Categoria: Editorial

  • Hoje, a minha absolvição foi a derrota do Ministério Público, da Entidade Reguladora para a Comunicação Social e da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista

    Hoje, a minha absolvição foi a derrota do Ministério Público, da Entidade Reguladora para a Comunicação Social e da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista

    No mundo jurídico — e mesmo no entendimento comum — a absolvição surge como o momento em que o tribunal, confrontado com uma acusação formal, conclui que as provas não sustentam a condenação e decide libertar o arguido do peso que sobre ele recai. A própria palavra ajuda a compreender o gesto jurídico: absolvição vem do latim absolvere, isto é, desatar, soltar, libertar de um vínculo.

    Absolver é, portanto, cortar o nó da acusação quando este não resiste ao exame da prova. Perante a imputação formulada — muitas vezes pelo Ministério Público — o tribunal reconhece que a culpa não foi demonstrada nos termos exigidos pelo Direito e, por isso, desfaz o laço jurídico que mantinha o arguido sob suspeita, restituindo-lhe a condição de não culpado.

    woman holding sword statue during daytime

    Foi exactamente isso que aconteceu hoje. O Tribunal Judicial de Lisboa absolveu-me de dois processos criminais intentados pelo Ministério Público, nos quais surgiam como assistentes o almirante Henrique Gouveia e Melo, a Ordem dos Médicos, o seu antigo bastonário Miguel Guimarães — hoje deputado do PSD —, bem como o pneumologista Filipe Froes e o pediatra Luís Varandas. Ao fim de nove audiências, iniciadas em Novembro do ano passado e agora encerradas com a leitura da sentença (cujo conteúdo divulgaremos logo que possível), terminou um julgamento que me manteve durante meses dependente da máquina judicial.

    Quem conhece os tribunais sabe que um julgamento não vive apenas da razão nem de argumentos jurídicos e de documentos. Vive, sobretudo, do que ali se passa perante o juiz: das testemunhas, das contradições, da solidez das provas e da capacidade de sustentar, sob escrutínio directo, aquilo que foi escrito e publicado. É nesse terreno — onde a retórica perde utilidade e a evidência ganha peso — que se decide se uma acusação tem fundamento ou se não passa de um instrumento de pressão.

    E foi precisamente essa convicção que se reforçou ao longo destas nove sessões. Orgulho-me, aliás, de ter sido absolvido sem ter sequer arrolado uma testemunha ‘amigável’, que fosse lá dizer que eu era boa pessoa. As únicas testemunhas que arrolei foram o presidente do Infarmed, Rui Santos Ivo, o presidente da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde, Carlos Carapeto, e uma inspectora dessa entidade. O objectivo era expor estas entidades, mostrar como funciona o sistema…

    woman in black shirt wearing black sunglasses

    Sobre este processo judicial ainda retomaremos com mais detalhes – que melhor exponham o que se passou naquela sala de audiência. Este texto serve sobretudo para mostrar como, no ano da graça de 2026, mais de meio século após a instauração da democracia e do teórico primado da liberdade, os processos de difamação contra jornalistas continuam, em Portugal, a ser uma via relativamente fácil e, não raras vezes, ardilosa de pressionar a imprensa livre.

    Não porque as afirmações e notícias sejam falsas — isso seria outra questão —, mas porque incomodam quem detém poder, prestígio institucional ou autoridade mediática. O mecanismo é simples: apresenta-se uma queixa, mobiliza-se o Ministério Público, quase sempre reverente aos poderes, e transfere-se para o jornalista o ónus de se defender durante anos, com custos financeiros, desgaste pessoal e a sombra permanente da suspeita.

    Com este tipo de facilitismo — alimentado ora por uma certa preguiça investigativa, ora por uma complacência perante argumentos de autoridade por parte de muitos procuradores do Ministério Público — pôde o doutor Miguel Guimarães, o doutor Filipe Froes e o doutor Luís Varandas avançar para tribunal e sustentar a sua pretensão de indemnização.

    Filipe Froes, um dos médicos portugueses com mais ligações à indústria farmacêutica, desejava ter mais 15 mil euros de indemnização por eu denunciar as suas ligações promíscuas que não revelava durante a pandemia.

    Cada um deles chegou a reclamar 15 mil euros, recorrendo, no caso da Ordem dos Médicos, a recursos provenientes das quotas pagas pelos próprios médicos para financiar honorários jurídicos e sustentar a tentativa de transformar crítica jornalística em ofensa penal. Ficará nos anais da Ordem dos Médicos a tentativa de um bastonário, Miguel Guimarães, na sua ânsia de poder (um simples lugar de deputado da Nação) ter usado uma instituição credível para perseguir colegas e jornalistas.

    Foi também graças a esse mesmo clima de indulgência institucional que o almirante Gouveia e Melo conseguiu apresentar-se como suposto ofendido num processo obscuro (e que acredito eivado de ilegalidades e compadrios) que teve origem numa investigação jornalística sobre um episódio concreto: a vacinação de médicos não-prioritários durante a fase inicial da campanha contra a covid-19, em Fevereiro e Março de 2021.

    Estamos em 2026 e aquilo que deveria ter merecido, desde logo, uma investigação séria por parte do Ministério Público sobre eventuais responsabilidades — incluindo a eventual configuração de crimes como peculato ou abuso de poder — acabou transformado num processo penal contra quem revelou e questionou os factos. Este Ministério Público não serviu, neste caso concreto, os interesses dos cidadãos.

    Miguel Guimarães, antigo bastonário da Ordem dos Médicos, e actual deputado do PSD, também queria 15 mil euros de indemnização.

    Ao longo deste percurso — que não hesito em classificar como kafkiano — torna-se inevitável uma reflexão amarga. Como é possível que, mais de meio século depois da Revolução de Abril, um jornalista que publicou informação sustentada em documentos e testemunhos, e cuja veracidade acabou por não ser negada em tribunal, se veja sentado no banco dos réus? Como é possível que a revelação de factos relevantes para o interesse público possa transformar-se, durante anos, numa suspeita criminal sobre quem os expôs?

    Além das derrotas de Gouveia e Melo, Miguel Guimarães, Filipe Froes e Luís Varandas – sobre os quais apenas lamento não ter sido ainda mais assertivo – e do próprio Ministério Público (que não satisfeito pelo mau trabalho inicial, não corrigiu a mão e ainda tentou que eu fosse condenado por uma crítica banal a uma figura pública), há, neste processo, dois outros grandes derrotados institucionais que não podem ser ignorados – e que mostram também o estado deplorável, reles e indigno da imprensa.

    O primeiro derrotado é a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, que constitucionalmente foi criada para defender a liberdade de imprensa. Em Março de 2023, a ERC produziu uma deliberação lamentável que, na prática, ofereceu cobertura institucional às queixas do almirante Gouveia e Melo, tecendo críticas éticas e de investigação aos meus trabalhos sobre a task force, e que hoje se revelam, à luz da decisão judicial, profundamente lamentáveis. A ERC serviu paa censurar e menorizar, perante terceiros, uma investigação jornalística rigorosa e cuidada.

    (Lusa - Aconteceu em 2021)
    Gouveia e Melo: o julgamento mostrou como funcionava, na verdade, a task force.

    O segundo derrotado é a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ). Na sequência de uma queixa apresentada pelo almirante, e antes de qualquer decisão judicial, essa entidade constituída apenas por jornalistas abriu-me um processo disciplinar que rapidamente se revelou canhestro, chegando mesmo a propor uma sanção manifestamente ilegal eivada de irregularidades risíveis.  O processo foi, e é, tão sórdido e reles que, em vez de arquivarem por falta de provas, ainda hoje se arrasta, sem decisão final.

    O jornalismo de investigação é assim tratado por esta ‘gente’. O comportamento da ERC e da CCPJ, acompanhado por um Sindicato dos Jornalistas com condutas lamentáveis, constitui hoje um retrato fiel da mediocridade e mesquinhez que corrói, pela promiscuidade, um dos pilares da democracia.

    Na verdade, este processo mostrou bem os instrumentos de intimidação indirecta contra quem investiga e critica o poder. Em Portugal, a liberdade de imprensa deixou de ser uma proclamação abstracta e passou a depender da resistência concreta de quem decide não recuar. E a culpa é da própria classe jornalística.

    Licínia Girão, antiga presidente da CCPJ que me instaurou um processo disciplinar após queixa de Gouveia e Melo, Em vez de defender o jornalismo de investigação, o órgão que tutela os jornalistas preferiu ser reverente com o poder.

    A minha batalha, aliás, ainda não terminou. Há outro processo similar em curso no Porto – intentado também pelo Ministério Público, tendo Gustavo Carona, o médico reformado (e recém-registado no Colégio de Medicina Intensiva), como assistente – onde, uma vez mais, estão em causa a liberdade de expressão e a minha credibilidade enquanto jornalista e cidadão com opinião. Vai durar mais uns meses, mais trabalho e mais dinheiro gasto. Mas se alguma coisa retiro destes anos de desgaste judicial é uma certeza que, paradoxalmente, me deixa orgulhoso: hoje, ficou provado em tribunal que não minto e que aquilo que escrevo assenta em factos, documentos e provas.

    Quanto ao meu estilo — por vezes agreste, outras vezes deliberadamente mordaz —, que tanto incomoda, sempre direi que a língua portuguesa é demasiado rica para ser domesticada por um jornalismo tímido e asséptico. E, quando se trata de escrutinar o poder, a cortesia excessiva costuma ser apenas outra forma de silêncio.

  • PÁGINA Um vai processar o Sindicato dos Jornalistas e o seu Conselho Deontológico

    PÁGINA Um vai processar o Sindicato dos Jornalistas e o seu Conselho Deontológico

    As corporações profissionais têm tentações: quando alguém aponta para um problema interno, a primeira reacção não é examinar o problema — é tentar desacreditar quem o revelou. O jornalismo português acaba de oferecer um exemplo quase pedagógico desse reflexo corporativo.

    O Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas decidiu publicar um parecer sobre o trabalho do Página Um relativamente a artigos publicados sobre as actividades do jornalista José Gabriel Quaresma, que desenvolve e promove acções de media training e de mentoria, incompatíveis com o Estatuto do Jornalista (vd. artigo 3.º).

    Sindicato dos Jornalistas em manifestação, com Luís Filipe Simões, o actual presidente, à direita a segurar a faixa. Foto: D.R.

    Até aqui, nada de extraordinário. A crítica entre jornalistas é saudável e, em princípio, até desejável. O problema começa quando um órgão que pretende defender a ética jornalística passa a fazê-lo com base em afirmações factualmente falsas. E que, por isso mesmo, atinge a reputação de jornalistas e de um órgão de comunicação social com base numa narrativa que simplesmente não corresponde à realidade. Além disso, com um claro objectivo: ‘limpar’ a imagem de um jornalista de um grande grupo de media apanhado em actividades que, infelizmente, enxameiam outras redacções.

    Vejamos este caso.

    O Página Um publicou notícias sobre a actividade empresarial de José Gabriel Quaresma, que dirige uma empresa de consultoria em comunicação, media training e preparação mediática. Nem se tratou de investigação secreta nem de operações de infiltração dignas de um romance de John le Carré. A informação estava, e continua a estar, na sua esmagadora maioria, exactamente onde o próprio jornalista a colocou: no seu site pessoal, nas suas redes sociais, no LinkedIn e nos registos comerciais oficiais.

    Por exemplo, esta tarde vê-se na página de José Gabriel Quaresma, associada à sua empresa (Sardine Conjugation), que disponibiliza serviços de mentoria, masterclass, workshops de media training, entre outros.

    Gravação esta tarde do site do José Gabriel Quaresma.

    Em suma, tratava-se de informação pública.

    Ainda assim, o Conselho Deontológico entendeu que houve violação do código deontológico, porque não se confirmou com o visado as informações que o próprio visado disponibilizou. É como se fosse necessário questionar o Instituto Nacional de Estatística sobre se os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística eram mesmo do Instituto Nacional de Estatística.

    Mas o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas decidiu ir mais longe: afirmou que o Página Um teria “simulado uma empresa” para testar os serviços anunciados pelo jornalista.

    É aqui que a história abandona o território da crítica e entra no da ficção.

    José Gabriel Quaresma promove os seus serviços extra-jornalismo de forma activa mas sempre usando o seu estatuto de jornalista.

    Não houve qualquer simulação de empresa. Houve apenas um jornalista identificado, com o seu próprio perfil de LinkedIn, que utilizou um formulário disponibilizado pelo próprio José Gabriel Quaresma para atrair potenciais clientes interessados nos seus serviços de consultoria e formação.

    Transformar esse contacto transparente numa “simulação de empresa” exige uma imaginação considerável — é falso e é grave para jornalistas que integram órgãos de ética.

    Mas o Conselho Deontológico não se ficou por aí.

    O parecer afirma ainda que o Página Um não tentou confirmar os dados nem contactar os visados. Ora, isto é particularmente curioso quando se recorda que os dados utilizados nas notícias provêm essencialmente de fontes documentais: registos comerciais, páginas profissionais do próprio visado e conteúdos por ele próprio publicados.

    A gravação do contacto de Pedro Almeida Vieira (assim identificado) a José Gabriel Quaresma, feita em 5 de Fevereiro de 2025, pretendia mostrar que o jornalista da CNN Portugal tinha formulários em que disponibilizava serviços incompatíveis com o jornalismo. José Gabriel Quaresma soube que a solicitação era de um jornalista (até por ter ligação directa). Não houve qualquer simulação de uma empresa, e isso é comprovável na gravação que o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalista (CD-SJ) tinha disponível. Mesmo assim, o CD-SJ decidiu mentir e difamar o PÁGINA UM, mesmo depois de ser alertado de ser falso o que afirmavam.

    Ou seja, documentos que não precisam de contraditório para existirem e serem confirmados. Quando, por exemplo, no YouTube de José Gabriel Quaresma surgem vídeos de clientes de José Gabriel Quaresma a elogiarem os serviços de José Gabriel Quaresma, será necessário questionar José Gabriel Quaresma?

    Ou se os registos comerciais e o Registo Nacional de Beneficiário Efectivo referem José Gabriel Quaresma como detentor de uma empresa de consultoria mediática, será necessário confirmar a veracidade da informação por ele mesmo indicada ao Instituto dos Registos e Notariado?

    A ideia de que um jornalista tem de pedir autorização ao visado para citar documentos públicos seria, se levada a sério, uma inovação extraordinária na história do jornalismo. Provavelmente tornaria impossível grande parte da investigação que ainda subsiste nas democracias ocidentais.

    Mas há um aspecto mais grotesco nesta história.

    Registo comercial da empresa Sardine Conjugation, criada voluntariamente pelo próprio José Gabriel Quaresma, da qual é gerente, que decidiu colocar como objecto social “consultadoria em comunicação, formação, media training e consultadoria online”. O Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas acha que estes elementos de um registo oficial, regulado por leis, deveriam ser confirmados pelo próprio José Gabriel Quaresma, que foi quem, na verdade, os forneceu através a escritura da sociedade.

    O jornalista que apresentou queixa promove abertamente serviços de media training, consultoria estratégica e preparação de comunicação — actividades que, em muitos países, levantariam imediatamente discussões sobre a sua compatibilidade com o exercício do jornalismo, porque colocam o jornalista numa posição peculiar: a de ensinar actores públicos a lidar com os media enquanto ele próprio trabalha nos media. O Estatuto do Jornalista impede essas funções. Ponto final.

    Portanto, seria razoável esperar que um Conselho Deontológico analisasse esta questão.

    Mas não.

    O Conselho preferiu concentrar-se no mensageiro.

    É um reflexo corporativo bastante clássico: quando o problema é incómodo, muda-se o tema da conversa. Em vez de discutir a compatibilidade entre jornalismo e consultoria mediática, discute-se a conduta de quem levantou a questão. E, se necessário, acrescenta-se um detalhe imaginativo — como a suposta “simulação de empresa” — para reforçar o enredo.

    José Gabriel Quaresma revela os seus serviços no próprio site. O Conselho Deontológico diz que, mesmo assim , tem de existir um contraditório, cujo código deontológico do jornalista não menciona sequer.

    O Sindicato dos Jornalistas foi previamente alertado de que algumas das afirmações constantes do parecer do seu Conselho Deontológico eram factualmente falsas. Ainda assim decidiu avançar com a sua publicação no seu site.

    Essa escolha é reveladora — mas terá consequências, como foram avisados.

    Quando uma instituição que deveria defender o rigor profissional aceita publicar afirmações factualmente falsas sobre jornalistas e sobre um órgão de comunicação social, o problema deixa de ser apenas corporativo. Torna-se um problema judicial, ainda mais quando o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas tem sido uma arma de arremesso ao longo dos anos para tentar descredibilizar o jornalismo independente do PÁGINA UM.

    Perante esta situação, o PÁGINA UM decidiu que recorrerá aos tribunais. Não para alimentar polémicas corporativas, mas para defender algo elementar no jornalismo: que factos falsos não podem ser publicados impunemente por instituições que se arrogam guardiãs da ética profissional.

    Manuela Goucha Soares, em 2019 (em acção de sensibilização para as eleições no Sindicato dos Jornalistas) foi jornalista do Expresso, ocupando a presidência do Conselho Deontológico que integra também uma jornalista da CNN Portugal, Sara de Melo Rocha, colega de José Gabriel Quaresma.

    Será assim intentada uma acção civil por responsabilidade extracontratual, dirigida contra o Sindicato dos Jornalistas, enquanto entidade que decidiu publicar e divulgar o parecer, e contra os membros do Conselho Deontológico, enquanto autores das afirmações nele contidas.

    Nessa acção judicial serão formulados três pedidos essenciais: a indemnização pelos danos reputacionais causados ao PÁGINA UM, a declaração judicial da falsidade das afirmações constantes do parecer e a rectificação pública dessas afirmações.

    Esta não é uma questão corporativa. É uma questão de rigor. Porque quando uma instituição que invoca o “cumprimento do código deontológico” decide sustentar um parecer em afirmações factualmente falsas, o problema deixa de ser apenas disciplinar. Torna-se um problema jurídico.

    ****

    Membros do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas

    Manuela Goucha Soares; Ana Baião (jornal Expresso); Céu Neves (freelancer); Paulo Alves Nogueira (Lusa) e Sara de Melo Rocha (CNN)

    Membros da Direcção do Sindicato dos Jornalistas

    Luís Filipe Simões (A Bola), Ana Isabel Costa (Antena 1), Augusto Correia (Jornal de Notícias), Ruben Martins (Público), Nuno Viegas (Fumaça), Cláudia Martins (Antena 1), Susana Venceslau (Lusa), Vânia Maia (freelancer), João Rosário (RTP), Francisco David Ferreira (TVI/CNN Portugal), Isabel Venceslau (RTP), Vítor Mota (Medialivre) e João Miguel Rodrigues (freelancer).

  • Dois em um: Valentina Marcelino, o ‘Luís Neves’ do jornalismo

    Dois em um: Valentina Marcelino, o ‘Luís Neves’ do jornalismo

    A nomeação de Luís Neves para o Ministério da Administração Interna, vindo directamente da direcção da Polícia Judiciária, já era, por si só, um sinal preocupante de promiscuidade entre estruturas do Estado que deveriam manter distância funcional e ética. A política gosta destas passagens rápidas, destas portas giratórias que dispensam quarentenas morais e escrutínio público, embora esta tenha batido o recorde de falta de pudor. Mas agora, como se não bastasse, o jornalismo resolveu imitar o pior da política — e fê-lo com desvergonha.

    Neste domingo, a jornalista Valentina Marcelino, directora-adjunta do Diário de Notícias, anunciou que integrará a equipa do ministro Luís Neves como “assessora política”. Note: assessora política — nem sequer é uma ‘simples’ assessora de comunicação. A própria anuncia o ‘feito’ no LinkedIn, explicando, com um entusiasmo revelador, que a “segurança interna é o mundo que acompanha profissionalmente e traz no coração há mais de 20 anos”, acrescentando — já em plural governativo — que “estamos determinados em construir um país onde os cidadãos se sintam ainda mais seguros”. O plural não é um lapso: é a confissão.

    Valentina Marcelino passa directamente da direcção editorial do Diário de Notícias para a assessoria política do ministro da Administração Interna.

    Este caso não é apenas uma escolha infeliz de percurso profissional — é a prova material de uma confusão deliberada entre análise jornalística e interesse pessoal, entre comentário e carreira, entre notícia e alinhamento. E uma estratégia pessoal de muitos jornalistas: aproveitarem-se da profissão para darem o salto.

    No caso particular de Valentina Marcelino, isso já se mostrava notório: no ano passado, ‘apostou’ no ‘cavalo presidencial’, escrevinhando uma longa entrevista laudatória a Gouveia e Melo, transformada em livro de encómios do presidenciável, mas o sonho ficou pelo caminho.

    Esta mesma jornalista que, enquanto directora-adjunta e comentadora, produziu e avalizou peças sistematicamente elogiosas sobre a actuação da Polícia Judiciária sob a liderança de Luís Neves, que recentemente, nas páginas do Diário de Notícias e no ecrã da CNN Portugal, teceu rasgados elogios ao então recém-nomeado ministro, surge agora recompensada com um lugar no aparelho político que sempre tratou com benevolência.

    No dia 21 de Fevereiro, Valentina Marcelino fez mais elogios nomo jornalista-comentadora ao seu agora ‘patrão’ na CNN Portugal.

    A pergunta impõe-se na esfera das direcções editoriais dos órgãos de comunicação social: onde acaba a justeza da análise e onde começa a gestão de currículo? Onde termina o dever de escrutinar e onde se inicia a construção de afinidades úteis? Quando a crítica desaparece por completo e o elogio se torna regra, o jornalismo deixa de informar e passa a preparar o próximo cargo.

    Vejo, nas redes sociais, uma procissão de parabéns à directora-adjunta do Diário de Notícias de hoje e à . Não os dou. Não posso dá-los. Há até quem lhe diga, nos comentários ao seu post no LinkedIn, que o jornalismo fica mais pobre com a saída. Nesse caso, discordo: o jornalismo fica mais bem servido quando se liberta de uma situação de elevadíssima e intolerável promiscuidade. Fica mais claro, mais honesto e — sobretudo — menos cínico.

    Aquilo que tem empobrecido o jornalismo não é a saída definitiva de quem já não o exercia com distância; é a permanência de quem confunde redacção com antecâmara ministerial.

    Luís Neves tomou posse no dia 23 de Fevereiro, saindo directamente da direcção da Polícia Judiciária. Foto: D. R.

    Nada disto surpreende, aliás, quem acompanha a rápida degradação do Diário de Notícias, um jornal histórico, agora sob a liderança de Filipe Alves, reduzido a plataforma de transição e a espaço de legitimação de percursos políticos.

    Mas cada episódio destes é mais uma machadada na credibilidade da profissão e na confiança dos leitores. Não se trata de impedir escolhas individuais — trata-se, sim, de exigir coerência e decência. Quem quer fazer política, faça-a. Quem quer ser assessor, assuma-o. Aquilo que não é aceitável é usar o jornalismo, ainda mais quando se está em lugares de direcção editorial, como escada.

  • Revista Visão: quem quer parecer ovelha não dorme com o lobo

    Revista Visão: quem quer parecer ovelha não dorme com o lobo


    Nos últimos meses, tem sido amplamente celebrada — e em parte com razão — a abnegação de uma dúzia de jornalistas que, sem recursos, em teletrabalho, sem salários regulares, continuaram a produzir a revista Visão a partir de casa, mantendo o título vivo enquanto se aguarda um veredicto sobre o seu futuro.

    Esse esforço foi elevado quase a um hino cívico: jornalistas despojados, mas dignos, fiéis à missão e resistentes num deserto empresarial. A isso somou-se um crowdfunding liderado pelos próprios jornalistas, sob a direcção de Rui Tavares Guedes, com sucesso assinalável — até hoje foram angariados 263.311 euros provenientes de cerca de 6.100 doadores — e com o apoio entusiástico de múltiplas figuras públicas, para tentar salvar a marca que deverá ir a leilão no próximo mês, no contexto da insolvência da massa falida da Trust in News, permitindo, ao menos em teoria, compensar parcialmente os credores.

    Campanha de crowdfunding dos jornalistas da Visão apela para que não se fechem os olhos.

    Convém, porém, suspender por um instante o aplauso e perguntar: o que é que está realmente a acontecer aqui?

    Os credores não são uma abstração. Entre eles estão a Segurança Social, a Autoridade Tributária, jornalistas, fornecedores e outros lesados. E no centro do descalabro está a Trust News, empresa que em 2018 adquiriu cerca de uma dezena e meia de títulos à Impresa, controlada pela família Balsemão, que então já apresentava dificuldades financeiras em manter essas publicações.

    A Trust in News ‘caiu do céu’ para salvar o imbróglio da família Balsemão, e foi criada pelo antigo jornalista Luís Delgado com um capital social de apenas 10 mil euros. Pouco tempo depois, começaram os incumprimentos em cadeia, as dívidas ao Estado, os salários em atraso, até que o passivo conhecido atingiu valores na ordem dos 31 milhões de euros — e isto sem que as contas de 2024 tenham sequer sido apresentadas, o que por si só já diz muito. Há sinais fortes de fraude, engenharia financeira, há opacidade estrutural, há um rasto de destruição que não pode ser explicado apenas com a palavra mágica “crise”.

    Luís Delgado com Francisco Pedro Balsemão em 2018 aquando da compra das revistas da Impresa, incluindo a Visão.

    Este desastre não aconteceu por acaso. Foi protagonizado por Luís Delgado e foi permitido pelo Estado e pelo Governo — sobretudo pelo Governo socialista — que assistiram durante anos, com uma passividade cúmplice, a um dos maiores colapsos da imprensa portuguesa recente. Mais grave ainda: Luís Delgado e outros gerentes têm já condenações judiciais e execuções fiscais em curso, tornando todo o enredo ainda mais pesado do ponto de vista ético e institucional.

    E é aqui que o caso deixa de ser apenas trágico para se tornar verdadeiramente obsceno.

    Porque, apesar de todo este quadro, apesar de os jornalistas da Visão, e o seu director Rui Tavares Guedes, afirmarem ser vítimas de uma má gestão; apesar de a empresa estar falida; apesar de não se saber sequer, hoje, quem responde juridicamente pela Visão nem como é paga a produção da revista – eis a surpresa obscena: Luís Delgado continua a ser cronista regular da Visão, e não me parece que seja ao arrepio da vontade do seu director editorial, Rui Tavares Guedes. Este ano já escreveu nove artigos publicados na edição online, o mais recente na segunda-feira passada.

    Isto não é um detalhe. É o nó central da história.

    Não se pode, ao mesmo tempo, apresentar-se como vítima e manter como voz legitimada e publicada, o principal responsável pelo desastre. Não se pode pedir solidariedade pública, donativos, compreensão moral, apelos a perdões do Estado, enquanto se oferece espaço editorial a quem conduziu o navio ao fundo e deixou uma montanha de dívidas ao Estado, aos trabalhadores e ao sector. Não se pode invocar a ética do jornalismo e normalizar esta promiscuidade como se fosse um pormenor secundário.

    Algo está muito mal contado na história da revista Visão. Muito mesmo.

    Neste momento, a revista parece existir num limbo jurídico e financeiro: sem empresa claramente responsável, sem transparência sobre os fluxos que permitem a sua produção, sem respostas claras a perguntas elementares. E, perante isto, a indulgência acrítica não ajuda o jornalismo – só o descredibiliza.

    Rui Tavares Guedes, director da Visão que, após o descalabro da Trust in News, com calotes de mais de 30 milhões de euros, ainda acha boa ideia ter Luís Delgado como colunista da revista.

    A tolerância cega, mesmo quando movida por boas intenções, transforma-se em cumplicidade. E o jornalismo, se quer sobreviver com dignidade, não pode aceitar dormir com o lobo enquanto se apresenta ao público como uma ovelha que luta para não ser sacrificada.

    É duro dizê-lo. Mas é ainda mais duro fingir que não se vê. Os jornalistas da Visão que permanecem a bordo — e, sobretudo, o seu director, Rui Tavares Guedes — perderam a noção do limite. Se é verdade que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele, neste caso impõe-se uma máxima ainda mais justa: quem quer parecer ovelha, para colher condescendência pública, não pode então dormir com o lobo.

  • E eis que temos um procurador do Ministério Público a querer condenar quem denuncia um político que apoiou a discriminação biológica…

    E eis que temos um procurador do Ministério Público a querer condenar quem denuncia um político que apoiou a discriminação biológica…


    No dia 3 de Agosto de 2021, escrevi publicamente que o então bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães — que foi entretanto ‘premiado’ com um cargo de deputado da Nação pelo PSD — assumia uma postura de discriminador-mor. Escrevi-o de forma clara, assumida e consciente. Não foi um insulto. Foi um juízo ético.

    A razão era simples e factual: Miguel Guimarães defendeu no Verão de 2021, enquanto bastonário, a separação em restaurantes entre vacinados contra a covid-19 e não-vacinados, independentemente do estado real de imunidade das pessoas. Essa distinção ignorava, além de tudo o resto, e de forma deliberada, um facto científico elementar: a existência de imunidade natural adquirida por infecção prévia, reconhecida pela literatura científica e por entidades internacionais. Eu próprio estava nessa situação.

    Em 2021, em plena democracia e de consolidação de direitos fundamentais, um baastonário da ordem dos Médicos defendeu a discriminação com base biológica: criticá-lo aludindo à memória histórica

    A proposta de Guimarães não distinguia comportamentos, riscos efectivos ou evidência clínica. Distinguia corpos. Distinguia estatutos biológicos. E é aqui que começa o problema civilizacional.

    Chamei-lhe, por isso, discriminador-mor aludindo a períodos negros da História da Humanidade. E escrevi, cito literalmente o que escrevi então: “Certamente teria um lugar adequado em certo país europeu da década de 30 do século XX. Ou talvez na ‘Espanha’ do século XV para coadjuvar o Torquemada.

    Esta frase — uma única frase, que a repito aqui — é hoje, em 2026, o único excerto, entre dezenas de textos, investigações e análises que produzi, que um procurador do Ministério Público entendeu, na sétima audiência do meu julgamento, mais concretamente nas alegações finais, ocorrida esta sexta-feira no Campus de Justiça, configurar difamação, no processo que me foi intentado pela Ordem dos Médicos, por Miguel Guimarães, por Filipe Froes, por Luís Varandas e por Henrique Gouveia e Melo.

    Convém sublinhar: não fiz a Miguel Guimarães uma acusação infundada, não lhe fiz uma imputação de factos falsos; não fiz um ataque pessoal gratuito.

    Foi uma análise ética do exercício do poder por um titular de um cargo público de enorme influência social: a Ordem dos Médicos é considerada uma entidade pública.

    E isso muda tudo.

    A História ensina-nos uma coisa com brutal clareza: sempre que o Estado ou uma autoridade moral começa a classificar pessoas com base em critérios biológicos, o desastre não vem a seguir — já começou.

    Não é uma hipérbole. É um padrão histórico.

    people standing in front of a cross

    A Inquisição ibérica criou os estatutos de limpieza de sangre, onde a fé já não bastava: o sangue herdado tornava-se critério de exclusão.
    O nazismo classificou cidadãos pelo número de avós com certas características genéticas, não pelas suas ideias ou actos.
    O apartheid transformou características físicas em documentos legais.
    As leis Jim Crow fixaram, nos Estados Unidos, a cidadania com base na cor da pele.
    A eugenia científica, no século XX, esterilizou pessoas por alegadas taras genéticas.
    No Ruanda, o nascimento foi sentença de morte…

    Em todos estes casos, e muitos mais, o mecanismo foi o mesmo: o indivíduo é julgado sem ser pelos seus actos mas sim pelas características biológicas.

    Ora, quando em 2021 um bastonário da Ordem dos Médicos defende a segregação de cidadãos com base no seu estatuto biológico simplificado — vacinado / não vacinado — ignorando imunidade natural, contexto clínico, proporcionalidade e direitos fundamentais consagrados na Constituição de um país democrático, estamos perante um desvio ético grave. E dizê-lo não é difamar. É cumprir um dever cívico.

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    Disse José Ortega y Gasset — e ontem citei-o em tribunal, depois de o procurador do Ministério Público pedir a minha condenação por considerar que difamei Miguel Guimarães: “Eu sou eu e a minha circunstância; e se não a salvo a ela, não me salvo a mim.

    Esta frase é central para compreender aquilo que está aqui em causa — e explico-a aqui melhor do que consegui no tribunal. Em democracia, as acções de quem exerce poder moldam a circunstância moral da sociedade. Quem discrimina, como fez Miguel Guimarães, a partir de um cargo institucional cria precedentes. Quem perseguiu colegas, como fez Miguel Guimarães, cria medo. Quem pretende normalizar, como fez Miguel Guimarães, a exclusão biológica, degrada o espaço público.

    E quem assiste e cala — ou, pior, quem deseja a condenação de quem denuncia, como pretende este procurador do Ministério Público — legitima uma acção infame. E torna-se cúmplice dessa degradação.

    Por isso, comparar as atitudes de Miguel Guimarães a períodos sombrios da História não é dizer que vivemos nesses regimes. Não é dizer que ele é nazi ou fanático religioso — é dizer que os mecanismos éticos são reconhecíveis. A História não se repete mecanicamente, mas repete padrões. E é precisamente para evitar o retorno desses padrões que a memória existe.

    Dizer que alguém, pelo seu comportamento público, ecoa lógicas inquisitoriais ou segregacionistas não é um ataque pessoal — constitui uma avaliação ética da função exercida.

    Ora, se esta crítica for criminalizada — como parece ser o desejo deste procurador do Ministério Público —, então não é apenas um jornalista que pode ser condenado: é o próprio direito de escrutinar o poder e a liberdade de expressão enquanto pilar democrático.

    Editorial

    Particularmente chocante é que este desejo do procurador do Ministério Público de me ver condenado por difamação se enquadre num julgamento em que ele foi testemunha presencial de mentiras em tribunal, de conluios documentais, de omissões graves, de ilegalidades evidentes praticadas por entidades com poder — incluindo responsáveis máximos de organismos reguladores, como a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde e o Infarmed, bem como a Ordem dos Médicos e o Estado-Maior-General das Forças Armadas, de onde provinha Gouveia e Melo — e, ainda assim, escolha concentrar-se numa frase de crítica ética a um defensor de discriminação biológica.

    Em 2026, ver este comportamento de um magistrado do Ministério Público choca-me como cidadão do século XXI — e ainda mais sendo eu um arguido a quem ele, nas seis audiências anteriores, não conseguiu encontrar qualquer mentira em tudo o que escrevi, e por isso pediu absolvição em tudo o resto.

    Mais do que choque, indigna-me. E não apenas por mim. Indigna-me pela democracia.

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    Se eu for condenado por isto, na sentença a ser lida pela juíza do processo no próximo dia 10 de Março — e, sinceramente, custa-me a acreditar nessa possibilidade —, não serei apenas eu a ser condenado.

    Será condenada a ideia de que recordar a História é perigoso.
    Será condenada a ideia de que criticar o poder é um crime.
    Será condenada a própria noção de cidadania activa.

    E isso, sim, seria um recuo para tempos que jurámos nunca mais aceitar.

  • Cheias no Baixo Mondego: não nos atirem Girabolhos para os olhos

    Cheias no Baixo Mondego: não nos atirem Girabolhos para os olhos


    Desenterrou-se agora o projecto da barragem de Girabolhos e atirou-se ao espaço público como solução milagrosa, tardia mas redentora, para um problema complexo: as cheias do Baixo Mondego. Esta, diga-se já, é uma solução intelectualmente desonesta, tecnicamente errada, financeiramente pesada e politicamente estúpida.

    Por piada — mas apenas por piada — poderia dizer que, se a garantia de controlo das cheias é feita por um Governo cujo líder, Luís Montenegro, parece acreditar que os caudais do Mondego se regularizam com telefonemas para Madrid, quando toda a bacia hidrográfica se encontra no nosso país, talvez fosse mais eficaz fazer promessas e ir a Fátima.

    Mas este não é um assunto para sarcasmos fáceis. Custa dinheiro público, cria expectativas infundadas e, no fim, entrega apenas soundbites de acção governativa. A ciência, porém, não se governa por conferência de imprensa.

    Convém começar pelo princípio. O Baixo Mondego é, historicamente, uma zona susceptível a inundações. Sempre foi. Durante séculos, as cheias sazonais faziam parte do regime natural da região e, mesmo sendo uma calamidade, contribuíam para a fertilidade agrícola dos campos. Foi para domesticar esse comportamento que, a partir das décadas de 1970 e sobretudo de 1980, se avançou com grandes obras de regularização hidráulica: diques longitudinais (para aumentar a capacidade de encaixe de caudais sem inundação adjacente), canais, rectificações e barragens.

    Entre estas, destacam-se as barragens da Aguieira e do Raiva, que entraram em exploração nos anos 80 e reduziram de forma clara a frequência e a severidade das inundações a jusante. Isto é um facto histórico e técnico, não uma opinião.

    Luís Montenegro a visitar o Baixo Mondego. Foto: CMMV.

    Não foi aí que “algo falhou”. Pelo contrário: durante décadas, o sistema funcionou de acordo com os objectivos para que foi concebido. Também não é sério atribuir as cheias actuais a uma alegada pluviosidade excepcional. Conforme destaca Paulo Fernandes, professor da Universidade de Trás-os-Montes, os dados são claros: Janeiro de 2026 foi apenas o 11.º mês de Janeiro mais chuvoso desde 1940 na série de Coimbra. Não estamos, assim, perante um episódio extremo em termos históricos.

    Quando há cheias significativas sem precipitação recorde, o problema raramente está no céu; está quase sempre na bacia.
    E é aqui que o debate se torna incómodo e nos remete para o Verão passado — e por isso mesmo politicamente evitado: os incêndios rurais.

    Nos últimos anos, e de forma particularmente intensa em 2025, vastas áreas da bacia hidrográfica do Mondego, sobretudo no alto curso e em sub-bacias críticas, foram devastadas por incêndios florestais de grande dimensão. Na bacia do Mondego, na Serra da Estrela e zonas de cabeceira e vertentes declivosas arderam como há muito não se via. Em Agosto houve um incêndio iniciado em Arganil que devastou mais de 65 mil hectares de áreas florestais e de matos; na região de Trancoso, outro que dizimou quase 47 mil hectares. Do ponto de vista hidrológico, isto não é um detalhe: é uma alteração estrutural do comportamento da bacia.

    Solos queimados perdem cobertura vegetal, reduzem, de forma drástica, a infiltração, tornam-se mais susceptíveis à erosão e aceleram o escoamento superficial. O tempo de concentração da água encurta; os picos de cheia tornam-se mais rápidos e mais altos; o transporte de sedimentos aumenta, assoreando linhas de água e reduzindo a capacidade hidráulica dos canais. Tudo isto está documentado há décadas na literatura científica. E tudo isto ocorre quer se construa ou não mais uma barragem a montante.

    Barragem da Aguieira. Foto: D.R.

    Chegados aqui, importa desmontar o mito central: o que mudaria, na realidade, a barragem de Girabolhos? Do ponto de vista técnico, a resposta é muito menos impressionante do que o discurso político sugere. Girabolhos regularizaria apenas uma fracção limitada da bacia do Mondego — abarcará uma área de drenagem de apenas 980 km², cerca de 15% quer da área total contributiva quer do escoamento total anual.

    Não estamos a falar, portanto, de uma albufeira com capacidade para controlar todo o sistema; estamos a falar de uma infra-estrutura que interceptaria uma pequena parte do escoamento a montante, deixando intactos contributos significativos de sub-bacias a jusante e de afluentes críticos.

    Além disso, mesmo a regularização inter-anual proporcionada por Girabolhos não elimina cheias em cenários de precipitação concentrada ou de resposta rápida da bacia — precisamente aqueles que os incêndios tornam mais prováveis. As barragens não “absorvem” cheias por decreto: têm limites operacionais, volumes já ocupados antes das chuvas invernais (ainda mais se o uso predominante for hidroeléctrico), regras de exploração e constrangimentos de segurança. Em certos contextos, podem até agravar picos a jusante se forem obrigadas a descarregar.

    Dizer, portanto, que Girabolhos “resolveria” as cheias do Baixo Mondego é vender uma solução simples para um problema que deixou de ser simples há muito. É ignorar a degradação do território, a política florestal errática, a ausência de gestão integrada da bacia e a incapacidade crónica de lidar com as consequências hidrológicas dos incêndios. E, em suma, é preferir betão a planeamento, obra visível a intervenção estrutural, fotografia de capacete a políticas de gestão do solo.

    Nada disto significa que o debate sobre Girabolhos seja ilegítimo. Pode discutir-se a sua utilidade para armazenamento, para regularização de caudais em certos cenários, para produção energética ou para abastecimento. Aquilo que não se deve fazer é instrumentalizar a barragem como resposta automática a cheias que têm causas múltiplas e bem identificadas. E a imprensa engolir.

  • Sondagens: o jornalismo está a transformar a Estatística em charlatanismo

    Sondagens: o jornalismo está a transformar a Estatística em charlatanismo


    Durante semanas — para não dizer meses — o espaço público português foi inundado por sondagens, tracking polls, “barómetros” diários e projecções que se pretendiam científicas, mas que acabaram por revelar outra coisa: um sistema inteiro a falhar em bloco. Não falhar por um ou dois pontos, não falhar pontualmente, mas falhar de forma sistemática, previsível e sempre no mesmo sentido. A eleição presidencial confirmou aquilo que já era evidente para quem não confunde números com oráculos: as sondagens deixaram de medir a realidade para passar a condicioná-la.

    Os resultados definitivos são claros: 66,8% para António José Seguro, 33,2% para André Ventura. Uma vitória confortável, inequívoca e politicamente relevante. Mas muito distante da narrativa construída até à exaustão pelas sondagens e, sobretudo, pelas projecções à boca das urnas, que apontavam para resultados entre os 68% e os 73%, com insinuações reiteradas de um “resultado histórico” capaz de ultrapassar Mário Soares. Nada disso aconteceu. E não aconteceu porque nunca esteve verdadeiramente nos dados — esteve apenas na expectativa que se quis criar.

    António José Seguro, eleito Presidente da República. Foto: D.R.

    A gravidade deste falhanço não pode ser relativizada com o argumento, recorrente mas estatisticamente iletrado, de que “se errou por pouco”. Sempre que uma projecção à boca das urnas — que não é uma sondagem típica mas já uma medição comportamental que deveria reduzir a incerteza e aproximar a estimativa do resultados real — é apresentada sob a forma de intervalo, existe necessariamente uma estimativa central. Esye ‘ponto médio’ corresponde ao valor mais provável do modelo; é o intervalo é apenas a sua margem de incerteza, por vezes generosa.

    Ora, recorde-se, então, o que foi dito no início da noite eleitoral após o fecho integral das urnas: das três projecções distintas, de entidades diferentes, apresentadas como independentes, todas sobrestimaram Seguro e subestimaram Ventura.

    Mesmo assim, a Intercampus — responsável pela projecção para a CMTV, Now e Jornal de Negócios — pode considerar-se que acertou no intervalo de incerteza estimado, que se situava entre 66,8% e 71,8% para Seguro, mesmo se o ponto médio era de 69,3%, traduzindo um erro de cerca de +2,5 pontos percentuais face ao resultado real. [leia a nota de direcção no final do texto]

    Muito pior esteve o consórcio ICS/ISCTE-GfK-Pitágórica — que trabalhou para a SIC, SIC Notícias, TVI e CNN — indicava 67% a 71,4%, com um ponto médio de 69,2% e um erro de +2,8 pontos; e a Universidade Católica Portuguesa — que realizou a projecção para a RTP — avançava com um intervalo entre 68% e 73%, cujo ponto médio, 70,5%, falhou por +4,1 pontos.

    Nem a melhor projecção à boca das urnas, feita pelo consórcio ICS/ISCTE-GfK-Pitágórica, conseguiu acertar no intervalo e ficou a 2,8 pontos percentuais do ponto média da estimativa.

    O resultado real, de 66,8% para Seguro e 33,2% para Ventura, ficou fora de dois dos três intervalos estimados, sendo que um acerta marginalmente (para um intervalo implícito de erro de ±2,5%).

    Convém salientar que, para projecções à boca das urnas, um intervalo implícito de ±2,5% fica claramente acima dos benchmarks internacionais, onde é comum trabalhar-se entre ±1% e ±2%, descendo ainda mais à medida que a noite avança e entram calibrações com resultados reais.

    Do ponto de vista técnico, este erro de ±2,5% significa que se usou uma uma amostra efectiva de apenas cerca de 1.500 inquiridos (assumindo p≈0,5 e IC≈95%), um número modesto para um exit poll nacional, sobretudo quando segmentado por regiões, idade e sexo — o que reduz drasticamente a amostra útil por estrato.

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    Um intervalo desta dimensão não traduz prudência estatística, mas, na verdade, uma grande fragilidade metodológica. E esta pode resultar de uma amostra curta ou mal estratificada, de níveis elevados de não-resposta corrigidos à pressa com ponderações agressivas, ou de um viés sistemático que o próprio intervalo tenta acomodar. Ou seja, em qualquer cenário, alargar a margem de incerteza não resolve o problema: apenas o disfarça — e mal.

    No limite do absurdo, se um órgão de comunicação social quisesse garantir que nunca falha uma projecção num confronto entre dois candidatos, bastar-lhe-ia ouvir quatro pessoas num universo de 10,9 milhões de eleitores: assumindo os pressupostos estatísticos habituais (intervalo de confiança de 95%, proporção no pior caso p = 0,5 e amostragem aleatória simples), seria então possível apresentar uma projecção “seguríssima”, atribuindo 50% a cada candidato, com uma margem de erro próxima dos 49% — formalmente defensável, mas de uma absoluta inutilidade informativa.

    Mas o problema não começou nesta noite eleitoral nem nestas eleições presidenciais. Começou muito antes, com as chamadas tracking polls, esse produto patético que passou a ser apresentado como acompanhamento científico do “sentimento do país”, quando não passa de uma sucessão de micro-amostras instáveis, metodologicamente frágeis e altamente sensíveis a enviesamentos sociais. Sondagens diárias, semanais, quase horárias, usadas não para informar, mas para criar climas de inevitabilidade, de vitória esmagadora, de consenso moral.

    A projecção da Intercampus acertou no intervalo por uma ‘unha negra’ mas graças a um intervalo ‘generoso’.

    A isso somou-se um fenómeno ainda mais corrosivo: o condicionamento social explícito. Quem não votava em Seguro era tratado, em muitos espaços mediáticos, como um problema a corrigir.

    Houve censura, crítica moral, desqualificação pública e uma pressão simbólica constante para alinhar com o “lado certo da História”. Isto não é neutro. Isto afecta respostas em sondagens. Isto produz o chamado efeito de desejabilidade social, em que o inquirido responde aquilo que sente ser socialmente aceitável — não aquilo que efectivamente vota.

    O resultado foi um eleitorado de Ventura sistematicamente sub-medido. Não porque não existisse, mas porque foi empurrado para a invisibilidade estatística. Quando esse mesmo viés atravessa todo o ecossistema — das sondagens pré-eleitorais às projecções à boca das urnas — o problema deixa de ser técnico e passa a ser estrutural.

    André ventura. Foto: D.R.

    Do ponto de vista da ciência estatística, aquilo a que assistimos é grave. Porque a estatística vive de uma coisa simples: confiança pública.

    Quando os números falham repetidamente, quando os intervalos de confiança são usados como ferramentas narrativas e não como limites prudentes, quando o topo do intervalo é apresentado como destino provável e não como hipótese extrema, o resultado é inevitável: a estatística passa a ser percebida como adivinhação. Ou pior, como manipulação.

    Isto é profundamente lamentável. Não porque as sondagens tenham de acertar sempre — não têm. Mas porque não podem errar sempre do mesmo lado sem consequências. Cada erro deste tipo fragiliza a credibilidade das medições futuras, alimenta o cinismo dos eleitores e contribui para a degradação do debate democrático. Uma democracia saudável precisa de informação rigorosa, não de climas fabricados. Precisa de números que iluminem a realidade, não que a distorçam.

    António José Seguro venceu com clareza. Não precisava de sondagens inflacionadas para o legitimar. Quem precisava delas era o próprio sistema mediático, preso à lógica do espectáculo, da inevitabilidade e da pedagogia moral disfarçada de ciência.

    Se a estatística continuar a ser usada de forma alegre, irresponsável e acrítica, o dano será duradouro. Não para um candidato ou outro, mas para a própria ideia de que os números servem para compreender o país — e não para o conduzir pela mão. E isso, sim, é um mau serviço à democracia.

    N.D. 10/2/2026 – Originalmente, o editorial referia que “a Intercampus — responsável pela projecção para a CMTV, Now e Jornal de Negóciosapontava para 69,3% a 71,8% para Seguro, o que implica um ponto médio de 70,6%, traduzindo um erro de +4,2 pontos percentuais face ao resultado real”. Ora, esta referência tinha sido retirada de uma notícia do Público [ver aqui], mas que se revelou falsa. Na verdade, o intervalo da projecção da Intercampus para António José Seguro estava compreendida entre 66,8% e 71,8%, conforme se pode observar aqui, o que considerando o resultado provisório de 66,82% deve concluir-se que acertou, mesmo se por uma ‘unha negra’ do limite inferior do intervalo. Embora por um erro involuntário, e decorrente da informação do Público, um pedido de desculpas à Intercampus e aos órgãos de comunicação social da Medialivre.

    Projecção da Intercampus para a CMTV, Now e Jornal de Negócios

  • Pedro Sales Dias, não invoques a desinformação em vão

    Pedro Sales Dias, não invoques a desinformação em vão


    A fronteira entre combater uma ideia política e deslegitimar democraticamente quem a professa tem vindo a esbater-se de forma perigosa no espaço mediático português. É nesse ponto exacto — e não por qualquer complacência com as teses de André Ventura, que rejeito de forma clara, consistente e reiterada — que reside a minha inquietação crescente.

    Votei em António José Seguro. Não por convicção profunda, mas por exclusão. E conto repetir esse voto na segunda volta. Faço-o com lucidez, sem entusiasmo e sem qualquer ilusão redentora. Mas uma coisa é escolher, com maior ou menor convicção pessoal e colectiva; outra, bem diferente, é aceitar que se normalize, no discurso jornalístico e mediático, a ideia de que certas posições são “antidemocráticas” apenas por não se alinharem com uma solução partidária específica, ou que determinados votos carecem de legitimação moral para serem considerados aceitáveis.

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    Quando leio ou oiço que só um determinado voto é “legítimo e democrático”, não vejo ali uma defesa da democracia. Vejo o seu empobrecimento conceptual.

    A democracia não é um sacramento administrado por redacções nem um selo de qualidade atribuído por colunistas. É um método imperfeito, rude e muitas vezes desconfortável de convivência política entre cidadãos livres. Todos os votos legalmente expressos são democráticos, mesmo quando nos repugnam, mesmo quando nos assustam, mesmo quando anunciam perigos reais. A tentativa de hierarquizar votos em função da sua utilidade moral é um vício antigo, recorrente e historicamente perigoso.

    Por isso, a leitura de certos textos recentes não me causam apenas discordância política – causa-me alarme. E isto porque constato a facilidade com que parte da opinião pública jornalística passou a considerar aceitável defender posições iliberais em nome de um suposto bem maior: “limpar” o espaço público de vozes consideradas perigosas. Para justificar esse impulso, tornou-se prática corrente colar Ventura a António de Oliveira Salazar, como se a analogia histórica bastasse para suspender princípios elementares do pluralismo democrático.

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    Esse expediente não é apenas intelectualmente preguiçoso – é politicamente irresponsável, sobretudo se executado por jornalistas, porque acabam por legitimar exactamente as acusações que dizem combater: a de que existe um perigo de, assumindo o Chega ou André Ventura o poder, se criar um ambiente de estigmatização, de ostracismo, de perseguição e de silenciamento de vozes dissonantes.

    Essa deriva torna-se ainda mais inquietante quando parte de quem ocupa posições de autoridade simbólica no próprio ecossistema da verificação dos factos. O trecho que aqui motiva esta reflexão não foi escrito por um comentador marginal nem por um militante exaltado nas redes sociais. Foi escrito por Pedro Sales Dias, jornalista do Público e responsável por uma secção que se apresenta como instrumento de combate à desinformação — a Prova dos Factos.

    Aquilo que ali se lê no seu artigo de opinião, onde expõe depois os trabalhos de identificação de erros e desinformações, é o seguinte, sem paráfrases, sem caricaturas e sem edições convenientes:

    Defender, como Paulo Núncio (CDS), que ‘o único voto legítimo e democrático’ não é apenas no ‘candidato apoiado pelo PS’ é indigno de um deputado de um partido que também foi fundamental na construção da democracia portuguesa. E novamente permite a desinformação de eleitores, o risco de muitos ponderarem votar no candidato radical imaginando-lhe alguma bondade política.

    Este parágrafo, escrito por quem dirige uma secção dedicada ao alegado combate à desinformação, concentra todos os vícios que deveriam ser combatidos por essa mesma função. Desde logo, aceita implicitamente que existem votos mais democráticos do que outros, abrindo a porta a uma hierarquização moral do acto eleitoral. Em segundo lugar, estabelece — sem prova, sem dados, sem demonstração empírica —, num só salto, um nexo causal entre uma declaração política (legítima mesmo se criticável no plano do debate político) e a alegada “desinformação” de eleitores que poderiam, por reacção, votar num “candidato radical” imaginando-lhe “bondade política”.

    Isto não é verificação factual —é um perigoso juízo político conjectural, apresentado com a autoridade retórica de quem ocupa uma tribuna que se arroga o estatuto de árbitro da verdade. E é precisamente isso que torna o episódio alarmante.

    Quando o responsável por uma secção intitulada Prova dos Factos escreve desta forma, a palavra “desinformação” deixa de funcionar como conceito analítico e passa a funcionar como instrumento de intimidação moral. Não se demonstra, invoca-se. Não se prova, sugere-se. Não se explica, adverte-se. O leitor não é esclarecido — é apenas tutelado.

    A palavra desinformação tem vindo a tornar-se o grande passe-partout do nosso tempo: invoca-se para tudo. contra qualquer um, sem rigor, sem parcimónia, sem critério. Talvez por isso devesse ser tratada como um mandamento mosaico: não invocarás a desinformação em vão, pois por cada uso abusivo, se empobrece o conceito e o aproxima perigosamente da censura bem-intencionada.

    A História oferece-nos exemplos abundantes desse caminho. A Inquisição é o caso mais óbvio, mas está longe de ser único. Houve tribunais revolucionários que guilhotinaram em nome da virtude. Houve comités de salvação pública que eliminaram em nome do povo. Houve regimes que começaram por “combater a mentira” e acabaram a proibir perguntas. Em todos esses casos, a convicção era a mesma: mostrava-se ‘fundamental’ calar para salvar.

    O jornalismo não existe para salvar a democracia por decreto — existe para a testar todos os dias, com incómodo, com fricção e com pluralismo real. Quando abdica disso, quando aceita hierarquizar votos, purificar opiniões e santificar candidatos, diabolizando outros, deixa de ser contrapoder para se tornar parte do problema que diz denunciar.

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    Combater André Ventura exige mais democracia, não menos. Exige mais exigência argumentativa, não excomunhões morais. Necessita mais inteligência crítica, não catecismos. Tudo o resto pode aliviar consciências nas redacções, mas empurra eleitores para o ressentimento — e o ressentimento, esse sim, é terreno fértil para os piores radicalismos.

    Enfim, lamento ter de dizer o óbvio: a democracia não se defende amputando-a — defende-se resistindo à tentação de a tornar confortável apenas para quem escreve ou está no poder.

  • A inteligência de Montenegro é insuficiente para entender sátira ou estamos num teste de autoritarismo?

    A inteligência de Montenegro é insuficiente para entender sátira ou estamos num teste de autoritarismo?


    A reacção institucional de Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, à circulação de uma peça satírica nas redes sociais – em que se simula uma apócrifa mensagem do primeiro-ministro português, em inglês, supostamente revelada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – deveria dar vontade para rir, pelo ridículo, mas mostra-se muito grave pela imaturidade política, com claros tiques autoritários, incompatível com um sistema democrático saudável.

    O texto em causa, divulgado por volksvargas – um utilizador anónimo que faz textos satíricos geralmente contra políticos de direita –, não exige descodificação sofisticada nem leitura contextual profunda: denuncia-se a si próprio, desde a primeira linha, pela linguagem que adopta, pelo exagero deliberado e pelo uso consciente de fórmulas que pertencem, sem margem para dúvida razoável, ao campo da sátira política.

    Vejamos o texto que Montenegro considera “desinformação” grave susceptível de ser crime. Logo na abertura, o texto atribuído a Luís Montenegro dirige-se ao presidente norte-americano como “Your excellency, supreme leader and great architect of our modern times” (“Vossa Excelência, líder supremo e grande arquitecto dos nossos tempos”).

    Luís Montenegro a jogar com a democracia.

    Esta expressão não é um deslize estilístico nem um excesso ocasional: “supreme leader” (“líder supremo”) pertence ao léxico da paródia autoritária, associado a cultos de personalidade e regimes totalitários. Alguém com o mínimo de inteligência compreende que o seu uso num contexto supostamente diplomático é intencionalmente grotesco. A sátira não está escondida; está exposta.

    A hipérbole prossegue quando o narrador afirma escrever “still energized by the sheer magnitude of your recent achievements” (“ainda energizado pela pura magnitude dos vossos recentes feitos”). A expressão “sheer magnitude” (“pura magnitude”) não acrescenta informação; acrescenta caricatura. Trata-se de uma inflação retórica deliberada, típica da bajulação vazia, que imita e distorce um certo estilo político reconhecível. A sátira opera aqui por excesso semântico.

    Mais adiante, o texto introduz um deslocamento conceptual que elimina qualquer leitura literal possível: as tarifas norte-americanas – usadas agora por Trump como “mísseis” políticos – são descritas como “a demand for excellence and loyalty” (“uma exigência de excelência e lealdade”). A transformação de políticas comerciais em testes de lealdade pessoal é absurda por definição. Não se trata de um erro factual; trata-se de ironia. A sátira denuncia, por exagero, a personalização extrema do poder e a confusão entre Estado, líder e ego.

    Publicação satírica considerada desinformação por Luís Montenegro e susceptível de apresentação de “queixa nas instâncias adequadas”.

    O ponto de ruptura definitivo surge quando o texto afirma: “we are willing to discuss a vision that would secure American sovereign access to our Azores islands” (“estamos dispostos a discutir uma visão que assegure acesso soberano americano às nossas ilhas dos Açores”). Aqui, a sátira assenta na impossibilidade constitucional absoluta. Não é uma proposta implausível — é uma proposta impossível. A violação explícita da soberania territorial funciona como mecanismo clássico de caricatura: levar uma lógica até ao seu extremo inaceitável para expor o seu absurdo.

    O encerramento — “let Portugal be the exception” (“que Portugal seja a excepção”) — cristaliza o gesto satírico: a fantasia da submissão voluntária apresentada como virtude estratégica. É uma ironia directa sobre a tentação de alinhamento servil, não uma mensagem política disfarçada.

    Perante este quadro linguístico, vermos Luís Montenegro classificar o texto como “desinformação” não é um equívoco inocente – é uma distorção conceptual. A desinformação visa enganar, induzir erro, produzir efeitos reais a partir de falsidades apresentadas como verdade. A sátira visa expor, ridicularizar e criticar através do exagero manifesto. Confundir ambas não protege o espaço público; empobrece-o. E empobrece o conceito que se tem sobre a inteligência de Luís Montenegro. E mais: envergonha pensar que o primeiro-ministro nos acha capazes de pensar que este texto satírico pretendia fazer passar-se por uma carta verdadeira.

    Comunicado do Gabinete do Primeiro-Ministro.

    E é neste ponto que a reacção de Luís Montenegro se torna politicamente reveladora. Um riso ou, vá lá, um desmentido claro e seco teria sido suficiente. Ora, mas não foi isso que sucedeu. A opção por um comunicado solene e pela possível apresentação de uma queixa-crime introduz um elemento novo e inquietante: a judicialização do humor político sob o rótulo elástico da desinformação.

    Mesmo que a queixa não tenha seguimento judicial, o efeito simbólico está produzido. A mensagem implícita é simples: a sátira dirigida ao poder pode ter custos. Trata-se de um efeito de intimidação difusa, agravado pela assimetria de poder entre um cidadão — ou utilizador anónimo — e o aparelho do Estado. Não é necessário condenar para condicionar; basta sinalizar.

    Mais grave ainda é o precedente que Luís Montenegro ensaia – e ensina. Hoje é uma paródia óbvia, fácil de defender. Amanhã poderá ser uma investigação incómoda, uma leitura crítica ou uma ironia menos explícita, igualmente rotulada como “desinformação” por contrariar a narrativa oficial. O mecanismo é o mesmo; apenas muda o grau de desconforto que provoca ao poder.

    Two happy men in a loving, joyful moment, sharing laughter on a sunny day.

    Existe, em todo o caso, uma ironia política incontornável. Um poder confiante distingue caricatura de mentira e segue em frente. Um poder inseguro amplifica o ridículo, legitima-o e transforma uma anedota digital num caso institucional. Ao reagir como reagiu, o primeiro-ministro não protegeu a sua autoridade; expôs a sua fragilidade.

    Combater a desinformação é uma necessidade real numa democracia saturada de ruído e manipulação – mas esse combate exige critério, proporcionalidade e inteligência política. Quando o Estado começa a reagir a expressões como “supreme leader” como se fossem informação factual, o problema já não está na sátira. Está na incapacidade do poder para lidar com o humor e a sátira sem recorrer ao excesso. Ou à normalidade usada geralmente por ditaduras com poderes totalitários. Será esse passo que Montenegro quer tomar?

  • ContraProva ou o rigor como contrapoder

    ContraProva ou o rigor como contrapoder


    ContraProva nasce hoje por uma razão simples e, ao mesmo tempo, exigente: o jornalismo que observa o quotidiano tem obrigação de analisar criticamente os media sem posições corporativistas, assumindo um espaço próprio, autónmo, rigoroso e sistemático.

    Por isso, o ContraProva não é um apêndice, não é um suplemento ocasional, mas um projecto editorial com método, critérios públicos e responsabilidade assumida. O ContraProva foi concebido como um jornal que analisa a imprensa – e não a espuma das redes sociais –, que verifica antes de comentar e que desmonta narrativas quando estas se afastam dos factos, dos números ou da honestidade intelectual. O ContraProva assume que a (re)credibilização do jornalismo como coluna fundamental das democracias passa por exigir mais do jornalismo.

    Vivemos num ecossistema mediático saturado de opinião instantânea, leituras apressadas e consensos fabricados – e também em encontrar nas ‘desvairadas’ redes sociais e na desinformação todos os males do mundo, talvez esquecendo que são externalidades das democracias, e que a simples ‘solução’ de aplicar censura nos aproxima mais das ditaduras do que de democracias maduras. As opiniões ‘desvairadas’ das redes sociais e a desinformação medram porque a imprensa tem falhado em muitas perspectivas.

    Assim, o ContraProva surge precisamente para introduzir fricção onde ela faz falta: na forma como a informação é construída, apresentada e consumida. Aqui não se avaliam intenções nem se disputam alinhamentos ideológicos; analisam-se práticas jornalísticas concretas, escolhas editoriais objectivas e o impacto que estas têm na percepção pública da realidade. O ContraProva não disputa audiências, disputa rigor.

    O funcionamento do ContraProva assentará, nesta fase, numa arquitectura editorial clara, organizada em secções com identidade própria e critérios públicos. O Crivo da Verdade constitui o núcleo central do projecto, dedicado à verificação rigorosa de notícias, dados e afirmações mediáticas, com base em grelhas objectivas e metodologia explícita. O Microscópio analisa linguagem, enquadramentos, títulos, escolhas visuais e subtis mecanismos de condicionamento da percepção do leitor.

    Apanhado na Rede observa as abordagens no espaço mediático. A Acta Diurna regista factos relevantes do dia mediático, criando memória e contexto. O Arquivo Vivo preserva e relaciona episódios passados, revelando padrões, reincidências e contradições ao longo do tempo.

    Aliança das Carteiras escrutina relações económicas, interesses financeiros e dependências estruturais no ecossistema dos media. As Alterações Mediáticas acompanham mudanças editoriais, estratégicas ou societárias no sector. Os Economistas do Diabo dissecam os erros persistentes do jornalismo sempre que se trata de conceitos e dados económicos e financeiros.

    Por fim, o Laus Proba distingue trabalhos que demonstram rigor informativo, clareza factual e honestidade intelectual, sem implicar adesão editorial às conclusões apresentadas. Todas as secções partilham um princípio comum: método explícito, critérios públicos e responsabilidade perante o leitor.

    Uma nota relevante: o ContraProva é um projecto jornalístico irmão do PÁGINA UM – não há forma, nem se quer esconder. Mas não é mais um PÁGINA UM – não será jamais o Página Dois. São projectos jornalísticos complementares e deliberadamente distintos. O PÁGINA UM continuará a ser um jornal de investigação, sustentado exclusivamente pelo apoio individual dos seus leitores — e mais frágil por isso —, focado na produção de informação original com documentos e dados próprios.

    ContraProva actuará num plano diferente: observa, analisa e escrutina o ecossistema mediático. Também por isso, tanto o PÁGINA UM como o ContraProva, possuem uma estrutura societária distinta, embora por mim controlados, adequada à sua função específica. A base empresarial dos dois projectos visa não a distribuição de lucos, mas a transparência de procedimentos legais, designadamente a divulgação de contas e cumprimentos de outras regras.

    A direcção editorial do ContraProva será assegurada por Frederico Duarte Carvalho, jornalista com mais de 30 anos de experiência, percurso sólido e independência reconhecida. Compete-lhe garantir coerência editorial, rigor metodológico e distância crítica. A minha função será sobretudo a de publisher: supervisão estratégica, garantia dos princípios fundadores e salvaguarda da independência editorial.

    Só depois de definidos estes princípios importa esclarecer o modelo de financiamento — não por ser central ao projecto, mas precisamente para que não paire qualquer ambiguidade. Desde a origem, o ContraProva foi pensado com uma separação clara entre financiamento, direcção editorial e método jornalístico. O apoio concedido por Miguel Milhão, a título estritamente individual, é integralmente público, transparente nos montantes, garantindo um pequeno orçamento mensal durante 24 meses.

    Tudo foi formalizado num acordo parassocial disponibilizado de forma voluntária em nome da transparência — e isso é único no espaço mediático nacional —, que consagra de forma explícita a blindagem editorial do ContraProva. Não há participações cruzadas, não há interferência na linha editorial, não há temas proibidos nem conclusões pré-determinadas. O financiamento é declarado; a independência, contratual e editorialmente, está assegurada.

    Este modelo é também, deliberadamente, um modelo de cidadania. Num tempo de radicalização do discurso público e de trincheiras ideológicas, a existência de uma ‘ponte cívica’ entre pessoas com posições diferentes — por vezes profundamente opostas — não deve ser vista como suspeita, mas como um sinal de maturidade democrática.

    A cooperação entre Miguel Milhão e eu demonstra ser possível comungar objectivos — uma melhoria na imprensa — sem exigir alinhamentos e sem diluir divergências, desde que seja para salvaguardar princípios fundamentais como a liberdade de expressão, o primado dos factos e a honestidade intelectual. Num espaço público cada vez mais fragmentado, este projecto afirma assim algo muito simples: o diálogo é possível quando existem regras claras e limites bem definidos.

    ContraProva nasce, portanto, com uma convicção clara: o jornalismo não se defende com slogans nem com fidelidades automáticasDefende-se com método, transparência e responsabilidade. E só fará sentido enquanto cumprir esse desígnio.

    Pedro Almeida Vieira