Nasceram em lados opostos da cidade. Matilde, filha de uma médica e de um catedrático de Direito, cresceu num bairro de moradias vistosas, relvados verdejantes e belos canteiros de flores. Foi criada por uma ama vinda da serra, sem filhos. Mimava-a como se fosse sua. Pela manhã, carregava a mochila da menina até ao colégio internacional, cuja mensalidade ultrapassava em muito a renda da casa onde Salomé vivia com os pais e os irmãos, num bairro da periferia.
Para a pequena suburbana, o dia começava com a agitação própria de um lar onde o espaço é pouco, os filhos muitos e o dinheiro curto. Os três irmãos a encher as mochilas com as merendas e almoços preparados pela mãe, ainda mal refeita do cansaço do dia anterior. Refeições mornas, que se transformavam numa papa indistinta ao longo da manhã. Evidências de uma pobreza que procuraria apagar da sua história até ao último suspiro. O caminho para a escola fazia-se na balbúrdia dos transportes públicos. A chegada ao pátio cheio, o atravessar os longos corredores apinhados, o entrar nas salas sobrelotadas: a confirmação diária de ser apenas mais uma.

Filha de uma manicure e de um operário, Salomé percebeu, desde cedo, a relação entre mencionar a profissão dos pais e ser afastada do grupo dos mais populares, dos bem vestidos, das conversas sobre fins de semana no Algarve, férias na neve ou visitas às capitais europeias.
Fora relegada para um círculo mais modesto. As salas e os recreios também têm as suas periferias. Mas ela era diferente dos outros — ou, pelo menos, fazia por sê-lo. Sentia ter potencial, um nível superior — merecer deferência. Espantava-a a incapacidade de perceberem o óbvio: estava deslocada. O cheiro adocicado e ácido dos restos do jantar de frango com esparguete exalado pela marmita, porém, teimava em lembrar-lhe que, ao cair da tarde, regressaria ao exíguo T2 num prédio cercado por cães vadios, lixo espalhado e um cheiro a urina entranhado nas paredes.
Os destinos das jovens cruzaram-se na universidade. Na primeira aula, sentaram-se, por mero acaso, na mesma mesa. Matilde, pouco habituada a tanta gente numa sala, estava visivelmente desconfortável. Por sorte, a nova companheira pareceu-lhe aceitável. Tinha bom ar, cabelo bem penteado, mãos arranjadas. Perguntou-lhe de onde vinha. Salomé, longe do velho bairro, num sítio onde ninguém a conhecia, percebeu de imediato a possibilidade de se reinventar. Mentiu. Sem qualquer sentimento de culpa. Afinal de contas, a verdade era uma profunda injustiça. Não tinha nada a ver com quem se sentia. Merecia esta oportunidade!

Olhou com mais atenção para Matilde. Impecavelmente vestida. Sapatos e carteira de marca. Bem penteada. Sabia quanto custavam aquelas extensões. Mãos cuidadas. Pele tratada. Apressou-se, portanto, a encontrar um motivo de conversa: as férias passadas em Londres. Matilde, feliz por encontrar uma potencial alma gémea, reagiu de imediato. Conhecia bem Londres. Na verdade, conhecia todos os cantos, lojas, museus… Nada que a motivação de Salomé não conseguisse ultrapassar. Tinha-se preparado bem para este momento. E assim nasceu uma amizade deveras especial.
Pouco tardou até começarem a partilhar confidências. Matilde, segura da compreensão da amiga, revelou a razão do seu olhar triste e cinzento: sabia estar aquém das expectativas dos pais. Medicina fora um sonho abandonado ainda no secundário. Direito teria salvo a honra do convento. Não sobreviveu ao primeiro semestre. Ia agora tentar História. A família nem se dava ao trabalho de disfarçar a desilusão. O que iam dizer aos amigos? Tinham gasto uma fortuna em colégio, explicações, cursos, férias, livros… para isto? Deixou, por isso, de ser tema de conversa. Nem uma pergunta sobre a faculdade. Tudo girava em torno dos irmãos, fiéis seguidores dos passos dos pais. Odiava-os em segredo. Pelo menos até ter podido dizê-lo a uma amiga de verdade.
Salomé ouvia Matilde. Mostrava compreensão. Revoltava-se com ela contra a obsessão dos pais, sempre prontos a impor aos filhos os caminhos por eles trilhados. Tinha-lhe acontecido o mesmo. Como a entendia… Podia desabafar com ela.

Para Matilde, o tempo passado com Salomé era um bálsamo. Tinha as melhores notas, a preferência dos professores. Vestia-se melhor. Falava melhor. E por isso aceitou Salomé mesmo quando, por um acaso, descobriu a sua verdadeira origem. Nunca a confrontou com a verdade. Deixava, aqui e ali, cair uma insinuação, um olhar malicioso… o suficiente para a manter controlada. Só Deus sabia o quanto precisava disso.
Salomé, por seu lado, apercebera-se, mas, entre afastar-se ou viver subjugada, o desejo de privar com alguém de uma classe social superior falou mais alto. Fingiu. Fingiram ambas. E, embora Salomé sentisse o pé de Matilde a pressionar o seu pescoço, equilibrava o poder, recorrendo à arte de espetar a faca na ferida aberta no peito da amiga, com precisão cirúrgica. Aproveitava todas as oportunidades para saber se a sua “Mimi” via no carro oferecido ao irmão mais novo um sinal de preferência, quanto tinham custado as propinas do mestrado da irmã nos Estados Unidos e como encarava o facto de o consultório do avô, na Baixa, ter sido entregue ao primogénito, apesar de o seu maior desejo ser transformá-lo num apartamento. Malícia mascarada de preocupação. Veneno sonsamente dissimulado no ato ridículo de uma mulher feita designar outra com um diminutivo infantil.
Viveram assim a licenciatura, depois os tempos de mestrado e de doutoramento. Sempre juntas, inseparáveis, numa competição feroz pelas melhores notas, pela atenção de professores e colegas. Matilde liderava. Era criativa, decidida, empreendedora e ostensivamente má. Nunca o procurou disfarçar. A amargura impedia-o. Salomé era obediente. Uma boa escrivã. Ambicionava ser mais, deixar de depender da amiga. Já esta assegurava, pelas suas costas, que Salomé trabalhava imenso; contudo, aquela cabeça nunca tinha sido atravessada por uma boa ideia.
— Ela bem mandou pintar uma passadeira, coitada. E nem assim… — brincava, ridicularizando o resultado desastroso de umas madeixas feitas num salão de vão de escada.
Nunca se confrontaram. Jamais trocaram uma palavra sobre o ódio que as unia.

Hoje, Matilde está na cama de um hospital. Salomé aperta-lhe a mão, aproxima-se do ouvido. Sabe restarem apenas instantes. Sussurra:
— Foste muito má para mim, mas eu perdoo-te.
A vingança está servida.
Matilde não tem tempo para responder.
Salomé chora. Chora copiosamente o regresso à periferia.
Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve
