A Alpac Capital – liderada pelos portugueses Pedro Vargas David, filho do antigo eurodeputado do PSD Mário David, e Luís Santos, filho do antigo seleccionador nacional Fernando Santos – deixou em 2025 a propriedade directa da imprensa portuguesa, vendendo por um euro a empresa dona do Nascer do Sol e do i. Um ano depois, surge no centro de uma batalha de outra dimensão: o controlo de alguns dos últimos grandes órgãos de comunicação social críticos do Presidente sérvio Aleksandar Vučić, um antigo ultranacionalista concertido ao europeísmo pragmático conotado com uma linha de direita-conservadora populista.
A operação que envolve a empesa dos dois portugueses ocorre quatro meses depois da derrota eleitoral de Viktor Orbán, cujo poder político esteve directamente ligado a uma parcela substancial do financiamento da compra da Euronews pela Alpac. Até agora, porém, não existe prova de que dinheiro ou instruções políticas húngaras tenham transitado para o negócio sérvio.

Há pouco mais de um ano, Pedro Vargas David e Luís Santos despediam-se do sector da imprensa portuguesa. A Alpac, através da qual tinham adquirido em 2022 o controlo da Newsplex, vendeu em Julho de 2025 à Media Capital 98,21% da empresa proprietária do Nascer do Sol e do jornal i. O preço foi simbólico – um euro –, mas com um custo significativo para a dona da TVI e da CNN Portugal, que assumiu as dívidas perante a Autoridade Tributária e a Segurança Social.
Agora, os dois investidores portugueses reaparecem num palco onde a discussão sobre propriedade dos media ultrapassa a sobrevivência económica de dois jornais. Em 29 de Maio deste ano, a Alpac anunciara a aquisição da Adria News Network (ANN), uma estrutura que reúne mais de mil trabalhadores e meios de comunicação social na Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Montenegro e Eslovénia.
Ora, mas na Sérvia, a carteira de aquisições inclui precisamente alguns dos meios mais incómodos para o poder de Aleksandar Vučić: as televisões N1 e Nova S, o portal e jornal Nova, o diário Danas e o semanário Radar. Um projecto de contrato obtido pelo Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) – um consórcio internacional não-governamental de promoção do jornalismo de investigação – aponta para um negócio de cerca de 30 milhões de euros.

Apesar da existência de cláusulas com o compromisso de se respeitar a independência editorial, as últimas semanas têm inquietado das redacções desses órgão de comunicação social sérvio, sobretudo por causa das ligações da Alpac com Viktor Orbán, que liderava a Hungria desde 2010.
Há menos de duas semanas, no passado dia 17, Pedro Vargas David foi registado como administrador das sociedades sérvias do grupo, substituindo os anteriores administradores. Ontem, uma responsável da Comissão Europeia, Maja Smrkolj, que acompanha o processo de adesão da Sérvia, afirmou que as mudanças da estrutura estão a ser analisadas para perceber “o potencial impacto que podem ter sobre a liberdade de imprensa e o pluralismo” naquele país das Balcãs.
Bruxelas anunciou mesmo que o assunto será acompanhado no âmbito das negociações de adesão da Sérvia à União Europeia e incluído no Pacote de Alargamento de 2026, considerando o receio de se ‘silenciar’ órgão de comunicação social pouco favoráveis ao poder.

A preocupação advém também de um facto relevante: quando Vargas David tomou o comando das empresas, o processo regulatório ainda não estava integralmente concluído. A concentração recebeu entretanto autorização concorrencial na Sérvia, mas a transferência das licenças luxemburguesas de N1 e Nova continua pendente, enquanto no Montenegro uma decisão judicial bloqueou temporariamente parte da operação.
A preocupação não nasceu, contudo, com a chegada dos portugueses. Começou antes. Em Agosto do ano passado, o OCCRP e o KRIK, um portal de jornalismo de investigação da Sérvia, obtiveram a gravação de uma conversa entre Stan Miller, presidente executivo da United Group, então proprietária daqueles órgãos, e Vladimir Lučić, presidente da Telekom Srbija, empresa maioritariamente pública e considerada próxima do Governo. Na conversa discutia-se o afastamento de Aleksandra Subotić, responsável da United Media e uma das figuras associadas à defesa da independência da N1.
Lučić dizia que Vučić já tinha falado sobre a substituição de Subotić, enquanto Miller explicava que não podia despedi-la de imediato e que precisava primeiro de reduzir a dimensão da empresa na Sérvia e separar determinadas estruturas. A United Group confirmou posteriormente a autenticidade da gravação, embora tenha sustentado que estava incompleta e não reflectia todo o contexto, negando que a Telekom ou qualquer outra entidade tivesse exercido pressão sobre a decisão. Vučić também nega interferir na orientação editorial dos media.
O contexto tornou-se entretanto ainda mais explosivo. A Sérvia atravessa há mais de ano e meio protestos contínuos sobretudo em Belgrado e Novi Sad manifestações contra a corrupção e contra o Governo. A N1, a Nova e outros meios da ANN deram ampla cobertura aos protestos. E Vučić anunciou agora eleições parlamentares antecipadas para 18 ou 25 de Outubro, mais de um ano antes do calendário anteriormente previsto.
Neste cenário, as suspeitas sobre as intenções da Alpac de controlar os meios críticos subiram na semana passada depois de o ministro sérvio da Informação, Boris Bratina, ter escrito uma inusitada carta aberta a Pedro Vargas David, publicada no próprio site do Ministério. em que, além de defender que N1 e Nova S devem passar a ficar registadas junto do regulador sérvio REM, dedica larga parte do texto a atacar a orientação editorial dos canais.
O ministro descreveu a N1 e a Nova S como instrumentos centrais da oposição ao Governo de Aleksandar Vučić, acusando-as de condicionar dirigentes oposicionistas, promover campanhas contra membros do Governo, fabricar uma realidade mediática paralela e funcionar, em momentos de crise política ou eleitoral, como instrumentos dos interesses empresariais do anterior proprietário, Dragan Šolak.

Na passada quarta-feira, Vargas David respondeu ao ministro sérvio garantindo que nenhuma tentativa de influência ou pressão teria êxito e defendendo que os jornalistas devem poder investigar livremente. Mas introduziu no texto conceitos que despertaram imediatamente a desconfiança das redacções.
Citado pelo N1, o empresário português – que deixou os jornais em Portugal com dívidas ao Estadi – escreveu o seguinte: “Quando as organizações de notícias acreditam que são a notícia, e que sua missão não é noticiar os factos, mas sim ser a notícia, elas entram na arena; tornam-se parte do jogo. Com isso, vêm os ataques de políticos, os boicotes e a agressividade. Quando jornalistas usam a sua plataforma para divulgar uma agenda, eles mudam a natureza de sua profissão. Não me interpretem mal: nas democracias, isso é uma atitude legítima – afinal, todos somos livres –, mas, na minha opinião […], isso não ajuda o jornalismo nem sua credibilidade”.
No contexto sérvio – onde N1, Nova, Danas e Radar são acusados há anos pelos representantes do poder de serem “activistas” e actores políticos –, as palavras do responsável pela Alpac não foram bem recebidas. A Federação Internacional de Jornalistas, a Federação Europeia de Jornalistas e a Associação Independente de Jornalistas da Sérvia reagiram já exigindo à Alpac garantias “claras e verificáveis” de que as mensagens ou exigências do Governo não influenciarão decisões editoriais, despedimentos ou nomeações.

As organizações recordam ainda que os trabalhadores já pediram, de forma repetida, uma reunião directa com Pedro Vargas David e, até ontem, essa reunião não tinha sido agendada. “Os jornalistas da ANN não precisam de definições sobre o jornalismo desejável”, sintetizaram as federações. Precisam, dizem, de garantias de independência, refere, em comunicado, a Federação Internacional de Jornalistas.
Para perceber por que motivo dois investidores portugueses despertam tamanha atenção em Belgrado é necessário recuar à Hungria. Pedro Vargas David é filho de Mário David, antigo eurodeputado e dirigente do PSD que manteve uma relação política próxima com Viktor Orbán e chegou a ser seu conselheiro político. O outro managing partner da Alpac, Luís Santos, é filho do antigo seleccionador Fernando Santos. A ligação familiar e a estrutura do fundo eram já públicas quando, em 2021, foi anunciada a compra de 88% da Euronews.
Durante quase dois anos permaneceu pouco claro quem financiara uma operação de dimensão muito superior à maioria dos investimentos conhecidos do grupo português. Em Abril de 2024, uma investigação conjunta do Direkt36, Expresso e Le Monde levantou o véu. Documentos internos mostravam que 45 milhões de euros tinham sido disponibilizados por um fundo de capital financiado pelo Estado húngaro e colocados no European Future Media Investment Fund, gerido pela Alpac e utilizado na aquisição da Euronews.

Não ficava por aí. A Alpac Media Investments recebeu também um empréstimo de longo prazo de 12,5 milhões de euros da New Land Media, sociedade de Gyula Balásy, empresário cujas empresas receberam vastos contratos para as campanhas de comunicação do Governo de Orbán.
Mais delicado ainda era o conteúdo dos documentos preparatórios. Uma apresentação interna indicava entre os objectivos do investimento a redução do que classificava como “left-wing ideology and bias” na informação europeia. As fontes ouvidas pelos jornalistas disseram, contudo, não ter detectado interferências concretas do Governo húngaro nas decisões editoriais da Euronews e a administração do canal rejeitou qualquer pressão política.
A passagem da Alpac pelos media portugueses também não decorreu sem questões regulatórias. Em 2024, depois das revelações sobre o financiamento húngaro da Euronews, a ERC abriu um procedimento oficioso para averiguar eventuais poderes de influência e a transparência dos fluxos de capitais investidos pela Alpac na Newsplex, proprietária do Nascer do Sol, I Inevitável e Portugal de Amanhã.

O regulador acabou por arquivar o processo em Setembro de 2024, por não ter conseguido confirmar a existência dos poderes de influência investigados. Esse resultado deve ser registado com a mesma clareza com que se regista a abertura das averiguações.
Noutra frente, porém, a CMVM sancionou a Alpac com uma coima de 100 mil euros — 50 mil dos quais com execução suspensa — por 36 contra-ordenações relacionadas com o incumprimento de deveres de prevenção do branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo. Pedro Vargas David foi sancionado em 25 mil euros e Luís Santos em 12.500 euros.
















































