A reacção institucional de Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, à circulação de uma peça satírica nas redes sociais – em que se simula uma apócrifa mensagem do primeiro-ministro português, em inglês, supostamente revelada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – deveria dar vontade para rir, pelo ridículo, mas mostra-se muito grave pela imaturidade política, com claros tiques autoritários, incompatível com um sistema democrático saudável.
O texto em causa, divulgado por volksvargas – um utilizador anónimo que faz textos satíricos geralmente contra políticos de direita –, não exige descodificação sofisticada nem leitura contextual profunda: denuncia-se a si próprio, desde a primeira linha, pela linguagem que adopta, pelo exagero deliberado e pelo uso consciente de fórmulas que pertencem, sem margem para dúvida razoável, ao campo da sátira política.
Vejamos o texto que Montenegro considera “desinformação” grave susceptível de ser crime. Logo na abertura, o texto atribuído a Luís Montenegro dirige-se ao presidente norte-americano como “Your excellency, supreme leader and great architect of our modern times” (“Vossa Excelência, líder supremo e grande arquitecto dos nossos tempos”).

Esta expressão não é um deslize estilístico nem um excesso ocasional: “supreme leader” (“líder supremo”) pertence ao léxico da paródia autoritária, associado a cultos de personalidade e regimes totalitários. Alguém com o mínimo de inteligência compreende que o seu uso num contexto supostamente diplomático é intencionalmente grotesco. A sátira não está escondida; está exposta.
A hipérbole prossegue quando o narrador afirma escrever “still energized by the sheer magnitude of your recent achievements” (“ainda energizado pela pura magnitude dos vossos recentes feitos”). A expressão “sheer magnitude” (“pura magnitude”) não acrescenta informação; acrescenta caricatura. Trata-se de uma inflação retórica deliberada, típica da bajulação vazia, que imita e distorce um certo estilo político reconhecível. A sátira opera aqui por excesso semântico.
Mais adiante, o texto introduz um deslocamento conceptual que elimina qualquer leitura literal possível: as tarifas norte-americanas – usadas agora por Trump como “mísseis” políticos – são descritas como “a demand for excellence and loyalty” (“uma exigência de excelência e lealdade”). A transformação de políticas comerciais em testes de lealdade pessoal é absurda por definição. Não se trata de um erro factual; trata-se de ironia. A sátira denuncia, por exagero, a personalização extrema do poder e a confusão entre Estado, líder e ego.

O ponto de ruptura definitivo surge quando o texto afirma: “we are willing to discuss a vision that would secure American sovereign access to our Azores islands” (“estamos dispostos a discutir uma visão que assegure acesso soberano americano às nossas ilhas dos Açores”). Aqui, a sátira assenta na impossibilidade constitucional absoluta. Não é uma proposta implausível — é uma proposta impossível. A violação explícita da soberania territorial funciona como mecanismo clássico de caricatura: levar uma lógica até ao seu extremo inaceitável para expor o seu absurdo.
O encerramento — “let Portugal be the exception” (“que Portugal seja a excepção”) — cristaliza o gesto satírico: a fantasia da submissão voluntária apresentada como virtude estratégica. É uma ironia directa sobre a tentação de alinhamento servil, não uma mensagem política disfarçada.
Perante este quadro linguístico, vermos Luís Montenegro classificar o texto como “desinformação” não é um equívoco inocente – é uma distorção conceptual. A desinformação visa enganar, induzir erro, produzir efeitos reais a partir de falsidades apresentadas como verdade. A sátira visa expor, ridicularizar e criticar através do exagero manifesto. Confundir ambas não protege o espaço público; empobrece-o. E empobrece o conceito que se tem sobre a inteligência de Luís Montenegro. E mais: envergonha pensar que o primeiro-ministro nos acha capazes de pensar que este texto satírico pretendia fazer passar-se por uma carta verdadeira.

E é neste ponto que a reacção de Luís Montenegro se torna politicamente reveladora. Um riso ou, vá lá, um desmentido claro e seco teria sido suficiente. Ora, mas não foi isso que sucedeu. A opção por um comunicado solene e pela possível apresentação de uma queixa-crime introduz um elemento novo e inquietante: a judicialização do humor político sob o rótulo elástico da desinformação.
Mesmo que a queixa não tenha seguimento judicial, o efeito simbólico está produzido. A mensagem implícita é simples: a sátira dirigida ao poder pode ter custos. Trata-se de um efeito de intimidação difusa, agravado pela assimetria de poder entre um cidadão — ou utilizador anónimo — e o aparelho do Estado. Não é necessário condenar para condicionar; basta sinalizar.
Mais grave ainda é o precedente que Luís Montenegro ensaia – e ensina. Hoje é uma paródia óbvia, fácil de defender. Amanhã poderá ser uma investigação incómoda, uma leitura crítica ou uma ironia menos explícita, igualmente rotulada como “desinformação” por contrariar a narrativa oficial. O mecanismo é o mesmo; apenas muda o grau de desconforto que provoca ao poder.

Existe, em todo o caso, uma ironia política incontornável. Um poder confiante distingue caricatura de mentira e segue em frente. Um poder inseguro amplifica o ridículo, legitima-o e transforma uma anedota digital num caso institucional. Ao reagir como reagiu, o primeiro-ministro não protegeu a sua autoridade; expôs a sua fragilidade.
Combater a desinformação é uma necessidade real numa democracia saturada de ruído e manipulação – mas esse combate exige critério, proporcionalidade e inteligência política. Quando o Estado começa a reagir a expressões como “supreme leader” como se fossem informação factual, o problema já não está na sátira. Está na incapacidade do poder para lidar com o humor e a sátira sem recorrer ao excesso. Ou à normalidade usada geralmente por ditaduras com poderes totalitários. Será esse passo que Montenegro quer tomar?












































