A presidente da Câmara de Caminha, Liliana Silva, eleita pelo Partido Social Democrata, considerou “inadmissível” que a banda punk britânica Lambrini Girls (uma dos membros é uma luso-descendente) tenham projectado “Fuck Chega” em Vilar de Mouros; André Ventura perguntou se “vale tudo para nos insultar” num festival apoiado com dinheiro público; e a distrital do Chega quis saber se as mensagens tinham sido previamente “validadas” e como passaram sem “controlo” da organização.
A palavra “controlo” talvez seja a mais reveladora desta pequena comédia de susceptibilidades atingindo, ademais, um partido que não costuma ser meigo nem usar eufemismos na sua gramática política. Não porque Ventura, o Chega ou a presidente da Câmara não possam protestar — podem dizer o que entenderem —, mas porque imaginar uma banda punk obrigada a submeter previamente ao fiscal camarário o palavrão, o cartaz ou a indignação política significa não perceber nada do território cultural que se convidou para subir ao palco.

O “fuck” não desembarcou no punk esta semana, escondido numa carrinha das Lambrini Girls. Fui fazer uma rápida pesquisa. Os Dead Kennedys lançaram, em 1981, “Nazi Punks Fuck Off”, manifesto contra a violência nazi e autoritária dentro da própria cena punk. No mesmo ano, os canadianos D.O.A. apontaram a Ronald Reagan com “Fucked Up Ronnie”, tema mais tarde actualizado contra Donald Trump. Os 7 Seconds gravaram “Fuck Your Amerika”; os Bad Religion meteram “Fuck Armageddon… This Is Hell” no álbum de estreia.
A viragem do século manteve o léxico. Os Anti-Flag gravaram “Fuck Police Brutality”, em 1996; os Propagandhi lançaram “Fuck the Border”; e os Pennywise fizeram de “Fuck Authority”, em 2001, um dos seus temas emblemáticos. Violência policial, fronteiras, autoridade: três alvos políticos, três murros verbais, zero preocupação em pedir licença ao destinatário.
O palco contemporâneo também não virou sala de chá. O grupo britânico-irlandês IDLES tem repetido, em concertos, o seu êxito “Fuck the King”, com Joe Talbot a chamar-lhe, em tom provocatório, um novo hino nacional britânico.

Billie Joe Armstrong, dos Green Day, conduziu no Rock Werchter, em Julho de 2025, um “Fuck Donald Trump”. As próprias Lambrini Girls já tinham aparecido no ambiente politizado de Glastonbury, onde também surgiu “Fuck the Tories”. Quem as contratou para Vilar de Mouros dificilmente julgaria ter comprado música de câmara.
Nem o punk detém o monopólio desta gramática. Os N.W.A. lançaram “Fuck tha Police”, em 1988, e o FBI escreveu no ano seguinte à editora para manifestar reprovação. Rage Against the Machine transformaram “Killing in the Name”, nascido no contexto do espancamento de Rodney King, num hino de recusa da autoridade. YG e Nipsey Hussle dispensaram metáforas em 2016: “FDT” significava “Fuck Donald Trump” e despertou a atenção dos serviços secretos.
A linguagem agressiva e o insulto político englobam todos os palcos. Roger Waters, no festival Desert Trip, na Califórnia, em 2016, transformou-os até em elemento cénico. Por exemplo, exibindo durante “Pigs”, imagens depreciativas de Donald Trump e fazendo sobrevoar o público um porco insuflável onde se lia “FUCK TRUMP AND HIS WALL”.

Na digressão This Is Not a Drill, em 2022, Waters voltou a usar os enormes ecrãs dos seus concertos para projectar mensagens como “FUCK THE SUPREME COURT”, “FUCK DRONES” e “FUCK YOUR GUNS”. Trump tem sido, aliás, um alvo preferencial de muitas bandas.
Morrissey, no Hollywood Bowl, em Los Angeles, em 2019, apresentou-se com uma camisola onde se lia “FUCK THE GUARDIAN”, dirigida ao jornal britânico, que noticiou o facto. Cinco anos antes, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, os músicos da sua banda tinham subido ao palco com T-shirts “FUCK HARVEST”, numa provocação à editora Harvest Records, da qual Morrissey acabara de se separar.
Glastonbury, um dos mais mediáticos festivais de música do mundo, oferece vários outros exemplos. Olivia Rodrigo levou Lily Allen ao palco de Glastonbury, em 2022, e ambas dedicaram “Fuck You” aos cinco juízes do Supremo Tribunal norte-americano que formaram a maioria responsável por revogar o precedente de Roe v. Wade, decisão de 1973 que durante quase meio século garantira protecção constitucional federal ao direito ao aborto nos Estados Unidos. Phoebe Bridgers puxou, no mesmo festival, por um “Fuck the Supreme Court”. Os Kneecap projectaram em Coachella, em 2025, “Fuck Israel. Free Palestine”.

No ano passado, os Kneecap levaram uma multidão a gritar “Fuck Keir Starmer” e exibiram nos ecrãs “Fuck Badenoch”, ataques dirigidos, respectivamente, ao primeiro-ministro britânico e à líder do Partido Conservador. E já em 2015 as Pussy Riot tinham usado Glastonbury para lançar um explícito “fuck you” a Vladimir Putin, numa encenação sobre um veículo militar que incluiu ainda a expressão “fuck you with your fucking guns”.
Em todos estes casos, a obscenidade não surgiu como um deslize verbal captado por acaso: foi assumida como parte da performance, inscrita em cenários, ecrãs ou vestuário, ou transformada numa palavra de ordem repetida por milhares de espectadores.
A minha defesa de “Fuck Chega” começa onde acabaria qualquer defesa partidária ou ideológica. Defenderia com a mesma convicção “Fuck PS”, “Fuck PSD”, “Fuck Montenegro”, “Fuck Carneiro” ou “Fuck Ventura”. Quem protege apenas o insulto dirigido ao adversário não defende liberdade de expressão; escolhe apenas o seu palavrão favorito.

A cultura merece, aliás, um espaço ainda maior para a transgressão. Criação artística alimenta-se do desconforto, da ruptura, do exagero, do mau gosto e, por vezes, da grosseria. A Constituição da República Portuguesa declara livre a criação intelectual e artística e impede o Estado de programar a cultura segundo directrizes políticas, ideológicas ou estéticas.
Nenhuma dessas garantias transforma o palco numa zona sem lei: ameaças, incitamento à violência ou actos ilícitos continuam sujeitos às normas aplicáveis. Um ecrã com “Fuck Chega”, porém, não constitui uma ameaça. Insulta. Provoca. Irrita. O tipo de expressão para cuja defesa a liberdade deixa de ser uma palavra decorativa.
O argumento do dinheiro público consegue ser ainda mais pobre. Impostos pagos por comunistas financiam eventos onde se ataca o PCP; impostos de católicos ajudam a suportar manifestações culturais anticlericais; impostos de socialistas e sociais-democratas chegam a artistas que insultam PS e PSD. Dinheiro público não compra obediência política. Um subsídio municipal condicionado à assepsia ideológica deixa de financiar cultura para começar a comprar decoração.

Vilar de Mouros acrescenta uma ironia difícil de superar. A edição de 1968 juntou Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira e chamou a atenção da PIDE, que recebeu relatórios sobre “canções proibidas” cantadas por Zeca Afonso e pelo público.
Ninguém de bom senso compara Liliana Silva ou o Chega à polícia política do Estado Novo. A memória daquele festival, contudo, devia aconselhar algum pudor sempre que alguém pergunta quem deveria ter “controlado” previamente uma mensagem num palco.
Ventura pode ficar ofendido. Liliana Silva pode considerar as Lambrini Girls lamentáveis. O Chega pode responder-lhes com toda a violência verbal. E fez. Essa reciprocidade também se chama liberdade. Outra coisa consiste em desejar produtores culturais transformados em alfândegas ideológicas, revistando palavras antes de as deixarem entrar no recinto.

O punk nasceu, cresceu e sobreviveu como um dos grandes redutos da transgressão verbal. Tirar-lhe o excesso, a insolência e o palavrão para poupar políticos de pele fina deixaria uma caricatura domesticada. Querem punk certificado pela autarquia, com selo de conformidade e mensagem validada pela produção? Onde é que vivem?
Os meninos do coro têm outros palcos. Aos políticos sobram parlamentos, televisões, redes sociais e gabinetes de imprensa. Ao punk, por favor, deixem-lhe ao menos o direito de mandar alguém para o caralho.
















































