Ir a um jogo de futebol não é como estar numa guerra, mas esta adepta do Futebol Clube do Porto — uma leiga futebolística, importa fazer a ressalva — sentiu-se um pouco em território inimigo para assistir ao clássico deste domingo no Estádio da Luz. Ainda mais por ter ido ali pela primeira vez na vida, como infiltrada no meio de um mar ‘hostil’ de gente de vermelho, negro e branco.
Estando em óbvia minoria, mostra-se prudente que uma portista se abstenha de evidenciar as suas cores futebolísticas — e sobretudo pronunciar o nome de outro clube que não o da casa, como quase fiz no elevador. Todo o cuidado é pouco quando se arrisca acicatar as hostes — ou as hostilidades —, cujos níveis de adrenalina estão nos píncaros, entre cânticos, ‘gritos de guerra’ e pirotecnia, mesmo antes de soar o apito do árbitro.

Mesmo no conforto (quase protegido) da Varanda da Luz, depressa percebi que me encontrava ladeada por profissionais que, sem qualquer dúvida, torciam pelos encarnados: à minha direita, claro, o excelso director do PÁGINA UM, Pedro Almeida Vieira; e à minha esquerda, dois cavalheiros que pareciam sofrer tanto com o clássico como qualquer outro benfiquista naquele estádio.
Um deles, bem mais contido, tratava-se de Nuno Luz, jornalista desportivo da SIC. O outro, que não consegui identificar, não se coibia de expressar a emoção: fervoroso, exaltava-se com alguns lances e ia lançando injúrias ao guarda-redes do Benfica.
Antes do arranque da partida, houve um momento solene, ainda assim insuficiente para conter os ânimos: a homenagem a António Lobo Antunes, benfiquista assumido, que nos deixou no passado dia 5 de Março. Foi um minuto de silêncio que nem sequer foi respeitado. No dia anterior, o hino do Benfica tocara nas suas cerimónias fúnebres à saída do Mosteiro do Jerónimos, cumprindo-se assim aquela que era uma vontade do escritor.



Esta minha ida à Luz teve também uma ironia amarga: José Mourinho é um dos responsáveis pelo meu “portismo”, tendo marcado a minha infância (nasci em 1996) quando liderou o FC Porto em tempos de glória, no início dos anos 2000.
Dessa altura, ficaram-me sobretudo as memórias do meu pai a celebrar em euforia os golos do Porto, berrando a plenos pulmões a ponto de me deixar em sobressalto. Ficar-me-ão sempre gravadas na memória algumas das ‘estrelas’ daquele plantel. Jorge Costa. Maniche e sobretudo um dos meus eternos favoritos: o único e inigualável Vítor Baía.
Hoje, sou incapaz de identificar um único jogador das ‘nossas’ equipas dos últimos anos. Mas, entretanto apurei que o responsável pelo remate que nos valeu o segundo golo deste domingo é um jovem polaco de apenas 17 anos, Oskar Pietuszewski. E fez história, tornando-se no jogador do FC Porto mais jovem de sempre a marcar ao Benfica, batendo dois recordes registados nos longínquos anos de 1933 e 1962. Grande Oskar.



Mas, voltando ao Mourinho: cheguei a assistir ao meu primeiro jogo no Estádio do Dragão quando ainda treinava os dragões. Embora não guarde muitas recordações da experiência, o que se atribui à tenra idade. Depois, regressei na adolescência, aos 17 anos. A mesma idade do Oskar(!).
Agora, a pisar novamente um estádio de futebol depois de um hiato de mais de uma década, eis que o meu ‘reencontro’ com Mourinho se dá na Luz — mas com o nosso antigo treinador a liderar a equipa adversária. Alguém que, durante anos, e num período tão marcante, era um “dos nossos”, surge agora a lutar pela nossa derrota. Enfim, uma reviravolta que aviva a nostalgia por tempos que jamais se irão repetir.
Pelo menos, a sensação de estranheza foi compensada pelo facto de os dragões ocuparem o primeiro lugar — mesmo sem o saudoso “Special One”, que este domingo mostrou mais uma vez ter sangue na guelra, acabando expulso no final do jogo, depois de um aceso bate-boca entre elementos das duas equipas.

Sem qualificações nem conhecimentos que me permitam analisar o jogo do ponto de vista técnico — e sem qualquer pretensão de o fazer —, o meu resumo deste clássico é simples e esgota-se em poucas palavras: muitas ‘caneladas’, jogadores constantemente atirados ao chão, muito ruído e fumarada (das tochas), interrupções frequentes e protestos contra o árbitro.
E também um simpático farnel do qual, porém, só aproveitei a água. E duas maçãs, uma delas trocada com o director do PÁGINA UM por uma sandes e um chocolate.
Quanto ao resultado, não se prestou a grandes alegrias nem a grandes tristezas. Depois de uma primeira parte em que alcançámos uma vantagem confortável, foi com alguma frustração que vi esse cenário alterar-se aos 69 minutos, até que os encarnados conseguissem por fim o empate. E a possibilidade de derrota só parecia ganhar força à medida que os segundos avançavam. Felizmente, não saí de lá com esse amargo de boca.

E, quiçá, talvez também tenha tido a sorte de ser poupada a abandonar um Estádio da Luz dominado pela fúria de uma derrota benfiquista. Enfrentar a multidão à saída do recinto é intenso — e mais vale uma multidão resignada com um empate do que irada por perder dentro da sua própria ‘casa’.
De resto, é claro que mais poderia ser dito da experiência de uma portista no campo do ‘arqui-inimigo’. Contudo, da mesma forma que me mantive discreta no território da equipa rival, o mesmo recato é aconselhável no PÁGINA UM, pelo que me escuso a tecer mais comentários sobre o clássico. É que a distância do digital pode parecer uma garantia de segurança para troçar do Benfica — mas eu prefiro não arriscar.

































































