Bilderberg já começou em Washington sem António Costa na lista oficial (mas Guta mantém-se)

Confirma-se: a 72.ª reunião do Grupo Bilderberg começou, em Washington, na quinta-feira, dia 9 de Abril e vai decorrer, no Hotel Salamander, até domingo, dia 12. Mas, não se confirmam parte dos nomes inicialmente avançados pelo PÁGINA UM, e publicados numa lista provisória de participantes. É agora possível confrontar essa versão com a lista oficial entretanto divulgada no site do próprio Grupo Bilderberg e confirmar, por exemplo, que António Costa, Úrsula von der Leyen e Kaja Kallas, afinal, não estão na lista oficial.

Essa é, aliás, uma das dificuldades estruturais do jornalismo quando tem de cobrir os encontros privados das figuras públicas de Bilderberg. A lista de participantes só é divulgada no próprio dia em que a reunião começa, o que abre espaço a especulação prévia, muitas vezes baseada em informações parciais, mas não necessariamente erradas.

Hotel Salamander, onde se realizará a reunião do Grupo Bilderger.

Com a lista oficial agora publicada, e na ausência de uma análise detalhada por parte de muitos órgãos de comunicação social de referência, torna-se ainda mais relevante o trabalho de verificação no terreno.

É isso que está a acontecer com jornalistas que já são ‘veteranos’ nestas reuniões, como o caso do canadiano Dan Dicks e o americano Josh Friedman. Ainda que estejam impedidos pela organização de aceder a um qualquer espaço de Imprensa no interior do hotel, tentam confirmar presenças e movimentos no local. O próprio Página Um encontra-se em Washington, juntamente com estes profissionais.

Ainda assim, há a convicção de que a lista provisória tinha um fundo de verdade. O caso de António Costa é ilustrativo: constava da lista inicial, mas mesmo sem estar na versão oficial, a sua ausência levanta dúvidas, mas não invalida que pudesse ter sido considerado ou até confirmado numa fase anterior.

No Aeroporto Internacional de Dulles é assim que os convidados sabem quem os espera. Uma simples placa em azul, a cor de Bilderberg, com os dizeres do local e ano: discreto e directo.

Situação semelhante ocorre com Peter Thiel, figura habitual nas reuniões e membro do comité director, pessoa dentro do núcleo duro do grupo. A sua não inclusão na lista oficial deste ano causa surpresa, podendo ser explicada apenas por questões de agenda, já que a sua presença, à luz dos temas em discussão, seria expectável.

Por outro lado, há nomes cuja presença nas duas listas reforça a ideia de que a versão inicial não era arbitrária. É o caso de Guta Moura Guedes, estreante neste tipo de encontros, e cuja inclusão dificilmente seria ‘inventada’, atendendo ao seu perfil específico.

A sua presença é geralmente interpretada como convite pessoal no âmbito da rede de José Manuel Durão Barroso, que há vários anos, ao contrário do seu antecessor, Francisco Pinto Balsemão, deixou de levar políticos portugueses, optando antes por convidados de outro perfil. Esse é o caso de Duarte Moreira, que também constava da lista inicial e surge agora confirmado. No ano passado, recorde-se, Barroso levou Diogo Savi à reunião de Estocolmo, o que reforça a ideia de um padrão de convites pessoais e seletivos.

Mas mais relevante do que a composição exata da lista é agora a leitura da agenda oficial. Os temas em debate este ano oferecem um retrato claro das prioridades estratégicas: Inteligência Artificial, Árctico, a indicar uma ligação direta entre Estados Unidos, Rússia e Gronelândia. Depois, temas descritos apenas com itens sem qualquer especificação, como “China”,  “Finança Digital” e “Diversificação Energética”.

Este último ponto ganha especial relevância no contexto atual, marcado pela instabilidade no Estreito de Ormuz e pelas tensões no Médio Oriente, o que coloca novamente no centro da discussão a questão da autonomia energética europeia, incluindo o papel da energia nuclear.

A “Europa” também surge como tema autónomo, o que é revelador. Junta-se a isso o comércio mundial, o Médio Oriente, a Rússia, a relação transatlântica, a indústria da defesa, a Ucrânia e, de forma mais abrangente, os próprios Estados Unidos. Há ainda referências ao futuro da guerra e ao papel do Ocidente, num enquadramento que abrange praticamente todas as dimensões do atual sistema internacional.

Aeroporto Internacional Washington Dulles, a 43 quilómetros da cidade de Washington.

Comparando com a agenda de reuniões anteriores, como a de Estocolmo, nota-se uma ligeira inflexão. Temas como as migrações, que estiveram em destaque no ano passado, desaparecem este ano da lista oficial. Em contrapartida, reforçam-se áreas como tecnologia, energia e defesa, sinalizando uma deslocação do foco para questões mais diretamente relacionadas com conflito, soberania e poder estratégico.

Resta, como sempre, acompanhar o que é possível. Confirmar presenças, observar dinâmicas, cruzar agendas. Num encontro onde não há actas, nem declarações finais, nem acesso directo aos participantes, o trabalho jornalístico faz-se precisamente nesse espaço intermédio: entre o que é dito oficialmente e o que se consegue verificar.

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Leia as crónicas de Frederico Duarte Carvalho em Washington a acompanhar o encontro do Grupo Bilderberg.

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