mochila e chamou o filho para lhe mostrar a paisagem.

    O menino espreitou por alguns segundos. Depois retomou a brincadeira. Deu uma volta ao miradouro. Depois outra. E outra. Cada vez mais rápidas. E quanto mais corria, mais o vento crescia. Primeiro levantou as folhas secas, que se soltaram do chão e começaram a rodopiar. Depois entrou pelas copas das árvores, revolvendo folhas e ramos.

    As velas de um moinho, há muito imóveis, começaram a girar. Perto do muro, uma menina tentava lançar um papagaio de papel. O vento apanhou-o e levou-o para o alto, onde se juntou aos milhafres. Planaram juntos.

    Ao longe, lá em baixo, um pequeno barco abriu as velas e seguiu caminho.

    Então o menino parou.

    Cansado, correu para o colo dos pais e adormeceu. Pouco a pouco, o vento foi perdendo força. As folhas voltaram ao chão. As árvores sossegaram. O barco já não se avistava.

    Por uns instantes, ficou apenas uma aragem suave. Os rostos erguidos a saboreá-la. Os cabelos ainda esvoaçantes.

    O menino dormia tranquilo.

    Dentro dele, os ventos antigos, Bóreas, Zéfiro, Euro e Noto, tinham-se feito brisa.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • O Diretor do Departamento

    O Diretor do Departamento

    Chegara à função pública numa época em que poucos o faziam com um diploma na mão. Rapidamente progrediu e foi nomeado Diretor do Departamento.

    Decidido a deixar a sua marca, assumiu como missão “pôr ordem na casa”. Via-se como um reformador e, durante anos, não deu tréguas aos seus inimigos de estimação: os cafezinhos que se prolongavam em conversas de corredor, as chamadas particulares em horário de serviço, o “isso não é da minha competência” e os bolos de aniversário partidos nos gabinetes, entre palmas e cantorias.

    Repetia, para quem o quisesse ouvir, que os funcionários públicos faziam o que queriam, sem receio de serem despedidos. Era quase impossível pô-los a trabalhar.

    Para os “endireitar”, descobriu uma arma infalível: um pequeno arquivo instalado num edifício bafiento, ao fundo da avenida. Um compartimento meio enterrado, sem janelas, onde a luz artificial substituía o sol durante oito horas por dia. Para lá iam os que ousavam contrariá-lo ou tinham tido o azar de o encontrar mal-humorado. Passavam os dias a alinhar e realinhar pastas destinadas ao esquecimento. Documentos que ninguém voltaria a abrir. “Necessidades do serviço”, decretava. E contra as necessidades do serviço não havia recurso nem misericórdia.

    Ninguém gostava. Mas ninguém se atrevia a recusar. E assim, senhor absoluto do pequeno feudo, o Diretor garantia a ordem e um silêncio quase sepulcral. Nada perturbava a rotina do departamento. Nem sequer o próprio trabalho.

    Um dia, porém, deu-se uma mudança de ministro. Um jovem fervoroso que chegou decidido a moralizar a Administração Pública. Prometeu acabar com a pouca-vergonha dos funcionários que só faziam o que queriam, torná-los eficientes, racionalizar procedimentos, otimizar serviços. E começou pelo princípio: extinguiu o cargo de Diretor do Departamento.

    O Diretor ficou em choque. Como era possível? Ele, que passara a carreira a combater a impunidade, via-se agora remetido, por e-mail, para “outras funções a designar”. A mensagem tresandava a arquivo, a subterrâneo, ao pequeno compartimento ao fundo da avenida. Indignou-se. Aquilo, concluiu, não se fazia a ninguém.

    Um colega, incapaz de se conter, comentou:

    — Não te estão a fazer mais do que tu fizeste aos outros.

    O ainda Diretor lançou-lhe um olhar ríspido e corrigiu:

    — Meu caro amigo, há uma diferença fundamental. O que eu fazia era exercer a autoridade. Isto é abuso de poder.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • Finalmente

    Finalmente

    Cruzo-me com eles à saída do shopping.

    Ela ajeita-lhe os óculos de sol no rosto. Sorri-lhe com doçura e caminha na minha direção.

    Noto-a diferente. Caminha, aos 70 anos, com uma leveza que nunca lhe conheci na juventude. O rosto, tantas vezes crispado pela inquietação, parece enfim tranquilo.

    Conheço-os há uma vida. Lembro-me do namoro, do amor intenso e da forma como, muito cedo, a relação foi minada pelos ciúmes. Para ela, qualquer mulher era uma ameaça: uma colega de trabalho, uma amiga, uma vizinha, uma prima. Aos poucos, até a mãe e a irmã se tornaram elementos a afastar. Queria ser a única mulher da vida dele. Não sei se conscientemente ou não. Se o fazia com algum tipo de maldade ou por doença. O que é certo é que a obsessão a foi consumindo, ao ponto de já nem a dignidade lhe importar. Sucediam-se as discussões, os escândalos, as acusações e os pedidos de perdão, que surgiam quase em simultâneo.

    Vieram depois os anos mais difíceis. O sonho de um filho, que nunca chegou e que ela acreditava poder salvar o casamento. Seguiram-se as tentativas de suicídio. Muitas. Assustadoras, ainda que rapidamente se tenha percebido tratar-se de gritos de desespero e não de vontade de morrer. A dor era autêntica, ainda que sem justificação. Nada do que ele pudesse dizer ou fazer parecia aliviar aquele sofrimento.

    Familiares e amigos vaticinavam o fim do casamento. Era inevitável que ele acabasse por fugir. Nunca o fez.

    Agora, tantos anos depois, encontro-os assim.

    Ela vê-me, abre um sorriso, aproxima-se e dá-me dois beijinhos. Nunca antes o fizera. Pergunta-me pela família, diz-me que vieram ao cinema, despedimo-nos e seguem caminho.

    Devagar, empurra a cadeira de rodas na qual ele segue, imóvel, o olhar perdido atrás dos óculos de sol que lhe ajeitara momentos antes.

    Não me reconheceu. Não sei se viu o filme. Se percebeu ter estado no seu lugar preferido. Se sabe quem o levou.

    Nela a serenidade de tê-lo só para si.

    É, finalmente, a única mulher da vida dele.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • Par(v)idade

    Par(v)idade

    Dez da manhã de um domingo lento. O primeiro café, acompanhado de uma queijada ainda morna, na pastelaria ao lado de casa.

    Aparentemente, a tranquilidade do costume, até que, na mesa atrás, uma voz teima em fazer-se ouvir. Uma mulher, num discurso inflamado, vai subindo o tom à medida que acrescenta sofisticados argumentos à sua tese.

    Tudo começou com o relato de um episódio que presenciara recentemente: uma discussão no trânsito que ganhara contornos violentos. Uma pequena multidão a assistir e nenhum homem tivera coragem de intervir. E foi aqui que se instalou a indignação. Não houvera, segundo ela, um único homem capaz de fazer o seu papel naquela situação. De tal modo que chegou a sentir-se na obrigação de avançar. E tê-lo-ia feito, não fora a consciência de que seria um erro. Outra condutora não teve o mesmo entendimento. Saiu do carro e foi tentar parar a contenda. Mal, muito mal, segundo esta pregadora sem púlpito.

    Aumentou o volume. Era preciso que lhe dessem ouvidos. A bem ou a mal. Sim, porque isto de uma mulher se intrometer em disputas de machos era sinal do fim dos tempos. E a culpa era das mães, que incutem nas meninas a ideia de igualdade. Ora, da igualdade à usurpação do lugar dos homens é um saltinho. E agora os homens já não sabem o que são e andam perdidos. Não há ordem, não há hierarquia. É o fim da família.

    Um senhor idoso, com quem partilhava a mesa, ainda lembrou, a medo, que o passado também não era exemplo. Mas mal conseguiu terminar a frase:

    – Havia família –  dizia ela –  e havia respeito. Os homens eram homens e agora coitaddinhos. São uns desgraçados nas mãos delas.

    O monólogo prosseguia. O café a provocar acidez no estômago. A queijada entalada na garganta.

    Desligar e ignorar, impossível.

    Afonso recordou então uma conversa tida dias antes, a propósito dos benefícios e dos efeitos colaterais das políticas de quotas, da imposição de paridade e demais formas de procurar compensar desequilíbrios históricos.

    Houvera, então, quem argumentasse ser injusto não se ser escolhido por uma questão de género ou de cor de pele. Tal como houve também quem defendesse o contrário. A troca de ideias dera-se sem que se tivesse chegado a um veredito simples. Ficaram muitas dúvidas, outras tantas respostas e a tentativa de perceber como equilibrar justiça e realidade.

    Percebeu então que, mesmo hesitando por momentos, mesmo admitindo algum incómodo quando as escolhas ignoram o mérito individual em nome de um bem maior, não tinha dúvidas.

    Entre a paridade e a parvidade, escolherá sempre a primeira.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • Os ‘numbaros’

    Os ‘numbaros’

    Filha de um pianista alemão e de uma pintora portuguesa, a Emma era uma aluna brilhante, com nota máxima em todas as disciplinas. Pais e professores cedo lhe incutiram a ideia de que seria um desperdício seguir Humanidades.

    Ciências eram sinónimo de um futuro garantido. E foi assim que, sem especial entusiasmo, mas convicta de estar a escolher o caminho mais seguro, se  preparou para ingressar numa exigente faculdade de engenharia.Filha de um pianista alemão e de uma pintora portuguesa, a Emma era uma aluna brilhante, com nota máxima em todas as disciplinas. Pais e professores cedo lhe incutiram a ideia de que seria um desperdício seguir Humanidades.

    Ciências eram sinónimo de um futuro garantido. E foi assim que, sem especial entusiasmo, mas convicta de estar a escolher o caminho mais seguro, se  preparou para ingressar numa exigente faculdade de engenharia.

    Fê-lo com dedicação absoluta, consciente de estar a abdicar de qualquer vestígio de adolescência, mas na certeza de que o sacrifício um dia seria compensado. Pelo menos, era o que lhe garantiam.

    E assim, enquanto os colegas saíam à noite, iam à praia, às festas e eram felizes, a Emma estudava. De manhã à noite.

    Sabia o que queria, e nem os sorrisos abertos e os olhares insinuantes do Tomás a desviavam do caminho. Teria sido um caso interessante de estudar, se saísse no exame. Mas, infelizmente, não.

    Chegado o grande dia, rumou à universidade, preparada para os novos desafios. Agora sim, era a sério. Estava pronta para o rigor, para a complexidade.

    Feita a apresentação da professora, desfiado o novelo de títulos e feitos académicos, seguiram-se as boas-vindas e os parabéns pelo ingresso num curso de excelência:

    — Aqui não há cá as tretas das Letras. O que conta são os “numbaros”.

    Bem-educada, a Emma conteve-se. Esperou pelo fim da aula e retirou-se. De vez…

    Hoje, é tradutora de poesia. Vive num monte alentejano e é feliz. Volta e meia, ainda se pergunta o que terá sido feito de Tomás.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • A menina de cristal

    A menina de cristal

    Guardaria como primeira memória o cheiro da maresia. E, como primeira sensação, a da água fresca da ria a tocar-lhe os pés. Nascera na ilha e ali crescera, com o sal a tatuar-lhe a pele e o vento do mar a entranhar-se-lhe na alma.

    Na escola, viria a descobrir o amor pelas letras. Lia tudo o que a professora lhe punha diante dos olhos. A pequena estante a que chamava biblioteca era um tesouro. Mas estudar era privilégio de rapazes e, concluída a quarta classe, foi posta a aprender costura.

    Resignada, cosia e bordava sem grande jeito, e com menos vontade ainda. Pontos, pespontos, caseados, alinhavos, franzidos e pregas. O enxoval foi-se formando, e ela fez-se mulher curvada naquela cadeira, entre linhas, panos e tédio. Quando se apercebeu disso, o pai apressou-se a casá-la.

    Casou-a bem, diziam. Com o dono de uns viveiros. Um homem feito, trabalhador, honesto, capaz de lhe dar uma vida segura.

    A união celebrou-se com três dias de festa de arromba, em pleno mês de agosto. A ilha apareceu em peso. Vieram convidados da vila, parentes afastados de Lisboa e até os padrinhos, há muito emigrados, vieram da França. Houve mesas fartas, música e bailarico pela noite fora, cantou-se à desgarrada, e o cheiro a mar misturava-se com o das ostras e do vinho derramado nas toalhas.

    Não tardou a nascer a primeira filha. As vizinhas diziam que não a tinha dado à luz, que a tinha dado ao mar. A criança parecia feita de água e claridade: pele translúcida, olhos azuis, cabelos leves, ondulados como as marés. Passava os dias na praia, entre as conchas e a espuma. E nem assim o sol lhe dourava a pele.

    Na ilha, começaram a chamar-lhe a menina de cristal.

    Já dentro de quatro paredes, o brilho desvanecia. O pai era um homem duro, um homem de negócios. Nunca deixou que faltasse nada em casa, à exceção de afeto. Mas pior do que ser distante e frio, era ser um bruto nas palavras e nos gestos.

    A mãe, como a filha, era uma alma clara e delicada, mas triste. Foi ela quem insistiu para que a menina estudasse. Se fizesse o Magistério, podia ser professora na escola da ilha.

    O pai acabou por ceder.

    A mãe, apesar da felicidade que sentia pela filha, começou a desaparecer devagarinho. Sem ela por perto, foi-se tornando mais transparente a cada dia que passava. Um dia, fez-se invisível.

    Órfã de luz, órfã de amor, órfã de um lar, a menina de cristal prosseguiu estudos. Foi para longe. Tão longe quanto possível daquela ausência.

    Por muito que amasse a ilha, por muito que pertencesse àquele mar, sabia que não tinha escolha. Só a distância a salvaria.

    Estudou, trabalhou, encontrando sempre pretextos para não voltar. Até que a velhice do pai impôs o regresso. Instalou-se na vila, nas ruas que conhecia tão bem, entre rostos familiares e memórias que evitara.

    Para eles, era a menina de cristal de sempre: bela, delicada, brilhante. Iluminava tudo e todos à sua volta.

    E, no entanto, sem que ninguém percebesse, foi ficando transparente. Já quase não se via.

    Percebeu ela, e fez-se invisível.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.

  • O eleito

    O eleito

    Começou por chover. Choveu muito naquele dia. Bem mais do que habitual. Ainda assim, ninguém se mostrava preocupado. Acontece.

    Mas a borrasca não parou. Os dias foram-se sucedendo, os campos saturaram, as ribeiras transbordaram e, de repente, a enxurrada invadiu ruas e casas.

    Celestino nunca esqueceu a sucessão de telefonemas, a corrida apressada para tentar salvar o que fosse possível, a torrente castanha a arrastar carros, os móveis a boiar, as máquinas inutilizadas, os álbuns de família ensopados. Anos de vida e de trabalho desfeitos em instantes.

    Quando as águas recuaram, deixaram pouco mais do que lama e prejuízos. Quase todos tinham sido atingidos. Não ele, felizmente. A sua casa ficara inexplicavelmente incólume. A água chegara até à entrada, mas parara por ali.

    Durante dias, enquanto ajudava os vizinhos a limpar o que restara, perguntava-se por que motivo fora salvo. A casa, o carro e a família escaparam por um fio. Não compreendia a razão, embora aceitasse que a natureza, caprichosa e magnânima ao mesmo tempo, guardasse os seus próprios desígnios e, entre tantas pessoas, tivesse decidido poupá-lo.

    Anos depois, surgiu nova provação. Uma doença grave, tratamentos difíceis, noites mal dormidas… Celestino sentiu medo. Mas recuperou. Salvo pelo santinho da sua devoção, explicava:
    — Rezei muito, acendi muitas velas, fiz promessas. Nunca baixei os braços.

    Convencera-se de que o santinho reconhecera nele a fibra de um lutador, a coragem de um guerreiro e decidira, por isso, conceder-lhe uma ajuda extra. Médicos competentes, tratamentos eficazes e o acaso de um diagnóstico atempado eram meros pormenores. O essencial residia na luta travada. E o Céu, como se sabe, aprecia gente assim. Quanto aos outros, aos menos afortunados, concluía apenas, com pena, que talvez lhes faltasse a mesma fibra.

    Como não há duas sem três, passado algum tempo, viu-se de novo em apuros. Desta feita, durante umas merecidas férias tropicais. Um passeio de barco, música, calor, fotografias, bebidas geladas, tudo interrompido por uma manobra mal calculada que atirou os passageiros à água.

    Por entre gritos de desespero, Celestino, que nunca aprendera a nadar, debateu-se como pôde. Então, num instante quase milagroso, surgiu à sua frente uma boia e uma mão providencial puxou-o para outra embarcação. Iemanjá olhara por ele. Não por todos, lamentavelmente, mas por ele. Não podia ser coincidência. Tantas vezes poupado, tantas escapadelas à justa. Havia qualquer coisa no céu, no mar ou nas contas do destino decidida a mantê-lo por cá.

    Viu esta proteção confirmada no dia em que ganhou uma pequena fortuna na lotaria. Um bilhete comprado à última hora, números escolhidos ao acaso e, de repente, a vida que sempre desejara. Comprou casa nova, trocou de carro, deixou o emprego. Na verdade, sempre suspeitara de que estava tudo traçado desde o princípio e alimentava a convicção de que as dificuldades ultrapassadas mais não eram do que provações que o preparavam para algo maior e merecido.

    Até que, quando tudo parecia finalmente tranquilo, a mulher anunciou estar apaixonada por outra pessoa. Sem dramas. Sem acusações.

    — Não és tu, sou eu.

    Decisão tomada e metade da vida arrumada em duas malas. Partiu.

    Celestino ficou sentado à mesa da cozinha, o olhar e a casa vazios, aguardando uma explicação inexistente.

    Não vieram em seu socorro o santinho, nem Iemanjá, nem sequer a mãe natureza, que bem podia providenciar uma tempestade naquele instante.

    Limitou-se a suspirar:

    — Que pouca sorte!

    Foi a primeira vez que a palavra lhe ocorreu.

    Por um instante, o universo distraíra-se e Celestino via-se, agora, expulso do círculo dos eleitos. Sujeito à sorte, como um qualquer mortal.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve.