António José Seguro, o sonso do regime


“Deslealdade e traição…isto não se faz; não foste solidário com o teu partido, nem com o líder do partido.” Assim falou António José Seguro de António Costa em 2014, num daqueles momentos em que o Partido Socialista resolveu devorar-se a si próprio, como é seu hábito, antes de voltar a sentar-se à mesa do poder com o Segundo Partido Socialista, também conhecido por PSD.

A frase ficou célebre não pelo conteúdo, mas pelo carácter involuntariamente autobiográfico. Porque poucos políticos portugueses encarnam tão bem a deslealdade mansa, a traição higienizada e a ambição sem risco como António José Seguro – o homem que nunca afronta, nunca rompe, nunca decide, mas que aparece sempre quando o cheiro do poder se torna mais intenso.

Seguro surge agora como candidato presidencial com o ar beatífico, de quem nunca sujou as mãos porque nunca fez nada que exigisse coragem. Ele é o produto acabado de mais cinquenta anos de regime: um político moldado na espuma morna do consenso, onde ninguém é responsável por coisa alguma e todos falam em nome de valores abstractos.

Senão vejamos: temos mais um devoto da sucessora da defunta União Soviética, a União Europeia, apresentada como espaço natural da soberania portuguesa. Seguro defende a continuação de Portugal na UE e na zona euro com o fervor de quem defende um dogma religioso. Não há reservas, não há dúvidas, não há reflexão. O euro é vital, Bruxelas é vital, o BCE é vital. Vital para quem?

Não para a classe média, certamente, que vê salários e poupanças destruídos pela inflação do cartel bancário liderado pelo BCE, enquanto os detentores de activos enriquecem obscenamente. É o socialismo reinventado: em vez de todos pobres e miseráveis, temos uma aristocracia financeira e uma plebe assaltada por impostos e inflação.

E porque todo o bom “europeu” precisa de bons aliados internos, Seguro não escondeu a sua alegria em convergir em tempos com os comunistas trotskistas do Bloco de Esquerda. Há “espaços de diálogo”, diz, designadamente em matérias sociais e europeias. Traduzindo: há espaço para mais Estado, mais redistribuição coerciva e mais integração supranacional.

Quando tenta pensar o país, a indigência intelectual torna-se quase embaraçosa. Um pacto para a saúde. Um pacto. Como se o Serviço Nacional de Saúde, esse monumento soviético à ineficiência, falhasse por falta de abraços interpartidários. Um sistema sem preços, sem pagamentos voluntários, financiado por impostos arrancados coercivamente à população, há-de funcionar se os partidos e as corporações do sector fizerem as pazes e prometerem portar-se bem. É a economia tratada como um jardim-de-infância, onde o problema nunca é estrutural, mas comportamental. O menino SNS só precisa de carinho e mais dinheiro roubado aos mesmos de sempre.

Seguro revela-se também um entusiasta da planificação económica em nome da “defesa da Europa”. Acha que a Europa não pode estar sempre a ceder, defende medidas retaliatórias, tarifas e restrições ao comércio, como se os consumidores não pagassem sempre a conta. É o socialismo proteccionista: combate-se a liberdade de troca em nome de uma soberania que já não existe. Para Seguro, a tirana Ursula von der Leyen é uma espécie de espadachim de opereta, enfrentando Trump, enquanto destrói silenciosamente a competitividade europeia. Seguro aplaude, porque planear é sempre mais nobre do que deixar as pessoas escolher livremente.

Globalista por formação e por instinto, Seguro não caiu de pára-quedas na Europa. Foi eurodeputado, participou em relatórios sobre o Tratado de Nice e sobre o futuro da União. Viveu dentro da máquina. O projecto europeu não é para ele um debate; é um ambiente. Por isso nunca o questiona. Nunca discute a centralização de poder, nunca problematiza a erosão democrática, nunca levanta a questão da soberania. Para Seguro, a União Europeia é como o ar: respira-se, não se interroga.

Durante a putativa pandemia, esse instinto autoritário floresceu sem constrangimentos. Seguro defendeu confinamentos, restrições, obediência cega às autoridades de saúde e suspensão prática de direitos fundamentais. Apoiou prisões domiciliárias sem mandado, acusação ou julgamento.

Legitimou a eliminação do consentimento informado, a segregação de cidadãos com base no estado sanitário, a exclusão social dos que recusaram inocular-se com uma substância experimental. Para alguém que se diz defensor da Constituição, revelou-se mais um para quem a Lei Fundamental é papel decorativo em tempos de medo. “Direitos, liberdades e garantias” são para tempos normais; em emergência, manda o Estado.

A agenda verde encaixa-se perfeitamente neste perfil. Seguro nunca a criticou, nunca falou dos custos económicos, nunca se preocupou com a destruição da indústria europeia provocada pelo encarecimento da energia. Pelo contrário, promove reuniões com especialistas do clima, fala de gerações futuras e abraça a transição energética como se fosse um imperativo moral absoluto. Que a classe média seja esmagada, que empregos desapareçam, que a indústria se desloque – tudo isso é secundário face à virtude abstracta. Ambientalismo de Estado, sem cálculo económico, sem debate democrático, sem legitimidade popular.

Os apoios que recolhe são elucidativos. Pedro Nuno Santos, o homem que ajudou a enterrar 3,2 mil milhões de euros na bancarroteira nacional, mais conhecida por TAP, surge a apoiá-lo com entusiasmo. O regime reconhece os seus. O cheiro do poder atrai sempre os mesmos, sobretudo aqueles que já demonstraram talento para gastar o dinheiro que roubam aos outros com total impunidade.

Já em relação aos apoios que dá, como todo o homem do regime reconhece instintivamente os seus, António José Seguro não hesitou em sair em defesa de José Sócrates, o célebre engenheiro dos computadores Magalhães, num vídeo que voltou a circular oportunamente antes de eleições e que o verificador de factos apressou-se a contextualizar como sendo “de outros tempos”, como se a desonra tivesse prazo de validade.

Seguro falou então de injustiça, de presunção de inocência e de perseguição, esquecendo-se apenas de mencionar, pela mão da mãe do engenheiro, a herança milagrosa de um milhão de contos guardado num cofre, os amigos oportunos, os testas-de-ferro distraídos e o pequeno detalhe de o protegido andar há semanas sem advogado, sinal inequívoco de quem confia serenamente na própria inocência.

O gesto não surpreende: Seguro sempre teve este instinto maternal para com figuras caídas do regime, desde que caiam dentro do mesmo círculo. Não é solidariedade humana; é solidariedade de casta. Quando o Estado falha, quando a justiça hesita e quando a vergonha devia impor silêncio, Seguro surge – grave, compungido e institucional – para lembrar que, no socialismo português, ninguém é realmente culpado enquanto tiver utilidade política ou cartão partidário.

No plano internacional, Seguro não falha: a NATO é essencial, repete. Os bombardeamentos de Belgrado em 1999, sem mandato da ONU, não lhe causam incómodo. A guerra na Ucrânia exige sacrifícios, diz. Sacrifícios de quem? Nunca esclarece. Certamente não dele. Os filhos dos outros servem sempre melhor para morrer em nome da democracia abstracta. Se a convicção fosse genuína, talvez já tivesse partido para a frente de combate. Mas a coragem de Seguro é sempre delegável.

Em conclusão, António José Seguro é a personificação do “choninhas” institucional: aquele rapaz da escola que não fazia mal a uma mosca, mas denunciava todos ao professor, o verdadeiro “queixinhas”.

Nunca levanta a voz, nunca rompe o consenso, nunca desafia o poder – limita-se a aplaudir, com ar sério e grave, enquanto direitos são atropelados, a riqueza é destruída e o país se afunda numa mediocridade gerida. Seguro não é perigoso por excesso de convicção; é perigoso pela ausência dela. É o homem perfeito para presidir à decadência do regime, sorrindo, pedindo pactos e garantindo que tudo está a ser feito em nome do “bem comum”.

Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário