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  • O Jornalismo passou a ser crime (com a ajuda do silêncio dos jornalistas)

    O Jornalismo passou a ser crime (com a ajuda do silêncio dos jornalistas)


    Sou jornalista há quase 30 anos e assisti ontem ao impensável: um jornalista sentou-se no banco dos réus no Campus de Justiça, em Lisboa, por fazer Jornalismo. Isso mesmo. Foi isso que testemunhei, ontem, na primeira sessão deste julgamento perigoso que decorreu na Sala 3, do quarto piso no edifício B do Campus de Justiça.

    Tive de assistir enquanto o procurador do Ministério Público se transformava num inquisidor perante um jornalista cujas investigações apontaram a existência de diversas irregularidades que envolveram, inclusive, o “desvio” de vacinas contra a covid-19 para vacinar médicos não prioritários quando estas escasseavam em Portugal, no início de 2021. Foi também vacinado um político, que assim conseguiu passar à frente na lista de vacinação. Tudo à margem das normas da Direcção-Geral da Saúde. Está tudo documentado.

    a statue of a man pointing at the camera
    Foto: D.R.

    Ou seja. Um jornalista fez o trabalho que o Ministério Público não fez (ou não quis fazer). Investigou. Conseguiu ter acesso a documentos e provas (com recurso aos tribunais). Publicou. Mostrou as provas, os e-mails comprometedores, as facturas falsas, os pagamentos indevidos. Provou as fugas ao fisco e as vantagens fiscais indevidas obtidas por empresas farmacêuticas.

    O que faz o Ministério Público? Colocou o jornalista como arguido. E liderou, ontem, no início da sessão, o ataque ao jornalista, agora sentado no banco dos réus, acusado de calúnia e difamação por Henrique Gouveia e Melo, a Ordem dos Médicos, o seu ex-bastonário Miguel Guimarães, e os médicos Filipe Froes e Luís Varandas.

    Isto não é só mau. Isto não é só incompetência. Isto é perigoso. Porque não foi o jornalista que esteve ontem sentado no banco dos réus a ser inquirido num tom condenatório, como se fosse um qualquer criminoso. Foi o Jornalismo. Não foi o jornalista que esteve sob o dedo acusador do procurador. Foi a democracia. E tudo está a acontecer com o silêncio cúmplice dos jornalistas, associações e reguladores do sector da imprensa e do Sindicato.

    A man holds a burning newspaper at night, creating a vivid and dramatic effect.
    Foto: D.R.

    Quando um procurador, perante as provas, os e-mails e os documentos, opta por perseguir e pedir a condenação não dos infractores mas do mensageiro, o que é isto senão um ataque à democracia?

    Além disso, chocou-me a forma desrespeitosa como o procurador se dirigiu ao jornalista. O tom cínico. A voz elevada. Como quando um mau professor enxovalha um aluno com o único intuito de o humilhar perante a turma.

    No meio do seu desastroso fio inquisitório, o procurador chegou até a querer saber que “coisas” andou o jornalista a fazer quando suspendeu a sua carteira profissional durante alguns anos. Como é público, o jornalista investiu na escrita, publicou diversos romances históricos e ensaios e dedicou-se ainda à investigação académica. Obteve também duas licenciaturas no ISEG, um mestrado, uma pós-graduação e está preparar um doutoramento.

    a close up of an old fashioned typewriter
    Foto: D.R.

    A cada frase, o objectivo do procurador era ver se conseguia que o jornalista escorregasse numa qualquer armadilha. Um espectáculo triste demais para se ver. Um comportamento que nos faz questionar, afinal, para quem trabalha o Ministério Público.

    A atitude do Ministério Público neste caso abre um precedente grave e cria espaço para outros atropelos à liberdade de imprensa e ao Jornalismo nos tribunais. Deu margem, por exemplo, a um dos advogados de acusação, para questionar o uso de uma palavra por parte do jornalista numa das suas notícias. Ao que chegámos.

    Também foi com estupefacção que ouvi a meritíssima juíza questionar o jornalista sobre se, antes de escrever a notícia, pensou em como iria afectar “a honra” dos visados na investigação jornalística.

    Foto: D.R.

    Desde quando é que cabe aos jornalistas defender a honra seja de quem for? Não é esse o papel de nenhum jornalista. Há aqui uma confusão sobre o que são os deveres e responsabilidades dos jornalistas. Mas o que dizer quando até uma juíza desconhece isso?

    Talvez o magistrado do Ministério Público que quer condenar este jornalista também não saiba qual é o papel dos jornalistas. Talvez não saiba qual é a relevância do Jornalismo na saúde das democracias.

    Cabe ao jornalista escrutinar, investigar, apurar os factos. Publicar o resultado das suas investigações e apresentar as provas.

    Foi isso que fez Pedro Almeida Vieira quando investigou e noticiou os vários escândalos em torno da campanha “Todos por quem cuida” promovida pela Ordem dos Médicos e a Ordem dos Farmacêuticos. (Curiosamente, três dos envolvidos nas polémicas da campanha “Todos por quem cuidam” provaram que tinham ambições políticas e aproveitaram bem a pandemia para “subir”: Miguel Guimarães é deputado do PSD; Ana Paula Martins, ex-bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, é ministra; Gouveia e Melo é candidato à Presidência da República.)

    Uma coisa é certa: o procurador parece não saber qual é o papel do Ministério Público. Porque perseguir jornalistas não é certamente. (Já investigar se houve crime na campanha “Todos por quem cuidam” já parece ser uma das suas competências.)

    Algumas das perguntas que foram ontem colocadas ao jornalista na primeira sessão do julgamento são inaceitáveis em democracias que honram a liberdade de imprensa. Procurou-se queimar o Jornalismo numa fogueira, ali, na Sala 3.

    Afinal, o jornalista viu os documentos? Viu os e-mails? Então o que dizia aquele e-mail? E onde viu aquela factura? E o que estava na factura? E o jornalista lá ia respondendo a este rol de questões da inquisição tosca que se montou naquela Sala 3. Lá o jornalista, de tablet na mão, andava a ter de procurar os documentos que todos os presentes podiam consultar no processo e nas notícias que publicou. Lá o jornalista, pacientemente, ia lendo os e-mails em voz em alta. Os e-mails que aquele procurador ali sentado queria usar para condenar o jornalista que os revelou, ao invés de procurar sentar no banco dos réus os autores dos mesmos.

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    Foto: D.R.

    O jornalista teve ainda de responder a questões do foro pessoal: com quem vive; quanto ganha; quais as despesas fixas mensais…

    Ali, sentada naquela sala, a ver um jornalista a ter de responder como se fosse um criminoso apenas por ter feito o seu trabalho, provocou-me, a certa altura, um arrepio. Um calafrio de quem acabou de ter uma má premonição. É que percebi, naquela Sala 3, que a democracia está mesmo por um fio, quando um jornalista é perseguido por um procurador por ter noticiado a descoberta de irregularidades.

    Ainda assim, no final da sessão de ontem, a juíza travou o questionário do advogado de Gouveia e Melo e acabou ela própria a fazer um resumo breve das revelações do trabalho de investigação jornalística de Pedro Almeida Vieira e do PÁGINA UM, no dossier sobre o caso da vacinação contra a covid-19 feita a um grupo de médicos à margem das normas da DGS. Uma luz de esperança neste dia.

    Também o procurador ficou a saber que o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa pediu ajuda a Pedro Almeida Vieira e abriu, em 2024, um inquérito para investigar a campanha polémica da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Farmacêuticos. O seu tom mudou. No final da sessão, já não era o professor que enxovalhava enquanto se via forçado a tomar nota do número do inquérito do DIAP que lhe foi fornecido pelo jornalista.

    Foto: PÁGINA UM

    Falta ainda assistir às próximas sessões deste julgamento que é duplo: o jornalista também é acusado (incluindo pelo Ministério Público) por ter trazido transparência à situação de promiscuidade que envolve dois conhecidos e mediáticos médicos, Filipe Froes e Luís Varandas. Estes médicos, consultores de farmacêuticas, consideram que é difamação e calúnia quando um jornalista revela que… são consultores de farmacêuticas e não apenas médicos. E que esse seu estatuto de consultor deve ser divulgado a cada intervenção pública e mediática que fazem, quando comentam situações de saúde pública ou promovem fármacos na imprensa.

    Estes médicos sabem que podem contar com o procurador na perseguição do Jornalismo. Porque, no fim, para o procurador, fazer Jornalismo é difamar, é caluniar. Investigar é atentar contra o bom nome. Publicar notícias com base em documentos e e-mails é um crime que merece condenação pública. Uma condenação que sirva de aviso a todos os jornalistas. E isto, caros leitores, é a normalização da intimidação judicial de jornalistas. Isto é, caros leitores, a democracia com cheiro a fim de prazo.

    Nota: Aguardamos, serenamente, que o Sindicato dos Jornalistas se pronuncie publicamente e condene este julgamento que está em curso, bem como a actuação perigosa do Ministério Público neste processo. Vamos aguardar sentados, em todo o caso. Afinal, trata-se do director do PÁGINA UM, um jornal que investiga também a promiscuidade na imprensa. E, sobretudo, um jornal que não faz fretes. A ninguém.

  • SPV: Como a Síndrome de Perturbação de Ventura contamina o debate em Portugal

    SPV: Como a Síndrome de Perturbação de Ventura contamina o debate em Portugal


    Se, há 20 anos, alguém dissesse que iríamos ver um político de direita a exigir o fim das burcas e que iria enfrentar a oposição de mulheres activistas de esquerda e extrema-esquerda, o resultado seria uma enorme gargalhada. Isso não faria sentido nenhum. Só se o mundo estivesse de cabeça para baixo.

    Hoje, engolimos a seco ao ver manifestações pró-burca nas ruas de Lisboa enquanto mulheres são alvo de terrível repressão e violência em países onde a burca é a indumentária imposta à força por extremistas.

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    Entendo o que defendem as activistas: as mulheres devem ser livres de vestir o que quiserem, mas defender a burca é todo um outro tema. Isto só aconteceu porque as activistas, como muitos em Portugal, caíram num conhecido engodo. Caíram que nem “patinhas” na trama. É evidente que o tema da burca é mais um dos muitos que atraem atenção. É perfeito para acções de marketing grátis.

    Só foi possível ver activistas de esquerda a desfilar nas ruas de Lisboa a defender que mulheres possam usar burca porque a Síndrome de Perturbação de Ventura (SPV) se espalhou e contamina hoje, mais do que nunca, o espaço de debate político – e de debate público.

    O termo foi aplicado a outros casos envolvendo políticos nos Estados Unidos, desde Bush “júnior” a Obama e a Trump. Ventura é o caso português da “doença” que afecta comentadores, jornalistas e activistas, sobretudo de extrema-esquerda, mas não só.

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    O problema da SPV é que contamina todo e qualquer debate em torno de temas que exigem reflexão séria, racional e ponderada. Porque se Ventura é contra a burca, então os que sofrem de SPV fazem manifestações a exigir a burca! O mesmo acontece em muitos outros temas, sejam eles sobre questões sociais ou económicas.

    Ora, isto beneficia amplamente Ventura e o Chega, que acabam por ver os seus temas de bandeira a dominar o espaço público. Aqueles que sofrem de SPV são como caixa de ressonância da máquina de marketing do Chega. São os seus lacaios. Sem os comentadores, jornalistas, políticos e activistas que sofrem de SPV, o Chega não seria hoje o segundo maior partido do país.

    É marketing fácil e barato. É só o Chega colocar um cartaz a mencionar ciganos e esperar. Em pouco tempo, estão centenas de doentes com SPV a saltar aos gritos: “olhem ali aquele cartaz horrível do Chega”. Simples. Marketing puro.

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    Dirão: mas é marketing negativo. Não há isso de marketing negativo. Há apenas marketing. Os portugueses ouvem falar do Chega todos os dias. As caras dos líderes do Chega estão espalhadas por todos os noticiários nas TVs. Ficam na memória. Tornam-se conhecidos do público. Familiares.

    Obviamente que quem não sofre de SPV consegue entender esta táctica que é usada — de forma consciente ou inconsciente — pelo Chega para se promover e ganhar espaço no debate público. Num mundo em que a disputa pela atenção é chave, quanto mais pessoas o Chega tiver a falar sobre o partido e seu líder melhor – mesmo que seja para criticar e denegrir.

    O melhor são mesmo os ataques nas entrevistas a Ventura nas TVs e por comentadores. Ventura devia agradecer aos jornalistas e aos comentadores que fazem o favor de o atacar de tal forma que os momentos passam em loop, repetidamente, durante uma semana nos media e nas redes sociais. São conteúdos instantâneos e de borla. Não dão trabalho nenhum. É só cortar e editar, embalar e já está: um produto de marketing fresquinho para a montra do Chega.

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    Se o Chega quisesse debater a sério sobre os seus temas de bandeira, faria um cartaz a dizer ” Todos têm de cumprir a lei” ou “Isto é Portugal”. Mas não é isso que o Chega quer. O partido quer polémica e atenção. E é aí que entram os afligidos pela SPV.

    Penso que ninguém defende que possa haver em Portugal quem ache que é especial e que não precisa cumprir a lei — desde que se trate de leis justas e regras que respeitem a Constituição. Desobedecer é um dever apenas quando as circunstâncias o exigem, como quando há leis abusivas e lesivas de direitos fundamentais. De resto, todos têm de cumprir a lei.

    Mas não é isso que o Chega quer debater. Quer estar nas luzes da ribalta. E consegue-o.

    O desespero dos que sofrem de SPV leva a que haja quem defenda a extinção do Chega. Mais uma vez, isto faz as delícias de Ventura. Mais marketing de borla. Extinguir o segundo maior partido de um país europeu seria um caso fatal para a saúde da democracia em Portugal.

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    Como mulher e mãe de raparigas, não quero burcas em Portugal. Não só pelo que representam para as mulheres, retirando-lhes dignidade, mas por questões de segurança. Mas sei que o propósito deste tema ter sido colocado a votação no Parlamento foi outro. Ainda assim, saúdo a proibição da burca. E isso não faz de mim nem de ninguém um militante de direita ou do Chega. Porque me lembro do tempo em que seria normal mulheres de esquerda saírem para a rua para defender o fim da burca.

    Hoje, se Ventura defende um tema, os que sofrem de SPV defendem o seu contrário.

    Sendo adultos e inteligentes, racionais e com bom senso, seria bom percebermos todos as dinâmicas do marketing político quando debatemos leis e medidas. Seja no Parlamento seja no espaço mediático ou nas ruas.

    Por outro lado, a SPV centra o debate em torno das propostas e da visão do Chega. O ideal será debater visões diversas não por ser “anti-Ventura”. A reacção ao Chega não deve ser a única motivação no debate de certos temas de relevo porque é limitador para uma reflexão séria.

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    Uso lenços e echarpes na cabeça quando está vento. E quando quero. Não porque algum homem me obriga sob pena de levar um enxerto de porrada. E é isso que a burca representa. Não é um símbolo religioso. É um símbolo de extremistas e de subjugação de mulheres, não importa quantas supostas defensoras de burca tirem da cartola para ir à TV dizer o contrário. Há limites para o que deve ser aceitável em Portugal, um país europeu que, nos tempos modernos, se tornou um campeão da inclusão e integração cultural e religiosa, mas um país com estatísticas terríveis de violência contra mulheres.

    Separar a análise dos temas do dilema da SPV é crucial, se quisermos que o debate público e político em Portugal caminhe para o progresso e resulte na adopção de medidas que beneficiem a população e colmatem injustiças e problemas sociais e económicos. A cura para a SPV é focar no que cada um defende. Seja um partido, um comentador, um activista. De resto, há pontes que se podem fazer com o segundo maior partido do país? Tem de haver. Ou então, coloquem já uma burca na Revolução de Abril.

  • A morte do Jornalismo e os últimos dias da Democracia no Ocidente

    A morte do Jornalismo e os últimos dias da Democracia no Ocidente


    Na adolescência e juventude, tive o privilégio de poder ler jornais, graças à minha mãe que me proporcionava semanalmente esse “luxo”. Gostava do Expresso e do Público de Domingo, com a revista que não perdia. Adorava a Colóquio/Ciência, da Gulbenkian. Quando nasceu a Fórum Ambiente, não perdia uma edição.

    Na minha juventude, os meios de comunicação social e revistas especializadas eram uma janela para o mundo. Hoje, o mundo é um “livro aberto”. Não há “intermediários”. Na altura, era diferente. Por exemplo, se quisesse saber mais sobre as práticas abusivas e maus tratos na criação de animais para a indústria alimentar, tinha de investigar. Hoje, encontra-se facilmente todo o tipo de informação. Em segundos.

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    Foto: D.R.

    O mundo ainda precisa de jornais e de jornalistas? Acredito que sim, mais do que nunca. Mas num mundo como o de hoje, em que a informação é um universo descentralizado, por que motivo irão adolescentes e jovens querer ler jornais, ouvir rádio ou ver TV? Que valor lhes trazem os media de hoje?

    Escrevo este artigo a propósito do balanço do programa estatal que prometia oferecer jornais digitais a jovens entre os 15 e os 18 anos e que foi divulgado pelo PÁGINA UM. Sem surpresas, este programa iniciado há cinco meses, é um fiasco: dos 418.682 potenciais leitores, até agora só 4.442 aceitaram “a prenda” — um em cada 100. Lançado em Maio, o projecto queria fomentar a “literacia mediática”.

    Será que o problema está nos jovens e adolescentes? Ou está nos media?

    O primeiro erro, a meu ver, é pensar-se que os adolescentes e os jovens são ignorantes e que precisam ser “ensinados”, “educados”. Esta visão encaixa numa outra: a da infantilização dos adultos nas sociedades ocidentais. Trata-se o adulto como alguém que “coitado, precisa de ser ensinado e guiado” por alguém que “sabe” o que é melhor para ele.

    An open notebook with a blue pen lies on a rustic wooden table, inviting creativity and writing.
    Foto: D.R.

    Na verdade, é o oposto. Num mundo em que os leitores e consumidores de informação têm acesso a fontes primárias, os jornais e as TVs parecem … obsoletos. Ou mesmo … burros. Sim, burros. Quantas vezes lemos nos jornais ou vemos nas TVs notícias com informação errada ou desactualizada?

    Sobretudo, existe, há muito, um divórcio entre as redacções e a população. Dos jornais, às rádios e TVs. Os canais de TVs estão cheios de política, futebol, novelas e reality shows decadentes. Nas horas que restam na programação, estão cheios de comentadores de… política, futebol e reality shows decadentes. Nos jornais, as manchetes oscilam entre política e … política. O Jornalismo e a informação têm sido substituídos em massa por uma indústria do entretenimento informativo de má qualidade.

    Além da escassa diversidade temática e pluralismo, falta hoje algo fundamental ao sector dos media: confiança e credibilidade. E isso também se deve à entrada dos interesses comerciais e políticos nas empresas de comunicação social. Mas não só. Também se deve a um outro fenómeno: a entrada da ideologia e do activismo em força nas redacções. Esse activismo veio sobrepor-se ao papel nobre de ser jornalista.

    Peguemos no exemplo da cobertura jornalística de políticas repressivas e de censura em países no Ocidente. No Reino Unido, políticas distópicas estão a levar cidadãos, humoristas e políticos, a serem interrogados e até detidos por causa de posts online ou por publicarem piadas ou memes. Em geral, a cobertura que os media tradicionais têm feito destes casos de repressão são favoráveis à perseguição e censura. Há mesmo jornalistas a justificar as detenções e condenações com a narrativa usada pelo governo britânico, de que se trata de crimes de “discurso de ódio ou desinformação”. Certamente que na China o governo também diz que censura, prende e persegue só “os maus cidadãos” e “por bons motivos”.

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    Foto: D.R.

    Os media também têm sido benevolentes com as políticas autoritárias levadas a cabo pela Comissão Europeia, liderada por Ursula von der Leyen, para restringir a liberdade de imprensa e de expressão. Quem acompanhe o tema apenas através dos media, irá pensar que aquelas políticas e leis até são “amigas” e foram feitas “para o bem” do Jornalismo. Nada mais errado. Veja-se também a polémica medida “Chat Control” que acaba com a privacidade nas mensagens encriptadas.

    Quem lê apenas as notícias da imprensa, desconhece que o reforço do autoritarismo e do poder de políticos no continente europeu está em marcha acelerada, bem como o fim de direitos fundamentais. Se à legislação repressiva juntarmos a intenção de implementar à força o cartão de identidade digital (no Reino Unido) e a introdução do euro digital, não é preciso ser vidente para se perceber que é séria e real a ameaça de se instalar na Europa um regime autoritário com recurso ao policiamento digital. Daí, é um pequeno passo para a sociedade transmutar para um sistema de créditos, similar ao chinês, em que os cidadãos “desobedientes” serão facilmente punidos com um clique, ficando sem acesso ao seu dinheiro e à Internet.

    Pavel Durov, fundador e presidente-executivo da plataforma de mensagens encriptadas Telegram, alertou hoje, numa mensagem difundida online, para esse caminho distópico que já se vive na Europa. “Um mundo negro e distópico aproxima-se rapidamente — enquanto dormimos. A nossa geração arrisca ficar na História como a última que tinha liberdades — e que permitiu que elas fossem eliminadas.”

    Parte de uma mensagem divulgada hoje pelo CEO do Telegram em que alerta que está em marcha a criação de um regime distópico no Ocidente, em que as liberdades fundamentais estão a ser eliminadas progressivamente.

    Também Meredith Whittacker, que preside à plataforma de mensagens encriptadas Signal, tem feito alertas sobre a gravidade de políticas em curso. “Estamos muito aliviados por ver a Alemanha reafirmar sua oposição à perigosa proposta ‘Chat Control’ — que exigiria a monitorização em massa das comunicações. Há muito tempo que a Alemanha é uma firme defensora da privacidade, e a notícia de que estava a considerar apoiar a vigilância em massa foi alarmante.”

    Estes alertas surgem depois de muitos outros. A ameaça à democracia no Ocidente é grave. No PÁGINA UM, vários entrevistados fizeram alertas. Foi o caso de Stella Assange, que afirmou que “Julian Assange tem sido um canário na mina de carvão“, e também do jornalista Boštjan Videmšek, que avisou que “A era da democracia está praticamente no fim“.

    Mas, da Europa para os Estados Unidos, a cobertura noticiosa de muitas políticas de censura e repressão tem falhado redondamente. Veja-se um exemplo: os media perceberam, de repente, que perseguir um opositor político usando meios do Estado é uma ameaça à democracia. Mas só perceberam isso quando um republicano está na Casa Branca. Não perceberam isso quando democratas estavam na Casa Branca e usaram meios do Estado para … perseguir judicialmente, difamar e censurar opositores.

    Close-up of a vintage typewriter with the text 'Stories matter' typed on paper, evoking nostalgia.
    Foto: D.R.

    Um jornalista pode “adorar” Biden ou o partido democrata e pode “odiar” Trump ou o partido republicano. Mas um jornalista não deve trair o Jornalismo em prol das suas preferências políticas, ideológicas ou religiosas. O facto de, nos Estados Unidos, jornalistas terem fechados os olhos às políticas antidemocráticas dos democratas constituiu uma ameaça para o futuro do Jornalismo no país e ainda ajudou Trump a regressar à Casa Branca.

    A censura e perseguição de opositores e vozes “dissidentes” executadas por Biden foram gravíssimas. Está tudo comprovado em e-mails que foram tornados públicos e as próprias empresas donas das grandes plataformas online confirmaram isso mesmo. A mais recente foi a Google, que confirmou que o YouTube silenciou vários utilizadores a pedido da Casa Branca de Biden, não porque tivessem difundido “desinformação” ou violado as políticas da plataforma, como alguns media alegam. Essa tem sido a desculpa para calar vozes vistas como incómodas em diversos países.

    E o que fizeram os media quando irrompeu o chamado “Russia hoax” e o escândalo do laptop de Hunter Biden? E o que fizeram os media quando se tornou evidente que a Casa Branca estava sem presidente, por Biden se encontrar num sério declínio de saúde, com sinais de demência? Já para não falar dos escândalos de Obama ou em torno de Hillary Clinton, designadamente o caso dos e-mails. E o caso do misterioso enriquecimento de alguns democratas, como a família Biden ou Nancy Pelosi?

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    Foto: D.R.

    Nestes casos, os media assobiaram para o lado. Tal como no caso do criminoso sexual e traficante de raparigas, Jeffrey Epstein. Os media ignoraram praticamente a sua condenação em 2008 e o escandaloso acordo judicial de que beneficiou, e também olharam para o lado sobre a sua proximidade a figuras como Bill Gates e Bill Clinton. Só perante a nomeação de nomes como Trump ou Elon Musk — que afirma ter recusado um convite de Epstein — é que os media se “interessaram” pelas ligações do criminoso sexual que se suspeita poder ter sido um potencial “activo” a soldo de serviços secretos para manter operações de chantagem sobre figuras públicas e poderosas.

    O público acaba por perceber que este enviesamento existe e isso alimenta os partidos e os políticos que são vítimas do enviesamento dos media.

    A democracia está em perigo nos Estados Unidos, na União Europeia e no Reino Unido. Mas não apenas pela elevada corrupção, a censura, as acções repressivas e a perseguição judicial de opositores feita por governantes. Porque nas sociedades democráticas, as acções de políticos, sendo relevantes, enfrentam um escrutínio público e jornalístico.

    A democracia está em perigo no mundo ocidental porque jornalistas se demitem de fazer o seu trabalho para se tornarem actores políticos.

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    Foto: D.R.

    A vitória dos conservadores nas últimas presidenciais norte-americanas surgiu depois de anos de mentiras, escândalos, censura e repressão. Mas os media estiveram calados e quietos e serviram para mostrar caras sorridentes de democratas na Casa Branca. Já para não falar num dos piores escândalos: os jornalistas pactuaram com a censura e a repressão na pandemia. É nas crises que se vê a saúde do Jornalismo e das democracias. A crise da pandemia serviu para ver a gigantesca crise existente nos media: deixaram de fazer Jornalismo e tornaram-se fantoches de políticos.

    Em Portugal, não tem sido diferente. É só ver a forma como os media tratam jornalisticamente os diferentes partidos. A gritante falta de democracia no Livre é tratada com ligeireza. Uma polémica no PCP é temporária. Um escândalo no PS era gerido com pinças, com comentadores “amigos” dos socialistas e editoriais mansos nos jornais. Já se envolver o PSD, CDS-PP ou, sobretudo, o Chega, cai o Carmo e a Trindade. Este último partido tem sido a maior vítima de enviesamento dos media em Portugal. E isso alimenta-o.

    A este enviesamento jornalístico juntam-se outras vozes, como a da historiadora Raquel Varela, que apelou publicamente ao desrespeito por valores democráticos fundamentais. Varela exige que os partidos boicotem os candidatos do partido Chega nos debates, acusando o partido de ser “extrema-direita”. E defende que “nenhum jornalista deve publicar, entrevistar, [fazer] qualquer notícia sobre o Chega“.

    Acontece que Varela pode não gostar do Chega, mas é hoje o maior partido da oposição e chegou lá com os votos de portugueses. Ou será que a historiadora pensa que os portugueses que votam no Chega também deviam ser alvo de um qualquer boicote? Uma coisa é certa: as palavras de Varela, a concretizarem-se, seriam a morte em definitivo de Abril e da Revolução dos Cravos.

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    Foto: D.R.

    A cobertura enviesada dos partidos políticos pela imprensa e o incitamento ao boicote a um partido democraticamente eleito feito por personalidades, como Raquel Varela, têm alimentado os votos no Chega. Não foi por acaso que, na entrevista a André Ventura que publicámos em Fevereiro de 2024, escolhi como título: “Vejo-me como primeiro-ministro, mas depende dos portugueses, não de mim“. Sempre foi evidente, a meu ver, que quanto mais se ostracizar o Chega nos media, mais depressa Ventura será eleito primeiro-ministro (ou Presidente). É matemático.

    Mas, além do enviesamento noticioso estar a ter impacto no sentido de voto, está a destruir a credibilidade dos jornalistas. Possivelmente, serão vários os motivos para jornalistas destruírem o Jornalismo: ideologia, fanatismo, financiamento, comportamento de rebanho, medo de represálias, busca de fama…

    Fashionable reporter with microphone posing dramatically next to a news van.
    Foto: D.R.

    Seja como for, a queda do Jornalismo no mundo ocidental constitui a maior de todas as ameaças à Democracia. Porque um partido ou outro podem ter tiques de autoritarismo, como aconteceu desde 2020, com vários atentados graves aos direitos humanos e civis e às leis fundamentais em países como Portugal. Mas se houver um Jornalismo saudável e a funcionar, a sociedade está alerta.

    O Jornalismo tem falhado com a população. Os jornalistas têm, em geral, falhado com a população. E isso inclui os adolescentes e jovens. O resultado foi inevitável. Jornalistas são, hoje, em geral, vistos como meros fantoches ao serviço de interesses ou contaminados com ideologia.

    Os jornalistas têm de procurar — independentemente das suas preferências pessoais ideológicas ou religiosas — fazer um trabalho isento. Mas tem havido pouco disso. Precisa haver mais.

    Close-up shot of vintage typewriter keys in black and white, highlighting classic technology.
    Foto: D.R.

    É como se, numa fábrica de sapatos, os trabalhadores passassem, de repente, a produzir almofadas. E os patrões lhes dissessem que, sim, que continuassem a fabricar almofadas porque era mais lucrativo. Os consumidores continuam a pensar que estão a encomendar sapatos. Só que, quando abrem as caixas, saem-lhes almofadas… Daquelas fofinhas, para logo adormecerem e nem repararem que, um dia acordam, e a Democracia desapareceu.  Tal como o Jornalismo, que morreu, asfixiado por tantas “almofadas fofinhas” produzidas. Mas, em todo o caso, o que interessa isso? É que, sem leitores jovens, quem vai ler os jornais no futuro?

  • O que acontece se uma historiadora espalha ódio e informações falsas?

    O que acontece se uma historiadora espalha ódio e informações falsas?


    Tenho abordado aqui, no PÁGINA UM, a temática das notícias falsas ou enviesadas divulgadas pelas agências noticiosas e pelos media ditos de referência, não só portugueses mas também internacionais.

    Se jornalistas difundem notícias falsas ou distorcidas, obviamente que tem impacto e as consequências são devastadoras, sobretudo para os próprios jornalistas e para os meios onde divulgaram essa desinformação. A sua credibilidade fica posta em causa. E e confiança e credibilidade são a “moeda”, o valor do negócio da comunicação social. Mas também tem impacto na opinião pública.

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    Foto: D.R.

    Mas qual o impacto e as consequências que surgem quando um historiador decide partilhar informação falsa ou distorcida?

    Vem este artigo a propósito de uma publicação que a historiadora portuguesa Irene Pimentel fez na rede social Facebook, na sequência do homicídio, nos Estados Unidos, do jovem conservador e cristão Charlie Kirk.

    Na sua publicação [cujo link opto intencionalmente por não colocar aqui, para não espalhar informação falsa], a prestigiada historiadora faz acusações falsas e cita afirmações truncadas e fora de contexto.

    A sua publicação chegou-me às mãos na sequência de uma notícia que publicámos no PÁGINA UM com o título “Onda de desinformação diaboliza Charlie Kirk e glorifica o homicida como um ‘jovem anti-fascista’“.

    Publicação da historiadora Irene Pimentel no Facebook.

    Pimentel escreveu que Kirk era um “simpatizante nazi”, o que é obviamente falso. Kirk jamais apoiou a causa nazi ou o que defendia. Ademais, Kirk era um cristão devoto e os valores cristãos estavam presentes no seu discurso e no seu pensamento. Defendia a igualdade e a tolerância e promovia o diálogo com todos.

    Mas o que mais chocou foi ver a historiadora a atribuir a Kirk uma ideia falsa e uma frase truncada. Pimentel afirmou que Kirk era contra a democracia. Escreveu isso por má-fé ou porque nem sequer foi à fonte, como deve fazer qualquer historiador mediano. Na realidade, num interessante debate de ideias (que pode ser visto em baixo), aquilo que Kirk afirmou foi que a palavra “democracia” não consta na Constituição dos Estados Unidos.

    Esse diálogo é, aliás, um exemplo fascinante daquilo que Kirk promovia: o confronto entre concepções distintas, neste caso do governo nos Estados Unidos: uma baseada no republicanismo clássico e outra no ideal democrático moderno. E Kirk está, neste debate, a ser factual: do ponto de vista técnico, a Constituição dos Estados Unidos nunca utiliza a palavra democracia. De facto, “Founding Fathers“, sobretudo James Madison e Alexander Hamilton, alertaram repetidamente contra a democracia pura, que associavam ao domínio das massas, à instabilidade e à tirania da maioria.

    No Federalista n.º 10, ensaio dedicado à salvaguarda de facções e insurreições domésticas, Madison distingue claramente entre “democracia pura” (em que os cidadãos decidem directamente) e república, que define como um sistema de representação e deliberação destinado a proteger as minorias e promover decisões ponderadas.

    Assim, o modelo preferido pelos fundadores dos Estados Unidos era o de uma república constitucional, estruturada com freios e contrapesos, federalismo e separação de poderes, de forma a conter os impulsos majoritários. Foi isso que Charlie Kirk disse e manifestou que era “a favor de um governo representativo”, ou uma democracia representativa, como a que existe nos Estados Unidos e em Portugal. Irene Pimentel preferiu ignorar tudo isto, transformando alguém que trocava ideias, mesmo que de forma assertiva, num radical anti-democrata. Um absurdo.

    Pimentel também chamou Kirk de “misógino, racista e criminoso”, o que é falso, e acusou-o de ser um organizador da invasão do Capitólio. Mas Kirk era um pacifista. Defendia a igualdade e a tolerância. Era cristão e conservador.

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    Pergunto-me: de onde vem o ódio expressado por esta historiadora por um jovem de 31 anos que deixa um legado em prol do diálogo e da paz entre pessoas com diferentes visões do mundo?

    Quando li a publicação de Irene Pimentel surgiu-me, de imediato, a seguinte questão: como é que um historiador ignora os factos, trunca frases, faz acusações falsas?

    Pensei na gravidade do caso e também questionei o seguinte: será que a reputada historiadora cometeu os mesmos pecados no desempenho do seu trabalho?

    Porque Irene Pimentel não é uma historiadora qualquer. Foi galardoada com o Prémio Pessoa em 2007. É investigadora do Instituto de História Contemporânea, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É doutorada em História Institucional e Política Contemporânea e mestre em História Contemporânea (século XX). O seu trabalho centrou-se, sobretudo, sobre a ditadura e o Estado Novo. É também autora de vários livros, incluindo um sobre “Informadores da PIDE”.

    Charlie Kirk, à esquerda na foto, promovia o debate com estudantes e co-fundou a organização Turning Point USA, em 2012. Cristão devoto e conservador, Kirk era pai casado e pai de dois filhos pequenos. Foi alegadamente assassinado por um jovem radicalizado e que tinha uma relação com um homem transgénero quando participava em mais um debate numa universidade. / Foto: D.R.

    Então, como é que uma historiadora tão experiente e prestigiada confunde um cristão devoto e conservador com um “simpatizante nazi”. Ou será que, hoje, um cristão e conservador é “um simpatizante nazi” na visão de alguns?

    Kirk não era da extrema radical. Nem da extrema-direita. Não era racista, nem misógino. Todas as frases que vi nos media, incluindo no The Guardian, e que eram citadas como “prova” de que ele era racista, homofóbico ou misógino, estavam truncadas ou foram retiradas do seu contexto. Qualquer jornalista verifica facilmente as frases de Kirk. Há muitos vídeos dos seus debates disponíveis na Internet e também estão disponíveis os vídeos do seu programa.

    Se para um cidadão comum é fácil verificar isso, para um jornalista também é. E também para um historiador.

    A pergunta sobre se Irene Pimentel também reflectiu no seu trabalho passado as mesmas falhas que a levaram a difamar Kirk, ficou a ressoar na minha mente. E outras perguntas surgiram, como esta: e no caso de outros historiadores, será que sucede o mesmo; será que a sua ideologia ou religião os “desvia” na sua busca e análise de factos históricos?

    Irene Flunser Pimentel. / Foto: D.R.

    Um jornalista espalhar informação falsa é grave. Mas pode ser um erro ocasional ou falta de tempo na investigação jornalística. Mas se um historiador faz o mesmo, tem toda uma outra dimensão e implicações. Faz-nos questionar a metodologia do seu trabalho. Afinal, não sabe aplicar a metodologia rigorosa exigida a um cientista? Não sabe que deve apenas usar fontes credíveis e, de preferência, primárias, caso seja possível?

    Será que os cientistas, estudiosos e “guardiões” do nosso passado colectivo contaminaram o seu trabalho — e a nossa visão de acontecimentos históricos — com falhas na análise de fontes?

    Ou será que, hoje, ser cristão e ser conservador é ser um “ditador, simpatizante nazi”? Será que existe uma febre anti-cristã e anti-conservadora? Uma espécie de nova histeria colectiva de caça às bruxas, em que conservadores e cristãos são “os maus nazis a abater”?

    Os valores cristãos estavam presentes no pensamento e no discurso de Charlie Kirk. / Foto: D.R.

    Não concordo com muitas das ideias de Kirk, mas tendo assistido a muitos dos vídeos dos seus debates, compreendo que o seu pensamento se enquadrava numa visão cristã e conservadora do mundo.

    Acontece que a democracia vive da diversidade de pensamento, do diálogo e da fundamental liberdade de expressão. Se historiadores querem tornar “ilegal” e começar a atribuir o carimbo de extremista a cada cristão e conservador do mundo ocidental, então temos um sério problema. Um problema de radicalismo, pensamento anti-democrata que incentiva uma nova caça às bruxas ao desumanizar uma significativa parte da população. Se a historiadores, juntarmos jornalistas tornados activistas, políticos e comentadores, então enquanto sociedade democrática e plural, temos mesmo um sério problema.

  • O ‘jornalismo de manada’ como arma política

    O ‘jornalismo de manada’ como arma política


    Numa era de profuso acesso a muitas fontes de informação e conteúdos, o papel do jornalista torna-se ainda mais crucial. Afinal, como profissional de informação, conhece as técnicas para saber quais as fontes seguras credíveis e também para verificar se informações que circulam estão correctas.

    Assim, numa era em que os leitores se podem perder no meio de tanta informação e conteúdos, o Jornalismo pode e deve ser, ainda mais, uma bússola. Pode e deve ser um farol que evita que os consumidores de informação fiquem atolados em informações falsas.

    shallow focus photo of compass
    Foto: D.R.

    E, hoje, os próprios jornalistas têm mais ferramentas para poder confirmar dados e informações quase de modo instantâneo. Existem excepções, claro. Como quando entidades oficiais escondem bases de dados e informações de relevo, como tem acontecido em Portugal, o que tem levado o PÁGINA UM a accionar, por diversas vezes, mecanismos legais para forçar a divulgação dessa informação e a disponibilização do acesso a dados.

    Neste contexto, se é hoje muito mais fácil para os jornalistas confirmarem informações, quando todos os grandes meios de comunicação social fazem notícias similares sobre o mesmo tema, conclui-se que deve ser mesmo verdade.

    Mas esse não tem sido o caso na cobertura de muitos temas. E isso levanta um problema aos jornalistas que detectam as mentiras desses órgãos de comunicação social ditos de referência.

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    Foto: D.R.

    Os jornalistas que ainda seguem as boas práticas jornalísticas de verificação de fontes e factos são colocados, em algumas ocasiões, numa posição muito estranha: o que relatam não coincide com as “notícias” de outros jornalistas de outros media.

    Assim, a maioria dos jornalistas tende simplesmente a repetir o que os media de referência “noticiam”. Se o The Guardian ou, em Portugal, o Expresso, escrevem que “é assim” então não pode “ser assado”. Deste modo, dá-se um fenómeno de “manada” em que todos os media de referência dão notícias similares sobre os mesmos temas.

    Não me refiro, aqui, a situações de churnalism – quando jornalistas fazem copy-paste de comunicados de imprensa ou de notícias de agências, como a Lusa. Esse é um outro fenómeno que se tornou num cancro para o Jornalismo, ao longo das últimas décadas. Veja-se o caso recente em que a Lusa noticiou falsamente que os Estados Unidos deixaram de recomendar a vacina contra o sarampo. O título da notícia é falso. Mas os media em Portugal reciclaram o take da Lusa e replicaram-no, espalhando-o por toda a Internet e gerando uma onda de desinformação impossível de travar.

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    Foto: D.R.

    O que falo não é nestes casos. Falo de outro fenómeno, em que os jornalistas não querem ser a “ovelha negra” que escreve uma notícia “diferente” das dos colegas. Assim, mesmo sendo mentira, se um colega do The Guardian escreve uma mentira e o pivot da SIC diz exactamente a mesma mentira, qual vai ser o jornalista a ter coragem de verificar os factos e dizer algo diferente?

    Por exemplo, quando, recentemente, pesquisei informação sobre Charlie Kirk, deparei-me com um artigo no The Guardian que continha afirmações chocantes alegadamente proferidas pelo jovem cristão conservador, fundador da organização Turning Point USA, que foi assassinado quando participava em mais um debate numa universidade.

    Lendo o artigo do The Guardian, qualquer um fica zangado e revoltado com Kirk. O racismo, a misoginia, a xenofobia, a homofobia são conceitos hediondos. Em outras notícias de outros grandes meios, sucedem-se as citações atribuídas a Kirk que chocam qualquer um.

    printing machine
    Foto: D.R.

    O problema é que uma breve pesquisa — com recurso à fonte de origem das afirmações atribuídas a Kirk — revela uma verdade escondida pelo The Guardian e pelos restantes media de referência. É que as frases são totalmente retiradas do seu contexto.

    Por exemplo, numa das frases chocantes citadas pelo The Guardian, Kirk afirmou: “If I see a black pilot, I’m going to be like, boy, I hope he’s qualified (se vir um piloto negro, vou pensar, espero que tenha qualificações)”. Lida assim, é obviamente uma frase chocante e concluímos que Kirk era efectivamente racista. Só que há um senão: foi dita num diálogo em que o objectivo de Kirk era alertar para o perigo de haver racismo causado pelas políticas discriminatórias de contratação nos Estados Unidos.

    No diálogo, ocorrido em 2024 no The Charlie Kirk Show, Kirk concluía que as políticas discriminatórias levavam pessoas a questionar se algumas minorias estavam nos seus empregos por serem boas no que fazem ou se por terem sido favorecidas por políticas de “inclusão”. Ou seja, Kirk sugeria que essas políticas tinham o potencial de retirar mérito e levar outros a pensar que a pessoa que pilotava um avião podia estar lá apenas porque a sua contratação dava jeito para a empresa preencher “quotas” de certos grupos de pessoas. E considerava que isso era negativo.

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    Foto: D.R.

    Este é um exemplo. Mas há muitos mais. Mas o leitor não tem de acreditar no que escrevo aqui. Vá ouvir Kirk e tire as suas conclusões. Porque é verdade que Kirk pode ser visto como provocatório, dado que não alinhava com a forma de falar politicamente correcta — venerada hoje pelos media, em geral.

    Mas há outro factor de relevo escondido pelos media: Kirk era um cristão devoto. E isso é relevante, por exemplo, no tema do aborto. Ou seja, o seu pensamento assenta nos princípios cristãos e “na Palavra”.

    Se fosse um muçulmano devoto (ou até fundamentalista), os media teriam tratado Kirk como sendo um “racista, misógino, homofóbico, nazi e fascista”? Sabemos que não. Apenas o fizeram porque Kirk era cristão. Apenas não assumem isso. E ao fazê-lo legitimaram o seu assassinato.

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    Foto: D.R.

    O certo é que as mentiras e as citações sem contexto propagadas pelo The Guardian e outros media de dimensão espalharam-se. Ao ponto de gerarem uma onda de protestos na Internet devido à cobertura maliciosa que os media estavam a fazer sobre Kirk, manchando o seu nome.

    Várias personalidades saíram em defesa de Kirk, como o comediante Terrence K. Williams, que condenou os que acusaram o jovem de ser racista. “Charlie Kirk não era racista e eu não vou ficar de braços cruzados a permitir que as pessoas espalhem essa mentira. Dei os meus parabéns ao Charlie Kirk no ano passado e agradeci-lhe por ter ajudado centenas de jovens negros a receber um convite para a Casa Branca em 2019. Ele ajudou a pagar a maioria dos voos e hotéis deles porque viajar custava muito [dinheiro] e ele não queria que eles perdessem essa oportunidade. Ele proporcionou-lhes uma experiência e uma oportunidade única na vida e, sim, ele também me ajudou a receber um convite. Vou sentir tanto a sua falta!”

    O mesmo se repete em relação a outras mentiras dos media sobre Kirk. Em Portugal, além das notícias falsas que acusam Kirk de racista, misógino e de pertencer à extrema-direita, há ainda as mentiras espalhadas por comentadores, como Filipe Santos Costa. Este ex-jornalista tem repetido na CNN, impunemente, a mentira de que Kirk defendia o apedrejamento até à morte de homossexuais. Kirk jamais defendeu tal atrocidade. Aliás, qualquer jornalista verifica, numa breve pesquisa, que Kirk, era tolerante e defendia o diálogo e a tolerância. Num dos debates numa universidade, Kirk afirmou que, não concordava com “esse estilo de vida” (homossexualidade) mas frisou isto: o mais importante na identidade de uma pessoa não deve ser o que faz na intimidade, no quarto.

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    Foto: D.R.

    Além de jornalistas e comentadores, académicos também fogem aos factos. A historiadora portuguesa Irene Pimentel escreveu na rede social Facebook, da Meta, que Kirk era “um simpatizante nazi”, o que é obviamente falso.

    Na mesma publicação [cujo link não coloco aqui para não promover discurso de ódio e desinformação], a historiadora também atribuiu a Kirk afirmações descontextualizadas. Por exemplo, Pimentel afirmou que Kirk era contra a democracia. Na realidade, o que ele afirmou foi que a palavra “democracia” não consta na Constituição dos Estados Unidos, mas que ele era “a favor de um governo representativo”, ou uma democracia representativa, como a que existe nos Estados Unidos e em Portugal. Pimentel também chamou Kirk de “misógino, racista e criminoso”, o que é falso. Kirk defendia a igualdade e a tolerância. Era cristão, conservador e um pacifista.

    Mais uma vez, este tipo de acusações difamatórias acabam por desumanizar o alvo e facilitar e até legitimar os ataques e as agressões contra personalidades que não sendo “racistas”, “nazis” nem “fascistas” sofrem campanhas de desumanização.

    Na realidade, Kirk não falava a linguagem woke tão amada por académicos seguidores de ideologias de esquerda, da extrema-esquerda. E, acresce, que era cristão, portanto era crítico de alguns temas e odiado por aqueles que hoje vêem no Cristianismo uma ameaça.

    Perante tantos jornalistas e personalidades a atirar pedras ao nome e reputação de Kirk, quantos jornalistas arriscam hoje escrever a verdade sobre ele? Poucos.

    Red game pieces grouped with one isolated piece symbolizing social distancing on a reflective surface.
    Foto: D.R.

    A onda de desinformação criou uma imagem falsa de Kirk. É fácil desmontar as mentiras? É. Qualquer pessoa faz isso em segundos. Qualquer jornalista. Mas falta a vontade. Falta vontade de fazer Jornalismo isento. Sem ideologias. Sem preconceitos. Falta a vontade de seguir o método que obriga a ir à fonte e verificar qual é a verdade. Sem os óculos do wokismo, sem os óculos dos ateus e das correntes em voga que ostracizam o Cristianismo.

    É preferível pensar que é uma questão de “falta de vontade” ou de “preguiça”. Porque a alternativa é impensável: foi por maldade e má-fé.

    Como jornalista, observam-se os factos. Pode não se concordar com as posições cristãs e conservadoras de Kirk. Pode não se apreciar a linguagem directa e assertiva, nada politicamente correcta. Pessoalmente, partilho uma visão diferente da dele em muitos temas. Mas isso não é relevante quando estou a exercer a minha profissão de jornalista e a cumprir o meu dever de informar com isenção e profissionalismo.

    Um jornalista pode ser ideologicamente de extrema-esquerda e ser ateu ou agnóstico, e mesmo assim ser um bom jornalista, que faz uma cobertura noticiosa dos eventos de forma isenta e rigorosa. Ou um jornalista pode ser ideologicamente da ala conservadora e muçulmano e ser um excelente profissional.

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    Foto: D.R.

    O preço a pagar sempre que jornalistas mentem é que toda a classe perde credibilidade. Isso voltou a acontecer, agora, com o homicídio de Kirk. Já tinha acontecido em muitas outras situações. O preço a pagar pelas mentiras é o desaparecimento do Jornalismo enquanto bússola e farol no mar sem fim de informação que temos hoje. E o mar está revolto, há ondas brutais e rochas afiadas que ameaçam a navegação.

    A esperança está nos jornalistas, nos profissionais que recusarem seguir as “manadas” e as mentiras em direcção ao naufrágio. A esperança está nos jornalistas que seguirem as boas práticas de verificarem as fontes e as informações, que são as velas e o leme que podem levar a bom porto qualquer trabalho jornalístico. E aí, é lançada a âncora — a verdade.

    Tendo começado a carreira de jornalista no tempo pré-Internet e smartphones — em que verificar dados e fontes dava mais trabalho e levava mais tempo — digo isto: nada mudou, no que toca ao básico em Jornalismo. Há mais ferramentas e meios, mas o básico mantém-se e há que procurar as fontes primárias, as fontes seguras e fiáveis para conseguir responder às questões simples que uma boa cobertura noticiosa exige. Quem? O quê? Onde? Quando? Como? Porquê?

    Não basta serem fontes oficiais. Há que verificar se as fontes, mesmo as oficiais, têm interesses conhecidos ou escondidos, sejam económicos ou políticos, e deve ter-se isso em conta.

    Hoje não é fácil um jornalista seguir estes princípios. Um jornalista que “se atreva” a “sair da linha” e a escrever “algo diferente” do que está a ser dito pelo The Guardian e similares, arrisca ser insultado, envergonhado publicamente. Arrisca ser catalogado de “nazi” e “fascista”.

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    Foto: D.R.

    Porque acredito que os tempos são de desafio moral e espiritual, e não apenas sobre os factos ou as boas práticas, concluo este texto com uma sugestão a todos os jornalistas: não tenham medo. Nunca tenham medo. Porque o que conta é estarmos em paz com a nossa consciência, enquanto profissionais e seres humanos.

    Se um jornalista tem medo de escrever com base nos factos e se receia investigar, é porque vive num regime de ditadura. E isso sente-se hoje, esse peso da censura e dos “linchamentos” na praça pública perpetrados por aqueles que chamam outros de … “fascistas” e “nazis”. São esses os verdadeiros antidemocratas do nosso tempo.

    O Jornalismo é um eterno aliado da democracia. O “jornalismo de manada”, usado para desumanizar e difamar, é uma arma poderosa que ameaça destruir a democracia e favorecer os que querem censura, pensamento único e opressão. Cabe aos leitores ver a diferença.

    Nota: Texto actualizado no dia 28 de Setembro, às 17H50, para acrescentar outras acusações difamatórias que a historiadora portuguesa Irene Pimentel fez a Kirk e também para clarificar que Pimentel não afirmou que o jovem cristão e conservador era “nazi”, mas sim “um simpatizante nazi”. Esta e as restantes acusações difamatórias feitas por Pimentel numa publicação na rede Facebook são obviamente falsas.

  • Hambúrgueres: como uma ‘gaffe’ arrisca engordar (ainda mais) o Chega

    Hambúrgueres: como uma ‘gaffe’ arrisca engordar (ainda mais) o Chega


    Nos últimos dias, multiplicaram-se as celebrações, os comentários jocosos e os memes virais devido à “gaffe dos hambúrgueres” cometida por André Ventura, presidente do partido Chega.

    Os comentários na imprensa e nas redes sociais foram implacáveis com Ventura, que confundiu o evento Bürgerfest – Festa dos Cidadãos – com uma festival de hambúrgueres. O evento, que se realizou a partir de sexta-feira em Berlim, teve Portugal como país convidado e o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, marcou presença – graças aos contribuintes que “assumiram” as despesas de deslocação.

    Foto: Chega/ D.R.

    Mas os opositores e críticos de Ventura deitaram os foguetes cedo demais. Abriram prematuramente as garrafas de champanhe, vaticinando o início da queda de popularidade do presidente do Chega — e actual líder da oposição —, que continua em ascensão.

    Aliás, quem se tem rido à custa da gaffe de Ventura está, na realidade a fazer-lhe um enorme favor. Por três motivos.

    Por um lado, os portugueses não parecem apreciar muito os “sabichões”. Aquelas pessoas que corrigem as outras. Que citam trechos de livros. Que sabem tudo. Também não parece serem grandes fãs de malta intelectual, que, mesmo sem querer, dá naturalmente ares de superioridade. A não ser que sejam um pouco freaks — como Marcelo, com as suas selfies, modo peculiar de falar e episódios caricatos.

    person holding burger bun with vegetables and meat
    Foto: D.R.

    Por outro lado, os portugueses parecem ter uma “queda” para os “pobrezinhos”, os injustiçados, os vitimizados, os perseguidos. Os “coitadinhos”. Não é que Ventura seja um coitadinho ou pobrezinho, mas, claramente foi diminuído e escarnecido em público pela cómica gaffe que cometeu.

    Por fim, com esta gaffe, Ventura mostrou ter fraquezas e vulnerabilidades. Mostrou que também comete erros. Enfim, mostrou que é humano. Como todos. E comete erros e gaffes.

    Ventura não é um intelectual. Um sabichão. Um sabe tudo. Ventura é um tipo “normal”. E isso é muito apelativo a quem já o admira. Cria empatia. E é apelativo para quem já cometeu erros e gaffes. Para quem não sabia o que é, afinal, o evento Bürgerfest, na Alemanha. Para quem não pertence ao clube restricto dos “intelectuais” de topo do país.

    Foto: Chega / D.R.

    Ou seja, esta gaffe de Ventura tem o potencial de lhe trazer mais seguidores — e votos — vindos de quem se identifica com ele — enquanto português “normal”.

    No livro ‘The the new psychology of leadership‘, os autores elaboram sobre como líderes de sucesso conseguem criar uma espécie de comunidade — uma ideia de “nós”. Assim, o líder não está acima de ninguém, mas está ao lado, faz parte da comunidade. É um semelhante.

    Num artigo que os mesmos autores publicaram antes, em 2007, sobre este mesmo tópico, referem como essa percepção de identificação e proximidade pode ser passada através da linguagem utilizada pelo líder. E dão um exemplo. Quando houve o atentado às Torres Gémeas, George W. Bush, então presidente dos Estados Unidos, fez um discurso ao país em que prometeu “to hunt down and to find those folks who committed this act“. O uso de expressões como “hunt down” e “folks” aproximou o presidente do norte-americano comum. Este tipo de posicionamento ajudou a reforçar o seu poder político nos primeiros anos na Casa Branca.

    Depois, há todo um histórico de marcas, empresas e políticos que aproveitaram crises, erros, gaffes e até acusações de adversários para se promoverem. Por exemplo, em 2018, uma conhecida cadeia de fastfood transformou a sua marca KFC em FCK, para pedir desculpa aos clientes no Reino Unido e Irlanda, durante uma crise que afectou a empresa — uma mudança de distribuidor levou ao fecho de restaurantes por falta de frango. A empresa não só assumiu o erro como o transformou numa campanha de marketing de sucesso.

    Foto: D.R.

    E vale a pena recordar uma das muitas gaffes de Donald Trump, que se tornou um fenómeno, quando, no seu primeiro mandato na Casa Branca, escreveu um tweet com um erro de escrita: “covfefe”. Trump quereria escrever “coverage”. O que é certo é que a gralha tornou-se um fenómeno viral.

    Desengane-se, pois, quem aposta já numa descida a pique do número de admiradores de Ventura e de militantes do Chega. Esta confusão dos hambúrgueres ainda vai parar a uma tese de mestrado sobre marketing político.

    Resta saber se o Chega ainda vai fazer como fizeram algumas marcas, empresas e até políticos, que aproveitaram erros, deslizes e confusões para aumentar a sua popularidade. Talvez com um Chegafest? Com hambúrgueres, claro.

    Elisabete Tavares é jornalista


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • Não, Moedas não é responsável pela tragédia no Elevador da Glória

    Não, Moedas não é responsável pela tragédia no Elevador da Glória


    Quando ocorrem tragédias, há, infelizmente, logo quem delas se quer aproveitar. Foi assim também com o acidente trágico que ceifou 16 vidas depois de, aparentemente, se ter partido um cabo no mítico Elevador da Glória, em Lisboa. Um cabo que prendia os passageiros à vida.

    Nos media e nas redes sociais, foi um desfile de figuras, oportunistas, a por as garras de fora e a tirar proveito do luto e do choque. A principal vítima destes ataques tem sido o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas.

    Yellow tram ascends a steep cobblestone street.
    Foto: D.R.

    Não vou citar um a um porque são muitos e porque não lhes quero dar mais palco. Mas colheram aplausos, ‘likes‘, partilhas nas redes sociais. As hienas puseram-se em campo: políticos; adversários de Moedas e do Governo; comentadores das TVs. Enfim, os do costume. Tudo lhes serve para reforçar a fama, a qual está indexada ao que depois recebem para ir a programas de variedades — que é como classifico os actuais painéis de comentadores televisivos e das rádios.

    Os factos pouco interessam a esta gente. O que interessa é ‘malhar’ no Moedas. É vender ideologias, berrar acusações absurdas. Uns aproveitam para vender as “benesses” e os “milagres” proporcionados pelos sindicatos, e que se “estes tivessem mais poder nada disto acontecia” — uma enorme tolice. (Servem hoje, sobretudo, para manter intacto um mercado de trabalho obsoleto, em que a maioria dos trabalhadores sobrevive com migalhas, num regime democrático corrompido). Outros aproveitaram para “puxar a brasa à sua sardinha” a tempo das eleições autárquicas. Outros opinam porque sim. Os factos? Isso é chato. Não interessa.

    Mas há, pelo menos, 16 razões para atender aos factos. As vítimas mortais merecem o apuramento dos factos. E também os feridos do acidente merecem o apuramento de todos os factos. E de todas as responsabilidades. Técnicas e de gestão.

    Carlos Moedas, com a ministra do Ambiente e o presidente da Carris, no anúncio da formalização da candidatura da empresa para o fornecimento de 15 elétricos, em 28 de Junho de 2024.
    / Foto: CML/ D.R.

    É já evidente que o acidente não ocorreu, assim, do nada. Do que se sabe até agora, terá ocorrido na sequência de uma série de acontecimentos que criaram a “tempestade perfeita” para uma tragédia.

    O acidente terá tido origem em eventos que tiveram início há, pelo menos, três anos, quando a Carris lançou um concurso público para a manutenção dos centenários ascensores.

    No concurso lançado em 2022, concorreram quatro empresas: três sem o obrigatório alvará da Direcção-Geral da Energia e da Geologia (DGEG) e uma empresa muito experiente e com licença. Uma das empresas sem alvará e sem experiência na manutenção de ascensores era a MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia.

    Nesse concurso, o preço era de 1.728.000 euros. A MNTC ganhou com uma proposta que esmagou esse preço. O contrato acabou por lhe ser adjudicado por 995.515,20 euros.

    Foto: D.R.

    Além do preço, o que é chocante é ver que o caderno de encargos desse concurso é paupérrimo em termos de exigências e requisitos para a prestação da manutenção.

    O que se seguiu foi uma catadupa de acontecimentos que resultaram no trágico desfecho.

    Como é que a Carris colocou nas mãos de uma empresa sem experiência e com alvará com poucas semanas a manutenção dos ascensores? Sabemos o porquê: poupar nos custos.

    Quem tomou a decisão de adjudicação deste contrato, em 2022, pode enfrentar acusações criminais. Os nomes que constam do contrato são dois: Pedro Gonçalo de Brito Aleixo Bogas, presidente da Carris; e Maria de Albuquerque Rodrigues da Silva Lopes Duarte, vice-presidente da empresa. O conselho de administração da Carris tem ainda outra vogal executiva: Ana Cristina Coelho.

    Pedro Bogas, presidente da Carris. / Foto: D.R.

    Entretanto, este ano, a Carris cancelou um concurso público para a manutenção dos ascensores. No dia do acidente, não havia nenhum contrato válido e eficaz publicado no Portal Base referente à manutenção daqueles elevadores. O anterior contrato conhecido, com a MNTC, tinha terminado a 31 de Agosto.

    Pressionada, a Carris mostrou então aos jornalistas uma minuta de um contrato, alegadamente adjudicado por ajuste directo à mesma empresa, MNTC, com data de 20 de Agosto. A Carris tem mantido a narrativa de que o contrato foi mesmo assinado a 20 de Agosto, mas sem assinaturas digitais, vale a palavra dos gestores da Carris. (Resta saber se terá algum valor para as seguradoras e o Ministério Público.)

    Será que a tragédia poderia ter sido evitada se, em 2022, a Carris tivesse entregado a manutenção dos elevadores a uma empresa experiente? Será que teria sido evitada se, no passado mês de Agosto, a Carris tivesse entregado a manutenção a uma empresa com mais experiência? Será que a nova empresa teria conseguido detectar, no dia 1 ou 2 de Agosto, que o cabo dos ascensores da Glória não se encontrava em condições? Jamais saberemos.

    O que sabemos é que a manutenção dos ascensores foi deficiente. Falhou. Foi negligente. Foi uma brincadeira. Isso é evidente. Se tivesse sido bem feita, não teria havido esta tragédia.

    Foto: D.R.

    O que sabemos é que uma empresa, a Carris, para poupar nos custos, entregou a manutenção dos emblemáticos elevadores nas mãos de uma empresa que fazia sobretudo contratos de manutenção de piscinas públicas.

    O que sabemos é que a empresa de manutenção MNTC não tinha experiência. E nunca deveria ter postos os pés na Calçada da Glória para ali prestar serviços à Carris.

    O que sabemos é que as 16 vidas perdidas no acidente tiveram um preço: 732.484,80 euros. É o valor da “poupança” que a Carris teve em 2022, quando decidiu adjudicar o contrato de manutenção à MNTC.

    732.484,80 euros. Foi por este valor que se perderam 16 preciosas vidas. Foi por este valor que os gestores da Carris meteram as suas responsabilidades debaixo do tapete e entregaram a vida dos passageiros dos ascensores nas mãos da sorte.

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    Foto: D.R.

    Desde o dia 1 de Agosto de 2022, quando a MNTC começou a fazer a manutenção dos elevadores da Carris, os passageiros arriscaram cada vez que subiram os degraus para andar nos ascensores. Nos últimos três anos, a Carris fez os passageiros dos elevadores jogar uma espécie de roleta russa, sem que nenhum suspeitasse que aquela viagem poderia ser a última na vida.

    Agora, é preciso atender aos factos e apurar responsabilidades. Tudo parece apontar para a existência de negligência, menosprezo pelas regras de segurança e de cuidados com a manutenção do elevador da Glória.

    É certo que num país “preso por fios”, onde o bem público é muitas vezes gerido como bem privado de alguns, só surpreende que não haja mais tragédias.

    Mas querer usar esta tragédia para promover ideologias, reforçar a fama de comentador ou ganhar votos nas eleições é simplesmente nojento — e raramente uso esta palavra.

    Foto: D.R.

    Os factos já conhecidos são claros. Concretos. Querer culpar Moedas não só não faz sentido, como é estúpido. É fechar os olhos a dos maiores males que corrói o país: a eterna desresponsabilização efectiva.

    Alguém tomou decisões de gestão. Alguém fez um trabalho deficiente. Alguém foi negligente. Alguém matou 16 passageiros que apenas queriam subir a Calçada da Glória no histórico Elevador da Glória (não se excluindo que entre as vítimas haja pessoas que circulavam no passeio). Isto é indiscutível.

    Esta tragédia precisa servir para alguma coisa. Pode servir para se corrigir alguns grandes males do país. E garanto que tudo mudará, em Portugal, se houver, desta vez, pelo menos uma coisa que nunca há: Justiça. Célere.

    Elisabete Tavares é jornalista


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • Jornalismo: entre o abismo e a (necessária) revolução

    Jornalismo: entre o abismo e a (necessária) revolução


    Num mundo em revolução, com o advento da inteligência artificial e a evolução da Internet, é absurdo — e negligente — pensar-se que é viável manter a lógica de os meios de comunicação social terem estruturas rígidas, com custos enormes, acumulando passivos insanos e até dívidas ao Estado.

    O Jornalismo tem sido a principal vítima desta ilusão. E, claro, os jornalistas.

    Tantos jornalistas bons que conheço que já abandonaram a profissão porque o sector os… abandonou.

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    Foto: D.R.

    Neste mundo em mudança, ousar criar meios de comunicação social com um modelo de negócios inovador é algo disruptivo e enfrenta resistência. Foi também o que sucedeu com a economia blockchain. Mas é absolutamente necessário.

    A ideia de empregos fixos, bem pagos, com benefícios. A ideia de directores pagos a peso de ouro, com carro novo e despesas extra. A ideia de departamentos comerciais que entram pelas redacções e “arrastam” directores e jornalistas para podcasts, conferências, talks, parcerias … A ideia de meios de comunicação social que fazem tudo, vão a todas. Tudo isto está… obsoleto. 

    Pensar em meios de comunicação social com uma filosofia colaborativa, que envolve os investidores/empresários, os jornalistas, e leitores. Pensar em meios de comunicação social modernos, ajustados a este mundo em revolução, em que a informação deixou de ser centralizada e passou a ser descentralizada. Isto, sim, faz sentido.

    a white mailbox with a bunch of books in it

    O verdadeiro “power to the people” está aí, mas traz riscos. O Jornalismo é, não só, viável neste novo ecossistema, como é essencial. Pode ser uma peça-chave nesta revolução global. Mas só se largar os vícios e os grilhões que o prendem. Só se aceitar passar por uma revolução. E isso envolve quebrar barreiras culturais e de mentalidade sobre o mercado de trabalho e estruturas de funcionamento das empresas no sector dos media. E recentrar no essencial: levar informação de valor aos leitores, telespectadores ou ouvintes.

    À escala de Portugal, é isso que o PÁGINA UM tem vindo a fazer. A testar um modelo colaborativo em que os leitores também são participantes activos. Há aqui uma responsabilização de todos os chamados “stakeholders“. Incluindo os jornalistas e outros profissionais.

    person holding black iPad

    Há quem diga que isto é utopia. Mas isto é já a realidade. Só alguns ainda não perceberam que a revolução chegou e o modo antigo de funcionar já está obsoleto.

    E, convenhamos, não era positivo. Nem para a gestão carreira/família dos profissionais, nem para o Jornalismo. Nem para o Estado, que é credor de empresas de media. Nem para os jornalistas com salários em atraso ou que foram parar ao desemprego.

    O futuro disruptivo traz riscos, mas também oportunidades para, no sector dos media, haver maior eficiência, maior justiça nas remunerações dos vários profissionais e mais tempo, mais alegria, tanto na forma de viver a vida, como a carreira. E mais alegria e propósito na forma de gerir negócios. 

    Two people shake hands, possibly a deal.

    Propósito é a palavra. Surfar o mundo em revolução com propósito. No caso do Jornalismo isso é crucial. Pois chegou o tempo de realmente respirar e valorizar o Jornalismo, a sua autenticidade e absoluta necessidade de independência de poderes políticos e económicos.

    Só assim o Jornalismo vai, não apenas sobreviver à revolução, mas prosperar e contribuir para a construção de um mundo totalmente novo, que pode ter na cooperação e na solidariedade dois pilares fundamentais.

    Adenda:

    Publicado ontem no Diário de Notícias, este artigo do Filipe Alves contém afirmações falsas graves e passíveis de levarem a vários processos judiciais contra o seu autor e as publicações que o divulgaram.

    Como o Filipe Alves sabe e finge não saber, o jornal PÁGINA UM tem um modelo de negócios assente num modelo colaborativo e solidário, com os custos indexados às receitas.

    Os jornalistas e outros profissionais que decidiram colaborar com o jornal já trabalhavam por conta própria antes de decidirem apoiar o jornal.

    O modelo de negócios está condicionado às receitas. Se houver mais receitas, é possível ter mais colaboradores e trabalhos jornalísticos ou de cultura, como crónicas, e opinião, entrevistas, etc.

    O PÁGINA UM é um jornal de acesso livre para que mesmo quem não tem meios possa aceder aos artigos.

    O jornal adoptou o conceito willingness to pay, no qual os leitores podem subscrever o jornal voluntariamente, ou contribuir com donativos cujas regras estão fixadas desde o dia 1 de vida do jornal.

    A maravilhosa redacção física do jornal, com um custo fixo da ordem dos 1000 euros mensais, permite aos colaboradores ter um espaço onde é possível fazer entrevistas e podcasts e, no futuro, ter novos colaboradores ali a trabalhar, quando as receitas o permitirem.

    O jornal tem como pilares: não contrair dívida; não ter apoios do Estado ou instituições e grupos económicos; não ter prejuízo.

    Assim, obviamente que a sua estrutura tem de ser flexível e assente na parceria, cooperação e colaboração. Quem colabora com o PÁGINA UM fá-lo porque sabe quão importante o jornal é para o Jornalismo em Portugal. E como a sua existência é, não só, importante como crucial.

    O Filipe Alves sabe tudo isto. Ainda assim, publica mentiras e insiste em fazer acusações difamatórias e graves.

    Entendo que para Filipe Alves, haver jornais com uma estrutura flexível, com os custos ajustados às receitas e o foco na qualidade jornalística, seja algo estranho.

    Mas os tempos exigem inovação e um regresso da qualidade e isenção total no Jornalismo. E as coisas ainda vão mudar muito mais daqui em diante com o avanço tecnológico e a IA.

    Concluo, lamentando que o Diário de Notícias esteja a ser instrumentalizado para publicar notícias falsas e artigos com desinformação evidente.

    Mas isso também mostra quais são as prioridades do seu director e os motivos da crónica crise do jornal.

    Para se vingar de uma notícia verdadeira sobre as contas da empresa que o emprega, avançou com um ataque vingativo com falsas acusações. É agora evidente que Filipe Alves não está a defender o melhor interesse do Diário de Notícias. Nem da imprensa.

  • Agora, a Mafalda já se lembra da Alemanha de 1930

    Agora, a Mafalda já se lembra da Alemanha de 1930

    Mafalda Anjos publicou, no dia 8 de Agosto, na revista Visão um artigo com o título “Ainda estamos aqui, apesar de vivermos tempos que nos lembram a Alemanha de 1930”. No artigo, a jornalista e ex-directora da Visão elabora sobre a ameaça de fecho que paira sobre a revista, devido à insolvência da empresa a que pertence, a Trust in News.

    No artigo, aproveita para lavar as mãos e branquear o seu efectivo contributo para a crise da empresa de media e o risco de fecho da revista. E atribui as culpas da crise à extrema-direita e ao regresso de “vibes” que fazem lembrar a ascensão dos nazis ao poder na Alemanha dos anos 30.

    Por um lado, é surpreendente. Afinal, Mafalda Anjos recorda-se desse episódio negro na História que levou à Segunda Guerra Mundial — e ao Holocausto. Ninguém diria que a jornalista se lembrava que tinha existido esse período na História.

    E é surpreendente por um simples motivo: Mafalda Anjos foi um dos activistas em Portugal que mais incentivou nos media a segregação da população, a perseguição e o incentivo ao ódio de uma parte dos portugueses. Foi há pouco tempo. E vale a pena recordar. Mafalda foi um dos rostos da intolerância e perseguição ao “diferente”.

    Como directora da Visão protagonizou um dos mais tristes e lamentáveis eventos na História da imprensa em Portugal: a sistemática perseguição e difamação de uma parte da população portuguesa. Não por causa da sua cor de pele ou etnia. Não por causa da sua religião. Não por causa do seu género ou sexualidade. Mas apenas por isto: optaram por não tomar as novas vacinas contra a covid-19. Muitos tinham já imunidade natural (um tema que foi alvo de censura). Outros tomaram a opção por prevenção, dados os escassos dados sobre os eventuais efeitos a longo prazo das vacinas. Outros por não estarem nos grupos de risco. Outros por considerarem que os riscos da toma da vacina superavam os seus eventuais benefícios. Se Mafalda Anjos tivesse feito jornalismo, na altura, em vez de seguir a propaganda, saberia isto.

    a close up of an open book with some writing on it

    No seu artigo publicado este mês diz o seguinte:

    “Há líderes populistas e carismáticos de direita radical que sabem tirar partido do ressentimento, oferecendo respostas simplistas para problemas complexos, tal como na Alemanha dos anos 30”.

    Foi o que se passou na pandemia. Líderes políticos, usando o medo e o ressentimento, usando a propaganda, tiraram partido da crise de saúde pública para, servindo interesses económicos, abrir caminho ao reforço de poderes e supressão de direitos diversos, incluindo a liberdade de imprensa e de expressão.

    “Atribuem-se culpas coletivas e escolhem-se bodes expiatórios para apontar o dedo, tal como na Alemanha dos anos 30.”

    Foi que aconteceu na pandemia e Mafalda ajudou à perseguição.

    “Temos novas tecnologias disruptivas que catapultam a propaganda, tal como na Alemanha dos anos 30.”

    Tal como na pandemia. Mas, Mafalda, é mais do que isso. Com estas tecnologias impõe-se a censura, impõem-se uma narrativa. Difama-se insulta-se. Como fez Mafalda na pandemia.

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    Os confinamentos aplicados em Portugal e outros países na pandemia deixaram um rasto de destruição na economia e na saúde física e mental. A medida foi contestada e questionada com base em evidências e estudos científicos. Quem o fez foi chamado de “negacionista”.

    “E tenta-se descredibilizar os média tradicionais que denunciam as mentiras, os engodos e os perigos destes, tal como na Alemanha dos anos 30.”

    Aqui Mafalda está errada. Porque houve uma evolução. Não foi preciso destruir os media tradicionais. Ao aliarem-se a propaganda, autodestruíram-se. Aliás, continuam a autodestruir-se ao publicar artigos como o de Mafalda, este mês, na Visão.   

    Porque Mafalda Anjos, e outros jornalistas em Portugal, meteram o Jornalismo debaixo do tapete na pandemia e em torno de outros temas — das polémicas em torno da ideologia do género, à guerra na Ucrânia, etc. Fecharam-no, numa masmorra, a sete chaves. Condenaram o Jornalismo à obscuridade. Em vez de investigarem os vários temas da pandemia, aliaram-se aos governantes para impor narrativas. Para impor censura aos “desalinhados”. Para perseguir, denegrir, difamar, segregar os que questionavam medidas ou optavam por não tomar as vacinas ou usar as máscaras faciais.

    selective focus photography of people sitting on chairs while writing on notebooks

    Sim, Mafalda, houve jornalistas a ser censurados na pandemia. Houve órgãos de comunicação social a serem alvo de censura. Ainda hoje há censura.

    Foi um período negro na História de Portugal. Não apenas pela pandemia, mas pela censura, a segregação. Nasci em Abril de 1974. Assisti em choque a comentários de pessoas como Mafalda Anjos. A textos publicados na revista Visão, no Público, no Diário de Notícias, no Expresso, … Os apelos e apoios às políticas de segregação, sem qualquer base científica, mas com uma gigantesca base desumana.

    Foi um período de retrocesso nos mais basilares valores europeus, do respeito pela Democracia, pelo Estado de Direito, pelos direitos humanos e direitos civis. O ‘my body my choice’ deixou de ser defendido por pessoas como Mafalda. Foi trocado pela mais pura e odiosa segregação populacional.

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    Lembro-me de ver algumas publicações de Mafalda na rede X e de ter percebido, finalmente, como é que famílias de bem na Alemanha de 1930 alinharam com os nazis na perseguição a judeus. Era algo que eu nunca tinha percebido bem. Como é que “boas” pessoas se transformam em monstros, ficando possuídas pelo mais puro mal.

    Sempre considerei a Mafalda uma “boa” pessoa. Nada me dizia o contrário. Até assistir ao seu comportamento na pandemia. Como jornalista e directora de um órgão de comunicação social o seu desempenho desde 2020 foi desastroso. Trocou o jornalismo, a isenção, a investigação pela ideologia, a propaganda, a censura, a perseguição e a segregação. Usou termos para denegrir e difamar, como ‘chalupa’, ‘negacionista’, ‘anti-vacinas’. Outros foram atrás e chamar nomes e insultar passou a ser normal na pandemia.

    Durante a pandemia, percebi, finalmente, como “boas” pessoas na Alemanha de 1930 se tornaram apoiantes de Hitler e da ideologia e políticas nazis. Como caíram na propaganda nazi. Como se tornaram “agentes” nazis que perseguiam e denunciavam. Mafalda trocou a caneta de jornalista pela farda de “agente de saúde pública” do batalhão da propaganda da ditadura sanitária insana e anti-científica e anti-humana que se instalou nos anos da pandemia.

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    Mafalda deveria ter feito o que fez Pedro Almeida Vieira. Em 2020, viajou pela Europa e testemunhou ao vivo como estava a ser gerida a pandemia, inclusive na Suécia, um dos países com a maior taxa de sucesso na gestão da pandemia. Na Suécia, não houve máscaras, em geral. Não houve perseguição pública de parte da população. Não houve medo e terror imposto por jornalistas, ao contrário do que aconteceu em Portugal.

    Mafalda devia ter promovido a investigação jornalística, não a disseminação de propaganda. Devia ter investigado os números fornecidos pela Direcção-Geral de Saúde. Ou a censura e desinformação que circulavam sobre a origem da pandemia e a eficácia real do uso de máscaras. Ou o “perigo” que representavam as crianças para os avós…

    Mafalda devia ter investigado, como fez Pedro Almeida Vieira, o que se passava na Ordem dos Médicos. Se o tivesse feito, teria descoberto que o então bastonário, Miguel Guimarães, escondeu numa gaveta dois cruciais pareceres do Colégio de Pediatria que não recomendavam a administração das novas vacinas contra a covid-19 a crianças e jovens saudáveis.

    Estocolmo, Suécia, 2020 (Foto: PAV)

    Mesmo, agora, há muito para investigar e noticiar. Ainda esta semana, o PÁGINA UM publicou uma notícia sobre um estudo científico liderado pelo maior epidemiologista do mundo, John Ioannidis. Sim, o reputado professor da Universidade de Stanford que foi perseguido e ameaçado na pandemia por fanáticos da censura sanitária que se instalou.

    O estudo  revela um retrato bem diferente do proclamado durante a pandemia: 2,5 milhões de vidas salvas em três anos, quase todas em idosos, expondo o exagero e a fragilidade da narrativa oficial. E deixa em aberto a hipótese de que a vacinação de menores de 30 anos pode ter causado um impacte líquido negativo.

    Ou seja, o estudo dá razão ao Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos e aos pareceres que foram escondidos dos portugueses. Os pareceres que Mafalda e a Visão nunca noticiaram por seguirem a propaganda da época.

    Anders Tegnell, reputado epidemiologista sueco, liderou a resposta da Suécia à pandemia de covid-19 com um grande sucesso. O país, ao contrário de outros, como Portugal, praticamente não regista excesso de mortalidade. A Suécia recusou aplicar, em geral, confinamentos e o uso generalizado de máscara facial. / Foto: D.R.

    Na altura, perseguiram-se pais que tinham dúvidas. Segregaram-se crianças e jovens. Aterrorizou-se a população.

    Tantas notícias teria Mafalda conseguido se tivesse investigado temas da pandemia. Mas não o fez.

    A pergunta é: se Mafalda vivesse na Alemanha de 1930, iria apoiar a segregação de judeus se lhe dissessem que eram uma “ameaça” à saúde pública?

    Como o leitor deve ter reparado, possivelmente, não coloquei neste artigo qualquer link para nenhum dos artigos segregacionistas e de incentivo ao ódio que Mafalda publicou na Visão. Nem nenhum link para qualquer uma das suas publicações cheias de ódio publicadas nas redes sociais e que atraíram – e fortaleceram – uma multidão de gente raivosa em busca de vítimas que servissem de bode expiatório para tudo o que a pandemia trouxe, incluindo crise económica e desemprego. Não quero promover o seu ódio.

    E há algo que é certo: Mafalda contribuiu para a insolvência da Trust in News, sim. Não só porque era directora da Visão e publisher, como tinha acesso, se quisesse, às demonstrações financeiras da empresa de Luís Delgado. Podia ter actuado. Por outro lado, ajudou a arrastar a Visão para a lama do descrédito público, ao alinhar com propagandas e narrativas únicas, ou seja, ao recusar investigar a fundo todos os temas, sem excepção. O leitor não é burro.

    Revista Visão (Foto: PÁGINA UM)

    Quando o PÁGINA UM alertou para a grave crise que a TIN vivia e o seu gigantesco passivo e dívidas ao Estado, o que fez Mafalda? Respondeu ao Pedro Almeida Vieira que os seus artigos sobre a crise da TIN “eram fantasiosos”. Estávamos em Julho de 2023.

    Passado uns escassos cinco meses, abandonou o barco, quando o PÁGINA UM tinha tornado público que o seu barco se estava a afundar. Tentou salvar a pele e sair com uma indemnização superior a 50 mil euros. Hoje é uma das credoras da TIN. Mafalda foi directora da Visão e directora editorial (publisher) da TIN durante anos.

    Agora, tenta lavar a sua imagem e as suas mãos. E a revista Visão ainda lhe dá a honra de publicar lá um artigo. Inacreditável.

    Mafalda não sabe pedir desculpa. Nem à Visão, a qual arrastou para guerras ideológicas e para máquinas de propaganda. Nem aos leitores que se foram afastando. Nem sabe pedir desculpa aos que perseguiu e contra os quais incentivou o ódio e a segregação.

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    Mafalda ainda pode continuar a ser “boa” pessoa e ter apenas ter caído temporariamente na propaganda sistémica e coordenada que se instalou na pandemia. Pode ter sido fraca. Pode ter ficado possuída pelo mal — o mal que odeia, que segrega, que censura. Mas nunca pediu desculpa. E penso que ninguém espera que o venha a fazer. Pelo contrário. Como outros, vai branquear a sua imagem e o seu papel. Vai procurar que se esqueça o que escreveu e o ódio que promoveu.

    Uma coisa é certa: Mafalda agora fala da Alemanha de 1930. Agora, Mafalda lembra-se. Recorda-se que houve períodos na História em que pessoas foram perseguidas por vizinhos, por amigos. Houve censura. Houve medo. Houve denúncias. Talvez, assim, numa futura crise, Mafalda não volte a fazer parte dos que perseguem, odeiam e segregam. Quem sabe.

    Lamento profundamente o que se passa com a Visão e as restantes publicações da TIN. Os postos de trabalho ameaçados. Os salários em atraso. Por isso, assistir à publicação de textos como o de Mafalda Anjos na Visão gera estupefacção. Porque a Europa vive, de facto, sob a ameaça de uma burocrática censura digital que se instala, com ajuda de leis novas que reprimem a liberdade de imprensa, mesmo que sejam “vendidas” embrulhadas em boas intenções. Há ameaças à democracia no Ocidente. Mas Mafalda continua a não conseguir ver a floresta da qual Portugal faz parte e de como o que se passa no país é ditado por políticas decididas no exterior, com a cumplicidade de políticos e partidos nacionais.

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    Vivem-se tempos similares aos da Alemanha de 1930? Sim. Mas não é de hoje. Já se escreve sobre isso há anos, inclusive aqui no PÁGINA UM. Por isso, é bom que agora Mafalda se lembre, finalmente, da Alemanha dos anos 30. Mas também tem “muita lata” em vir falar disso agora. Mafalda tem ajudado e contribuído para que este clima de opressão se instale e prospere. Fez parte dele até, a dado momento. E enquanto não pedir desculpa pelo que fez aos portugueses, à Visão e ao Jornalismo, escusa de vir queixar-se. Soa a lágrimas de crocodilo – daqueles que, como bons predadores, já tem a barriga cheia de uma vítima qualquer.

    Elisabete Tavares é jornalista

  • Para onde vais, Lisboa?

    Para onde vais, Lisboa?

    Tirana. Capital da Albânia. Passeando na rua, à noite, bancas de frutas tapadas com lonas permanecem à porta de alguns minimercados e mercearias, sem supervisão. Em alguns cafés, móveis das esplanadas ficam na rua toda a noite, sem correntes nem cadeados.

    Existe criminalidade em Tirana? Sim, como em todas as principais cidades. Mas alguns cenários em Tirana são já impensáveis em Lisboa, onde a real insegurança testemunhada diariamente pelos residentes e turistas contrasta com a quase invisibilidade do patrulhamento policial.

    Na madrugada desta terça-feira, a zona da Graça viveu mais uma noite de assaltos. Este bar na Travessa do Monte teve ‘sorte’. A janela estava fechada no trinco e os ladrões não conseguiram entrar. Mas os prejuízos pelos vidros partidos e cadeados estragados acumulam-se. Na Rua da Graça, a ‘casa dos crepes’ não teve a mesma sorte e foi mesmo assaltada. / Foto: D.R.

    Um exemplo. Na segunda-feira, o PÁGINA UM publicou a sua segunda reportagem sobre os ‘males’ que afligem a capital. Esta reportagem debruçou-se nos casos dos assaltos a casas no centro de Lisboa, perto da Graça, durante a noite, com as famílias a dormir.

    Na madrugada de terça-feira, a zona da Graça acordou e deparou-se com nova ronda de assaltos. A ‘casa dos crepes’, como é conhecida, viu a porta ser arrombada. Os ladrões conseguiram entrar. A manhã de anteontem foi de limpezas e com o proprietário a fazer contas aos estragos.

    Ali perto, na Travessa do Monte, um bar ficou com um vidro partido. Os ladrões não conseguiram entrar porque a janela estava fechada no ‘trinco’. Foi o que valeu. Os agentes da polícia estiveram no local a recolher provas. Mas ninguém tem esperanças de que os ladrões venham a ser apanhados e que tenham de pagar os estragos que deixaram para trás em mais uma noite de roubos na zona.

    Na Rua da Graça, os donos de lojas e cafés na zona já perderam a conta ao número de assaltos ocorridos na zona durante a noite. Além disso, há prejuízos causados por roubos feitos durante o dia.
    / Foto: PÁGINA UM

    “Pensámos que estava melhor, mas não. Os assaltos voltaram”, disse um dos proprietários de um dos estabelecimentos na Rua da Graça. Nem os quiosques de jornais escapam aos roubos. Um deles foi assaltado duas vezes só este ano. Na primeira vez, os ladrões foram bem sucedidos e conseguiram entrar e concretizar o assalto. Da segunda vez, deixaram o cadeado danificado. Para o dono do quiosque, foi mais um prejuízo, a juntar aos anteriores.

    Na movimentada farmácia, no Largo da Graça, junto ao quartel dos bombeiros, foi necessário contratar um segurança privado que agora previne roubos diurnos. Mas, mesmo assim, as funcionárias encontram alarmes no chão frequentemente. Um sinal de que alguns dos produtos expostos nas prateleiras já tinham ‘voado’.

    A esta onda de roubos durante o dia não será alheio o facto, de nas redondezas, se ter normalizado a instalação de tendas de sem-abrigo e toxicodependentes. O caso da degradação do Jardim da Cerca da Graça é testemunha disso.

    Tirana, Albânia. / Foto: PÁGINA UM

    Mas não são apenas os assaltos a casas, estabelecimentos comerciais e pessoas que sinalizam a tendência decadente da capital. Os montes de lixo espalhados por cada esquina e junto a ecopontos multiplicam-se pela cidade. A impunidade instalou-se. Além de lixo doméstico e de lojas e restaurantes, vêem-se sofás, móveis velhos, electrodomésticos, colchões, … Em algumas ruas, há vários ‘montes’ de lixos visíveis. E há a somar os sacos de obras e empreitadas na construção de empreendimentos de luxo e casas para vender a turistas a peso de ouro.

    Testemunhei situações em que funcionários da autarquia passaram para retirar lixos e entulhos a seguir ao almoço e, ao final da tarde, já lá estava mais lixo e entulho nos mesmos locais.

    Mas o maior problema é o tráfico de droga que prospera no centro de Lisboa. Se há tantos toxicodependentes é que por que há droga. Se há tantos consumidores, é porque há vendedores, traficantes. Não é preciso ser polícia para ver o consumo e o tráfico. É feito em plena luz do dia em alguns locais.

    Foto: PÁGINA UM

    Veja-se a tão falada Rua do Benformoso. Não se vê nenhum imigrante hindustânico entre os que estão sentados na escada do costume com cara de poucos amigos. A confusão e os distúrbios ali são diários. Não há vez que lá passe que não assista a confusão. Mas depois vemos o aproveitamento que existe para se atacar imigrantes hindustânicos.

    Tomar um café no Martim Moniz é uma dor de alma. Dá pena até pelos turistas que se acotovelam na longa fila para o eléctrico 28, sob o sol tórrido de Julho. Em 20 minutos, assisti a várias altercações violentas envolvendo pessoas claramente dependentes (drogas, álcool). Os funcionários dos cafés e lojas da zona mereciam uma medalha. Nem imagino o que passam ali, todos os dias.

    Foto: PÁGINA UM

    Jovens lisboetas apontam aquela zona como zona de passagem proibida à noite. E mesmo durante o dia, há ali ruas em que não entram, porque os assaltos são certos.

    Caminhando pela baixa lisboeta, o que ouço é o mesmo: muitos assaltos, muitos roubos. Muitos toxicodependentes. (E crimes violentos. Veja-se o crime hediondo noticiado ontem, sobre o corpo decapitado de um homem que foi encontrado perto do Rossio.)

    Isto são apenas exemplos. Chegam-nos testemunhos ao PÁGINA UM de lisboetas que vivem em diferentes pontos da cidade que relatam os mesmos problemas: assaltos; lixo e sujidade; toxicodependentes a viver nas ruas.

    No Jardim da Cerca da Graça são visíveis seringas em várias zonas do espaço. / Foto: PÁGINA UM

    Não é possível pensar que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e as juntas de freguesia conseguem resolver, por si só, sem apoio de outras entidades, os graves problemas que afligem a capital.

    É urgente um plano para salvar a cidade da crescente degradação. Não pode ser um plano que envolva apenas a autarquia e as juntas de freguesia. Há que envolver as autoridades policiais e outras entidades. Combater o tráfico de droga com mão-pesada. Multar de forma agressiva os que forem apanhados a entupir as ruas de lixo e monos.

    Não é possível que Portugal aceite ter esta Lisboa como cartão de visita para os turistas. E muito menos é aceitável que o país aceite ter esta Lisboa, neste estado decadente, para os seus residentes, imigrantes incluídos.

    Carlos Moedas enfrenta uma cidade com problemas complexos e que incluem evidentes focos de tráfico de droga e criminalidade generalizada. Mas o presidente da Câmara Municipal de Lisboa não vai certamente conseguir resolver este tipo de problemas sozinho. / Foto: D.R.

    Olhando para o estado de algumas zonas da cidade, faz-me lembrar a Lisboa dos anos 80 e 90. E não falo das saudosas salas de cinemas e das maravilhosas piscinas públicas, que tantas alegrias traziam no Verão. Falo dos assaltos nas ruas, falo do Intendente da droga e da prostituição, de zonas como o Casal Ventoso, os bairros de barracas e casas pré-fabricadas. Em alguns aspectos, assistimos hoje a uma espécie de ‘déjà vu‘.

    Ver Lisboa assim causa tristeza. Afinal, o que aconteceu à cidade? Como chegou aqui? O mais fácil será atirar culpas para Carlos Moedas, mas é injusto e redutor. O mesmo vale para os vários presidentes das juntas. Porque quem coloca os monos e os lixos tem responsabilidade. Quem falha no controlo e na prevenção do tráfico de droga e da criminalidade tem responsabilidade. Quem aprovou políticas irresponsáveis que deixaram entrar imigrantes com perigosos e cadastro. Quem aprovou políticas desumanas que atiraram mais portugueses para a pobreza ou para o sobre-endividamento tem responsabilidades. Ou quem criou políticas desastrosas que aumentaram ainda mais a desigualdade.

    E todos nós temos responsabilidade pela cidade em que vivemos. Fazemos parte dela. Esperar que “os outros” resolvam tudo é um absurdo. Despejar os desgostos nas redes sociais pode ser bom, mas só é útil se envolver algum tipo de envolvimento cívico concreto para a resolução dos problemas.

    Os lisboetas não podem estar à espera que a autarquia e as juntas de freguesia resolvam todos os problemas que afligem a cidade. O lixo e ‘monos’ que entopem as esquinas de muitas ruas da capital não aparecem lá sozinhos. / Foto: D.R.

    O que temo é que Lisboa seja, neste momento, apenas um reflexo do país. Um sintoma de uma doença mais vasta que se alimenta, em parte, de políticas irresponsáveis, da falta de escrutínio e fiscalização mas também do conformismo e da falta de cultura cívica de muitos portugueses.

    Em 2025, Lisboa tem tiques de uma cidade dividida. De um lado os hotéis de luxo, os restaurantes ‘gourmet‘, os condomínios novos com vista e piscina. Do outro, o lixo, a insegurança, o tráfico de droga, as tendas dos sem-abrigo nos jardins. Uma cidade de primeiro mundo em que a desigualdade dispara a olhos vistos.

    Esta Lisboa desigual, insegura, decadente e suja normalizou-se. E, sinceramente, não penso que isso seja normal. Pois Lisboa não precisa ser como Tirana e passar a ter as bancas de fruta na rua durante a noite, ou ter os móveis das esplanadas sem correntes e cadeados. Mas isso não seria o ideal? Actualmente, a realidade é bem diferente. Se uma rua da capital não acordar com uma montra partida, já é bom. E isto não é normal.

    Elisabete Tavares é jornalista