Esta crónica é sobre uma desistência: a do cronista. Desisto de tentar adivinhar quem vai ganhar estas eleições. Se tivesse de ser coerente, diria que o candidato que tem mais hipóteses é António José Seguro, pois foi o único que, até ao momento, esteve numa reunião do Grupo Bilderberg.
Acontece que António Filipe, candidato indicado pelo PCP, também deve saber que Seguro só é de esquerda porque não diz que é de direita e, por isso, garante ao Povo comunista que não vai desistir a favor do candidato apoiado pelo PS. Ele não é como Ângelo Veloso, em 1986, nem Seguro é um Salgado Zenha ou merece que se feche os olhos no momento de colocar a cruz no voto. António Filipe faz isso mesmo com o risco de dormir mal no próximo Domingo, enquanto Seguro também não iria dormir bem se desistisse a favor do candidato do PCP e depois visse que ele não conseguiria ir à segunda volta.
(Como os candidatos que desistem têm de entregar no Tribunal Constitucional a declaração, reconhecida no notário, até 72 horas antes das eleições – são três dias –, temos de esperar até ao fim de quinta-feira, dia 15, para a oficialização das não-desistências).
Jorge Pinto, o candidato Livre, bem que avisou no debate da RTP que “no que de mim depender, não será por mim que António José Seguro não será Presidente de Portugal”, sugerindo um acordo à esquerda com PCP, BE e Livre.
Catarina Martins, a eurodeputada do BE (e ex-líder), riu-se e disse que Jorge Pinto poderia ter feito um telefonema para si antes de trazer o assunto a público na televisão pública (e Catarina, já agora, é o número que termina em 276 ou 351? Nenhum dos dois? Depois diz qual é, sff).
Se ninguém à esquerda vai desistir, se Manuel João Vieira só desiste se for eleito, que mais possibilidades temos então no resto da lista? André Pestana e Humberto Correia, por exemplo, poderão desistir? Se sim, então a favor de quem? O primeiro não pode desistir por mais ninguém, pois é contra tudo e todos. O segundo, é por D. Afonso Henriques.
Seguem-se André Ventura e Henrique Gouveia e Melo. Ora, o líder do Chega não desiste porque assim não poderia depois votar em si. Quanto a Gouveia e Melo, esse não saberia muito bem por quem desistir, pois a sua candidatura é o albergue espanhol, onde há lugar para tudo e todos. Aliás, é a candidatura de quem ainda não desistiu porque não sabe que D. Sebastião já morreu – mesmo que tivesse sobrevivido a Alcácer-Quibir, eu sei.
André Ventura. / Foto: D.R.
Sobram dois nomes de ilustres candidatos: Marques Mendes e Cotrim Figueiredo. Os candidatos do PSD e IL. Esses sim, seriam os únicos capazes de desistir um a favor do outro e causar algum impacto na votação de Domingo.
Marques Mendes, que não parece conseguir separar-se dos anticorpos adquiridos pelos anos em que esteve ao serviço nos negócios da Abreu Advogados – que anuncia lucros como se fosse uma multinacional com negócios de Lisboa a Caracas, Luanda e Washington –, poderia perfeitamente desistir a favor de Cotrim Figueiredo. E, acredito, Cotrim iria à segunda volta e chegaria mesmo a Presidente da República.
Se fosse ao contrário, e Cotrim desistisse a favor de Marques Mendes, esse acto de sacrifício histórico da direita (onde, até hoje, nas várias eleições presidenciais sempre tivemos desistências à esquerda e nunca à direita), levaria Mendes a ser o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa. Afinal, PSD e IL estão juntos em algumas autarquias. Se foi é, por exemplo, em Lisboa e Porto, porque não em Belém?
Luís Marques Mendes. / Foto: D.R.
Só que nenhum deles parece disposto a desistir a favor do outro. E, com isto, desisto eu. Vou votar nulo, pois há ainda três candidatos cujos nomes aparecem no boletim e que são oficialmente nulos, enquanto os outros 11 nomes são todos opções igualmente nulas, embora não reconhecidas oficialmente.
Aliás, vendo bem, como até sou monárquico, nem sei porque ainda me preocupo pessoalmente com isto de eleições presidenciais. É só mesmo para que a noite do Domingo de eleições tenha alguma emoção na hora de ver o resultado prático desta República, já que nem o Boavista joga e a malta precisa de se divertir com algo para as conversas de café. Ou nas redes sociais. E em crónicas.
VOTO SEGURO I Como sabeis — se não sabeis, ficais a saber — faço parte da Comissão de Honra do candidato António José Seguro. Também suspeitais ser um comunista no sentido bíblico. Serei mais acrata, mas isso não vem agora ao caso. Então porquê não voto no candidato do partido?
O voto presidencial é um voto num dirigente. Num indivíduo. Num estilo de intervenção. Nada contra o camarada Filipe, e não é um voto útil, o meu. Fiz questão de privar com António José Seguro antes de tomar esta decisão. E estive diante de um homem resolvido, sereno, blindado à bojarda, que me inspira confiança.
António José Seguro. / Foto: D.R.
Não seria de esperar outra coisa, num encontro de apoio, mas podia ter concluído estar ali um farsante, um socialista inquinado, um arrivista, um situacionista ou mesmo um pato-bravo disfarçado de ouvinte atento.
Além de ter consideração pela sua postura ao arrepio do próprio partido onde assenta a sua ideologia, o homem faz vinho. Quem mete as mãos à obra na terra é sempre de considerar. Depois, não diz que lê só para ficar bem na fotografia. Até a mim me leu, vejam lá. Ou que é melómano e troca Bach por Baco.
Por último, a amostra de quem pode ser eleito é de tal forma medonha que se não houvesse um Seguro antes preferia ir à cata de um putativo rei. Ganhe ou não ganhe, estou certo de que havemos de beber um copo ou dois e brindar à raça lusitana.
DESMAMES I Tenho uma teoria baseada num largo espectro de viagens e sociabilizações mais ou menos forçadas de que todos padecemos de alguma doença ou vício. Pode ser crónica ou passageira, aguda ou grave e levar ao túmulo. Quando escrevo no meu bloco de notas “dia 1 começo o desmame de (não digo o quê)”, estou a decretar os meus vícios. Sei que um par deles me podem arrumar ou até arruinar, acabando os meus dias arrumado e seco como uma uva passa.
Um desmame confessável é a dependência de um dispositivo onde ir buscar entretenimento. Um telefone esperto, cheio de aplicações úteis e inúteis. O desejo de ser inútil é mais forte e não cedo à utilidade. Por exemplo, a inteligência artificial, esse logro dos ociosos. Quem diz que não estou a mentir e tudo isto que aqui vai escrito não foi parido por um cérebro virtual à boa maneira do escrivão Tiago Salazar? Quero desmamar como quem desabrocha tirando da boca um caule viçoso e usá-lo como deve ser, isto é, em sede própria que é amar sem orifícios. Não alcançaram este rasgo boca Giano mas eu explico. Quero largar o vício de me enamorar perdidamente e só me perder para me encontrar a seguir, onde haja mamas grandes e vistosas, preenchidas de chicha como um belo bife da vazia. Quero desmamar-me de tudo o que me é nocivo e nefasto, de prosas chochas a cagalhões com asas e quem exorta o osso da pila e seja falho de tomates.
Nem se trata de um sonho a sair do sono para a vida real. É tão-somente o querer absurdo de viver num prado quente, amaciado pela lhaneza dos dias felizes. E que não me cobrem IMI. O IVA não há como escapar, pois é de valor acrescentado querer-me assim tão despojado no calor da Felicitas. Há ainda um outro querer, mais prosaico e digno de constar de um livro de auto-ajuda: quero que todos os que mal me querem se fodam. Irei cuspir-lhes nos túmulos se não os vir antes numa artéria qualquer, à esquina do labirinto e me sair uma gosma de Minotauro directa às suas fuças imundas, às comissuras dos seus lábios infectos. Sim, é um vício danado este de dar piparotes como o faz com cintilante talento do além de Vera Cruz o meu defunto colega de trabalho D. Brás. Mas que diabo, não faz parte da comédia humana ter um pequeno vicio como atirar aos patos?
DESCULPAS I Se formos a ver há sempre uma (tentativa de) justificação para certas e determinadas condutas. Para tal se inventou a legislação da legítima defesa.
Por exemplo, o famigerado Casanova antes de andar de leito em leito e telhado e telhado foi um corno sofrido, vítima de um desgosto. Após a rejeição e o abandono passou a usar e deitar fora. Nada de compromissos. Tivesse feito terapia e muitas vítimas teriam sido poupadas. Incluindo o próprio.
Andar à cata de falhas, faltas e falhados também não há de ser coisa boa. Dá jeito aos humoristas mas pouco acrescenta.
NATAL I Todos os dias há um natal para acontecer. Um nascimento ou renascimento, uma outra forma de ver. O verbo Ver enforma amplitude. A grande questão (humana) é o perdão e a paz que isso traz. Entre os bichos é outra coisa. Quando os homens não saem dos bichos o território é muito importante. A sobrevivência, o instinto, o medo. Não o medo consciente de morrer, mas o que vem da ameaça. Ninguém deveria viver sob ameaça, de não ter comida, abrigo e um certo lugar de confiança e conforto. Estar na natureza (como estou neste dia) e ver o firmamento de pés bem assentes na terra a rever o filme da minha vida, amplifica o sentimento de que o melhor está sempre para vir. Quanto ao fim, há sempre uma hora marcada para nós todos. O apito final. Enquanto isso folguem-se as costas e sobretudo aprenda-se o mais possível, de tudo um bocadinho, de como fazem os bichinhos até ao acto constante do Amor.
19710 I Daqui a pouco serão estes os dias passados no planeta Terra. Que aprendi de novo, de significativo entre a infância e o dia de hoje? A medir e avaliar o bom uso das palavras. A ter em consideração que moro entre gente cujas vidas são, tal como a minha, um constante tirocínio. Ou seja, a não esperar nada de ninguém. Aprendi cedo o que é a rejeição, o abandono, a negligência, a pancada, o tabefe, o soco, o sarcasmo, a ofensa e o grito. A espaços, conheci laivos de ternura, doçura materna da mãe avó, a importância de fazer bem o trabalho seja ele qual for. A não dizer tangas nem armar-me aos cucos e a viver com o amealhado sem saquear. Aprendi que a maldade, a ingratidão, a infâmia, andam a par com a bondade e a compaixão. Aprendi a estar mais calado do que a reagir a cada bojarda, a cada atoarda e a ler e a escutar o dito entrelinhas. Talvez por isso, no lugar de percorrer ruas e avenidas de amargura me limite a criar enredos mormente a partir de factos, de acções e constatações de que o pior da Terra são os humanos. Aprendi que o Amor é uma rua sossegada onde se passa raramente.
O MODELO RONALDO I O dom para a chincha do menino Cristiano fez-se notar cedo e ala para Alvalade como poderia ter ido parar a outro clube qualquer. Foi lá que comeu, bebeu, dormiu, treinou, aprendeu e teve palco para se mostrar e começar a encher o pote. Agarrou todas as oportunidades e transcendeu-se a jogar à bola. A determinação é o seu forte. Chamem-lhe ego, narcisismo ou ganância e ambição desmedida. Se o dom do puto fução fosse outro, a pintar (como o Jordão) ou escrever romances, não se teria feito multimilionário, recordista de tudo e um par de botas. O modelo Ronaldo é válido no escanteio. Perseverar, comer frango, peru e bróculos, não beber, não fumar, não beber nada a não ser água ionizada, e contratar os melhores, da confecção aos dribles aos fiscos ou a abafar historietas de agasalho e alguidar.
O problema actual dos Ronaldos é acharem-se mais papistas que o Papa. E não se contentarem com os seus feitos. Quererem sempre mais e mais (ocultando as suas falhas). Não se trata de conformismo de fim de carreira, mas de saber sair de cena e reinventarem-se noutras cenas. Já nem se fala de como redistribui o amealhado, porque isso é lá com ele. Quanto a ser partenaire de regimes autocráticos que fuzilam jornalistas e achincalham mulheres, o que seria de esperar de um rapaz que só aprendeu a jogar à bola?
PESSOAS I Tudo se resume às pessoas. A laços e percalços. A começar nos pais, ancestrais, padrões e o que fazer com tudo isso, a herança, a genética, até chegar à superação e à transcendência, se for o caso, ou uma vida inteira redundar numa oportunidade (ou sucessão de oportunidades) perdida. A pessoa que melhor conheço sou eu. Daí que prefira a autobiografia. A vida que conheço melhor do que qualquer outra é a minha. Não que tudo o que se escreva seja a mais pura das verdades. A memória é falível e a expressão fluente não toca a todos. Mas que se diga e escreva tudo sem contemplações. Entre o que eu gostava que tivesse sido e o que foi há um fosso de crocodilos. Foi um crescimento disfuncional e graças a Deus e a mim, não descambei nas drogas, nem leves, nem duras, no alcoolismo ou qualquer coisa desviante como a política ou a polícia. Não escapei aos comprimidos e ao divã, e ao sexo promíscuo até concluir que tudo faz parte. É a plena consciência da nossa natureza múltipla e a integração da miríade de elementos de que somos compostos que nos faz completos, que nos faz humanos.
A escrita foi desde cedo e é uma forma de achamento e redenção. As pessoas, incluindo eu, são estranhas e capazes do melhor e do pior. Até ver não houve homicídios na família. Pilhagens, ofensas, ódios, intrigas, invejas e desejos de ver um familiar na merda ou morto, isso há, como em muitas idóneas famílias. Também houve e há os parentes por afinidade que cospem fel depois de terem mamado à conta e partilhado a mesa da consoada. Como pode haver paz se o que mais há é Insensíveis?
1991-2026 I Este ano passam 35 anos da publicação do meu primeiro artigo enquanto profissional de Imprensa. Um artigo sobre o grupo de Teatro do Hospital Júlio de Matos. Posso dizer com orgulho ter feito tudo o que mais quis. Reportagens, entrevistas, crónicas e artigos de toda a espécie e feitio, até sobre bricolage. Fiz o tirocínio com mestres como Eurico de Barros, Nuno Henrique Luz, Sofia Barrocas, Maria Augusta Silva ou António Moutinho Pereira, entre outros, como Vera Lagoa ou Miguel Sousa Tavares.
Hoje, assino no PÁGINA UM, um projecto de Jornalismo com caixa alta. Mesmo nos anos de suspensão da carteira, mantive-me no activo a escrever crónicas. Passei por jornais, revistas, TV e rádio. Para assinalar esta data redonda vou fazer uma viagem. Foi graças ao Jornalismo que publiquei Viagens Sentimentais, A Casa do Mundo, As Rotas do Sonho, Endereço Desconhecido, Quo Vadis, Salazar?, Crónica da Selva e O Moturista Acidental. Desta viagem nascerá um livro e projecto digital. Em breve haverá divulgação mais específica. Os livros é só aviar. As crónicas Cá se Fazem estão disponíveis no PÁGINA UM.
Há coincidências que o futebol trata de transformar em metáforas. No dia em que uma assembleia geral extraordinária aprovava o chamado Benfica District, eu assisti a mais um jogo a partir da Varanda da Luz, esse promontório existencial onde se vê futebol, mas também se encontra oportunidade para reflectir sobre urbanismo, finanças criativas e a influência crescente do VAR na vida espiritual do benfiquista. Tudo ao mesmo tempo, como convém a um clube moderno.
O jogo, esse, começou sofrível, como já começa a ser hábito. E sofrível não apenas no sentido épico do sofrimento redentor — isso seria suportável —, mas naquele outro, mais burocrático, em que se sofre porque nada parece fluir. O Benfica entrou sem controlo, permitiu iniciativa ao adversário, passou largos minutos a correr atrás da bola e a dar a sensação de que o jogo estava sempre prestes a escapar-lhe. A pressão inicial do outro lado foi suficiente para inquietar a Luz e para instalar, cedo demais, aquele desconforto típico de quem percebe que a noite vai ser longa.
Porém, houve VAR — claro que houve VAR —, houve interrupções, houve aquela liturgia contemporânea de esperar pela decisão como quem aguarda uma sentença administrativa. E foi precisamente numa dessas interrupções que surgiu o penalti, depois de um lance inicialmente mandado seguir e revisto à lupa por uma cotovelada no Otamendi. Veio Pavlidis e marcou, como manda o figurino, com a naturalidade de quem já começa a parecer menos um avançado e mais um instrumento regulamentar. Se isto continuar assim, ainda lhe colocam um apito ao pescoço. Ou um despertador para o lembrar do minuto em que se deve dirigir à marca dos 11 metros.
O golo não trouxe tranquilidade. Pelo contrário: trouxe a ilusão dela. O Benfica melhorou ligeiramente, teve momentos de posse, criou alguma ordem, e a fechar a primeira parte um remate de belo efeito do Pavlidis para facturar o segundo. Mesmo quando ampliou a vantagem, continuou a pairar no ar a sensação de que bastava um descuido para tudo se complicar. E complicou-se. O adversário reduziu ainda antes do intervalo, o estádio encolheu-se — e não foi do frio. A segunda parte surgiu e com ela o estado natural do Benfica: o da ansiedade permanente, com a equipa a gerir mais o resultado do que o futebol.
E viu-se o que não se gosta de ver numa equipa com o historial do Benfica: pragmatismo defensivo caseiro perante uma equipa de meio de tabela, aceitando perder controlo em troca de segurança relativa e lá se foi sobrevivendo entre ameaças ocasionais, bolas paradas mal defendidas e aquela constante expectativa de que algo podia correr mal. Só perto do fim, numa transição rápida e já com o adversário esticado, o terceiro golo apareceu, consumando-se um hat trick do Pavlidis e fechando-se o jogo sem nunca verdadeiramente o pacificar. Foi uma vitória, sim. Mas daquelas que se explicam mais pelo resultado do que pela exibição.
Mas o que verdadeiramente me inquietou não foi o jogo, nem o VAR, nem o penálti do costume. Foi perceber que nesse mesmo dia, em assembleia geral extraordinária do Benfica, se anunciava mais um capítulo ordinário de uma história muito portuguesa: a do betão que avança sempre com a promessa de que desta vez é diferente. Desta vez é planeado. Desta vez é viável. Desta vez é sustentável.
Garantiu o presidente Rui Costa que o Benfica District vai revolucionar o espaço envolvente ao Estádio da Luz, que será um destino nacional e internacional, que haverá pavilhões, hotéis, zonas comerciais, cultura, entretenimento e, imagino eu, talvez até um bocadinho de futebol. O investimento será de centenas de milhões (nunca se sabe ao certo) e a conclusão aponta para 2029 ou 2030, conforme a velocidade a que a Câmara Municipal decidir colaborar. Como se sabe, quando as contas apertam, há sempre mais uns metros quadrados para licenciar.
Se a memória não me falha — e não me falha assim tanto, estava eu no Expresso no final dos anos 90 —, já no passado os direitos de construção em redor do Estádio da Luz foram generosos, para usar um eufemismo simpático. Tão generosos que a autarquia chegou a contabilizar o próprio relvado como espaço verde. Um jardim, portanto. Um jardim com marcações, balizas e bancadas à volta. Lisboa tem destas inovações botânicas e paisagísticas.
E agora, mais betão. Sempre mais betão. Um clube que vive acima das suas possibilidades, como tantos outros, e que depois se apresenta, com ar compungido, a pedir compreensão institucional. Nada de novo, portanto. Apenas mais moderno, mais district, mais anglo-saxónico, porque chamar bairro parece coisa pobre e antiga. Benfica District soa a PowerPoint, a branding, a alguém que acredita sinceramente que mudar o nome muda a substância.
Porém, aquilo que verdadeiramente me preocupa, confesso, é a reconfiguração do estádio, que passará dos actuais 65 mil lugares para 80 mil. E isto através do rebaixamento do relvado. E eu, que já me encontro bem no topo, demasiado no topo nesta Varanda da Luz, começo a fazer contas à vida.
Se o relvado desce e eu fico onde estou, ficarei mais alto, mesmo se ao mesmo nível das águas do mar, mais distante, mais próximo do céu — ou do inferno. A visão do jogo — e a minha já viu melhores dias (e piores, porque, entretanto, a minha miopia teve correcção cirúrgica) — tornar-se-á um exercício de fé.
Mas, bem vistas as coisas, talvez não seja assim tão mau. Se o Benfica continuar a jogar como tem jogado, poupa-me o detalhe. Vejo menos, sofro menos. Há vantagens em tudo.
Enfim, neste jogo, saí da Varanda da Luz com a sensação de que vi um jogo mas vislumbrei também um plano urbanístico, a um penalti e a uma maquete; a um VAR e a um District. Talvez seja esse o novo futebol: menos jogo jogado, mais jogo aprovado, um relvado a descer e o betão a subir.
Este texto é uma crónica, que é um estilo jornalístico onde o autor é livre de exprimir os seus pensamentos em vez de se limitar a apresentar informação pura ou simplesmente factual. Na crónica pode construir as suas interpretações pessoais, opinar, sugerir uma posição social e até política, pois isso está bem visível perante o leitor.
Por uma questão de honestidade pessoal, apesar de ser uma crónica, ainda assim o jornalista não deve deturpar factos para apresentar uma ideia que lhe seja conveniente. Na realidade – e aqui falo por mim – as minhas crónicas baseiam-se em perguntas que não consigo encontrar durante o normal trabalho jornalístico de recolha de informação e, perante essa impossibilidade, acabo por partilhar as dúvidas com o leitor anónimo da mesma forma que o faria com um amigo próximo. Pois, nunca se sabe quem está desse lado e poderá até, após ler este texto, acabar por me ajudar a fazer o trabalho jornalístico.
Henrique Gouveia e Melo, candidato à Presidência da República. / Foto: D.R.
Uma das minhas mais recentes dúvidas jornalísticas é o Acordo da Carlota. Mas o que é isso do Acordo da Carlota que poucos terão ouvido falar? Na realidade, foi um nome que dei ao episódio público, e devidamente analisado, sobre o almoço que dois candidatos a Presidente da República, Henrique Gouveia e Melo e André Ventura, tiveram em Agosto do ano passado. O local foi a Quinta da Carlota, um complexo turístico de luxo, localizado em Torres Vedras e que é propriedade de Mário Ferreira, o empresário natural de Matosinhos que, entre outros negócios turísticos, é ainda accionista maioritário da TVI/CNN Portugal e financiador da campanha eleitoral de Gouveia e Melo.
Que dois candidatos à presidência da República se encontrem num almoço privado, organizado por um empresário da Comunicação Social que apoia financeiramente um deles, enfim, o que podemos dizer? Não é proibido. Se o quiserem fazer em privado, longe do olhar dos jornalistas, claro que o podem fazer. Não há lei que os impeça. Que não se saiba publicamente o que foi discutido entre ambos, se acaso chegaram a um entendimento político pessoal, ou descobriram que não precisam de combinar nada e está tudo bem em relação ao papel de cada um na sociedade portuguesa, isso é, com certeza, algo que só eles saberão entre si. Que cada um deseje depois manter privado o teor de certos detalhes da conversa, é perfeitamente normal.
Notícia publicada na edição de 12 de Setembro de 2025 do jornal Público sobre o almoço entre Gouveia e Melo e André Ventura, líder do Chega e actual candidato à Presidência da República. / Foto: D.R.
Os jornalistas, perante estes casos, nunca conseguirão ir mais além do que os participantes decidirem divulgar. Aliás, o facto de se ter sabido publicamente que houve esse almoço – que nenhum dos implicados negou –, já é, por si só, uma grande novidade jornalística. E, em abono da verdade, o seu a seu dono, devemos dar o crédito da informação à jornalista Ana Sá Lopes, que a publicou em primeira mão na edição do diário Público de 12 de Setembro passado, cerca de um mês após o encontro. Para além de responder aos requisitos básicos de uma notícia, com a resposta às perguntas básicas de Quem? (Mário Ferreira, Gouveia e Melo e André Ventura); O quê? (almoçaram juntos); Onde? (na Quinta da Carlota); Como? (em privado); Quando? (Agosto, embora sem indicação do dia exacto) e Porquê? (para se conhecerem melhor), o único dado extra foi o facto do nome Carlota ser em honra a uma das filhas de Mário Ferreira –algo que ignorava e, sem ironias, muito me enriqueceu pessoalmente sabê-lo através da leitura do artigo.
Se era para ter sido um almoço secreto ou não, não se sabe, mas nestas coisas, por vezes, é sempre difícil manter o segredo. Por exemplo, o autor desta crónica foi o jornalista que, na noite de 19 de Novembro de 2024, recebeu a informação de que o mesmo Henrique Gouveia e Melo, quando ainda era Almirante em funções de chefe Estado-Maior da Armada, iria ter um encontro com o ministro da Defesa, Nuno Melo, num bar em Arroios, e acabou mesmo por os fotografar à entrada, onde mantiveram depois uma conversa que só a ambos disse respeito.
Foto: PÁGINA UM
A bem da verdade, há apenas duas maneiras do jornalista poder ter acesso ao conteúdo de conversas deste género sem ser através dos próprios que, entre si, podem muito bem combinar a versão mais conveniente para o público: através de um empregado que tenha ouvido partes da conversa e a relate ao jornalista debaixo da protecção do anonimato, ou uma gravação captada por algum microfone indiscreto, que até poderia ser de um dos convidados.
Quando questionados pelos jornalistas sobre o teor da conversa, ambos desvalorizaram o encontro e declaram, de uma forma geral, que foi para se conhecerem melhor. E que nada terá sido combinado entre eles. Ora, como jornalista, registo os factos públicos: houve mesmo um almoço, em Agosto, no local em causa, organizado por quem se disse que o fez, onde ambos os convidados negaram depois que qualquer acordo político em relação à corrida presidencial tenha sido estabelecido e, após o encontro, Ventura oficializou a sua candidatura a presidente da República, tornando-se adversário de Gouveia e Melo. Coisa que ainda não era quando foi almoçar.
No entanto, para efeitos de crónica, digo que tenho a convicção pessoal de que houve mesmo um Acordo da Carlota entre Gouveia e Melo e André Ventura. e justifico com outros factos. Repare-se que, antes daquele almoço, Ventura, como líder do Chega, poderia ter apoiado Henrique Gouveia e Melo e não precisava de ser ele o candidato do seu partido a Presidente da República, podendo dedicar-se ao seu trabalho partidário no Parlamento. Mas, depois do almoço, Ventura decidiu que não iria apoiar o outro comensal. Imagine-se a desilusão de Gouveia e Melo que, assim, perdeu o apoio do líder do segundo maior partido de Portugal.
André Ventura, candidato à Presidência da República e líder do partido Chega!. / Foto: D.R.
Se o almoço era para garantir o apoio de Ventura, então aquilo correu mal para o candidato e para o empresário que pagou a conta do almoço – não creio que Mário Ferreira, Gouveia e Melo e Ventura tenham feitos as contas da refeição à moda do Porto para dividirem entre os três.
Só que, caros leitores, acredito que o Acordo da Carlota foi precisamente esse: não haver um apoio de Ventura a Gouveia e Melo, sendo precisamente esse o único e verdadeiro apoio que Ventura poderia dar. Como assim? Ora – e aqui reside a ironia da coisa –, foi o próprio Ventura que acabou por revelar essa estratégia e que legitima todo o meu pensamento.
Durante o debate presidencial, na RTP, perante Gouveia e Melo, André Ventura, ao analisar as sondagens que o davam com o vencedor da primeira volta, foi mais longe e acrescentou o que ele achava que iria acontecer depois: “(…) admito, numa segunda volta, possa acontecer o contrário. Entendo que uma maioria se junta à volta de Gouveia e Melo, Marques Mendes, de António José Seguro. (…) Na segunda volta, quem for o adversário, também vai ser curioso ver o que é que alguns partidos vão fazer. Porque, se for Gouveia e Melo, o PSD vai apoiar Gouveia e Melo? Se for Marques Mendes, o Partido Socialista vai apoiar Luís Marques Mendes?”
Foto: D.R.
Realmente, imaginemos que, em Agosto, André Ventura oferecia o seu apoio directo a Gouveia e Melo. O que teria acontecido a seguir? Isso faria do militar o candidato da Direita Radical, perdendo os apoios na direita conservadora e até nos socialistas menos inclinados à esquerda. Assim, sem o apoio directo de Ventura, Gouveia e Melo pode continuar a dizer que é o candidato independente e moderado. Não será ele o perigoso extremista, contra o sistema, que iria perder numa segunda volta contra um candidato moderado do PSD ou do PS.
Agora, meus senhores, digam-me lá se, perante estes factos óbvios e claros do ponto de vista analítico político nacional, estarei errado em pensar que isto não foi discutido de forma natural e óbvia por Ventura e Gouveia e Melo à frente de Mário Ferreira? Posso permitir-me a imaginar que o almoço na Carlota foi precisamente para fazer um acordo em que André Ventura avançaria então como uma “lebre” à extrema da Direita, que ganharia na primeira volta, mas perderia na segunda. Assim, Gouveia e Melo precisa agora de passar à segunda volta, a 18 deste mês, vencendo Marques Mendes e Seguro, para ser depois o Presidente da República, eleito na segunda volta, a 8 de Fevereiro, contra Ventura. E tomará posse a 9 de Março. Algo já combinado desde Agosto passado.
Esse é, para mim, o Acordo da Carlota. Mas isto é apenas uma crónica, não uma notícia.
As primeiras eleições Presidenciais em democracia irão cumprir 50 anos em Junho do próximo ano, tendo resultado na eleição do general Ramalho Eanes como o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril de 1974. Agora que estamos na iminência de voltar a ter um militar em Belém, convém lembrar como se deu a escolha de Eanes pelos militares e políticos de então.
Para tal, servimo-nos de fontes públicas relacionadas com alguns dos principais protagonistas. Comecemos com o líder do PS, Mário Soares, que nas entrevistas a Maria João Avillez contou como tratou o assunto durante um almoço com Melo Antunes, Vítor Alves e Vasco Lourenço, no Hotel Rex, – que ainda hoje existe na Rua Castilho. É uma informação que podemos encontrar página 24 do livro “Democracia”, edição Círculo de Leitores, 1996.
António Ramalho Eanes. / Foto: Presidência da República
Os convivas do almoço falaram sobre a questão presidencial e, apesar do nome de Soares até ser uma opção, ainda assim o então líder socialista achava que “o País ainda não estava pacificado; as instituições eram débeis; o Partido Comunista – e os seus aliados, civis e militares – detinham ainda um poder forte”.
Para Soares, não havia dúvidas: o Presidente da República tinha de ser um militar. Quem? Sobre isso, Soares não quis indicar um candidato específico, mas permitiu-se a mencionar aos militares os nomes que o PS estaria disposto a aceitar como os “possíveis”: Costa Brás, Firmino Miguel, Pires Veloso e Ramalho Eanes.
Soares não diz – nem a jornalista perguntou (ou se perguntou, depois não o escreveu na entrevista) – em que dia terá sido esse encontro. Mas podemos sempre inferir que foi após as primeiras eleições gerais, a 25 de Abril de 1976, aquelas que o PS venceu, embora sem maioria absoluta. E o que nos permite pensar nisso? Por causa daquilo que Soares afirmou a Maria João Avillez quando justificou o primeiro nome, Costa Brás, que era então ministro da Administração Interna e “responsável pelo êxito logístico da realização das primeiras eleições livres”. Portanto, o nome de Costa Brás estava em alta na “bolsa” política após essas eleições.
Soares disse sobre Firmino Miguel, ministro da Defesa no II Governo Constitucional, que era um militar “com o qual o PS se entendera sempre bem” e, quanto a Pires Veloso, Comandante da Região Militar do Norte, apoiava-o por ser “o nosso principal aliado no Norte, nas lutas contra a ameaça comunista”. Finalmente, Eanes, porque alcançara o seu estatuto público como o militar do 25 de Novembro de 1975 e era então Chefe de Estado-Maior do Exército.
O que se seguiu após deste almoço pode ser depreendido ao lermos o livro-entrevista de Vasco Lourenço a Maria Manuela Cruzeiro – “Do Interior da Revolução”, Âncora Editora, 2009. Contou o actual presidente da Associação 25 de Abril, na página 483, que não tinha uma opinião positiva em relação a Pires Veloso: “Depois do 25 de Novembro, em que ele se inseriu perfeitamente no Grupo dos Nove, considero que se ligou a forças pouco democráticas, por mais que apregoassem o contrário, enveredando por procedimentos, no Norte do País, francamente reaccionários e anti-25 de Abril”, afirmou.
É então, na sequência desta crítica a Pires Veloso, que, sem que Maria Manuela Cruzeiro tivesse necessidade de mencionar a entrevista de Maria João Avillez a Soares, Vasco Lourenço contou um “episódio interessante” sobre Pires Veloso. E que episódio era esse? Precisamente como se escolheu o militar que deveria ser candidato a Presidente da República em 1976.
Conta Vasco Lourenço que, em data não mencionada, teve um encontro, no Forte de S. Julião da Barra, com mais oito membros do Conselho da Revolução, militares do Exército, mandatados para encontrar um candidato a Presidente da República, já que o então Presidente, Costa Gomes, não desejava continuar no cargo que lhe tinha sido entregue após a demissão de Spínola, no 28 de Setembro de 1974 – uma data quase esquecida, essa, a da “Maioria Silenciosa”.
Relata Vasco Lourenço que, “após alguma discussão, onde não se vislumbrava uma solução”, Pires Veloso deu “um passo em frente” e disponibilizou-se para “se sacrificar”. Vasco Lourenço, que achava Pires Veloso “um homem de mão” do líder do então PPD, Sá Carneiro, sorriu e disse que não era necessário esse “sacrifício”. Votaram então, de braço no ar, em duas hipóteses: Costa Brás ou Ramalho Eanes. Este último, igualmente presente nesse encontro, foi escolhido com sete votos a favor e dois contra. Os votos contra tinham sido de Vasco Lourenço, que queria manter Eanes à frente do Exército, e o outro fora do próprio Eanes.
Mas Pires Veloso tem uma outra memória de como decorreu a discussão que levou àquela votação. Contou ele na sua autobiografia “Vice-Rei do Norte – Memórias e Revelações”, Âncora, 2008, (pág. 431), que o seu nome na lista de preferência de Mário Soares até era o segundo, atrás de Firmino Miguel e antes de Costa Brás. Eanes era o último da lista. Recorda o Vice-Rei do Norte que foi chamado, com um dia de antecedência, para uma reunião em São Julião da Barra, só com conselheiros do Exército.
“Quanto perguntei o motivo dessa reunião, foi-me dito que ia ser escolhido quem devia ser o próximo Presidente da República das Forças Armadas, tendo eu exclamado: ‘Que democracia é esta?’ Ninguém me informou de que esta reunião havia sido convocada para dar resposta à proposta do Partido Socialista”, escreveu na sua autobiografia.
O então Presidente da República e a família no Jardim da Cascata, no Palácio de Belém (c. 1978). / Foto: Presidência da República
De acordo ainda com as palavras de Pires Veloso, a reunião teve início “com o Melo Antunes a dizer que se tornava necessário escolher o Presidente da República e que, no seu entender, devia usar óculos escuros, ser magro, ter patilhas compridas, ser sério, gostar muito do camuflado”.
O Vice-Rei do Norte não estava para meias palavras, interrompeu o conselheiro e atirou: “Ó Melo Antunes, diga que o Presidente da República tem de ser o Eanes!” Mas essa tirada não impediu Melo Antunes de prosseguir como se nada tivesse passado, “a bater sempre na mesma tecla, com ares de dominador”, descreveu na sua obra.
Por volta do meio-dia, Pires Veloso disse que tinha de sair e a reunião foi interrompida. Conta que, à saída, Eanes o abordou dizendo que estavam todos “na mesma barca” e que “um de nós tem de se lixar”, ao que o conselheiro respondeu: “Lixe-se o senhor!”, e foi à sua vida, pois tinha de estar em Cascais às 13h00. A reunião retomou da parte da tarde, com Pires Veloso a recordar o momento como “uma farsa, onde o Melo Antunes ia ditar a sua sentença, não lhe prestei grande atenção, nem me preocupei minimamente com o resultado da votação”.
Ernesto Melo Antunes, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, fotografado num evento oficial em 1975. Ramalho Eanes afirmou que o ideólogo do Movimento das Forças Armadas de 1974 é “pai da democracia”. / Foto: D.R.
Em jeito de conclusão sobre este momento decisivo na escolha do futuro chefe de Estado de Portugal, Pires Veloso ainda acrescentou na autobiografia que “eu também devo ter votado no Eanes, mas nessa altura ainda acreditava nele”, tendo ficado guardado na memória a capacidade de Melo Antunes em “dominar as pessoas, nas reuniões e assembleias”.
Mas a história não acabou aqui. O que se seguiu é ainda mais revelador dos bastidores políticos na escolha do primeiro candidato vencedor à Presidência da República. Apesar de Vasco Lourenço não mencionar a data da reunião em S. Julião da Barra, o mais certo é esta ter acontecido na noite de terça-feira, 27 de Abril de 1976, pois o que se seguiu está publicado nos jornais da época, embora sem os detalhes que saíram das entrevistas separadas no tempo a Mário Soares e Vasco Lourenço.
Ainda na voz de Vasco Lourenço, e segundo a sua versão depois da reunião em S. Julião da Barra, Pires Veloso “foi para Cascais, para uma estalagem de um familiar do Tomás Rosa onde estavam reunidos alguns dos militares da Força Aérea. Chegou e informou do que se passara. De imediato telefonaram a alguém do PPD, penso que ao Marcelo Rebelo de Sousa – linda peça! – que contactou o Sá Carneiro”. Pires Veloso, por sua vez, na autobiografia, nunca deu qualquer explicação do que fez nessa noite após a reunião.
O major-general António Pires Veloso foi uma figura central no 25 de Novembro de 1975. / Foto: Arquivos RTP
Explicou ainda Vasco Lourenço que o líder do PPD foi a correr, de manhã cedo, para a frente das instalações do Estado-Maior do Exército, a Santa Apolónia, onde abordou Eanes à entrada, dizendo-lhe que era o preferido do partido e queria fazer o convite oficial para ser o candidato do PPD a Belém. Assim, o líder do PPD ultrapassou o adversário político socialista, Mário Soares, colocando-se na liderança para a escolha do futuro Chefe de Estado.
A Imprensa foi também avisada dessa decisão, sendo esta uma jogada política de antecipação que permitia a Sá Carneiro, que ficara em segundo lugar nas eleições realizadas dois dias antes, associar o seu nome, e do partido, ao candidato a Presidente da República que tinha mais hipóteses de ser o vencedor, já que contava com o apoio de uma parte importante dos militares do Conselho da Revolução e do PS.
“Está mesmo a ver a minha cara, quando cerca das onze horas telefono ao Mário Soares a dar-lhe conhecimento da nossa decisão e ele, pouco satisfeito, me informa que a rádio já anunciara o convite do PPD ao Eanes!”, comentou Vasco Lourenço na entrevista a Maria Manuela Cruzeiro.
Vasco Lourenço, Capitão de Abril e um dos rostos do Conselho da Revolução. / Foto: Arquivos RTP
Voltemos a Mário Soares e à entrevista a Maria João Avillez: “Quando os militares me informaram que a preferência entre os quatro militares propostos recaíra no nome de Eanes, reunimos a direcção do PS, na Rua da Emenda, onde se combinou que Salgado Zenha e eu próprio nos encarregaríamos de fazer o convite formal do PS a Eanes, para que se candidatasse às eleições presidenciais”. Soares seria surpreendido com a notícia do apoio de Sá Carneiro, que surgiu “horas depois”, segundo se recordava. Para Soares, a fuga da informação teria ocorrido ainda nessa noite, via Jaime Gama, que teria encontrado “ocasionalmente” Ângelo Correia, a quem disse que Eanes foi o nome escolhido pelo PS.
A jornalista Maria João Avillez, na entrevista a Soares, chamou a atenção para o facto de que a sua própria versão “não é essa”. Soares adiantou então que “noutra versão, que não posso afirmar como segura, terá sido Rui Vilar que deu a notícia a Marcelo Rebelo de Sousa”, sendo que Soares soube depois do apoio do PPD “pela imprensa da manhã”.
Há um nome comum que se destaca nestas duas versões, baralhadas nas brumas da memória pelos avós da democracia Soares e Vasco Lourenço e que é Marcelo Rebelo de Sousa, o actual ocupante da cadeira de Belém.
Marcelo Rebelo de Sousa aos 26 anos, deputado à Assembleia Constituinte. 1975 / Foto: Arquivo Fotográfico da Assembleia da República
E onde estava Marcelo quando tudo isto aconteceu? Naquela altura não havia telemóveis para mandar mensagem SMS, não havia aplicações como WhatsApp ou Telegram para trocar mensagens privadas a altas horas da noite. Se alguém telefonou para Marcelo desde a taberna de Cascais, será que ligou para sua casa? Ou para a sede do PPD? Para um restaurante? Ou para o Expresso, a sede informal do PPD?
Uma consulta on-line aos arquivos do jornal Diário de Lisboa permite verificar duas coisas que confirmam factos cruzados nesta história de bastidores: numa pequena informação na primeira página da edição de quarta-feira, 28 de Abril (a publicação era vespertina, saliente-se, ou seja, um jornal colocado à venda depois do meio-dia, com as notícias frescas dessa manhã), podemos ler, debaixo do título “A candidatura de Ramalho Eanes”, que “o apoio do PPD foi confirmado esta manhã ao ‘DL’ depois de anunciado, na madrugada de hoje pela agência ANOP”.
Manchete do Diário de Lisboa de 28 de Abril de 1976. / Foto: D.R.
No interior da mesma edição do dia 28 de Abril, na página 5, temos a notícia, de que, “ontem à noite”, na SEDES – Sociedade de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social –, fundada em 1970 por Rui Vilar, tivera lugar um debate para análise dos resultados eleitorais “que contou com a participação de Marcelo Rebelo de Sousa (PPD) e Medeiros Ferreira (PS)”.
Notícia no Diário de Lisboa de 28 de Abril de 1976. / Foto: D.R.
E se mais dúvidas houvesse, eis que Marcelo Rebelo de Sousa, em entrevista a Vítor Matos para a biografia de Novembro de 2012, na Esfera dos Livros (pág. 314), confirmou que, depois da sessão na SEDES, perto da sede do Expresso, na Duque de Palmela, cruzou-se com Rui Vilar que lhe contou do fumo branco decisão em S. Julião da Barra. Marcelo ainda pensou ir comer uma sanduíche no restaurante Pabe antes de seguir para a reunião que estava a decorrer na sede do PPD, não longe dali, no cimo da Duque de Loulé. Mas, com ele, estava António Patrício Gouveia que insistiu para que fossem imediatamente informar Sá Carneiro.
Na Duque de Loulé ainda se discutiam os nomes de outros possíveis candidatos a apoiar, com Pires Veloso e o primeiro-ministro, almirante Pinheiro de Azevedo, como hipóteses. Assim que Sá Carneiro percebe o valor da informação, rapidamente confirma com Pires Veloso através de um telefonema e informa o partido da decisão. Helena Roseta, qual pitonisa, avisa que “ainda se vão arrepender”. E assim aconteceu, o que levou depois Sá Caneiro a ter de apoiar Soares Carneiro em 1980.
Portanto, cruzando as memórias de Mário Soares com as de Vasco Lourenço e juntando ainda os factos jornalísticos públicos relativos a Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Vilar – este tinha sido eleito deputado do PS dias antes –, vemos que a história de bastidores mais aproximada da verdade dos factos coloca Mário Soares no almoço, no Hotel Rex, presumivelmente após as eleições de domingo, 25 de Abril de 1976, seguindo-se a reunião dos militares em S. Julião da Barra, na noite de terça-feira, 27, com a informação, ainda nessa noite, a resultar na conversa entre Rui Vilar e Marcelo Rebelo de Sousa e, daí, com Marcelo a ir até à sede do PPD, então na Duque de Loulé, onde estava Sá Carneiro numa reunião pós-eleitoral e, após ser informado, decidiu comunicar aos seus militantes – alguns chorosos – que o candidato do PPD já não seria Pires Veloso, mas tinha de anunciar o apoio do partido a Eanes, com a notícia a ser enviada para a ANOP, nessa mesma noite, a tempo de sair na rádio e nos jornais vespertinos de quarta-feira, 28, levando Soares a ser ultrapassado pelo timing político de Sá Carneiro.
Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.
Quem se mostrou bastante crítico desta manobra tácita de Sá Carneiro e achava que o apoio do PPD a Eanes era um “beijo de morte” ao candidato foi a embaixada dos EUA em Lisboa, onde estava Frank Carlucci, futuro director-adjunto da CIA. Num telegrama diplomático norte-americano, datado de 29 de Abril, podemos ler que a embaixada em Lisboa era da opinião de que “o apoio do PPD a Eanes vai prejudicar mais do que ajudar. Uma vez mais, o PPD reagiu de forma apressada e agressiva face a uma situação que percebeu ser ameaçadora”.
Excerto de um telegrama diplomático norte-americano de 29 de Abril de 1976.
E a embaixada liderada por Carlucci sabia bem do que falava, pois o anúncio de Sá Carneiro adiou a decisão do PS que, finalmente, acabaria por dar o seu apoio público a Eanes apenas a 10 de Maio, quatro dias antes do general ter feito o anúncio público a sua candidatura à Presidência da República.
E, como no final dos filmes, aqui fica um resumo do que aconteceu aos principais protagonistas nos anos seguintes:
Eanes foi eleito, a 27 de Junho de 1976, como o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril, com o apoio do PS, PPD e CDS. Seria reeleito a 7 de Dezembro de 1980, mas sem o apoio do então líder do PPD/PSD e primeiro-ministro, Sá Carneiro, morto em Camarate três dias antes.
O então Presidente da República, António Ramalho Eanes, dando posse ao VI Governo Constitucional, liderado por Francisco Sá Carneiro; a assinar, o ministro das Finanças, Aníbal Cavaco Silva, que viria a ser eleito Presidente da República em 2006. (3 de Janeiro de 1980) / Foto: D.R. / Presidência da República
Mário Soares foi o primeiro Presidente da República civil após o 25 de Abril após ter vencido as eleições de 1986 contra o ex-líder do CDS, Freitas do Amaral, sendo reeleito em 1991. Perdeu uma terceira eleição em 2006 contra o ex-primeiro-ministro do PSD, e ex-ministro das Finanças do governo de Sá Carneiro, Cavaco Silva, que assim sucedeu ao ex-líder do PS, Jorge Sampaio, e foi reeleito em 2011.
Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente da República em 2016 e reeleito em 2021.
No início de 2026, 50 anos depois da eleição de Ramalho Eanes, Portugal está na iminência eleger um segundo militar como Presidente da República após o 25 de Novembro, caso não encontre soluções nas hipóteses civis.
EM BUSCA DE UM MUNDO MELHOR I Todos somos energia. Positiva e negativa. A neutralidade é uma forma de acção. Na vida interessa-me o livre arbítrio e as escolhas, bem como as origens e raízes das coisas, incluindo da etimologia. Embora viver ultrapasse o entendimento e sejam mais as razões que a razão desconhece. A escolha do Amor, a título de exemplo, pode ditar muito do vindouro. Uma boa ou má união, para quem veja o casamento como uma empresa, dita bastante do percurso de cada um.
Daí que proliferem as clínicas de tratamento de desaguizados. Há quem diga que escolhemos os pais e deles podemos extrair os maiores ensinamentos, mesmo os difíceis de gerir, como a rejeição, a negligência e o abandono quando somos dependentes, o que dura uns anos.
O país onde se nasce também conta, e em virtude da sua melhor ou pior condição pode levar ao seu abandono, como se deixa tudo para trás quando não acrescenta. Quantos, válidos, ou mesmo geniais, não debandaram para fintar o atraso de vida? Que se aprende nas escolas e universidades que acrescente para tornar o mundo (o país) melhor? Escolhi História porque tudo são histórias, melhor ou pior contadas. Escolhi trabalhar factos sem descurar as razões que levam a executá-los. Entendo a guerra como forma de resposta ao mal maior como uma forma de retaliação contra o abuso, a humilhação, a submissão. Entendo perfeitamente que poucos falam ou escrevem no pleno gozo das suas faculdades.
O mundo melhora quando há confiança no sistema. Quando se cura até onde seja possível e se faz das cicatrizes, das feridas, dos obstáculos, da dificuldade, uma forma de suportar e superar.
AMIZADE I Há dias fui agraciado com um bilhete para ver o Benfica-Nápoles. De quem havia de vir a dádiva senão do ilustre Manel, uma das almas mais bonitas do mundo pardacento dos tuks. Enquanto uns dão navalhadas nos pneus, sabotam, fazem avanços a la Cosanostra, outros, como o Manel, dá-lhes para a generosidade.
Foi o mesmo Manel que me ofereceu a camisola Stromp, ele o mais puro vermelho, benfiquista até à medula. Diz que até experimentou no vestiário não fosse o número não me servir. Ofereceu não só um bilhete mas três, aos seus amigos templários Tiago Silva Zumbi e Alex Ventura Máximo.
Vi uns quantos jogos do Terceiro Anel no velho recinto onde brilharam o Eusébio, o Coluna, o Chalana e o Carlos Manuel ou o Néne e o João Vieira Pinto, entre outros. Já que a maioria do pessoal de Alvalade era do Benfica não tinha outro remédio a não ser juntar-me às papoilas. Neste recinto à inglesa .foi uma estreia.
Digamos que vi um jogo limpinho e bem disposto e de uma perspectiva interessante para ver como se pode fazer passar energia para dentro do relvado. Mas o mais importante foi estar com amigos, amigos daqueles que se pode contar.
QUEM ESTÁ MAL? I A seu tempo farei uma exposição sobre um assunto sério de trabalho em sede própria. Hoje, falo de algumas impressões sobre coisas vistas, ouvidas e sentidas, o mesmo será dizer testemunhadas e a ter em conta. Não há dia que passe (em Lisboa) sem me ocorrerem as notícias do Correio da Manhã.
Falo de facadas, tiros, óbitos e façanhas cabotinas. Os chamados ajustes de contas. Já nem falo da indigência cultural, da selva e suas leis do mais astuto, manhoso e predador. Isto vai do espectro mais “elevado”, o Poder, as instituições, ao mais subterrâneo zé-ninguém que aspira ao mesmo domínio da exploração do filão. Por vezes nem o linguajar varia.
Mas vamos ao que importa antes de ser eu próprio notícia. Avento que a razão de tanta ira, tanta cólera, tanto ódio, provenha da grande frustração e ignorância que anda em par com a ganância. Onde cheira a dinheiro, cheira a merda e a sangue pisado ou a borbulhar. Ainda a procissão vai no adro, ou seja, quando a fome estiver ao rubro, e nem um café pingue, um papo-seco encha a barriga, haja um telhado onde acoitar o esqueleto, aí sim, as notícias do CM jorrarão em barda.
Quando a diferença entre o patrão e os assalariados for de tal monta que os empregados sejam sem-abrigo e durmam no alpendre da loja ou fábrica. Isto está bom para patrões, políticos, senhorios, agiotas, banqueiros, mafiosos e bandidos. O resto é um coro de sapos.
Qual a piada disto, a não ser para a escrita de thrillers, de crónicas mordazes, de reportagens a partir a loiça?
Na antevéspera da Consoada, quando o país já entrou naquele estado intermédio entre a gula anunciada e a culpa adiada, o Benfica resolveu lembrar-me — ou lembrar-nos — que o Natal, tal como o futebol, não obedece a calendários litúrgicos rígidos. O Natal é quando um homem quer, dizia-se antigamente; e, pelos vistos, também quando um clube precisa.
Esta segunda-feira foi dia de vitória. Não exuberante, ainda menos redentora, mas suficiente para afastar fantasmas que já começavam a pedir quarto cativo na Luz, com direito a pequeno-almoço incluído e estadia prolongada.
Esta partida contra o Famalicão teve o que os jogos têm tido nesta época: frio nas bancadas, ansiedade nas pernas e um público que já observa o relvado como quem olha para um presépio ainda por montar — José inclinado demais, o boi fora do lugar e o Menino ainda por chegar. O Benfica continua sem deslumbrar, mas também não se deixou deslizar, desta vez, para aquele pântano emocional que tem sido a sucessão recente de empates caseiros. Desta vez, não houve novo empate. E isso, convenhamos, já é motivo de aleluia — não daqueles cantados em coro celestial, mas dos murmurados com prudência, como quem agradece sem fazer promessas.
E mais ainda o penálti sobre Otamendi. Um braço levantado como quem invoca o céu, um VAR atento — milagre dos tempos modernos — e aquela pausa solene em que o estádio inteiro prende a respiração como num conclave à espera de fumo branco. Não houve dúvida teológica nem exegese prolongada: assinalou-se o penálti, Pavlidis marcou o golo da praxe, e o Benfica passou para a frente, mantendo-se fiel àquele mandamento simples e raramente cumprido esta época: não sofrerás depois de marcar. Nada de epifanias, nada de escândalos — quase um milagre natalício, precisamente pela sua anormalidade.
Mas talvez mais importante do que o golo marcado foi o outro golo não sofrido. Não houve, como já sucedeu demasiadas vezes esta época, aquele golo nos descontos da equipa adversária, aquela espécie de castigo bíblico que tem caído sobre a Luz como praga tardia: depois das rãs, depois dos gafanhotos, depois das águas tornadas sangue, eis o golo forasteiro aos 93 minutos. Desta vez, não. O apito final chegou inteiro, sem trombetas apocalípticas nem ranger de dentes. Salvou-se a noite. Salvou-se a semana. Salvou-se, para já, a sanidade colectiva.
Não há duas sem três — mas, por agora, não houve quatro, apesar de já terem existido três empates caseiros esta época nos descontos: Santa Clara, Rio Ave e Casa Pia. Na matemática do futebol, como na teologia, há números que contam mais pelo que evitam do que pelo que alcançam.
Não foi, desta vez, um quarto desaire. E isso confirma, ainda que timidamente, que afinal pode haver três sem quatro. Um pequeno dogma menor, não inscrito nos Evangelhos, mas aceite pela fé benfiquista, que nesta fase já se contenta com menos milagres e mais estabilidade.
Enfim, foi “só” um jogo mais sofrido do que inspirado, mais pensado do que sentido. Houve fases em que a bola circulou com a solenidade de um sermão dominical — longo, monótono, mas necessário — e outras em que parecia pedir socorro, como Jonas no ventre da baleia. Mas houve também algo que tem faltado: controlo. Não domínio absoluto, não futebol champagne, mas controlo suficiente para não deixar que o jogo descambasse para aquele território caótico onde tudo é possível — sobretudo o pior.
Nesta época natalícia, o futebol ensina-nos, em todo o caso, uma lição curiosa: nem sempre é preciso um banquete para haver celebração. Às vezes basta não faltar o essencial. Santo Tomás diria que o bem é aquilo que convém à natureza da coisa — e, neste momento, convém ao Benfica ganhar jogos, mesmo que seja sem estrelas no presépio e sem anjos a cantar. A estética fica para depois. A sobrevivência vem primeiro. Primeiro, o pão. E depois, se houver tempo, os peixes.
No fim, já no túnel de acesso ao Colombo, os adeptos saíram com aquele cântico do SLB, conscientes de que não tinham recebido ouro, incenso nem mirra, mas aliviados por não terem ficado com um par meias — ou seja, mais um empate embalado em papel de embrulho. Houve alívio. Houve conversa. Houve aquela sensação típica de Dezembro: “para já, chega”. E talvez seja isso o mais honesto que se pode pedir ao Benfica nesta fase do ano: menos apocalipse, mais Advento; menos promessas grandiosas, mais pequenos sinais de que, afinal, ainda pode haver redenção.
DA MORTE I É (e não é) espantoso observar a natureza humana, sobretudo na hora da morte. A Clara, a mestra Clara, a Dra. Clara, cujo trabalho viverá nas bibliotecas e teses de doutoramento, no legado dos seus pupilos, de repente é amada por todos, todos a leram, todos a aclamaram, incluindo o Presidente farricoco Marcelo.
O ardiloso Soares, ao menos, pagava a renda ao Luiz Pacheco. Mais triste é ver como por cá se tratam os génios. A opção estóica é uma coisa, a depauperação é outra. É como as tropas rasas do Ultramar e as pensões miseráveis.
A Clara estava doente e decerto a irmandade sabia. Penso quem saberá se estou doente, se tenho o suficiente para o básico. O Estado está-se nas tintas, a não ser para arrebanhar o premiar os que dele se amamentam.
A Clara foi Grande em todos os aspectos, do vigor da escrita e da oratória, do raciocínio ao sentimento. Amar demais o que se faz e mostrar Trabalho acarreta inimigos. A Clara escrevia no PÁGINA UM, imagino que pro bono (como eu), porque simpatizava com o projecto, dos poucos que não tem medo do Sistema. Não ter medo é coisa rara e não falo de fanfarronice de escrita, de mandar petardos na retaguarda. Falo de dizer tudo com todas as letras, incluindo chamar hipócritas aos bajuladores ou mandar para a gávea os invejosos e cínicos.
A morte é a morte. O problema é o que se diz e faz na vida. A Clara disse e fez.
Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)
Últimas palavras de Hipátia de Alexandria, pelo menos segundo a lenda.
Entrou Novembro e mudou a hora. O que tínhamos a fazer para que a sociedade não descambasse no pior dos caos era simples, certo? Somos todos pessoas crescidas e para nós estas coisas nem chegam a ser um pensamento, são um mero reflexo medular: andávamos com os relógios uma hora para trás e pronto. Até ganhávamos algum tempo extra de ronha boa pela manhã, a ouvir a chuva para lá da janela, entre o sonho e tudo o que a vida tem de bom, com a cabeça pousada no peito de alguém que nos é especialmente querido[1]. Isso eu percebi, também não sou assim tão burra. Mas o meu telemóvel está num estado tão periclitante que já nem sequer muda a hora sozinho – e, no entanto, eu acreditei nele. Podia ter visto as horas no PC, mas andava a padecer de uma hérnia e não conseguia sentar-me à secretária para trabalhar. Fui a correr acertar o despertador, mas em vez de o pôr para trás pu-lo para a frente e depois deixei de usá-lo porque não confiava nele. Costumo estar a cinco horas de distância do Massachussets. Quando o Dick me disse “como nós ainda não mudámos a hora, ficamos com quatro horas de distância”, foi o baralhanço completo. Demorei uma semana a esclarecer esta completa perdição, ciente de que faria péssima figura se me abeirasse de qualquer das pessoas minhas amigas, por muito amigas que fossem, e, tipo, cinco dias depois de termos mudado a hora, lhes perguntasse num total desespero “eh pá, por favor, isto é um desatino, que horas são?”. E por que é que isto aconteceu? Porque tive um AVC no fim do Verão. E ninguém nos avisa desta consequência colateral, mas depois a pessoa anda estúpida durante muito tempo. Só que, como não nos dizem nada quando nos dão alta, não vamos dali preparados para vivermos com o cérebro a meio-gás. Eu, por exemplo, fui directamente do hospital para a praia com autorização médica[2]. E acreditava mesmo que aquelas duas semanas enevoadas se tinham esfumado completamente. Por que é que não havia de acreditar? Os AVCs não são a minha área de especialidade, e não houve uma única pessoa que me dissesse que, depois das crises agudas, deixam atrás de si um rasto que pode durar meses.
Estou em Estremoz há cinco anos, e nunca fiz férias. Acima de tudo, tinha um desespero de me atirar mar adentro e me deixar ficar lá durante imenso, imenso tempo, para depois me oferecer ao sol da praia como um lagarto, os dedos enfiados na areia e o pensamento inebriado de sal e iodo. Desta vez é que foi a grande desforra: duas grandes amigas, uma com casa no Burgau e outra na Meia-Praia, convidaram-me ao mesmo tempo. Aquilo, assim, dava para tirar mais de uma semana inteira. Que maravilha.
Ou seja, teria dado, e teria sido uma maravilha, se não fosse o AVC.
Assim, foram três dias de praia e cinco dias de hospital.
Por sorte, tive o AVC mesmo em frente da minha amiga da Meia-Praia, que me arrancou da cama ao meio-dia estranhando tanto silêncio, tentou dar-me café e eu deixei logo cair a chávena que se partiu sonoramente no chão de azulejo e me manchou toda, e pronto. Tive a sorte de estar sozinha com uma mulher forte e determinada, que não se deixa impressionar facilmente e que não perde tempo a entrar em acção. Agarrou em mim e levou-me logo para Lagos, de onde me mandaram logo para Portimão, onde ainda demorei dois dias para recomeçar a falar[3] e conseguir andar, mas depois comecei a arrebitar[4] e não houve mais dramas. Hoje horroriza-me pensar que aquilo me podia ter dado sem ninguém notar. Este tipo de acidente é um assaltante extremamente dissimulado. Se me desse à noite em casa, o Sebastião pensaria que eu estava a dormir e não daria nenhum alarme. Quando desse já seria tarde demais. Até no expresso Estremoz-Lagos as pessoas pensariam que eu estava a dormir. Quando um condutor me abanasse no fim da linha também já era tarde demais.
E, no entanto, este AVC deu imensos sinais. Eu é que não os conhecia, e, por conseguinte, não os li.
Fazem-se tantas campanhas para prevenir tantas doenças, e os AVCs tornam-se tão prováveis a partir de uma certa idade, era um mínimo de cautela básica educar também as populações sobre sintomas que podem ser sinais vermelhos.
Antes de ir para o Algarve, eu dormi tanto, tanto, tanto, que perdi duas das camionetas que queria apanhar. Finalmente, já com um dia de atraso, consegui chegar à estação com a minha mala grande cheia de coisas porreiras e com o PC lá dentro. Como o expresso só chegava daí a quatro horas fiz uma confusão de todo o tamanho, achei que estava a chegar a casa e não que ia partir, deixei a mala na estação e voltei para trás, e felizmente estava cá a minha amiga que ia tomar conta do Sebastião que ficou a olhar para mim de boca aberta, e imediatamente a perguntar pela mala. Diz ela que todo o meu discurso estava entaramelado, e que eu só repetia que queria dormir. Depois de muito esforço e muito café que eu entornava com frequência, levou-me de volta à estação e claro que a mala já não estava lá, o que quer dizer que o meu PC, e tudo o que escrevi desde que aqui vivo, também não. Fui para o Algarve com uma malinha de emergência, muito sono, e um grande sobressalto só de pensar na estranheza do meu comportamento. Mas achava, achava genuinamente, que aquilo era tudo o resultado de cinco anos de falta de praia, e agora o mar ia tratar de mim. Como dizem os surfistas,
“A água do mar faz bem a tudo.”
Por isso mesmo, depois de longas horas de conversa à beira-mar com a minha amiga do Burgau, já o sol descia sobre as ondas e todo o mar estava dourado, fui a correr vestir o biquíni e atirei-me de cabeça para dentro do grande bálsamo universal que varre as costas do mundo inteiro. Nadei debaixo de água até já não ter fôlego, e quando voltei à superfície estava fora de pé. Estiquei-me toda a boiar por cima da água, a descansar do meu sprint submarino, a receber o mar e o sol num gozo imenso de regresso e saudade – e depois, quando a maré cheia começou a levar-me para cada vez mais perto da rebentação, virei-me de bruços e decidi ir a nadar à tona até chegar à areia.
Em Portugal, praticamente toda a gente sabe nadar bruços.
Eu aprendi sozinha na Baía de Luanda aí pelos meus quatro anos a imitar o que os outros faziam, e era muito pequenina e aquelas ondas eram bastante mais avultadas do que as do Burgau. Posso não ter nenhum estilo elegante, mas claro que sei nadar bruços.
Pois. Mas naquele fim de tarde, no Burgau, com as ondas suaves da maré cheia a empurrarem-me para a areia, eu não conseguia nadar bruços de maneira nenhuma. Não conseguia coordenar os movimentos das pernas com os movimentos dos braços, nem sequer coordenava os braços um com o outro e as pernas também não, à superfície não tinha qualquer espécie de controlo sobre os meus movimentos. Vim até à rebentação a nadar debaixo de água, e deitei-me ao sol cada vez mais baixo a pensar qualquer coisa como,
“Santo Deus, cinco anos sem ir à praia e estou completamente fora de forma. Tenho de nadar imenso enquanto cá estiver, até acertar outra vez os movimentos todos. Isto devia ser como eu nadava quando era pequenina e comecei a imitar os crescidos, na Baía de Luanda.”
Digo tudo isto porque não há, de facto, qualquer campanha como tantas outras que nos alerte para os sinais inequívocos de um AVC que vem a caminho. A avaliar por esta lista, eu tive uma data de sinais desses. Se soubesse, e se estivesse tranquilamente em Estremoz, iria imediatamente desinquietar o meu médico de família e passar-lhe a bola – ele leria estes sinais muito melhor do que eu e saberia o que devia fazer. Com tudo o que me aconteceu ainda antes de arrancar para o Algarve, teria caído em mim e já não arrancava – uma pessoa que deixa a mala abandonada na estação com o PC lá dentro[5] e confunde estar a partir com estar a chegar, tudo isto sempre presa de uma sonolência tão insistente que a faz falar com a voz cada vez mais entaramelada, não está obviamente em estado de viajar sozinha[6] para lado nenhum. Uma vez mais, é cancelar logo a viagem e passar a bola ao médico de família com o carácter da maior urgência.
Depois há as sequelas. E, quando nos dão alta, também não nos dizem nada a esse respeito. Mas devia ser obrigatório dizerem, porque nós não nascemos ensinados. Antes de nos deixarem sair, alguém tem que ter uma conversa muito séria connosco e avisar-nos de qualquer coisa como,
“Agora tenha muito cuidado com o que faz, e o que pensa, e a forma como se organiza, porque os AVCs não se curam logo, e por menor que o seu acidente lhe tenha parecido, para o seu cérebro foi de uma grande violência. Tenha cuidado sempre que se sentir confusa, que fizer mal as contas, que confundir os dias do mês com os dias da semana[7], que não conseguir encontrar as palavras que procura usar, e olhe… (Céus, quem me dera que alguém me tivesse dito isto a mim) … a senhora não escrevecrónicas para um jornal online? Não se sinta frustrada se ao princípio se cansar imenso a escrever, e precisar de quinze dias para fazer o trabalho que costumava numa tarde. E, acima de tudo, não tenha confiança nenhuma em si própria, releia tudo quatro ou cinco vezes até estar certa de que fez tudo bem. E peça a alguém de confiança que vigie os seus escritos – porque senão, por muito boas que sejam as suas intenções, ainda se arrisca a contar as suas histórias de uma forma que magoa as pessoas que gostam de si.”
A simples experiência da parte da minha vida em que eu sou uma escritora marota que manda vir para o grande público fez-me começar a mandar as minhas crónicas para as minhas irmãs, porque, ainda por cima, peguei em temas tão extremamente delicados que até o nosso director ficou com medo das suas consequências. Fartei-me de levar na cabeça, e ainda bem: o esforço de apresentar o meu material de forma mais adequada puxou seriamente por mim, até me trazer para fora daquele túnel em que eu nem conseguia acertar os relógios. Com o meu esforço e o passar do tempo, estou bem.
Mas continuo a achar imperdoável que nunca se faça uma única campanha de esclarecimento, a nível nacional, sobre um problema que afecta tanta gente. Aviso à Ordem dos Médicos e à Indústria Farmacêutica: se é por não terem ninguém que dê a cara, eu ofereço-me já. Para tudo o que quiserem. E não quero que me paguem nem um cêntimo, porque isso seria deveras vil. Quero é que a vida dos portugueses não acabe cedo demais porque nunca ninguém os ensinou a reconhecer o temível sinal de alarme que, de repente, se acende no meio de um nevoeiro cerrado.
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] E eu, como sou uma zebra bizarra, fico a fazer festinhas atrás da orelha do Sebastião, enquanto saboreio o primeiro café e o primeiro cigarro da manhã. E o Sebastião ronrona. A sério. É um espectáculo desconcertante, um rafeiro alentejano colossal absolutamente podre de mimo a ronronar como se fosse um gato.
[2] “E pronto, faça esta medicação conforme está indicada e já pode voltar à sua vida normal.” – “Então posso ir para a praia?” – A minha amiga desmancha-se a rir. O médico abre os olhos de espanto. “Agora? Com todo este calor? Está maluca?” – “Não doutorzinho, lá mais para as quatro e meia, quando começa a soprar aquele ventinho… eu vim para Lagos para ir à praia e afinal passei o tempo todo no hospital… Vocês são muito queridos, mas eu preferia ainda aproveitar o resto da tarde de hoje,” – “Está bem… se isso é assim tão importante para si…” – “Doutorzinho, a água do mar faz bem a tudo.” – “Pois, os surfistas são os piores.” – “Eu não sou surfista, só gosto deste lema deles porque é absolutamente verdadeiro. Deixe-nos lá ir à praia a partir das quatro e meia, vá” – “Tudo bem, mas só se já houver vento e nunca antes das quatro e meia, ouviu, sua maluca?” – Vira-se para a minha amiga – “A senhora é composta e decente, e já me disseram que foi uma grande académica, acha que consegue conter os ímpetos aqui desta criancinha?” – A minha amiga, que é da minha idade, desmancha-se outra vez a rir. Satisfeito, o médico aperta-nos a mão e vai-se embora.
[3] Havia um paciente nortenho, do outro lado da enfermaria, que sempre que eu fazia uma tentativa nocturna berrava “Ó mulher cala-se que isso mete nervos só de ouvir!”. Eu tentava dizer “desculpe”, mas só agravava a situação.
[4] Recomecei a falar, antes de mais nada. Trapalhona, a precisar de terapeuta da fala, mas desse lá por onde desse estava a falar e as pessoas entendiam-me. Foi um dos maiores alívios que tive na vida. Estava a imaginar-me a fazer apresentações de livros, a participar em debates, só com aqueles fonemas bizarros a saírem-me pela boca fora. Estava a ver o fim da minha vida pública. Estava a ver imensas coisas que não queria ver. Raios me partam, mas é que já me basta o que basta.
[5] E várias outras coisas extremamente preciosas, incluindo um rosário de prata e turquesas herdado da minha avó que eu gostava muito de usar ao pescoço; e alguns fatos de banho daqueles que mais ninguém tem senão eu porque mais ninguém ousaria usar, que é o género de coisa que eu própria confecciono com desvelo, amor, e carinho. E livros muito preciosos para as minhas amigas, claro. E com toda a franqueza? Um saquinho com uma ervinha que há aqui que é muito leve e cheira a esteva, mas bate que não é brincadeira. Mas era pouca e era para partilhar, note-se. No domínio das vaidades, também tinha posto nessa mala as minhas roupas mais impressionantes com acessórios a condizer. Se calhar foi exactamente por causa do Pecado da Vaidade que Deus Nosso Senhor me castigou.
[6] E que fosse acompanhada. Aquela pessoa não está em estado de viajar, ponto final parágrafo.
[7] Ah, gaita, passo a vida agarrada à agenda para ter a certeza da semana em que estou – e ao princípio este esforço não adiantava de nada, porque não conseguia acertar com o mês em que tudo isto se passava.