A 72.ª reunião do Grupo Bilderberg terminou no domingo, em Washington, com os participantes a deixarem o Hotel Salamander de regresso aos seus países na Europa ou, para quem reside nos Estados Unidos, de volta a casa.
Esta foi também uma oportunidade acrescida para os jornalistas conseguirem confirmar algumas presenças, através do registo fotográfico e de uma tentativa de obter declarações finais. Por exemplo, a jornalista Anne Applebaum surgiu em público a caminhar ao lado do seu marido, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Radoslaw Sikorski. No entanto, apesar dos cumprimentos e sorrisos algo forçados, nenhum deles parou para dar uma declaração, ainda que breve.
Radoslaw Sikorski, ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, à porta de Bilderberg, em Washington, com a sua mulher, a jornalista Anne Applebaum.
Confirmou-se depois a presença de Alex Karp, figura recorrente nos encontros e um dos nomes mais reveladores da importância actual do fórum. Enquanto líder da Palantir Technologies, Karp simboliza a intersecção entre tecnologia, segurança e poder político. E não se pode negar que este é um eixo cada vez mais central nas discussões internacionais.
À saída do hotel, Karp, ainda dentro do perímetro de segurança, saudou os jornalistas presentes com um gesto de ‘V’ de vitória, protagonizando assim um dos raros momentos de contacto directo. O significado do gesto, esse, fica em aberto, mas o simbolismo dificilmente é neutro num contexto onde influência e narrativa moldam o mundo moderno.
Uma leitura da lista dos participantes volta a contrariar a tese, por vezes repetida, de que os encontros de Bilderberg perderam a sua relevância.
Alex Karp, responsável da empresa da tecnologia, Palantir, saúda os jornalistas à saída do encontro no Hotel Salamander.Alberto Nadal, ministro sombra do Partido Popular de Espanha, também esteve presente.
A presença de nomes de responsáveis de topo da área da segurança, como é o caso de Blaise Metreweli, directora dos serviços de inteligência internacionais britânicos, MI6, e ainda de decisores políticos ao nível das finanças, como Peter Orszag, presidente da financeira Lazard, juntamente com outras figuras centrais do sector tecnológico, sugere precisamente o contrário: uma concentração de poder informal, mas consistente.
Quando ministros, banqueiros centrais, dirigentes de empresas estratégicas e responsáveis de inteligência se reúnem, de forma coordenada, à porta fechada, a questão não é apenas saber se decidem algo ou não. O problema, e é isso depois que alimenta as chamadas ‘teorias da conspiração’, é o facto de acharem que não precisam de se explicar publicamente.
No lado português, onde o Página Um foi capaz de confirmar a presença de Durão Barroso, acompanhado por Guta Moura Guedes, já fora do encontro, no bar do hotel, vê-se que houve um registo que contrasta com outras delegações mais institucionalizadas. Barroso levou uma pessoa das Artes, Guta, mas também convidou uma pessoa das finanças, Duarte Moreira, da Zeno, cuja presença não se confirmou fotograficamente.
Peter Orszag, CEO da financeira Lazard, à entrada de BilderbergO CEO da Philips, Roy Jakobs, caminha de forma anónima, pelas ruas de Washington, depois de sair do encontro Bilderberg. Ao fundo, o Capitólio.
Mas, por exemplo, Espanha apresentou uma ‘representação’ de nível mais elevado e alinhada com o eixo político-financeiro. Confirmou-se que estiveram em Washington o governador do Banco de Espanha, José Luis Escrivá, o ministro-sombra da Economia do Partido Popular, Alberto Nadal, e ainda a conselheira delegada do grupo Prisa, Pilar Gil, todos convidados por Ana Botín, presidente do Banco Santander. Também esteve no encontro de Washington a espanhola Nadia Calviño, presidente do Banco Europeu de Investimentos (BEI).
Com discussões na agenda como a diversidade da energia, a Inteligência Artificial e questões como a guerra na Ucrânia e o conflito no Médio Oriente, não se pode dizer que Bilderberg perdeu a sua importância. Antes pelo contrário: quanto menos se fala de Bilderberg, maior é a sua importância. Por isso é que o PÁGINA UM, ao falar sobre Bilderberg, dá mais importância aos seus leitores.
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Leia as crónicas de Frederico Duarte Carvalho em Washington a acompanhar o encontro do Grupo Bilderberg.
No final da 72.ª reunião do Grupo Bilderberg, já depois de abandonado o perímetro de segurança que durante quatro dias isolou os participantes no Hotel Salamander, em Washington, dois dos nomes portugueses prolongaram a noite num registo mais discreto — e, por isso mesmo, revelador da natureza informal que também caracteriza estes encontros.
José Manuel Durão Barroso, ex-primeiro-ministro português e antigo presidente da Comissão Europeia, e gestora cultural Guta Moura Guedes – a grande surpresa entre a restrita lista de convidados da reunião de Bilderberg – ficaram no bar do hotel quando praticamente todos os restantes convidados já tinham saído.
Ali, longe dos acessos vedados aos jornalistas, partilharam um último copo e uma conversa demorada: Barroso optou por um Pinot Noir – uma casta de uva tinta produzido sobretudo na Borgonha, mas também disponível em Portugal –; já Guta Moura Guedes preferiu um Sancerre – um branco fresco e elegante do Vale do Loire que cai a matar com um queijo de cabra.
Pela tabela dos preços do bar do hotel, Barroso pagou 20 dólares pelo seu copo (inicial) – e mais 25 dólares pelo Saucerre se tiver sido cavalheiro.
Este episódio, aparentemente trivial, ganha relevância quando enquadrado na teia de relações e convites que marcam o universo Bilderberg. Barroso integra a comissão diretiva desde 2015, ano em que sucedeu a Francisco Pinto Balsemão, assumindo desde então um papel activo na selecção de participantes — incluindo a possibilidade de convidar nomes da sua esfera de influência.
Foi nesse contexto que, em 2017, convidou António Mexia, companheiro de longa data de Guta, para a reunião então realizada nos Estados Unidos.
Contudo, nesse ano Mexia acabaria por não marcar presença. O seu nome constava da lista oficial de convidados, mas uma investigação relacionada com a EDP impediu a sua deslocação à última hora.
Curiosamente, nesse mesmo ano, outro convidado inscrito na lista também não chegou a participar — por motivos bem distintos: J. D. Vance, actual vice-presidente dos Estados Unidos, cancelou a sua presença por ter sido pai do seu primeiro filho, Ewan, nascido nos primeiros dias de Junho de 2017. Um detalhe que, à distância de quase uma década, ganha um peso simbólico adicional, tendo em conta o percurso político entretanto percorrido.
A carta de vinhos do Hotel Salamander.
Nove anos depois, o círculo fecha-se de forma quase irónica. Se em 2017 o convite de Barroso a Mexia acabou por não se concretizar, em 2026 é Guta Moura Guedes — sua companheira — quem surge efetivamente em Washington, integrada no mesmo universo de relações que então ficou em suspenso.
A presença ganha particular significado por não corresponder a um perfil político ou económico clássico do núcleo duro Bilderberg, reforçando a ideia de que os convites podem reflectir não apenas posições institucionais, mas também redes pessoais e de influência.
O momento no bar do Hotel Salamander, já fora do olhar institucional, mas apanhado pelos olhos do PÁGINA UM, acaba assim por condensar vários dos traços característicos do Grupo Bilderberg: opacidade, informalidade e continuidade de relações ao longo do tempo.
Mais do que decisões formais, são estes encontros paralelos — onde um Pinot Noir e um Sancerre acompanham conversas sem registo — que ajudam a compreender como se constroem e mantêm as redes que orbitam este (misterioso mas também encantador) fórum internacional.
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Leia as crónicas de Frederico Duarte Carvalho em Washington a acompanhar o encontro do Grupo Bilderberg.
O terceiro dia da reunião do Grupo Bilderberg, em Washington, ficou marcado por um contraste revelador entre o aparato de segurança e a força dos elementos naturais do espaço: as rajadas de vento insistiam em derrubar a barreira que impedia os jornalistas de tirarem fotografias da entrada do Hotel Salamander. A situação teve o seu quê de caricato, com a barreira a cair por três vezes, obrigando os seguranças a um esforço extra.
Na verdade, essa limitação formal revelou-se facilmente contornável. Vários participantes optaram por entradas e saídas laterais, atravessando zonas com acesso público ou visíveis a partir de jardins contíguos. Em alguns pontos, bastava subir um pequeno muro para ultrapassar a linha de visão bloqueada e captar imagens — algo que alguns jornalistas conseguiram fazer. A ideia de isolamento absoluto, frequentemente associada ao encontro, esbate-se assim perante a realidade de um espaço urbano onde o controlo é, inevitavelmente, parcial.
Margrethe Vestager à porta de Bilderberg assume que agora é uma “facilitadora”.
Foi nesse contexto que se registaram algumas presenças e interacções relevantes. A dinamarquesa Margrethe Vestager, comissária europeia com a tutela da Concorrência entre 2014 e 2019, voltou a surgir no exterior e chegou mesmo a trocar algumas palavras com jornalistas. Questionada sobre a diferença entre o seu antigo papel como comissária europeia e a actual posição na direcção do Bilderberg, respondeu com ironia subtil: enquanto na Comissão “fazia acontecer coisas”, ali assume-se sobretudo como uma “facilitadora”. Uma formulação que, mais do que esclarecer, ilustra o carácter informal destas redes de influência.
Outras figuras foram sendo avistadas à distância, entre entradas discretas e deslocações pouco expostas. A identificação nem sempre foi imediata, sobretudo nas zonas ajardinadas com visibilidade parcial, onde a observação dependia mais da persistência do que da proximidade.
Ainda assim, confirmou-se que, mesmo sob forte vigilância, há margem para o exercício de reportagem. Registou-se, por exemplo, a presença de Mathias Döpfner, CEO da Axel Springer, proprietário de publicações jornalísticas como, por exemplo, o jornal alemão Bild e a revista em língua inglesa Politico. Ao seu lado, vindo de um passeio pelas imediações do hotel, estava John Micklethwait, editor-chefe da Bloomberg.
Mathias Dopfner, do Bild e Político, abre a porta do Hotel Salamander ao editor-chefe da Bloomberg, John Micklethwait.A barreira de segurança foi ineficaz contra o vento.O helicóptero do Presidente é uma presença habitual no céu de Washington, mas não houve sinais da presença de Donald Trump no encontro privado a decorrer na capital dos Estados Unidos.
Ao contrário de edições anteriores, como em Lisboa, Madrid ou Estocolmo, o terceiro dia não incluiu qualquer deslocação externa para jantar. Em Lisboa, o jantar oferecido pelo presidente Marcelo Rebelo de Sousa teve lugar no Palácio Nacional da Ajuda. Em Madrid, foi na cidade financeira do Santander, já que a anfitriã do encontro era Ana Botín, presidente do banco espanhol. E na Suécia foi um outro banqueiro a oferecer o jantar, Markus Wallenberg, levando os convidados internacionais, de barco, até ao local do banquete.
Em Washington, os participantes permaneceram no interior do hotel, atrás de panos pretos para evitar olhares indiscretos, sem eventos sociais visíveis fora do perímetro. Também não houve sinais claros da presença de Donald Trump: embora um helicóptero presidencial tenha sobrevoado a cidade a meio da tarde, não houve qualquer movimento de segurança acrescida que permitisse estabelecer ligação directa com o encontro.
Curiosamente, ao fundo do quarteirão do hotel, decorreu durante a tarde uma pequena manifestação em frente ao Immigration and Customs Enforcement (ICE). Um grupo reduzido de manifestantes protestava de forma colorida e com humor contra políticas migratórias, mas sem qualquer consciência de que, nas imediações, decorria uma das reuniões mais exclusivas do circuito internacional.
Ao cair da noite, ao contrário de edições anteriores, os participantes jantaram no hotel atrás de panos pretos para evitar olhares indiscretos.Perto do hotel decorreu uma manifestação colorida em frente da sede do ICE, o polémico serviço de imigração dos Estados Unidos.
A surpresa era total quando verificavam as informações públicas sobre a lista oficial de convidados, mas o sentimento de incredulidade instalava-se quando percebiam que a imprensa de referência, apesar da importância jornalística evidente, não estava a fazer o seu trabalho.
Portanto, entre barreiras que caem com o vento e encontros que permanecem fora do alcance directo, o terceiro dia do Bilderberg confirmou que não há um secretismo absoluto, mas persiste na mente jornalística essa imagem de uma zona cinzenta entre o visível e o inacessível.
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Leia as crónicas de Frederico Duarte Carvalho em Washington a acompanhar o encontro do Grupo Bilderberg.
No segundo dia do encontro Bilderberg, em Washington, repetiu-se um ritual antigo de quem está habituado a cobrir estas reuniões e que é a única forma de escrutínio possível: esperar à porta.
Sem acesso directo ao interior, jornalistas posicionam-se nas imediações do hotel, observando entradas e saídas, cruzando rostos com listas oficiais que, como é sabido, só são divulgadas no próprio dia e nem sempre são completas. É neste jogo de confirmação que se tenta perceber quem está, de facto, dentro da sala onde se discutem temas que, dias depois, dominarão a agenda global.
Margrethe Vestager, ex-comissária da União Europeia para a Concorrência.
Apesar de serem todos figuras de topo, ainda assim, se o participante não for uma figura imediatamente reconhecível a nível internacional e se o jornalista não estiver familiarizado com o rosto de, por exemplo, o governador do Banco Nacional de Espanha, é sempre preciso confirmar se esse alguém é mesmo aquele a quem se atribuiu a confirmação da presença.
A segurança mantém-se apertada. É a sua obrigação. Mas há alturas em que os convidados circulam em espaços públicos, ou de acesso público à sua imagem, pelo que, de uma maneira ou outra, esse labor jornalístico vai sendo cumprido.
Esse foi o caso da dinamarquesa Margrethe Vestager, antiga comissária europeia, que saiu para um passeio a solo por Washington. De acordo com as regras do encontro privado, os convidados podem falar sobre o que foi dito, mas não podem dizer quem disse o quê. Mas mesmo nas aproximações públicas, os participantes nem sequer querem explicar aos jornalistas os motivos e as ideias do que disseram em privado a outras personalidades do seu nível. E isso, claro, é complicado quando se pretende transparência e um vislumbre de “democracia”.
Geoffrey van Leeuwen, director do Gabinete do Secretário-Geral da NATO.
De qualquer modo, Vestager confirmou ao Página Um que o ex-primeiro-ministro António Costa, apesar de ter o seu nome na lista provisória, não apareceu no encontro em Washington.
Apesar de o nome não constar também na lista oficial, há casos passados em que essa ausência não exclui uma presença efectiva. Costa, por exemplo, não estava na lista do encontro de 2023, em Lisboa, mas foi ao hotel, na Ajuda, apresentar cumprimentos a alguns convidados da sua família política.
Entre as confirmações possíveis, destaca-se a presença do secretário-geral da NATO, Mark Rutte, que teve um encontro com Donald Trump na quarta-feira, dia 8 de Abril, seguindo depois para o hotel Salamander, não muito longe da Casa Branca, onde ficará em reuniões de mais alto nível até domingo.
Roy Jakobs, CEO da Royal Philips, com Dan Dicks/Press for Truth.
Também foi possível confirmar a presença do seu chefe de gabinete, Geoffrey van Leeuwen, que esteve ocupado em conversas telefónicas em espaço público, fora do ambiente de segurança do interior do hotel. Abordado pelos jornalistas quando regressava ao local da reunião, recusou-se a comentar os trabalhos privados em que se encontra.
Também o director executivo da Philips esteve em espaço público, confirmando-se assim a sua presença num encontro onde se fala de assuntos que, de certeza, merecem a sua dedicação e atenção a ponto de justificar um fim-de-semana de trabalho.
Entretanto, até mesmo no espaço de chegadas do aeroporto foi possível confirmar a presença de José Luis Escrivá, actual governador do banco central espanhol, anterior ministro de Pedro Sánchez com as pastas da Transformação Digital e Serviço Público, e ainda da Inclusão, Segurança Social e Migração.
José Luís Escribá, governador do Banco de Espanha.
Portanto, nada de novo em Bilderberg, poder-se-ia dizer: secretismo, listas incompletas, acesso limitado. E, no entanto, tudo é novo no mundo que dali sai. Porque são, em larga medida, estas mesmas figuras, vistas hoje à distância, protegidas pelo silêncio, que depois serão os influenciadores do espaço mediático com decisões, declarações e políticas.
A diferença é que, nesse momento, já ninguém estará à porta a perguntar quem lá esteve.
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Leia as crónicas de Frederico Duarte Carvalho em Washington a acompanhar o encontro do Grupo Bilderberg.
Essa é, aliás, uma das dificuldades estruturais do jornalismo quando tem de cobrir os encontros privados das figuras públicas de Bilderberg. A lista de participantes só é divulgada no próprio dia em que a reunião começa, o que abre espaço a especulação prévia, muitas vezes baseada em informações parciais, mas não necessariamente erradas.
Hotel Salamander, onde se realizará a reunião do Grupo Bilderger.
Com a lista oficial agora publicada, e na ausência de uma análise detalhada por parte de muitos órgãos de comunicação social de referência, torna-se ainda mais relevante o trabalho de verificação no terreno.
É isso que está a acontecer com jornalistas que já são ‘veteranos’ nestas reuniões, como o caso do canadiano Dan Dicks e o americano Josh Friedman. Ainda que estejam impedidos pela organização de aceder a um qualquer espaço de Imprensa no interior do hotel, tentam confirmar presenças e movimentos no local. O próprio Página Um encontra-se em Washington, juntamente com estes profissionais.
Ainda assim, há a convicção de que a lista provisória tinha um fundo de verdade. O caso de António Costa é ilustrativo: constava da lista inicial, mas mesmo sem estar na versão oficial, a sua ausência levanta dúvidas, mas não invalida que pudesse ter sido considerado ou até confirmado numa fase anterior.
No Aeroporto Internacional de Dulles é assim que os convidados sabem quem os espera. Uma simples placa em azul, a cor de Bilderberg, com os dizeres do local e ano: discreto e directo.
Situação semelhante ocorre com Peter Thiel, figura habitual nas reuniões e membro do comité director, pessoa dentro do núcleo duro do grupo. A sua não inclusão na lista oficial deste ano causa surpresa, podendo ser explicada apenas por questões de agenda, já que a sua presença, à luz dos temas em discussão, seria expectável.
Por outro lado, há nomes cuja presença nas duas listas reforça a ideia de que a versão inicial não era arbitrária. É o caso de Guta Moura Guedes, estreante neste tipo de encontros, e cuja inclusão dificilmente seria ‘inventada’, atendendo ao seu perfil específico.
A sua presença é geralmente interpretada como convite pessoal no âmbito da rede de José Manuel Durão Barroso, que há vários anos, ao contrário do seu antecessor, Francisco Pinto Balsemão, deixou de levar políticos portugueses, optando antes por convidados de outro perfil. Esse é o caso de Duarte Moreira, que também constava da lista inicial e surge agora confirmado. No ano passado, recorde-se, Barroso levou Diogo Savi à reunião de Estocolmo, o que reforça a ideia de um padrão de convites pessoais e seletivos.
Mas mais relevante do que a composição exata da lista é agora a leitura da agenda oficial. Os temas em debate este ano oferecem um retrato claro das prioridades estratégicas: Inteligência Artificial, Árctico, a indicar uma ligação direta entre Estados Unidos, Rússia e Gronelândia. Depois, temas descritos apenas com itens sem qualquer especificação, como “China”, “Finança Digital” e “Diversificação Energética”.
Este último ponto ganha especial relevância no contexto atual, marcado pela instabilidade no Estreito de Ormuz e pelas tensões no Médio Oriente, o que coloca novamente no centro da discussão a questão da autonomia energética europeia, incluindo o papel da energia nuclear.
A “Europa” também surge como tema autónomo, o que é revelador. Junta-se a isso o comércio mundial, o Médio Oriente, a Rússia, a relação transatlântica, a indústria da defesa, a Ucrânia e, de forma mais abrangente, os próprios Estados Unidos. Há ainda referências ao futuro da guerra e ao papel do Ocidente, num enquadramento que abrange praticamente todas as dimensões do atual sistema internacional.
Aeroporto Internacional Washington Dulles, a 43 quilómetros da cidade de Washington.
Comparando com a agenda de reuniões anteriores, como a de Estocolmo, nota-se uma ligeira inflexão. Temas como as migrações, que estiveram em destaque no ano passado, desaparecem este ano da lista oficial. Em contrapartida, reforçam-se áreas como tecnologia, energia e defesa, sinalizando uma deslocação do foco para questões mais diretamente relacionadas com conflito, soberania e poder estratégico.
Resta, como sempre, acompanhar o que é possível. Confirmar presenças, observar dinâmicas, cruzar agendas. Num encontro onde não há actas, nem declarações finais, nem acesso directo aos participantes, o trabalho jornalístico faz-se precisamente nesse espaço intermédio: entre o que é dito oficialmente e o que se consegue verificar.
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Leia as crónicas de Frederico Duarte Carvalho em Washington a acompanhar o encontro do Grupo Bilderberg.
A gestora cultural e designer Guta Moura Guedes é a grande surpresa entre a lista dos selectos convidados portugueses para a edição deste ano do Grupo Bilderberg, que se reunirá no final desta semana em Washington, segundo uma lista provisória a que o PÁGINA UM teve acesso. Portugal estará representado ainda por Durão Barroso, uma das actuais figuras de proa deste clube que se fundou em 1954, que, este ano, voltou a convidar o empresário Duarte Moreira, da Zeno Partners.
Haverá ainda um quarto convidado português, mas como participante de nível internacional, na pessoa do ex-primeiro-ministro português, e actual presidente do Conselho Europeu, António Costa. Com ele, viajará também, desde Bruxelas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen e a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas. A confirmação destes nomes, contudo, só será feita no dia do início deste encontro de cariz privado.
Guta Moura Guedes. Foto: Francisco Sá da Bandeira (D.R.)
Esta reunião anual privada reúne importantes figuras da política e do mundo empresarial. Porém, devido ao facto de tantas personalidades públicas com responsabilidades a nível mundial se reunirem à porta fechada, e nem se conhecerem os critérios dos convites sobretudo àqueles que não são ‘fixos’, faz com que estes encontros acabem por levantar dúvidas sobre os verdadeiros objectivos dos planos pessoais dos apelidados ‘Donos do Mundo’. Acresce a isto o facto de não existir escrutínio da Imprensa e nunca haver declarações finais,
A confirmação de que o encontro será em Washington no final desta semana foi, talvez inadvertidamente, feita pelo secretário-geral da NATO, o holandês Mark Rutte, através de uma nota da sua agenda oficial, anunciando a deslocação à capital dos Estados Unidos, para um encontro com o Presidente, Donald Trump, amanhã.
O líder da NATO indicava ainda que permaneceria depois na capital norte-americana até ao próximo domingo, dia 13, para participar na reunião do Grupo Bilderberg. Uma informação depois divulgada pelo jornal Wall Street Journal.
Durão Barroso é um dos convidados ‘fixos’ dos últimos anos do Grupo Bildeberg.
Este ano, a reunião ocorrerá mais cedo do que o habitual nos últimos anos, já que os encontros, por regra planeados com um a dois anos de antecedência, realizam-se entre a última semana de Maio e as primeiras semanas de Junho. Não é normal acontecer tão cedo, em Abril, surgindo assim a especulação de que poderia ter sido antecipada devido ao início do conflito do Irão.
Da lista provisória agora conhecida, destaca-se a presença do comandante do Indo-Pacífico dos Estados Unidos, Samuel Paparo, num sinal claro de que a contenção da China também está na equação. A coincidência temporal com a deslocação de Rutte a Washington para reuniões com Donald Trump reforça a leitura de que o eixo transatlântico está em fase de reajuste estratégico.
Mas não é apenas a guerra que está em cima da mesa — é o seu financiamento e as suas consequências. A presença de figuras como Fatih Birol, da Agência Internacional de Energia, de Patrick Pouyanné, da TotalEnergies, e ainda das responsáveis do FMI e Banco Central Europeu, Kristalina Georgieva e Christine Lagarde, aponta para uma discussão paralela sobre energia, inflação e estabilidade financeira. Num contexto de tensão no Médio Oriente e volatilidade dos preços do petróleo, a energia continua a ser o motor invisível dos conflitos.
A dimensão tecnológica surge também como um terceiro pilar. Entre os participantes estarão Satya Nadella (Microsoft), Demis Hassabis (Google DeepMind), e Alex Karp e Peter Thiel (Palantir), com ligações directas a operações militares e de inteligência. A guerra contemporânea faz-se tanto com algoritmos como com armamento, e a presença destes atores indica que a inteligência artificial, a análise de dados e a vigilância são hoje componentes centrais da arquitetura de poder.
A isto soma-se o peso da finança global. Figuras como Peter Orszag, da emp+resa Lazard, ou o CEO do Deutsche Bank, Christian Sewing, ou o ex-secretário geral da NATO, o norueguês Jens Stoltenberg, agora ministro das Finanças do seu país, indicam que situações como questões de dívida, da reconstrução da Ucrânia e da estabilidade dos mercados vão estar igualmente no centro das conversas. Não se trata apenas de gerir crises, mas de definir quem suporta os custos e quem beneficia das transições económicas que delas resultam.
Finalmente, há um elemento frequentemente subestimado: a presença de decisores mediáticos. A presença de editores da Bloomberg, do Financial Times, do Economist e do jornalista e escritor Fareed Zakaria mostram que, a par das decisões, está também em causa a forma como estas são narradas.
Primeira página da lista ‘confidencial’ do encontro em Washington.
Este padrão mostra-se consistente com a lógica histórica do Bilderberg: um espaço onde política e militares definem estratégias, a finança e a energia asseguram a viabilidade, a tecnologia executa e transforma, e os media enquadram. Tudo isto fora de estruturas formais e sem registo público detalhado.
Aliás, num mundo marcado por guerra na Ucrânia, tensões no Médio Oriente e competição tecnológica global, este tipo de encontros deixa de ser uma curiosidade para passar a integrar, de forma discreta, a própria engrenagem do poder.
A tomada de posse de António José Seguro e a polémica com o vestido Valentino da sua mulher, Margarida, trouxe-me a memória recente do dia em fui ao cinema ver o documentário “Melania”, sobre a primeira-dama dos Estados Unidos e os 20 dias anteriores à tomada de posse do segundo mandato do marido, Donald Trump.
Digo-vos que, na altura, quis ir ver o filme, porque diziam que ninguém o queria ver. Calhou até ser a última exibição em Portugal, e estavam quatro pessoas a assistir na sala. Eu era essa quarta pessoa.
Foto: D.R.
Paguei 4,90€, pois beneficiei do desconto do dia do espectador. Sei que haverá sempre alguém que dirá: “Nem 4,90€ dava por um filme sobre a Melania, que ainda por cima custou 40 milhões e foi realizado por um amigo do Epstein com fama de homofóbico e abusivo”. Têm toda a razão, mas foi precisamente por isso, para mim, que se tornou ainda mais importante ter de ir ver a obra sobre a primeira-dama dos Estados Unidos.
(Sei que esse também não vão perder a oportunidade de o ir espreitar, sem o assumir, num qualquer canal de televisão por cabo ou arranjar por aí uma versão pirata)
O filme é propagandístico, uma espécie de hagiografia moderna de Melania Trump. E era precisamente disso que estava à espera e não me desiludi. Claro que o realizador Brett Ratner não tem a mesma qualidade de uma Leni Riefenstahl – para quem não sabe (suspiro), era uma extraordinária realizadora alemã que viveu no tempo de Hitler. E sim, fez uns documentários para o Reich.
Foto: D.R.
Para além de jornalista, também sou cidadão e, combinando ambas características, acho perigoso andar a opinar sobre coisas que não conhecemos. Pior ainda se estivermos a falar de um filme que nunca vimos apenas porque sabemos que não o queremos ver. Aquilo que ninguém quer ver, acaba por se tornar depois no que mais importa discutir.
“Melania” não é certamente um grande filme. Não é cinema de autor, não está indicado para ganhar prémios, nem sequer tenta disfarçar a sua intenção política e emocional. Mas é um documento, um registo histórico e, goste-se ou não da personagem, isso, por si só, já lhe dá valor.
Houve alturas em que dei algumas gargalhadas mais sonoras, confesso. Não estou a falar das partes em que Melania fala de si própria (essas são mais solenes, mais ensaiadas), mas de algumas cenas que são involuntariamente deliciosas.
Foto: D.R.
Há imagens de bastidores que parecem saídas de uma sitcom política como, por exemplo, o momento em que Trump e Joe Biden, após o juramento presidencial, ouvem as instruções do responsável do protocolo enquanto lhes explica os passos para o adeus final ao antigo Presidente, e ambos trocam sorrisos e piscares de olho como se fossem dois miúdos marotos na escola. Ver isto numa sala de cinema quase vazia foi mesmo um privilégio.
Antes disto, já tínhamos visto Melania a preparar, com detalhe minucioso, o vestido para o baile de gala, com o estilista Hervé Pierre, no alto do seu apartamento de Manhattan. Já a tínhamos visto numa visita pessoal à igreja nova-iorquina de Saint Patrick, onde foi acender uma vela em memória da mãe, que falecera um ano antes — uma cena que não respeita o silêncio respeitoso da solenidade da Igreja Católica, mas inclui, como música de fundo, o “Amazing Grace” de 1972, pela voz eterna de Aretha Franklin, um gospel mais adequado à igreja protestante afro-americana. Mas, no fundo, Melania é uma católica emigrante nos EUA disposta a criar uma unidade entre todos os norte-americanos.
Quem está mesmo crescido é o filho, Barron — altíssimo, quase surreal de tão grande. Era um miúdo quando o vimos aparecer, em 2016, na noite da primeira vitória do pai. Foi terno ver o seu regresso à Casa Branca, onde viveu entre os seus 10 e 14 anos, reencontrando caras conhecidas entre os empregados. Foi para assistir a momentos como esse que valeu a pena pagar o bilhete.
E é aqui que mora o verdadeiro perigo daquele documentário.
Foto: D.R.
No final, quase simpatizamos com a família Trump. Eles aparecem como um casal normal, cansados depois do baile, sentados numa das salas da Casa Branca, como se fossem os vizinhos do lado, depois de um casamento longo. Humanos. Próximos. A propaganda funciona precisamente aí: não nos convence politicamente — mas aproxima-nos emocionalmente.
Não deixei de notar no facto de que o povo está fora do filme. Não há contacto real com pessoas comuns. Uma cena particularmente reveladora é aquela em que Melania diz algo como: “Hoje é o meu último dia como cidadã privada.” E como é que essa transição é mostrada? Com a futura primeira-dama a entrar no avião privado com o nome “Trump” escrito a letras gordas.
Não há uma imagem sua a passear na rua, nem um aperto de mão ao homem comum ou um sorriso face um rosto anónimo. Compreende-se: afinal o marido tinha sido alvo de uma tentativa de assassinato meses antes. Há coisas a evitar.
Tomada de posse de Donald Trump no seu primeiro mandato como Presidente dos Estados Unidos, em 20 de Janeiro de 2017. Melania Trump vestiu um conjunto azul-céu, de caxemira, de Ralph Lauren. / Foto: D.R.
Mas há o contraste entre o luxo e os corredores de garagens, e ainda uma rara visita aos bastidores do Congresso no dia da tomada de posse. Há Melania dar um conselho para uma palavra que Trump vai depois incluir no seu discurso: “unificador”. Há um mundo à parte que nos foi aberto por 40 milhões de dólares e que devíamos ter aproveitado melhor.
Sei que aproveitei, pois fui o último a sair da sala (estive a ver a ficha técnica até ao fim – sim, sou desses, ok?) e o filme saiu de sala no dia seguinte. Fui então a última pessoa em Portugal que viu “Melania” numa sala de cinema. E tudo isso graças a quem não o foi ver.
Agora, ao pensar nisso, expliquem-me uma coisa se souberem: alguém se lembrou de fazer um filme, em Portugal, com o título “Margarida”? Pois é. Aquilo do documentário da Melania não era mesmo para qualquer um.
Agora que Portugal se despede de António Lobo Antunes, falecido no dia 5 de Março, fomos aos arquivos recordar e, sobretudo, esclarecer um episódio registado na Imprensa portuguesa e que provocou um equívoco sobre a relação entre Lobo Antunes e José Saramago, o prémio Nobel da Literatura de 1998.
Estamos a falar de uma entrevista a António Lobo Antunes, à revista Ler, na edição de Maio de 2008, assinada por Carlos Vaz Marques. Nessa conversa, o jornalista perguntou a Lobo Antunes como era a sua relação com José Saramago, ao que o escritor respondeu: “Eu não tenho nada a ver com o que ele escreve. Nada. Conheço muito mal a obra. Não tem nada que ver com a pessoa. O homem é da idade do meu pai. Não tem nada que ver com ele. Espanta-me sempre esse matrimónio. Isso, para mim, não faz qualquer sentido”.
Revista Ler, de Maio de 2008, com a entrevista de Carlos Vaz Marques a António Lobo Antunes, onde o escritor afirma que José Saramago atirou um livro dele ao chão e que lhe mostraram uma fotografia desse momento.
Carlos Vaz Marques insistiu no tema e procurou esclarecer se existia, ou não, uma “alegada rivalidade entre os dois”, ao que Lobo Antunes respondeu, de forma taxativa: “Não. Eu não sinto nenhuma”, mas acrescentou: “Mostraram-me uma vez uma fotografia em que o homem atirava ao chão um livro meu. Deu-me vontade de rir. Mas o homem nem sequer me é antipático. Eu não o conheço”.
Era uma acusação séria: José Saramago, prémio Nobel da Literatura, era acusado de ter atirado ao chão um livro de um outro escritor português que foi sempre considerado igualmente merecedor da mesma distinção e reconhecimento internacional. E isso foi dito pelo próprio autor visado no episódio.
Ora, Carlos Vaz Marques foi depois entrevistar José Saramago, para o número do mês seguinte da revista Ler, e procurou esclarecer o episódio relatado por Lobo Antunes. Começou então por perguntar ao prémio Nobel de 1998 se, ao contrário de Lobo Antunes que dizia não ler obras de Saramago, ele lia os romances do outro escritor.
Na edição do mês seguinte da revista Ler, Carlos Vaz Marques confrontou José Saramago com a acusação de Lobo Antunes.
Saramago disse que “ao princípio, sim”, até que os lia e, depois de um pausa, afirmou: “Pois, para quem nunca leu um romance meu, ele desdobrou-se em opiniões a meu respeito, como escritor. Tem todo o direito a não ter lido e a continuar a não ler, até ao fim da vida, uma só linha minha. Mas, em princípio, isso retira-lhe o direito de julgar”.
Saramago não se ficou por aqui na apreciação e rematou: “E há uma outra coisa, em toda esta história lamentável: eu nunca me comportei, em relação ao Lobo Antunes, como ele em relação a mim”. Foi então, na sequência desta resposta, que Carlos Vaz Marques lembrou a acusação de Lobo Antunes feita na entrevista da edição anterior da revista Ler: “Ele diz, nessa mesma entrevista, que há uma fotografia do José Saramago atirando um livro dele ao chão”.
O Nobel português exprimiu toda a sua indignação, que ficou registada na entrevista publicada no número 70 da Ler: “Que disparate é esse? Que disparate é esse, pá?! Ele não precisa de inventar coisas para reforçar a sua animadversão em relação a mim. Não invente! Quer dizer, você que me conhece razoavelmente, diga-me: é capaz de imaginar-me a atirar ao chão um livro de um suposto rival ou competidor, fosse ele português, espanhol, italiano, uruguaio ou o que quer que fosse? Isso não é infantil? A raiva expressa dessa maneira?”
Saramago indignou-se com a sugestão de que teria atirado ao chão um livro de Lobo Antunes. O Nobel da Literatura de 1998 afirmou que era um “disparate” e desafiou que lhe mostrassem a foto que diziam existir. Ficou a dúvida sobre quem tinha razão.
Perante uma negação enfática de Saramago, Carlos Vaz Marques ainda insistiu e lembrou o detalhe da fotografia: “Segundo António Lobo Antunes isso foi fotografado”, afirmou. Ao que o escritor, acusado de ter atirado o livro ao chão, perguntou ao jornalista: “E onde é que está esse documento que ninguém viu? Não há nenhum documento fotográfico porque a situação que o documento fotográfico supostamente ilustra não existiu”.
Carlos Vaz Marques calou-se. Não tinha mais argumentos, não vira nenhuma fotografia e sua pergunta baseou-se apenas na declaração de Lobo Antunes e, depois, numa confrontação com Saramago, sem provas daquilo que Lobo Antunes denunciara.
E a história ficou assim, no ‘diz que disse’. Saramago faleceu dois anos depois, a 18 de Junho de 2020, com a suspeita de que um dos escritores estaria a mentir em relação ao outro. Agora, foi Lobo Antunes que inventou a história? Ele viu mesmo uma foto onde Saramago atirava um livro seu ao chão? Ou será que Saramago realmente atirou um livro de Lobo Antunes ao chão, mas como sabia que não havia nenhuma foto, podia negar que o fizera? Embora Carlos Vaz Marques nunca o tivesse esclarecido, a história tem uma explicação.
A 24 de Dezembro de 1998, o semanário Tal&Qual entregou prendas de Natal a várias personalidades públicas. José Saramago, que acabara de receber o Nobel da Literatura, recebeu um exemplar do “Livro de Crónicas” de António Lobo Antunes.
Na origem deste episódio está um artigo publicado no semanário Tal&Qual, no dia 24 de Dezembro de 1998, pouco depois de José Saramago ter recebido o prémio Nobel das mãos do Rei da Suécia. A reportagem contou como um livro de Lobo Antunes foi “atirado ao chão” por Saramago, num momento documentado com fotos.
O semanário Tal & Qual, conhecido pelo seu estilo irreverente e por reportagens com algum humor, preparou em 1998 uma edição especial de Natal com uma ideia simples: entregar presentes simbólicos e inesperados a várias figuras públicas. Algumas dessas ofertas tinham um tom claramente satírico — como discursos de Mário Soares para Jorge Sampaio ou uma fotografia de Pinto da Costa para Vale e Azevedo —, num espírito que misturava reportagem e brincadeira.
O acaso acabou por criar uma oportunidade particular. José Saramago, encontrava-se hospedado no Hotel Altis, perto da redacção. O jornalista (por acaso, autor destas linhas), vestiu-se de Pai Natal e foi apresentar-lhe um presente inesperado: o embrulho continha um exemplar do primeiro volume do “Livro de Crónicas” de António Lobo Antunes, recém-lançado e comprado, poucas horas antes, na livraria Bucholz.
José Saramago recebe a prenda das mãos do jornalista do Tal&Qual, vestido de Pai Natal, no átrio do Hotel Altis, em Lisboa, poucos dias após ter recebido o Nobel da Literatura das mãos do Rei da Suécia. Foto: José Carlos Pratas/Tal&Qual
A cena tinha algo de quase teatral. O escritor parecia um menino pequenino, com olhos a brilhar, quando abriu o presente com curiosidade. Durante alguns instantes, tudo parecia decorrer com naturalidade. Mas quando percebeu qual era o livro e quem era o autor, a reacção mudou. Saramago devolveu o volume, deixando claro que não queria aceitar aquela oferta, que interpretou como uma provocação.
Não o atirou ao chão. A cena da devolução do livro foi captada pela lente atenta do fotojornalista José Carlos Pratas. Vê-se claramente que o Nobel simplesmente recusou o livro e devolveu-o ao jornalista do Tal&Qual.
Acontece que este episódio, quando foi depois relatado no artigo do semanário teve um título que seria hoje considerado como ‘inaceitável’ num ‘Crivo da Verdade’ do ContraProva: “Atirado ao chão”.
O título do artigo, “Atirado ao chão” era um trocadilho com a obra de Saramago, de 1980, “Levantado do Chão”. Como as fotos documentam, Saramago não atirou o livro ao chão. Mas a metáfora criou um erro na mente de Lobo Antunes.
A escolha do título induzia o leitor ao engano, pois dava a entender que José Saramago atirara mesmo para o chão um livro de António Lobo Antunes. Só que isso não batia certo com a sequência registada pelas fotos que ilustravam o texto.
As três imagens do texto com o título “Atirado ao chão”, mostrava toda a sequência do sucedido: a entrega do livro embrulhado, seguido do momento em que Saramago abre o presente e, finalmente, a devolução da prenda ao jornalista vestido de Pai Natal. O “Livro de Crónicas” de Lobo Antunes nunca foi atirado ao chão, embora o texto do Tal&Qual não o explicitasse.
O título, contudo, para quem conhece a obra de Saramago, era uma alusão ao seu livro de 1980, “Levantado do Chão”. É uma obra sobre a qual, em entrevista ao jornal Tempo, em Novembro de 1981, Saramago afirmou: “O livro chama-se ‘Levantado do Chão’ porque, no fundo, levantam-se os homens do chão, levantam-se as searas, é no chão que semeamos, é no chão que nascem as árvores e até do chão se pode levantar um livro”.
Momento em que José Saramago compreende que a prenda era o “Livro de Crónicas” de António Lobo Antunes. Foto: José Carlos Pratas/Tal&Qual.
Contudo, a brincadeira de Natal do Tal&Qual não foi tão evidente aos olhos de Lobo Antunes, ficando-lhe na memória apenas o que estava no título, embora as fotos de José Carlos Pratas contrariassem a ideia de que o livro fora atirado de forma física para o chão. Na realidade, era uma metáfora, numa alusão à obra “Levantado do Chão”, acentuando a recusa de Saramago em aceitar um livro que, segundo ele, também “se levantam do chão”.
A história do Tal&Qual aconteceu em 1998, dez anos antes das entrevistas de Carlos Vaz Marques na revista Ler. É natural que, passado uma década entre os dois momentos, as memórias de ambos os escritores se tenham confundido. Na realidade, nenhum deles estava a mentir. Para Lobo Antunes, Saramago atirara mesmo um livro dele ao chão. E havia fotos.
Saramago, aparentemente, não se recordava de, um dia, ter recusado receber um livro de Lobo Antunes das mãos do Pai Natal. Talvez, caso se lembrasse do episódio, pudesse ter explicado a Carlos Vaz Marques que até poderia ter reagido de uma forma mais ‘desportiva’ à provocação do Tal&Qual. Afinal, acabara de receber o prémio Nobel e preparava-se então para uma visita a Cuba. Poderia ter optado por agradecer e, longe da vista, atirar o livro ao chão. Sem fotógrafos por perto.
José Saramago devolve o livro de António Lobo Antunes ao jornalista do Tal&Qual – que, ainda hoje o possui, lido e relido. O Nobel da Literatura não o atirou ao chão, mas recusou-se a ficar com ele. Foto: José Carlos Pratas/Tal&Qual.
Fica aqui o esclarecimento necessário em jeito de homenagem a Lobo Antunes: Saramago nunca o deitou o chão. E, do chão, Lobo Antunes levantou muitos mais livros. O equívoco que Carlos Vaz Marques nunca esclareceu, fica agora explicado.
Por fim, o autor destas linhas, ainda hoje, guarda em casa o “Livro de Crónicas” de Lobo Antunes que Saramago lhe ofereceu no Natal de 1998, ano do Nobel. Está lido e relido, com uma memória de ‘Arquivo Vivo’. Para que nunca se apague.
Com os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, no sábado, dia 28 de Fevereiro, a Base das Lajes, nos Açores, passou a ser “um alvo militar legítimo do Irão”, conforme alertou a CNN Portugal, que explicou: “Esta ideia encaixa na lógica da Guarda Revolucionária Islâmica, que garantiu ter autoridade junto do Direito Internacional para atacar todos os locais que serviram a operação conjunta de Estados Unidos e Israel”.
Apesar da ameaça, o artigo da CNN Portugal tranquilizou o leitor logo de seguida, garantindo que não há perigo, pois “o Irão tem um grande arsenal de mísseis, é verdade, mas nenhum deles tem a capacidade para chegar tão longe, já que o grande foco do regime sempre foi desenvolver armamento capaz de atingir aquele que é o seu verdadeiro inimigo, Israel”.
Sabe-se que o Irão impôs um limite de dois mil quilómetros de distância às suas armas, pelo que o arquipélago português no meio do Oceano Atlântico, a mais de cinco mil quilómetros de distância, pode estar descansado.
Portanto, se estivéssemos a falar de um míssil balístico intercontinental (ICBM), aí sim, haveria motivos para preocupação. Mas os únicos países que têm tal arma são os Estados Unidos, China, Rússia, França, Coreia do Norte e Índia, pelo que não será desta que veremos um ataque militar aos Açores.
A notícia da CNN Portugal cumpriu com a missão de transmitir alguma tranquilidade quando se discutia se o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, deveria ou não ter recusado o uso da base das Lajes para um ataque ao Irão. O tema estava em discussão ainda antes do ataque, numa altura em que era visível o aumento do tráfego aéreo militar dos Estados Unidos na ilha Terceira, antecipando aquilo que se confirmou no sábado, dia 28.
Base Aérea das Lajes. Foto: D. R.
Mas se o leitor pode estar tranquilo quanto à possibilidade de haver um ataque militar aos Açores por mísseis iranianos, não podemos agora ignorar aquilo que é uma arma de retaliação nos países europeus fora do alcance dos mísseis iranianos: atentados terroristas.
Essa é a possibilidade a considerar. Uma realidade que não pode ser ignorada e que não se confina apenas ao território dos Açores, pois abrange também todo o espaço continental de Portugal, onde a capital, Lisboa, assume o papel de ser o objectivo simbólico mais importante.
Recorde-se que, nos anos 80 e início dos 90, a Europa conheceu uma vaga de atentados e operações clandestinas associadas à estratégia externa da República Islâmica do Irão. A capital da França, Paris, por exemplo, foi então palco de vários ataques bombistas atribuídos por magistrados franceses a redes militantes apoiadas por Teerão.
Nessa altura, a vaga de atentados com suspeitas de mão iraniana, provocou um conflito diplomático entre a França e o Irão, conhecido como o ‘Caso Gordji’, quando um diplomata da embaixada do Irão em Paris, Wahid Gordji, foi acusado de estar por detrás da coordenação dos atentados que, no total, entre 1985 e 1986, mataram 13 pessoas na capital francesa.
Gordji refugiou-se durante semanas nas instalações diplomáticas iranianas, desencadeando uma grave crise entre Paris e Teerão. Acabaria por abandonar França, em Novembro de 1987, sem acusação formal, num desfecho que coincidiu com a libertação de reféns franceses no Líbano e a normalização das relações bilaterais. O clima político em torno dessas investigações, porém, atingiria um ponto sombrio com o suicídio, em 1990, do juiz antiterrorista Gilles Boulouque, responsável pela libertação do diplomata iraniano.
O juiz francês não teria resistido às acusações de que a libertação fora por pressões políticas e não por ter tomado uma decisão judicial, independente e justa, por falta de provas que indicassem a verdadeira responsabilidade do diplomata iraniano nos atentados em Paris. Em 2006, o realizador francês, William Karel, fez um documentário sobre o caso, onde a história é vista a partir da filha do juiz.
Apesar do histórico das últimas décadas sugerir que Lisboa não constitui um alvo prioritário de ações atribuíveis ao Estado iraniano, ainda assim a ameaça é real, sobretudo com o Irão a declarar que vai atacar países europeus se estes se juntarem à guerra contra o seu País.
Na sequência desta nova realidade, as autoridades portuguesas já se reuniram esta terça-feira para coordenar os níveis de segurança a implantar, embora ainda sem qualquer anúncio de uma alteração de prevenção significativa face à existente antes dos ataques.
O Pedro, através do PÁGINA UM, desafiou-me a ir assistir ao Benfica-Real Madrid, na bancada da imprensa do Estádio da Luz.
Sei bem o que esteve por detrás deste convite profissional: teve pena de mim, pois como sou boavisteiro, vivo agora na condição existencial de órfão de clube. Ser do Boavista equivale quase à história do indocumentado que vivia num aeroporto de Nova Iorque e inspirou o filme de Spielberg protagonizado pelo Tom Hanks.
Agora, vejo futebol como quem vê documentários da National Geographic: com curiosidade e sem envolvimento tribal. Mas, depois, há excepções. Um português, por muito que respeite Espanha, nunca é neutro contra castelhanos. E foi com esse espírito que lá fui à ‘Catedral’, como um verdadeiro patriota, a torcer pelo Sport Lisboa e Benfica contra o sempre aristocrático Real Madrid Club de Fútbol.
Infelizmente, falhei o jogo anterior — aquele já com aura mítica, em que o guarda-redes benfiquista, Anatoliy Trubin, descobriu que também sabia marcar golos e, mais importante ainda, como os celebrar. Há t-shirts com a sua foto a dizer “eu estava lá”, como quem diz “vi o 25 de Abril”. Eu não estava nos dois eventos, mas, se do primeiro não tenho memória, do último sei que o vi num restaurante na Avenida de Paris.
Não fui agora à espera de heroísmos. E, de facto, não os houve. Foi um jogo Real Madrid clássico: calculista, frio, curto e eficaz. Marcaram quando era suposto marcar. Geriram quando era suposto gerir. Futebol de quem já tem muitas noites destas nas pernas. Se a eliminatória não ficou fechada ali mesmo, muito se deve outra vez a Trubin, que decidiu adiar Madrid.
Curiosamente, o golo do Real entrou na mesma baliza onde Trubin tinha marcado da outra vez — porque o futebol adora estas ironias discretas. E na outra baliza, o único elemento físico que chegou a entrar foi o corpo de Thibaut Courtois, que mergulhou tanto que acabou literalmente dentro da baliza.
Agora, o momento pelo qual este jogo será recordado é pelo episódio que transformou o jogo em debate sociológico. A acusação de insulto racista a Vinícius Júnior parou o jogo, activou protocolos, congelou o ambiente — e depois libertou uma onda de apupos quando o público sentiu que a coisa tinha passado do futebol para o teatro.
Não vou ser moralista. Não consigo. O futebol é um desporto viril, de nervos, de palavras duras, de provocações que não passam nos manuais de boas maneiras.
Racismo é outra coisa — mais profunda, mais violenta, mais estrutural — e não se resolve com dez minutos de pausa nem com debates de bancada. Ali, ontem, houve também jogo psicológico, exageros, aproveitamentos e aquela zona cinzenta onde o futebol moderno gosta de jogar.
Depois, para os sociólogos de bancada, não posso deixar de achar piada quando vejo um brasileiro, de origem africana, a jogar num clube espanhol, a queixar-se a um francês porque um argentino, de origem italiana, a jogar num clube português, tenha feito uma comparação entre a sua atitude provocatória e a de um animal que existe em abundância nas paragens geográficas da sua nobre origem ancestral.
Ainda por cima, há uma ironia histórica que importa sempre lembrar: mesmo à frente da porta 18 do Estádio Luz, está a estátua de Eusébio da Silva Ferreira — um homem negro, moçambicano, símbolo máximo do clube, herói de vitórias europeias e da Selecção Nacional. Património nacional do futebol, com honras de Panteão.
O racismo real nunca teve casa ali.
Saí do estádio com a sensação de que vi um Real Madrid competente frente a um Benfica que, como um gato de sete vidas, ainda se mantém na corrida graças ao seu guarda-redes, permitindo manter a eliminatória em aberto. Como bom patriota, espero que, para a semana, em Madrid, o Benfica ganhe.
Não digo isto apenas pelo gosto do futebol, mas porque irritar espanhóis continua a ser uma tradição respeitável que até inclui mais amor e respeito por Espanha, o seu povo e tradições, do que qualquer manifestação de racismo cultural com alegada superioridade moral.