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  • ‘Fuck Chega’? Na música e na democracia, mandar alguém para o caralho é o supremo exercício da liberdade

    ‘Fuck Chega’? Na música e na democracia, mandar alguém para o caralho é o supremo exercício da liberdade


    A presidente da Câmara de Caminha, Liliana Silva, eleita pelo Partido Social Democrata, considerou “inadmissível” que a banda punk britânica Lambrini Girls (uma dos membros é uma luso-descendente) tenham projectado “Fuck Chega” em Vilar de Mouros; André Ventura perguntou se “vale tudo para nos insultar” num festival apoiado com dinheiro público; e a distrital do Chega quis saber se as mensagens tinham sido previamente “validadas” e como passaram sem “controlo” da organização.

    A palavra “controlo” talvez seja a mais reveladora desta pequena comédia de susceptibilidades atingindo, ademais, um partido que não costuma ser meigo nem usar eufemismos na sua gramática política. Não porque Ventura, o Chega ou a presidente da Câmara não possam protestar — podem dizer o que entenderem —, mas porque imaginar uma banda punk obrigada a submeter previamente ao fiscal camarário o palavrão, o cartaz ou a indignação política significa não perceber nada do território cultural que se convidou para subir ao palco.

    Lambrini Girls. Foto: D.R.

    O “fuck” não desembarcou no punk esta semana, escondido numa carrinha das Lambrini Girls. Fui fazer uma rápida pesquisa. Os Dead Kennedys lançaram, em 1981, “Nazi Punks Fuck Off”, manifesto contra a violência nazi e autoritária dentro da própria cena punk. No mesmo ano, os canadianos D.O.A. apontaram a Ronald Reagan com “Fucked Up Ronnie”, tema mais tarde actualizado contra Donald Trump. Os 7 Seconds gravaram “Fuck Your Amerika”; os Bad Religion meteram “Fuck Armageddon… This Is Hell” no álbum de estreia.

    A viragem do século manteve o léxico. Os Anti-Flag gravaram “Fuck Police Brutality”, em 1996; os Propagandhi lançaram “Fuck the Border”; e os Pennywise fizeram de “Fuck Authority”, em 2001, um dos seus temas emblemáticos. Violência policial, fronteiras, autoridade: três alvos políticos, três murros verbais, zero preocupação em pedir licença ao destinatário.

    O palco contemporâneo também não virou sala de chá. O grupo britânico-irlandês IDLES tem repetido, em concertos, o seu êxito “Fuck the King”, com Joe Talbot a chamar-lhe, em tom provocatório, um novo hino nacional britânico.

    Billie Joe Armstrong, dos Green Day, conduziu no Rock Werchter, em Julho de 2025, um “Fuck Donald Trump”. As próprias Lambrini Girls já tinham aparecido no ambiente politizado de Glastonbury, onde também surgiu “Fuck the Tories”. Quem as contratou para Vilar de Mouros dificilmente julgaria ter comprado música de câmara.

    Nem o punk detém o monopólio desta gramática. Os N.W.A. lançaram “Fuck tha Police”, em 1988, e o FBI escreveu no ano seguinte à editora para manifestar reprovação. Rage Against the Machine transformaram “Killing in the Name”, nascido no contexto do espancamento de Rodney King, num hino de recusa da autoridade. YG e Nipsey Hussle dispensaram metáforas em 2016: “FDT” significava “Fuck Donald Trump” e despertou a atenção dos serviços secretos.

    A linguagem agressiva e o insulto político englobam todos os palcos. Roger Waters, no festival Desert Trip, na Califórnia, em 2016, transformou-os até em elemento cénico. Por exemplo, exibindo durante “Pigs”, imagens depreciativas de Donald Trump e fazendo sobrevoar o público um porco insuflável onde se lia “FUCK TRUMP AND HIS WALL”.

    Trump é um alvo habitual em concertos. Foto: D.R.

    Na digressão This Is Not a Drill, em 2022, Waters voltou a usar os enormes ecrãs dos seus concertos para projectar mensagens como “FUCK THE SUPREME COURT”, “FUCK DRONES” e “FUCK YOUR GUNS”. Trump tem sido, aliás, um alvo preferencial de muitas bandas.

    Morrissey, no Hollywood Bowl, em Los Angeles, em 2019, apresentou-se com uma camisola onde se lia “FUCK THE GUARDIAN”, dirigida ao jornal britânico, que noticiou o facto. Cinco anos antes, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, os músicos da sua banda tinham subido ao palco com T-shirts “FUCK HARVEST”, numa provocação à editora Harvest Records, da qual Morrissey acabara de se separar.

    Glastonbury, um dos mais mediáticos festivais de música do mundo, oferece vários outros exemplos. Olivia Rodrigo levou Lily Allen ao palco de Glastonbury, em 2022, e ambas dedicaram “Fuck You” aos cinco juízes do Supremo Tribunal norte-americano que formaram a maioria responsável por revogar o precedente de Roe v. Wade, decisão de 1973 que durante quase meio século garantira protecção constitucional federal ao direito ao aborto nos Estados Unidos. Phoebe Bridgers puxou, no mesmo festival, por um “Fuck the Supreme Court”. Os Kneecap projectaram em Coachella, em 2025, “Fuck Israel. Free Palestine”.

    Roger Waters, fundador dos Pink Floyd, tem sido um dos mais músicos que usam linguagem mais crua como mensagem política nos concertos. Foto: D.R.

    No ano passado, os Kneecap levaram uma multidão a gritar “Fuck Keir Starmer” e exibiram nos ecrãs “Fuck Badenoch”, ataques dirigidos, respectivamente, ao primeiro-ministro britânico e à líder do Partido Conservador. E já em 2015 as Pussy Riot tinham usado Glastonbury para lançar um explícito “fuck you” a Vladimir Putin, numa encenação sobre um veículo militar que incluiu ainda a expressão “fuck you with your fucking guns”.

    Em todos estes casos, a obscenidade não surgiu como um deslize verbal captado por acaso: foi assumida como parte da performance, inscrita em cenários, ecrãs ou vestuário, ou transformada numa palavra de ordem repetida por milhares de espectadores.

    A minha defesa de “Fuck Chega” começa onde acabaria qualquer defesa partidária ou ideológica. Defenderia com a mesma convicção “Fuck PS”, “Fuck PSD”, “Fuck Montenegro”, “Fuck Carneiro” ou “Fuck Ventura”. Quem protege apenas o insulto dirigido ao adversário não defende liberdade de expressão; escolhe apenas o seu palavrão favorito.

    Morrissey não poupa também na linguagem rude, tendo vestido uma t-shirt com a frase”Fuck The Guardian”. O antigo vocalista dos The Smith acusava o jornal britânico de lhe mover uma campanha de ódio, sobretudo desde que apoiava um movimento político de extrema-direita. Foto: D.R.

    A cultura merece, aliás, um espaço ainda maior para a transgressão. Criação artística alimenta-se do desconforto, da ruptura, do exagero, do mau gosto e, por vezes, da grosseria. A Constituição da República Portuguesa declara livre a criação intelectual e artística e impede o Estado de programar a cultura segundo directrizes políticas, ideológicas ou estéticas.

    Nenhuma dessas garantias transforma o palco numa zona sem lei: ameaças, incitamento à violência ou actos ilícitos continuam sujeitos às normas aplicáveis. Um ecrã com “Fuck Chega”, porém, não constitui uma ameaça. Insulta. Provoca. Irrita. O tipo de expressão para cuja defesa a liberdade deixa de ser uma palavra decorativa.

    O argumento do dinheiro público consegue ser ainda mais pobre. Impostos pagos por comunistas financiam eventos onde se ataca o PCP; impostos de católicos ajudam a suportar manifestações culturais anticlericais; impostos de socialistas e sociais-democratas chegam a artistas que insultam PS e PSD. Dinheiro público não compra obediência política. Um subsídio municipal condicionado à assepsia ideológica deixa de financiar cultura para começar a comprar decoração.

    Prophet of Rage num festival na polónia em 2017. Foto: captura de ecrã no Youtube.

    Vilar de Mouros acrescenta uma ironia difícil de superar. A edição de 1968 juntou Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira e chamou a atenção da PIDE, que recebeu relatórios sobre “canções proibidas” cantadas por Zeca Afonso e pelo público.

    Ninguém de bom senso compara Liliana Silva ou o Chega à polícia política do Estado Novo. A memória daquele festival, contudo, devia aconselhar algum pudor sempre que alguém pergunta quem deveria ter “controlado” previamente uma mensagem num palco.

    Ventura pode ficar ofendido. Liliana Silva pode considerar as Lambrini Girls lamentáveis. O Chega pode responder-lhes com toda a violência verbal. E fez. Essa reciprocidade também se chama liberdade. Outra coisa consiste em desejar produtores culturais transformados em alfândegas ideológicas, revistando palavras antes de as deixarem entrar no recinto.

    O punk nasceu, cresceu e sobreviveu como um dos grandes redutos da transgressão verbal. Tirar-lhe o excesso, a insolência e o palavrão para poupar políticos de pele fina deixaria uma caricatura domesticada. Querem punk certificado pela autarquia, com selo de conformidade e mensagem validada pela produção? Onde é que vivem?

    Os meninos do coro têm outros palcos. Aos políticos sobram parlamentos, televisões, redes sociais e gabinetes de imprensa. Ao punk, por favor, deixem-lhe ao menos o direito de mandar alguém para o caralho.

  • O combate à corrupção começará, sem mais adiamentos, no dia de São Nunca, à tardinha

    O combate à corrupção começará, sem mais adiamentos, no dia de São Nunca, à tardinha


    Em Portugal, o combate à corrupção tem uma característica singular, talvez mesmo digna de figurar no património imaterial da Nação: é sempre prioritário, desde que não seja urgente.

    Anuncia-se com solenidade, apresenta-se em conferência de imprensa, baptiza-se com maiúsculas, transforma-se em Estratégia, Agenda, Mecanismo, Regime Geral, Plano, Código, plataforma, grupo de trabalho e, quando a imaginação administrativa se encontra inspirada, em declaração sob compromisso de honra. Depois chega-se à desagradável fase da execução — aquela em que alguém teria efectivamente de declarar interesses, revelar incompatibilidades, afastar-se de uma decisão ou deixar um papel assinado no processo — e descobre-se que o País ainda não está preparado para tamanha precipitação.

    A história da moderna declaração obrigatória de inexistência de conflitos de interesses para cargos políticos e públicos é uma pequena obra-prima deste método português de combater a corrupção sem a incomodarmos demasiado.

    A ideia vem de longe e nasceu com pompa suficiente. Em Setembro de 2020, o Governo de António Costa apresentou para discussão pública a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção 2020-2024, que é algo que os políticos se cansam de garantir que nunca existe, mas que convém prevenir. A então ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, explicou que a prevenção seria a “chave do sistema”, porque não bastava perseguir criminalmente os corruptos depois do serviço feito.

    Seguiram-se meses de consulta pública, especialistas, magistrados, ordens profissionais, associações e cidadãos. Em Março de 2021, o Conselho de Ministros aprovou finalmente a Estratégia Nacional Anticorrupção 2020-2024, apresentada pelo Governo como um dos seus “objectivos prioritários”. Pretendia-se, dizia o comunicado oficial, agir “a montante do fenómeno”, criar mecanismos de identificação precoce dos riscos e aumentar a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas.

    Tudo magnífico.

    António Costa prometeu declaração que vai de adiamento em adiamento. Foto: D.R.

    Em Dezembro de 2021 surgiu então o Decreto-Lei n.º 109-E/2021, que criou o Mecanismo Nacional Anticorrupção (MENAC) e o Regime Geral da Prevenção da Corrupção (RGPC). E neste último apareceu uma ideia de uma violência burocrática quase revolucionária: quem decidisse certas matérias particularmente sensíveis teria de assinar uma declaração dizendo que não tinha conflitos de interesses.

    Não se falava de assuntos menores. O artigo 13.º abrangia precisamente quatro territórios onde dinheiro, poder administrativo e interesses privados costumam encontrar-se com maior frequência: contratação pública; concessão de subsídios, subvenções e benefícios; licenciamentos urbanísticos, ambientais, comerciais e industriais; e procedimentos sancionatórios. Administradores, dirigentes e trabalhadores que interviessem nesses processos teriam de deixar escrito que não se encontravam numa situação susceptível de fazer duvidar seriamente da sua imparcialidade.

    Faltava apenas uma insignificância: o Governo tinha de aprovar o modelo da declaração.

    Ora, demorou dois anos e oito meses.

    Só para se produzir este texto da declaração gastou-se dois anos e oito meses.

    Só em 14 de Agosto de 2024, já com Luís Montenegro em São Bento e Rita Alarcão Júdice na Justiça, surgiu finalmente a Portaria n.º 185/2024/1. E não se diga que a Administração fora confrontada com uma complexidade documental comparável à revisão do Código Civil. O resultado de quase três anos de maturação administrativa é essencialmente uma página: nome, cargo, entidade, procedimento, declaração sob compromisso de honra, data e assinatura.

    Estava finalmente pronta a temível arma contra os conflitos de interesses. A portaria dizia que entraria em vigor 30 dias depois.

    Durou 51 dias esta audácia.

    Em 4 de Outubro de 2024, antes de a obrigação conseguir perturbar seriamente a tranquilidade administrativa, o Governo publicou a Portaria n.º 242/2024/1. Descobrira-se que o artigo 13.º tinha um âmbito “muito abrangente”, tanto subjectiva como objectivamente, causando dificuldades sobretudo às entidades envolvidas em muitos procedimentos. Como a Agenda Anticorrupção do Governo Montenegro previa entretanto rever o RRGPC e o próprio MENAC, considerou-se prudente “sobrestar à vigência”. Em português corrente: esperar. A declaração passaria a entrar em vigor 180 dias depois da publicação original.

    Luís Montenegro lidera um Governo desde 2024 que combate a corrupção de adiamento em adiamento… Foto: PCM.

    Chegou Fevereiro de 2025 e os 180 dias começaram perigosamente a aproximar-se. O Governo verificou então que ainda não conseguira aprovar a revisão prometida. Publicou a Portaria n.º 38/2025/1 e concedeu mais seis meses à prevenção da corrupção: a declaração entraria em vigor um ano depois da portaria original, em Agosto de 2025. A justificação incluía a necessidade de “acautelar as legítimas expectativas das entidades abrangidas”.

    Aparentemente, uma das expectativas legítimas da Administração Pública portuguesa era não ter ainda de assinar a declaração.

    Chegou então 14 de Agosto de 2025. E, como um relógio suíço aplicado ao adiamento português, apareceu a Portaria n.º 287-A/2025/1. A obrigação passou para 14 de Agosto de 2026. Dois anos depois da publicação do formulário. A explicação continuava a remeter para as dificuldades de aplicação e para a revisão do regime.

    E chegámos a ontem, sexta-feira.

    Quando já não parecia haver espaço no calendário para outro passo atrás, Rita Alarcão Júdice, ministra da Justiça, e Marisa Garrido, secretária de Estado da Administração Pública, não tiveram um pingo de vergonha na cara e publicaram a Portaria n.º 345-B/2026/1.

    A declaração que devia vigorar 30 dias depois de Agosto de 2024, que depois passou para Fevereiro de 2025, depois para Agosto de 2025 e depois para Agosto de 2026, entrará agora em vigor — assegura-nos solenemente a República — em 31 de Julho de 2027.

    A fundamentação da ministra e da secretária de Estado é, aliás, uma jóia de economia literária: “mantêm-se os pressupostos subjacentes” aos adiamentos anteriores e entendeu-se assim “adequado diferir a data da entrada em vigor”.

    E pronto.

    Montenegro: deixa para amanhã aquilo que te pode comprometer hoje. Foto: D.R.

    Seis anos depois de o Governo Costa ter começado a preparar a Estratégia Nacional Anticorrupção e de Francisca Van Dunem ter anunciado que a prevenção era a “chave do sistema”; quase cinco anos depois de o Regime Geral da Prevenção da Corrupção ter tornado obrigatória a declaração; três anos depois de o Governo Montenegro ter finalmente aprovado o formulário de uma página, a Administração Pública portuguesa continua sem conseguir aplicar uniformemente esse formulário.

    Tudo isto demonstra que, em Portugal, combater a corrupção nos discursos é facílimo. Requer um púlpito, duas bandeiras, uma Estratégia Nacional e expressões como “transparência”, “integridade”, “confiança dos cidadãos” e “tolerância zero”. Combater conflitos de interesses no mundo real já exige uma coisa infinitamente mais incómoda: obrigar alguém, antes de decidir sobre dinheiro público, licenças ou sanções, a pôr o nome por baixo de uma declaração e assumir responsabilidade pelo que declara.

    E isso, pelos vistos, exige preparação. Muita preparação.

    A Estratégia chamava-se, recorde-se, 2020-2024. Estamos em Agosto de 2026 e uma das suas mais elementares concretizações foi remetida para Julho de 2027. Se chegar então a entrar em vigor, terão passado quase sete anos desde a apresentação pública da Estratégia e cinco anos e sete meses desde a publicação do RGPC.

    Contudo, deve reconhecer-se ao Estado português, e aos sucessivos Governos, uma qualidade rara: a perseverança. Encontramos países que combatem a corrupção perseguindo o dinheiro, reduzindo zonas de discricionariedade e expondo interesses e responsabilizando decisores. Nós aperfeiçoámos uma modalidade administrativamente mais sustentável: combatemos a corrupção adiando a data em que começaremos a combatê-la um pouco melhor.

    Por isso, talvez seja injusto chamar à data de 31 de Julho de 2027 um prazo. À luz do currículo desta declaração, será mais prudente chamar-lhe a próxima oportunidade para publicar outra portaria de adiamento.

  • Jornais no interior, ou como Marco Galinha quer fazer-nos de patos

    Jornais no interior, ou como Marco Galinha quer fazer-nos de patos


    Marco Galinha anda preocupado. Muito preocupado. O empresário que controla o Grupo BEL, no qual se integra a VASP, e que mantém interesses no Global Media Group, proprietário, entre outros títulos, do vetusto e decrépito Diário de Notícias – e que não apresentou, talvez por vergonha, as contas de 2025 –, descobriu nos últimos dias que a distribuição de jornais no interior do país constitui uma espécie de serviço público em risco de colapso, ameaçado pela possibilidade intolerável de aparecer uma coisa exótica num mercado onde durante anos quase ninguém a viu: um concorrente.

    O motivo da inquietação encontra-se num concurso lançado pelo Governo para assegurar a distribuição de publicações em 96 municípios de baixa densidade, com uma dotação próxima de três milhões de euros para três anos. Traduzido para contas menos majestáticas, falamos de cerca de um milhão de euros por ano destinado a compensar os custos de levar jornais a territórios onde a reduzida circulação torna as rotas pouco ou nada rentáveis.

    Foto: PAV.

    Marco Galinha gostaria de continuar a fazê-lo através da VASP. Até aqui, nada a apontar. Uma empresa concorre, apresenta a sua proposta e procura ganhar. O problema começa quando o empresário transforma a defesa do seu negócio numa cruzada em defesa da imprensa, quando apresenta a eventual derrota da VASP como ameaça ao pluralismo e quando procura convencer o país de que um segundo operador não representa concorrência, mas quase uma calamidade pública.

    A concorrente chama-se Pergaminhoflash e nasceu há pouco tempo. Marco Galinha e os seus jornais têm sublinhado essa juventude empresarial, como se a data da constituição de uma sociedade determinasse a experiência das pessoas que estão por trás dela. A empresa encontra-se ligada a José Manuel Rogeira de Jesus, empresário que não desembarcou ontem de uma nave espacial para descobrir que Portugal tem jornais, bancas, carrinhas e redes de distribuição. Rogeira de Jesus possui interesses na FEPI, na E.S.T. Distribuição, na Radar da Sorte e, através da Parsoc, participa no universo que passou a controlar a Notícias Ilimitadas, onde se encontram agora o Jornal de Notícias, a TSF e O Jogo.

    O relacionamento entre os dois homens possui, aliás, uma ironia adicional. Rogeira de Jesus não corresponde a um desconhecido surgido das brumas para assaltar o negócio da VASP. Os dois universos empresariais – o de Galinha e o de Jesus – estiveram, aliás, envolvidos na operação que retirou aqueles títulos da esfera da Global Media e os colocou na Notícias Ilimitadas, negócio ao qual se seguiram divergências e uma separação pouco amistosa. Aliás, já está na fase litigiosa. O concorrente de hoje de Marco Galinha já foi, em certa medida, parceiro negocial de ontem.

    Marco Galinha, à esquerda, a receber António Jose Seguro na denominada “Grande Conferência DN”: o homem-forte do Grupo Bel e da VASP usa o vetusto Diário de Notícias (com vendas inferiores mil exemplares diários) como charneira para o poder político. Foto: D.R.

    Nada disto prova que a Pergaminhoflash consiga cumprir um contrato. Nem que seja garantido que vai entrar em incumprimento. O júri do concurso terá de avaliar capacidade financeira, meios logísticos, recursos humanos, garantias e tudo quanto o caderno de encargos exija. Também não transforma automaticamente a experiência empresarial de Rogeira de Jesus em experiência operacional da nova sociedade. Uma coisa não deve ser confundida com a outra.

    Mas também não vale fazer o percurso inverso e apresentar a Pergaminhoflash como uma casca vazia apenas porque a matrícula comercial ainda cheira a tinta.

    Nos últimos dias surgiu até uma notícia do Correio da Manhã sobre falhas formais na candidatura concorrente, relacionadas com documentação entregue no procedimento. O júri concedeu prazo para o suprimento das irregularidades. Nada mais normal num concurso público quando a lei permite suprir documentos ou esclarecer elementos, ainda mais quando se trata, como parece evidente neste caso, de pormenores associados a uma assinatura.

    Mas a amplificação mediática, sobretudo pelo Correio da Manhã, de cada pequeno tropeção – a par de uma extensa entrevista de Marco Galinha no canal NOW, também da Medialivre – começa, contudo, a revelar algo mais interessante do que as insuficiências burocráticas da proposta rival: revela o nervosismo de quem não contava ter ‘companhia’. No Jornal de Notícias, ligado a Rogeira de Jesus, responde-se com farpas à VASP.

    Marco Galinha, ou a arte de afastar a concorrência. Foto: D.R.

    E as próprias palavras de Marco Galinha, lidas nas entrelinhas e para quem percebe o que está verdadeiramente em causa, ajudam a perceber o problema.

    Segundo o empresário, distribuir jornais no Interior dá prejuízo. Nessa linha, a ‘benemérita’ VASP suportaria perdas relevantes nessas rotas e o milhão de euros anual previsto pelo Governo nem sequer chegaria para compensar o esforço. Aceitemos por momentos a afirmação sem discutir a contabilidade analítica que a sustentará.

    Então… mas, nesse caso, Marco Galinha deveria agradecer à Pergaminhoflash.

    Se uma atividade provoca prejuízo e se o apoio público previsto não cobre sequer esse prejuízo, perder o concurso livraria a VASP e Marco Galinha de uma operação ruinosa. O concorrente ficaria com as carrinhas, os quilómetros, os jornais vendidos aos magotes de meia dúzia e a conta final negativa; e o homem-forte do Grupo BEL ficaria com a parte boa do negócio e poderia dedicar-se às rotas rentáveis.

    Entrevista de Marco Galinha no canal Now: 11 minutos de publicidade às virtudes da VASP. Foto: captura de ecrã.

    Porém, em vez de alívio, vemos alarme.

    E a explicação encontra-se nas contas.

    As últimas demonstrações financeiras disponíveis da VASP respeitam a 2024. As contas de 2025 não foram ainda apresentadas. Por mensagem, questionou Marco Galinha sobre essa ausência. Não respondeu.

    Em todo o caso, os números de 2024 já desmontam parte da narrativa. A VASP apresentou 164,3 milhões de euros de proveitos operacionais, mas ficou-se por 3,35 milhões de EBITDA e 172,8 mil euros de lucro líquido. Falamos de uma enorme máquina comercial, mas com uma margem final quase microscópica, o que se mostra compreensível: o ganho faz-se por via da quantidade.

    Dentro dessa máquina, o velho papel continua a desempenhar um papel que ninguém deve menosprezar. A unidade “Editorial — Publicações”, que agrega jornais, revistas, colecionáveis e serviços associados, gerou 118,96 milhões de euros de volume de negócios e 2,43 milhões de EBITDA. Quase três quartos do EBITDA total da VASP nasceram, portanto, nessa área que o discurso da diversificação empresarial tantas vezes apresenta como negócio em declínio.

    printing machine
    Foto: D.R.

    Só os jornais representaram cerca de 52 milhões de euros de vendas em 2024; as revistas acrescentaram outros 35,4 milhões. Jornais e revistas movimentaram, em conjunto, perto de 87,4 milhões de euros. Depois do custo contabilístico das mercadorias, a diferença bruta entre vendas e custos rondou 11,9 milhões de euros, antes dos restantes encargos de distribuição, pessoal, transporte, instalações, sistemas e estrutura.

    Estas contas não permitem afirmar quanto do EBITDA resulta dos jornais em sentido estrito nem quanto rende cada rota. Quem pretenda fazer essa afirmação necessita da contabilidade analítica da empresa, que não está publicada. Porém, os números mostram outra coisa e essa interessa bastante mais para compreender a agitação de Marco Galinha: a distribuição editorial continua a sustentar grande parte da infraestrutura económica da VASP.

    Uma rede logística vive de escala, frequência e densidade. Uma carrinha que percorre cem quilómetros para entregar apenas vinte jornais constitui um desastre; a mesma carrinha, usando a mesma rota para transportar jornais, revistas, livros, encomendas, jogos, produtos de conveniência e outros bens, começa a apresentar outra conta. O valor económico da distribuição da imprensa não pode, por isso, medir-se apenas através do resultado isolado de um exemplar vendido numa aldeia de Trás-os-Montes.

    Neste ponto aparece o verdadeiro medo de Marco Galinha.

    a button with the word press on it
    Foto: by Nik

    O milhão de euros não constitui o problema central. Para uma empresa com mais de 164 milhões de euros de proveitos, esse apoio representa uma parcela pequena do volume global. Aquilo que está em causa encontra-se noutro lado: o dinheiro público pode financiar a entrada de um novo operador numa rede onde a VASP desfruta hoje de uma posição quase monopolista.

    Um concorrente que obtenha apoio governamental para instalar rotas em dezenas de concelhos passa a dispor de viaturas, motoristas, pontos de entrega, relações comerciais, conhecimento territorial e uma estrutura que já não começa do zero. Nenhuma regra permite usar um subsídio público destinado ao Interior para financiar negócios alheios ao contrato, evidentemente. Mas as economias de escala não desaparecem por decreto. Depois da rota montada, colocar outros produtos na carrinha custa menos do que montar outra carrinha.

    E um distribuidor capaz de levar jornais às zonas deficitárias pode, no futuro, bater à porta dos editores e oferecer também distribuição nas zonas rentáveis.

    A partir desse momento, o problema deixa de valer um milhão. Passa a valer o monopólio de facto.

    A river running through a small town next to a hillside
    Foto: Filipe Nobre.

    Um editor que hoje dependa da VASP tem escassa capacidade negocial porque não dispõe de alternativa com cobertura comparável. Um editor com dois distribuidores à porta pode comparar preços, condições, comissões, prazos e serviços. Quem controla a rede deixa então de controlar sozinho a negociação.

    Marco Galinha sabe fazer contas. Por isso mesmo, custa acreditar que todo este ruído resulte do receio de perder um subsídio que, segundo o próprio, nem chega para cobrir o prejuízo.

    O receio mais plausível encontra-se na possibilidade de o Estado estar, sem o dizer, a criar as condições mínimas para quebrar uma posição dominante construída ao longo de décadas.

    Marco Galinha tem todo o direito de lutar pelo concurso, criticar o modelo, contestar a proposta concorrente e defender a VASP. Também pode demonstrar, com números, que o apoio é insuficiente ou que nenhuma outra empresa conseguirá prestar o serviço nas condições exigidas. Outra coisa consiste em transformar o interesse económico da VASP no interesse da imprensa portuguesa.

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    foto: Vlad Tchompalov.

    Se as rotas do Interior dão prejuízo, a entrada de um concorrente que aceite fazê-las não deveria matar a VASP. Se a perda dessas rotas ameaça todo o modelo económico da empresa, então talvez essas rotas não sejam tão irrelevantes nem tão ruinosas como agora nos quer Marco Galinha fazer crer. E se a simples existência de um segundo operador põe em risco a distribuição nacional da imprensa, então o problema do país não se encontra no aparecimento de concorrência. Reside na dependência que se deixou criar.

    Marco Galinha pode preocupar-se com os seus negócios. Faz parte da função de qualquer empresário. Já querer que os portugueses confundam a sua preocupação de negócios e de interesses comerciais com uma emergência nacional exige um esforço adicional. E para isso terá mesmo de nos fazer de patos.

  • ‘É pá, não posso escrever sobre isto!’

    ‘É pá, não posso escrever sobre isto!’


    Há um momento, na vida de um jornalista, em que a autocensura passa a funcionar como uma espécie de reflexo? Um automatismo? Antes de escrever uma frase, já sabe quem poderá ficar incomodado. Antes de publicar uma notícia, antecipa os comentários. Antes de fazer uma pergunta, imagina a reacção dos colegas, do editor, dos políticos, dos activistas, dos leitores ou das redes sociais. E, pouco a pouco, o jornalista começa a eliminar palavras, a corrigir frases, a ajustar ângulos e perguntas não porque sejam falsos, mas porque podem ser inconvenientes.

    Recentemente, um certo contrato público chamou a atenção. Um ajuste directo de alguns milhões de euros feito por uma autarquia com uma empresa com um nome curioso, daqueles instantâneos que se escolhem a “empresa na hora”.: Fabulous Episode. Verificado o registo da empresa, a morada da sede e o capital social, um detalhe saltou à vista: o proprietário único da empresa unipessoal é imigrante. Do Bangladesh. O primeiro pensamento foi: “não posso escrever sobre isto”. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça. “Uma empresa de um imigrante e ainda por cima do Bangladesh. Vão dizer que somos xenófobos ou da extrema-direita”.

    person standing on grey concrete floor
    Foto: Mario Gogh

    Fiquei surpreendida com o pensamento automático que saltou na minha mente ao ler o registo de constituição da Fabulous Episode. Mas, pensando bem, acontece muitas vezes saltarem estes pensamentos automáticos perante temas que os media e a sociedade transformaram em “tabu”.

    É uma armadilha particularmente perversa para o Jornalismo.

    Um jornalista pode investigar um governo de esquerda e ser acusado de fazer o jogo da direita. Pode escrutinar um partido de direita e ser imediatamente classificado como militante da esquerda. Pode revelar os “pés de barro” de uma decisão tomada durante uma crise sanitária e ser acusado de negar a Ciência. Pode investigar uma empresa privada e ser acusado de estar ao serviço de interesses concorrentes. Pode denunciar abusos cometidos por uma instituição pública e ser acusado de atacar o Estado e de ser “anti-sistema”. Pode simplesmente fazer uma pergunta incómoda e descobrir que, para alguém, fazer a pergunta já significa ter escolhido um lado.

    open book on brown wooden table
    Foto: Yannick Pulver

    O problema tornou-se particularmente evidente num ambiente mediático e político profundamente polarizado, em que quase todas as questões são apresentadas como uma disputa entre dois campos. Há os “nossos” e os “outros”; os “progressistas” e os “conservadores”; a esquerda e a direita; os cristãos e os ateus; os defensores da democracia e os que querem ditaduras, mais vigilância e censura. Os que estão de um lado da barricada e os que estão do outro. E, nesse cenário, quem questiona um argumento de um lado é imediatamente suspeito de pertencer ao outro.

    Na pandemia, quem ousasse noticiar algo “fora da linha” do “pensamento único autorizado”, era negacionista, anti-vacinas. Na cobertura da guerra na Ucrânia, se apresentasse dados que desmentissem a ideia de que Zelensky é um santo, era ‘putinista’. Se criticasse a chacina de inocentes num trágico 7 de Outubro em Israel… E por aí adiante.

    Há muitos outros temas onde jornalistas não querem sequer tocar, dada a polarização extrema. Um exemplo: tudo o que tenha a ver com LGBT+ (seja versus os direitos de gays, seja versus os direitos das mulheres). Aqui inclui-se o tema da mutilação definitiva (ou na nova linguagem, da “transição”) de jovens “transgénero” com autorização e assinatura de pedopsiquiatras. Se um jornalista vê a sigla LGBT+ o melhor é fugir porque vai meter-se na “linha de fogo” e acabar na gaveta dos “transfóbicos”.

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    Foto: Robert Ruggiero

    Também não convém que o jornalista apresente dados que possam sequer beliscar os “comboios de tempestades” ou escrever no Facebook que se lembra de ter estrelado ovos nas pedras da calçada, nos Verões da sua infância. Esqueça isso! Vai meter-se em sarilhos.     

    Mas há temas seguros. Todas as notícias que critiquem ou exponham defeitos a Trump ou Putin continuam a ser uma tendência geralmente aceite. Em Portugal, tudo o que possa ter culpas atribuídas ao Partido Chega também dá mais ‘likes’ do que ‘haters’. Mesmo que a notícia seja falsa.        

    Claro que o jornalista não pode ceder nem à censura nem à autocensura. Obviamente que, no PÁGINA UM, noticiámos o caso do ajuste directo milionário à empresa com sede numa mercearia do Bairro Alto. Mas era evidente que abria o flanco a ataques e comentários difamatórios. Mas o que pode um jornalista fazer? Temos culpa que a autarquia tenha feito o ajuste directo? Que a empresa tenha sede numa mercearia? Que seja detida por um imigrante? Que tenha feito um enorme aumento de capital às pressas?

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    Foto: Kaitlyn Baker

    Mas sei que muitos jornalistas já não escrevem sobre certos temas para não ter chatices. É que já nem tentam. Para quê? Só vai ser mau para eles. É melhor seguir dentro das linhas “autorizadas”, não correr riscos desnecessários. Mas, nestes casos, o Jornalismo fica metido na gaveta.    

    O jornalismo, porém, não deveria ter lados.

    O jornalista deve estar radicalmente comprometido, sim, mas é com a verificação dos factos, com a procura de evidência, com a identificação de contradições e com o direito dos cidadãos a conhecer aquilo que os poderes públicos, económicos ou institucionais prefeririam manter escondido.

    E compromisso com os factos não é compromisso com uma “tribo”.

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    Foto: Markus Winkler

    A dificuldade é que o actual ecossistema mediático recompensa precisamente o comportamento tribal. A economia do clique transformou a atenção num bem escasso e a indignação e comportamentos de “manada” em ferramentas altamente rentáveis. As tribos dão cliques. Uma notícia que confirma aquilo que o leitor já pensa tem maior probabilidade de ser partilhada do que uma notícia que o obriga a reconsiderar as suas certezas e a reflectir. O pensamento crítico dá muito trabalho para alguns. Não é natural. Uma manchete que provoca indignação ou choro de emoção produz mais reacções do que uma que exige reflexão. Uma acusação simples, um relato de fazer chorar as pedras da calçada ou a criação de um “herói” mobilizam mais facilmente do que uma investigação complexa, que aprofunda, que não fica pela espuma.

    E, assim, o jornalista fica perante uma escolha que não deveria existir: fazer jornalismo ou fazer conteúdo fácil para agradar (ou para ficar sossegado, sem chatices).

    A pressão não vem apenas das audiências. Vem também de dentro das próprias redacções. Num ambiente em que determinadas opiniões, temas ou perguntas se tornaram socialmente mais aceitáveis do que outras, o jornalista aprende rapidamente quais são os terrenos perigosos. Não precisa que alguém lhe diga explicitamente para não investigar determinado assunto. Basta ver o revirar de olhos, os comentários na secretária ao lado para perceber que determinadas perguntas provocam desconforto, que determinadas fontes são consideradas “problemáticas”, que determinadas conclusões podem causar uma crise nas redes sociais ou que determinada reportagem poderá ser interpretada como uma cedência ao “outro lado”.

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    Foto: holigil 27

    A autocensura instala-se assim sem necessidade de ordens.

    E talvez o mais grave seja aquilo que acontece depois: o jornalista deixa de perguntar “isto é verdade?” e começa a perguntar “como é que isto será interpretado?”. A primeira pergunta é jornalística. A segunda é política.

    Quando isso acontece, a profissão perde uma das suas funções essenciais: a capacidade de investigar a fundo. Doe a quem doer.

    Um bom jornalismo deve, por vezes, irritar todos. Deve poder publicar uma informação que desagrada simultaneamente ao governo e à oposição, às empresas e aos sindicatos, aos activistas de uma causa e aos seus adversários. Deve poder elogiar uma decisão de alguém que habitualmente critica e denunciar uma decisão de alguém com quem normalmente concorda.

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    Foto: Bernard Hermant

    Essa aparente incoerência é, na realidade, uma das maiores provas de independência.

    O jornalista não pode ser obrigado a escolher uma barricada para ter direito a falar ou investigar. Nem pode aceitar que a ausência de alinhamento seja interpretada como prova de alinhamento com um qualquer “adversário”. Se a única posição considerada legítima é a de um dos dois campos, então aquilo que está a desaparecer não é apenas a independência jornalística. É o próprio espaço público onde ainda é possível pensar.

    Talvez seja esse o verdadeiro dilema do jornalista contemporâneo: resistir à tentação de agradar a uma audiência, a uma redacção, a um grupo político ou a uma comunidade ideológica para preservar aquilo que deveria ser a sua única lealdade — a procura da verdade possível, sustentada por factos. Mas … e a estabilidade no trabalho? E o seu salário no final do mês?

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    Foto: Laurin Steffens

    Num tempo em que todos parecem especular de que lado um jornalista está, talvez a resposta mais importante seja precisamente esta: de nenhum lado. Melhor. Está do lado dos factos.

    E, às vezes, isso significa escolher ficar sozinho entre as duas barricadas. Afinal, no médio prazo, só arrisca tornar-se num pária. E, eventualmente, ficar no desemprego.

  • Porque tarda Portugal a transpor a directiva anti-SLAPP?

    Porque tarda Portugal a transpor a directiva anti-SLAPP?


    Dedo na ferida é o novo podcast do PÁGINA UM, apresentado pela jornalista Elisabete Tavares, com as análises do advogado Miguel dos Santos Pereira sobre temas da Justiça e Transparência.

    No episódio de estreia, o tema em análise é o atraso da transposição da directiva anti-SLAPP que valeu a Portugal um processo da Comissão Europeia.

    Acesso: LIVRE, mas subscreva o P1 PODCAST com um donativo mensal de 2,99 euros. Ajude o PÁGINA UM a amplificar o seu trabalho.

    Subscreva gratuitamente o canal do YouTube do PÁGINA UM AQUI.

  • Trust in News: contas falsas, falência real e o silêncio cúmplice dos media

    Trust in News: contas falsas, falência real e o silêncio cúmplice dos media


    Se a Trust in News (TIN) não fosse uma empresa de media, será que a imprensa teria noticiado e dado destaque ao julgamento dos três gerentes da empresa, agora condenados pela insolvência culposa da dona da revista Visão?

    Se Luís Delgado não fosse dono de uma empresa de media, como é o caso da TIN, será que teria sido alvo de notícias sobre o facto de estar a cumprir uma pena suspensa de cinco anos por abuso de confiança fiscal agravada?

    Luís Delgado, proprietário e gerente da Trust in News, foi condenado por insolvência culposa. O gestor está a cumprir uma pena suspensa pelo crime de abuso de confiança fiscal agravado, mas tem cinco anos para pagar as dívidas ou cumprirá pena de prisão. Sem fundos disponíveis, só a manutenção da TIN em actividade pode evitar que vá para trás das grades. / Foto: D.R.

    A resposta é: claro que sim. Mas a falência da TIN está a expor também a falência da credibilidade e da independência da imprensa de referência em Portugal.

    Veja-se o caso da agência Lusa. Em todas as notícias que publicou sobre a crise e insolvência da TIN, em nenhuma achou ser importante mencionar que os três gerentes da empresa foram condenados e estão a cumprir pena suspensa. Também ninguém na Lusa considerou relevante fazer a cobertura noticiosa do julgamento que agora levou à condenação dos gerentes da TIN por insolvência culposa.

    O mesmo se pode afirmar da generalidade dos órgãos de comunicação social ditos nacionais. Nem um jornalista dos maiores media portugueses pôs os pés no Tribunal de Sintra para escutar os testemunhos que puseram a nu as contas fabricadas na TIN ao longo de anos.

    Luísa Meireles, directora de informação da Lusa. / Foto: Captura de ecrã de conferência | YouTube

    Será que a imprensa acredita que se não publicar noticias sobre um tema, o público não sabe? Por que será que fez este boicote a noticiar factos desfavoráveis a Luís Delgado? Será que o dono da TIN tem assim tanto poder juntos dos media, ao ponto de os silenciar, levando a que censurem qualquer informação negativa para Delgado?

    Este caso expôs também a importância de haver, em Portugal, jornais verdadeiramente independentes. O PÁGINA UM foi o primeiro a dar o sinal de alerta sobre a crise da TIN. E foi o PÁGINA UM o único jornal a ter um jornalista a acompanhar o julgamento que decretou a insolvência culposa da TIN.

    Sem o PÁGINA UM, os portugueses apenas saberiam, sobre a crise da TIN, a parcela de informação que a imprensa considerou que o público tinha direito a ter. E isso não é Jornalismo.

    Foto: D.R.

    A imprensa mostrou ao público que este só tem direito a conhecer os factos que a imprensa quer e não os factos que são notícia. Perdeu, de uma penada, toda a independência e credibilidade que tanto usa em bandeiras hasteadas e de punho em riste enquanto pede apoios ao Governo ou assinaturas aos leitores.

    E ainda há um grande novelo de mistérios a desenrolar sobre a TIN. Os leitores podem continuar a contar com o PÁGINA UM para continuar a desvendá-los. Até porque o caso da crise da empresa está longe de estar resolvido.

    Duas decisões tomadas, nos últimos dias, pela juíza encarregue do caso da insolvência da TIN, Diana Campos Martins, são decisivas para o futuro da revista Visão e para Luís Delgado, dono da empresa que fundou em 2017 para ajudar a salvar o grupo Impresa, que precisava “livrar-se” de um conjunto de publicações.

    Na sala do Tribunal Judicial de Sintra onde decorreu o julgamento sobre insolvência culposa da TIN, apenas um jornalista marcou presença, do jornal PÁGINA UM /. Foto: PÁGINA UM

    Uma decisão, de 6 de Junho, foi declarar a insolvência culposa da TIN, condenando os seus três gerentes, Luís Delgado, Claudia Campos e Filipe Passadouro (que renunciou ao cargo de gerente em Abril de 2023, ficando na empresa como consultor), à inibição do exercício de funções de gestão durante seis anos.

    A outra decisão, adoptada a 2 de Junho, anuncia o fim do processo de insolvência, porque transitou em julgado a decisão do Supremo Tribunal de Justiça de homologar o plano de insolvência de Delgado, com a excepção de uma condição que pretendia proteger o gestor de processos de execução e cobrança de dívidas. Assim, vai ser encerrado o processo de insolvência e não haverá mais nenhuma assembleia de credores para decidir sobre o futuro dos activos da empresa.

    Ou seja, perante a ausência de resposta de Luís delgado, sobre se vai ou não implementar o plano homologado pelo Supremo, a juíza do processo de insolvência decidiu encerrar o caso. Assim, o gestor condenado por insolvência culposa tem nas mãos a empresa e tem homologado um plano que desenhou para a tentar “salvar” — e tentar adiar a ida para a prisão.

    Revista Visão (Foto: PÁGINA UM)

    Mas o plano entra de imediato em incumprimento, caso Luís Delgado não pague logo a primeira prestação mensal prevista à Autoridade Tributária e à Segurança Social — as quais poderão já estar vencidas. Se assim for, os dois maiores credores da TIN podem requerer de novo… a insolvência da TIN.

    Entretanto, os jornalistas da Visão, que têm tido como “patrão” a massa insolvente da TIN, podem “ficar a chuchar no dedo”, com o fim do processo de insolvência da empresa. E começam a ver o leilão da Visão “por um canudo”.

    Pelo meio, correm outros processos que podem condenar os gerentes da TIN a pena de prisão efectiva. Num deles, relativo a uma dívida elevada ao Fisco, Luís Delgado pediu a abertura de instrução, mas não deverá ter “sorte” e o caso deverá seguir para julgamento.

    Claudia Serra Campos, Luís Delgado e Luís Filipe Passadouro formaram o trio de gerentes que liderou a TIN desde o seu arranque. Passadouro renunciou ao cargo de gerente da empresa em Abril de 2023 mas manteve-se ainda na empresa como consultor. Os três gestores estão a cumprir uma pena suspensa mas arriscam vir a cumprir pena de prisão efectiva por dívidas acumuladas da TIN ao Fisco e à Segurança Social. / Fotos: D.R.

    Mas a imprensa não vai noticiar nada sobre estas informações vistas como desfavoráveis para Delgado. Nem vai noticiar novas condenações de Delgado na Justiça.

    Pode ainda não se saber em que mãos vai ficar a revista Visão ou sequer se vai sobreviver a estas manobras de Delgado. Nem se sabe o que será da TIN. Mas sabe-se que os gerentes da TIN falsificaram as contas da empresa e enganaram credores e trabalhadores durante anos. E sabe-se isto: a imprensa portuguesa faliu na sua credibilidade e independência na cobertura deste caso. E isso é ainda mais grave do que a falência de uma empresa de media.

  • Filipe Froes no tribunal: 4 horas e meia de um depoimento ‘esclarecedor’

    Filipe Froes no tribunal: 4 horas e meia de um depoimento ‘esclarecedor’


    O PÁGINA UM decidiu divulgar o depoimento integral prestado pelo pneumologista Filipe Froes no passado mês de Dezembro, no âmbito do processo judicial que intentou contra o director deste jornal, Pedro Almeida Vieira, juntamente com o então bastonário da Ordem dos Médicos e actual deputado do PSD, Miguel Guimarães, o pediatra Luís Varandas e a própria Ordem dos Médicos.

    Este processo, bem como outro processo conexo intentado pelo então chefe do Estado-Maior da Armada, Henrique Gouveia e Melo, terminou com a absolvição integral de Pedro Almeida Vieira. Consideramos, por isso, que os leitores têm o direito de conhecer um testemunho que se estendeu por quase quatro horas e meia e que aborda matérias de inequívoco interesse público relacionadas com a gestão da pandemia, os conflitos de interesses na saúde pública, a relação entre especialistas mediáticos e a indústria farmacêutica e o papel desempenhado por determinadas figuras na definição da narrativa dominante durante a crise sanitária.

    A divulgação integral deste depoimento justifica-se também porque Filipe Froes continua a desempenhar um papel activo na promoção pública de produtos farmacêuticos, incluindo vacinas contra a COVID-19, participando ainda agora em iniciativas associadas a uma farmacêutica espanhola. Trata-se de uma personalidade que, ao longo dos últimos anos, acumulou uma influência mediática invulgar e uma presença constante nos órgãos de comunicação social, sendo apresentada como especialista independente e referência técnica em matérias de saúde pública.

    O depoimento agora divulgado permite aos leitores formar uma opinião própria sobre diversas questões que foram objecto de análise judicial. Entre elas destaca-se a aparente contradição entre declarações públicas em que Filipe Froes afirmou ter de fazer uma “declaração de conflito de interesses” devido às suas funções ligadas à vacinação e a posição assumida em tribunal, onde procurou sustentar que tal conflito não existiria.

    Os documentos analisados no processo revelam também a existência de recebimentos significativos provenientes de diversas empresas farmacêuticas, incluindo Pfizer, AstraZeneca, Sanofi e Gilead, bem como questões relacionadas com a forma como esses pagamentos foram registados e declarados. Foram ainda discutidas as diferenças entre valores constantes dos registos públicos do INFARMED e elementos contabilísticos associados à empresa Terras e Froes, utilizada para a gestão da actividade profissional do médico.

    Outro dos aspectos relevantes prende-se com o medicamento Remdesivir. Durante a pandemia, Filipe Froes manifestou-se publicamente sobre a utilidade deste fármaco ao mesmo tempo que mantinha relações profissionais com a Gilead, empresa responsável pela sua comercialização. O próprio admitiu em tribunal ter participado em advisory boards promovidos pela farmacêutica, circunstância cuja relevância ética constitui uma das questões centrais debatidas no processo.

    O depoimento aborda ainda o exercício simultâneo de múltiplas funções de influência institucional, incluindo cargos junto da Direcção-Geral da Saúde, da Ordem dos Médicos e de organismos de aconselhamento em saúde pública.

    Embora Filipe Froes tenha defendido não possuir qualquer poder decisório sobre a aquisição de vacinas ou medicamentos, reconheceu ter participado em processos de elaboração de orientações e normas técnicas que influenciaram a resposta sanitária nacional.

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    Foto: D.R.

    Muito relevante é também a discussão sobre o modo como foram tratados profissionais de saúde que divergiam das posições dominantes durante a pandemia. O depoimento contém referências a críticas dirigidas a médicos com opiniões distintas e permite compreender melhor o ambiente de pressão institucional e mediática existente naquele período.

    Importa também recordar que, durante este processo, Filipe Froes assumiu actuar enquanto funcionário da Ordem dos Médicos, circunstância que permitiu que a sua representação processual fosse enquadrada de forma distinta daquela que ocorreria caso litigasse a título pessoal.

    O PÁGINA UM não pretende substituir-se ao julgamento dos leitores. Pelo contrário. A publicação integral deste depoimento visa permitir que cada cidadão avalie as respostas dadas, as explicações apresentadas, as hesitações, as contradições e os esclarecimentos produzidos ao longo de quase quatro horas e meia de inquirição.

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    Foto: Maxime.

    Numa sociedade democrática, o escrutínio público não deve limitar-se aos jornalistas, aos políticos ou aos gestores públicos. Deve também abranger especialistas que adquiriram enorme influência na definição de políticas públicas, sobretudo quando essa influência coexistiu com relações financeiras relevantes com empresas interessadas nas matérias sobre as quais se pronunciam.

    Nesse espírito de transparência, interesse público e liberdade de informação, o PÁGINA UM disponibiliza agora, na íntegra, o depoimento de Filipe Froes no tribunal no Campus da Justiça de Lisboa, no passado dia 4 de Dezembro. Para memória futura.

  • A poluição saiu das manchetes, não das chaminés

    A poluição saiu das manchetes, não das chaminés


    Comecei no jornalismo a escrever sobre Ambiente. Foi há mais de três décadas, numa época em que os temas ambientais ainda não tinham sido transformados numa gigantesca indústria política, comunicacional e financeira. Escrevi na revista Fórum Ambiente, mais tarde no Expresso, acompanhei debates sobre poluição industrial, resíduos perigosos, qualidade da água, saneamento básico, ordenamento do território, impactes ambientais e conservação da natureza. Nessa altura, o Ambiente era um tema complexo, multifacetado e, sobretudo, concreto.

    Ao longo dos anos fui diversificando as minhas áreas de trabalho jornalístico. O Ambiente nunca desapareceu das minhas preocupações, mas acabou por perder espaço no meu quotidiano profissional. Ainda assim, o interesse manteve-se. Talvez por isso tenha recuperado e registado novamente a marca Fórum Ambiente, não por nostalgia, mas porque continuo a acreditar que o jornalismo ambiental é demasiado importante para ser reduzido a slogans publicitários ou a campanhas de marketing institucional.

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    Foto: Alexander Tsang.

    Nos anos 90 escrevi muito sobre alterações climáticas. Fi-lo quando o tema ainda não ocupava manchetes diárias nem alimentava conferências internacionais com milhares de participantes. Contudo, à medida que o debate evoluiu, fui também desenvolvendo um crescente espírito crítico relativamente ao modo como as alterações climáticas passaram a ser utilizadas como instrumento político, económico e reputacional.

    Não deixei de questionar a existência do fenómeno nem a necessidade de o estudar de forma séria, e tomar medidas. Questiono, isso sim, a forma como uma parte significativa do discurso público europeu, perante um facto de ser a China hoje a ‘ditar as regras’ (pela dimensão das suas emissões), transformou as alterações climáticas numa espécie de monarquia absoluta do Ambiente, capaz de canibalizar todos os outros problemas ambientais.

    O resultado está hoje à vista. Enquanto governos anunciam metas de neutralidade carbónica, empresas exibem relatórios de sustentabilidade cuidadosamente ilustrados e parte da comunicação social reproduz comunicados empresariais com escasso espírito crítico, temas como a poluição atmosférica convencional, a contaminação da água, os resíduos industriais, os metais pesados ou a degradação dos ecossistemas foram desaparecendo da agenda mediática. Não porque os problemas tenham sido resolvidos. Simplesmente porque deixaram de ser convenientes. Aliás, hoje muitos problemas estruturais são ‘desculpados’ alegando as alterações climáticos: os incêndios rurais são um exemplo.

    Refinaria de Sines. Foto: Galp.

    O fenómeno tornou-se muito visível na relação estabelecida entre alguns dos maiores grupos económicos nacionais e uma parte da imprensa portuguesa. Empresas como a Galp, a Navigator, a Secil ou a Cimpor surgem, com frequência, associadas a grandes campanhas de comunicação sobre sustentabilidade, transição energética ou responsabilidade ambiental. Muitas dessas iniciativas beneficiam de uma cobertura jornalística surpreendentemente benevolente, quando não mesmo de parcerias mediáticas cuja promiscuidade deveria suscitar maior reflexão editorial. O resultado é um debate público centrado na narrativa e menos atento à realidade mensurável.

    Mas a realidade tem uma característica incómoda: insiste em existir independentemente das narrativas.

    Por essa razão, o PÁGINA UM decidiu iniciar um novo grande dossier ambiental baseado em dados oficiais. Fomos analisar o Pollutant Release and Transfer Register (PRTR), a base de dados gerida em território nacional pela Agência Portuguesa do Ambiente que reúne as emissões declaradas por centenas de instalações industriais e produtivas. Não começámos pelo dióxido de carbono. Não porque seja irrelevante, mas porque o seu peso esmagador tende a ocultar tudo o resto.

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    Foto: Patrick Hendry.

    Aquilo que encontrámos foi um retrato muito mais complexo da poluição atmosférica portuguesa. A análise das emissões declaradas em 2024 mostra que refinarias, cimenteiras, fábricas de pasta e papel, centrais de biomassa, siderurgias, unidades vidreiras e até algumas infra-estruturas ambientais continuam a libertar para a atmosfera quantidades significativas de partículas, óxidos de azoto, óxidos de enxofre, compostos orgânicos voláteis, metais pesados e outros contaminantes com impacto directo na saúde humana e nos ecossistemas.

    Entre os nomes que surgem, de forma repetida, ao longo dos diversos poluentes encontram-se empresas como a Galp, através da Refinaria de Sines, a Navigator, a Cimpor e a Secil, ao lado de outros operadores industriais relevantes.

    Importa sublinhar que este trabalho não pretende demonizar empresas nem ignorar a importância económica dos sectores industriais. Uma sociedade moderna precisa de energia, cimento, papel, vidro, aço e inúmeras outras actividades produtivas. O problema começa quando o debate público deixa de querer saber quais são os custos ambientais associados a essas actividades. Uma democracia madura não escolhe entre Economia e Ambiente. Exige transparência sobre ambos.

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    Foto: Robina Weermeijer.

    Este primeiro trabalho constitui apenas o início. Nas próximas semanas analisaremos a poluição da água, os resíduos, os contaminantes específicos e outras dimensões agora frequentemente esquecidas do problema ambiental português. Não partimos de preconceitos nem de agendas ideológicas. Partimos de dados oficiais.

    Talvez a principal conclusão deste primeiro capítulo seja, em simultâneo, simples e incómoda. A poluição não desapareceu. Apenas deixou de ser notícia. E quando um problema deixa de ser notícia sem ter deixado de existir, isso diz-nos muitas vezes mais sobre o estado do jornalismo do que sobre o estado do Ambiente.

  • No Congo, em duas semanas, o Ébola matou 48 pessoas. E a malária 3000…

    No Congo, em duas semanas, o Ébola matou 48 pessoas. E a malária 3000…


    O grave surto de Ébola na República Democrática do Congo tem ocupado manchetes em todo o mundo, substituindo subitamente o hantavírus no ciclo mediático do medo. Trata-se, sem dúvida, de um acontecimento relevante: o Ébola é uma doença potencialmente devastadora e qualquer surto exige uma resposta rápida das autoridades sanitárias. Contudo, uma coisa é noticiar um risco real; outra, bem diferente, é apresentá-lo sem contexto, contribuindo para uma percepção distorcida da realidade epidemiológica.

    Após semanas de alarmismo, com Portugal a definir normas de actuação e a identificar três hospitais de referência — Curry Cabral, São João e Dona Estefânia —, como se estivesse iminente uma catástrofe sanitária, a própria Organização Mundial da Saúde veio agora corrigir substancialmente os números divulgados. Afinal, em vez dos 906 casos suspeitos e 233 mortes que circularam na passada sexta-feira, a OMS passou a contabilizar 321 casos confirmados e 48 mortes desde meados de Maio.

    Os números actualizados do surto de Ébola na república Democrática do Congo desceu para 48 óbitos desde 15 de Maio. Foto. D.R.

    Em termos práticos, a revisão reduziu o número de mortes atribuídas ao surto em cerca de 80%, por razões de validação e classificação epidemiológica. Mesmo admitindo que estes números venham a aumentar, continuamos a falar de algumas dezenas de mortes acumuladas ao longo de várias semanas.

    Para compreender a verdadeira dimensão deste surto é indispensável olhar para o país onde ele ocorre. Segundo um relatório de 2024 da Organização Mundial da Saúde, a República Democrática do Congo registou 857.667 mortes em 2021. Isto significa que morrem, em média, cerca de 2.350 pessoas por dia. Dito de outra forma: num único dia morrem normalmente no Congo quase cinquenta vezes mais pessoas do que todas as mortes confirmadas atribuídas ao actual surto de Ébola desde a sua declaração.

    A comparação torna-se ainda mais elucidativa quando se observam as principais causas de morte num país com uma esperança média de vida de apenas 62 anos — cerca de vinte anos inferior à portuguesa — e uma mortalidade infantil próxima dos 61 óbitos por mil nados-vivos, contra menos de três por mil em Portugal.

    A malária matou na República Democrática do Congo mais de 60 vezes mais pessoas do que o Ébola desde 15 de Maio. Foto: D.R.

    As infecções respiratórias inferiores representam 9,7% de todas as mortes. Em números absolutos, isso corresponde a cerca de 83.200 mortes por ano, ou aproximadamente 228 mortes por dia. A malária é responsável por 8,5% da mortalidade total, equivalendo a cerca de 72.900 mortes anuais, ou 200 mortes diárias.

    A tuberculose provoca cerca de 51.500 mortes por ano, o que corresponde a 141 mortes por dia. As doenças diarreicas causam aproximadamente 39.500 mortes anuais, ou 108 mortes por dia. Já as complicações associadas à prematuridade representam cerca de 134 mortes diárias.

    Dito de forma ainda mais simples: todos os dias morrem no Congo cerca de 200 pessoas de malária. Todos os dias morrem cerca de 140 pessoas de tuberculose. Todos os dias morrem mais de 100 pessoas de doenças diarreicas. Só estas três causas de morte representam quase 450 óbitos diários. Em apenas um dia, matam várias vezes mais pessoas do que o actual surto de Ébola matou desde que foi declarado.

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    Na República Democrática do Congo a taxa de mortalidade infantil é mais de 20 vezes superior ´de Portugal. Foto: Imani Bahati.

    Isto não diminui a gravidade do Ébola. O que faz é enquadrá-lo. O Congo não é uma sociedade que vive em condições sanitárias comparáveis às europeias e que foi inesperadamente confrontada com um vírus exótico. É um país que enfrenta permanentemente uma carga epidemiológica brutal, marcada por doenças infecciosas endémicas, mortalidade infantil elevada, fragilidades estruturais dos sistemas de saúde e enormes dificuldades no acesso a cuidados médicos básicos.

    Por isso, causa perplexidade assistir às comparações simplistas que já começaram a surgir entre o Ébola e o SARS-CoV-2, frequentemente acompanhadas de referências à transmissibilidade como se estivéssemos perante ameaças comparáveis. Não estamos. São doenças profundamente diferentes. O SARS-CoV-2 revelou uma capacidade extraordinária de transmissão respiratória, permitindo a sua disseminação global em poucos meses.

    O Ébola transmite-se sobretudo através do contacto directo com fluidos corporais de pessoas infectadas ou falecidas. A sua elevada letalidade é acompanhada por uma capacidade de propagação muito mais limitada. Ignorar estas diferenças fundamentais para alimentar receios ou produzir manchetes mais impactantes não contribui para informar melhor; contribui apenas para degradar a qualidade da informação.

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    Foto: Dimitri Karastelev.

    O papel do jornalismo não é alimentar receios nem minimizar riscos. A sua função é fornecer contexto, proporção e sentido crítico. E a proporção, neste caso, exige recordar que o actual surto de Ébola ocorre num país onde a mortalidade diária normal ultrapassa as duas mil pessoas e onde doenças infecciosas evitáveis ou tratáveis matam, todos os dias, muitíssimo mais pessoas do que o Ébola matou até agora.

    Sem essa contextualização, o leitor recebe uma imagem incompleta da realidade. E uma imagem incompleta da realidade é, muitas vezes, apenas outra forma de desinformação — mesmo quando apresentada por quem afirma combatê-la.

  • Mobilidade no discurso, imobilidade para o cidadão

    Mobilidade no discurso, imobilidade para o cidadão


    A mobilidade tornou-se uma dessas palavras de luxo da política contemporânea. Surge em conferências, planos estratégicos, debates autárquicos, apresentações ministeriais e dossiers de propaganda institucional com a mesma insistência com que outrora se falava de modernização, inovação ou sustentabilidade.

    Mobilidade, convenhamos, é uma palavra elegante. Como a resiliência para Montenegro. Sugere fluidez, inteligência urbana, eficiência, integração modal e cidades humanas. O Carlos Moedas anda sempre com a palavra no bolso. O ministro Pinto Luz em cada poro. É palavra que fica bem em qualquer lado e em discursos com gráficos coloridos.

    Mas essa mobilidade de que falam os políticos raramente coincide com a mobilidade de quem vive a cidade.

    A mobilidade do decisor político é, em regra, uma mobilidade de quatro rodas, com motorista, agenda protegida, percursos optimizados, acesso facilitado, estacionamento reservado e uma confortável imunidade à experiência ordinária do cidadão comum. Não há ministro do Ambiente, secretário de Estado das Infra-estruturas, vereador da Mobilidade ou presidente de câmara que organize a sua vida quotidiana em função da incerteza de saber se o próximo metro, autocarro, comboio ou barco chega em três minutos ou em meia hora.

    Nenhum deles calcula se compensa apanhar um autocarro ou simplesmente caminhar. Nenhum deles organiza a sua pontualidade profissional em função da lotaria operacional da Carris, do Metro, da Transtejo ou da CP.

    Os passageiros podem esperar mais de 10 minutos numa estação do Metro de Lisboa. / Foto: PÁGINA UM

    Falam eles de mobilidade como quem discursa sobre uma paisagem observada da varanda.

    Quem vive cá em baixo conhece outra realidade.

    Não sou utilizador intensivo de transportes públicos. Uso-os moderadamente. Insisto, aliás, em continuar a usá-los, até por uma convicção racional de que uma cidade funcional precisa de transporte colectivo eficiente. Mas essa convicção é testada com frequência quase masoquista. Muitas vezes, opto por ir a pé porque já sei, antes sequer de abrir uma aplicação, que andar será mais rápido, mais previsível e incomparavelmente menos irritante.

    Uso Uber com alguma regularidade — provavelmente entre três e seis vezes por semana, conforme as necessidades. Se ando acompanhado chega até a ser mais económico do que os transportes público, o que é uma aberração económica e ambiental.

    Foto: PÁGINA UM

    Uso esse transporte cada vez mais não por militância automóvel, não por snobismo, não por aversão ao transporte colectivo. Uso porque, demasiadas vezes, o transporte público em pleno centro devLisboa transformou-se numa garantia de irritação solene.

    Dou um exemplo banal, exactamente por ser banal.

    Hoje mesmo, vi-me perante um trajecto urbano de apenas 2,6 quilómetros. Distância curta para ser quase caricatural numa discussão sobre mobilidade moderna. O Google Maps indicava 36 minutos a pé de um ponto ao outro. Saí de casa na zona da Graça às 15h13. Desci a pé até ao Intendente para apanhar o metro. Ao chegar, perco por segundos a composição e descubro a habitual oferenda da gestão lisboeta da mobilidade: 12 minutos de espera pelo próximo comboio. Não três. Não quatro. Doze.

    Doze minutos entre composições numa linha de metropolitano é coisa de ramal suburbano esquecido, não de metropolitano de uma capital europeia. Não estamos a falar de uma linha periférica, de uma ligação regional ou de um serviço residual de fim de noite. Estamos a falar do metropolitano da capital portuguesa, em pleno funcionamento diurno.

    No dia 17 de Maio, passageiros partilharam a existência de baratas numa composição de um comboio da Fertagus. As queixas sobre atrasos de comboios e cancelamentos são frequentes. / Foto: D.R. | Facebook

    Uma espera destas não é um detalhe operacional; é um sintoma de degradação. Na verdade, uma vergonha.

    Com a cronologia toda somada — deslocação até à estação, espera, embarque, percurso e chegada ao Cais do Sodré — cheguei às 15h50. Ou seja: 37 minutos. A pé, teria demorado 36.

    O transporte público conseguiu, portanto, a façanha de ser mais lento do que caminhar.

    Num trajecto de 2,6 quilómetros, o Metro de Lisboa ofereceu-me uma velocidade média efectiva de cerca de 4,2 km/h. A pé, teria feito 4,3 km/h.

    Isto não é transporte rápido. Isto é uma caminhada burocratizada, com bilhete, escadas, validações e irritação incluída.

    Foto: PÁGINA UM

    O drama urbano português é este: construiu-se uma retórica política de mobilidade sem se assegurar uma condição elementar — a superioridade funcional face à deslocação pedonal ou ao transporte individual.

    A questão já nem é se o transporte público se apresenta mais lento do que o automóvel. Isso acontece em muitas cidades e mostra-se aceitável quando a diferença é equilibrada por custo, previsibilidade e cobertura. A questão é quando o transporte colectivo se torna inferior às próprias pernas do cidadão. Nesse momento, deixa de ser solução.

    E o mais notável é a naturalização disto. Aceitamos frequências indignas num metropolitano urbano como se estivéssemos perante inevitabilidades geológicas. Aceitamos material circulante envelhecido, interrupções recorrentes, supressões mal explicadas, escadas rolantes paradas, elevadores avariados, degradação operacional e uma cultura institucional onde o utilizador é tratado como variável passiva.

    Um utente da linha de Cascais partilhou esta foto tirada ontem às 11h40, relatando que mesmo fora das horas de ponta, as carruagens vão cheias, devido aos horários praticados pela CP. / Foto: D.R.| Facebook

    Depois aparecem campanhas públicas a incentivar o abandono do automóvel. Mas porquê? E para quê?

    Por consciência ecológica? Muito bem. Mas a consciência ecológica não substitui a racionalidade logística. O cidadão não organiza a vida para satisfazer narrativas governamentais. Organiza-a para chegar a horas, preservar sanidade mental e minimizar desperdício de tempo.

    O verdadeiro problema da política pública portuguesa é este abismo entre discurso e experiência. A mobilidade consolidou-se como obsessão verbal de quem raramente depende dela.

    Quem depende, adapta-se como pode: caminha, chama um Uber, resigna-se ou chega atrasado.

    Foto: Soflusa

    Talvez a solução fosse simples: durante seis meses, todos os governantes e administração política com responsabilidades na mobilidade urbana ficaria proibida de usar carro oficial, motorista ou estacionamento reservado. Usariam metro, autocarro, comboio suburbano, interfaces e deslocações reais, como qualquer cidadão. Não para teatro mediático de um dia. Para rotina.

    Talvez então percebessem que aquilo a que chamam mobilidade é, demasiadas vezes, apenas imobilidade com comunicação institucional. E, aí sim, mudaria tudo.