DESMAMES I Tenho uma teoria baseada num largo espectro de viagens e sociabilizações mais ou menos forçadas de que todos padecemos de alguma doença ou vício. Pode ser crónica ou passageira, aguda ou grave e levar ao túmulo. Quando escrevo no meu bloco de notas “dia 1 começo o desmame de (não digo o quê)”, estou a decretar os meus vícios. Sei que um par deles me podem arrumar ou até arruinar, acabando os meus dias arrumado e seco como uma uva passa.
Um desmame confessável é a dependência de um dispositivo onde ir buscar entretenimento. Um telefone esperto, cheio de aplicações úteis e inúteis. O desejo de ser inútil é mais forte e não cedo à utilidade. Por exemplo, a inteligência artificial, esse logro dos ociosos. Quem diz que não estou a mentir e tudo isto que aqui vai escrito não foi parido por um cérebro virtual à boa maneira do escrivão Tiago Salazar? Quero desmamar como quem desabrocha tirando da boca um caule viçoso e usá-lo como deve ser, isto é, em sede própria que é amar sem orifícios. Não alcançaram este rasgo boca Giano mas eu explico. Quero largar o vício de me enamorar perdidamente e só me perder para me encontrar a seguir, onde haja mamas grandes e vistosas, preenchidas de chicha como um belo bife da vazia. Quero desmamar-me de tudo o que me é nocivo e nefasto, de prosas chochas a cagalhões com asas e quem exorta o osso da pila e seja falho de tomates.

Nem se trata de um sonho a sair do sono para a vida real. É tão-somente o querer absurdo de viver num prado quente, amaciado pela lhaneza dos dias felizes. E que não me cobrem IMI. O IVA não há como escapar, pois é de valor acrescentado querer-me assim tão despojado no calor da Felicitas. Há ainda um outro querer, mais prosaico e digno de constar de um livro de auto-ajuda: quero que todos os que mal me querem se fodam. Irei cuspir-lhes nos túmulos se não os vir antes numa artéria qualquer, à esquina do labirinto e me sair uma gosma de Minotauro directa às suas fuças imundas, às comissuras dos seus lábios infectos. Sim, é um vício danado este de dar piparotes como o faz com cintilante talento do além de Vera Cruz o meu defunto colega de trabalho D. Brás. Mas que diabo, não faz parte da comédia humana ter um pequeno vicio como atirar aos patos?
DESCULPAS I Se formos a ver há sempre uma (tentativa de) justificação para certas e determinadas condutas. Para tal se inventou a legislação da legítima defesa.
Por exemplo, o famigerado Casanova antes de andar de leito em leito e telhado e telhado foi um corno sofrido, vítima de um desgosto. Após a rejeição e o abandono passou a usar e deitar fora. Nada de compromissos. Tivesse feito terapia e muitas vítimas teriam sido poupadas. Incluindo o próprio.
Andar à cata de falhas, faltas e falhados também não há de ser coisa boa. Dá jeito aos humoristas mas pouco acrescenta.

NATAL I Todos os dias há um natal para acontecer. Um nascimento ou renascimento, uma outra forma de ver. O verbo Ver enforma amplitude. A grande questão (humana) é o perdão e a paz que isso traz. Entre os bichos é outra coisa. Quando os homens não saem dos bichos o território é muito importante. A sobrevivência, o instinto, o medo. Não o medo consciente de morrer, mas o que vem da ameaça. Ninguém deveria viver sob ameaça, de não ter comida, abrigo e um certo lugar de confiança e conforto. Estar na natureza (como estou neste dia) e ver o firmamento de pés bem assentes na terra a rever o filme da minha vida, amplifica o sentimento de que o melhor está sempre para vir. Quanto ao fim, há sempre uma hora marcada para nós todos. O apito final. Enquanto isso folguem-se as costas e sobretudo aprenda-se o mais possível, de tudo um bocadinho, de como fazem os bichinhos até ao acto constante do Amor.
19710 I Daqui a pouco serão estes os dias passados no planeta Terra. Que aprendi de novo, de significativo entre a infância e o dia de hoje? A medir e avaliar o bom uso das palavras. A ter em consideração que moro entre gente cujas vidas são, tal como a minha, um constante tirocínio. Ou seja, a não esperar nada de ninguém. Aprendi cedo o que é a rejeição, o abandono, a negligência, a pancada, o tabefe, o soco, o sarcasmo, a ofensa e o grito. A espaços, conheci laivos de ternura, doçura materna da mãe avó, a importância de fazer bem o trabalho seja ele qual for. A não dizer tangas nem armar-me aos cucos e a viver com o amealhado sem saquear. Aprendi que a maldade, a ingratidão, a infâmia, andam a par com a bondade e a compaixão. Aprendi a estar mais calado do que a reagir a cada bojarda, a cada atoarda e a ler e a escutar o dito entrelinhas. Talvez por isso, no lugar de percorrer ruas e avenidas de amargura me limite a criar enredos mormente a partir de factos, de acções e constatações de que o pior da Terra são os humanos. Aprendi que o Amor é uma rua sossegada onde se passa raramente.

O MODELO RONALDO I O dom para a chincha do menino Cristiano fez-se notar cedo e ala para Alvalade como poderia ter ido parar a outro clube qualquer. Foi lá que comeu, bebeu, dormiu, treinou, aprendeu e teve palco para se mostrar e começar a encher o pote. Agarrou todas as oportunidades e transcendeu-se a jogar à bola. A determinação é o seu forte. Chamem-lhe ego, narcisismo ou ganância e ambição desmedida. Se o dom do puto fução fosse outro, a pintar (como o Jordão) ou escrever romances, não se teria feito multimilionário, recordista de tudo e um par de botas. O modelo Ronaldo é válido no escanteio. Perseverar, comer frango, peru e bróculos, não beber, não fumar, não beber nada a não ser água ionizada, e contratar os melhores, da confecção aos dribles aos fiscos ou a abafar historietas de agasalho e alguidar.
O problema actual dos Ronaldos é acharem-se mais papistas que o Papa. E não se contentarem com os seus feitos. Quererem sempre mais e mais (ocultando as suas falhas). Não se trata de conformismo de fim de carreira, mas de saber sair de cena e reinventarem-se noutras cenas. Já nem se fala de como redistribui o amealhado, porque isso é lá com ele. Quanto a ser partenaire de regimes autocráticos que fuzilam jornalistas e achincalham mulheres, o que seria de esperar de um rapaz que só aprendeu a jogar à bola?

PESSOAS I Tudo se resume às pessoas. A laços e percalços. A começar nos pais, ancestrais, padrões e o que fazer com tudo isso, a herança, a genética, até chegar à superação e à transcendência, se for o caso, ou uma vida inteira redundar numa oportunidade (ou sucessão de oportunidades) perdida. A pessoa que melhor conheço sou eu. Daí que prefira a autobiografia. A vida que conheço melhor do que qualquer outra é a minha. Não que tudo o que se escreva seja a mais pura das verdades. A memória é falível e a expressão fluente não toca a todos. Mas que se diga e escreva tudo sem contemplações. Entre o que eu gostava que tivesse sido e o que foi há um fosso de crocodilos. Foi um crescimento disfuncional e graças a Deus e a mim, não descambei nas drogas, nem leves, nem duras, no alcoolismo ou qualquer coisa desviante como a política ou a polícia. Não escapei aos comprimidos e ao divã, e ao sexo promíscuo até concluir que tudo faz parte. É a plena consciência da nossa natureza múltipla e a integração da miríade de elementos de que somos compostos que nos faz completos, que nos faz humanos.
A escrita foi desde cedo e é uma forma de achamento e redenção. As pessoas, incluindo eu, são estranhas e capazes do melhor e do pior. Até ver não houve homicídios na família. Pilhagens, ofensas, ódios, intrigas, invejas e desejos de ver um familiar na merda ou morto, isso há, como em muitas idóneas famílias. Também houve e há os parentes por afinidade que cospem fel depois de terem mamado à conta e partilhado a mesa da consoada. Como pode haver paz se o que mais há é Insensíveis?
1991-2026 I Este ano passam 35 anos da publicação do meu primeiro artigo enquanto profissional de Imprensa. Um artigo sobre o grupo de Teatro do Hospital Júlio de Matos. Posso dizer com orgulho ter feito tudo o que mais quis. Reportagens, entrevistas, crónicas e artigos de toda a espécie e feitio, até sobre bricolage. Fiz o tirocínio com mestres como Eurico de Barros, Nuno Henrique Luz, Sofia Barrocas, Maria Augusta Silva ou António Moutinho Pereira, entre outros, como Vera Lagoa ou Miguel Sousa Tavares.

Hoje, assino no PÁGINA UM, um projecto de Jornalismo com caixa alta. Mesmo nos anos de suspensão da carteira, mantive-me no activo a escrever crónicas. Passei por jornais, revistas, TV e rádio. Para assinalar esta data redonda vou fazer uma viagem. Foi graças ao Jornalismo que publiquei Viagens Sentimentais, A Casa do Mundo, As Rotas do Sonho, Endereço Desconhecido, Quo Vadis, Salazar?, Crónica da Selva e O Moturista Acidental. Desta viagem nascerá um livro e projecto digital. Em breve haverá divulgação mais específica. Os livros é só aviar. As crónicas Cá se Fazem estão disponíveis no PÁGINA UM.
Tiago Salazar é escritor e jornalista
