Existe uma sensação contraditória quando se assiste, numa sala de dimensões humanas, a um músico — e sobretudo cantor — que se considera excepcional e se olha em redor sem encontrar a multidão que o talento justificaria. Nestas circunstâncias, uma parte de mim aprecia o privilégio: a proximidade, o silêncio atento, a impressão quase clandestina de pertencer aos que descobriram alguma coisa antes dos outros. Outra parte sente uma certa tristeza.
A boa música, é certo, não precisa de multidões para se legitimar, mas custa aceitar que tanta gente passe ao lado dela. O concerto de Einar Solberg, esta semana na República da Música, em Lisboa, deixou-me nesse lugar incómodo entre o prazer de “sermos” poucos e o desejo de que “fôssemos” muitos mais.

A Noruega não exportou para estas nossas latitudes mais quentes muitos músicos capazes de entrar no imaginário popular. Na actualidade, temos Aurora e os Röyksopp — e, num passado mais longínquo, os a-ha constituem a grande referência musical deste país nórdico.
Einar Solberg move-se por territórios musicais muito diferentes dos de Aurira e dos Röyksopp, e pertence a outra geração no caso dos a-ha. No entanto, apesar de não cantar como o vocalista dos a-ha, Morten Harket — nem faria sentido que cantasse —, Solberg partilha com ele uma qualidade raríssima que nenhuma técnica consegue fabricar: uma voz estranha, límpida, elástica e quase inconfundível. Bastam poucos segundos para reconhecermos quem está a cantar.
A minha descoberta da voz de Solberg aconteceu em plena pandemia e por um daqueles acasos que obrigam a conceder aos algoritmos algum mérito. O Spotify empurrou-me uma canção dos Leprous — uma banda que então desconhecia, apesar de formada em 2001 e de estar já consolidada no circuito do metal progressivo.

Seguiu-se outra e mais outra, depois The Congregation, depois os restantes álbuns, o magistral registo ao vivo Live at Rockefeller Music Hall e aquele processo, conhecido de qualquer melómano, em que a curiosidade se transforma numa exploração retrospectiva de tudo o que ficou para trás.
Depressa percebi que a singularidade dos Leprous não se resumia à voz de Solberg. A banda construiu uma linguagem capaz de retirar o chão ao ouvinte no instante em que este julgava ter compreendido o compasso. Baard Kolstad, o electrizante e extraordinário baterista, contribui de forma decisiva para essa identidade: frenético quando a composição o exige, minucioso na criação de tensões, transforma a bateria num instrumento que não se limita a marcar ou ornamentar o ritmo. Em muitos casos, marca a própria estrutura da música.
Sobre essa engrenagem, a voz de Solberg podia elevar-se, rasgar, recolher-se ou prolongar uma nota até limites improváveis sem nunca parecer desligada do organismo colectivo.

Por isso abordei a carreira a solo com alguma reserva. A pergunta parecia legítima: separado daquela máquina rítmica, não acabaria Solberg por construir uns Leprous mais macios, conservando a voz e perdendo a pulsação oblíqua que tornava a banda tão magnetizante?
16, o primeiro álbum a solo, desfaz a suspeita, embora a versão acústica de The Congregation, lançada em 2024, com Solberg na voz e no piano, retire mais do que acrescenta a muitas músicas dos Leprous. Contudo, com Vox Occulta, o segundo álbum de originais, lançado este ano, a suspeita fica eliminada. Solberg não criou uns Leprous sem os Leprous. Abriu outro território.
As próprias referências musicais ajudam a compreendê-lo. Solberg nunca se confinou ao chamado metal progressivo. Radiohead e Thom Yorke ocupam um lugar importante na sua formação musical, incluindo pela liberdade vocal e pela recusa da perfeição como finalidade da interpretação.

Dos Massive Attack recolheu outra lição: a possibilidade de construir uma enorme intensidade a partir de poucos elementos, fazendo crescer uma composição pela repetição, pelas camadas e pela tensão. E até Hans Zimmer surge num mapa de referências que explica melhor a amplitude da sua escrita do que qualquer etiqueta de género.
Não vale a pena procurar, contudo, decalques, porque nem existem. Interessa antes perceber uma ideia comum: complexidade não significa acumulação. Uma nota, uma frase, um padrão rítmico podem fornecer matéria suficiente para erguer uma composição de grande escala.
Em Vox Occulta, essa concepção encontrou ainda a possibilidade de trabalhar com a Norwegian Radio Orchestra, não para colocar um verniz sinfónico sobre canções de rock, mas para pensar as próprias canções através de outras texturas e de outras relações entre instrumentos.

E depois haverá sempre Ihsahn a puxá-lo para territórios mais agrestes. No seu concerto em Lisboa, antes de iniciar Splitting the Soul, Solberg contou, com graça, a história do primeiro encontro entre ambos. Para quem desconhecesse a árvore familiar e musical, convém um enquadramento: Ihsahn tem mais nove anos do que Einar e é seu cunhado. Como vocalista, guitarrista e principal força criativa dos Emperor, Ihsahn tornou-se uma das figuras fundamentais do black metal norueguês antes de construir uma carreira a solo que rompeu há muito as fronteiras estéticas desse género.
A relação musical entre ambos atravessa muitos anos. Os Leprous acompanharam Ihsahn ao vivo, Solberg participou em actuações dos Emperor e os dois mantêm colaborações pontuais que mostram uma proximidade musical tão interessante quanto a familiar. Celestial Violence, do álbum Arktis, constitui um dos exemplos mais poderosos: a entrada de Solberg amplia a escala emocional de uma composição já monumental. Outro exemplo talvez seja ainda mais curioso para quem começou este texto falando de Morten Harket.
Em 2020, Ihsahn recuperou Manhattan Skyline, para mim uma das melhores canções dos a-ha, editada em 1987, e chamou o cunhado para assumir a parte vocal que mais directamente convocava a memória de Harket. A escolha fechou um círculo curioso.

Solberg não tentou imitar aquela voz — seria um exercício inútil — e Ihsahn não procurou fabricar uma mera cover pesada de um clássico pop. A melancolia luminosa do original atravessou um território mais sombrio, pesado e dramático — e nem é a primeira vez que Solberg visita o reportório da mais famosa banda norueguesa, emprestando-lhe uma sonoridade muitíssimo digna.
Enfim, regressemos a Lisboa…
Solberg subiu ao palco apenas pelas 22h30 e, nessa altura, já eu tinha uma pequena penitência a fazer. Não assistira ao primeiro concerto da noite e apanhei apenas a parte final da actuação de Raphael Weinroth-Browne.
Bastaram esses minutos para perceber o erro de ter ido jantar antes do concerto do vocalista dos Leprous. O violoncelista canadiano — que conhecia de uma participação com os Leprous — estabelece uma relação quase física com o instrumento e consegue retirar-lhe uma amplitude tímbrica que, por momentos, faz esquecer os limites de quatro cordas. O pouco que ouvi teve o inconveniente de demonstrar quanto eu perdera.


Os finlandeses Royal Sorrow seguiram-se e ofereceram uma excelente antecâmara ao concerto principal. Força, dinâmica, boa presença em palco e uma energia que não os reduziu à condição ingrata de banda que se tolera enquanto se espera pelo nome maior do cartaz. Cumpriram, com distinção, a função de preparar a sala sem parecerem estar ali para cumprir função alguma. E de preparar a minha curiosidade de os conhecer melhor nos próximos tempos.
E depois veio Stella Mortua, que abriu o concerto de um Solberg acompanhado pelos seus “monges”. Aí a escala mudou. Vita Fragilis e Liberatio confirmaram depressa uma impressão que Vox Occulta já deixara em estúdio: estas composições possuem uma dimensão quase cinematográfica.
O adjectivo tornou-se tão gasto na crítica musical que convém usá-lo com parcimónia, mas aqui descreve alguma coisa concreta. As músicas não parecem pedir imagens para as acompanhar; produzem-nas. Abrem planos, criam profundidade, aproximam e afastam elementos, deixam uma linha melódica crescer até à ruptura e, quando tudo apontaria para a expansão, podem retirar quase tudo e abandonar a voz num espaço desprotegido.




A formação levada por Einar Solberg na digressão europeia, que também passou pelo Porto, permitiu materializar essa arquitectura. Quentin Godet na guitarra, Eero Maijala (‘emprestado’ dos Royal Sorrow) no baixo, Keli Guðjónsson na bateria — que fez anos nessa noite — e Harrison White nos teclados juntaram-se às cordas de Chris Baum, Maya Fridman e Raphael Weinroth-Browne. A qualidade do conjunto mede-se menos pela soma dos currículos do que pela forma como cada elemento conhece o espaço que deve ocupar.
As cordas não aparecem para conferir respeitabilidade clássica ao rock nem para acrescentar sentimentalismo às melodias. Fazem parte da matéria das composições. A guitarra de Godet, um magnífico guitarrista, sabe esperar antes de rasgar; a bateria empurra sem transformar tudo numa demonstração de força; os teclados criam profundidade; violino e violoncelos tanto sustentam a voz como se opõem a ela.
Rock, música de câmara, electrónica e linguagem progressiva deixam, aqui, de funcionar como géneros sobrepostos e começam a parecer partes de uma mesma gramática.

No centro, Solberg mostrou também por que razão possuir uma voz extraordinária não basta para explicar um grande cantor. O alcance impressiona, tal como a capacidade para mudar de registo, sustentar notas, subir a zonas quase improváveis e regressar sem que a passagem pareça um exercício técnico. Mas a técnica interessa sobretudo porque deixa de se exibir.
Solberg não prolonga uma nota para reclamar aplausos pela resistência pulmonar nem procura o falsete para demonstrar que consegue alcançá-lo. A voz serve a composição; quando precisa de perder beleza, perde-a. Quando a música pede contenção, contém-se. Quando chega o momento da expansão, aquela voz aparentemente frágil adquire um volume emocional desproporcionado em relação ao corpo de onde sai.
A Beautiful Life e Serenitas mostraram essa capacidade de alternar luminosidade e sombra sem transformar nenhuma delas numa caricatura. E depois Splitting the Soul trouxe Ihsahn à conversa e algum humor ao palco, num concerto que nunca confundiu profundidade com solenidade. Pouco depois, porém, a noite entrou numa zona mais delicada.

Em The Glass Is Empty, Solberg falou do pai, da depressão e da experiência de assistir à sua queda. A história conduziu a The Last Milestone, uma canção dos Leprous que sempre me parecera ocupar um lugar estranho dentro da discografia da banda, como se tivesse entrado ali proveniente de outro espaço.
Conhece-se agora melhor a razão. Solberg tem explicado que a composição se encontra ligada ao suicídio do pai. Despida da maquinaria rítmica habitual dos Leprous e construída em diálogo com o violoncelo de Raphael Weinroth-Browne, a música já transportava uma tristeza difícil de nomear antes de se conhecer a história. Saber a origem não lhe acrescenta emoção artificial, mas dá-lhe um rosto.
Em Lisboa, aquele diálogo entre voz e um conjunto magistral de cordas pareceu menos uma interpretação do que uma tentativa de permanecer durante alguns minutos junto de alguém que já não pode responder. A música não repara a perda — nenhuma música possui esse poder —, mas pode impedir que os mortos fiquem inteiramente entregues ao silêncio. E, quando consegue fazê-lo sem chantagem sentimental, aproxima-se talvez de uma das razões mais antigas para fazermos música.

Nesse ponto percebeu-se também quanto Solberg ganhou ao procurar um espaço próprio fora dos Leprous. Na banda, a tensão nasce com frequência da colisão, da síncope, da matemática rítmica e da expectativa frustrada. A solo, descobriu outras formas de chegar ao mesmo desconforto: espaço, repetição, cordas, silêncio, crescimento lento e uma escrita com dimensão narrativa. 16 apontara esse caminho; Vox Occulta deu-lhe uma linguagem.
Depois de 16 e Medulla, chegou Grex, talvez a melhor síntese desse novo território. Na gravação original, a composição aproxima-se dos 12 minutos e assume a dimensão de uma sinfonia de rock progressivo — não pela obediência a qualquer forma sinfónica clássica, mas pela evolução em movimentos, pelos contrastes, pelo desenvolvimento dos motivos e pela forma como voz, cordas, guitarra, baixo, bateria e teclas deixam de pertencer a linguagens distintas para responderem à mesma construção.
Contenção quase de música de câmara e explosões de rock coexistem sem que se perceba onde acaba uma linguagem e começa a outra.



Em Lisboa, Solberg dividiu a composição em duas partes e explicou, com humor, o expediente: dois álbuns a solo ainda não lhe davam repertório suficiente para desperdiçar canções num encore. Interrompeu então Grex e, mais tarde, concluiu-a. E, de facto, uma composição daquela dimensão não precisa de outra canção depois dela.
E Solberg não precisa de dar encores. Precisa é de continuar e de regressar. De preferência, com mais gente à espera dele. Da minha parte, que já nem campainhas de porta toco, faço a minha parte: elogio-o.
Fotografia: PAV
N.D. Esta recensão só foi possível depois de uma deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), na sequência da segunda recusa do promotor em conceder acreditação ao PÁGINA UM para acompanhar um concerto. Desta vez, ao contrário do que sucedeu com os Leprous (que já implicou a instauração de um processo-crime instaurado pelo Ministério Público), o levantamento da acreditação, já após a intervenção da ERC, decorreu sem qualquer incidente, o que me apraz registar.
Faço votos para que um terceiro pedido, que não deverá tardar, dispense nova intervenção do regulador. No próximo dia 29 de Novembro, actua no LAV a banda sueca Soen, também ligada ao metal progressivo, e a vontade de assistir ao concerto já existe.
Seria desejável que a Free Music deixasse de transformar um procedimento banal de cobertura jornalística de um evento musical numa sucessão de recusas, queixas e deliberações. Além de cansativo, o ritual começa a aproximar-se do absurdo: um promotor que traz a Portugal bandas como os Leprous e artistas como Einar Solberg não pode dar-se ao luxo de desperdiçar cobertura séria — e não promocional — por mero capricho ou por incompreensão sobre aquilo que distingue jornalismo de divulgação


































































































































