O terceiro dia da reunião do Grupo Bilderberg, em Washington, ficou marcado por um contraste revelador entre o aparato de segurança e a força dos elementos naturais do espaço: as rajadas de vento insistiam em derrubar a barreira que impedia os jornalistas de tirarem fotografias da entrada do Hotel Salamander. A situação teve o seu quê de caricato, com a barreira a cair por três vezes, obrigando os seguranças a um esforço extra.
Na verdade, essa limitação formal revelou-se facilmente contornável. Vários participantes optaram por entradas e saídas laterais, atravessando zonas com acesso público ou visíveis a partir de jardins contíguos. Em alguns pontos, bastava subir um pequeno muro para ultrapassar a linha de visão bloqueada e captar imagens — algo que alguns jornalistas conseguiram fazer. A ideia de isolamento absoluto, frequentemente associada ao encontro, esbate-se assim perante a realidade de um espaço urbano onde o controlo é, inevitavelmente, parcial.

Foi nesse contexto que se registaram algumas presenças e interacções relevantes. A dinamarquesa Margrethe Vestager, comissária europeia com a tutela da Concorrência entre 2014 e 2019, voltou a surgir no exterior e chegou mesmo a trocar algumas palavras com jornalistas. Questionada sobre a diferença entre o seu antigo papel como comissária europeia e a actual posição na direcção do Bilderberg, respondeu com ironia subtil: enquanto na Comissão “fazia acontecer coisas”, ali assume-se sobretudo como uma “facilitadora”. Uma formulação que, mais do que esclarecer, ilustra o carácter informal destas redes de influência.
Outras figuras foram sendo avistadas à distância, entre entradas discretas e deslocações pouco expostas. A identificação nem sempre foi imediata, sobretudo nas zonas ajardinadas com visibilidade parcial, onde a observação dependia mais da persistência do que da proximidade.
Ainda assim, confirmou-se que, mesmo sob forte vigilância, há margem para o exercício de reportagem. Registou-se, por exemplo, a presença de Mathias Döpfner, CEO da Axel Springer, proprietário de publicações jornalísticas como, por exemplo, o jornal alemão Bild e a revista em língua inglesa Politico. Ao seu lado, vindo de um passeio pelas imediações do hotel, estava John Micklethwait, editor-chefe da Bloomberg.



Ao contrário de edições anteriores, como em Lisboa, Madrid ou Estocolmo, o terceiro dia não incluiu qualquer deslocação externa para jantar. Em Lisboa, o jantar oferecido pelo presidente Marcelo Rebelo de Sousa teve lugar no Palácio Nacional da Ajuda. Em Madrid, foi na cidade financeira do Santander, já que a anfitriã do encontro era Ana Botín, presidente do banco espanhol. E na Suécia foi um outro banqueiro a oferecer o jantar, Markus Wallenberg, levando os convidados internacionais, de barco, até ao local do banquete.
Em Washington, os participantes permaneceram no interior do hotel, atrás de panos pretos para evitar olhares indiscretos, sem eventos sociais visíveis fora do perímetro. Também não houve sinais claros da presença de Donald Trump: embora um helicóptero presidencial tenha sobrevoado a cidade a meio da tarde, não houve qualquer movimento de segurança acrescida que permitisse estabelecer ligação directa com o encontro.
Curiosamente, ao fundo do quarteirão do hotel, decorreu durante a tarde uma pequena manifestação em frente ao Immigration and Customs Enforcement (ICE). Um grupo reduzido de manifestantes protestava de forma colorida e com humor contra políticas migratórias, mas sem qualquer consciência de que, nas imediações, decorria uma das reuniões mais exclusivas do circuito internacional.


A surpresa era total quando verificavam as informações públicas sobre a lista oficial de convidados, mas o sentimento de incredulidade instalava-se quando percebiam que a imprensa de referência, apesar da importância jornalística evidente, não estava a fazer o seu trabalho.
Portanto, entre barreiras que caem com o vento e encontros que permanecem fora do alcance directo, o terceiro dia do Bilderberg confirmou que não há um secretismo absoluto, mas persiste na mente jornalística essa imagem de uma zona cinzenta entre o visível e o inacessível.
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Leia as crónicas de Frederico Duarte Carvalho em Washington a acompanhar o encontro do Grupo Bilderberg.
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