No Congo, em duas semanas, o Ébola matou 48 pessoas. E a malária 3000…

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O grave surto de Ébola na República Democrática do Congo tem ocupado manchetes em todo o mundo, substituindo subitamente o hantavírus no ciclo mediático do medo. Trata-se, sem dúvida, de um acontecimento relevante: o Ébola é uma doença potencialmente devastadora e qualquer surto exige uma resposta rápida das autoridades sanitárias. Contudo, uma coisa é noticiar um risco real; outra, bem diferente, é apresentá-lo sem contexto, contribuindo para uma percepção distorcida da realidade epidemiológica.

Após semanas de alarmismo, com Portugal a definir normas de actuação e a identificar três hospitais de referência — Curry Cabral, São João e Dona Estefânia —, como se estivesse iminente uma catástrofe sanitária, a própria Organização Mundial da Saúde veio agora corrigir substancialmente os números divulgados. Afinal, em vez dos 906 casos suspeitos e 233 mortes que circularam na passada sexta-feira, a OMS passou a contabilizar 321 casos confirmados e 48 mortes desde meados de Maio.

Os números actualizados do surto de Ébola na república Democrática do Congo desceu para 48 óbitos desde 15 de Maio. Foto. D.R.

Em termos práticos, a revisão reduziu o número de mortes atribuídas ao surto em cerca de 80%, por razões de validação e classificação epidemiológica. Mesmo admitindo que estes números venham a aumentar, continuamos a falar de algumas dezenas de mortes acumuladas ao longo de várias semanas.

Para compreender a verdadeira dimensão deste surto é indispensável olhar para o país onde ele ocorre. Segundo um relatório de 2024 da Organização Mundial da Saúde, a República Democrática do Congo registou 857.667 mortes em 2021. Isto significa que morrem, em média, cerca de 2.350 pessoas por dia. Dito de outra forma: num único dia morrem normalmente no Congo quase cinquenta vezes mais pessoas do que todas as mortes confirmadas atribuídas ao actual surto de Ébola desde a sua declaração.

A comparação torna-se ainda mais elucidativa quando se observam as principais causas de morte num país com uma esperança média de vida de apenas 62 anos — cerca de vinte anos inferior à portuguesa — e uma mortalidade infantil próxima dos 61 óbitos por mil nados-vivos, contra menos de três por mil em Portugal.

A malária matou na República Democrática do Congo mais de 60 vezes mais pessoas do que o Ébola desde 15 de Maio. Foto: D.R.

As infecções respiratórias inferiores representam 9,7% de todas as mortes. Em números absolutos, isso corresponde a cerca de 83.200 mortes por ano, ou aproximadamente 228 mortes por dia. A malária é responsável por 8,5% da mortalidade total, equivalendo a cerca de 72.900 mortes anuais, ou 200 mortes diárias.

A tuberculose provoca cerca de 51.500 mortes por ano, o que corresponde a 141 mortes por dia. As doenças diarreicas causam aproximadamente 39.500 mortes anuais, ou 108 mortes por dia. Já as complicações associadas à prematuridade representam cerca de 134 mortes diárias.

Dito de forma ainda mais simples: todos os dias morrem no Congo cerca de 200 pessoas de malária. Todos os dias morrem cerca de 140 pessoas de tuberculose. Todos os dias morrem mais de 100 pessoas de doenças diarreicas. Só estas três causas de morte representam quase 450 óbitos diários. Em apenas um dia, matam várias vezes mais pessoas do que o actual surto de Ébola matou desde que foi declarado.

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Na República Democrática do Congo a taxa de mortalidade infantil é mais de 20 vezes superior ´de Portugal. Foto: Imani Bahati.

Isto não diminui a gravidade do Ébola. O que faz é enquadrá-lo. O Congo não é uma sociedade que vive em condições sanitárias comparáveis às europeias e que foi inesperadamente confrontada com um vírus exótico. É um país que enfrenta permanentemente uma carga epidemiológica brutal, marcada por doenças infecciosas endémicas, mortalidade infantil elevada, fragilidades estruturais dos sistemas de saúde e enormes dificuldades no acesso a cuidados médicos básicos.

Por isso, causa perplexidade assistir às comparações simplistas que já começaram a surgir entre o Ébola e o SARS-CoV-2, frequentemente acompanhadas de referências à transmissibilidade como se estivéssemos perante ameaças comparáveis. Não estamos. São doenças profundamente diferentes. O SARS-CoV-2 revelou uma capacidade extraordinária de transmissão respiratória, permitindo a sua disseminação global em poucos meses.

O Ébola transmite-se sobretudo através do contacto directo com fluidos corporais de pessoas infectadas ou falecidas. A sua elevada letalidade é acompanhada por uma capacidade de propagação muito mais limitada. Ignorar estas diferenças fundamentais para alimentar receios ou produzir manchetes mais impactantes não contribui para informar melhor; contribui apenas para degradar a qualidade da informação.

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Foto: Dimitri Karastelev.

O papel do jornalismo não é alimentar receios nem minimizar riscos. A sua função é fornecer contexto, proporção e sentido crítico. E a proporção, neste caso, exige recordar que o actual surto de Ébola ocorre num país onde a mortalidade diária normal ultrapassa as duas mil pessoas e onde doenças infecciosas evitáveis ou tratáveis matam, todos os dias, muitíssimo mais pessoas do que o Ébola matou até agora.

Sem essa contextualização, o leitor recebe uma imagem incompleta da realidade. E uma imagem incompleta da realidade é, muitas vezes, apenas outra forma de desinformação — mesmo quando apresentada por quem afirma combatê-la.