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  • Aos fins-de-semana, as escolas do ministro Fernando Alexandre são antros para os mais torpes negócios

    Aos fins-de-semana, as escolas do ministro Fernando Alexandre são antros para os mais torpes negócios

    Ser político não visa ocupar um cargo público: é assumir uma responsabilidade. E governar não é administrar silêncio: é responder, decidir e agir — sobretudo quando aquilo que está em causa não é um detalhe burocrático, mas a integridade do espaço público e a protecção de cidadãos em situação de vulnerabilidade.
    Um governante digno desse nome, ainda mais sendo ministro da Educação, não se mede pela habilidade em evitar problemas, mas pela prontidão em enfrentá-los. E é precisamente aqui, nesse ponto essencial da função política, que Fernando Alexandre falha — não por ignorância, mas por inacção.

    Esta sexta-feira, o PÁGINA UM tentou, de forma insistente e documentada, obter uma resposta da assessoria de imprensa do Ministério da Educação sobre factos bastante graves do ponto de vista social e político. Fê-lo com base em factos e evidências, não em conjecturas ou insinuações. Enviou documentação detalhada à assessoria de comunicação de Fernando Alexandre que demonstra que escolas públicas estão a ser utilizadas como plataforma para um esquema comercial encapotado, assente numa pseudo-associação sem fins lucrativos, denominada Associação Internacional Lusófona para a Educação (AILE), que serve de fachada para práticas de venda agressiva. Silêncio absoluto. Nem uma palavra. Nem uma explicação. Nada.

    Fernando Alexandre com Luís Montenegro. Foto: D.R.

    Aquilo que está em causa é de uma gravidade que dispensa eufemismos, porque dilacera a confiança que a sociedade deve ter, até do ponto de vista simbólico, com a Escola Pública. Ora, em dezenas de escolas secundárias deste país — de norte a sul, continente e ilhas —, com o beneplácito do Ministério da Educação, alunos são submetidos a inquéritos em sala de aula, sob a capa de um alegado projecto educativo. Esses dados são depois utilizados por uma empresa para segmentar encarregados de educação, que são convocados para sessões realizadas ao fim-de-semana dentro das próprias escolas.

    E é aí que a máscara cai: entram em cena representantes de uma empresa privada que, com técnicas de marketing agressivo, pressionam pais — sempre na presença dos filhos, para colocar emocionalmente as famílias entre a espada e a parede — a assinar contratos, a ceder IBAN, a tomar decisões imediatas sob o pretexto de uma “oportunidade única”.

    Este método é indigno e repugnante, ainda mais feito entre paredes de escolas públicas, que se transformam em ‘mercados da banha da cobra’. Primeiro, enaltece-se a criança: o filho é especial, acima da média, potencialmente “superdotado”. Depois, instala-se a ansiedade: sem intervenção, esse potencial pode perder-se. Por fim, surge a solução — um curso online, inicialmente apresentado como tendo um custo elevado, mas que, graças a uma suposta “bolsa”, é reduzido para um valor ainda assim significativo. Tudo isto num ambiente controlado, emocionalmente condicionado, onde a presença dos filhos amplifica a pressão sobre os pais. Não se trata de educação. Trata-se de manipulação.

    Um ministro não tem de ter apenas pose, mas acção. Foto: D.R.

    Mais perturbador ainda é o cenário institucional que permite isto. A associação que serve de porta de entrada apresenta-se como entidade sem fins lucrativos, mas não exibe órgãos sociais, não apresenta relatórios, não tem histórico verificável, não responde a contactos. Nem sequer se encontra um número fiscal que prove a sua existência formal. Nada. Um vazio absoluto de transparência. E, no entanto, entra em escolas públicas com a invocação de autorização ministerial.

    A promiscuidade entre essa associação e a empresa que vende os cursos não é uma suspeita: é um facto documentado. Partilham morada. Partilham intervenientes. Partilham objectivo. A associação abre a porta; a empresa entra e factura. Tudo isto dentro de salas de aula, em instalações públicas, sem supervisão efectiva, sem controlo, sem responsabilização. E com a complacência — activa ou passiva, pouco importa — das direcções escolares e do Ministério da Educação.

    Dir-se-á, como sempre se diz nestes casos, que as escolas são apenas intermediárias. Que não têm responsabilidade sobre conteúdos ou execução. Que confiaram numa entidade “validada”. Mas essa linha de defesa não resiste ao mais elementar escrutínio: quem permite que o espaço escolar público seja utilizado tem o dever de saber para quê. E quem tutela esse espaço — o Ministério — tem o dever de garantir que não é instrumentalizado para fins comerciais disfarçados de pedagogia.

    Panfleto com venda de um curso apresentado aos pais que preencheram o inquérito da AILE distribuído nas escolas públicas. As sessões de venda, com métodos de marketing agressivo e enganador, realiza-se em salas de aulas de escolas públicas durante o fim-de-semana sem qualquer supervisão.

    Fernando Alexandre não pode alegar desconhecimento — foi informado, confrontado e instado a esclarecer. Escolheu não responder. E essa escolha — porque é disso que se trata — define-o politicamente. Não como vítima de circunstâncias, mas como agente de uma omissão. Num país onde se exige transparência aos cidadãos, onde se regulam, com aparente minúcia, as actividades privadas, torna-se inaceitável que o próprio Estado permita — ou ignore — a infiltração de práticas comerciais desta natureza no coração do sistema educativo.

    Enquanto o ministro descansa — legitimamente, dir-se-á — há escolas abertas ao fim-de-semana para acolher sessões de venda da ‘banha da cobra’ disfarçadas de orientação pedagógica. Enquanto o ministro gere a sua agenda política, há pais a serem pressionados, contratos a serem assinados, IBANs a serem cedidos, expectativas a serem exploradas. E tudo isto sob o selo implícito de uma autoridade pública que se demite de exercer controlo.

    Um ministro não é um espectador, nem um comentador tardio, nem um gestor de silêncios. Um ministro é responsável. E, por isso, quando o espaço público é capturado por interesses privados com métodos eticamente torpes, essa responsabilidade é inescapável.

    street signage
    Foto: D.R.

    Aquilo que se anda a passar nas escolas com supostos projectos educativos não é apenas uma falha administrativa. Mostra-se sobretudo como uma quebra de confiança, porque transforma a escola — que deveria ser um espaço de formação, de equidade e de protecção — num palco de exploração comercial dirigida a famílias. Fica-se perante a banalização de práticas que, fora daquele contexto, seriam imediatamente identificadas como abusivas.

    Tudo isto é, sobretudo, uma vergonha. E já nem tanto pela astúcia de quem vende, mas pela passividade de quem deveria impedir.

  • Os incêndios rurais e o ministro: o alerta de hoje serve para explicar o falhanço político de amanhã?

    Os incêndios rurais e o ministro: o alerta de hoje serve para explicar o falhanço político de amanhã?

    Luís Neves, ministro da Administração Interna decidiu avisar o país social e florestal, no dia 1 deste mês, que o Verão será “muito duro”, acrescentando três semanas depois que “vai ser terrível e pode ser muito difícil”. Estes alertas – ainda mais acompanhado de um apelo paternalista para os proprietários florestais (“façam a vossa parte”) e de (mais um) adiamento da reforma do sistema de protecção civil) – não são tanto um diagnóstico ou uma previsão mas um género literário consolidado da política portuguesa.

    Todos os anos são duros. Todos os anos são difíceis. E, curiosamente, os anos que não são catastróficos devem-no quase sempre ao facto de os anteriores já o terem sido, consumindo o combustível acumulado. Em matéria de incêndios rurais, Portugal vive numa espécie de continuidade trágica onde a excepção é a regra.

    Luís Neves em Janeiro de 2025 na Assembleia da República como director da Polícia Judiciária, mostrava sobriedade na comunicação. Foto: captura de ecrã.

    Nada disto surpreende. Nem deveria. Aquilo que merece atenção não é o conteúdo da mensagem, mas o seu propósito. Para que serve, afinal, anunciar com antecipação um cenário “terrível”? Para mobilizar o país? Para prevenir comportamentos de risco? Ou, mais prosaicamente, para construir desde já o enquadramento explicativo de um eventual fracasso? A resposta não está apenas nas palavras, mas no contexto em que são proferidas.

    Luís Neves não chegou à política como um neófito da comunicação institucional. Enquanto director da Polícia Judiciária, construiu uma imagem de sobriedade discursiva, evitando alarmismos e distinguindo, com alguma disciplina, entre percepção e realidade. Era, nesse domínio, um dos raros responsáveis públicos que compreendia o risco de amplificar medos sem correspondência nos dados. Hoje, no exercício de funções governativas, o registo altera-se. A prudência cede lugar à antecipação enfática. A contenção dá lugar à dramatização controlada. Não se trata de incoerência pessoal; trata-se de adaptação ao cargo.

    O poder executivo tem uma lógica própria. E essa lógica assenta, em larga medida, na gestão da responsabilidade futura. Ao declarar que o Verão será “vai ser terrível e pode ser muito difícil”, o ministro não descreve apenas um risco: delimita um campo de interpretação. Se os incêndios vierem a devastar o território, o aviso estava feito. Se, por circunstâncias meteorológicas favoráveis ou por simples aleatoriedade, a época for menos severa, o Governo poderá reivindicar mérito pela preparação antecipada. Em qualquer dos cenários, o discurso funciona como seguro político.

    Luís Neves, agora como ministro da Administração Interna, já amplifica cenários catastróficos para fugir já de responsabilidades. Foto: D.R.

    Entretanto, a realidade estrutural mantém-se intocada. O próprio ministro reconhece factores conjunturais agravantes — mais combustível disponível, árvores derrubadas pelas tempestades e caminhos obstruídos, embora isso esteja circunscrito á zona afectada pela tempestade Kristin — e apela à colaboração dos proprietários para a limpeza dos terrenos. Mas, no essencial, transfere-se, uma vez mais, para a esfera privada uma responsabilidade que é, em grande medida, consequência de décadas de ausência de política pública consistente. A fragmentação da propriedade, o abandono do mundo rural, a inexistência de gestão florestal integrada e a desarticulação institucional não são fenómenos meteorológicos. São escolhas — ou, mais frequentemente, a ausência delas.

    O detalhe mais revelador desta estratégia talvez nem esteja na retórica, mas na agenda. Perante um cenário que o próprio classifica como potencialmente “terrível”, o Governo opta por adiar a reforma da Protecção Civil para Outubro, isto é, para depois da época crítica de incêndios. A decisão invoca uma racionalidade operacional — evitar mudanças no período mais sensível —, mas expõe um paradoxo evidente: a estrutura que reconhecidamente necessita de reforma permanece inalterada precisamente quando o risco atinge o seu ponto máximo.

    A imagem é quase grotescamente simples: anuncia-se que seguimos num carro sem travões, em direcção a uma descida perigosa, mas decide-se não mexer no sistema de travagem porque não há tempo para ir ao mecânico. O arranjo fica para depois — para quando? Para depois da queda? Para o Outono, talvez. Ou, mais provavelmente, para um calendário sempre deslocado: chega Outubro, depois Novembro, depois Dezembro; surge um novo ano, seguem-se Janeiro e Fevereiro, e rapidamente estaremos outra vez à porta de mais um Verão, com a mesma reforma por fazer e a mesma urgência por adiar.

    Foto: D.R.

    É assim que a política se transforma num exercício de perpetuação do provisório: reconhece-se o problema, adia-se a solução e, no intervalo, constrói-se um discurso que prepara o terreno para explicar por que razão, mais uma vez, nada mudou. Este padrão repete-se com notável consistência ao longo dos anos. A política florestal portuguesa vive de reacções e não de antecipação estrutural. A cada ciclo de incêndios, multiplicam-se relatórios, comissões e promessas de reforma. A cada Inverno, surgem novos diagnósticos sobre a necessidade de limpar, ordenar, gerir. E a cada Primavera, regressa o apelo à responsabilidade individual, como se o problema pudesse ser resolvido pela soma de decisões dispersas de milhares de proprietários, muitos deles ausentes, envelhecidos ou sem capacidade financeira para intervir.

    A narrativa dominante procura, de um modo invariável, um elemento externo que funcione como explicação agregadora: o calor extremo, a seca prolongada, o vento imprevisível e, hélas, as “alterações climáticas”. Nenhum destes factores é irrelevante. Mas nenhum deles explica, por si só, a dimensão recorrente das tragédias. Países com condições climáticas semelhantes ou até mais adversas não registam, ano após ano, a mesma magnitude de área ardida. A diferença está na organização do território, na gestão do combustível, na estrutura fundiária e na continuidade das políticas públicas.

    Ao insistir numa retórica de excepcionalidade — “ano difícil”, “ano muito duro”, “Verão terrível” —, o poder político dilui a percepção de responsabilidade estrutural. Se todos os anos são excepcionais, então nenhum é verdadeiramente anómalo. E, nesse cenário, a repetição do desastre deixa de ser interpretada como falha sistémica para passar a ser vista como fatalidade inevitável. Apenas é uma forma subtil, mas eficaz, de normalizar o anormal.

    Área ardida em hectares desde 2001. O ano de 20025 foi o quarto pior do século e o pior desde 2017. Fonte: ICNF.

    A questão central não é, portanto, saber se o próximo Verão será duro, terrível ou o que o dicionário quiser. A questão é saber por que razão continua a sê-lo, década após década, com variações marginais. E, sobretudo, por que razão o discurso político, agora de Luís Neves, permanece ancorado na gestão do risco imediato em vez de enfrentar, com continuidade e consistência, as causas profundas do problema.

    Portugal não precisa de mais avisos sobre Verões difíceis. Precisa de menos Verões difíceis. E essa diferença não se faz com adjectivos, por mais enfáticos que sejam, mas com política pública efectiva, persistente e mensurável. Enquanto essa mudança não ocorrer, cada novo “alerta” será apenas mais uma peça de um guião antigo, onde o final já é conhecido.

  • Trust in News: é possível uma directora financeira deixar falir uma empresa de media e depois ir gerir fundos públicos? Claro que sim…

    Trust in News: é possível uma directora financeira deixar falir uma empresa de media e depois ir gerir fundos públicos? Claro que sim…

    No Tribunal de Sintra, de forma discreta mas indelével, tem decorrido o julgamento, como epílogo, de uma empresa de media mal gerida — mas que se mostra, sobretudo, como o retrato de um sistema mediático que escolheu, deliberadamente, não se olhar ao espelho.

    Desde 2023, o PÁGINA UM alertou, com dados concretos e persistência documental, para a situação financeira absolutamente calamitosa da Trust in News, dona de cerca de uma dezena e meia de títulos, com destaque para a revista Visão. Fê-lo quando poucos queriam ouvir. Fê-lo quando o silêncio era mais confortável do que a confrontação. E fê-lo, também, quando destapi o véu de um dos processos mais obscuros e rocambolescos da história recente da imprensa portuguesa: a (suposta) venda por 10,5 milhões de euros de um portefólio relevante de revistas da Impresa — pertencente à família Francisco Pinto Balsemão — a uma empresa de Luís Delgado com um capital social de apenas 10 mil euros.

    Foto: D.R.

    A desproporção entre o valor da transacção e a estrutura financeira do comprador não era apenas um detalhe curioso: era um sinal de alarme. Um de muitos. No PÁGINA UM já se denunciava em 2023 um passivo crescente, com dívidas ao Estado na ordem de muitos milhões e, sobretudo, uma engenharia financeira que levantava dúvidas sérias quanto à transparência das contas. Em particular, destacava-se uma rubrica onde figuravam mais de 10 milhões de euros na rubrica “outras contas a receber” — uma categoria contabilística que, como se tem vindo a confirma em tribunal, serviu para inflacionar artificialmente resultados e ocultar prejuízos estruturais.

    Aquilo que era suspeita está a tornar-se prova. Aquilo que era indício está a tornar-se num testemunho da falibilidade do jornalismo até a verificar o seu edifício – e a manter-se com um comportamento de avestruz.

    No julgamento em curso à gerência da Trust in News, tem sido exposto um padrão reiterado de registos contabilísticos sem suporte documental, incluindo receitas futuras fictícias ou não comprovadas, utilizadas para “transparecer” uma realidade financeira que nunca existia. Dora Rodrigues, então directora financeira, confirmou em tribunal que tais lançamentos eram feitos por indicação da gerência, admitindo a existência de ordens verbais para registar valores sem documentação que os sustentasse. Não era meia dúzia de tostões. Eram milhões de euros que, simplesmente, nunca existiram.

    Luís Delgado, gerente e proprietário único da Trust in News: um investimento de 10 mil euros que terminou em dívidas de mais de 30 milhões de euros. Foto: D.R.

    Mais: esses mecanismos permitiram à empresa apresentar lucros fictícios sucessivos enquanto, na verdade, acumulava prejuízos e dívidas superiores a 30 milhões de euros, incluindo mais de 15 milhões ao Estado.

    Este não foi apenas um caso de má gestão – foi um caso de construção deliberada de uma realidade paralela.

    E, no entanto, perante a gravidade do colapso de uma empresa que detinha mais de uma dezena de títulos — entre os quais a emblemática Visão —, a imprensa portuguesa generalista tem optado pelo silêncio. Nem a Lusa, nem o Expresso, nem o Público, nem o Diário de Notícias, nem qualquer televisão, está a acompanhar este julgamento que expõe práticas que deveriam alarmar qualquer redacção minimamente consciente da sua função.

    Este silêncio não é neutro: é uma escolha editorial.

    E essa escolha revela um problema mais profundo: a incapacidade — ou falta de vontade — da comunicação social em escrutinar o seu próprio sector. Num momento em que a credibilidade dos media enfrenta um desgaste crescente junto da sociedade, este fechamento corporativo não só agrava a desconfiança como a legitima.

    Foto: D.R.

    Mas talvez o elemento mais perturbador de todo este processo não resida apenas no passado da Trust in News, mas no presente de alguns dos seus protagonistas. Por exemplo, Dora Rodrigues, directora financeira durante os anos em que se registaram estes lançamentos contabilísticos de milhões sem suporte documental — e que, no mínimo, teve responsabilidade operacional directa sobre essas práticas — transitou de imediato, após o colapso, para funções no Estado, integrando a Estrutura de Missão Recuperar Portugal, responsável pela gestão de fundos do PRR.

    A questão que se impõe já nem sequer é, neste caso, jurídica — essa será dirimida nos tribunais. A questão é política, institucional e ética. Como é possível que alguém que esteve no centro de um sistema contabilístico que, segundo o próprio tribunal está a apurar, terá servido para mascarar prejuízos e iludir credores, trabalhadores e reguladores, passe a gerir fundos públicos?

    Como é possível que não exista, sequer, um escrutínio público sério sobre estas transições? Como é possível que o Estado absorva quadros provenientes de contextos de falência e suspeita sem uma avaliação rigorosa do seu percurso?

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    Foto: Tingey Injury Law Firm

    A resposta, infelizmente, é simples: porque ninguém pergunta. E quando ninguém pergunta, tudo passa.

    O caso Trust in News não é um acidente isolado – é um sintoma. Um sintoma de um sistema onde a promiscuidade entre sectores, a opacidade dos negócios e a ausência de escrutínio interno criam as condições ideais para que o colapso não seja apenas possível — mas previsível.

  • Sequelas das vacinas covid-19 nos jovens: após a reportagem da CMTV, não será tempo da imprensa pedir desculpas?

    Sequelas das vacinas covid-19 nos jovens: após a reportagem da CMTV, não será tempo da imprensa pedir desculpas?

    A reportagem exibida ontem pela CMTV sobre jovens com sequelas graves após a vacinação contra a covid-19 não trouxe, em rigor, uma revelação substantiva. Trouxe, isso sim, rostos, nomes e histórias concretas àquilo que, desde 2021 e 2022, já constava — ainda que de forma fragmentada e muitas vezes desvalorizada — nos sistemas de farmacovigilância e em bases de dados nacionais e europeias, incluindo o Infarmed e a Agência Europeia de Medicamentos, com valores preocupantes. Não é, portanto, a existência de efeitos adversos que surpreende nem o desprezo do Governo português sobre essas vítimas. Aquilo que surpreende, e inquieta, é tudo o resto.

    Aliás, desde cedo que o PÁGINA UM procurou, com insistência, aceder aos dados completos da farmacovigilância, identificar padrões, quantificar ocorrências e, sobretudo, perceber se existia — ou não — um acompanhamento sistemático dos casos sinalizados. Começámos em finais de 2021. Essa persistência esbarrou, demasiadas vezes, em opacidade institucional, respostas evasivas e um silêncio administrativo que, sendo já preocupante em tempos normais, se torna ainda mais grave quando está em causa uma intervenção médica massiva numa população saudável, incluindo jovens e menores.

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    Foto: Iván Díaz

    Mesmo depois de um acórdão do Tribunal Central Administrativo do Sul, em Julho de 2024, ter concedido o direito ao PÁGINA UM de aceder à base de dados do Portal RAM, um senhor de seu nome Rui Santo Ivo, presidente do Infarmed e promovido a líder da Agência Europeia do Medicamento (por certo — e isto é a minha opinião — mais pelos bons serviços à indústria farmacêutica do que pela defesa da saúde comunitária), tudo tem feito para sonegar dados integrais. Corre neste momento um novo processo (incidente de inexecução de sentença), desde Julho do ano passado, para que lhe seja aplicada uma multa diária e se termine com o seu obscurantismo.

    Em todo este processo, o PÁGINA UM esteve sozinho. Não houve sequer uma notícia sobre esta luta judicial nem sobre os diversos trabalhos de investigação sobre esta temática. E essa falta de pressão mediática, por inércia e desinteresse da generalidade dos órgãos de comunicação social de maior dimensão, concede ao Infarmed uma percepção de impunidade, Não dão informação nem querem saber.

    Assim, a reportagem da CMTV limita-se, em boa verdade, a corporizar aquilo que os números já sugeriam, embora com a grande virtude de alcançar algo que os relatórios estatísticos nunca conseguem alcançar: devolve humanidade ao problema. E era precisamente aqui que o jornalismo deveria ter começado — não terminado.

    Reportagem da CMTV apresentou três casos pessoais de jovens afectados por reacções adversas das vacinas contra a covid-19.

    Porém, mais perturbadora do que a ausência de novidade factual é a memória, ainda recente, do comportamento generalizado da comunicação social durante a pandemia. Em particular, na forma como foram tratados — ou melhor, desqualificados — os alertas vindos de uma minoria de médicos que, bem ou mal, com coragem (porque em Portugal havia um “ajudante de Torquemada” em funções de bastonário da Ordem dos Médicos), levantavam dúvidas legítimas sobre a vacinação de jovens saudáveis.

    Isto por uma razão muito simples: até à data não tinha morrido qualquer menor saudável por covid-19. Vacinar quando ainda por cima existia uma elevada incerteza seria, no mínimo, uma imprudência: qualquer morte ou sequela desequilibraria a balança.

    Neste aspecto, o caso do médico Diogo Cabrita (que já escreveu para o PÁGINA UM) é paradigmático. Em 2021, protagonizou uma iniciativa pública de sensibilização, através de uma caminhada que intitulou “Marcha pelas Crianças”, defendendo prudência na administração de vacinas a grupos de baixo risco. A resposta mediática foi, em muitos casos, não a análise crítica dos seus argumentos, mas a sua redução a um rótulo.

    Um dos casos mais dramáticos apresenta o relato de uma enfermeira que confessou ter sentido a pressão social para que o filho, afectado por reacções adversas bastante graves, fosse vacinado.

    Por exemplo, a revista Sábado — do mesmo grupo da CMTV, a Medialivre —, numa peça de 16 de Outubro de 2021, não se limitou a noticiar a abertura de um processo disciplinar pela Ordem dos Médicos — liderada então pelo tal “ajudante de Torquemada” — como reiterou, de forma insistente, a designação de “negacionista”. Cinco vezes, no mesmo texto. Não como citação contextualizada, mas como carimbo editorial. Não como hipótese interpretativa, mas como sentença.

    Este tipo de prática, repetitiva ao longo da pandemia, não foi jornalismo — foi rotulagem. Tinha como único fito sujar de lama alguém que contestasse, mesmo se usasse argumentos racionais. E a rotulagem, em contexto de incerteza científica — que era, à data, inegável —, transforma-se num mecanismo de ostracização que empobrece o debate público e condiciona a própria evolução do conhecimento. Porque a ciência não avança por unanimidade mediática, mas por confronto de hipóteses, validação empírica e revisão contínua.

    A questão nunca foi — nem deve ser — saber se Diogo Cabrita tinha razão em tudo aquilo que dizia. A questão é saber se os jornalistas (e houve alguns ‘arautos justiceiros’) cumpriram a sua função: escrutinar, contextualizar, questionar, sem substituir a análise pela adjetivação.

    Notícia de Setembro de 2021 não assinada da Sábado que usa a palavra negacionista para catalogar o médico Diogo Cabrita.

    E aqui, a resposta, olhando para trás, é desconfortável. Tanto mais que, em abono da verdade, Diogo Cabrita acabaria com todas as acusações arquivadas pela Ordem dos Médicos e continua a ser um excelente médico do SNS. Os jornalistas que o acusaram, esses, continuam a achar-se bom jornalistas — algo que somente a ausência de consciência dos actos e a falta de escrúpulos lhes permite nessa auto-avaliação.

    Eu próprio, e o PÁGINA UM, fomos ‘alvos’ da própria empresa nesta tentativa de descredibilização por parte de directores de órgãos de comunicação social que envergonharam os princípios do jornalismo. Basta recordar a atitude da CNN Portugal, através de um (suposto) jornalista (Henrique Magalhães Claudino), que, poucos dias depois do nascimento do PÁGINA UM, fez uma ultrajante notícia intitulada “Covid-19: dados confidenciais de crianças internadas em UCI partilhados em página negacionista” – e isto porque se revelara o cenário real (com dados anonimizados) do reduzido impacte da doença em crianças (dos 5 aos 11 anos): no primeiro ano da pandemia, num grupo que envolvia mais de 600 mil pessoas, contabilizam-se zero mortes e uma taxa de hospitalização que rondariaos 0,5% dos infectados.

    Note-se que não havia qualquer falta de rigor do PÁGINA UM nem sequer qualquer irregularidade ética (os dados estavam anonimizados), mas a CNN Portugal (e outros media que seguram uma narrativa ‘fabricada’ pela Ordem dos Médicos para descredibilizar o PÁGINA UM) criaram um alegado facto rotulando um jornalista. E nem a alegada queixa para a Comissão Nacional de Protecção de Dados alguma vez existiu. Era pura lama.

    Notícia do Público, fazendo eco da CNN Portugal: imprensa generalista participou activamente em conspurcar quem se oponha à vacinação de menores contra a covid-19. Valeu tudo.

    Nestes tempos, o Público ainda se portou pior, porque insistiu mesmo na recusa de um direito de resposta, e até alegou, numa providência cautelar que perdeu, que “a omissão do nome da página do Facebook ou do jornal que a alimenta foi uma decisão deliberada da Direcção Editorial do jornal PÚBLICO e da editora da secção da Sociedade que, com sentido de responsabilidade, não quiseram dar publicidade à publicação que, manifestamente, tinha tomado posições claramente atentatórias contra a necessidade de se criar consenso social em favor da vacinação, algo que o jornal assumiu e defendeu desde a primeira hora”.

    A pandemia colocou os media perante um dilema complexo: informar sem alarmar, promover a adesão a políticas públicas sem abdicar do espírito crítico. Falharam nestes dois planos básicos: alarmaram e abdicaram do espírito crítico. E pior ainda: optaram alegremente por uma terceira via — a da adesão acrítica, revestida de uma linguagem moralizante que dividia o espaço público entre “responsáveis” e “negacionistas”. Essa dicotomia, útil para simplificar narrativas, foi profundamente nociva para o rigor informativo.

    Hoje, quando surgem reportagens que dão corpo a efeitos adversos — reais, embora se deva averiguar, obrigando o Infarmed a mostrar dados, a sua prevalência sem aldrabices —, a reacção dominante não é a de aprofundamento, mas de silêncio ou desconforto sobre os comportamentos passados de muitas direcções editoriais e de muitos jornalistas. Como se reconhecer a complexidade do tema implicasse admitir falhas passadas. E talvez implique.

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    Foto: CDC

    Não se trata de reescrever a História nem de alimentar narrativas conspirativas. Trata-se de recentrar a reflexão sobre as funções do jornalismo que se perderam na pandemia: olhar para os factos, mesmo quando são incómodos, e interrogar o seu próprio desempenho. Perguntar se houve excesso de zelo, falta de contraditório, dependência excessiva de fontes institucionais. Perguntar se, em nome de uma causa considerada justa, se sacrificou a dúvida legítima.

    Na verdade, se a reportagem da CMTV tiver algum mérito duradouro, não será o de revelar o desconhecido. Será o de obrigar a comunicação social a fazer aquilo que raramente faz: olhar para si própria com o mesmo rigor com que diz olhar para os outros. Porque, no fim, a credibilidade do jornalismo não se mede apenas pela exactidão do que publica, mas pela forma como lida com aquilo que preferia não ter publicado assim.

    Por isso, ainda tenho esperança de que a CMTV e tantos outros órgãos de comunicação social assumam que falharam na cobertura noticiosa da pandemia. E corrijam o erro por duas vias: emitam um pedido de desculpas e, em simultâneo, façam pressão sobre as autoridades para revelarem informação integral, algo que só o PÁGINA UM anda a fazer desde 2021.

  • Filipe Froes, os últimos estertores do caixeiro-viajante feito delegado de propaganda médica

    Filipe Froes, os últimos estertores do caixeiro-viajante feito delegado de propaganda médica

    Um silêncio ensurdecedor instalou-se nas redacções nas últimas duas semanas, apesar de revelações que, num ambiente mediático minimamente exigente, teriam imposto escrutínio continuado e debate sério. O jornal Nascer do Sol trouxe à superfície matéria que, na linha de várias investigações sobre o tema por parte do PÁGINA UM, jamais poderá ser desvalorizada: elementos inquietantes sobre a gestão da pandemia e, sobretudo, sobre a dimensão negocial associada às vacinas — dimensão tantas vezes negada e tantas vezes diluída na retórica da urgência sanitária.

    Ficou exposto que em 2021, perante um risco virtualmente nulo para adolescentes e jovens, o Governo socialista manteve a decisão de adquirir e administrar vacinas contra a covid-19 a menores, através de contratos onde se estabeleciam dúvidas sobre os efeitos adversos no futuro.

    Henrique Oliveira, Rogério Colaço, Miguel Guimarães e Filipe Froes na sede do Ordem dos Médicos, em Julho de 2021, aquando da apresentação do plano de acompanhamento da pandemia. Estes pseudo-relatórios científicos contribuíram para a manutenção do alarme até meados de 2022. Foto: OM.

    Persistiram assim contratos, persistiram compromissos, persistiu uma lógica de execução que pareceu sobrepor-se à prudência clínica. Isto não foi apenas imprudência; foi crime: ainda mais quando o então bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães – desejoso de um futuro político – engavetou um parecer desconfortável do presidente do Colégio de Especialidade de Pediatria, e incentivou os seus acólitos – com Filipe Froes à cabeça – para que apresentassem queixa para a abertura de um processo disciplinar ao médico ‘insurrecto’ Amil Dias.

    Este comportamento de Guimarães, Froes & Ca. ficará para os anais da vergonhosa falta de coluna vertebral de um conjunto de médicos que se vergaram a interesses económicos e financeiros das farmacêuticas.

    Entretanto, na quinta-feira passada, novamente o Nascer do Sol acentuou uma dissonância comprometedora: o presidente da Apifarma – a associação sectorial da indústria farmacêutica em Portugal – não se vacinou contra a covid-19 e recorreu preventivamente à ivermectina. Assumindo-se que era e é homem saudável, a atitu de não se vacinar foi, convém dizer, da mais elementar prudência, embora seja pena que João Almeida Lopes não tenha dito na altura a mais do que aos seus amigos e próximos. Isto porque, nos anos da pandemia, qualquer postura de considerar desnecessária a vacina – por haver imunidade forte em caso de doença prévia, mesmo se grave, como foi o meu caso – ou qualquer legítima hesitação era tratada como desvio cívico e qualquer alternativa terapêutica imediatamente catalogada como charlatanismo.

    Jornal Nascer do Sol tem vindo a revelar os ‘bastidores’ da gestão da pandemia da covid-19.

    A forma como a imprensa mantém, já alguns anos após o fim da pandemia, não se trata de distracção editorial. Trata-se de uma escolha: evita-se reabrir o que foi encerrado à pressa, evita-se rever o que foi apresentado como indiscutível. Aliás, mesmo dentro do grupo mediático que alberga o Nascer do Sol, ou seja, Media Capital (dona da TVI e da CNN Portugal), a ausência de aprofundamento revela uma clivagem evidente entre publicar e investigar.

    Mas pior do que isto é a manutenção de figuras sinistras no cenário mediático. Por exemplo, Filipe Froes, omnipresente no comentário público durante a pandemia, continua ainda agora, depois de todas as revelações, a desqualificar quem questiona e a reafirmar certezas que já não resistem intactas ao confronto com a realidade.

    O padrão repete-se: simplificação agressiva do debate, rotulagem de críticos como ignorantes e defesa reiterada de determinadas soluções terapêuticas, num alinhamento demasiado conveniente com o universo das entidades com as quais manteve relações profissionais. Não se trata de um episódio isolado, mas de uma consistência. Ainda há uma semana na sua crónica no Diário de Notícias voltou à carga com a sua verve armada em argumento de autoridade, ou ainda com maior desfaçatez no seu mural do Facebook, onde impede comentários que o confrontem.

    Filipe Froes, um dos médicos portugueses com mais ligações à indústria farmacêutica, mantém-se como consultor da DGS e (ainda) com intenso palco mediático. Foto: D.R.

    Convém, por isso, recuperar um momento recente para memória mediática. Em Março passado, o Tribunal de Lisboa absolveu-me de todas as acusações de difamação apresentadas por um conjunto alargado de queixosos, entre os quais Filipe Froes. Assim de memória, além das críticas éticas, chamei-lhe ‘lobbista’, ‘caixeiro-viajante’, ‘hipócrita’ e mais alguns mimos. Fui meigo. Nove audiências no Campus da Justiça de Lisboa permitiram confrontar versões, testar coerências e retirar o discurso do seu ambiente protegido. Não houve nenhuma mentira que me foi assacada e, nas próximas semanas, haverá novidades…

    Nesse contexto, quero porém, antecipar um pormenor sobre como, neste julgamento, em que Froes era o ‘acusador’, o tiro lhe saiu pela culatra. A juíza não lhe permitiu o uso de falácias de autoridade e confrontou-o com a sua falta de argumentos em ambiente dócil. A sentença regista, aliás, um excerto que dispensa adornos:

    “O facto a que alude a alínea n), resultou não provado, desde logo porque das declarações do assistente Filipe Froes não resulta nenhum destes estados de espírito, tendo tido um discurso que mais parecia de arguido do que de testemunha, afastando-se sistematicamente do objecto do processo, não respondendo a perguntas que para si fossem incómodas, tentando ocupar o seu tempo, a evidenciar o seu saber científico ao pormenor, apesar de instado a responder às perguntas que lhe iam sendo feitas. Insistiu muito em justificar as suas condutas.”

    Ou seja, fora do seu circuito mediático que o acolhe (aqui e aqui, opara exemplos recentes) e apaparica, o discurso de Filipe Froes (e de muitos outros) revela outra consistência — ou, mais precisamente, a sua fragilidade.

    Mas a responsabilidade não se esgota, por isso, na figura de Filipe Froes. Existe um sistema mediático que o legitima, o amplifica e o protege do confronto sério, permitindo que um discurso já confrontado com a realidade continue a circular com estatuto de autoridade.

    Por isso, o jornalismo que evita o contraditório e abdica do confronto crítico deixa de escrutinar para passar a validar — e, nesse momento, abdica também da sua função. E esse jornalismo tem os dias contados se continuar a contar com pessoas como Filipe Froes.

    Trecho da sentença relativa ao depoimento de Filipe Froes em audiência em que era assistente do Ministério e apresentou queixa juntamente com a Ordem dos Médicos (que lhe pagou a advogada).

    As revelações recentes sobre a pandemia não podem já ser classificadas como marginais nem descartáveis: abriram uma fissura num discurso que durante anos foi apresentado como monolítico. Ignorá-las não é prudência, é recusa deliberada de revisão.

    Por isso, espero que, neste ponto, se esteja a assistir aos últimos estertores de um delegado de propaganda médica — exposto não apenas pelas suas próprias contradições, mas pelo sistema que, durante demasiado tempo, insistiu em sustentá-lo. Ou é ele ou a imprensa que o sustenta — sustentada, por sua vez, na indústria farmacêutica.

  • Às segundas-feiras

    Às segundas-feiras

    A manhã ia a meio quando Júlia desceu do carro e se dirigiu ao mar. Caminhou devagar sobre a areia quente e solta que lhe envolvia os pés. Saboreou cada passo. Uma onda desfeita em espuma veio ao seu encontro. Um beijo furtivo e frio. Um saltinho de pardal. Depois, o prazer do encontro. Alguns momentos a olhá-lo nos olhos. Os pés na rebentação.

    Afastou-se e pousou o saco no areal. Estendeu a toalha e dirigiu-se novamente à água. Deixou-se escorregar até o corpo ficar totalmente submerso. Nunca conseguiria explicar a felicidade que sentia naqueles momentos. A areia branca no fundo, a luz líquida. Um lá fora que, a um tempo, existia e estava ausente. Um refúgio, uma gruta, um lugar só seu.

    Nadou um pouco e regressou à toalha. Sentou-se. Colocou os óculos de sol e enfiou a mão no saco. Abriu o guardanapo que envolvia uma bola de Berlim. Mordeu-a com o mesmo prazer e a mesma lentidão com que caminhara pela areia quente e se deixara envolver pela frescura do mar. Não havia sabor que se comparasse ao de uma bola de Berlim recheada com doce de ovos e maresia.

    Era segunda-feira, dia em que estes momentos de satisfação eram particularmente importantes. Sim, porque era inevitável que o dia anterior tivesse sido domingo, o que há muito significava a visita dos filhos, netos e bisnetos. Como explicava ao jovem taxista que a levava a todo o lado, não era que não apreciasse as visitas — uma verdadeira alegria olhar para a bonita família que ela e o falecido marido tinham construído. Enchia-lhe o coração perceber o quanto a estimavam. O problema era mesmo o excesso de zelo.

    Apareciam carregados de comida saudável: sem glúten, sem lactose, sem açúcar, sem gordura…

    — Porque a avó não pode comer isto, porque a avó não pode comer aquilo.

    Nunca percebeu onde lhe tinham ido desencantar tanta doença e intolerância.

    O domingo era, portanto, dia de dieta. O pior — piorzinho mesmo — era a sobremesa. Não porque faltasse. Afinal, iam lá para mimar a avó. E “por sorte” a bisneta mais velha tinha um imenso talento para fazer bolos… veganos. Fatias cheias de boas intenções e sabor a cartão molhado.

    Mas ela comia, agradecia e sorria. Afinal de contas, no dia seguinte era segunda-feira.

    E às segundas-feiras tudo voltava ao seu lugar.

    Poderia ter dito que não gostava. Poderia ter explicado que, por alguma razão, nunca se tinha servido comida de hospital lá em casa. Mas não lhe apetecia contrariá-los. Até porque se tinha apercebido de uma coisa estranha: falavam dela no passado. No “tempo dela”.  Um tempo em que teria tido vontade própria, em que não lhes ocorreria definir a ementa sem a sua opinião. Mas isso fora antigamente.

    Agora os mais velhos contavam a sua história aos mais novos, como se ela não fosse capaz de o fazer.

    — E quando a avó foi campeã nacional? Chegou a casa toda orgulhosa com esta medalha. Lembra-se, mãe? — perguntava o filho com ar paternal.

    Era, portanto, suposto os outros terem melhor memória dos seus próprios feitos do que ela. E, mais uma vez, isso poderia tê-la aborrecido. Mas, se se fosse incomodar com alguma coisa, seria com o facto de ninguém ter percebido que não vivia de lembranças.

    Tratavam o seu passado como uma espécie de museu que percorriam aos domingos: as medalhas de natação, os diplomas, os livros publicados, as fotografias das inúmeras viagens que fizera. Faziam-no com uma nostalgia que ela não sentia e com um orgulho que a fazia sorrir.

    A vida dela não estava nas vitrinas desse museu.

    Nos encontros familiares, o presente só reaparecia quando falavam de si próprios e lhe contavam o que tinham feito durante a semana: o trabalho, a escola, a correria nos transportes públicos, os exames que se aproximavam… E ela ouvia com atenção e com gosto.

    Coitados. Esforçavam-se tanto. Achavam mesmo que eram a janela dela para o presente.

    Sabia, por experiência própria, que eles não percebiam uma coisa simples: ela não era uma história. Que “no seu tempo” ainda era hoje. E, até mais ver, também seria amanhã.

    Terminou o último pedaço de bolo. Lambeu um resto de creme que ficara no dedo.

    Ao longe, um carro buzinou duas vezes.

    Levantou a cabeça. Era o Rui.

    Sacudiu a areia, vestiu-se e caminhou até ele.

    — Está na hora? — perguntou o rapaz pela janela.

    — Está. Combinei às 12h.

    — Onde é hoje?

    — Em São Brás.

    O Rui assobiou, aprovador.

    — Cozido de grão, Dona Júlia?

    — Claro!

    — E a dieta? Veja lá a dieta! — exclamou por entre uma gargalhada cúmplice.

    — Faço à sobremesa: um morgadinho light. Já sabes que às segundas-feiras me porto sempre bem.

    Fizeram-se à estrada e seguiram para a serra. Em conversa leve, com a alegria tranquila de quem vê o caminho abrir-se diante de si.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve

  • Ico Costa: O ‘me too’ que, afinal, era um mito

    Ico Costa: O ‘me too’ que, afinal, era um mito

    A história é conhecida e, em Abril do ano passado, depressa chegou à comunicação social, com o jornal Público a ser um dos primeiros a dar a notícia. O realizador e produtor português Ico Costa foi alvo de uma denúncia anónima e acusado de violência doméstica reiterada supostamente ao longo de, pelo menos, 10 anos. A acusação surgiu a partir de um e-mail do serviço de correio electrónico ProtonMail, que por ser encriptado confere anonimato aos utilizadores. Em todo o caso, estava assinado com o nome Joana Sousa Silva.

    A acusação foi divulgada pela conta de Instagram “maisumcasting”, que soma mais de 50 mil seguidores, fazendo com que‘ganhasse vida própria’. De facto, mesmo sem existir qualquer queixa formal nas autoridades, nem testemunhos corroborantes, nem rosto ou sequer voz, bastou apenas um e-mail anónimo para o caso causar ‘estragos’ na reputação do realizador. O Festival IndieLisboa anunciaria em 22 de Abril do ano passado, através de um simples comunicado, a retirada do documentário “Balane 3”, realizado por Ico Costa, bem como de um outro filme da programação, onde ele era produtor.

    O realizador e produtor de cinema Ico Costa sofreu danos reputacionais e profissionais por causa da denúncia anónima. Foto: D.R.

    Agora, quase um ano depois de investigações policiais, a CNN Portugal revelou esta semana que, após consulta do processo, tudo não passou de uma história difamante com o objectivo de arrasar a credibilidade do realizador. Na verdade, a Joana Sousa Silva nem existe e, tudo indica, foi mesmo um homem que esteve associado à produção e divulgação dos e-mails, alimentando posteriormente a sua difusão.

    Porém, ao contrário da denúncia e da reacção do festival em 2025, tendo sido divulgados com detalhe as acusações da (inexistente) vítima, estas novas revelações foram ignoradas por quase toda a imprensa mainstream. Ou seja, o mesmo sistema mediático que alimentou e amplificou a acusação mostra-se agora reticente em repor a reputação de Ico Costa.

    Note-se que, desde cedo, esta denúncia tinha contornos pouco plausíveis. Ivo Costa não apenas negou as acusações como garantiu nunca se ter relacionado com a tal “Joana Sousa Silva”, ou sequer conhecer alguém com esse nome, explicado ainda que, à época dos alegados factos, estava numa relação com outra pessoa, Mariana Santos, com quem ainda mantinha uma “profunda” amizade. Nenhum órgão de comunicação social conseguiu contactar alguém que conhecesse essa tal “Joana Sousa Silva” e que a relacionasse, de algum modo, com o realizador.

    A CNN Portugal terá consultado o processo e adiantou que as autoridades suspeitam que as denúncias foram, na verdade, feitas por um homem.

    Por outro lado, a imprensa que se mostrou lesta em Abril de 2025 a divulgar os pormenores do caso, jamais conseguiu contactar com a suposta vítima, mesmo sob anonimato. Ou seja, manteve-se ‘viva’ a história mesmo quando a tal Joana, que apenas comunicava por e-mail, recusou quaisquer contactos telefónicos ou presenciais. Portanto, nem sequer se estava perante um caso de anonimato, mas sim de dúvidas fortes sobre a existência física da vítima.

    Da mesma forma, a tal Joana nunca apresentou qualquer prova daquilo que alegou nos e-mails. Pelo contrário, um dos episódios por si relatados era impossível: Ico ter-lhe-ia feito uma “espera” em Lisboa num dia em que o realizador se encontrava comprovadamente em Marrocos.

    Um dos ensinamentos centrais deste episódio prende-se com o papel da comunicação social em casos de alegada violência doméstica, onde deve prevalecer um equilíbrio exigente entre a protecção da vítima e a salvaguarda de quem pode estar a ser alvo de uma acusação infundada. Isto torna-se particularmente relevante num contexto em que existe um julgamento prévio — o da opinião pública — que frequentemente antecede qualquer decisão de arquivamento, julgamento ou eventual condenação.

    Ico Costa tem trabalhado em Moçambique e realizou filmes como  “O ouro e o mundo”, gravado naquele país.

    Acresce que este tipo de situações ocorre, por natureza, em contextos de elevada reserva, muitas vezes sem testemunhas directas, o que dificulta a verificação imediata dos factos. Essa opacidade tanto pode prejudicar a vítima, quando os factos são reais, como pode lesar gravemente o alegado agressor, caso esteja inocente e seja alvo de uma imputação falsa. Por essa razão, a abordagem mediática destes casos exige um escrutínio particularmente rigoroso, sob pena de expor injustificadamente tanto vítimas como acusados. No caso em apreço, o suposto agressor não o era, sendo, na realidade, a única vítima de uma narrativa que a própria comunicação social ajudou a amplificar.

    Mesmo que a verdade venha entretanto a emergir, os danos já produzidos são dificilmente reversíveis. No caso de Ico Costa, as consequências foram evidentes: prejuízos reputacionais, impacto profissional directo e a retirada de um filme de competição, tudo assente numa denúncia anónima não confirmada.

    Este episódio revela, assim, uma fragilidade estrutural do ecossistema mediático contemporâneo: a progressiva substituição da presunção de inocência por uma presunção de culpa mediática, particularmente em matérias sensíveis como a violência de género, onde a pressão para reagir rapidamente tende a sobrepor-se à verificação rigorosa dos factos.

    A notícia da CNN Portugal ainda só foi replicada por quatro órgãos de comunicação social, dois deles regionais, como o Notícias de Coimbra.

    No meio deste ‘filme’, e quatro dias depois da notícia da CNN Portugal a repor os a verdade dos facto, sabe-se duas coisas. A primeira é que, em Abril do ano passado, a notícia em que Ico Costa era um suposto agressor foi revelada nos seguintes órgãos de comunicação social: Agência Lusa, Público, Observador, Sábado, ZAP Notícias, Notícias ao Minuto e SIC Notícias.

    Agora, após a publicação do artigo da CNN, os primeiros órgãos de comunicação social a fazer eco foram dois jornais regionais, o Notícias Maia e o Notícias de Coimbra. Já com uma dimensão maior, seguiu-se a Euronews Portugal, que destacou que o “IndieLisboa mantém silêncio após denúncias falsas contra realizador“, e a NiT, que titulou: “Realizador Ico Costa foi acusado de violência num email anónimo. Afinal, a mulher não existe“. Todos os outros, incluindo Agência Lusa, Público, Observador, Sábado, ZAP Notícias, Notícias ao Minuto e SIC Notícias, remeteram-se ao silêncio. E a organização do Festival IndieLisboa, designadamente a associação cultural que a suporta (dirigida por Carlos Ramos, Miguel Valverde, Pedro Pereira e Rosária Vale) também continua (vergonhosamente) calada.

    Texto publicado em parceria com o jornal ContraProva.

  • Os cifrões da covid longa, ou Filipe Froes e o seu ‘negacionismo farmacológico’

    Os cifrões da covid longa, ou Filipe Froes e o seu ‘negacionismo farmacológico’

    Assinala-se hoje, 15 de Março, o Dia Internacional de Consciencialização para a Covid Longa, uma dessas efemérides sanitárias que deveriam servir para aprofundar o conhecimento científico e acabam transformadas num exercício de reafirmação narrativa. Nos últimos anos, a data tem sido usada sobretudo para consolidar uma explicação oficial destinada a empurrar para a categoria de “covid longa” sintomas (mais ou menos) persistentes atribuídos à infecção por SARS-CoV-2, enquanto outras hipóteses clínicas ou epidemiológicas — como os efeitos adversos das vacinas, sobretudo em populações mais jovens — são tratadas com um silêncio quase disciplinar.

    É precisamente nesse contexto e ambiente inquinado, com o beneplácito de certa imprensa, que se deve ler o recente texto do pneumologista Filipe Froes, que veio ao espaço público denunciar aquilo a que chama “revisionismo pandémico”, em mais um artigo de opinião no Diário de Notícias, onde jamais revelou as suas ligações comerciais com mais de duas dezenas de farmacêuticas.

    Filipe Froes, um dos médicos portugueses com mais ligações à indústria farmacêutica, mantém-se como consultor da DGS e com intenso palco mediático.

    A escolha das palavras não é inocente — ainda mais estando em causa Filipe Froes. O termo “revisionismo” pretende colocar qualquer investigação crítica no mesmo plano das teorias conspirativas ou do negacionismo puro. Trata-se de uma técnica retórica antiga e estafada: quando os dados são incómodos, redefine-se o campo do debate de modo que a pergunta deixa de ser científica e passe a ser moral. No texto de Froes, o mecanismo atinge o absurdo do descaramento. O pneumologista não discute dados específicos, nem confronta estudos concretos; prefere recorrer a uma estratégia discursiva baseada em três pilares clássicos: argumento de autoridade, caricatura do opositor e apelo à respeitabilidade institucional.

    O problema é que essa forma de argumentação não surge num vazio. Filipe Froes nunca foi um observador neutro da pandemia. Durante os anos de covid-19 transformou-se numa das figuras mediáticas mais omnipresentes no comentário sanitário português, ocupando simultaneamente múltiplos lugares no sistema: especialista frequentemente citado nos telejornais, membro activo de estruturas científicas ligadas à pneumologia e interlocutor privilegiado das autoridades sanitárias. A sua voz tornou-se, em muitos momentos, uma espécie de extensão oficiosa da narrativa institucional sobre a pandemia.

    Essa posição teria exigido um escrutínio rigoroso sobre eventuais conflitos de interesse e sobre a proximidade entre certos especialistas e a indústria farmacêutica. Aquilo que aconteceu foi exactamente o contrário. Froes é um dos médicos com mais elevado grau de promiscuidade com a indústria farmacêutica — que jamais revela publicamente — e durante a pandemia foi um dos porta-estandartes de uma forma peculiar de unanimismo médico-mediático que transformou qualquer dúvida metodológica num acto de irresponsabilidade cívica.

    Com Froes e outros da sua laia, a ciência deixou de ser um campo de debate para se converter num instrumento de legitimação política.

    Neste ponto, Filipe Froes tornou-se uma figura simbólica de um fenómeno mais vasto que poderíamos designar por “negacionismo farmacológico” — a recusa sistemática em admitir a possibilidade de que medicamentos promovidos em larga escala possam gerar problemas que merecem investigação séria. Enquanto o negacionismo clássico nega a existência de fenómenos científicos, o negacionismo farmacológico faz o inverso: nega a legitimidade de investigar determinados efeitos adversos.

    O texto de Froes no vetusto Diário de Notícias encaixa perfeitamente nesse padrão. O pneumologista insiste que as notificações de eventos adversos nas bases de dados de farmacovigilância não demonstram causalidade — algo que é, evidentemente, verdadeiro. Mas a conclusão implícita que tenta extrair é de uma desonestidade intelectual quase exemplar: se não existe prova definitiva de causalidade, então qualquer investigação que procure essa causalidade deve ser tratada como desinformação.

    bird on green grass

    Esta inversão lógica é profundamente anticientífica. Os sistemas de farmacovigilância existem precisamente para detectar sinais inesperados e para gerar hipóteses de investigação. A ausência de prova definitiva não é prova de ausência. A História da Medicina está repleta de exemplos em que efeitos adversos raros foram identificados anos depois da introdução de um medicamento, muitas vezes graças a investigadores que desafiaram consensos aparentemente sólidos.

    Aliás, a tese de Froes esconde — e ele é perito nessa ocultação — o funcionamento concreto dessas bases de dados. Em teoria, os sistemas europeus de farmacovigilância deveriam permitir análises estatísticas detalhadas que identifiquem padrões de risco. Na prática, grande parte desses dados permanece subutilizada, sendo apresentada ao público apenas sob a forma de relatórios agregados que pouco dizem sobre possíveis relações causais.

    O caso português é paradigmático. Nem após um acórdão do Tribunal Central Administrativo do Sul o Infarmed disponibilizou os dados detalhados das reacções adversas das vacinas contra a covid-19. Corre ainda em tribunal um novo processo destinado a obrigar o presidente do Infarmed, Rui Santos Ivo, a fornecer todos os dados, sob pena de multa. Mas os dados já divulgados mostram um cenário perturbador, sobretudo pela ausência de acompanhamento clínico e pela falta de conclusões.

    Artigo de Filipe Froes no Diário de Notícias, onde jamais revela as suas ligações comerciais com a indústria farmacêutica, incluindo as empresas que lucraram com a pandemia.

    Com efeito, entre as 27.220 reacções adversas reportadas apenas no primeiro ano da vacinação em Portugal, o Página Um identificou 513 casos classificados como graves ocorridos em pessoas com menos de 25 anos, dos quais 225 permanecem sem qualquer registo de evolução clínica. Nove mortes ocorreram em pessoas com idades entre os 25 e os 49 anos — grupo etário para o qual a mortalidade associada à covid-19 era, mesmo antes da vacinação, residual.

    Houve ainda casos de recém-nascidos, não vacinados, que sofreram reacções adversas através do leite materno após a vacinação das mães, e situações de embolias pulmonares, acidentes vasculares cerebrais, tromboses venosas cerebrais e perturbações raras do sistema nervoso — todas registadas como graves — mas também, na maioria, sem que o Infarmed tenha realizado qualquer seguimento sistemático. No caso das alterações menstruais, fenómeno amplamente reportado em todo o mundo, o Portal RAM já contabilizava duas centenas de notificações apenas até Dezembro de 2021, mas nenhuma foi objecto de análise pública ou contextualização por parte do regulador.

    Tão grave quanto isto tem sido a postura institucional de Portugal, que trata como párias as vítimas de reacções adversas. O nosso país é um dos poucos na Europa que não dispõe de qualquer sistema administrativo de compensação por danos causados por vacinas ou medicamentos, obrigando os cidadãos a recorrer aos tribunais para provar a causalidade.

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    Na pandemia de covid-19 cientistas de topo que se opunham às posições da OMS foram censurados e perseguidos.

    Esta ausência institucional não é um detalhe burocrático. Revela uma contradição profunda na política de saúde pública. Enquanto vários países europeus criaram regimes “no-fault” de compensação — reconhecendo que políticas de vacinação em massa implicam riscos residuais que devem ser assumidos colectivamente — Portugal optou por transferir esse risco jurídico para o indivíduo.

    O conceito de “covid longa” transformou-se assim, de forma atroz e hipócrita, numa espécie de dogma clínico de contornos elásticos. Froes e a gente da sua laia demonstram uma fé quase inabalável na covid longa, admitindo sintomas persistentes mesmo em indivíduos sem infecção confirmada. Mas quanto à hipótese — igualmente plausível do ponto de vista imunológico — de que alguns desses sintomas possam estar relacionados com respostas pós-vacinais, essa possibilidade é colocada fora de qualquer debate institucional e científico.

    A ciência não funciona assim. A investigação médica exige precisamente o contrário: examinar hipóteses concorrentes, testar mecanismos biológicos plausíveis e confrontar dados contraditórios. Quando determinadas perguntas passam a ser tratadas como tabu, a medicina aproxima-se perigosamente da teologia.

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    Mas a estratégia de Froes — o médico amigo das farmacêuticas — consiste sobretudo na desqualificação moral dos críticos. Segundo ele, quem levanta dúvidas sobre a segurança vacinal não merece confiança. Curiosamente, o mesmo pneumologista tentou recorrer aos tribunais para limitar a forma como podia ser criticado no espaço público — um episódio que terminou recentemente com uma decisão judicial a reconhecer o meu direito a utilizar linguagem dura e incisiva ao referir-me aos seus métodos e à sua actuação pública.

    Essa decisão não é apenas um detalhe jurídico — é sobretudo um lembrete elementar: em sociedades democráticas, figuras que participaram na construção da narrativa sanitária de uma crise histórica não estão acima da crítica — muito pelo contrário, sobretudo de tiverem os comportamentos e atitudes de um Filipe Froes.

  • Ashwagandha e o método (do susto) científico de David Marçal

    Ashwagandha e o método (do susto) científico de David Marçal

    Na sua habitual retórica de trincheira, o alegado divulgador de ciência David Marçal continua a espraiar no jornal Público a sua peculiar pedagogia — uma pedagogia em que a complexidade do real é tratada como um incómodo e as subtilezas metodológicas parecem meros obstáculos à clareza da tese ideológica que sempre pretende defender.

    Com a segurança de quem empunha conclusões antes de examinar cuidadosamente as evidências, este bioquímico de formação volta a montar, na sua mais recente diatribe, o costumeiro e estafado dispositivo argumentativo: um ou dois episódios escolhidos a dedo, alguma gravidade clínica sublinhada a preceito e, no fim, a confortável conclusão de que todo um campo de investigação — neste caso, os suplementos alimentares — deve ser observado com a mesma suspeição que outrora se reservava às poções de uma feira medieval.

    Raízes secas e em pó de  Withania somnifera , conhecida na medicina ayurvédica há mais de três milénios. Foto: D.R. 

    O método, convenhamos, tem a elegância de uma caricatura e a delicadeza de um martelo pneumático: parte-se de um caso particular, amplifica-se o seu efeito dramático e conclui-se, com ar de severa racionalidade, que o problema é estrutural. Esta não deixa de ser uma forma curiosa de fazer divulgação científica: não ilumina o fenómeno, mas reduz tudo a cinzas até caber numa narrativa decidida à priori, até porque faz parte de uma rubrica financiada por projecto europeu.

    Vejamos como Marçal começa, desta vez, a sua tese. Ora, com uma pergunta que, à primeira vista, soa sensata: seria aceitável que medicamentos fossem colocados no mercado sem provas prévias de segurança e eficácia? Esta pergunta é pertinente, mas o problema surge quando essa premissa é usada para insinuar, de imediato, que o universo dos suplementos alimentares vive num estado de anarquia sanitária e que, por isso, deve ser encarado com suspeição quase generalizada.

    A estrutura do argumento é simples, para não dizer simplória: invoca-se uma recente e isolada proibição da ashwagandha na Dinamarca, ocorrida há cerca de três anos, recorda-se um caso dramático ocorrido na Bélgica no início da década de 1990 envolvendo a inclusão errada de plantas do género Aristolochia, e conclui-se que os suplementos alimentares, todos sem excepção, são um território onde impera a lógica da “casa arrombada, trancas à porta”. A narrativa tem impacto retórico, mas, do ponto de vista científico, é bastante mais frágil do que aparenta.

    Artigo de David Marçal: eis um exemplo como diabolizar os suplementos alimentares de forma enviesada…

    Comecemos pelo primeiro exemplo. A ashwagandha (Withania somnifera) é uma planta usada há séculos na medicina ayurvédica — que não é algo esotérico, mas fruto de um sistema médico tradicional indiano com três milénios — e estudada nas últimas décadas em centenas de ensaios clínicos. Na base de dados PubMed encontram-se 2.139 resultados de artigos científicos sobre a ashwagandha, dos quais 830 desde o ano de 2022. A decisão da Dinamarca de restringir a sua utilização em suplementos foi baseada numa avaliação precautória de potenciais riscos hormonais e hepáticos.

    Isto nem sequer é uma prática exclusiva na área dos suplementos alimentares — no sector dos medicamentos existem vários casos de fármacos que, sendo autorizados em determinados países, estão proibidos noutros, mesmo na Europa onde existe uma quase harmonização regulatória por via da Agência Europeia do Medicamento. Veja-se a este respeito o caso da nimesulida.

    Além disso, uma decisão regulatória num determinado país está longe de constituir, por si só, prova científica de perigosidade generalizada. A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) não decretou qualquer proibição global, e a planta continua a ser comercializada livremente em grande parte da União Europeia.

    Aliás, a literatura científica sobre a ashwagandha mostra um quadro bastante mais complexo do que aquele sugerido por uma leitura alarmista. Ensaios clínicos randomizados publicados em revistas como Medicine, Cureus ou Indian Journal of Psychological Medicine identificaram efeitos relevantes na redução do stress, na melhoria do sono e na modulação do cortisol. Isto não significa que seja uma substância milagrosa, nem que esteja isenta de efeitos adversos — nenhuma substância biologicamente activa o está. Significa apenas que existe investigação séria sobre o tema e que o debate científico está longe de justificar o tipo de generalização implícita no artigo.

    David Marçal. Foto: D.R.

    O segundo exemplo citado por David Marçal é ainda mais problemático do ponto de vista metodológico. O episódio das nefropatias associadas ao ácido aristolóquico, ocorrido em Bruxelas no início dos anos 1990, é um caso real e grave: cerca de uma centena de mulheres desenvolveu falência renal após consumir comprimidos para emagrecimento adulterados com extractos de Aristolochia.

    Mas esse episódio não foi um “problema de suplementos” no sentido genérico do termo. Foi, antes, um caso de erro grave de formulação e substituição de plantas numa preparação específica — erro que levou, aliás, à proibição global das substâncias contendo ácido aristolóquico.

    Este tipo de argumento à la Marçal funciona apenas como uma falácia clássica: através de um episódio extremo lança-se a suspeita sobre todo um campo. Se aplicássemos o mesmo método à farmacologia moderna, chegaríamos então a conclusões igualmente dramáticas, porque a História está repleta de episódios que mostram que os sistemas de regulação não eliminam o risco.

    O artigo de opinião de David Marçal insere-se num projecto editorial do Público que visa especificamente examinar a “indústria dos suplementos e combate à desinformação sobre saúde e nutrição disseminada por influenciadores”. Associar estas duas ‘linhas’ constitui, desde logo, um enviesamento científico.

    Recorde-se a talidomida, responsável por milhares de malformações congénitas na década de 1960. Ou o Vioxx, retirado do mercado em 2004 após evidência de aumento do risco cardiovascular, num caso que alguns estudos estimam ter contribuído para dezenas de milhares de mortes. Em 2004, num artigo no Público, o mesmo jornal onde escreve Marçal, surgem investigadores a dizerem que o fármaco da Merck deveria ter sido retirado do mercado logo no ano 2000. Ou ainda as recentes recolhas massivas de medicamentos contaminados com nitrosaminas, envolvendo substâncias como valsartan, ranitidina ou metformina. Se mais for preciso, pode sempre ler-se este artigo do PÁGINA UM com um repositório de falhanços graves com medicamentos.

    Estes exemplos não significam que os medicamentos sejam perigosos por natureza. Significam apenas que nenhum sistema regulatório é infalível e que o risco faz parte de qualquer intervenção farmacológica.

    Na verdade, Marçal mistura alhos com bugalhos, porque a diferença fundamental entre medicamentos e suplementos não reside na suposta pureza científica de uns e numa espécie de caos sanitário dos outros. Reside antes no enquadramento regulatório: os medicamentos destinam-se a tratar doenças e, por isso, passam por ensaios clínicos extensivos antes da autorização de introdução no mercado, enquanto os suplementos são classificados como géneros alimentícios e, em regra, são avaliados a posteriori pelas autoridades de segurança alimentar.

    Frutos maduros da Withania somnifera , também conhecida como ginseng indiano, cereja de inverno ou ashwagandha Foto: D.R.

    Ora, essa distinção pode ser discutida e aperfeiçoada. Pode defender-se, por exemplo, o reforço das exigências de qualidade, rastreabilidade e rotulagem dos suplementos, bem como uma fiscalização mais rigorosa das alegações de saúde abusivas e dos produtos comercializados em mercados digitais escassamente regulados.

    Mas transformar esse debate legítimo numa narrativa simplista que coloca medicamentos contra plantas medicinais é intelectualmente pobre e historicamente impreciso, tanto mais sabendo-se que a farmacologia moderna nasceu, em grande medida, da observação de substâncias naturais. E ainda hoje é na biodiversidade, e sobretudo nas plantas, que pode residir a chave para muitos fármacos.

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    Na tradição milenar da medicina ayurvédica, a saúde começa no prato: alimentos frescos, combinações equilibradas e plantas medicinais fazem parte da mesma lógica terapêutica. Entre elas destaca-se a ashwagandha (Withania somnifera), uma das plantas mais estudadas da farmacopeia indiana, usada há séculos para promover equilíbrio físico e mental. Está longe de ser um ‘suplemento da moda’. Foto: D.R.

    Tal como já aqui alertei, a ciência — pelo menos a ciência que David Marçal diz defender — não se faz por alinhamento ideológico, mas por análise crítica da evidência. E essa evidência mostra que existem suplementos inúteis, suplementos mal regulados e suplementos potencialmente perigosos. Mas mostra também que existem compostos naturais estudados com rigor, com perfis de segurança aceitáveis e com benefícios demonstrados em contextos específicos.

    E, nessa linha, apontar ‘armas’ à ashwagandha, sem sequer confrontar com os efeitos (positivos e negativos) dos fármacos modernos, revela-se uma péssima escolha. Ou, talvez, a escolha ideal para os intentos de Marçal e das farmacêuticas: estima-se que o mercado global da ashwagandha tenha atingido cerca de 837,5 milhões de dólares no ano passado, projectando-se um crescimento para 1,86 mil milhões de dólares até 2034. Que interessante seria para a indústria farmacêutica que actua nas mesmas áreas terapêuticas se houvesse, de repente, uma proibição mundial da ashwagandha. Dava jeito, não dava?

  • Hoje, a minha absolvição foi a derrota do Ministério Público, da Entidade Reguladora para a Comunicação Social e da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista

    Hoje, a minha absolvição foi a derrota do Ministério Público, da Entidade Reguladora para a Comunicação Social e da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista

    No mundo jurídico — e mesmo no entendimento comum — a absolvição surge como o momento em que o tribunal, confrontado com uma acusação formal, conclui que as provas não sustentam a condenação e decide libertar o arguido do peso que sobre ele recai. A própria palavra ajuda a compreender o gesto jurídico: absolvição vem do latim absolvere, isto é, desatar, soltar, libertar de um vínculo.

    Absolver é, portanto, cortar o nó da acusação quando este não resiste ao exame da prova. Perante a imputação formulada — muitas vezes pelo Ministério Público — o tribunal reconhece que a culpa não foi demonstrada nos termos exigidos pelo Direito e, por isso, desfaz o laço jurídico que mantinha o arguido sob suspeita, restituindo-lhe a condição de não culpado.

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    Foi exactamente isso que aconteceu hoje. O Tribunal Judicial de Lisboa absolveu-me de dois processos criminais intentados pelo Ministério Público, nos quais surgiam como assistentes o almirante Henrique Gouveia e Melo, a Ordem dos Médicos, o seu antigo bastonário Miguel Guimarães — hoje deputado do PSD —, bem como o pneumologista Filipe Froes e o pediatra Luís Varandas. Ao fim de nove audiências, iniciadas em Novembro do ano passado e agora encerradas com a leitura da sentença (cujo conteúdo divulgaremos logo que possível), terminou um julgamento que me manteve durante meses dependente da máquina judicial.

    Quem conhece os tribunais sabe que um julgamento não vive apenas da razão nem de argumentos jurídicos e de documentos. Vive, sobretudo, do que ali se passa perante o juiz: das testemunhas, das contradições, da solidez das provas e da capacidade de sustentar, sob escrutínio directo, aquilo que foi escrito e publicado. É nesse terreno — onde a retórica perde utilidade e a evidência ganha peso — que se decide se uma acusação tem fundamento ou se não passa de um instrumento de pressão.

    E foi precisamente essa convicção que se reforçou ao longo destas nove sessões. Orgulho-me, aliás, de ter sido absolvido sem ter sequer arrolado uma testemunha ‘amigável’, que fosse lá dizer que eu era boa pessoa. As únicas testemunhas que arrolei foram o presidente do Infarmed, Rui Santos Ivo, o presidente da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde, Carlos Carapeto, e uma inspectora dessa entidade. O objectivo era expor estas entidades, mostrar como funciona o sistema…

    woman in black shirt wearing black sunglasses

    Sobre este processo judicial ainda retomaremos com mais detalhes – que melhor exponham o que se passou naquela sala de audiência. Este texto serve sobretudo para mostrar como, no ano da graça de 2026, mais de meio século após a instauração da democracia e do teórico primado da liberdade, os processos de difamação contra jornalistas continuam, em Portugal, a ser uma via relativamente fácil e, não raras vezes, ardilosa de pressionar a imprensa livre.

    Não porque as afirmações e notícias sejam falsas — isso seria outra questão —, mas porque incomodam quem detém poder, prestígio institucional ou autoridade mediática. O mecanismo é simples: apresenta-se uma queixa, mobiliza-se o Ministério Público, quase sempre reverente aos poderes, e transfere-se para o jornalista o ónus de se defender durante anos, com custos financeiros, desgaste pessoal e a sombra permanente da suspeita.

    Com este tipo de facilitismo — alimentado ora por uma certa preguiça investigativa, ora por uma complacência perante argumentos de autoridade por parte de muitos procuradores do Ministério Público — pôde o doutor Miguel Guimarães, o doutor Filipe Froes e o doutor Luís Varandas avançar para tribunal e sustentar a sua pretensão de indemnização.

    Filipe Froes, um dos médicos portugueses com mais ligações à indústria farmacêutica, desejava ter mais 15 mil euros de indemnização por eu denunciar as suas ligações promíscuas que não revelava durante a pandemia.

    Cada um deles chegou a reclamar 15 mil euros, recorrendo, no caso da Ordem dos Médicos, a recursos provenientes das quotas pagas pelos próprios médicos para financiar honorários jurídicos e sustentar a tentativa de transformar crítica jornalística em ofensa penal. Ficará nos anais da Ordem dos Médicos a tentativa de um bastonário, Miguel Guimarães, na sua ânsia de poder (um simples lugar de deputado da Nação) ter usado uma instituição credível para perseguir colegas e jornalistas.

    Foi também graças a esse mesmo clima de indulgência institucional que o almirante Gouveia e Melo conseguiu apresentar-se como suposto ofendido num processo obscuro (e que acredito eivado de ilegalidades e compadrios) que teve origem numa investigação jornalística sobre um episódio concreto: a vacinação de médicos não-prioritários durante a fase inicial da campanha contra a covid-19, em Fevereiro e Março de 2021.

    Estamos em 2026 e aquilo que deveria ter merecido, desde logo, uma investigação séria por parte do Ministério Público sobre eventuais responsabilidades — incluindo a eventual configuração de crimes como peculato ou abuso de poder — acabou transformado num processo penal contra quem revelou e questionou os factos. Este Ministério Público não serviu, neste caso concreto, os interesses dos cidadãos.

    Miguel Guimarães, antigo bastonário da Ordem dos Médicos, e actual deputado do PSD, também queria 15 mil euros de indemnização.

    Ao longo deste percurso — que não hesito em classificar como kafkiano — torna-se inevitável uma reflexão amarga. Como é possível que, mais de meio século depois da Revolução de Abril, um jornalista que publicou informação sustentada em documentos e testemunhos, e cuja veracidade acabou por não ser negada em tribunal, se veja sentado no banco dos réus? Como é possível que a revelação de factos relevantes para o interesse público possa transformar-se, durante anos, numa suspeita criminal sobre quem os expôs?

    Além das derrotas de Gouveia e Melo, Miguel Guimarães, Filipe Froes e Luís Varandas – sobre os quais apenas lamento não ter sido ainda mais assertivo – e do próprio Ministério Público (que não satisfeito pelo mau trabalho inicial, não corrigiu a mão e ainda tentou que eu fosse condenado por uma crítica banal a uma figura pública), há, neste processo, dois outros grandes derrotados institucionais que não podem ser ignorados – e que mostram também o estado deplorável, reles e indigno da imprensa.

    O primeiro derrotado é a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, que constitucionalmente foi criada para defender a liberdade de imprensa. Em Março de 2023, a ERC produziu uma deliberação lamentável que, na prática, ofereceu cobertura institucional às queixas do almirante Gouveia e Melo, tecendo críticas éticas e de investigação aos meus trabalhos sobre a task force, e que hoje se revelam, à luz da decisão judicial, profundamente lamentáveis. A ERC serviu paa censurar e menorizar, perante terceiros, uma investigação jornalística rigorosa e cuidada.

    (Lusa - Aconteceu em 2021)
    Gouveia e Melo: o julgamento mostrou como funcionava, na verdade, a task force.

    O segundo derrotado é a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ). Na sequência de uma queixa apresentada pelo almirante, e antes de qualquer decisão judicial, essa entidade constituída apenas por jornalistas abriu-me um processo disciplinar que rapidamente se revelou canhestro, chegando mesmo a propor uma sanção manifestamente ilegal eivada de irregularidades risíveis.  O processo foi, e é, tão sórdido e reles que, em vez de arquivarem por falta de provas, ainda hoje se arrasta, sem decisão final.

    O jornalismo de investigação é assim tratado por esta ‘gente’. O comportamento da ERC e da CCPJ, acompanhado por um Sindicato dos Jornalistas com condutas lamentáveis, constitui hoje um retrato fiel da mediocridade e mesquinhez que corrói, pela promiscuidade, um dos pilares da democracia.

    Na verdade, este processo mostrou bem os instrumentos de intimidação indirecta contra quem investiga e critica o poder. Em Portugal, a liberdade de imprensa deixou de ser uma proclamação abstracta e passou a depender da resistência concreta de quem decide não recuar. E a culpa é da própria classe jornalística.

    Licínia Girão, a antiga presidente da CCPJ que me instaurou um processo disciplinar após queixa de Gouveia e Melo. Em vez de defender o jornalismo de investigação, o órgão que tutela os jornalistas preferiu ser reverente com o poder.

    A minha batalha, aliás, ainda não terminou. Há outro processo similar em curso no Porto – intentado também pelo Ministério Público, tendo Gustavo Carona, o médico reformado (e recém-registado no Colégio de Medicina Intensiva), como assistente – onde, uma vez mais, estão em causa a liberdade de expressão e a minha credibilidade enquanto jornalista e cidadão com opinião. Vai durar mais uns meses, mais trabalho e mais dinheiro gasto. Mas se alguma coisa retiro destes anos de desgaste judicial é uma certeza que, paradoxalmente, me deixa orgulhoso: hoje, ficou provado em tribunal que não minto e que aquilo que escrevo assenta em factos, documentos e provas.

    Quanto ao meu estilo — por vezes agreste, outras vezes deliberadamente mordaz —, que tanto incomoda, sempre direi que a língua portuguesa é demasiado rica para ser domesticada por um jornalismo tímido e asséptico. E, quando se trata de escrutinar o poder, a cortesia excessiva costuma ser apenas outra forma de silêncio.