Categoria: Crónica

  • Porto 2.2

    Porto 2.2

    Ir a um jogo de futebol não é como estar numa guerra, mas esta adepta do Futebol Clube do Porto — uma leiga futebolística, importa fazer a ressalva — sentiu-se um pouco em território inimigo para assistir ao clássico deste domingo no Estádio da Luz. Ainda mais por ter ido ali pela primeira vez na vida, como infiltrada no meio de um mar ‘hostil’ de gente de vermelho, negro e branco.

    Estando em óbvia minoria, mostra-se prudente que uma portista se abstenha de evidenciar as suas cores futebolísticas — e sobretudo pronunciar o nome de outro clube que não o da casa, como quase fiz no elevador. Todo o cuidado é pouco quando se arrisca acicatar as hostes — ou as hostilidades —, cujos níveis de adrenalina estão nos píncaros, entre cânticos, ‘gritos de guerra’ e pirotecnia, mesmo antes de soar o apito do árbitro.

    Mesmo no conforto (quase protegido) da Varanda da Luz, depressa percebi que me encontrava ladeada por profissionais que, sem qualquer dúvida, torciam pelos encarnados: à minha direita, claro, o excelso director do PÁGINA UM, Pedro Almeida Vieira; e à minha esquerda, dois cavalheiros que pareciam sofrer tanto com o clássico como qualquer outro benfiquista naquele estádio.

    Um deles, bem mais contido, tratava-se de Nuno Luz, jornalista desportivo da SIC. O outro, que não consegui identificar, não se coibia de expressar a emoção: fervoroso, exaltava-se com alguns lances e ia lançando injúrias ao guarda-redes do Benfica.

    Antes do arranque da partida, houve um momento solene, ainda assim insuficiente para conter os ânimos: a homenagem a António Lobo Antunes, benfiquista assumido, que nos deixou no passado dia 5 de Março. Foi um minuto de silêncio que nem sequer foi respeitado. No dia anterior, o hino do Benfica tocara nas suas cerimónias fúnebres à saída do Mosteiro do Jerónimos, cumprindo-se assim aquela que era uma vontade do escritor.

    Esta minha ida à Luz teve também uma ironia amarga: José Mourinho é um dos responsáveis pelo meu “portismo”, tendo marcado a minha infância (nasci em 1996) quando liderou o FC Porto em tempos de glória, no início dos anos 2000.

    Dessa altura, ficaram-me sobretudo as memórias do meu pai a celebrar em euforia os golos do Porto, berrando a plenos pulmões a ponto de me deixar em sobressalto. Ficar-me-ão sempre gravadas na memória algumas das ‘estrelas’ daquele plantel. Jorge Costa. Maniche e sobretudo um dos meus eternos favoritos: o único e inigualável Vítor Baía.

    Hoje, sou incapaz de identificar um único jogador das ‘nossas’ equipas dos últimos anos. Mas, entretanto apurei que o responsável pelo remate que nos valeu o segundo golo deste domingo é um jovem polaco de apenas 17 anos, Oskar Pietuszewski. E fez história, tornando-se no jogador do FC Porto mais jovem de sempre a marcar ao Benfica, batendo dois recordes registados nos longínquos anos de 1933 e 1962. Grande Oskar.

    Mas, voltando ao Mourinho: cheguei a assistir ao meu primeiro jogo no Estádio do Dragão quando ainda treinava os dragões. Embora não guarde muitas recordações da experiência, o que se atribui à tenra idade. Depois, regressei na adolescência, aos 17 anos. A mesma idade do Oskar(!).

    Agora, a pisar novamente um estádio de futebol depois de um hiato de mais de uma década, eis que o meu ‘reencontro’ com Mourinho se dá na Luz — mas com o nosso antigo treinador a liderar a equipa adversária. Alguém que, durante anos, e num período tão marcante, era um “dos nossos”, surge agora a lutar pela nossa derrota. Enfim, uma reviravolta que aviva a nostalgia por tempos que jamais se irão repetir.

    Pelo menos, a sensação de estranheza foi compensada pelo facto de os dragões ocuparem o primeiro lugar — mesmo sem o saudoso “Special One”, que este domingo mostrou mais uma vez ter sangue na guelra, acabando expulso no final do jogo, depois de um aceso bate-boca entre elementos das duas equipas.

    Sem qualificações nem conhecimentos que me permitam analisar o jogo do ponto de vista técnico — e sem qualquer pretensão de o fazer —, o meu resumo deste clássico é simples e esgota-se em poucas palavras: muitas ‘caneladas’, jogadores constantemente atirados ao chão, muito ruído e fumarada (das tochas), interrupções frequentes e protestos contra o árbitro.

    E também um simpático farnel do qual, porém, só aproveitei a água. E duas maçãs, uma delas trocada com o director do PÁGINA UM por uma sandes e um chocolate.

    Quanto ao resultado, não se prestou a grandes alegrias nem a grandes tristezas. Depois de uma primeira parte em que alcançámos uma vantagem confortável, foi com alguma frustração que vi esse cenário alterar-se aos 69 minutos, até que os encarnados conseguissem por fim o empate. E a possibilidade de derrota só parecia ganhar força à medida que os segundos avançavam. Felizmente, não saí de lá com esse amargo de boca.

    E, quiçá, talvez também tenha tido a sorte de ser poupada a abandonar um Estádio da Luz dominado pela fúria de uma derrota benfiquista. Enfrentar a multidão à saída do recinto é intenso — e mais vale uma multidão resignada com um empate do que irada por perder dentro da sua própria ‘casa’.

    De resto, é claro que mais poderia ser dito da experiência de uma portista no campo do ‘arqui-inimigo’. Contudo, da mesma forma que me mantive discreta no território da equipa rival, o mesmo recato é aconselhável no PÁGINA UM, pelo que me escuso a tecer mais comentários sobre o clássico. É que a distância do digital pode parecer uma garantia de segurança para troçar do Benfica — mas eu prefiro não arriscar.

  • Lobo Antunes nunca foi atirado ao chão por Saramago

    Lobo Antunes nunca foi atirado ao chão por Saramago


    Agora que Portugal se despede de António Lobo Antunes, falecido no dia 5 de Março, fomos aos arquivos recordar e, sobretudo, esclarecer um episódio registado na Imprensa portuguesa e que provocou um equívoco sobre a relação entre Lobo Antunes e José Saramago, o prémio Nobel da Literatura de 1998.

    Estamos a falar de uma entrevista a António Lobo Antunes, à revista Ler, na edição de Maio de 2008, assinada por Carlos Vaz Marques. Nessa conversa, o jornalista perguntou a Lobo Antunes como era a sua relação com José Saramago, ao que o escritor respondeu: “Eu não tenho nada a ver com o que ele escreve. Nada. Conheço muito mal a obra. Não tem nada que ver com a pessoa. O homem é da idade do meu pai. Não tem nada que ver com ele. Espanta-me sempre esse matrimónio. Isso, para mim, não faz qualquer sentido”.

    Revista Ler, de Maio de 2008, com a entrevista de Carlos Vaz Marques a António Lobo Antunes, onde o escritor afirma que José Saramago atirou um livro dele ao chão e que lhe mostraram uma fotografia desse momento.

    Carlos Vaz Marques insistiu no tema e procurou esclarecer se existia, ou não, uma “alegada rivalidade entre os dois”, ao que Lobo Antunes respondeu, de forma taxativa: “Não. Eu não sinto nenhuma”, mas acrescentou: “Mostraram-me uma vez uma fotografia em que o homem atirava ao chão um livro meu. Deu-me vontade de rir. Mas o homem nem sequer me é antipático. Eu não o conheço”.

    Era uma acusação séria: José Saramago, prémio Nobel da Literatura, era acusado de ter atirado ao chão um livro de um outro escritor português que foi sempre considerado igualmente merecedor da mesma distinção e reconhecimento internacional. E isso foi dito pelo próprio autor visado no episódio.

    Ora, Carlos Vaz Marques foi depois entrevistar José Saramago, para o número do mês seguinte da revista Ler, e procurou esclarecer o episódio relatado por Lobo Antunes. Começou então por perguntar ao prémio Nobel de 1998 se, ao contrário de Lobo Antunes que dizia não ler obras de Saramago, ele lia os romances do outro escritor.

    Na edição do mês seguinte da revista Ler, Carlos Vaz Marques confrontou José Saramago com a acusação de Lobo Antunes.

    Saramago disse que “ao princípio, sim”, até que os lia e, depois de um pausa, afirmou: “Pois, para quem nunca leu um romance meu, ele desdobrou-se em opiniões a meu respeito, como escritor. Tem todo o direito a não ter lido e a continuar a não ler, até ao fim da vida, uma só linha minha. Mas, em princípio, isso retira-lhe o direito de julgar”.

    Saramago não se ficou por aqui na apreciação e rematou: “E há uma outra coisa, em toda esta história lamentável: eu nunca me comportei, em relação ao Lobo Antunes, como ele em relação a mim”. Foi então, na sequência desta resposta, que Carlos Vaz Marques lembrou a acusação de Lobo Antunes feita na entrevista da edição anterior da revista Ler: “Ele diz, nessa mesma entrevista, que há uma fotografia do José Saramago atirando um livro dele ao chão”.

    O Nobel português exprimiu toda a sua indignação, que ficou registada na entrevista publicada no número 70 da Ler: “Que disparate é esse? Que disparate é esse, pá?! Ele não precisa de inventar coisas para reforçar a sua animadversão em relação a mim. Não invente! Quer dizer, você que me conhece razoavelmente, diga-me: é capaz de imaginar-me a atirar ao chão um livro de um suposto rival ou competidor, fosse ele português, espanhol, italiano, uruguaio ou o que quer que fosse? Isso não é infantil? A raiva expressa dessa maneira?”

    Saramago indignou-se com a sugestão de que teria atirado ao chão um livro de Lobo Antunes. O Nobel da Literatura de 1998 afirmou que era um “disparate” e desafiou que lhe mostrassem a foto que diziam existir. Ficou a dúvida sobre quem tinha razão.

    Perante uma negação enfática de Saramago, Carlos Vaz Marques ainda insistiu e lembrou o detalhe da fotografia: “Segundo António Lobo Antunes isso foi fotografado”, afirmou. Ao que o escritor, acusado de ter atirado o livro ao chão, perguntou ao jornalista: “E onde é que está esse documento que ninguém viu? Não há nenhum documento fotográfico porque a situação que o documento fotográfico supostamente ilustra não existiu”.

    Carlos Vaz Marques calou-se. Não tinha mais argumentos, não vira nenhuma fotografia e sua pergunta baseou-se apenas na declaração de Lobo Antunes e, depois, numa confrontação com Saramago, sem provas daquilo que Lobo Antunes denunciara.

    E a história ficou assim, no ‘diz que disse’. Saramago faleceu dois anos depois, a 18 de Junho de 2020, com a suspeita de que um dos escritores estaria a mentir em relação ao outro. Agora, foi Lobo Antunes que inventou a história? Ele viu mesmo uma foto onde Saramago atirava um livro seu ao chão? Ou será que Saramago realmente atirou um livro de Lobo Antunes ao chão, mas como sabia que não havia nenhuma foto, podia negar que o fizera? Embora Carlos Vaz Marques nunca o tivesse esclarecido, a história tem uma explicação.

    A 24 de Dezembro de 1998, o semanário Tal&Qual entregou prendas de Natal a várias personalidades públicas. José Saramago, que acabara de receber o Nobel da Literatura, recebeu um exemplar do “Livro de Crónicas” de António Lobo Antunes.

    Na origem deste episódio está um artigo publicado no semanário Tal&Qual, no dia 24 de Dezembro de 1998, pouco depois de José Saramago ter recebido o prémio Nobel das mãos do Rei da Suécia. A reportagem contou como um livro de Lobo Antunes foi “atirado ao chão” por Saramago, num momento documentado com fotos.

    O semanário Tal & Qual, conhecido pelo seu estilo irreverente e por reportagens com algum humor, preparou em 1998 uma edição especial de Natal com uma ideia simples: entregar presentes simbólicos e inesperados a várias figuras públicas. Algumas dessas ofertas tinham um tom claramente satírico — como discursos de Mário Soares para Jorge Sampaio ou uma fotografia de Pinto da Costa para Vale e Azevedo —, num espírito que misturava reportagem e brincadeira.

    O acaso acabou por criar uma oportunidade particular. José Saramago, encontrava-se hospedado no Hotel Altis, perto da redacção. O jornalista (por acaso, autor destas linhas), vestiu-se de Pai Natal e foi apresentar-lhe um presente inesperado: o embrulho continha um exemplar do primeiro volume do “Livro de Crónicas” de António Lobo Antunes, recém-lançado e comprado, poucas horas antes, na livraria Bucholz.

    José Saramago recebe a prenda das mãos do jornalista do Tal&Qual, vestido de Pai Natal, no átrio do Hotel Altis, em Lisboa, poucos dias após ter recebido o Nobel da Literatura das mãos do Rei da Suécia. Foto: José Carlos Pratas/Tal&Qual

    A cena tinha algo de quase teatral. O escritor parecia um menino pequenino, com olhos a brilhar, quando abriu o presente com curiosidade. Durante alguns instantes, tudo parecia decorrer com naturalidade. Mas quando percebeu qual era o livro e quem era o autor, a reacção mudou. Saramago devolveu o volume, deixando claro que não queria aceitar aquela oferta, que interpretou como uma provocação.

    Não o atirou ao chão. A cena da devolução do livro foi captada pela lente atenta do fotojornalista José Carlos Pratas. Vê-se claramente que o Nobel simplesmente recusou o livro e devolveu-o ao jornalista do Tal&Qual.

    Acontece que este episódio, quando foi depois relatado no artigo do semanário teve um título que seria hoje considerado como ‘inaceitável’ num ‘Crivo da Verdade’ do ContraProva: “Atirado ao chão”.

    O título do artigo, “Atirado ao chão” era um trocadilho com a obra de Saramago, de 1980, “Levantado do Chão”. Como as fotos documentam, Saramago não atirou o livro ao chão. Mas a metáfora criou um erro na mente de Lobo Antunes.

    A escolha do título induzia o leitor ao engano, pois dava a entender que José Saramago atirara mesmo para o chão um livro de António Lobo Antunes. Só que isso não batia certo com a sequência registada pelas fotos que ilustravam o texto.

    As três imagens do texto com o título “Atirado ao chão”, mostrava toda a sequência do sucedido: a entrega do livro embrulhado, seguido do momento em que Saramago abre o presente e, finalmente, a devolução da prenda ao jornalista vestido de Pai Natal. O “Livro de Crónicas” de Lobo Antunes nunca foi atirado ao chão, embora o texto do Tal&Qual não o explicitasse.

    O título, contudo, para quem conhece a obra de Saramago, era uma alusão ao seu livro de 1980, “Levantado do Chão”. É uma obra sobre a qual, em entrevista ao jornal Tempo, em Novembro de 1981, Saramago afirmou: “O livro chama-se ‘Levantado do Chão’ porque, no fundo, levantam-se os homens do chão, levantam-se as searas, é no chão que semeamos, é no chão que nascem as árvores e até do chão se pode levantar um livro”.

    Momento em que José Saramago compreende que a prenda era o “Livro de Crónicas” de António Lobo Antunes. Foto: José Carlos Pratas/Tal&Qual.

    Contudo, a brincadeira de Natal do Tal&Qual não foi tão evidente aos olhos de Lobo Antunes, ficando-lhe na memória apenas o que estava no título, embora as fotos de José Carlos Pratas contrariassem a ideia de que o livro fora atirado de forma física para o chão. Na realidade, era uma metáfora, numa alusão à obra “Levantado do Chão”, acentuando a recusa de Saramago em aceitar um livro que, segundo ele, também “se levantam do chão”.

    A história do Tal&Qual aconteceu em 1998, dez anos antes das entrevistas de Carlos Vaz Marques na revista Ler. É natural que, passado uma década entre os dois momentos, as memórias de ambos os escritores se tenham confundido. Na realidade, nenhum deles estava a mentir. Para Lobo Antunes, Saramago atirara mesmo um livro dele ao chão. E havia fotos.

    Saramago, aparentemente, não se recordava de, um dia, ter recusado receber um livro de Lobo Antunes das mãos do Pai Natal. Talvez, caso se lembrasse do episódio, pudesse ter explicado a Carlos Vaz Marques que até poderia ter reagido de uma forma mais ‘desportiva’ à provocação do Tal&Qual. Afinal, acabara de receber o prémio Nobel e preparava-se então para uma visita a Cuba. Poderia ter optado por agradecer e, longe da vista, atirar o livro ao chão. Sem fotógrafos por perto.

    José Saramago devolve o livro de António Lobo Antunes ao jornalista do Tal&Qual – que, ainda hoje o possui, lido e relido. O Nobel da Literatura não o atirou ao chão, mas recusou-se a ficar com ele. Foto: José Carlos Pratas/Tal&Qual.

    Fica aqui o esclarecimento necessário em jeito de homenagem a Lobo Antunes: Saramago nunca o deitou o chão. E, do chão, Lobo Antunes levantou muitos mais livros. O equívoco que Carlos Vaz Marques nunca esclareceu, fica agora explicado.

    Por fim, o autor destas linhas, ainda hoje, guarda em casa o “Livro de Crónicas” de Lobo Antunes que Saramago lhe ofereceu no Natal de 1998, ano do Nobel. Está lido e relido, com uma memória de ‘Arquivo Vivo’. Para que nunca se apague.

  • Irão: os Açores estão a salvo dos mísseis, mas o perigo do terrorismo é agora mais real

    Irão: os Açores estão a salvo dos mísseis, mas o perigo do terrorismo é agora mais real


    Agora que Portugal se despede de António Lobo Antunes, falecido no dia 5 de Março, fomos aos arquivos recordar e, sobretudo, esclarecer um episódio registado na Imprensa portuguesa e que provocou um equívoco sobre a relação entre Lobo Antunes e José Saramago, o prémio Nobel da Literatura de 1998.

    Estamos a falar de uma entrevista a António Lobo Antunes, à revista Ler, na edição de Maio de 2008, assinada por Carlos Vaz Marques. Nessa conversa, o jornalista perguntou a Lobo Antunes como era a sua relação com José Saramago, ao que o escritor respondeu: “Eu não tenho nada a ver com o que ele escreve. Nada. Conheço muito mal a obra. Não tem nada que ver com a pessoa. O homem é da idade do meu pai. Não tem nada que ver com ele. Espanta-me sempre esse matrimónio. Isso, para mim, não faz qualquer sentido“.

    Revista Ler, de Maio de 2008, com a entrevista de Carlos Vaz Marques a António Lobo Antunes, onde o escritor afirma que José Saramago atirou um livro dele ao chão e que lhe mostraram uma fotografia desse momento.

    Carlos Vaz Marques insistiu no tema e procurou esclarecer se existia, ou não, uma “alegada rivalidade entre os dois”, ao que Lobo Antunes respondeu, de forma taxativa: “Não. Eu não sinto nenhuma”, mas acrescentou: “Mostraram-me uma vez uma fotografia em que o homem atirava ao chão um livro meu. Deu-me vontade de rir. Mas o homem nem sequer me é antipático. Eu não o conheço”.

    Era uma acusação séria: José Saramago, prémio Nobel da Literatura, era acusado de ter atirado ao chão um livro de um outro escritor português que foi sempre considerado igualmente merecedor da mesma distinção e reconhecimento internacional. E isso foi dito pelo próprio autor visado no episódio.

    Ora, Carlos Vaz Marques foi depois entrevistar José Saramago, para o número do mês seguinte da revista Ler, e procurou esclarecer o episódio relatado por Lobo Antunes. Começou então por perguntar ao prémio Nobel de 1998 se, ao contrário de Lobo Antunes que dizia não ler obras de Saramago, ele lia os romances do outro escritor.

    Na edição do mês seguinte da revista Ler, Carlos Vaz Marques confrontou José Saramago com a acusação de Lobo Antunes.

    Saramago disse que “ao princípio, sim“, até que os lia e, depois de um pausa, afirmou: “Pois, para quem nunca leu um romance meu, ele desdobrou-se em opiniões a meu respeito, como escritor. Tem todo o direito a não ter lido e a continuar a não ler, até ao fim da vida, uma só linha minha. Mas, em princípio, isso retira-lhe o direito de julgar“.

    Saramago não se ficou por aqui na apreciação e rematou: “E há uma outra coisa, em toda esta história lamentável: eu nunca me comportei, em relação ao Lobo Antunes, como ele em relação a mim”. Foi então, na sequência desta resposta, que Carlos Vaz Marques lembrou a acusação de Lobo Antunes feita na entrevista da edição anterior da revista Ler: “Ele diz, nessa mesma entrevista, que há uma fotografia do José Saramago atirando um livro dele ao chão“.

    O Nobel português exprimiu toda a sua indignação, que ficou registada na entrevista publicada no número 70 da Ler: “Que disparate é esse? Que disparate é esse, pá?! Ele não precisa de inventar coisas para reforçar a sua animadversão em relação a mim. Não invente! Quer dizer, você que me conhece razoavelmente, diga-me: é capaz de imaginar-me a atirar ao chão um livro de um suposto rival ou competidor, fosse ele português, espanhol, italiano, uruguaio ou o que quer que fosse? Isso não é infantil? A raiva expressa dessa maneira?”

    Saramago indignou-se com a sugestão de que teria atirado ao chão um livro de Lobo Antunes. O Nobel da Literatura de 1998 afirmou que era um “disparate” e desafiou que lhe mostrassem a foto que diziam existir. Ficou a dúvida sobre quem tinha razão.

    Perante uma negação enfática de Saramago, Carlos Vaz Marques ainda insistiu e lembrou o detalhe da fotografia: “Segundo António Lobo Antunes isso foi fotografado“, afirmou. Ao que o escritor, acusado de ter atirado o livro ao chão, perguntou ao jornalista: “E onde é que está esse documento que ninguém viu? Não há nenhum documento fotográfico porque a situação que o documento fotográfico supostamente ilustra não existiu“.

    Carlos Vaz Marques calou-se. Não tinha mais argumentos, não vira nenhuma fotografia e sua pergunta baseou-se apenas na declaração de Lobo Antunes e, depois, numa confrontação com Saramago, sem provas daquilo que Lobo Antunes denunciara.

    E a história ficou assim, no ‘diz que disse‘. Saramago faleceu dois anos depois, a 18 de Junho de 2020, com a suspeita de que um dos escritores estaria a mentir em relação ao outro. Agora, foi Lobo Antunes que inventou a história? Ele viu mesmo uma foto onde Saramago atirava um livro seu ao chão? Ou será que Saramago realmente atirou um livro de Lobo Antunes ao chão, mas como sabia que não havia nenhuma foto, podia negar que o fizera? Embora Carlos Vaz Marques nunca o tivesse esclarecido, a história tem uma explicação.

    a 24 de Dezembro de 1998, o semanário Tal&Qual entregou prendas de Natal a várias personalidades públicas. José Saramago, que acabara de receber o Nobel da Literatura, recebeu um exemplar do “Livro de Crónicas” de António Lobo Antunes.

    Na origem deste episódio está um artigo publicado no semanário Tal&Qual, no dia 24 de Dezembro de 1998, pouco depois de José Saramago ter recebido o prémio Nobel das mãos do Rei da Suécia. A reportagem contou como um livro de Lobo Antunes foi “atirado ao chão” por Saramago, num momento documentado com fotos.

    O semanário Tal & Qual, conhecido pelo seu estilo irreverente e por reportagens com algum humor, preparou em 1998 uma edição especial de Natal com uma ideia simples: entregar presentes simbólicos e inesperados a várias figuras públicas. Algumas dessas ofertas tinham um tom claramente satírico — como discursos de Mário Soares para Jorge Sampaio ou uma fotografia de Pinto da Costa para Vale e Azevedo —, num espírito que misturava reportagem e brincadeira.

    O acaso acabou por criar uma oportunidade particular. José Saramago, encontrava-se hospedado no Hotel Altis, perto da redacção. O jornalista (por acaso, autor destas linhas), vestiu-se de Pai Natal e foi apresentar-lhe um presente inesperado: o embrulho continha um exemplar do primeiro volume do “Livro de Crónicas” de António Lobo Antunes, recém-lançado e comprado, poucas horas antes, na livraria Bucholz.

    José Saramago recebe a prenda das mãos do jornalista do Tal&Qual, vestido de Pai Natal, no átrio do Hotel Altis, em Lisboa, poucos dias após ter recebido o Nobel da Literatura das mãos do Rei da Suécia. Foto: José Carlos Pratas/Tal&Qual

    A cena tinha algo de quase teatral. O escritor parecia um menino pequenino, com olhos a brilhar, quando abriu o presente com curiosidade. Durante alguns instantes, tudo parecia decorrer com naturalidade. Mas quando percebeu qual era o livro e quem era o autor, a reacção mudou. Saramago devolveu o volume, deixando claro que não queria aceitar aquela oferta, que interpretou como uma provocação.

    Não o atirou ao chão. A cena da devolução do livro foi captada pela lente atenta do fotojornalista José Carlos Pratas. Vê-se claramente que o Nobel simplesmente recusou o livro e devolveu-o ao jornalista do Tal&Qual.

    Acontece que este episódio, quando foi depois relatado no artigo do semanário teve um título que seria hoje considerado como ‘inaceitável’ num ‘Crivo da Verdade’ do ContraProva: “Atirado ao chão“.

    O título do artigo, “Atirado ao chão” era um trocadilho com a obra de Saramago, de 1980, “Levantado do Chão”. Como as fotos documentam, Saramago não atirou o livro ao chão. Mas a metáfora criou um erro na mente de Lobo Antunes.

    A escolha do título induzia o leitor ao engano, pois dava a entender que José Saramago atirara mesmo para o chão um livro de António Lobo Antunes. Só que isso não batia certo com a sequência registada pelas fotos que ilustravam o texto.

    As três imagens do texto com o título “Atirado ao chão”, mostrava toda a sequência do sucedido: a entrega do livro embrulhado, seguido do momento em que Saramago abre o presente e, finalmente, a devolução da prenda ao jornalista vestido de Pai Natal. O “Livro de Crónicas” de Lobo Antunes nunca foi atirado ao chão, embora o texto do Tal&Qual não o explicitasse.

    O título, contudo, para quem conhece a obra de Saramago, era uma alusão ao seu livro de 1980, “Levantado do Chão“. É uma obra sobre a qual, em entrevista ao jornal Tempo, em Novembro de 1981, Saramago afirmou: “O livro chama-se ‘Levantado do Chão’ porque, no fundo, levantam-se os homens do chão, levantam-se as searas, é no chão que semeamos, é no chão que nascem as árvores e até do chão se pode levantar um livro“.

    Momento em que José Saramago compreende que a prenda era o “Livro de Crónicas” de António Lobo Antunes. Foto: José Carlos Pratas/Tal&Qual.

    Contudo, a brincadeira de Natal do Tal&Qual não foi tão evidente aos olhos de Lobo Antunes, ficando-lhe na memória apenas o que estava no título, embora as fotos de José Carlos Pratas contrariassem a ideia de que o livro fora atirado de forma física para o chão. Na realidade, era uma metáfora, numa alusão à obra “Levantado do Chão”, acentuando a recusa de Saramago em aceitar um livro que, segundo ele, também “se levantam do chão”.

    A história do Tal&Qual aconteceu em 1998, dez anos antes das entrevistas de Carlos Vaz Marques na revista Ler. É natural que, passado uma década entre os dois momentos, as memórias de ambos os escritores se tenham confundido. Na realidade, nenhum deles estava a mentir. Para Lobo Antunes, Saramago atirara mesmo um livro dele ao chão. E havia fotos.

    Saramago, aparentemente, não se recordava de, um dia, ter recusado receber um livro de Lobo Antunes das mãos do Pai Natal. Talvez, caso se lembrasse do episódio, pudesse ter explicado a Carlos Vaz Marques que até poderia ter reagido de uma forma mais ‘desportiva‘ à provocação do Tal&Qual. Afinal, acabara de receber o prémio Nobel e preparava-se então para uma visita a Cuba. Poderia ter optado por agradecer e, longe da vista, atirar o livro ao chão. Sem fotógrafos por perto.

    José Saramago devolve o livro de António Lobo Antunes ao jornalista do Tal&Qual – que, ainda hoje o possui, lido e relido. O Nobel da Literatura não o atirou ao chão, mas recusou-se a ficar com ele. Foto: José Carlos Pratas/Tal&Qual.

    Fica aqui o esclarecimento necessário em jeito de homenagem a Lobo Antunes: Saramago nunca o deitou o chão. E, do chão, Lobo Antunes levantou muitos mais livros. O equívoco que Carlos Vaz Marques nunca esclareceu, fica agora explicado.

    Por fim, o autor destas linhas, ainda hoje, guarda em casa o “Livro de Crónicas” de Lobo Antunes que Saramago lhe ofereceu no Natal de 1998, ano do Nobel. Está lido e relido, com uma memória de ‘Arquivo Vivo’. Para que nunca se apague.

  • Entre ossos e o retrato de D. João III

    Entre ossos e o retrato de D. João III

    Visitar o Museo Lázaro Galdiano é uma experiência quase íntima. Não tem a imponência coreografada do Museo del Prado, nem a pulsação contemporânea do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, nem sequer o cosmopolitismo coleccionista do Museo Nacional Thyssen-Bornemisza.

    Isto é outra coisa: é o museu de um homem – de um homem com dinheiro, gosto e uma deliciosa obsessão. E, sobretudo, com a convicção — hoje quase subversiva — de que o prazer privado podia converter-se em património público.

    José Lázaro, nascido em Navarra em 1862 e falecido em Madrid em finais de 1947, não foi um conquistador nem um saqueador imperial – foi ‘apenas’ um comprador compulsivo com erudição. Durante a vida, entre o jornalismo e sobretudo na edição (fundou a La España Moderna), acumulou arte para si; depois da morte, legou-a aos outros. Há aqui uma ética curiosa: o suposto egoísmo que desemboca em generosidade pública.

    Foi ali, numa das salas silenciosas da entrada, que me deparei com o retrato mais conhecido de D. João III, pintado pelo neerlandês Anthonis Mor van Dashorst, que os espanhóis baptizam de Antonio Moro, tal como chamam El Bosco a Hieronymus Bosch. Mas vamos ao retrato do rei português: severo, de sobriedade quase protestante, que cristaliza o auge do império, que se perderia em Alcácer Quibir com o seu neto Sebastião.

    E dei por mim a pensar na viagem daquele quadro ao longo dos séculos. D. João III era pai de D. Maria Manuela e avô de D. Sebastião; a sua linhagem cruzava-se directamente com a de Filipe II de Espanha — que se tornou depois Filipe I de Portugal durante a dinastia filipina.

    Museo Lázaro Galdiano, Madrid. À esquerda, retábulo gótico representando a Crucificação, exemplo da pintura religiosa tardomedieval marcada pelo simbolismo e pela riqueza ornamental. À direita, retrato de João III de Portugal, atribuído ao pintor neerlandês Anthonis Mor van Dashorst, imagem austera do monarca no período de apogeu do império português.

    Assim, quando as coroas se uniram, não viajaram apenas exércitos e tratados: viajaram bibliotecas, manuscritos, pinturas, relicários, mapas e segredos de Estado. Por exemplo, o original da Idade do Mundo, de Francisco de Holanda, permanece no Real Monasterio de San Lorenzo de El Escorial – perdi uma oportunidade de pedir com antecedência para o ver – enfim, fica para a próxima.

    Muitos destes objectos portugueses ficaram em Espanha depois da restauração da independência em 1640. Foram roubados? Transferidos? Herdados? Apropriados? A História raramente é um acto notarial.

    E é aqui que começa a parte desconfortável — e, permitam-me, ligeiramente humorística.

    Museo Lázaro Galdiano, Madrid. Secretária de luxo do século XVIII, ricamente decorada com bronze dourado e motivos rococó, testemunhando o refinamento artístico e o gosto coleccionista das elites europeias que fizeram do mobiliário também uma forma de arte.

    Vivemos numa época que parece exigir sempre que o passado passe recibo. Há uma tendência para transformar cada acontecimento histórico numa factura moral com juros acumulados. Conquistaram? Paguem. Exploraram? Devolvam. Transportaram? Restituam. Morreram pessoas? Compensem descendentes até à décima quinta geração.

    Se fôssemos coerentes com essa lógica – que muitos agora apregoam –, os países teriam de criar um Ministério das Catástrofes Retroactivas. Porque a História humana é, em larga medida, uma sucessão de guerras, apropriações, alianças dinásticas, casamentos estratégicos e pilhagens mais ou menos sofisticadas.

    Curiosamente, no mesmo dia em que pensei nisto, visitei também o Museo Nacional de Ciencias Naturales. Lá, as vitrinas contam outra narrativa de “injustiças”. Durante centenas de milhões de anos, espécies foram dizimadas por impactos de asteróides, erupções vulcânicas e alterações climáticas abruptas à escala geológica – muito mais agressivas do que as emissões de dióxido de carbono no pós-Revolução Industrial.

    Museo Nacional de Ciencias Naturales, Madrid. Vitrina dedicada à evolução dos vertebrados, onde esqueletos de mamíferos, répteis e aves ilustram as transformações anatómicas ao longo de milhões de anos, revelando as adaptações que permitiram a conquista de diferentes ambientes terrestres e aquáticos.

    O Permiano, há qualquer coisa como 252 milhões de anos, exterminou quase tudo. O fim do Cretácico, há cerca de 66 milhões de anos, eliminou os dinossauros não-avianos. Se houvesse um tribunal interespécies, os mamíferos seriam acusados de oportunismo ecológico.

    E, com isto, a verdade é simples e brutal: o Homo sapiens sapiens só está aqui porque outras formas de vida desapareceram. Não por mérito moral nem sequer intelectual, mas por contingência histórica. A nossa existência é filha de extinções em massa.

    Ora, se aceitarmos que a evolução biológica é feita de rupturas, acasos e catástrofes, porque exigimos à evolução da História humana uma pureza que nunca teve? A União Ibérica foi uma imposição política; também foi um facto histórico – daí resultaram perdas e integrações, deslocações e permanências. A pintura de D. João III em Madrid conta essa história melhor do que contaria numa parede lisboeta rodeada de indignação retrospectiva.

    Museo Nacional de Ciencias Naturales, Madrid. À entrada da galeria principal, um elefante africano taxidermizado domina o espaço expositivo, rodeado por esqueletos de cetáceos e vitrinas zoológicas. Noutra vitrina, um capuchinho-de-cabeça-dura (Cebus apella), primata amazónico da família Cebidae, recorda a extraordinária diversidade evolutiva dos mamíferos do Novo Mundo.

    Isto significa que nunca se deve devolver património? Não. Há casos de saque recente, de violência documentada e de espoliação inequívoca. Esses são discutíveis com base jurídica clara. Porém, outra coisa é pretender reescrever séculos como se fossem um erro administrativo.

    Existe uma tentação contemporânea de moralizar o passado para purificar o presente. Como se nós, iluminados pela tecnologia do Wi-Fi e pela ética das redes sociais, estivéssemos acima das contingências históricas. Nunca estaremos — somos apenas o capítulo mais recente.

    E talvez seja esse o ensinamento silencioso entre os museus de Ciências Naturais e o de Lázaro: a vida, como a arte, viaja; as coroas caem, as dinastias fundem-se, os impérios desmoronam-se e os coleccionadores morrem. Ficam os objectos… e as histórias que os objectos contam.

    Francisco de Goya – cenas de bruxaria (c. 1797–1798), duas pinturas da série sobre superstição realizadas para os duques de Osuna, hoje no Museo Lázaro Galdiano, em Madrid, onde Goya explora com ironia e inquietação o imaginário popular da feitiçaria.

    O retrato de D. João III, em Madrid, não é assim uma ferida aberta – é um testemunho. Recorda-nos que a História é feita de complexidade, não de pureza. Tal como as extinções que abriram caminho aos mamíferos, também as rupturas políticas abriram caminhos culturais inesperados.

    Se quisermos um mundo sem violência passada, teremos de inventar outro planeta — talvez um onde o asteróide tenha pedido desculpa aos dinossauros antes de cair. Até lá, resta-nos fazer o que a civilização faz de melhor: preservar, estudar e contextualizar — e resistir à tentação de julgar séculos com a arrogância de quem acredita que a sua própria época não será, um dia, objecto de igual perplexidade.

  • Dos erros e das glórias mesmo sem vitórias

    Dos erros e das glórias mesmo sem vitórias

    Não são as grandes derrotas que nos denunciam. Essas surgem com aparato, explicações e, muitas vezes, desculpas. Aquilo que verdadeiramente nos expõe são as pequenas vergonhas: aquelas que não dão direito a narrativa épica, que não pedem absolvição e que, de forma lamentável, nos acompanham em silêncio, como uma má decisão tomada com excesso de confiança.

    Estou em Madrid e já tenho um bom ramalhete de pequenas vergonhas. E a primeira começou, como tantas outras na vida, com a convicção errada de que “isto depois resolve-se” — que, na verdade, significa que se resolve sempre mal.

    A viagem nocturna até à capital espanhola, decidida com a leve irresponsabilidade de quem acha que o corpo aguenta tudo e a logística se improvisa, terminou com a solução mais óbvia e menos digna: pernoitar em Barajas. E nem foi no sentido romântico da palavra — não houve luar, nem bancos de madeira à Camus — foi num hotel funcional, desses que existem apenas para que o viajante não morra enregelado antes do pequeno-almoço.

    Portanto, o primeiro embaraço digno de registo surgiu logo no metro à chegada. Convencido de que tudo o que diga “Barajas” acaba inevitavelmente em Barajas, como em Roma, apanhei a linha no Terminal 1 com a segurança de quem não faz a mínima ideia do que está a fazer.

    Só mais tarde percebi que a estação de Barajas não fica exactamente onde o bom senso indicaria — a seguir ao aeroporto de Barajas —, mas algures entre o Terminal 1 e o Terminal 4. Assim dei comigo, sem qualquer aviso interior de alarme, a caminho do centro da cidade, embalado por estações familiares que deviam ter soado a sirene.

    Só na estação de Mar de Cristal, já depois de Feria de Madrid — nome que já por si devia inspirar desconfiança —, me apercebi de que estava a afastar-me do destino. Inverti o sentido com a compostura possível, essa que só existe quando ninguém nos conhece.

    Não foi caso único. O metro madrileno, que os seus habitantes usam com a naturalidade de quem atravessa a sala de estar, é para o visitante pontual — e eu já não vinha à capital espanhola desde 2018 — uma prova iniciática. Comparado com ele, o metropolitano de Lisboa parece um brinquedo pedagógico para crianças responsáveis.

    Aqui, cada linha cruza outra, cada plataforma tem uma antecâmara, cada escada rolante obriga a uma escolha que pode ter consequências morais. Não é exagero dizer que Dédalo teria ficado impressionado com o metro de Madrid: não pelo Minotauro, mas pela sinalética.

    Ainda esta quarta-feira de manhã, regressado de Ávila, vivi nova humilhação discreta. Cheguei a Príncipe Pio com aquela confiança ingénua de quem acredita que já percebeu o essencial do sistema.

    O Google Maps — esse oráculo moderno que nunca se engana e jamais pede desculpa — informava-me serenamente de que, para chegar ao meu alojamento, teria de apanhar a estação de Ópera. Muito bem. Mas onde estava ela? Não havia música, não havia lustres, não havia sequer um indício arquitectónico que justificasse o nome.

    Parti numa linha errada, fiel à tradição, apenas para descobrir depois que Ópera não é outra estação longínqua, mas uma extensão quase metafísica de Príncipe Pio, acessível a pé através do átrio. Madrid ensina-nos, com crueldade pedagógica, que às vezes o destino não exige transporte, apenas atenção.

    Ávila

    Chegado o momento de ir ao Santiago Bernabéu, decidi finalmente aprender com os erros. Em vez de confiar em mapas, aplicações ou intuições tardias, adoptei a técnica mais antiga da humanidade: seguir alguém que pareça saber ao que vai.

    Assim que vi um homem de camisola do Real Madrid, colei-me a ele com a discrição de um detective de segunda categoria.

    Apanhei a linha correcta na estação de La Latina, desci em Alonso Martínez e segui-o religiosamente até à mudança para a linha azul, na direcção desejada: Santiago Bernabéu. Tudo corria bem até ao átrio final, onde ele parou, olhou em volta e franziu o sobrolho. Estava perdido. E eu também. Até os guias falham; Virgílio também teve de ficar à porta.

    Cheguei, apesar de tudo. E a partir daí o mundo recompensou-me com eficiência. Porta 49 do estádio para acreditação, instalações impecáveis no oitavo piso, recepção do farnel — melhor do que o do Benfica, diga-se com justiça alimentar — e depois mais uma pequena vergonha, já nas bancadas.

    Os lugares da imprensa não são fixos. Deslizam. Há um mecanismo silencioso e civilizado que permite ajustar a posição. Um pobre jornalista habituado à Varanda da Luz, com cadeiras do tempo da Maria Cachucha, ignora estes luxos e acaba a testar o assento como quem descobre um objecto tecnológico pela primeira vez.

    Enfim, esta viagem tem sido assim: uma sucessão de vergonhas pequenas, nenhuma suficientemente grave para merecer memória duradoura, mas todas incómodas o bastante para exigir humildade. A única que não foi vergonha — nem pequena nem grande — foi a do Benfica. Não venceu esta noite, mas convenceu. Não houve milagre, mas houve esforço. Não houve glória, mas houve humanidade.

    Nem sempre na vida — nem no futebol — ganham os melhores. Às vezes ganham os mais organizados, os mais ricos e os mais frios. Mas há derrotas que não rebaixam.

    E há viagens que, feitas entre erros de linha, estações invisíveis e bancos deslizantes, acabam por nos lembrar do essencial: que errar em público, desde que com alguma graça e sem perder a lucidez, continua a ser uma das formas mais decentes de estar no mundo. E com utilidade: pelo menos serviu-me para esta crónica.

  • Contemplação ou a arte de escapar aos grupos

    Contemplação ou a arte de escapar aos grupos

    Alguns edifícios visitam-se; outros suportam-se. O Real Monasterio de San Lorenzo de El Escorial pertence, sem hesitação, ao segundo grupo. Convém esclarecer desde já: suportar não é sinónimo de tédio nem de repulsa estética — antes pelo contrário. O problema do Escorial é outro: o risco sério de se sair de lá esmagado, não pelo peso da pedra, mas por um esmagamento espiritual que não pede licença nem oferece alívio.

    Aquilo não é um mosteiro, nem um palácio, nem um panteão — é um Estado em pedra. Uma ideia de império solidificada em granito, mármore e silêncio. Filipe II, o I que foi de Portugal, não mandou ali erguer um mosteiro: mandou cristalizar uma visão do mundo.

    À entrada, tudo parece austero, quase hostil. O exterior é severo, geométrico, castelhano até ao osso. Mas, depois da basílica, que mais parece um museu, basta atravessar os primeiros corredores para perceber que o Escorial não é pobre: é luxuoso, mas contido. E essa contenção é deliberada, calculada e mesmo ideológica. Cada sala é um aviso. Cada tecto é uma lição. E cada pintura acaba por ser uma afirmação de poder, fé e eternidade.

    O coração simbólico do El Escorial são os panteões. Depois do branco Panteão dos Infantes, o Panteão dos Reis constitui talvez o espaço mais perturbador de todo o conjunto e, significativamente, o único onde não se pode fotografar. Apenas o soube quando, descendo a escadaria, subi com o telemóvel em riste à entrada da sala dos sárcofagos reales e fui avisado por uma diligente funcionária.

    Faz sentido. Não se fotografa a morte administrada — embora a lição tenha sido aprendida tarde demais. Pelo interesse público da “coisa”, aqui fica registado o meu pecadilho — que não será assim tão grande, porque até a Wikipédia tem fotos, e melhores do que as minhas.

    Seja como for, ali, em mármore negro e dourado, repousam reis e rainhas de Espanha como se ainda estivessem reunidos em Conselho de Estado, apenas mais silenciosos, num espaço circular, fechado, quase opressivo, onde a eternidade foi organizada por critérios dinásticos. Inclui-se uma portuguesa, Isabel, casada com o imperador Carlos V, e, por isso, mãe de Filipe II de Espanha — e que, por ser filho de quem foi, abarbatou Portugal em 1581 nas Cortes de Tomar.

    Recentremos: nada ali, naquela cripta, convida à emoção. Aquilo nem é memória: é a continuidade da Monarquia castelhana.

    Depois vêm as salas. As salas — e que salas, ¡ay, Dios mío! Tem-se ali uma sucessão contínua, quase extenuante, de aposentos onde o luxo se apresenta sob a forma de disciplina. Tectos pintados com uma erudição quase insolente, bibliotecas onde o saber é arrumado como arma estratégica, corredores intermináveis que se atravessam com a sensação de estar a caminhar dentro de uma ideia fixa. E nas paredes, pintura de primeira linha, sem concessões.

    Surge Tiziano, com a sua cor quente, carnal, quase escandalosa para um rei tão ascético. Imperadores pintados como homens ainda vivos, com carne, sangue e vaidade. Logo ao lado, Tintoretto, nervoso, dramático, febril, como se as figuras quisessem fugir da tela antes do Juízo Final. Aparece também El Greco, místico e alongado, pintor de almas em combustão permanente. E, claro, Velázquez, que nunca pintou pessoas: pintou estatutos, hierarquias e a consciência de existir dentro do poder.

    Mas há uma sala que condensa tudo isto com particular clareza: a Sala de las Batallas. Ali, o Escorial abandona momentaneamente a teologia e a dinastia para se tornar narrativa militar. As paredes são ocupadas por frescos monumentais que representam as grandes vitórias da monarquia espanhola. Não se trata de pintar a guerra como caos ou tragédia, mas como ordem restaurada. As formações são rigorosas, as bandeiras identificáveis, a topografia exacta. O sangue quase não existe. O sofrimento é irrelevante. O que interessa é a vitória como confirmação de que o mundo está, afinal, bem organizado.

    A própria arquitectura da sala obriga o corpo a avançar. Não convida à pausa — apenas História contada ao ritmo de marcha. Se nos panteões a morte é administrada, aqui a violência é legitimada. E a Sala de las Batallas explica por que razão aqueles reis ali em baixo repousam: porque venceram.

    Tudo isto compõe um sistema coerente. Nada é decorativo: tudo ali comunica — e convenhamos que não se vê tudo, porque cerca de dois terços dos 33 mil metros quadrados estão inacessíveis ao público. O Escorial não é um conjunto de salas; é um dispositivo, onde se organizam o olhar, o tempo e o comportamento. O visitante não circula de modo livre: é conduzido.

    E é precisamente por isso que os grupos guiados se tornam um problema sério.

    Mesmo escolhendo um dia morno, longe das grandes vagas turísticas, surgem sempre grupos. Grandes… compactos… lentos… Guias munidos de microfone e auriculares e de uma paciência infinita para repetir, pela trecentésima vez no ano, a mesma explicação. Coloca-se então o dilema clássico do visitante solitário.

    Uma hipótese é recuar, deixá-los passar e esperar que desapareçam… Ingénuo… Um grupo guiado não anda: arrasta-se. Demora tanto tempo a atravessar uma sala que, quando finalmente sai, já outro grupo entrou pela porta oposta. Ficar para trás é ficar preso num purgatório de explicações em castelhano, inglês funcional ou dialectos nórdicos de difícil identificação.

    A outra hipótese é avançar. Acelerar o passo, ultrapassar o rebanho, sair do redil, ganhar alguns minutos de solidão estética. Funciona… por breves instantes. Mas basta o solitário deter-se um pouco mais diante de um Tiziano ou de um fresco da Sala de las Batallas para ouvir, ao longe, o som inconfundível da avalanche: passos, tosses, um “please follow me”, e pronto, lá se foi a contemplação.

    Há quem opte por se meter à boleia do grupo, fingir pertença, ouvir a explicação e seguir em frente. Confesso: essa solução nunca se me coloca. Em museus, igrejas ou sítios como este, prefiro ficar a matutar sobre um detalhe, tirar uma nota, estabelecer uma associação absurda ou — sinal dos tempos — perguntar ao ChatGPT algo que me entusiasme mais do que uma explicação decorada e repetida centenas de vezes. Não tenho grande vocação para ouvir um guião rígido quando o espaço pede deriva, silêncio e pensamento próprio.

    Ainda assim, apesar dos grupos, o Escorial impõe-se. Há momentos raros, preciosos, em que uma sala fica vazia por segundos. O silêncio instala-se. As pinturas respiram. O granito aquece. E percebe-se então que aquele lugar não foi feito para turistas, nem para fotografias, nem para visitas guiadas. Foi feito para durar.

    Sai-se de lá cansado, ligeiramente irritado, mas intelectualmente saciado. Como quem atravessou uma tese de doutoramento em arquitectura, arte e poder — interrompida, claro está, por excursões organizadas.

  • Real Madrid 0.1

    Real Madrid 0.1


    O Pedro, através do PÁGINA UM, desafiou-me a ir assistir ao Benfica-Real Madrid, na bancada da imprensa do Estádio da Luz.

    Sei bem o que esteve por detrás deste convite profissional: teve pena de mim, pois como sou boavisteiro, vivo agora na condição existencial de órfão de clube. Ser do Boavista equivale quase à história do indocumentado que vivia num aeroporto de Nova Iorque e inspirou o filme de Spielberg protagonizado pelo Tom Hanks.

    Agora, vejo futebol como quem vê documentários da National Geographic: com curiosidade e sem envolvimento tribal. Mas, depois, há excepções. Um português, por muito que respeite Espanha, nunca é neutro contra castelhanos. E foi com esse espírito que lá fui à ‘Catedral’, como um verdadeiro patriota, a torcer pelo Sport Lisboa e Benfica contra o sempre aristocrático Real Madrid Club de Fútbol.

    Infelizmente, falhei o jogo anterior — aquele já com aura mítica, em que o guarda-redes benfiquista, Anatoliy Trubin, descobriu que também sabia marcar golos e, mais importante ainda, como os celebrar. Há t-shirts com a sua foto a dizer “eu estava lá”, como quem diz “vi o 25 de Abril”. Eu não estava nos dois eventos, mas, se do primeiro não tenho memória, do último sei que o vi num restaurante na Avenida de Paris.

    Não fui agora à espera de heroísmos. E, de facto, não os houve. Foi um jogo Real Madrid clássico: calculista, frio, curto e eficaz. Marcaram quando era suposto marcar. Geriram quando era suposto gerir. Futebol de quem já tem muitas noites destas nas pernas. Se a eliminatória não ficou fechada ali mesmo, muito se deve outra vez a Trubin, que decidiu adiar Madrid.

    Curiosamente, o golo do Real entrou na mesma baliza onde Trubin tinha marcado da outra vez — porque o futebol adora estas ironias discretas. E na outra baliza, o único elemento físico que chegou a entrar foi o corpo de Thibaut Courtois, que mergulhou tanto que acabou literalmente dentro da baliza.

    Agora, o momento pelo qual este jogo será recordado é pelo episódio que transformou o jogo em debate sociológico. A acusação de insulto racista a Vinícius Júnior parou o jogo, activou protocolos, congelou o ambiente — e depois libertou uma onda de apupos quando o público sentiu que a coisa tinha passado do futebol para o teatro.

    Não vou ser moralista. Não consigo. O futebol é um desporto viril, de nervos, de palavras duras, de provocações que não passam nos manuais de boas maneiras.

    Racismo é outra coisa — mais profunda, mais violenta, mais estrutural — e não se resolve com dez minutos de pausa nem com debates de bancada. Ali, ontem, houve também jogo psicológico, exageros, aproveitamentos e aquela zona cinzenta onde o futebol moderno gosta de jogar.

    Depois, para os sociólogos de bancada, não posso deixar de achar piada quando vejo um brasileiro, de origem africana, a jogar num clube espanhol, a queixar-se a um francês porque um argentino, de origem italiana, a jogar num clube português, tenha feito uma comparação entre a sua atitude provocatória e a de um animal que existe em abundância nas paragens geográficas da sua nobre origem ancestral.

    Ainda por cima, há uma ironia histórica que importa sempre lembrar: mesmo à frente da porta 18 do Estádio Luz, está a estátua de Eusébio da Silva Ferreira — um homem negro, moçambicano, símbolo máximo do clube, herói de vitórias europeias e da Selecção Nacional. Património nacional do futebol, com honras de Panteão.

    O racismo real nunca teve casa ali.

    Saí do estádio com a sensação de que vi um Real Madrid competente frente a um Benfica que, como um gato de sete vidas, ainda se mantém na corrida graças ao seu guarda-redes, permitindo manter a eliminatória em aberto. Como bom patriota, espero que, para a semana, em Madrid, o Benfica ganhe.

    Não digo isto apenas pelo gosto do futebol, mas porque irritar espanhóis continua a ser uma tradição respeitável que até inclui mais amor e respeito por Espanha, o seu povo e tradições, do que qualquer manifestação de racismo cultural com alegada superioridade moral.

  • Ondas de choque

    Ondas de choque


    MACACOS I A minha companheira chamou macaco ao padre (um branquelas) quando este lhe derramou a água benta na testa. Foi absolvida e entrou no reino dos cristãos. Há um macaco lá no Porto, à solta e tido por perigoso. Tão feroz que precisa de reabilitação atrás de grades, quando a sentença transitar em julgado. O Vinícius Jr. queixa-se de ter sido chamado de mono que é macaco em castelhano. É sempre a mesma ofensa. Nunca é preto do caralho, escarumba, barrote queimado ou troglodita.

    Numa coisa o mister Mou tem razão: o Jr. devia rever as formas de celebrar os seus golos. Assim mais para o festivo inócuo, de braços ao alto e a bailar um sambinha, e menos provocador. Eu se fosse ao Vini, no lugar de ir fazer queixinhas ao árbitro, teria passado o resto do jogo a fazer o gesto a pequeno Prestianni de que a piroca dele é pequena, ao contrário da língua comprida. No campo, no pitch, são raros os senhores que se comportam e resistem aos insultos e provocações, com controle das emoções. Parece a aldeia de Sete Rios.

    EXIBIÇÕES I Quem não tem mamas, caça com o rabo. Quem não tem shape, depreda com o guito. Quem não tem nada de nada, a não ser uma carreira política, ataca no Tinder.

    Quando mostro o meu shape estou a guzar o prato. Vá, venham lá dizer os correctores, os correctos, os pedantes, que guzar é com o. Gozar. Gozo, uma ilha do arquipélago de Malta, por sinal muito apetecível de tão pouco habitada.

    Gosto daqueles inquéritos de pé de página onde fazem perguntas telúricas. Se tivesse que escolher um só livro para ler até ao final dos seus dias de eterno náufrago num atol incógnito no mapa e no Google Maps, qual seria? A Bíblia? O Velho e o Mar? A Pérola? A Morte de Iván Ilitch? É pá. Porque não um dos meus, o Hei-de Amar-te Mais, onde fiz um striptease literário, no sentido contrário ao dos escritores que querem mostrar mas só escondem.

    Esconderijo, esconder, refundir, ocultar. Mostrar tudo é que não. Ainda há lugar a detenção por atentado ao pudor. E os portugueses são muito púdicos.

    RESCALDOS I Se um arrufozito incomoda muita gente, até quando andará à bolina nas cordilheiras do pensamento-sentimento um ódio estrutural? Um racismo imperialista.

    Os acordos de paz são o intervalo até às próximas guerras. Se uma coisita de lana caprina (torcer por um clube a quem se dá o suor, as lágrimas e verba das quotas, do calção e camisola do ídolo) dá azo a homicídios, o que não faz um homem tal bicho acossado torturar, estuprar e matar? Embora sejamos Todos entes humanos, só a espaços há mobilização solidária.

    A espaços de calamidade e catástrofe, quando é a Natureza a destruir. Aqui na terra sacudida pela borrasca os empreiteiros largaram as obras e foram acudir os vizinhos. A custo zero. É isto que nos aproxima. A política, a bola, a religião, tudo onde cheire a negócio ou maniqueísmo, só afasta e agasta. Um desperdício de energia e força vital.

    OS SENÃOS DA BELA I Tendemos a mostrar uma impressão lisonjeira a nosso respeito. É ou não é? De igual forma defendemos ideias, convicções, dogmas, credos, ideologias, crenças, achando com isso, demonstrado com mais ou menos encarniçamento ou benevolência, estarmos a ser coerentes, correctos e avisados.

    A liberdade é um espaço onde tudo isto é permitido, afinal a liberdade só termina no espaço do outro. A maior liberdade é a do espírito que não se aprisiona em nada mais do que praticar o bem, sem que tal conduta relativa (pois o meu bem pode não ser o vosso) perturbe ou invada o lugar de ninguém.

    Esta é a parte Bela. O senão, que requer consciência dos factos, é quando um punhado destes entes humanos que somos todos nós, quer aprisionar e impôr a sua Ordem. A sua ideia de Bem. Um bem que vem por mal.

    Todo e qualquer partido que se queira único é uma ameaça.

    Todo o que se acha omnipotente é um perigo ambulante.

    Não basta escrever, não basta ver (está à vista). Nestes casos é necessário identificar. Apresentar o ónus da prova. Sem esperar pelo Tribunal do Altíssimo. Nada de mentiras e imposturas. Sobretudo intelectuais.

    Esta conversa de pano para mangas é a História Universal da Infâmia.

    Cabe a cada um identificar os problemas e solucioná-los. Nada diz só respeito a cada um. Tudo esta ligado.

    PRIORIDADES I Acontece uma calamidade e quem vale? Os amigos. Axioma: os amigos são muito importantes. Dá-se um problema de saúde assim mais para o complexo e a quem recorremos? Aos médicos, enfermeiros e seus recursos humanos e paliativos. Axioma: os médicos e enfermeiros e seus conhecimentos e equipamentos são muito importantes. Sucede um desaire mais ou menos complicado e quem nos escuta? O amor da nossa vida. Axioma: o Amor é muito importante, a par da ternura.

    A escrita de uma Constituição, uma Declaração dos Direitos Humanos, um código penal, um livro honesto que seja, é uma base de Trabalho, como os Dez Mandamentos.

    Lá consta a Cooperação.

    SINAIS I Tal como a falta de respeito e empatia é um sinal de defeito de fabrico (ou educação ou outro elo qualquer onde tudo se joga, que é no cérebro), também a forma como um governante, partido ou instituição se apresenta ao serviço deve levar a uma reflexão aprofundada. Que andar no mundo é perigoso, que a vida é frágil e efémera, que o egoísmo prevalece, tudo isso são favas contadas. Há, porém, aspectos virtuosos, consciência altruísta de grupo, noção de que é possível, por mais sujeitos da impermanência, fazer perdurar um certo sentido de Humanidade. Querer a exclusão, a dor e a morte de alguém é um sinal de grave deformação mental e espiritual. Se há milhões que afinam por este diapasão – chamemos-lhe fascista -, outros tantos haverá que procuram a paz, a beleza, a Criação, o Amor e a prosperidade, a Felicidade digamos assim.

    O BEM COMUM I Volta e meia passa um cometa e deixa um rasto, uma cauda brilhante. Por exemplo, um Bob Marley, um Ali, um Gandhi, um Tesla… A mensagem ecoa, até vir outro, outra, outros, que a entendam e prossigam. A mensagem é sempre a mesma: mais Amor, mais Paz, mais Justiça. Todos eles e as suas obras são afins de um diapasão: dizer não à barbárie.

    Ter no Chega uma opção aos estragos socialistas e liberais de PSD, CDs e companhia lda, é um retrocesso. É mais grave: é levar a pensar que habita entre nós o desejo de espezinhar e magoar, que é o anti-cristo. Por favor, não me venham com a conversa do combate à corrupção quando tresandam a tudo o que é podre e promíscuo.
    Tenho amigos que tomo por cônscios dispostos a dar uma abébia ao católico Andrezito. Já é mais do que suficiente para saber ao que vem ao ver o método da metralha e dos irmãos metralha.

    Então em quem confiar a tessitura do fio da roca?

    Na consciência, meus senhores e senhoras, onde mais vos toque.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • Parece que és bruxo

    Parece que és bruxo


    SINAS I Entre a certeza divinatória do vindouro, que é como quem diz adivinhar o porvir, saber o que aí vem, de bom, mau ou assim-assim, e viver ao sabor das marés, qual preferis? Ides à bruxa, às cartomantes, tarólogas, médiuns e leitores de búzios e runas? Ou basta-vos a missa de domingo e o sinal da cruz? Tendes curiosidade por saber o que o futuro vos reserva? Se assim for, as ciganas já saberiam da vinda do seu carrasco Venturini, ao olharem as palmas das suas mãos engelhadas.

    Intuição e instinto são coisas distintas. Ambas podem salvar vidas mas o destino está escrito e de nada vale ouvir a sentença e encerrar-se sozinho e a sete chaves ou desaparecer, pois o que tem que ser tem muita força.

    O que foi não se repete, embora pareça.

    Eis um exemplo de um arcano maior

    O Diabo (XV)

    As paixões, materialismo, vícios, instintos e o lado sombra do ser humano, mas também a necessidade de confrontar as ilusões e a busca por poder pessoal, mostrando que os grilhões são, muitas vezes, auto impostos e podem ser rompidos pela força de vontade, significando desafios, tentações, mas também oportunidade de libertação através da autoconsciência e do poder de escolha.

    CAUSA E EFEITO I O mais provável é a reconstrução das zonas afectadas pelas borrascas ficar a cargo de mão-de-obra estrangeira, supervisionada e avençada pelo Estado e fundos europeus. Os portugueses de bem lá estarão, a colher os louros e a estalar o chicote. Toda e qualquer acção, mesmo a não acção, gera reacção. Para os beatos de outrora, o terramoto de 1755 foi o castigo divino face à promiscuidade, ao indecoro, à agiotagem e usura desses tempos. Desses? Acontece uma catástrofe e estamos à mercê do acaso. Do durante e do depois. A protecção civil e a conduta dos governantes é como a defesa pessoal: o melhor é ter um plano. Contar com os outros é como contar com o ovo no cu da galinha.

    DISCURSOS DAS TRETAS I Se eu vos disser que tenho um cancro no pâncreas nível IV e estou cheio de metástases, mas que preciso de uns trocos para realizar um último desejo que é ir dar uma volta ao Mundo (aí 500 mil euros chega, ou seja 100€ a cada um), aposto que papam o grupo, como papam todas as bodegas que por aí circulam. Vocês nem têm a certeza de que eu existo.

    Se vos disser que já publiquei 18 livros, a maioria disponível para aquisição numa livraria perto de si, que até gramava viver da escrita, e se cada um de vós arrecadar um ou dois exemplares, como não sou homem de grandes gastos até daria para me consolar (apesar de uns certos cretinos me acharem um burguês capitalista e anarco-liberal só porque fumo charutos e ando bem vestido, gozando com a minha esquerda caviar).

    Outra coisa: estou a morar na rua. E nem sequer tenho direito ao RSI. Alguém quer enviar umas lecas?

    P.S. os charutos são os meus amigos cubanos que me oferecem.

    INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL I Há tempos pediram-me uma crónica sobre IA. Respondi “iá, eu faço”. Não pedi à IA para a fazer, apesar de ter a certeza que se lhe pedisse a coisa passava como um texto do je. A marca de autor é o que nos distingue. Ler e dizer “isto é deste gajo ou então é de um copista exímio”. Só se distingue nos detalhes. Vamos lá ver: tudo o que é bom para o ócio e o desejo de ser inútil ou louvar a preguiça é de valor. É como ter uma governanta ou um mordomo, pau para toda a obra. O meu bisavô António Gomes, quando já estava assim para o velhote, tinha uma criada que lhe levava o penico, abria-lhe a carcela, fazia o serviço e até sacudia. Não era para todos. A IA dá jeito para sacudir a água do capote, os pingos e descansar os membros, incluindo o cérebro. Talvez melhore a qualidade do serviço.

    MULHERES I As mulheres maduras (nada tem a ver com a idade) não emasculam; aceitam a fragilidade masculina tanto como dançam com lobos; podem e devem ser loucas mas têm a humildade de reconhecer os seus (c)erros; não se fazem de vítimas de enredos onde prejudicam tanto como dão tiros nos pés. Em louvor das mulheres maduras faço o meu apelo a que nunca caiam de podres.

    PARAR I Parar, escutar, olhar (Ver), sentir e experienciar, comunicar (sem ir aos arames), não tomar a parte pelo todo, Ser (sério, sem ser enfadonho ou moralista). Isto aplica-se a tudo. A pressa é inimiga da perfeição.

    Posto isto, o post é sobre reflexos condicionados, a chamada reacção emocional.

    Estamos carecas de saber, eu estou, qual o móbil dos políticos: almejar o poder. O poder é como um reflexo de quem o exerce. Eu, por exemplo, exerço o mais possível o poder de me aposentar. Todos os dias ensaio o desejo de não fazer nada. Nada de que me arrependa.

    Que a, b ou z se reveja num ideário ou idiota, é lá com ele. Eu revejo-me no Jodorovsky e em todos os amigos da Liberdade que não cerceiem a minha.

    NO FUNDO, NO FUNDO I Por detrás do espelho, quem está? Quanto mais feroz, mais medo esconde a presa tomada por predador. Num todo frágil, de força bruta aparente, de gente movida a gasóleo de competição, pode bem estar uma criança aflita, magoada e carente. A lei do mais forte agremia exércitos liderados por Átilas, Neros, Adolfos e seus pupilos. Todos têm cu, todos têm medos.

    VER PARA CRER I Acho piada aos rezingões como o anão zangado. Também curto bué os monges budistas e aquele sorriso imaculado. Ou seja, gosto tanto de quem protesta e com razão diz bardamerda, porracaralhofodasse ou se vê um tratante lho diz desabridamente de cenho arreganhado “o cavalheiro tem a espinha fora do sítio”. Aprecio o carácter definido e não aquela roupagem insonsa de maria ou manel vai com as outras e outros, numa onda da moda. Acho graça particular a quem diz não li e não gostei. Tal como admiro o crítico que dá o corpo às balas e rejeita o produto. Já fiz prefácios para autores “menores” em quem vi o mais importante: uma verdade só sua. Houve e haverá bandidos (à luz da lei) muito bem intencionados. Perdoar a quem não sabe o que faz é de louvar. Quanto a dar a outra face, aí já é de reconsiderar.

    Tiago Salazar é escritor e jornalista

  • Mia Couto e as sementes do céu

    Mia Couto e as sementes do céu

    A grande revolução da minha aventura literária chegou-me às mãos através de Mia Couto, vinda do livro Pensatempos. É um livro cheio de palavras inventadas com um sentido muito mais lógico do que muitas das palavras que eu conhecia até à descoberta desta obra.  

    Comecei a ler outros textos de Mia e a desejar que existisse uma pessoa assim, alguém que rimasse perfeitamente com o escritor que eu ia encontrando frase após frase.

    O receio da desilusão fez com que eu adiasse o encontro, apesar de Mia Couto vir a Portugal todos os anos — às vezes mais do que uma vez. 

    Mia Couto. Foto: D.R.

    Um dia vesti-me mais de coragem do que de outra coisa e arranquei para a FNAC, para assistir ao lançamento do primeiro livro de uma trilogia,

    Bastaram poucas palavras para eu perceber, com absoluta evidência, que aquele homem só podia ser Mia Couto. Lembro-me de ter tomado uma segunda decisão corajosa nesse mesmo dia: pus-me na longa fila de pessoas que aguardavam o autógrafo.

    Eu já vinha mal impressionada com as palavras do editor, que disse publicamente que o Mia, apesar da idade, teve a coragem de começar a escrever uma trilogia. “Ora essa!”, pensei.

    Eu queria chegar junto do escritor e dizer-lhe que era o meu preferido e que o proibia de deixar de escrever — tivesse ele a idade que tivesse. Mas, à medida que a fila avançava e eu me aproximava dele, as palavras pareciam fugir-me. Comecei a sentir que, mesmo que conseguisse dizer alguma coisa, havia uma forte probabilidade de não encontrar forma de articular as ideias para construir uma frase com sentido. Um drama, portanto.

    Atingi finalmente a meta do autógrafo com sucesso.

    Fotografia: Zuraida Guedes

    Mia perguntou o meu nome e soube logo como se escrevia.

    — Zuraida… é com “U”?

    — É, sim.

    Uma felicidade estonteante transportou-me para outro planeta. Simplesmente porque o meu coração acabava de confirmar que o Mia escritor era exatamente igual ao Mia pessoa. E sabia escrever o meu nome!

    Foi um grande “wow” na minha vida, que não só acabou com os medos de o ver ao vivo como acrescentou entusiasmo aos encontros futuros.

    Desta vez, Mia escreveu um conto para crianças. Lá fui eu ao Palácio das Galveias para vê-lo, cumprimentá-lo e pedir-lhe um “autógrafo decidido”.

    Apanhei o metro e fiz um esforço para não me aborrecer — já me tinha esquecido dos tombos que damos e da falta de lugares sentados. 

    Uma senhora jovem dava atenção à filha de colo. Olhou para mim e, lendo-me os pensamentos, inclinou-se para o marido e segredou-lhe alguma coisa. Eu, adivinhando a conversa, desviei o olhar. Mas o gesto não evitou que sentisse uma mão no braço.

    Fotografia: Zuraida Guedes

    Quando me voltei, encontrei o sorriso do marido da senhora, que se tinha levantado para me dar o lugar.

    Apressei-me a responder que não, que se sentasse:

    — Agradeço, mas não é preciso. Obrigada. Sente-se, por favor.

    Às vezes falo comigo e lamento que a sociedade tenha deixado de ser sensível, que tenhamos deixado de priorizar uma certa solidariedade para com quem mais precisa da nossa delicadeza. Dar o lugar a uma pessoa mais velha é olhá-la com cuidado e respeito. É oferecer-lhe um pequeno conforto.

    Mas a sociedade está a mudar outra vez. As pessoas estão a voltar a respeitar os mais velhos.

    E alguém já me está a dar o lugar no metropolitano de Lisboa?

    SO-CO-RROOOOI!!!!

    — Mia, tu que me meteste a andar de metro para ir ao lançamento de “As Sementes do Céu”, vais ter de me ajudar a sair desta…

    Fotografia: Zuraida Guedes

    Mantive-me de pé, abri a mochila e pus-me a ler o livro de histórias para crianças.

    Sim, porque eu posso ser uma senhora idosa, mas acompanho as gerações mais jovens!

    Eu não conhecia o Palácio. Também ele, com os seus azulejos do século XVII, anda de mãos dadas com todas as gerações que ocupam diariamente as suas charmosas salas de leitura.

    A apresentação do livro trouxe algumas surpresas boas — e o apuramento de uma certa indelicadeza.

    Mia mantém-se: querido, delicado, conversador, disponível.

    Bagão Félix surpreendeu-me: interessa-se por botânica e tem obra publicada nessa área.

    Susa Monteiro, a ilustradora, estava presente e falou entusiasticamente do seu trabalho.

    Fotografia: Zuraida Guedes

    O editor de Mia, bem mais velho do que antes, parece ter encontrado tempo para aprimorar a arte do desagrado. Chegou ao ponto de cortar a palavra a Susa Monteiro precisamente quando ela respondia a uma pergunta que eu lhe fazia. E, para que não houvesse dúvidas de que o senhor editor continua fiel a si mesmo, encerrou a apresentação do livro assim que o público colocou a terceira pergunta — sem sequer ter a amabilidade de verificar se mais alguém queria falar.

    Seguiu-se a habitual sessão de autógrafos. Eu lá estava, contente, com todas as palavrinhas calmas e alinhadas.

    Desta vez trouxe dois autógrafos: o de Mia e o de Susa, que desenhou um pássaro calmo e esvoaçante enquanto a nossa conversa fluía.