Um leigo no meio do culto

As crónicas musicais que tenho vindo a escrever no PÁGINA UM têm servido, antes de mais, como exercício de humildade. Não apenas porque me obrigam a sair de zonas de conforto onde me sinto seguro — escrever sobre artistas, bandas e linguagens musicais sempre esteve longe de ser a minha praia —, mas porque me colocam, deliberadamente, na posição desconfortável de um leigo.

Sinto-me assim um peixe fora de água que tenta, com esforço e alguma teimosia, preencher lacunas, reconhecer ignorâncias e aceitar que a escuta também pode ser um acto de aprendizagem tardia.

Foto. Everything is New

Ao longo de quase um ano, tenho visitado músicos e grupos que conheço bem ou de quem sou assumidamente fã. Desta vez, porém, decidi aventurar-me num território quase desconhecido: os escoceses Biffy Clyro.

Conhecia-os apenas de forma fugaz. Tinha-os ouvido, ouvira falar deles, mas nunca os tinha verdadeiramente escutado. E assim, antes do concerto no Campo Pequeno, fiz algum trabalho de casa, socorrendo-me do Spotify, percorrendo não só o álbum mais recente, Futique (2025), como os temas mais badalados de uma carreira já longa, iniciada em 1995 e marcada por seis álbuns de estúdio. E eis que, logo aí, a minha memória auditiva reconheceu — sem até então lhes atribuir identidade — “Many of Horror”, “Black Chandelier” ou “Bubbles”. Canções afinal familiares, mas desligadas do nome da banda.

Munido dessa escuta tardia e sem grandes expectativas — até porque desconhecia por completo os Biffy Clyro ao vivo — sentei-me na bancada, curioso e disponível. Banda de culto no universo do rock alternativo, particularmente acarinhada pelo público português, está longe de ser obscura no Reino Unido. Simon Neil e os irmãos gémeos James e Ben Johnston construíram um legado assente numa abordagem visceral, crua e fisicamente intensa em palco.

Foto. Everything is New

Isso foi desde logo notório: iconografia de troncos nus, harmonias vocais robustas e uma presença física marcada, sobretudo nas músicas mais ritmadas, acompanhadas por um eficaz jogo de luzes.

A digressão europeia da Futique World Tour, que depois seguirá pelos quatro cantos do mundo, trouxe, porém, um desafio inédito, cujo impacto confesso desconhecer: pela primeira vez em 31 anos, os Biffy Clyro apresentaram-se como duo. James Johnston afastou-se da digressão para cuidar da sua saúde mental, sendo substituído por Naomi Macleod, baixista dos Empire State Bastard, projecto paralelo de Simon Neil.

O palco, com vários níveis, permitia alguma mobilidade a Simon Neil, que ia trocando de posição com duas violinistas. O concerto abriu com ritmo, logo em “A Little Love”, muito mais agressiva ao vivo do que na versão de estúdio, com forte impacto visual e sonoro. Pareceu-me, contudo, um início excessivamente agressivo e temi que se estivesse perante uma parafernália sonora que o Campo Pequeno dificilmente aguentaria sem distorção. “Hunting Season”, também de Futique, manteve esse registo.

Estranhei, ainda assim, que mesmo faixas mais duras do repertório clássico — como “That Golden Rule” ou “Who’s Got a Match?” — não provocassem grande reacção numa plateia algo amorfa.

Sem grande partilha verbal com o público, o vocalista foi, em todo o caso, conseguindo aumentar a adesão dos seus aficionados. “Wolves of Winter”, “Black Chandelier”, “Biblical” e, sobretudo, “Goodbye”, bem mais melódica, foram acompanhadas por coros progressivamente mais intensos.

Na recta final, a sucessão de clássicos elevou o entusiasmo e a qualidade do concerto ganhou nitidamente mais pontos. “Mountains” preparou um encore já previsível, seguido de “Machines”, em tom acústico e meia-luz. Para fechar, surgiram ainda “The Captain”, “Living Is a Problem Because Everything Dies”, “Bubbles” e, finalmente, “Many of Horror”, espécie de hino maior da banda.

Saí do Campo Pequeno com a sensação de que este concerto foi menos uma revelação súbita e mais um processo de reconhecimento. Não me tornei, de um momento para o outro, um convertido fervoroso, mas compreendi finalmente o lugar que os Biffy Clyro ocupam para quem os segue há décadas.

Talvez seja esse o maior mérito destas crónicas: não o de formar juízos definitivos, mas o de aceitar que ouvir — mesmo tarde — continua a ser uma forma legítima de aprender.

Nota: 4 (em 5)

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