Etiqueta: Editorial

  • “Jornalistas comerciais”: a cagufa dos vendilhões do templo

    “Jornalistas comerciais”: a cagufa dos vendilhões do templo


    Ontem, o PÁGINA UM revelou, em primeira-mão, a deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) sobre os contratos comerciais entre o Porto Canal e entidades públicas, que resultou na abertura de três processos, o envio de uma comunicação ao Tribunal de Contas e a remessa de um caso de participação de um jornalista na execução de contratos de índole comercial para efeitos disciplinares junto da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista.

    O assunto é de inegável interesse. Basta observar outras situações em que a ERC e o canal televisivo associado ao Futebol Clube do Porto, presidido por Jorge Nuno Pinto da Costa, se envolvem.

    A jornalista e pivot da SIC Marta Atalaya durante uma conferência no âmbito de uma parceria comercial entre o seu empregador e uma farmacêutica.

    Porém, o assunto não foi pegado, até agora pela imprensa, apesar da notícia do PÁGINA UM ter já um número muito apreciável de leituras (já acima das 12 mil, por agora). E não digo, desta vez, que seja por uma certa “aversão”, na imprensa mainstream, a se citar o PÁGINA UM – que tem funcionado como uma espécie de “consciência pesada”. Basicamente, é por cagufa.

    Sim, cagufa. Miúfa. Cagaço. Medo, enfim.

    Sim, porque – e aleluia!, elogie-se! –, finalmente a ERC entendeu que a vergonha tinha de parar. No decurso da análise do regulador ao Porto Canal esteve, em grande medida, a identificação de ligações entre jornalistas habilitados com a carteira profissional e contratos comerciais que , directa ou indirectamente, estipulavam tarefas, compromissos e funções de informação. Ou seja, colocavam a independência e a linha editorial em causa.

    Bem sei que há muitas equipas de marketing e muitas administrações e direcções de grupos empresariais de media – na verdade, quase todas – que surgem agora a defender que a evolução do mercado levou à necessidade de reformulação de conceitos comunicacionais e blá blá blá blá… Tudo tretas: uma coisa são os canais de comunicação, que podem e devem – por questões de sustentabilidade financeira – ser veículos de mensagens publicitárias; outra coisa é garantir, mesmo que caia Carmo e Trindade, que os “conteúdos” informativos têm de ser isentos, rigorosos e independentes, e executados por jornalistas que nada devem fazer na parte comercial ou de marketing.

    Rosalia Amorim, directora do Diário de Notícias, é uma habitué na moderação de eventos realizados pela Global Media e pagos pelo Estado, empresas e autarquias.

    E essa independência pode – e deve – ser completa, mesmo arriscando a perda de clientes das tais mensagens publicitárias. Mais vale a morte do Jornalismo do que um Jornalismo Prostituto. Siga-se pois a máxima de Cristo, segundo o Evangelho de São Mateus: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Ou, prosaicamente, “Dai, pois, ao Marketing o que é do Marketing, e ao Jornalismo o que é do Jornalismo”.

    Mas o Jornalismo nunca morrerá. A prazo, é sempre a isenção, o rigor e a independência da informação que sustentam um órgão de comunicação social. Não o digo com o mesmo modelo do PÁGINA UM – que leva ao extremo essa máxima, como contraponto, renunciando às receitas publicitárias. O modelo do PÁGINA UM serve sobretudo para demonstrar que a qualidade “vende” até mesmo se o produto é “oferecido”, seguindo os princípios económicos da disposição a pagar (willingness to pay). Se o produto “qualidade” for escasso, as pessoas valorizam-no.

    A isenção, o rigor e a independência podem não trazer anunciantes imediatos, mas trazem leitores, trazem consumidores das tais mensagens publicitárias; e garante-se assim “fluxo normal e saudável”: as empresas pagam para apenas anunciar os seus produtos e mensagens num órgão de comunicação social de uma forma independente da informação.

    Público, e o seu director Manuel Carvalho, têm executado contratos comerciais susceptíveis de interferirem com a independência editorial do jornal.

    Ora, aquilo que foi sucedendo com a imprensa – sem prejuízo das novas tecnologias – foi a subversão deste equilíbrio, de sorte que se vendeu a alma ao diabo. Começou-se com publireportagens – que mesmo assim tinham uma clara distinção entre o conteúdo jornalístico – e acabou-se nisto: na mais completa e pornográfica promiscuidade entre entidades públicas e privadas e órgãos de comunicação social, com os seus jornalistas transformados em tarefeiros para executar contratos comerciais, sem que o leitor se aperceba se aquilo que lê, ouve e/ou vê é um produto jornalístico ou é afinal uma encomenda paga pelo patrocinador.

    Aquilo que a ERC finalmente fez com os contratos do Porto Canal, com a deliberação divulgada pelo PÁGINA UM, é somente a ponta de um icebergue que temos, ao longo dos últimos meses aqui anunciado. O jornalista Pedro Carvalho da Silva, do Porto Canal, é apenas um dos muitos “jornalistas comerciais” da nossa praça.

    E estamos a falar ao mais alto nível. Ou seja, de jornalistas com cargos de direcção. Por exemplo, Manuel Carvalho, o ainda director do Público, ou David Pontes, que o vai substituir em Junho, já participaram activamente na concretização de diversos contratos comerciais, através da sua presença como moderadores em tarefas estipuladas nos cadernos de encargos.

    Na Mobi Summit do ano passado, um evento de uma empresa municipal de Cascais, chegou a ser nomeado um “curador editorial”, Paulo Tavares, antigo jornalista, que coordenava a cobertura mediática pelos periódicos da Global Media. Esta função não existe na Lei da Imprensa nem os jornalistas podem estar sob a alçada de pessoas sem carteira profissional de jornalista ou equiparado.

    Rosália Amorim (CP 1788), pela sua tamanha presença em eventos de índole comercial, é de jure directora do Diário de Notícias, mas parece acumular de facto o cargo de comercial da Global Media. Mas está longe de ser a única neste grupo de media.

    Há alguns meses, em Outubro do ano passado, noticiámos que num evento (Mobi Summit) patrocinado por uma empresa municipal de Cascais quase todos os debates foram moderados por directores das publicações da Global Media, demonstrando a forte ingerência de jornalista num evento comunicacional. Além de Rosália Amorim, também Joana Petiz (directora-adjunta do Diário de Notícias e directora do Dinheiro Vivo, CP 4449) e Pedro Cruz (director executivo da TSF, CP 1611) moderaram três debates, cada um. Pedro Ivo Carvalho, director-adjunto do Jornal de Notícias, CP 3104) moderou dois e Jorge Flores (editor executivo do Motor 24, sem registo de carteira profissional) um.

    Neste evento, a quantidade de “jornalistas comerciais” foi avassaladora. Por exemplo, Rute Coelho (CP 1893) tanto escreveu no Diário de Notícias como no site do evento Portugal Mobi Summit. Esta jornalista, com mais de 20 anos de experiência, revelou-se como um dos casos evidentes de “mercantilização” do jornalismo, impedido por lei, uma vez que oferece serviços de relações públicas e consultoria em marketing no LinkedIn. Além desta, houve participação na cobertura mediática por mais três jornalistas Elisabete Silva (CP 4391), Ana Meireles (CP 2808) e Carla Aguiar (CP 739), que foi a autora da peça sobre a intervenção do ministro Duarte Cordeiro. Esta jornalista do Jornal de Notícias fez também pelo menos uma entrevista a um participante do Mobi Summit antes da realização do evento.

    Para completar o leque de directores que já tiveram tarefas promíscuas, identifico também Inês Cardoso, directora do Jornal de Notícias, e Mafalda Anjos, directora da Visão. Sobre a Visão, aliás, regressarei ao tema em breve.

    O jornalista Bernardo Ferrão, que apresenta também o Polígrafo SIC, já moderou conferências de índole comercial entre a Impresa e farmacêuticas.

    Por diversas vezes falei aqui também numa dupla de “jornalistas comerciais”, que personificam a libertinagem absoluta e absurda, onde já nenhuma fronteira de decência e ética subsiste. São eles os jornalistas Francisco de Almeida Fernandes (CP 7706) e Fátima Ferrão (CP 6197), que a pretexto de trabalharem numa agência de produção de conteúdos, fazem tanto notícias como free lancers para periódicos, sobretudo da Global Media e da Impresa, como conteúdos patrocinados para cumprimentos de contratos comerciais nessas mesmas empresas de comunicação.

    A empresa onde trabalham estes jornalistas (a Mad Brain) concebia e executava a revista Energiser da Galp, fruto de uma parceria comercial com a Impresa. Nada lhes aconteceu desde que o PÁGINA UM denunciou este fartote de indecência.

    Aliás, foram as promiscuidades (e ainda mais pornográficas, porque nada se esconde) detectadas, que o PÁGINA UM, em Maio do ano passado, em vez de continuamente fazer notícias, acabou por elencar 56 contratos suspeitos (e juntou posteriormente mais cerca de uma dezena), envolvendo os principais grupos de media e entidades públicas, onde aparentemente se exigia a participação activa de jornalistas para a sua execução, numa clara ingerência na linha editorial independente que se exige. E mandou tudo para a ERC, a aguardar comentários. A ERC prometeu averiguar, e espero ainda sentado.

    A Mad Brain é uma empresa de conteúdos onde dois jornalistas tanto escrevem notícias como conteúdos patrocinados, e onde, na verdade, se ignora se as notícias são ou não também conteúdos patrocinados.

    Nesse lote seguia, por exemplo, uma entrevista ao bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas em cumprimento de um contrato comercial, que foi publicada no Diário de Notícias.

    Mas não estava ainda incluída a participação de jornalistas da SIC na execução de um contrato de 31 mil euros entre a Impresa e a Ordem dos Contabilistas para a cobertura de um congresso, onde vários jornalistas a darem o “corpo ao manifesto”, como foram os casos dos pivots e jornalistas Bento Rodrigues (CP 1270) e Rodrigo Pratas (CP 3979) e dos jornalistas Débora Henriques (CP 5674) e Afonso Guedes (CP 7857).

    E isto só para citar os contratos com entidades públicas, cujos contornos são conhecidos. Imagina-se apenas o que se passará com empresas privadas, onde os contratos ficam no segredo dos deuses. Com as farmacêuticas, por exemplo. Pela amostra de que já falei aqui, dá para se ter uma ideia do regabofe.

    Por tudo isto, compreende-se que muitos vendilhões do templo não estejam muito interessados em noticiar que a ERC – esperando que não seja isto o canto do cisne do actual Conselho Regulador, a ser eliminado pelo próximo – anda agora, finalmente, à “caça de jornalistas comerciais”; daqueles que, na verdade, têm contribuído para a perda de confiança pública na imprensa.

    ERC identificou, pela primeira vez, um jornalista por estar associado à concretização de um contrato comercial. O primeiro de muitos ou um canto de cisne?

    É preciso uma lavagem de ética na profissão, por muitas dores que tal cause, e por alguns empregos que se percam. Depois deste “tiro” da ERC com a deliberação sobre o Porto Canal, não é mais suportável a inacção da corporativa (e cultora do amiguismo) Comissão da Carteira Profissional do Jornalista nem a postura ambígua do Sindicato dos Jornalistas, que criticam estas promiscuidades, mas que calam na hora de identificar nomes e responsabilizar atitudes.   

    Espero que este seja o primeiro passo para inverter o actual pântano do jornalismo português. Precisamos, cada vez mais, de uma imprensa forte e credível – e credível pelo seu rigor e independência, e não pelos fatos & gravatas & voz certa, ou pela maquilhagem & postura & beleza. Sem uma imprensa forte e credível, com uma imprensa na dependência financeira de patrocinadores que mexem os cordelinhos da linha editorial, apenas teremos informação oca e manipulação grosseira, tudo aquilo que mina uma democracia.

  • Facebook: a rede (de condicionamento) social que é uma máquina de descredibilização do jornalismo independente

    Facebook: a rede (de condicionamento) social que é uma máquina de descredibilização do jornalismo independente


    O PÁGINA UM é um órgão de comunicação social regido pela Constituição Portuguesa, e cumpre os preceitos da lei portuguesa, não tendo, até à data, cometido qualquer tipo de de irregularidade e ilegalidade.

    Ao invés, o PÁGINA UM tem sido, largamente, o órgão de comunicação social português que mais tem recorrido para acesso a informação escondida por entidades públicas, incluindo Governo, sendo prova disso os diversos pareceres favoráveis da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) e as intimações no Tribunal Administrativo. Lembremo-nos, a propósito, que o PÁGINA UM até já venceu um destes processos contra o Conselho Superior da Magistratura (que entretanto recorreu).

    Facebook wall decor
    Tecnológicas como a Meta (Facebook) aplicam ferramentas de censura sob o disfarce de bloquear desinformação.

    Tenho, como director do PÁGINA UM, seguido escrupulosamente as regras éticas e deontológicas da profissão, mas sem divergir da linha de independência e de denúncia, mesmo quando envolve outros órgãos de comunicação social ou as entidades que regulam os media (ERC e CCPJ). Não me surpreende assim que haja ataques dessas entidades e nenhuma solidariedade por parte dos media face aos ataques a que estamos sujeitos. Se os criticamos, não podemos depois lamentar a falta de apoio.

    Na última semana tem-se intensificado a censura do Facebook, onde se mostra evidente que já não é apenas exercido por um “cego” algoritmo. A divulgação de duas notícias verídicas, confirmadas e confirmáveis, foram banidas pelo Facebook sem sequer dar uma hipótese de se recorrer nem fazer qualquer exposição.

    Uma das notícias banidas é sobre o processo de intimação do PÁGINA UM no Tribunal Administrativo de Lisboa contra o Infarmed. O nosso “crime”, para o Facebook, será estar a lutar nos tribunais pelo acesso a informação sobre reacções adversas das vacinas contra a covid-19 e do antiviral remdesivir. Para o Facebook, a notícia do PÁGINA UM constitui “desinformação com potencial para causar danos físicos“.

    Para o Facebook, um jornal português lutar no Tribunal Administrativo de Lisboa pelo acesso ao Portal RAM que contém informações anonimizadas sobre reacções adversas das vacinas contra a covid-19 e do antiviral remdesivir constitui um acto de “desinformação com potencial para causar danos físicos“, ameaçando com restrições e desactivação da conta.

    A outra publicação do PÁGINA UM banida pelo Facebook foi o podcast da jornalista Elisabete Tavares sobre as declarações do ministro alemão da Saúde, Karl Lauterbach, na passada semana. Os efeitos adversos das vacinas têm sido um tema de crescente interesse na Alemanha, como se pode verificar na cobertura do tema pela ZDF.

    Entretanto, há cada vez mais leitores que divulgam as nossas notícias e que têm recebido castigos do Facebook por causa disso.

    Sei qual o objectivo: criar um selo de desqualificação do PÁGINA UM, considerar o PÁGINA UM de site de desinformação.

    Comentários a declarações de ministros? O Facebook censura.

    Não permitirei isso. Bem sei que esta rede social tem um impacte importante na nossa comunicação – o PÁGINA UM tem quase 20 mil seguidores no Facebook –, mas começa a ser demasiado penalizador mantermo-nos numa rede social que, a cada dia, trata mais de descredibilizar um órgão de comunicação social inteiramente independente do que ajudar na divulgação.

    O PÁGINA UM, tendo em conta os seus poucos recursos, não se pode dar ao luxo de esgotar tempo e dinheiro a lutar contra uma rede social que nem sequer tem rosto – não há ninguém sequer a quem se possa expor o que seja.

    Por esse motivo, vamos no final do dia de hoje desactivar (veremos se definitivamente) o mural do PÁGINA UM no Facebook.

    O jornal continua, obviamente, a sua missão (aliás, estamos numa forte remodelação do design do site, que deverá estar concluída nos próximos dias), pelo que vos convidamos a visitar-nos quotidianamente. Não precisamos do Facebook. Não permitiremos que o Facebook nem outra qualquer empresa sem rosto nem controlo defina o que é verdade, o que é informação. Aliás, convém sempre lembrar-nos que o Facebook é o principal financiador dos conhecidos fact-checkers de origem e rigor muito duvidosos.

    Reforçaremos a comunicação através da newsletter (podem subscrever no site) e nas outras redes sociais, nomeadamente no Twitter, no Telegram e no LinkedIn.

    Fazemos votos e lutaremos para que a Censura não vença. Damos um passo atrás para, desviando-nos de quem é a favor da obscuridão, avançarmos (e contribuirmos) para um mundo mais transparente.

  • Sou arguido numa queixa da Ordem dos Médicos e dos doutores Miguel Guimarães, Filipe Froes e Luís Varandas: a minha absolvição será a condenação deles

    Sou arguido numa queixa da Ordem dos Médicos e dos doutores Miguel Guimarães, Filipe Froes e Luís Varandas: a minha absolvição será a condenação deles


    O senhor Miguel Guimarães, o senhor Filipe Froes e o senhor Luís Varandas, não satisfeitos com as negociatas alimentadas pelo pânico que foram fomentando desde 2020 na gestão da pandemia – e com as quais beneficiaram publica e monetariamente – apresentaram uma queixa-crime contra mim. Sou, desde hoje, formalmente arguido do processo 1076/22.5T9LSB, com o competente termo de identidade e residência.

    Não é propriamente novidade. Já em 17 de Agosto do ano passado, eu revelara que os ditos clínicos – usando (e abusando) do estatuto e dos dinheiros da Ordem dos Médicos, porque recorreram e vão continuar a recorrer aos advogados desta associação profissional de direito público – tinham interposto esta queixa-crime e enviaram-na como “elemento de defesa” e como estratégia de diversão no decurso de uma intimação que corria no Tribunal Administrativo de Lisboa para eu aceder aos documentos operacionais e contabilísticos da campanha Todos por Quem Cuida. Queriam, com este truque, influenciar a decisão da juíza de um processo administrativo. Esta sentença foi-lhes desfavorável, como se sabe, mas os ditos médicos não desistiram da queixa-crime.

    Miguel Guimarães (terceiro a contar da esquerda) e Filipe Froes (quarto) na sede do Ordem dos Médicos, em Julho de 2021, aquando da apresentação do plano de acompanhamento da pandemia com o presidente do Instituto Superior Técnico, Rogério Colaço, e o investigador Henrique Oliveira, autores de relatórios auto-intitulados como “esboço embrionário, que consubstancia uma mera análise para um eventual relatório).

    O fito (único) desta queixa-crime, eu sei qual é.

    O Doutor Filipe Froes quer ver-se livre do jornalista que foi responsável por denunciar as suas relações promíscuas com as farmacêuticas, e que provocou um processo de averiguações pela Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS). O Doutor Filipe Froes quer ver-se livre de um jornalista que tem insistentemente pressionado a IGAS para conhecer o desenvolvimento de um processo disciplinar que lhe foi aberto há mais de um ano (em 19 de Fevereiro de 2022), e que assim se mantém aberto por tempo indefinido para supostamente justificar o secretismo das acusações – e assim a culpa cair no esquecimento até morrer solteira [o PÁGINA UM vai intentar novo processo no Tribunal Administrativo para aceder às conclusões do processo de averiguações e ao despacho do inspector-geral da IGAS de 19 de Fevereiro de 2022, por já ter decorrido mais de um ano].

    Quanto ao Doutor Miguel Guimarães – para o qual a História, quando for feita de forma isenta, lhe reservará o cognome de Doutor Torquemada [e pode ele queixar-se disto, que eu também me defenderei, até por ser autor de um romance sobre a Inquisição ibérica] –, bem sei que não me perdoa o ultraje de eu não ser um jornalista que o bajula, e que pelo contrário o questiona. E que quis saber o que estava por detrás de uma campanha supostamente de beneficência, mas que acabou, como o PÁGINA UM revelou já, por ser uma montanha de irregularidades e ilegalidades, as quais, num país decente, lhe daria direito a sentar-se no banco dos réus.

    Recebimentos de Luís Varandas das farmacêuticas em 2021 e 2022. Directamente da Pfizer foram 12.257,15 euros. Fonte: Infarmed.

    Sobre o Doutor Luís Varandas, não tenho muito a acrescentar sobre; apenas mais isto: penitencio-me por não o ter criticado ainda mais, que pouco sempre seria. Um pediatra avençado da Pfizer e que defendeu a vacinação contra a covid-19 em menores de idade (com uma taxa de letalidade de 0,003%), perante os efeitos adversos ainda não totalmente conhecidos, não merece palavras menos que duras.

    Da Ordem dos Médicos não se espere nada diferente nos próximos anos. Se o novo bastonário Carlos Cortes escolheu para seu mandatário uma pessoa com o perfil de Filipe Froes, que vista então esse “pobre hábito” que o fará um “rico monge”.

    Não havendo muito mais a dizer, nesta fase, sobre o processo, apenas duas coisas acrescento. Primeiro, garanti, por escrito, quando esta tarde fui ouvido, que não aceito, em nenhum momento, qualquer género de acordo ou de suspensão de processo. E, por outro lado, opus-me à eventual desistência de queixa dos três médicos e da Ordem dos Médicos. Ou seja, vai haver mesmo julgamento.

    Por mim – espero que também pelos leitores do PÁGINA UM – quero mesmo que este caso, que esta queixa-crime – chegue a um julgamento. Quero vê-los sentados num tribunal, mesmo se eles estejam no sítio errado. Quero que se apure a verdade, porque a minha absolvição será a condenação deles.


    N.D. Todos os encargos do PÁGINA UM nos processos administrativos (e judiciais, em geral), incluindo taxas de justiça e honorários de advogado, têm sido suportados pelos leitores e apoiantes, através do FUNDO JURÍDICO.

  • Luc Montagnier, Edgar Caetano e outros infames jornalistas: a podridão a boiar, à deriva

    Luc Montagnier, Edgar Caetano e outros infames jornalistas: a podridão a boiar, à deriva


    Quem é o Edgar Caetano, pergunta-me o leitor.

    Eu respondo por ele, citando-o: “Encontrei o equilíbrio que sempre procurei entre as letras e os números quando, há 16 anos, me tornei jornalista ligado à Economia e, em especial, aos Mercados Financeiros. Nascido em Águeda e licenciado em Jornalismo pela Universidade de Coimbra, trabalhei quatro anos com a delegação em Lisboa da agência Dow Jones Newswires. Passei, depois, mais quatro anos na secção de Mercados do Jornal de Negócios, onde acompanhei de perto a crise da dívida da zona euro. Estou no Observador desde setembro de 2014 e, além da Economia, da Banca e dos Mercados, interesso-me pelas áreas da Tecnologia e da Inovação – tema de uma newsletter que assinei no Observador entre 2016 e 2019. Obrigado por me ler.”

    Eu leio o que escreve o Edgar Caetano; e li o que Edgar Caetano e muitos outros jornalistas escreveram durante a pandemia, metendo foice em seara alheia, tocando rabecão sem sequer serem sapateiros, e contribuindo assim para uma certa narrativa única, para um afunilar de supostas verdades factuais, dogmáticas e inquestionáveis, pouco importando se, no meio disto, ostracizavam, silenciavam e difamavam.

    Luc Montagnier (1932-2022)

    O Edgar Caetano surge aqui como exemplo; mas há muitos mais, que poderiam ser citados – e que, às tantas, terei um dia de os elencar, a todos, porque mostra-se fundamental ser conhecida e discutida uma lista de nomes. A podridão tem de ser libertada para que novos ares pairem sobre a nobre função do Jornalismo.

    Mas centremo-nos, por agora, no Edgar Caetano, que hoje, no Observador – tal como muitos outros media mainstream – fez eco da “convicção de Christopher Wray, diretor do norte-americano FBI, que acredita que poderá ter havido um ‘incidente’ num laboratório e que o regime chinês ‘tem feito o seu melhor para ofuscar’ os esforços para identificar a origem do vírus”.

    E o ‘nosso’ Edgar Caetano acrescenta ainda que o The Wall Street Journal avançou este fim-de-semana a existência de “um estudo classificado, referente a 2021, do Departamento de Energia dos Estados Unidos, e que foi fornecido à Casa Branca por legisladores americanos”, que também aponta para a criação em laboratório do SARS-CoV-2.

    Aquilo que Edgar Caetano, e tantos outros (supostos) jornalistas se esqueceram foi de, à laia de post scriptum (vulgo, P.S.), fazer um mea culpa – de culpa inteira – sobre o seu papel na campanha de desinformação e de difamação que alimentou o público durante os últimos três anos.

    Foram eles – e com redobradas responsabilidades, atendíveis as suas funções de jornalistas – mais perniciosos na criação de fake news e de manipulação do que os teóricos das conspirações estapafúrdias (que também os há) atrelados (sempre, claro) à extrema-direita (que também os há, e cada vez mais, como falência democrática).

    Mas vejamos o caso concreto do ‘nosso’ Edgar Caetano – e a razão, vista está, da minha fúria.

    Em 19 de Abril de 2020 – está agora a fazer quase três anos –, o mesmíssimo Edgar Caetano escrevinhou uma “peça” – chamemos-lhe assim como sinónimo de asco – de pura difamação sobre um notável virologista, recentemente desaparecido, Luc Montagnier – e que, mesmo agora morto, perceberá mais de Ciência do que este ‘nosso’ Edgar Caetano com uma overdose de Memofante.

    Reza assim essa infame “peça” de Edgar Caetano: “A teoria circula há vários meses e já foi desmentida por vários cientistas. Mas um controverso virologista francês laureado com o prémio Nobel pela pesquisa sobre o HIV, Luc Montagnier, acredita que o vírus saiu de laboratório em Wuhan e defende que a explicação mais consensual – uma transmissão com origem num ‘mercado vivo’ da cidade chinesa – é uma ‘história da carochinha’. A declaração está a causar polémica, com outros investigadores a descredibilizar Montagnier, considerando que o investigador premiado tem estado ‘em decadência acelerada nos últimos anos’.”

    Notícia de Edgar Cardoso usou tweet de obscuro estudante de doutoramento, Juan Carlos Gabaldon, como prova de uma suposta decadência física e mental de Luc Montagnier.

    Para “confirmar” a tal “decadência acelerada nos últimos anos” de Luc Montagnier, Edgar Caetano não encontrou melhor ‘prova’ do que um tweet de um estudante de doutoramento de doença das Chagas, um tal Juan Carlos Gabaldón.

    E para confirmar o suposto desmentido de “vários cientistas”, Edgar Caetano remeteu simplesmente para um artigo da Nature de 17 de Março de 2020, cujo autor principal é o dinamarquês Kristian G. Andersen, de um instituto de investigação (não-universitário) norte-americano, que a partir daquele singelo artigo coleccionou financiamentos federais, a começar pelo de 8,9 milhões de dólares do National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIAID), então liderado por Anthony Fauci.

    Em Outubro do ano passado foram mais 2,5 milhões de dólares do Centers for Disease Control & Prevention (CDC) para desenvolvimento de software para rastrear a evolução e disseminação geográfica das variantes do SARS-CoV-2. Para Andersen, o SARS-CoV-2 tornou-se um maná.

    Note-se que, através de e-mails “vazados”, e verídicos, soube-se, entretanto, e o próprio The New York Times destacou, que Kristian G. Andersen até suspeitara inicialmente da origem manipulada do SARS-CoV-2. Tal como Luc Montagnier.

    Na mesma linha, e usando exactamente o mesmo tweet do obscuro estudante de doutoramento para sustentar o descrédito de Montagnier, seguiu a jornalista Teresa Campos, da revista Visão, em 20 de Abril de 2020. Descredibilize-se o mensageiro para descredibilizar a mensagem – eis a receita infalível dos cretinos.

    [Sou apologista de descredibilizar a mensagem para descredibilizar o mensageiro; este editorial tem essa função]

    man sitting on chair holding newspaper on fire

    Enfim, foi assim, com os Edgares Caetanos de certa vida airada do jornalismo, que se criou rapidamente uma Narrativa. Tudo inquestionável. Tudo facilmente descartável se fosse diferente. Tudo menorizado, se fosse controverso. Tudo tachado de “falso”, se soasse a crítica.  Tudo feito, alegre e diligentemente, por acríticos escribas, a maioria sem qualquer formação científica, sem qualquer capacidade crítica, sem quaisquer princípios deontológicos.

    Isolar, misturar e conspurcar – foi esta a estratégia. Isolar da comunidade científica quem fugisse da narrativa. Misturar essa pessoa com as mais estapafúrdias teorias (que as há) para a tornar menos racional. Conspurcar a sua credibilidade, bastando escribas de serviço para lhes colocar epítetos, deficiências e outras demais maleitas, servindo tudo para escarmento dos demais.

    [Vejam no dicionário o significado de escarmento, se não souberem, porque era termo muito usado pela Inquisição – onde muitos jornalistas desta geração se sentiriam bem como esbirros –, de sorte que uma punição não servisse apenas para o castigado.]

    Em três páginas apenas, acompanhadas por um gráfico, o artigo de Kristian Andersen “oficializou” a origem natural como causa do surgimento do SARS-CoV-2, refutando todas as hipóteses, que a imprensa mainstream tratou de descredibilizar. O artigo tem, neste momento, 5.599 citações científicas. E agora?

    Aliás, quando Luc Montagnier questionou a origem do SARS-CoV-2, lestos foram os fact-checkers (em Portugal e por esse mundo fora) a analisarem afirmações – nunca confirmadas – de um outro Prémio Nobel, Tasuku Honjo – para sobretudo denegrirem o virologista francês e garantir a irrefutável certeza da origem natural do vírus atribuída pelo agora afortunado (no sentido monetário) investigador dinamarquês.

    O Polígrafo, por exemplo, foi em Portugal um dos ponta-de-lança mais activos nesta campanha, “desenterrando” muitas vezes, teorias da conspiração – quanto mais estapafúrdias melhor – para negar a possibilidade de debates sérios. Veja-se o caso de um fact-checking de Gustavo Sampaio de 20 de Março de 2020, onde a pretexto de uma hipotética e absurda tese (vinda de um simples post de origem não identificada das redes sociais) de alguém ter criado um vírus para matar 1% da população (como se houvesse essa possibilidade de “programação”), se insiste na irrefutável origem natural do novo coronavírus.

    [Já agora, o “artigo” de Gustavo Sampaio teve o ”Alto Patrocínio” da Direcção-Geral da Saúde e do Facebook, o que convém sempre destacar. E também convém relembrar que o Polígrafo participou num projecto de suposto jornalismo colaborativo denominado CoronaVirusFacts Alliance, uma união de fact-checking para “verificar” (aspas minhas) a veracidade das informações colocadas a circular online]

    grey and black metal tool

    Também sobre o tema da origem laboratorial do SARS-CoV-2, o Observador até fez, na altura, dois fact checkings, em 9 de Fevereiro e em 18 de Março de 2020, sempre pela jornalista Marta Leite Ferreira – mais uma ponta-de-lança do jornalismo português para a criação da dogmática narrativa oficial da pandemia – que, agora, a devia fazer corar de vergonha, se a vergonha fosse atributo que ela reconhecesse.

    A forma como a diligente imprensa mainstream, através de jornalistas sem coluna vertebral e sem princípios deontológicos, tratou supostos “dissidentes” da narrativa pandémica – na origem do vírus, na eficácia das máscaras, nos certificados digitais como estratégia de controlo da transmissão, na necessidade de vacinação de menores e jovens saudáveis, na “justeza” da discriminação de não-vacinados, na recusa de debater efeitos secundários das vacinas, etc. – ficará como uma Página Negra (que digo!, uma enciclopédia inteira) do Jornalismo.

    Veja-se ainda, por exemplo, o que, a páginas tantas, a jornalista Clara Barata, do Público, escreveu recentemente, em 12 de Janeiro, à laia de obituário de Luc Montagnier, com uma passagem completamente infame:

    black and gray microphone on black stand

    “E continuou [Luc Montagnier] a avançar com as suas ideias controversas. Por exemplo, em 2020, afirmou numa entrevista a um site e depois na televisão CNews (uma espécie de Fox News francesa) que o vírus SARS-CoV-2, que causa a covid-19, teria sido fabricado em laboratório a partir do vírus VIH-sida. ‘Não é natural, é um trabalho de profissional, de biólogo molecular, de modificar as sequências [genéticas]. Com que objectivo? Não sei (…) Uma das minhas hipóteses é que queriam fazer uma vacina contra a sida’, disse na televisão.

    A tese de Luc Montagnier – que não convence a comunidade científica – era muito parecida com a de um estudo indiano publicado online, sem ter sido submetido a avaliação pelos pares, e muito contestado pelos especialistas, relata o Le Monde. O artigo evocava ‘uma semelhança estranha’, ‘que tem poucas hipóteses de ser fortuita’ nas sequências de aminoácidos de uma proteína do SARS-CoV-2 e outra do VIH-sida.

    Apesar de desacreditado pelos cientistas, este artigo fez sucesso entre os aficionados das teorias da conspiração, e correu muito pelos sites sensacionalistas, antes de ser retirado pelos próprios autores. Aquelas sequências de aminoácidos eram afinal banais, e podem ser encontradas em inúmeras proteínas.”

    Em 13 de Março de 2020, numa famosa homília que deveria envergonhar um jornalista, Rodrigo Guedes de Carvalho disse: “Aos vossos avós foi-lhes pedido para irem à guerra. A vocês pedem-vos para ficar no sofá. Tenham noção“.

    Aquilo que Clara Barata merecia agora, se fosse cientificamente possível, era uma visita fantasmagórica de Luc Montagnier para levar com uns calduços.

    Enfim, depois disto, espero que Edgar Caetano, Gonçalo Sampaio, Marta Leite Ferreira, Clara Barata e tantos outros aqui não citados (mesmo merecendo), “tenham noção”, como disse, num também infame contexto, Rodrigo Guedes de Carvalho. Aliás, este, por tudo aquilo que fez e disse, nem perdão merece. Apenas asco.

  • Comissão da Carteira Profissional de Jornalista: a arte de matar o mensageiro para manter promiscuidades

    Comissão da Carteira Profissional de Jornalista: a arte de matar o mensageiro para manter promiscuidades


    A Dra. Licínia Girão, actual presidente da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), tem vindo a recusar o acesso a documentos administrativos ao PÁGINA UM, nomeadamente o acesso a processos e pareceres já concluídos ou iniciados há mais de um ano, às simples actas das reuniões do Plenário (integrando apenas jornalistas) – que não contêm sequer dados nominativos na acepção do Regulamento Geral de Protecção de Dados – e remunerações e senhas de presença.

    Além disso, a CCPJ tem fechado os olhos a um conjunto de denúncias sobre promiscuidades dos jornalistas e de grupos de media, considerando, por outro lado, que as notícias que temos publicado sobre a sua presidente – e o seu paupérrimo currículo face ao que a lei exige (jurista de mérito) – são uma perseguição.

    Licínia Girão, presidente da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, eleita por supostamente ser “jurista de mérito”

    De entre esses documentos está, por exemplo, o processo iniciado em Dezembro de 2021, após denúncias do PÁGINA UM, ao jornalista-director e administrador da Global Media Domingos de Andrade por estar envolvido em contratos comerciais com autarquias. A CCPJ a contragosto aplicou já este ano uma multa irrisória de mil euros e nada mais. Parece que o Ministério Público vê agora infracções criminais, muito mais graves, do jornalista Domingos de Andrade, que candidamente ainda ostenta a carteira profissional.

    A CCPJ protege este tipo de jornalistas, este tipo de gente que conspurca a nobre função de jornalista, enquanto, na verdade, persegue quem denuncia as promiscuidades na imprensa mainstream.

    Por isso, a sanha da CCPJ e dos seus membros (todos jornalistas) ao PÁGINA UM e, particularmente, a mim.

    man sitting on chair holding newspaper on fire

    Começou em Agosto do ano passado através de um vergonhoso parecer ou recomendação – aparentemente nunca feito para outro jornalista (essa é uma das questões que a CCPJ não pretende esclarecer, mesmo depois do parecer da CADA) –, assinado por Licínia Girão e Jacinto Godinho, a pedido de António Morais, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia por causa de notícias publicadas pelo PÁGINA UM.

    A Dra. Licínia Girão e o Prof. Jacinto Godinho decidiram criticar o rigor e objectividade das notícias do PÁGINA UM, omitindo descaradamente que essas notícias por mim assinadas eram não apenas factuais como resultaram num processo de contra-ordenação e na destituição de António Morais de consultor do Infarmed.

    Eis o prémio da CCPJ ao jornalismo de investigação e incómodo, que denunciou a evidente e comprovada promiscuidade entre sociedades médicas e a indústria farmacêutica: uma “censura”. Feita a um seu par, que nem sequer quiseram ouvir e nem sequer o informaram previamente sobre aquilo que estavam a “cozinhar”.

    Jacinto Godinho, jornalista da RTP, professor de Comunicação Social na Universidade Nova de Lisboa e membro do Secretariado da CCPJ.

    Há patifes com mais ética.

    E continuou a CCPJ com as atitudes arbitrárias contra o PÁGINA UM e contra mim – em proporção aos contínuos casos de denúncias das promiscuidades na imprensa que temos revelado (vd. aqui este exemplo, mas há tantos mais) –, como seja a não aceitação de uma participação para a abertura de um processo (mesmo que, depois, justificadamente, o pudessem arquivar) contra os jornalistas da CNN Portugal que me difamaram – e difamaram o PÁGINA UM – logo nos primeiros dias de existência de um projecto independente, e por isso incómodo.

    Agora, poucos dias após um parecer da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos – que considera que tenho direito aos documentos que solicitei à CCPJ –, a Dra. Licínia Girão decidiu contra-atacar.

    E como?

    Apresentando uma queixa formal ao Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas. Leitura aprazível para quem acha que o Jornalismo ainda não desceu ao fundo do poço – e, por uma questão de transparência, deve ser publicamente conhecida.

    Primeira página da queixa de Licínia Girão enviada ao Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas.

    O mais curioso no relambório de 16 páginas e 88 “quesitos” que constituem a douta queixa da Dra. Licínia Girão nem sequer será o facto de, em grande parte, remeter-se para notícias do PÁGINA UM de Agosto do ano passado, sobre matérias que, por duas vezes, nem sequer quis esclarecer.

    O mais curioso também nem sequer será o facto de o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas ter diligentemente já tratado da “acusação” – demorou 10 dias corridos – com questões sobre estilos de escrita, usos de adjectivação (produto de interpretação e qualificação de factos) e até uma capciosa pergunta sobre se eu “sabia ou procurou saber se existiria algum contexto que explicasse o desempenho da denunciante [Licínia Girão] nos referidos exames [do CEJ, em que “chumbou” com péssimas notas]?.

    Não. O mais curioso na queixa da presidente da CCPJ (que comprova, por si só, que de fecto, não pode ser uma jurista de mérito, porque isso pressupõe valores dos quais carece) são dois pormenores – que darão uma tese.

    Primeiro pormenor, a Dra. Licínia Girão quer usar o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas – e manipular uma entidade que se presta a fazer o jogo sujo. Por uma razão simples: este Conselho Deontológico tem uma relevância apenas de carácter censório, mas sem qualquer dever de cumprimento de normas procedimentais que garantam uma apreciação justa e equitativa. Se os membros do Conselho Deontológico me quiserem censurar de forma injusta, nada mais me resta do que eventualmente processar os seus membros por difamação.

    Mas uma censura – mais uma censura – é sempre uma tentativa de descredibilização do meu trabalho, do rigor e independência do PÁGINA UM, para que, desse forma, elimine as denúncias sobre as promiscuidades entre a imprensa mainstream (com muitos jornalistas a “venderem-se”) e o mundo político e empresas privadas. E não estamos a falar de uma denúncia ou outra. Foram dezenas, envolvendo praticamente todos os grandes grupos de media. E mais estão na forja. Todas de grande gravidade.

    Aliás, note-se bem: a estratégia de descredibilizar o PÁGINA UM com “processos”, “deliberações”, “recomendações”, “queixinhas” e quejandos já foi seguida, por duas vezes, pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Já por duas vezes o regulador da comunicação social tomou deliberações contra o PÁGINA UM após publicarmos notícias que acabaram por dar processos instaurados pela Inspecção-Geral das Actividades em Saúde.

    A ERC, recorde-se, até já fez comunicados acusando-me de insultar os seus membros e de perseguir os seus funcionários – e fez passar isso na “imprensa amiga” – em vésperas de perder um processo no Tribunal Administrativo de Lisboa sobre acesso a documentos relacionados com a Transparência dos Media.

    Meteu a ERC depois a viola no saco – incluindo a desistência de uma queixa judicial por alegada difamação –, mas conseguiram denegrir-me. Ainda hoje, em pesquisas no Google, encontro referências ao suposto episódio de Agosto do ano passado na sede da ERC onde eu teria tido alegados comportamentos impróprios.

    Sede da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

    Enfim, sei – todos sabemos – e conheço as tácticas de guerrilha para “matar” (denegrir) o mensageiro para que não exista mais mensagem…

    Mas voltando à vaca fria, isto é, à Dra. Licínia Girão – ou melhor dizendo, à queixa da Dra. Licínia Girão, não se vá dizer-se que lhe estou agora a chamar nomes –, deveríamos colocar-lhe uma questão: por que razão a CCPJ solicitou uma intervenção ao Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas quando, alegadamente, estarão em causa violações (minhas, presuma-se) do código deontológico com implicações disciplinares?

    É que, hélas, a CCPJ tem acção disciplinar sobre mim, conforme estabelece o Estatuto Disciplinar dos Jornalistas. Mas, nessas circunstâncias, a Dra. Licínia Girão ver-se-ia obrigada a seguir um procedimento detalhado, incluindo instrução, o que implicaria várias coisas.

    Implicaria a necessidade de explicitar e justificar em concreto as minhas supostas violações éticas e deontológicas.

    Implicaria conceder-me direitos de defesa.

    Implicaria eu poder indicar testemunhas e exercer muitos outros direitos.

    Uma chatice. A Dra. Licínia Girão arriscar-se-ia a, querendo tosquiar-me, sair tosquiada.

    Palácio Foz, sede da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista.

    Por isso, das duas, uma: ou o envio de uma queixa para o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas é uma assumpção da incompetência da CCPJ em me fazer um julgamento justo, ou então considera que existem melhores condições para me censurarem encontrando quem se predisponha ao frete de fazer jogo sujo.

    Na verdade, pelo tom pidesco com que me pediram já “comentários” – e aqui divulgo o “interrogatório” do dito Conselho Deontológico, também por transparência e para que se possa discordar da minha visão –, dá para perceber que estão disponíveis para executar a tarefa. Se me quiserem mesmo ouvir terá de ser presencialmente e tudo gravado – já lhes fiz saber. De contrário, façam todos bom proveito do frete.

    Não é a primeira vez, como se viu em Janeiro do ano passado, quando o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, através de um então seu membro (Filipe Caetano, da CNN Portugal, estação que vilmente difamara o PÁGINA UM), me quis também levantar um processo por violação do código deontológico.

    Na primeira vez, o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas meteu a viola no saco. Mas há sempre uma segunda vez…

    Domingos de Andrade, o primeiro de muitos “casos de polícia” da imprensa mainstream portuguesa.

    Enfim, estar a CCPJ, com as competências que detém, a apresentar uma queixa contra mim ao Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas seria o mesmo que um juiz de um tribunal criminal se queixar de mim à Provedoria da Justiça.

    Por fim, o segundo pormenor interessante da queixa da Dra. Licínia Girão.

    No final de um vasto rol de “acusações”, que ela me atira, até sobre aspectos que nunca antes quis esclarecer, desfere ela – ou tenta desferir – um fino ferrete sobre mim nesta época de wokismo e de #MeToo.

    No ponto 87 da sua extensa queixa, escreve a Dra. Licínia Girão, à laia de epílogo, o seguinte: “Ou seja, os conteúdos desonrosos, fantasiosos, falsos e ofensivos sobre a peticionária queixosa [ela, claro] começaram a surgir três meses depois de a denunciante assumir funções na CCPJ e depois de uma outra jornalista ter desempenhado as mesmas funções.”

    grayscale photo of woman doing silent hand sign

    Portanto, o Pedro Almeida Vieira é um misógino! É isso? Claro. Fogueira com ele, portanto, não é? Claro. Que sirva eu de escarmento para os demais que critiquem e exponham a insindicável Dra. Licínia Girão, que lhe descubram incongruências, as chico-espertices e as inaptidões para uma função de inegável interesse para o jornalismo, mas que ela tão maltrata por acção e inacção.

    Por alguma razão – aliás, por muitas – acusei Licínia Girão e Jacinto Godinho, seu compagnon de route no Secretariado da CCPJ, de serem os carrascos do Jornalismo. Esperemos que os casos de polícia, que agora se iniciam com o caso de Domingos de Andrade, não se amontoem até terem de chegar um dia às portas do Palácio Foz, à sede da CCPJ.

  • Do pântano à cloaca

    Do pântano à cloaca


    Na semana passada, escrevi que Medina representava o pináculo de um Governo de aldrabões. A mentira, o obscurantismo e a manipulação são, já há muito, marcas de um estilo de vida e de desgoverno desta gente que, confundindo interesses corporativos – no sentido de interesses pessoais – com o interesse público, usam o Governo para abusar do Estado. E abusam de nós.

    Sempre sabemos que, na vida, e também na política, que um mal sempre pior pode ficar. Ainda mais quando António Costa, querendo chegar ao fundo do poço com Fernando Medina, ainda arranjou um Galamba para depois escavar ainda mais.

    Quando um primeiro-ministro não tem o discernimento para sequer antever o desastre de nomear João Galamba para ministro das Infraestruturas, é porque já passou o prazo de validade. Galamba não podia ser melhor escolhido para um fim de ciclo trágico-cómico: é o típico ministro com faca na liga, a quem se espera sempre dali sair arruaça, que parece ter mesmo sucedido no Ministério das Infraestruturas pela posse de um comprometedor computador.

    Por mais que possamos imaginar que o assessor Frederico Pinheiro – que anda em andanças de gabinetes governamentais desde 2017 – seja um incompetente, um violento, um criminoso e o diabo a quatro, os episódios mais recentes envolvendo o gabinete de Galamba, tal como todos os que já apanharam o de Medina, mostram um bando desgovernado em plena queda livre – ironicamente à conta da TAP.

    Este segundo Governo de Costa faz-nos lembrar, cada vez mais, o Governo de Santana Lopes, com os seus rocambolescos episódios quase diários no Verão de 2004, e que viriam a ditar a dissolução da Assembleia da República.

    Quem será o Henrique Chaves de António Costa é a única incógnita. Quem quer que seja, certo que involuntariamente prestará um serviço público ao país, mesmo havendo, por aí, um fantasma chamado Chega, que amedronta muitos – eu inclusive, já agora.

    Mas antes tudo do que isto. Neste momento, o país já nem sequer está no estado do pântano de Guterres – isto já parece mais uma cloaca. É altura de puxar o autoclismo. Fim de ciclo.

  • A Ordem dos Psicólogos e os pequenos ditadores de capelinhas

    A Ordem dos Psicólogos e os pequenos ditadores de capelinhas


    Francisco Miranda Rodrigues é o bastonário da Ordem dos Psicólogos. Para mim, tanto me faz como me fez. Na breve biografia que se lhe conhece, diz-se que nasceu em 7 de Abril de 1974 – portanto, viveu 17 dias em ditadura (já moderada), que é psicólogo formado pela Universidade de Lisboa e especialista em Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações e da Saúde Ocupacional, que dirigiu equipas de recursos humanos, qualidade, ambiente e de segurança, higiene e saúde no trabalho. E é bastonário da Ordem dos Psicólogos há mais de seis anos, embora ocupasse funções na associação antecessora desde o início do século.

    Procuro na internet, e vejo ser homem de opiniões, “autor de vários artigos de opinião na imprensa portuguesa”, segundo a sua página da Wikipédia. Publicou no mês passado aquele que julgo ser o seu primeiro ensaio para o mercado editorial, Como gerir pessoas, com prefácio do ex-ministro Poiares Maduro.

    Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos.

    Não conheço a obra, mas deve ter muitas opiniões. Aliás, muitas opiniões deverão estar reflectidas também nos seis prefácios em diversos ensaios na área da Psicologia que escreveu nos últimos quatro anos, de acordo com consulta na Biblioteca Nacional.

    Pesquiso discursos seus pelas redes sociais, por exemplo no YouTube da Ordem dos Psicólogos, ele bota profusa faladura. Opina. Não é nenhum Freud, mas enfim, não é isso que está aqui em causa.

    Aquilo que está em causa é eu achar – e devo mesmo achar, por um imperativo de cidadania democrática – que o Doutor Francisco Miranda Rodrigues tem todo o direito a dizer o que bem lhe apetece, como lhe apetece, quando lhe apetece e da forma que lhe apetecer. Pode ser aplaudido pelo que disse, pode ser criticado negativamente pelo que disse (ou não disse), pode passar a ser, pelo que disse, respeitado, gozado ou endeusado.

    Faz parte da convivência democrática que tal suceda.

    E é exactamente pela convivência democrática que, estando eu a borrifar-me para as opiniões do Doutor Francisco Miranda Rodrigues, sobretudo em discursos que nem aquecem nem arrefecem, antes pelo contrário, defendo que ele tem o direitos proferir tanto sentenças como parvoeiras.

    stack of stack of books

    E, exactamente pelo mesmo motivo, não posso então tolerar que ele, como circunstancial bastonário da Ordem dos Psicólogos – que, recorde-se, tal como a famigerada Ordem dos Médicos, é apenas uma associação profissional de direito público, o que lhe traz direitos mas também obrigações perante os cidadãos comuns –, condicione a opinião de outras pessoas, somente por deterem a mesma profissão dele. E que use e abuse de um estatuto concedido pelo Estado – o de regulador de uma profissão – para condicionar e até punir opiniões de seus colegas de profissão, que, antes disso, são meus e nossos concidadãos.

    Ontem, o PÁGINA UM publicou uma entrevista com a psicóloga Laura Sanches e, até atendendo à sua genética (filha de Maria José Morgado e Saldanha Sanches), chega a ser perturbador saber que, em 2023 – quase cinco décadas após o 25 de Abril –, a Ordem do Doutor Francisco Miranda Rodrigues intentou-lhe dois processos disciplinares por mero delito de opinião ou por intervenção pública como cidadão. Pior: um desses processos é sobre alegadas opiniões que ela nem sequer tomou, estando até “proibida” de falar sobre o assunto.

    O esquecimento da História, acrescido da “alimentação” dos egos de pequenos ditadores com os seus “gabinetes”– que se pavoneiam de opinar mas em simultâneo condicionam a livre opinião dos seus pares – é um dos maiores flagelos da nossa democracia, que rapidamente caminha para uma degradação irreversível.

    Laura Sanches, psicóloga.

    Ver hoje que até a filha de Maria José Morgado e de Saldanha Sanches pode ser perseguida por delito de opinião – e não por más práticas clínicas ou por outra qualquer infracção punida pelo Código Penal – é intolerável. Imaginemos o que sucede aos cidadãos sem essa aprendizagem de luta democrática. Ou aos cidadãos anónimos ou aos profissionais que não têm sequer uma”rede protectora”. Esses calam-se.Cria-se o podre unanimismo controlado por inquisidores de opinião.

    Vivemos hoje uma aberração democrática com estes pequenos ditadores de capelinhas. A existência e acção debragada de figuras como as de Francisco Miranda Rodrigues – e, infelizmente, há tantos e tantos como ele nessas pequenas igrejas de condicionamento social – são um cancro autêntico para a nossa democracia. E deve ser o quanto antes extirpado. A Bem da Nação, como diria o outro, que era um ditador.

  • Morreram 75 jovens a mais. E há investigadores do Instituto Nacional de Saúde que são ou preguiçosos ou incompetentes

    Morreram 75 jovens a mais. E há investigadores do Instituto Nacional de Saúde que são ou preguiçosos ou incompetentes


    Susana Silva, Ana Rita Torres, Baltazar Nunes e Ana Paula Rodrigues são investigadores do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), e receberam a incumbência de realizar um relatório que tem, “como objetivos, descrever a evolução da mortalidade por todas as causas durante o ano de 2022 [semana 01/2022 à semana 52/2022 (03 janeiro de 2022 a 01 janeiro de 2023)], bem como identificar e analisar os períodos de excesso de mortalidade identificados.”

    Sem prejuízo de ser uma análise muito criticável em muitos aspectos – como já expus esta quinta-feira –, certo é que, pela primeira vez, se viu um relatório de uma instituição oficial a referir um tema tabu: o excesso de mortalidade “no grupo etário entre os 15 e os 24 anos”, cuja afectação directa pela covid-19 foi nula (ou até com balanço favorável, porque a mortalidade dos doenças respiratórias nestas idades até regrediu).

    people holding shoulders sitting on wall

    Esta informação não me surpreendeu. Alertei sobre este problema pelo menos três vezes no PÁGINA UM: em 3 de Setembro e em 15 de Novembro do ano passado,  já este ano, em 2 de Janeiro:

    Mas que fizeram estes quatro investigadores do INSA? Foram analisar as causas para esse tão grave desvio? Nada disso. Especularam somente e passaram adiante. Na página 16 escreveram apenas: “Os excessos de mortalidade nos grupos mais jovens são raros estando, maioritariamente, associados a causas externas de mortalidade. A ausência de informação disponível quanto às causas de morte não nos permite confirmar esta hipótese que colocamos como mais provável, dado o conhecimento anterior e o padrão do excesso observado (aumento acentuado em relação ao habitual e de curta duração).”

    O negrito é meu. E esta pergunta também: mas que raio de investigadores são estes que, perante um excesso de mortalidade num grupo etário que congrega naturalmente tanta preocupação, descartam qualquer análise posterior, assumindo de forma leviana ser “provável” que siga um padrão de “causas externas”? E como podem investigadores – que investigam nesta área da epidemiologia – dizer que existe uma “ausência de informação disponível”?

    São eles preguiçosos?

    Análise feita em 2 de Janeiro passado pelo PÁGINA UM para o grupo etário dos 15 aos 24 anos: mortalidade efectiva entre 2014 e 2019; e mortalidade expectável e excesso de mortalidade em 2020, 2021 e 2022. O valor do excesso de mortalidade nos anos do último triénio calcula-se pelo diferencial da mortalidade efectiva com a mortalidade expectável. Fonte: SICO.

    Ou são eles apenas incompetentes?

    Qualquer um destes dois predicados são incompatíveis com a função de (bom) investigador.

    Vamos lá ver. Recordo-me que recentemente – em Maio do ano passado, para ser mais concreto – houve grande burburinho mediático e político porque se soube que “morreram 17 mulheres devido a complicações da gravidez, parto e puerpério, em 2020”, o valor mais alto dos últimos 38 anos. São 17 óbitos em cerca de 100 mil gravidezes por ano. Mas logo se anunciou a criação de uma “equipa com especialistas de diferentes áreas para investigar o problema.”

    Ora, sabe-se que o excesso de mortalidade no grupo etário dos 15 aos 24 anos durante o ano passado foi de 65 mortes superior à média do quinquénio anterior à pandemia. Morreram 375 jovens; a média para o período de referência foi de 310. Se se considerar o quinquénio 2017-2021 a média é de 314.

    Estamos perante um desvio de 75 mortes em relação ao valor que seria expectável para esse ano (face à redução do número de jovens). É um acréscimo relativo muito significativo, que não pode ser descartado numa frase sobre uma alegada “ausência de informação disponível”: 20% acima da média dos cinco anos anteriores.

    black and white cat on brown wooden shelf

    Face a um desvio de 20% não é o padrão da “causa externa” que nos deve surgir como a mais “provável” – a menos que tenha caído uma camioneta cheia de estudantes por uma ribanceira e ninguém se tenha apercebido disso.

    Se houve um desvio tão pronunciado e repentino num curto espaço de tempo, o mais provável é que o padrão tenha sido quebrado; não o contrário.

    Além disso, como é possível que investigadores do INSA, ainda mais do Departamento de Epidemiologia, ignorem os seus direitos (mas também os deveres) de acesso à informação que lhes concedeu a lei que instituiu o Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO)?

    Se não sabem, eu relembro-lhes. De acordo com a Lei nº 15/2012, que criou o SICO – onde se integram dados não disponibilizados ao público, como os certificados de óbito de cada falecido – no seu artigo 12º, “os dados constantes do certificado de óbito podem ser disponibilizados pelo diretor-geral da Saúde às entidades do Ministério da Saúde responsáveis pela vigilância epidemiológica, nos termos previstos no n.º 4 do artigo 7.º da Lei n.º 67/98, de 26 de outubro.”

    four people sitting on wooden stair

    E para que não haja dúvidas, a Lei Orgânica do Ministério da Saúde estipula, no seu artigo 18º, que “o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, I. P., abreviadamente designado por INSA, I. P., é o laboratório do Estado que tem por missão contribuir para ganhos em saúde pública através da investigação e desenvolvimento tecnológico, actividade laboratorial de referência, observação da saúde e vigilância epidemiológica, bem como coordenar a avaliação externa da qualidade laboratorial, difundir a cultura científica, fomentar a capacitação e formação e ainda assegurar a prestação de serviços diferenciados, nos referidos domínios.”

    Portanto, e dizem estes quatro investigadores que estamos perante uma “ausência de informação disponível”?

    Repito, por isso a pergunta: são estes quatro investigadores do INSA apenas preguiçosos ou incompetentes? Ou estão antes a tentar relativizar e esconder uma verdade inconveniente?

  • Jornalistas (muitos): os ferreiros sem espeto nem pau

    Jornalistas (muitos): os ferreiros sem espeto nem pau


    Ponto prévio: “O jornalista deve lutar contra as restrições no acesso às fontes de informação e as tentativas de limitar a liberdade de expressão e o direito de informar. É obrigação do jornalista divulgar as ofensas a estes direitos.” Esta é uma das normas do Código Deontológico dos Jornalistas. Posto isto, siga, e justifica-se, o editorial…

    Imaginemos que, por exemplo, um jornalista do Expresso fazia um requerimento ao Governo a solicitar documentos ao abrigo da Lei do Acesso aos Documentos Administrativos, isto num cenário em que se via obrigado a invocar a lei para obter informação, porque não lhe bastaria um simples telefonema ou e-mail.

    man sitting on chair holding newspaper on fire

    Eu sei que é um exercício que exige demasiada imaginação: não tanto por mim – que colaborei vários anos no Expresso –, mas por ser difícil imaginar o Expresso (ou outro órgão de comunicação social mainstream) de hoje a “morder nas canelas” do Governo ao tal ponto de invocar leis para aceder a documentos…

    Mas imaginemos então esse pedido, e que, na volta do correio, o jornalista do Expresso receberia a seguinte resposta:

    Embora o Governo reconheça que tal informação nunca foi requerida e o número de documentos, não obstante ser morosa, não configure propriamente um impedimento, a verdade é que a finalidade do acesso aos documentos é, em si, manifestamente abusiva. E é assim porque o requerente tem vindo, ao longo do último ano, a mover sucessivos pedidos de acesso aos mais variados documentos na posse da Governo, acabando por fazer um uso abusivo dos mesmos quando a eles tem acesso, concretamente através da publicação no Expresso, aliada a outras tantas sobre o Governo e o seu Primeiro-Ministro.

    O que acham que aconteceria? Como reagiria a classe jornalística? Como reagiria o Sindicato dos Jornalistas? Como reagiria a Entidade Reguladora para a Comunicação Social? Como reagiria a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista?

    Pagaria para ver.

    man in white t-shirt sitting beside woman in white t-shirt

    Porém, resposta similar obtive, não do Governo, mas, pasme-se, da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, que integra apenas jornalistas. E isto porque pedi formalmente diversos documentos, entre os quais actas de reuniões, diligências tomadas em sede de processos de averiguação e disciplinares a jornalistas e também a decisões quanto a remunerações dos nove membros do Plenário de uma entidade de direito público.

    A resposta, esta semana transmitida, contém esta e outras “pérolas”:

    “Embora o Secretariado reconheça que tal informação nunca foi requerida e o número de documentos, não obstante ser morosa, não configure propriamente um impedimento, a verdade é que a finalidade do acesso aos documentos é, em si, manifestamente abusiva. E é assim porque o requerente tem vindo, ao longo do último ano, a mover sucessivos pedidos de acesso aos mais variados documentos na posse da CCPJ, acabando por fazer um uso abusivo dos mesmos quando a eles tem acesso, concretamente através da publicação no “Página Um”, aliada a outras tantas sobre a CCPJ e a sua Presidente.

    Convém referir que as minhas expectativas face a esta CCPJ estão já abaixo de zero, como se pode constatar pela cobertura noticiosa e opinativa que lhe temos dedicado no PÁGINA UM. A sua inacção em diversas matérias – como o fechar os olhos às relações promíscuas entre grupos de media e determinadas empresas é um exemplo –, já não tem cura. Mas convinha que não enterrassem a própria essência do jornalismo, abrindo uma caixa de Pandora perante a passividade da classe só porque se deparam, pela primeira vez, com um jornalista que não quer ser corporativista nem agradar à classe.

    gray microphone in room

    Imaginar que se pode dar uma resposta daquele quilate a um jornalista – invocando uma norma legal, isto é, o ser “manifestamente abusivo”, porque acham os pedidos “chatos” – é dar em simultâneo “instruções” ao Governo, à Administração Pública, às empresas e a todas as entidades para tratarem, do mesmo modo, outros jornalistas.

    Para a jornalista (credo!) Licínia Girão e para o jornalista (duplo credo, porque também ensina estudantes de Comunicação Social), que assinaram a carta a mim remetida, haver um jornalista a pedir, por exemplo, actas de reuniões e documentos de remuneração (numa altura em que a CCPJ pretendia aumentar as receitas através de uma subida dos emolumentos) é “manifestamente abusivo”. Presumo que já não seria se eu lhes cantasse loas.

    Mas não me surpreendendo que a CCPJ (tal como em tempos a Entidade Reguladora para a Comunicação Social) tenha este tipo de atitudes pouco adultas (fazendo “birras”, porque os incomodam), também sei como as “coisas” funcionam em corporações – e sei muito bem o quão corporativista é a classe jornalística.

    Por isso, não me espanta, embora lamente, que, por exemplo, as minhas tentativas de telefonemas e de mensagens para o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Luís Simões, para lhe chamar a atenção para a gravidade da reposta da CCPJ, tenham ficado sem qualquer resposta. Ainda mais porque a resposta da CCPJ lhe seguiu por mensagem de correio electrónico. Compreendo o seu silêncio, dentro do contexto da classe.

    person holding ballpoint pen writing on notebook

    Afinal, por que carga de água o presidente do Sindicato dos Jornalistas teria de reagir ao PÁGINA UM, que é um “minúsculo” jornal e que ainda por cima só faz pedidos “manifestamente abusivos”? E logo pedidos manifestamente abusivos à Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, onde pululam figuras tão gradas de uma imprensa onde todos se conhecem e se cruzam.

    Na verdade, ignore-se um “minúsculo” jornal que, para recordar os assuntos que levámos até às últimas instâncias, também faz pedidos manifestamente abusivos ao Governo.

    Pedidos manifestamente abusivos ao Conselho Superior da Magistratura.

    Pedidos manifestamente abusivos ao Ministério da Saúde.

    Pedidos manifestamente abusivos ao Infarmed.

    Pedidos manifestamente abusivos à Ordem dos Médicos.

    Pedidos manifestamente abusivos à Ordem dos Farmacêuticos.

    Pedidos manifestamente abusivos à Direcção-Geral da Saúde.

    Pedidos manifestamente abusivos ao Instituto Superior Técnico.

    printing machine

    Pedidos manifestamente abusivos ao Banco de Portugal

    Pedidos manifestamente abusivos à Inspecção-Geral das Actividades em Saúde.

    Pedidos manifestamente abusivos à Administração Central do Sistema de Saúde.

    E tantos mais fará…

    Por isso, e pedindo desculpas (enfim, sarcásticas) por não fazermos no PÁGINA UM um jornalismo fofinho, sem abusos, e muito menos manifestos – passem muito bem com o vosso conceito de “manifestamente abusivo”. O PÁGINA UM, lamento desiludir-vos, não vai fazer o jornalismo que a maioria de Vossas Excelências deseja: jornalismo domesticado, amorfo e que se banqueteia com o poder. No dia em que tal me suceder, deixarei de ser jornalista.


    Nota final: A Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos já se pronunciou esta semana sobre uma primeira recusa da CCPJ aos documentos solicitados pelo PÁGINA UM, dando-nos inteira razão. Abordaremos este assunto, com detalhe noticioso, na próxima semana.

  • Este desavergonhado Público: do “apagão” a Pedro Girão ao “apagão” a Carmo Gomes

    Este desavergonhado Público: do “apagão” a Pedro Girão ao “apagão” a Carmo Gomes


    Em 19 de Agosto de 2021, o Público escreveu, apagando, uma negra página na História do Jornalismo, “despublicando” – eufemístico termo para censura em tempos de (suposta) democracia – um artigo de opinião do médico Pedro Girão sobre tema delicado mas essencial: a vacinação de menores de idade contra a covid-19. Hoje sabemos ser questão mais do que controversa. E pior do que isso, o seu director Manuel Carvalho teve até a desfaçatez de vangloriar-se de tão vil acto, pois defendeu que “recusamos em absoluto promover juízos que tendem a negar a importância ou o relativo consenso científico em torno das vacinas”.

    Não satisfeito, ontem, o jornal Público – tragicamente liderado por Manuel Carvalho, o tal director que, certo dia, decidiu ser legítimo difamar-me, porque supostamente o PÁGINA UM estaria a contrariar um suposto e necessário “consenso social” em torno da vacinação contra a covid-19 – publicou uma entrevista a Manuel Carmo Gomes, alegado epidemiologista e membro da Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid-19 (CTVC).

    A entrevista titulava-se “Toda a gente deveria tomar uma dose de vacina bivalente”, e foi um dos artigos mais lidos do Público de ontem.

    Manuel Carmo Gomes

    O título da entrevista foi retirada da resposta à seguinte pergunta:

    A quem, fora dos grupos de risco, recomendaria a vacinação nesta fase?

    E que teve a seguinte resposta:

    De um modo geral, recomendaria que toda a gente tomasse uma dose da vacina bivalente [que só chegou a Portugal no último trimestre de 2022 e cujas versões mais recentes têm uma componente da Ómicron e outra do vírus original]. Esta vacina que está a ser administrada ajuda o sistema imunitário a reconhecer toda esta sopa de subvariantes que estão à nossa volta e que com o tempo vão continuar a mudar.

    Portanto, a vacina é recomendada para adultos acima dos 18 anos e eu penso que é sensato as pessoas tomarem-na, porque, no que diz respeito a doença grave, ficam mais protegidas e, no que diz respeito a infecção, ficam protegidas temporariamente.

    E recordo: não é boa ideia as pessoas serem infectadas pela covid, porque já percebemos que existem riscos de complicações de toda a ordem. E não é necessário ser uma infecção grave que leve ao hospital. O vírus chega praticamente a todos os órgãos internos, tem uma grande propensão para originar microtrombos na parede interna de veias e artérias, vai ao sistema neurológico, tem uma função de desregulação do sistema imunitário. Isto não é uma “gripezinha”. É verdade que o facto de já terem sido vacinadas confere às pessoas uma maior protecção. Um estudo feito em Portugal mostra que, ao fim de oito meses, a chamada imunidade híbrida (a pessoa que foi vacinada e também foi infectada) confere uma protecção de aproximadamente 60% contra infecção, comparativamente às pessoas que foram apenas vacinadas e não foram infectadas. Agora, isto não é uma segurança absoluta, não evita que as pessoas sejam infectadas.

    grayscale photography of woman praying while holding prayer beads

    Parte desta resposta entretanto desapareceu (os trechos acima marcados a negro em itálico), onde até se falava de uma “sopa de subvariantes” (uma parvoíce, diga-se), e a pequena entrevista viu então acrescentados os seguintes novos trechos, tendo até o título alterado para “Covid: Para pessoas saudáveis, a decisão de vacinação deve ser individual“, que não constavam, portanto, da entrevista original:

    Para pessoas saudáveis com mais de 18 anos, a decisão deve ser individual. Se no caso das pessoas com factores de risco (insuficiência cardíaca, renal, pulmonar, imunocomprometidos…) a recomendação de vacinação deve ser universal, para uma pessoa saudável a vacina não tem problemas, é segura e tem vantagens, mas cada um deve fazer a sua avaliação de risco.

    Um taxista, uma pessoa que trabalha numa caixa de supermercado, pessoas que têm contacto com o público, correm um risco maior de ser infectados, enquanto para alguém que vive mais na sua bolha familiar e com apenas algum contacto com colegas de trabalho, o risco é menor. As pessoas devem fazer a sua avaliação sobre até que ponto estão expostas à infecção e isso deve entrar na decisão de se vacinarem ou não.

    Tudo isto feito acompanhado apenas por uma simples nota de editor – aditando que Carmo Gomes “entendeu clarificar a sua posição inicial” – pouco lhes importando que, hélas, se fez um injustificável “apagão” em concreto, pois o jornal fez desaparecer o que antes fora dito, como se nunca tivesse sido dito. Felizmente, mesmo no digital, nada se apaga definitivamente. Nem a vergonha.

    Variações das declarações de Carmo Gomes na entrevista ao Público. As primeiras 13 linhas e meia da versão original desapareceram e foram substituídas por outras declarações, modificando mesmo o título.

    Este “apagão” da resposta de Carmo Gomes (não houve “clarificação; houve uma pessoa sem vértebras a “fugir com o rabo à seringa” do que disse na entrevista) é tanto ou mais grave do que o “apagão” cometido contra Pedro Girão há cerca de ano e meio. Onde com o “apagão” ignominioso do texto de Pedro Girão houve censura, no “apagão” a favor de Carmo Gomes houve deslealdade aos leitores. E leitores, esses, que podem pensar ser isto (“apagar” frases quando se mostram inconvenientes) uma prática comum no jornalismo. Não é. Não pode ser. Não quero admitir que seja.

    Um verdadeiro jornalista, um jornal sério, deve saber que há princípios sagrados, ainda mais numa entrevista. Textual. Deve corrigir-se um evidente erro ou um lapso, se for da responsabilidade do jornalista. Por exemplo, uma transcrição malfeita, uma edição das frases que as tornam ambíguas ou com sentido contrário. Mas nada mais. Assim dito, assim fica dito. Doa a quem doer.

    Arrependendo-se o entrevistado daquilo que disse – e que foi publicado –, não pode JAMAIS um jornal sério, um jornalista credível, um director decente, aceitar APAGAR alguma coisa nem sob tortura ou encerramento. Apagar é reescrever a História; é condescender com os poderes, que, assim, podem sempre dar o dito por não dito, com o contributo de jornalistas-fantoches, disponíveis invertebrados, sempre prontos a “rectificações”, se entretanto as reacções públicas ou privadas assim o aconselharem.

    man sitting on chair holding newspaper on fire

    O Público não é um jornal qualquer. Podem agora os jornalistas que lá estão, o seu director e o editor que fez este intencional “apagão”, um favorzinho, ou mais do que isso, desejar a morte do jornalismo sério e respeitável, que tem o dever de ser fiel apenas aos leitores. Mas não podem aguardar que jornalistas sérios aceitem os seus actos com candura, dizendo: “mais uma do Público”.

    O Público não é – pelo seu percurso, pela qualidade dos jornalistas que lá passaram, e por alguns poucos que ainda lá estão – um jornal qualquer. Deve saber que não pode mudar a História, ainda mais as histórias que publicou. Isto aplica-se a este caso, relacionado com a pandemia, e a qualquer outra.

    Vai o Público fazer o mesmo se António Costa um dia pedir para se apagar trechos de uma entrevista?

    Ou vai o Público mudar uma citação de algum ministro que, no dia seguinte, reparou que afinal devia ter dito Z em vez de Y?

    Ou… quem paga mais, hein?!

    Enfim, não pode hoje o Público, ou outro qualquer órgão de comunicação social, publicar uma notícia ou uma entrevista, qualquer que seja o tema, e depois afinal “rectificar” aquilo que se disse, porque afinal conveio modificar o discurso, apagando o original, e abusivamente fazê-lo porque o online aparentemente facilita esse acto.

    person burning paper

    Deve um jornal sério aceitar a alteração de uma opinião, destacando-a até, mas nunca pode aceitar apagar o que fora dito, porque isso é reescrever a História.

    E reescrever a História, apagando actos e frases inconvenientes, não é uma função do Jornalismo. Pelo contrário.

    Se isso for feito, como aqui se mostra no caso do Público, então estamos não perante um jornal, mas sim um pasquim. E daqueles que matam o Jornalismo.