Se há compositores cuja obra envelhece como uma peça de museu — digna, intacta mas distante —, outros há que envelhecem como um corpo vivo, onde o tempo não corrói, antes adensa. Wim Mertens pertence claramente à segunda categoria. O seu recente concerto na Aula Magna, na Universidade de Lisboa, foi assim menos um exercício de nostalgia do que uma prova — serena, quase desarmante — de continuidade artística.
Aos 72 anos, Mertens não revisita o seu percurso como quem percorre um álbum de fotografias, mas fá-lo com tempo — e até quis explicar a filosofia das suas novas composições, com direito a tradução em português. E fá-lo, com música, também como quem continua a escrever a mesma frase, longa, obsessiva e coerente, iniciada nos anos 80, quando o termo “minimalismo” começou a ser usado com excessiva ligeireza para catalogar músicas que, na verdade, recusavam qualquer forma de empobrecimento harmónico ou emocional.

Convém recordá-lo: Mertens não surgiu do vazio, nem do virtuosismo instrumental puro. Surgiu do pensamento, e isso explica a sua preocupação em se explicar. Antes de compositor, foi musicólogo, produtor de rádio, mediador cultural entre a música contemporânea americana e a Europa.
Quando, em 1980, lança For Amusement Only, construído exclusivamente a partir de sons de máquinas de flippers, não estava a brincar com o ruído, mas a afirmar uma ideia radical: a música pode nascer da repetição mecânica e, ainda assim, produzir sentido, tensão, expectativa. Esse gesto inaugural não foi uma excentricidade juvenil, tanto mais que é a matriz de toda a sua obra posterior.
Vergessen, Jardin Clos, Maximizing the Audience — títulos que hoje soam quase programáticos — consolidaram um compositor que sempre desconfiou da exuberância gratuita e preferiu trabalhar o tempo, a insistência, a microvariação, como quem lixa uma superfície até ela revelar o veio oculto da madeira.

Para mim — e aqui falo sem pudor de subjectividade —, o verdadeiro ponto de equilíbrio da sua linguagem surge no início dos anos 90, com After Virtue e, sobretudo, Stratégie de la Rupture. É aí que o piano e a sua voz de contratenor se encontram numa simbiose rara, sustentada por uma linguagem vocal inventada, deliberadamente despojada de significado semântico, mas carregada de intenção expressiva em conjugação com o seu piano. Não é um truque estético: é uma recusa consciente da palavra como distracção. A voz, em Mertens, conduz o minimalismo. E é precisamente essa insistência que amacia os sentidos, que cria um espaço mental onde a escuta deixa de ser passiva e se torna quase física.
Com o passar dos anos — e com uma discografia que cresce a um ritmo quase biológico — perdi, confesso, algum contacto regular com a sua produção. O excesso de oferta, a fragmentação imposta pelas plataformas digitais, a sensação de que nem tudo tem o mesmo peso.

Ainda assim, mesmo nos discos mais irregulares, há sempre momentos em que Mertens foge ao seu próprio piano para iluminar outros instrumentos. Já o fizera de forma exemplar em Sin Embargo (1997), quase inteiramente centrado na guitarra, onde The Scene permanece como uma das suas peças mais subtis. Desde então, as cordas e, sobretudo, os sopros ganharam um protagonismo crescente, não como ornamento, mas como extensão natural do seu pensamento composicional.
Foi precisamente essa dimensão que se afirmou com particular clareza nesta digressão portuguesa — felizmente alargada para lá do eixo previsível Lisboa-Porto — e, de modo especial, no concerto da Aula Magna. A apresentação do seu álbum mais recente, As Water Is To Fish, não foi tratada como apêndice promocional, mas integrada organicamente num programa que dialogou com o seu próprio passado.
O álbum — sustentado originalmente por cordas e sopros — ganhou neste concerto uma nova respiração com a presença apenas de um ensemble de quatro metais, cuja escrita revela um Mertens ainda interessado em explorar densidades tímbricas, sobreposições discretas e pequenas fricções harmónicas. Isso aumenta o prazer, por comparação. Por exemplo, ainda estou a pensar se a versão original de Effect-Tunnel, em estúdio, é melhor do que a versão ao vivo, apenas com sopros.

Como em outros álbuns, em As Water Is To Fish as peças não procuram, aparentemente, um impacto imediato; antes se desenvolvem como organismos lentos, onde cada camada acrescentada parece perguntar ao ouvinte se está disposto a continuar ali, atento, sem pressa. E o público esteve — e creio que por mais de duas horas. Esteve sempre presente porque, em grande parte — e assim o confirmo —, cresceu com esta música.
Até porque se sentiu uma fidelidade rara entre compositor e ouvintes, construída ao longo de décadas de “bons momentos de prazer”, sobretudo quando surgiram os temas mais clássicos. E fica a constatação de que, mesmo com 72 anos, Wim Mertens continuará connosco, ali, a escrever a mesma música — não por repetição estéril, mas por convicção estética. E isso, num tempo que confunde novidade com ruído, é talvez um gesto radical.
Nota: 5 (em 5)

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