Certos domingos parecem condensar numa única tarde uma espécie de tratado involuntário sobre a condição humana. Ou sobre a comédia humana. Ou, se quisermos levar a metáfora até ao fim, sobre a própria divina comédia. O meu último domingo começou com futebol e terminou com música — duas liturgias populares que raramente se encontram no mesmo texto, mas que nesse dia se sucederam com a naturalidade de quem atravessa bairros diferentes da mesma cidade emocional.
O primeiro acto decorreu no estádio: um empate pouco glorioso entre Benfica e Porto, daqueles que deixam as águias suspensas entre a resignação e aquela esperança que, sendo racionalmente inexplicável, continua a sobreviver como um hábito cultural. Às oito da noite saía por entre um mar de gente, uma corrente vermelha que avançava lentamente pelas ruas, pontuada por comentários tácticos improvisados e pela inevitável pergunta: foi ou não penálti sobre Pavlidis?

Desliguei o chip. Preparava-me agora para a odisseia logística que Lisboa reserva aos domingos: metro entupido no final da bola, autocarros que passam de meia em meia hora ou a inevitável rendição ao pragmatismo contemporâneo — o Uber, que chega tarde, aparece em sentido errado e, por dificuldades linguísticas do condutor em aceitar que o cliente conhece melhor o trajecto do que o Google Maps, decide apanhar trânsito suficiente para transformar a viagem numa pequena narrativa de ansiedade urbana. Resultado: entrada tardia na sala. Ou, sendo mais justo, chegada atrasada à festa.
Porque aquilo que os The Divine Comedy — ou melhor, Neil Hannon e (boa) companhia — trouxeram à Aula Magna esteve muito mais próximo de uma festa do que de um concerto formal, atravessando mais de três décadas e meia de carreira. Quem ali estava, incluindo eu, não vinha apenas ouvir canções, mas reencontrar fragmentos da própria juventude. No meu caso, sobretudo Casanova (1996), o sensacional Fin de Siècle (1998) e Absent Friends (2004). Confesso que perdera contacto nos últimos anos com Neil Hannon — e só na véspera do concerto me predispus a ouvir Rainy Sunday Afternoon, álbum do ano passado que sucedeu a um “silêncio” de seis anos.
No fundo, pouco importa. Os The Divine Comedy são hoje uma espécie de instituição discreta do indie britânico, onde tanto quanto as melodias — talvez menos, talvez mais, mas nunca sozinhas — contam as letras. Letras sobre o amor e os seus desgostos, sobre absurdos domésticos e pequenas tragédias quotidianas. Algumas soam divertidas, outras provocam nostalgia ou uma melancolia subtil, mas todas transportam aquele olhar irónico de Hannon sobre a comédia humana: o facto de sermos, em algum momento das nossas existências, ligeira ou completamente ridículos.

Importa também dizer que, aos 54 anos, Hannon continua a subir ao palco com a elegância irónica de um adolescente particularmente bem educado. Magro e relativamente baixo — não chegará a muito mais do que 1,70 metros — tem aquele ar simultaneamente tímido e teatral. Mais do que um excelente cantor — que canta muitas vezes como se estivesse permanentemente à beira de desafinar — é um extraordinário mestre-de-cerimónias.
Por causa do Uber, suspeito que perdi Rainy Sunday Afternoon, mas já tive tempo de ouvir The Last Time I Saw the Old Man, enquanto à minha frente, na fila L2, uma cabeça grisalha começava a balançar persistentemente, dambulando ao ritmo dessa e de muitas outras canções.
O alinhamento do concerto — que, dizem outras crónicas, foi a 25.ª aparição dos The Divine Comedy em Portugal — percorreu grande parte da discografia. De Your Daddy’s Car a Bad Ambassador, passando por Absent Friends e Becoming More Like Alfie. Em Mar-a-Lago By the Sea, Hannon transformou o palco num pequeno bar improvisado, servindo bebidas aos músicos enquanto cantava, num momento que misturava teatro, ironia e nonsense britânico.

Num dos episódios mais teatrais da noite, Our Mutual Friend — talvez a canção que melhor traduz o humor trágico do adulto azarado — levou Hannon a dramatizar a narrativa com o seu habitual sentido de encenação.
Mas, tirando a minha ignota parceira de frente, na fila L2, que abanava lentamente a cabeça obrigando-me a inclinar para conseguir ver o palco, a Aula Magna, com as suas cadeiras disciplinadas, não pareceu entusiasmar particularmente Hannon. Por isso, quando chegou At the Indie Disco, lançou o desafio: em muitos concertos desta digressão o público estava em pé; ali, disse ele, o conforto das cadeiras arriscava provocar adormecimento. Quem quisesse dançar, que dançasse.
Foi nesse momento que o ambiente começou finalmente a libertar-se. Ainda assim, só no final — com Tonight We Fly — a sala se levantou verdadeiramente com entusiasmo.

Foram mais de noventa minutos, mais de duas dezenas de canções, incluindo encore. No final, Neil Hannon retirou o chapéu numa vénia quase teatral e saiu como terá entrado — digo eu, que não o vi nesse instante inicial: com elegância pop, humor britânico e pequenas observações sobre a vida moderna.
Acabou por ser um domingo quase divino: futebol para lembrar que o mundo é imperfeito, música para recordar que isso — e isto — até pode ter alguma graça.
Nota: 5 (em 5)







































