Autor: Redacção PÁGINA UM

  • Biblioteca do PÁGINA UM, livros acabados de chegar

    Biblioteca do PÁGINA UM, livros acabados de chegar

    Durante os últimos quinze dias, a Biblioteca do PÁGINA UM recebeu um novo conjunto de obras que reúne romance histórico, biografia, literatura japonesa contemporânea, ficção de inspiração musical, crónica e um clássico da literatura brasileira. Entre os títulos agora incorporados encontram-se livros de Sonia Purnell, Saki Kawashiro, Evie Woods, Yoko Mure, Machado de Assis, Luísa Sobral e Paulo M. Dias.

    As novas entradas percorrem universos tão distintos como a Idade Média portuguesa, os bastidores da política internacional, a gastronomia como espaço de reconciliação, a memória inscrita na música, a observação do quotidiano e a ficção literária. Esta secção regista a chegada destas obras ao acervo do PÁGINA UM, apresentando os respectivos autores, temas e editoras.

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    Foto: Prateek Katyal

    Um Nobre, um Frade e um Camponês Entram numa Taberna, de Paulo M. Dias, reúne episódios da história medieval portuguesa e dos inícios da Modernidade através de pequenas narrativas centradas em figuras anónimas e acontecimentos do quotidiano. Entre a micro-história e a história social, o livro percorre temas como a justiça, a guerra, a doença, as relações de poder e os modos de vida, revelando um passado frequentemente mais próximo do presente do que à primeira vista poderá parecer.

    Paulo M. Dias é historiador e investigador do Instituto de Estudos Medievais da NOVA FCSH, onde desenvolve o seu doutoramento em História Medieval. Tem dedicado parte significativa do seu trabalho à divulgação histórica, sendo cofundador do podcast Falando de História e autor de várias obras destinadas ao grande público, procurando aproximar a investigação académica dos leitores.

    Publicado pela Ideias de Ler, Um Nobre, um Frade e um Camponês Entram numa Taberna chega à biblioteca do Página Um como uma obra de divulgação histórica que combina rigor científico e narrativa acessível para explorar diferentes dimensões da sociedade portuguesa medieval.

    A Fazedora de Reis, de Sonia Purnell, acompanha a vida de Pamela Churchill Harriman, figura que atravessou algumas das principais esferas de poder do século XX. A narrativa recupera o percurso de uma mulher cuja influência política e diplomática permaneceu durante décadas obscurecida pela atenção dedicada à sua vida social, propondo uma leitura da História através das relações entre poder, ambição e estratégia.

    Sonia Purnell é jornalista e biógrafa britânica, autora de várias obras dedicadas a figuras marcantes da história contemporânea. A sua investigação combina documentação histórica, trabalho de arquivo e escrita narrativa, privilegiando personagens que exerceram influência política ou social para além da imagem pública que delas ficou.

    Publicado pela D. Quixote, A Fazedora de Reis chega à biblioteca do Página Um como uma biografia centrada numa das mulheres mais influentes do século XX, propondo uma nova leitura do seu papel na política internacional.

    A Comissão Fúnebre da Receita Favorita do Ex-Namorado, de Saki Kawashiro, decorre em Tóquio e acompanha um grupo improvável de pessoas que transformam receitas associadas a antigas relações amorosas num exercício de despedida e reconstrução emocional. Entre encontros à mesa e memórias culinárias, o romance explora o luto amoroso, a amizade e a possibilidade de recomeçar.

    Saki Kawashiro é uma escritora japonesa cuja obra se inscreve na corrente da ficção reconfortante contemporânea. Os seus livros cruzam frequentemente relações humanas, gastronomia e quotidiano, construindo narrativas onde pequenos gestos assumem um papel central na transformação das personagens.

    Publicado pela Casa das Letras, A Comissão Fúnebre da Receita Favorita do Ex-Namorado chega à biblioteca do Página Um como um romance que combina culinária, afectos e literatura japonesa contemporânea.

    O Segredo do Fabricante de Violinos, de Evie Woods, acompanha três personagens ligadas por um violino raro encontrado nos Perdidos e Achados do aeroporto de Heathrow. A descoberta conduz a uma investigação que atravessa diferentes países, cruzando história, música, tráfico de antiguidades e memória.

    Evie Woods é o pseudónimo da escritora irlandesa Evie Gaughan, autora de romances que conciliam realismo e elementos de mistério, explorando a forma como objectos, lugares e pequenas coincidências alteram a vida das personagens. Entre as suas obras encontram-se também A Livraria Perdida e A Misteriosa Padaria na Rue de Paris.

    Publicado pela Singular, O Segredo do Fabricante de Violinos chega à biblioteca do Página Um como um romance onde o património musical, o suspense e a aventura se cruzam.

    O Restaurante dos Dias Felizes, de Yoko Mure, acompanha Akiko, uma mulher que regressa ao restaurante herdado da mãe e procura reconstruir a própria vida através da cozinha. Entre receitas, clientes e memórias familiares, o romance desenvolve uma reflexão sobre perda, reconciliação e novos começos.

    Yoko Mure é uma escritora japonesa conhecida pelas suas histórias centradas no quotidiano, na culinária e nas relações humanas. A sua obra integra a tradição da chamada healing fiction, género literário que privilegia narrativas de intimidade, cuidado e transformação pessoal.

    Publicado pela Singular, O Restaurante dos Dias Felizes chega à biblioteca do Página Um como um romance japonês contemporâneo dedicado às ligações entre comida, memória e identidade.

    Singular Ocorrência e Outras Histórias de Mulheres, de Machado de Assis, reúne quinze contos em que figuras femininas ocupam o centro da narrativa ou determinam o destino das personagens que as rodeiam. Através da ironia, da observação psicológica e de um olhar atento sobre os comportamentos humanos, o escritor brasileiro constrói histórias onde o acaso, o desejo e as convenções sociais revelam toda a complexidade das relações.

    Machado de Assis (1839-1908) é um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa. Romancista, contista, cronista e fundador da Academia Brasileira de Letras, deixou uma obra que continua a distinguir-se pela profundidade psicológica, pelo humor subtil e pela modernidade da sua escrita.

    Publicado pela Singular, Singular Ocorrência e Outras Histórias de Mulheres chega à biblioteca do Página Um como uma nova antologia dedicada à mestria narrativa de Machado de Assis, reunindo alguns dos seus contos mais marcantes sobre o universo feminino.

    Da Minha Janela, de Luísa Sobral, reúne crónicas construídas a partir de episódios do quotidiano, onde pequenas situações familiares, encontros inesperados e observações da vida urbana servem de ponto de partida para uma reflexão sobre a experiência contemporânea.

    Luísa Sobral é cantora, compositora e escritora portuguesa. Paralelamente ao percurso na música, tem desenvolvido trabalho na literatura, publicando livros infantis e, mais recentemente, obras destinadas ao público adulto, mantendo uma escrita marcada pela atenção ao quotidiano e às relações humanas.

    Publicado pela Dom Quixote, Da Minha Janela chega à biblioteca do Página Um como uma colectânea de crónicas que cruza memória, humor e observação do dia a dia.

  • 5 de Julho: Lançamento de ‘Primado do Direito’ de Miguel dos Santos Pereira

    5 de Julho: Lançamento de ‘Primado do Direito’ de Miguel dos Santos Pereira


    CONVITE

    O PÁGINA UM tem a honra de convidar V. Ex.ª para o lançamento do livro

    Primado do Direito: Justiça Penal, Prova e Decisão no Século XXI

    da autoria de Miguel dos Santos Pereira (ouvir e ler aqui a entrevista),

    que se no próximo domingo, dia 5 de Julho, no Seixal na Mammy Choux, na Avenida Vasco da Gama, 30A (vd. aqui).

    Veja aqui o índice, a introdução de Aury Lopes Jr e as primeiras páginas da obra.

    Preço especial de lançamento: caso não possa estar presente, durante esta semana pode adquirir o seu exemplar na loja do PÁGINA UM a preço especial, que será autografado pelo autor e enviado por correio. Poderá adquirir exemplares à unidade (15,00 euros), packs de três exemplares (40,00 euros) ou um conjunto com Correio Mercantil de Brás Cubas (25,00 euros).

    ***

    Primeiro volume da colecção PÁGINA UM ENSAIOS, “Primado do Direito” constitui uma reflexão crítica sobre alguns dos pressupostos fundamentais da justiça penal contemporânea.

    Cruzando direito penal e processual penal com epistemologia, psicologia cognitiva, neurociência e ciências do comportamento, o autor questiona a forma como se constrói a decisão judicial, analisa os limites da prova e da convicção dos tribunais e propõe uma justiça mais rigorosa, prudente e epistemicamente consciente dos seus próprios limites.

    A apresentação da obra contará também com a presença do autor, de Ana Paula Pinto Lourenço, professora da Universidade Autónoma, e de Pedro Almeida Vieira, director do PÁGINA UM, que participarão numa conversa aberta ao público sobre os desafios da justiça penal no século XXI.

    📅 Data: Domingo, 5 de Julho
    🕓 Hora: 16h00
    📍 Local: Mammy Choux
    Avenida Vasco da Gama, 30A
    2840-745 Seixal

    Transportes públicos a partir de Lisboa: Transtejo (vd. horários)

  • Biblioteca do PÁGINA UM

    Biblioteca do PÁGINA UM

    Durante o último mês, a Biblioteca do PÁGINA UM recebeu um conjunto diversificado de obras de ficção, memória, teatro, romance policial e literatura traduzida. Entre os novos títulos encontram-se livros de Fernando Aramburu, Vivian Gornick, Hermann Hesse, Mercè Rodoreda, Mário Cláudio, Jo Nesbø e Agatha Christie, publicada sob o pseudónimo de Mary Westmacott.

    Chegaram igualmente à biblioteca obras de autores portugueses contemporâneos, textos dramáticos ligados à memória da censura e do pós-25 de Abril, romances centrados em experiências familiares e narrativas que convocam contextos históricos, sociais ou políticos. Esta secção regista a entrada dos livros no acervo do PÁGINA UM, identificando autores, temas e respectivas editoras.

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    Foto: Prateek Katyal

    Maite, de Fernando Aramburu, decorre em San Sebastián, em Julho de 1997, durante os dias do sequestro de Miguel Ángel Blanco pela ETA. A narrativa acompanha Maite, a irmã Elene, regressada dos Estados Unidos, e a mãe de ambas, debilitada após um AVC, num contexto doméstico atravessado pela tensão política e social do País Basco.

    Fernando Aramburu tem dedicado parte significativa da sua obra à memória recente do País Basco e aos efeitos quotidianos da violência política. Em Maite, regressa a esse território histórico através de personagens colocadas perante silêncios familiares, convenções sociais e acontecimentos que ultrapassam a esfera privada.

    Publicado em Portugal pela Dom Quixote, Maite integra a edição portuguesa mais recente da obra de Aramburu e chega à biblioteca do Página Um como um romance centrado na relação entre vida íntima, memória e conflito colectivo.

    A Mulher Singular e a Cidade, de Vivian Gornick, constrói-se a partir da experiência de caminhar por Nova Iorque, observar os seus habitantes e regressar continuamente a uma amizade longa e instável. A cidade surge como espaço de encontros ocasionais, hábitos, solidão, conversas e reconhecimento entre desconhecidos.

    Vivian Gornick é ensaísta, crítica e memorialista norte-americana. A sua escrita tem explorado a autobiografia, a amizade, a vida urbana, a independência individual e as relações entre experiência pessoal e observação social.

    Publicado pela Dom Quixote, A Mulher Singular e a Cidade apresenta-se como um livro de memória urbana, combinando episódios autobiográficos, reflexão sobre a amizade e observação da vida quotidiana numa grande cidade.

    Vocação para os Desastres, de José Carlos Barros, reúne narrativas curtas centradas em personagens confrontadas com perdas, equívocos, recordações e situações em que a realidade parece escapar ao controlo. Os contos desenvolvem-se em torno de momentos de desorientação, ausência ou ruptura.

    José Carlos Barros é autor de ficção e de obras de inspiração histórica, tendo publicado romance, contos e textos ligados à história portuguesa. A sua escrita tem frequentemente recorrido à relação entre memória, território, personagens comuns e acontecimentos que alteram o percurso individual.

    Publicado pela Dom Quixote, Vocação para os Desastres chega à biblioteca do Página Um como um volume de contos portugueses contemporâneos, composto por narrativas autónomas ligadas por situações de fragilidade e desencontro.

    Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno, de Susana Piedade, acompanha várias personagens ligadas por uma mesma zona residencial e por experiências que permanecem escondidas entre paredes domésticas. A narrativa passa por mães, filhas, adolescentes, vizinhos e figuras marcadas por violência, ausência ou perda.

    Susana Piedade é autora de romance e tem desenvolvido uma obra centrada em conflitos familiares, relações afectivas e experiências de vulnerabilidade. Neste livro, constrói uma narrativa coral em que diferentes personagens revelam, gradualmente, os segredos e as fracturas que condicionam as suas vidas.

    Publicado pela Oficina do Livro, Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno chega à biblioteca do Página Um como um romance centrado nas relações familiares, na adolescência, na violência e nos mecanismos de silêncio presentes na vida quotidiana.

    A Rosa e o Teixo, de Mary Westmacott, decorre em St Loo, uma pequena localidade da Cornualha onde a vida dos habitantes parece organizada por relações antigas, expectativas familiares e hierarquias sociais. A chegada de John Gabriel altera o equilíbrio de uma comunidade já marcada por rivalidades, segredos e ambições.

    Mary Westmacott foi um dos pseudónimos usados por Agatha Christie para publicar romances afastados da estrutura policial que tornou conhecido o seu nome. Sob essa assinatura, a autora escreveu narrativas mais centradas em relações afectivas, ambição, ressentimento e conflitos sociais.

    Publicado pelas Edições ASA, A Rosa e o Teixo integra a série de reedições portuguesas dos romances assinados por Mary Westmacott, revelando uma vertente menos policial da obra de Agatha Christie.

    O Que Resta, de Bárbara Cardoso, acompanha a perda gradual de memória de Julieta e a transformação da vida da neta, Sara, que passa a assumir responsabilidades de cuidado numa idade em que esperava iniciar o seu próprio percurso. A narrativa centra-se na relação entre as duas e no impacto da doença sobre a vida familiar.

    Bárbara Cardoso apresenta neste livro uma história construída a partir da ligação entre avó e neta, explorando a memória, a dependência, a culpa e o processo de amadurecimento precoce. A acção acompanha o modo como uma doença altera a rotina, os afectos e as possibilidades de futuro.

    Publicado pela Penguin, O Que Resta chega à biblioteca do Página Um como o romance de estreia de Bárbara Cardoso, centrado no envelhecimento, na demência e nas consequências pessoais e práticas do cuidado dentro de uma família.

    Afrocalipse, de Mário Lúcio Sousa, decorre num país africano não identificado, governado durante décadas por um presidente que concentra poder, neutraliza adversários e prolonga um sistema marcado por pobreza, repressão e desgoverno. A narrativa incorpora referências a diferentes experiências políticas africanas do período pós-independência.

    Mário Lúcio Sousa é escritor, músico e artista cabo-verdiano. A sua obra literária tem abordado a história, a política, a memória e a vida social de África, combinando ficção, sátira, oralidade e referências culturais de diferentes geografias lusófonas.

    Publicado pela Dom Quixote, Afrocalipse chega à biblioteca do Página Um como um romance político centrado em formas de autoritarismo, cleptocracia, guerra civil, desigualdade e resistência num contexto africano ficcionalizado.

    A Hora do Lobo, de Jo Nesbø, inicia-se com o homicídio de um criminoso de pequena escala nas ruas de Minneapolis. A investigação conduz ao detective Bob Oz, chamado a seguir o rasto de um atirador que parece actuar segundo uma lógica própria e que transforma cada novo crime numa mensagem.

    Jo Nesbø é um escritor norueguês conhecido sobretudo pela série policial protagonizada pelo detective Harry Hole, mas tem publicado igualmente romances autónomos e narrativas de suspense psicológico. A sua obra circula entre o policial, o thriller e a exploração de personagens marcadas por violência, culpa ou obsessão.

    Publicado pela Dom Quixote, A Hora do Lobo chega à biblioteca do Página Um como um thriller passado nos Estados Unidos, organizado em torno de uma investigação criminal e da relação entre o detective responsável pelo caso e o criminoso que procura identificar.

    Liberdade, Liberdade, de Luís Francisco Rebello, Luís de Lima e Hélder Costa, recupera um texto dramático estreado em Agosto de 1974, poucos meses após a Revolução de Abril. A peça reúne citações, poemas, canções e excertos teatrais relacionados com liberdade, opressão, desigualdade social e revolução.

    Luís Francisco Rebello foi dramaturgo, crítico, investigador e uma das figuras centrais do estudo do teatro português no século XX. Luís de Lima e Hélder Costa estiveram igualmente ligados à criação teatral portuguesa, em particular a experiências de teatro político, intervenção cultural e reflexão sobre o período revolucionário.

    Publicado pela Tinta-da-china na colecção Liberdade! Liberdade!, com coordenação de Tiago Bartolomeu Costa e em parceria com o Museu Nacional do Teatro e da Dança, Liberdade, Liberdade chega à biblioteca do Página Um como documento dramatúrgico ligado ao período imediatamente posterior ao 25 de Abril.

    Pides na Grelha / A Ceia dos Pides reúne duas peças que recorrem à sátira e à paródia para abordar a polícia política, os mecanismos repressivos do Estado Novo e a transição democrática portuguesa. Uma das peças utiliza a estrutura de revista; a outra retoma, em chave paródica, a conhecida peça Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas.

    Francisco Nicholson, Edgar Gonçalves Preto, Mário Alberto e Eduardo Fernandes estiveram ligados ao teatro português das décadas de 1960 e 1970, em diferentes contextos de criação, revista, crítica social e escrita dramática. Os textos reunidos neste volume reflectem um momento em que o teatro procurava intervir directamente no debate político e social.

    Publicado pela Tinta-da-china na colecção Liberdade! Liberdade!, com coordenação de Tiago Bartolomeu Costa, Pides na Grelha / A Ceia dos Pides chega à biblioteca do Página Um como edição dedicada à recuperação de textos teatrais ligados à memória da censura, da PIDE/DGS e do período revolucionário.

    Vítima, de Jørn Lier Horst e Thomas Enger, acompanha o regresso de Alexander Blix a um caso antigo de desaparecimento. Depois de ter sido afastado da polícia, Blix recebe sinais de que o responsável por um homicídio que permaneceu por esclarecer continua activo e procura conduzi-lo para novas vítimas.

    Jørn Lier Horst e Thomas Enger são escritores noruegueses ligados ao romance policial e ao noir escandinavo. A série Blix & Ramm combina investigação criminal, relações pessoais e a tensão produzida por personagens que actuam entre os limites da legalidade, da culpa e da exposição pública.

    Publicado pela Dom Quixote, Vítima é o quinto volume da série Blix & Ramm e chega à biblioteca do Página Um como mais um título de ficção policial nórdica traduzida para português.

    Espelho Partido, de Mercè Rodoreda, acompanha várias gerações da família Valldaura, desde o início do século XX até aos anos posteriores à Guerra Civil espanhola. A narrativa organiza-se em torno de uma casa de Barcelona, das relações que nela se estabelecem e da lenta fragmentação de uma família marcada por segredos, afectos e rivalidades.

    Mercè Rodoreda é uma das figuras centrais da literatura catalã do século XX. A sua obra inclui romances e contos em que a memória, a guerra, a cidade, a passagem do tempo e a vida interior das personagens assumem particular importância.

    Publicado pela Dom Quixote, Espelho Partido chega à biblioteca do Página Um numa nova edição portuguesa de um romance originalmente publicado em catalão, centrado na decadência de uma família e na transformação social da Barcelona do século XX.

    Rosshalde, de Hermann Hesse, acompanha Johann Veraguth, pintor reconhecido que vive numa propriedade isolada com a mulher e o filho mais novo. Apesar do reconhecimento profissional, Veraguth vive afastado da família, dividido entre a ligação ao filho, a deterioração do casamento e o desejo de abandonar a vida que construiu.

    Hermann Hesse foi um escritor de língua alemã, nascido em 1877 e distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1946. A sua obra abordou frequentemente a procura de autonomia individual, os conflitos entre convenção social e realização pessoal, a crise espiritual e a relação entre arte e vida.

    Publicado pela Dom Quixote, Rosshalde chega à biblioteca do Página Um numa edição portuguesa de um romance de Hesse centrado na vida familiar, na criação artística e na tensão entre permanência e ruptura.

    Pôr-do-Sol com Leão Deitado, de Mário Cláudio, reúne três linhas narrativas ligadas pela morte, pela cidade do Porto e pela memória literária. Na primeira parte, um escritor recentemente órfão observa o quotidiano da zona onde vive; na segunda, acompanha-se a história de Sofala, um leão levado de Moçambique para a Exposição Colonial Portuguesa; na terceira, surge a figura de António Nobre.

    Mário Cláudio é romancista, poeta, cronista e ensaísta, com uma obra extensa dedicada à história cultural portuguesa, à cidade do Porto, à biografia literária e à relação entre memória individual e património colectivo. Ao longo da sua produção, tem recorrido a figuras históricas, artistas, escritores e episódios menos visíveis da história portuguesa.

    Publicado pela Dom Quixote, Pôr-do-Sol com Leão Deitado chega à biblioteca do Página Um como um romance construído a partir de três narrativas distintas, ligadas por temas de perda, confinamento, memória e representação cultural.

  • Filipe Froes no tribunal: 4 horas e meia de um depoimento ‘esclarecedor’

    Filipe Froes no tribunal: 4 horas e meia de um depoimento ‘esclarecedor’


    O PÁGINA UM decidiu divulgar o depoimento integral prestado pelo pneumologista Filipe Froes no passado mês de Dezembro, no âmbito do processo judicial que intentou contra o director deste jornal, Pedro Almeida Vieira, juntamente com o então bastonário da Ordem dos Médicos e actual deputado do PSD, Miguel Guimarães, o pediatra Luís Varandas e a própria Ordem dos Médicos.

    Este processo, bem como outro processo conexo intentado pelo então chefe do Estado-Maior da Armada, Henrique Gouveia e Melo, terminou com a absolvição integral de Pedro Almeida Vieira. Consideramos, por isso, que os leitores têm o direito de conhecer um testemunho que se estendeu por quase quatro horas e meia e que aborda matérias de inequívoco interesse público relacionadas com a gestão da pandemia, os conflitos de interesses na saúde pública, a relação entre especialistas mediáticos e a indústria farmacêutica e o papel desempenhado por determinadas figuras na definição da narrativa dominante durante a crise sanitária.

    A divulgação integral deste depoimento justifica-se também porque Filipe Froes continua a desempenhar um papel activo na promoção pública de produtos farmacêuticos, incluindo vacinas contra a COVID-19, participando ainda agora em iniciativas associadas a uma farmacêutica espanhola. Trata-se de uma personalidade que, ao longo dos últimos anos, acumulou uma influência mediática invulgar e uma presença constante nos órgãos de comunicação social, sendo apresentada como especialista independente e referência técnica em matérias de saúde pública.

    O depoimento agora divulgado permite aos leitores formar uma opinião própria sobre diversas questões que foram objecto de análise judicial. Entre elas destaca-se a aparente contradição entre declarações públicas em que Filipe Froes afirmou ter de fazer uma “declaração de conflito de interesses” devido às suas funções ligadas à vacinação e a posição assumida em tribunal, onde procurou sustentar que tal conflito não existiria.

    Os documentos analisados no processo revelam também a existência de recebimentos significativos provenientes de diversas empresas farmacêuticas, incluindo Pfizer, AstraZeneca, Sanofi e Gilead, bem como questões relacionadas com a forma como esses pagamentos foram registados e declarados. Foram ainda discutidas as diferenças entre valores constantes dos registos públicos do INFARMED e elementos contabilísticos associados à empresa Terras e Froes, utilizada para a gestão da actividade profissional do médico.

    Outro dos aspectos relevantes prende-se com o medicamento Remdesivir. Durante a pandemia, Filipe Froes manifestou-se publicamente sobre a utilidade deste fármaco ao mesmo tempo que mantinha relações profissionais com a Gilead, empresa responsável pela sua comercialização. O próprio admitiu em tribunal ter participado em advisory boards promovidos pela farmacêutica, circunstância cuja relevância ética constitui uma das questões centrais debatidas no processo.

    O depoimento aborda ainda o exercício simultâneo de múltiplas funções de influência institucional, incluindo cargos junto da Direcção-Geral da Saúde, da Ordem dos Médicos e de organismos de aconselhamento em saúde pública.

    Embora Filipe Froes tenha defendido não possuir qualquer poder decisório sobre a aquisição de vacinas ou medicamentos, reconheceu ter participado em processos de elaboração de orientações e normas técnicas que influenciaram a resposta sanitária nacional.

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    Foto: D.R.

    Muito relevante é também a discussão sobre o modo como foram tratados profissionais de saúde que divergiam das posições dominantes durante a pandemia. O depoimento contém referências a críticas dirigidas a médicos com opiniões distintas e permite compreender melhor o ambiente de pressão institucional e mediática existente naquele período.

    Importa também recordar que, durante este processo, Filipe Froes assumiu actuar enquanto funcionário da Ordem dos Médicos, circunstância que permitiu que a sua representação processual fosse enquadrada de forma distinta daquela que ocorreria caso litigasse a título pessoal.

    O PÁGINA UM não pretende substituir-se ao julgamento dos leitores. Pelo contrário. A publicação integral deste depoimento visa permitir que cada cidadão avalie as respostas dadas, as explicações apresentadas, as hesitações, as contradições e os esclarecimentos produzidos ao longo de quase quatro horas e meia de inquirição.

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    Foto: Maxime.

    Numa sociedade democrática, o escrutínio público não deve limitar-se aos jornalistas, aos políticos ou aos gestores públicos. Deve também abranger especialistas que adquiriram enorme influência na definição de políticas públicas, sobretudo quando essa influência coexistiu com relações financeiras relevantes com empresas interessadas nas matérias sobre as quais se pronunciam.

    Nesse espírito de transparência, interesse público e liberdade de informação, o PÁGINA UM disponibiliza agora, na íntegra, o depoimento de Filipe Froes no tribunal no Campus da Justiça de Lisboa, no passado dia 4 de Dezembro. Para memória futura.

  • Primado do Direito, de Miguel dos Santos Pereira, já à venda

    Primado do Direito, de Miguel dos Santos Pereira, já à venda

    O PRIMADO DO DIREITO

    justiça penal, prova e decisão no século XXI

    de Miguel dos Santos Pereira

    Leia as primeira páginas e veja o índice

    COMPRE NA LOJA DO PÁGINA UM

    Preço de lançamento (um exemplar): 17,50 euros

    Pack de três exemplares: 42,50 euros

    Pack O Primado do Direito + Correio Mercantil de Brás Cubas: 27,50 euros

    Existem livros que chegam para ocupar espaço numa estante. Outros chegam para incomodar, desafiar e obrigar a pensar. Primado do Direito – Justiça penal, prova e decisão no século XXI, de Miguel dos Santos Pereira (um dos nossos advogados), inaugura a nova colecção PÁGINA UM Ensaios com essa ambição: oferecer reflexão rigorosa, exigente e sem concessões sobre temas que raramente admitem respostas simples.

    Este primeiro número da colecção marca uma aposta editorial clara do PÁGINA UM: criar um espaço de pensamento livre, intelectualmente independente, fora das modas instantâneas do comentário televisivo e da superficialidade opinativa que tantas vezes substitui a reflexão séria. Se o jornalismo independente deve escrutinar o poder, também deve criar espaço para pensamento crítico que desafie consensos instalados.

    E este livro fá-lo sem tibiezas.

    Miguel dos Santos Pereira propõe uma reflexão profunda sobre os fundamentos da justiça penal contemporânea, deslocando o debate para uma questão central, tantas vezes ignorada: como a Justiça decide e com que bases cognitivas, epistemológicas e institucionais constrói aquilo que apresenta como verdade. Aquilo que parece uma pergunta técnica revela-se, afinal, uma interrogação profundamente política e civilizacional.

    Ao longo de mais de duas centenas de páginas, o autor desmonta algumas das ilusões mais persistentes do sistema penal: a crença numa memória fiel, a confiança excessiva na prova testemunhal, a ideia de que a convicção judicial corresponde a racionalidade objectiva, ou a confortável ficção de que os tribunais acedem à verdade material. Pelo caminho, cruza direito penal, processo penal, psicologia cognitiva, neurociência e epistemologia, construindo um ensaio raro no panorama português pela ambição intelectual e pela coragem temática.

    Mas Primado do Direito não é um livro académico hermético, fechado sobre si próprio. Antes é um livro que dialoga com problemas concretos, com casos reais, com dilemas contemporâneos e com uma questão incómoda que atravessa todo o texto: até que ponto a justiça pode errar quando acredita estar mais segura de si?

    Com prefácio de Aury Lopes Jr., uma das mais respeitadas referências internacionais do processo penal, este primeiro volume da colecção PÁGINA UM Ensaios abre da melhor forma uma linha editorial que pretende publicar pensamento sério, incómodo e intelectualmente robusto.

    Num tempo em que a indignação pública precede demasiadas vezes a prova e em que a justiça se transforma, por vezes, em espectáculo moral, este livro surge como um exercício de lucidez.

    A colecção PÁGINA UM Ensaios nasce para isso mesmo: para publicar ideias que merecem tempo, leitura e contraditório.

    E começar com Primado do Direito é começar com a ambição certa.

    Pedro Almeida Vieira

    Director do PÁGINA UM e coordenador da colecção PÁGINA UM ENSAIOS

  • PÁGINA UM revela sentença que derrotou Gouveia e Melo, Miguel Guimarães, Ordem dos Médicos, Filipe Froes e Luís Varandas

    PÁGINA UM revela sentença que derrotou Gouveia e Melo, Miguel Guimarães, Ordem dos Médicos, Filipe Froes e Luís Varandas

    Leia aqui, na íntegra, a sentença de primeira instância dos processos 1076/22.5T9LSB e 144/23.0T9LSB, cujo julgamento decorreu entre Dezembro de 2025 e Março de 2026.

    O Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa absolveu integralmente o director do PÁGINA UM, Pedro Almeida Vieira, em dois processos criminais que resultaram de publicações críticas sobre a gestão da pandemia da covid-19, envolvendo algumas das figuras mais mediáticas desse período, entre as quais Henrique Gouveia e Melo, o então bastonário da Ordem dos Médicos Miguel Guimarães, o pneumologista Filipe Froes e o pediatra Luís Varandas. A decisão judicial de primeira instância rejeitou todas as acusações criminais e julgou igualmente improcedentes os pedidos de indemnização cível apresentados contra o jornalista.

    A sentença incide sobre dois processos autónomos. O primeiro dizia respeito a um conjunto de textos publicados por Pedro Almeida Vieira, em 2021, nas redes sociais, em que questionava relações entre médicos com forte presença mediática durante a pandemia e a indústria farmacêutica, com base em dados constantes da Plataforma da Transparência e Publicidade do INFARMED. Em causa estavam alegados crimes de ofensa a organismo, serviço ou pessoa colectiva agravado (Ordem dos Médicos) e crimes de publicidade e calúnia agravada contra os médicos Miguel Guimarães (então bastonário e agora deputado do PSD), Filipe Froes e Luís Varandas. Quem pagou a conta dos advogados foi a Ordem dos Médicos, ou seja, as quotas de todos os médicos.

    O segundo processo resultou de uma investigação jornalística publicada pelo PÁGINA UM sobre a campanha de vacinação contra a covid-19, centrada num episódio relacionado com a vacinação de cerca de 4.000 pessoas apresentadas como médicos numa fase em que vigoravam critérios de prioridade definidos para grupos específicos. Esse processo teve como assistente Henrique Gouveia e Melo, antigo coordenador da task force da vacinação.

    Na decisão agora conhecida, a juíza Hortense Marques concluiu que a acusação não conseguiu demonstrar os pressupostos criminais necessários para condenação. Em particular, o tribunal considerou não provado que Pedro Almeida Vieira tivesse actuado com intenção deliberada de ofender os visados, de difundir conscientemente factos falsos ou de instrumentalizar informação pública para atingir reputações pessoais ou institucionais.

    A sentença reconhece, aliás, que vários dos elementos factuais invocados pelo jornalista assentavam em dados objectivos. Ficou provado que os valores referidos relativamente a relações entre médicos e empresas farmacêuticas correspondiam a registos existentes na Plataforma da Transparência do INFARMED. Também ficou demonstrado que a própria Inspecção-Geral das Actividades em Saúde chegou a instaurar, em 2021, um processo de inquérito a Filipe Froes para averiguar eventual incompatibilidade entre funções públicas e relações com a indústria farmacêutica, ainda que esse procedimento tenha acabado arquivado sem consequências disciplinares.

    Gouveia e Melo ‘falhou’ o primeiro ao PÁGINA UM, mas, apesar de uma sentença demolidora, está a procurar melhor sorte no Tribunal da Relação. Foto: D.R.

    No plano jurídico, o tribunal distinguiu a crítica pública severa — mesmo quando formulada em termos duros — da prática de ilícitos criminais contra a honra. A sentença não valida necessariamente todas as formulações usadas pelo arguido, mas conclui que não se demonstraram os elementos subjectivos e objectivos exigidos pelo Código Penal para condenação.

    No processo relativo a Henrique Gouveia e Melo, a sentença contém passagens particularmente críticas quanto ao depoimento prestado pelo antigo coordenador da task force da vacinação. A juíza refere que o assistente apresentou “um depoimento muito blindado, nada esclarecedor”, acrescentando que se refugiou na alegação de falta de tempo, meios ou competência para verificar o cumprimento das prioridades estabelecidas na vacinação.

    A magistrada sublinha ainda uma contradição entre a imagem pública construída em torno da liderança de Gouveia e Melo durante a campanha de vacinação e a postura assumida em tribunal. Segundo a sentença, apesar de ter sido amplamente elogiado pela sua liderança, capacidade de planeamento e eficiência, apresentou-se em audiência com “um discurso de nada sabia, nada verificava”, chegando a negar conhecimento de emails que posteriormente admitiu ter lido quando confrontado com documentação.

    Filipe Froes, um dos médicos portugueses com mais ligações à indústria farmacêutica, viu o tribunal confirmar as suas relações promíscuas e aceitou como válidas as críticas duras feitas por Pedro Almeida Vieira. Foto: D.R.

    A decisão judicial vai mais longe ao considerar estranho que uma figura pública directamente envolvida nos acontecimentos e com estatuto de assistente no processo não tenha procurado demonstrar de forma consistente a falsidade das imputações feitas pelo jornalista. A juíza regista ainda que Gouveia e Melo se limitou a repetir a expressão “eu só sei que não mercadejei”, concluindo que tal formulação não bastava para sustentar a tese acusatória.

    Outro aspecto relevante da decisão prende-se com os pedidos indemnizatórios. O tribunal rejeitou integralmente as pretensões cíveis dos assistentes no processo relativo à Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, Filipe Froes e Luís Varandas, absolvendo Pedro Almeida Vieira do pagamento das indemnizações reclamadas, num total de dezenas de milhares de euros.

    A sentença constitui, assim, uma vitória judicial inequívoca para Pedro Almeida Vieira e para o PÁGINA UM, num contexto em que o debate sobre a gestão pandémica, os conflitos de interesses, a transparência institucional e a liberdade de escrutínio jornalístico gerou forte polarização pública.

    Miguel Guimarães, deputado do PSD, utilizou a Ordem dos Médicos para se catapultar politicamente. Usou o cargo para intimidar colegas durante a pandemia com processos disciplinares, Tribunal aceitou a analogia com métodos inquisitoriais ou típicos da Europa dos anos 30 do século passado. Foto: IST / Ordem dos Médicos.

    Importa sublinhar que esta se trata de uma decisão de primeira instância. No caso do processo relativo a Henrique Gouveia e Melo, foi interposto recurso para o Tribunal da Relação, pelo que a decisão ainda não transitou em julgado quanto a esse segmento processual.

    Ainda assim, a sentença agora tornada pública representa um marco relevante na delimitação entre crítica jornalística, liberdade de expressão e tutela penal da honra de figuras públicas, sobretudo quando estão em causa decisões com profundo impacto colectivo e actores com forte exposição institucional.

  • As eleições presidenciais: o rescaldo

    As eleições presidenciais: o rescaldo


    (oiça no Spotify e no Youtube)

    As eleições presidenciais deste domingo foram o mote para o regresso d’O ESTRAGO DA NAÇÃO, com a moderação de Pedro Almeida Vieira, e participação de Tiago Franco, Luís Gomes e Frederico Duarte Carvalho.

    A conversa centra-se no balanço do processo eleitoral, identificando virtudes e fragilidades da campanha, da cobertura mediática e do comportamento do eleitorado.

    Partindo do resultado da primeira volta, que apurou António José Seguro e André Ventura para a segunda volta, analisam-se as leituras políticas do voto, a fragmentação do campo democrático, o desgaste do centro e a consolidação de discursos de ruptura. Discutem-se também as implicações institucionais deste cenário e os efeitos que poderá ter na governação e no equilíbrio do sistema político.

  • Venezuela em crise: o que está a acontecer?

    Venezuela em crise: o que está a acontecer?


    TERTÚLIA P1 ALFACE

    VENEZUELA EM CRISE — O QUE ESTÁ A ACONTECER?

    A crise venezuelana deu uma volta dramática: no dia 3 de Janeiro, 2026, a Administração Trump lançou uma operação militar e capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro e a sua esposa Cilia Flores, transferindo-os para os EUA para responder a acusações criminais — um gesto que Caracas descreve como um sequestro e violação da soberania nacional, e que reacendeu debates intensos sobre intervenção, direito internacional e geopolítica.

    ❓ O que significa esta ação dos EUA?

    ❓ É legítima intervenção ou imperialismo?

    ❓ Que futuro espera a Venezuela — e qual o papel dos grandes actores mundiais nesta crise?

    📆 15 de Janeiro | 18h30

    📍 Alface Hall — Rua do Norte, 96 | Bairro Alto, Lisboa

    🎙️ Convidados:

    ✨ Carla F. Cazzadore

    ✨ Frederico Duarte Carvalho

    ✨ Luís Gomes

    🗣️ Moderação: Elisabete Tavares

    Um debate essencial para compreender os factos, os argumentos e as implicações daquilo que está a acontecer na Venezuela e no cenário global.

    👉 Entrada livre — convite à reflexão séria.

  • Gouveia e Melo estará esta quinta-feira no ‘banco das testemunhas’ em vez de no ‘banco dos réus’

    Gouveia e Melo estará esta quinta-feira no ‘banco das testemunhas’ em vez de no ‘banco dos réus’


    N.D. 27/11/2025 Gouveia e Melo, tendo a prerrogativa de fazer declarações por escrito, apresentou um requerimento solicitando a prestação de depoimento presencial num audiência em Dezembro em data a anunciar. Na audiência de hoje apenas foram ouvidas três testemunhas da acusação, por sinal todos militares que estiveram sob suas ordens.

    ****

    A narrativa oficial sobre a vacinação contra a covid-19 no início de 2021 repetiu-se com disciplina marcial: tudo teria sido feito “segundo as normas”, nenhuma prioridade teria sido deturpada, e qualquer caso de vacinação de dirigentes ou médicos não assistenciais estaria coberto por actualizações da Direcção-Geral da Saúde (DGS).

    O PÁGINA UM mostrou que, sobretudo durante a liderança de Henrique Gouveia e Melo, actual candidato à Presidência da República, houve afinal um negócio entre ele e o então bastonário Miguel Guimarães para a vacinação em Fevereiro e Março de 2021 de cerca de quatro mil médicos não-prioritários, e envolvendo pagamentos ao Hospital das Forças Armadas. E esse negócio fez-se sem que Gouveia e Melo tivesse, à época, competências para tal nem a norma da DGS então permitia desviar vacinas para ‘fora’ dos grupos prioritários.

    Neste outdoor em Alcântara esteve antes um cartaz da campanha da coligação liderada pelo PS na corrida às autárquicas. No mesmo local, esteve também um cartaz a criticar Carlos Moedas. / Foto: D.R.

    Um relatório da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS), publicado já no ano passado veio, porém, ‘legalizar’ o processo, mas através de um detalhe fatal: indicou uma actualização da norma 002/2021 da DGS que nunca existiu naquela data.

    Como do director do PÁGINA UM, Pedro Almeida Vieira, está a responder por um crime de difamação, intentado por Gouveia e Melo, cujo julgamento decorre no Campus de Justiça em Lisboa, com a segunda audiência a realizar-se esta quinta-feira, dia 27 reconstruímos agora, com base exclusiva em documentos oficiais — despachos, normas e relatórios publicados entre Novembro de 2020 e Fevereiro de 2022 — a cronologia real do processo de vacinação, as competências efectivas da task force e o alcance jurídico da Norma 002/2021.


    O ponto zero: o Despacho 11737/2020 e o verdadeiro mandato da task force

    Toda a discussão sobre o processo de vacinação tem um marco inicial incontornável: o Despacho n.º 11737/2020, de 26 de Novembro de 2020, que criou a task force para a elaboração do Plano de Vacinação contra a covid-19.

    Ao contrário da ‘mitologia’ posterior — que atribuiu à task force uma espécie de omnipotência técnica e política —, o despacho é claro e sóbrio. À task force, então liderada por Francisco Ramos, cabia:

    • elaborar um plano de vacinação;
    • propor a estratégia de vacinação;
    • identificar populações prioritárias;
    • propor iniciativas normativas;
    • coordenar logisticamente o processo.
    Despacho de criação da task force de Novembro de 2020 estava em vigor quando Gouveia e Melo decidiu negociar a vacinação de médicos que não constavam das prioridades da norma 002/2021 da DGS então em vigor.

    Não há no despacho qualquer atribuição de poder normativo, qualquer faculdade de alterar prioridades definidas pela DGS, nem qualquer autorização para negociar grupos profissionais fora das normas em vigor.

    A definição jurídica dos grupos prioritários estava — como sempre esteve — na esfera da DGSe, ao abrigo do Decreto Regulamentar n.º 14/2012 e da Portaria n.º 298-B/2020. Foi no uso dessas competências da DGS que, a 30 de Janeiro de 2021, a então directora-geral da Saúde, Graças Freitas, publicou a norma 002/2021, documento que regeria toda a vacinação em Fevereiro e Março.


    A norma 002/2021 de Janeiro – O regime que estava realmente em vigor quando os médicos não-prioritários foram vacinados

    A norma 002/2021, publicada a 30 de Janeiro de 2021, definia a Fase 1 da vacinação, com foco exclusivo em:

    • residentes e funcionários de lares e unidades continuadas,
    • profissionais directamente envolvidos na prestação de cuidados a doentes,
    • pessoas de 80 ou mais anos,
    • pessoas entre 50 e 79 anos com patologias graves.

    Nada na norma incluía “todos os médicos”, nada sugeria incluir dirigentes de ordens profissionais, membros de conselhos directivos ou clínicos sem contacto com doentes. Nem sequer existe, na versão de Janeiro, qualquer mecanismo de excepção.

    Norma original da DGS com prioridades esteve em vigor até Maio de 2021, quando foi actualizada.

    Mais importante ainda: esta versão não foi actualizada em Fevereiro de 2021. Nem nesse mês, nem em Março. A primeira actualização da norma só ocorreria a 4 de Maio de 2021, mais de dois meses depois das polémicas vacinações de médicos sem contacto com doentes (covid ou outros).

    Saliente-se que Gouveia e Melo, apesar de ter sido nomeado como ‘membro da task force em Novembro de 2020, como ‘adjunto’ de Francisco Ramos, foi nomeado em 3 de Fevereiro como líder dessa estrutura informal do Governo. Note-se que o este despacho (n.º 1448-A/2021) apenas serviu para o nomear, não alterando absolutamente nada das competências da task force atribuídas em Novembro de 2020. Ou seja, foi apenas a mudança de um nome.


    Médicos não-prioritários em Fevereiro–Março 2021: podiam ser vacinados?

    A resposta é inequívoca: não.

    A norma 002/2021 de Janeiro, a única em vigor no período, não os incluía. Não existia nenhuma revisão normativa que os abrangesse. E, como veremos, a task force não tinha qualquer poder para alterar isso. A vacinação de médicos não assistenciais — a mais conhecida das quais envolveu dirigentes de ordens profissionais, ou que estivessem em funções burocráticas sem contacto com doentes — não tem enquadramento legal nem técnico. Foi um desvio objectivo ilegal à norma, que implicou o desvio de vacinas, nessa altura escassas, de população vulnerável.

    O Governo nunca o assumiu. A IGAS tentou justificá-lo ‘manipulando’ uma data. Mas os documentos são claros.

    Ana Paula Martins e Miguel Guimarães

    A competência da task force: um mito construído depois dos factos

    Outro ponto central da narrativa oficial sustenta que a task force teria tido margem para conduzir adaptações operacionais ou validar orientações pontuais. Mas entre Novembro de 2020 e Abril de 2021 — período em que ocorreram as vacinações polémicas — a task force estava limitada ao alcance estrito do Despacho 11737/2020:

    • elaboração,
    • proposta,
    • coordenação logística.

    Nada mais. E sempre sob alçada de entidades públicas na área da saúde, como a DGS, do Infarmed, do INSA, da ACSS e do SPMS.

    Somente a 19 de Abril de 2021, com a publicação do Despacho 3906/2021, já depois de concluída a vacinação dos médicos não-prioritários, é que o Governo ampliou formalmente o mandato para incluir “condução e execução” do plano.

    E no casa da vacinação, só a 4 de Maio de 2021 aparece, pela primeira vez, uma norma que permite flexibilização controlada: “outros profissionais e cidadãos, a definir pelo órgão de governo, sob proposta da task force”.

    Mas isto é de 4 de Maio de 2021 – meses depois das vacinações contestadas. Nunca poderia ser aplicado retroactivamente ao período de escassez de vacinas, quando a norma original de Janeiro estava em vigor sem qualquer actualização.

    Por outras palavras: em Fevereiro e Março de 2021, a task force não tinha poder formal nem material para autorizar vacinações fora dos critérios definidos pela DGS.

    Vacinar médicos não-prioritários (integrados nos “profissionais envolvidos na resiliência do sistema de saúde e resposta á pandemia”) só passou a ser legal com a actualização da norma da DGS em Maio de 2021.

    O erro nuclear da IGAS: a “actualização” inexistente

    O relatório de esclarecimento da IGAS, que poderia resultar depois num inquérito, cometeu o erro mais grave possível numa análise normativa: baseou a sua conclusão de legalidade numa data que não existe.

    O relatório afirma que a norma 002/2021 teria sido “actualizada em Fevereiro de 2021”. Esta afirmação é objectivamente falsa. Cronologicamente, as versões oficiais são:

    Não há qualquer actualização intermédia em Fevereiro de 2021. Ou seja, é absolutamente falso aquilo que escreveu a inspectora Aida Sequeira que mereceu a concordância do inspector-geral Carlos Carapeto.

    Ao construir a sua argumentação sobre esta “actualização fantasma”, a IGAS validou a acção de Gouveia e Melo que não encontravam suporte normativo na época dos factos, e nem sequer se importou em saber se todos os vacinados eram mesmo médicos e nem se incomodou em perceber que a task force não detinha competências para gerir um processo de negociações. O resultado foi assim um relatório que absolve por erro, consolida uma cronologia falsa e cria uma aparência de conformidade legal que não corresponde à realidade documental.

    Carlos Carapeto, inspector-geral das Actividades em Saúde

    É difícil sublinhar o suficiente a gravidade disto. Um relatório oficial que visava apurar ilegalidades, mas que assenta afinal numa premissa normativa inexistente, não é apenas frágil — é metodologicamente inválido. E o inspector-geral da IGAS, Carlos Carapeto, assobiou para o ar, embora tenha sido arrolado, tal como a inspectora Aida Sequeira, para testemunhar no processo, por iniciativa do director do PÁGINA UM, para se justificarem.


    Conclusão: os factos que ficaram por dizer

    O PÁGINA UM conclui, depois de reconstruir toda a documentação disponível, que:

    1. A task force não tinha competência legal para autorizar vacinações fora da Norma.
    2. A norma 002/2021 em vigor em Fevereiro e Março 2021 não permitia vacinar médicos não assistenciais.
    3. A IGAS errou ao afirmar que a norma tinha sido actualizada em Fevereiro de 2021, quando apenas foi em Maio desse ano, sendo que esse ‘pormenor’ é o cerne do problema.
    4. As vacinações desses grupos de médicos em Fevereiro–Março de 2021 violaram a norma então em vigor.
    5. O erro da IGAS invalidou a sua conclusão de conformidade.

    Num processo tão sensível como a priorização de vacinas num cenário de escassez, o mínimo que se exige é rigor documental. Aquilo que a investigação do PÁGINA UM demonstrou é exactamente o contrário: houve pressa política, excessos operacionais, interpretações criativas e, mais tarde, uma tentativa de acomodação administrativa daquilo que a documentação desmente.

    A verdade é simples: a legalidade não pode ser reconstruída com datas inventadas. A cronologia certa é esta — mas, em vez de ser Henrique Gouveia e Melo, bem como o agora deputado Miguel Guimarães (então bastonário da Ordem dos Médicos), a sentarem-se no banco dos arguidos, o Ministério Público acolheu as suas queixas, virando o ‘mundo ao contrário’: quem está a responder judicialmente é o director do PÁGINA UM.

  • Correio Mercantil de Brás Cubas: conheça uma ‘amostra’

    Correio Mercantil de Brás Cubas: conheça uma ‘amostra’


    COMPRE NA LOJA DO PÁGINA UM

    Envio com autógrafo

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    Há momentos históricos no percurso do PÁGINA UM, e há outros que, podendo não ser históricos, são profundamente sentidos, quase íntimos. A publicação do primeiro livro com a chancela do jornal pertence a esta segunda categoria: não é apenas um marco editorial, é também um gesto de afecto e de compromisso.

    Bem sei que se trata de um livro em nome próprio, que assinala o meu regresso à Literatura após uma década de interregno, e que o faço com uma certa imprudente ousadia: ao longo do último ano, dei nova vida a Brás Cubas, a célebre personagem póstuma de Machado de Assis, para analisar, com mordacidade e ironia, a política e a sociedade portuguesa. Caberá aos leitores – e, inevitavelmente, aos críticos – decidir se se trata de um mero pastiche ou de uma homenagem conseguida.

    Com o passar dos meses, porém, percebi que estas crónicas não deviam ficar condenadas a uma existência simultaneamente efémera e perene na Internet. Mereciam antes um relicário mais digno: a forma impressa, que continua a ser o altar maior onde a Literatura encontra a sua eternidade. Assim nasceu, o Correio Mercantil de Brás Cubas.

    Deixamos para a vossa apreciação (e crítica) prólogo assinado pelo próprio Brás Cubas, bem como três crónicas de amostra – que, confessadamente, são as mais fracas da meia centena que compõe a obra. Pode adquirir o(s) seu(s) exemplar(es) na loja do PÁGINA UM ou escrever-nos para loja@paginaum.pt.

    Pedro Almeida Vieira

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    Prólogo de papel passado, ou a inconveniência tipográfica da minha ressurreição literária

    Estimadas leitoras e veneráveis leitores — sois vós agora, por artimanha editorial, os destinatários de um volume que, em bom rigor e decência metafísica, jamais deveria ter existido. Refiro-me, é claro, a este opúsculo desmesurado, baptizado Correio Mercantil de Brás Cubas, em cujas páginas se alojam, com impunidade tipográfica, as minhas mais recentes epístolas ao mundo dos vivos.

    Antes de mais, assinale-se o óbvio: um defunto não escreve livros. Pode, quando muito, soprar crónicas ao ouvido de escribas cansados, insinuar sarcasmos ao teclado de jornalistas descontentes ou, com a audácia dos espectros persistentes, lançar ironias em formato digital, tão voláteis como ectoplasma em dia de vento. Com a sua natureza evanescente, o meio electrónico condiz com a condição ectoplasmática de quem, como eu, já não tem carne, mas conserva os nervos do espírito Agora, transladar tal obra para o papel — esse nobre e vetusto suporte que se esfarrapa, se dobra, se encaderna e, pior ainda, se arquiva — é exercício de teimosia editorial, quase necromancia gráfica. Mas que hei-de eu fazer? Até os mortos têm editores.

    Confesso, pois, a minha estupefacção inicial. Um livro? Meu? Novamente? Depois de quase um século e meio de retiro no ossário da Literatura? Que insulto à compostura tumular! O papel, ao contrário do éter digital, compromete, fixa, torna oficial — e, para mal dos meus pecados, cria leitores com marca-páginas. Eis a tragédia: tornar-me autor reincidente sem sequer ter tido tempo para renegociar os direitos de autor com São Pedro.

    Dir-me-eis: “E as crónicas, Brás Cubas, essas que compusestes para o PÁGINA UM com desdém filosófico e fel risonho, que destino julgáveis que teriam?” Ó ingénuos! Julgava-as como folhas ao vento, para distrair os espíritos e afligir os vivos. Eram, à nascença, textos para correr mundo com leveza, não para serem impressos com ISBN. Escrevi-as como quem lança garrafas ao mar da internet, não como quem ergue catedrais de sarcasmo. Eis, portanto, a minha justificação: nunca foi minha intenção compor uma obra; apenas uma perturbação intermitente do vosso bom senso.

    Mas já que me imprimem — e com capa, lombada e prólogo, veja-se! —, cumpre-me esclarecer o propósito deste volume. Não é um romance, ainda que contenha personagens mais absurdas do que os de Balzac; não é um ensaio, embora se veja nele mais pensamento do que em muitos tratados universitários; tampouco é um panfleto, mesmo que esmurre com elegância vários dogmas do vosso tempo. Trata-se, tão-só, de um modesto inventário da loucura contemporânea, registado por um defunto com bom ouvido, má-língua e infinito tempo para observar as vossas insanidades.

    Em cada crónica aqui reunida — sim, crónicas, pois não se lhes pode chamar sermões, nem sentenças, nem editoriais — encontrarão uma tentativa de compreender a grotesca metamorfose do vosso século, essa era em que os reis se fazem bobos para ganharem votos, os moralistas se vendem a fundações, os artistas facturam em nome do sublime e os jornalistas já não investigam, mas reverenciam. O meu olhar não é neutro, porque os mortos não são imparciais: não tendo mais a perder, só nos resta a liberdade de rir.

    De António Costa a Cristina Ferreira, do Santo Padre às jerricanocracias lusas, da estética subsidiada à electricidade perdida, e com uma embirração especial para com os jornalistas e o Almirante Gouveia e Melo, percorro — com a ajuda do meu indispensável piparote — as misérias, as farsas, os eufemismos e os escândalos ocultos de uma Pátria que parece hoje menos uma Nação e mais uma anedota com impostos e taxas. As minhas crónicas são, portanto, actas da vossa decadência, redigidas por um escrivão sem corpo, mas com memória.

    E se há mérito nesta publicação, não me pertence inteiramente. Há, de facto, um vivo que se prestou ao vexame de me servir de médium e de amanuense, um tal Pedro Almeida Vieira — literato outrora conhecido, depois silente, agora ressurgido, como eu, mas ainda de carne e muitos ossos, muito cabelo e já alguma gordura — que, por nostalgia ou insanidade, vem prestar-me corpo tipográfico. É ele quem assina por mim na contabilidade dos livreiros, embora se saiba que, neste acordo, a alma sou eu. Em boa verdade, é o seu regresso à literatura; no meu caso, é apenas uma recaída.

    E assim vos deixo, leitoras de sensibilidade e leitores de coragem, com este compêndio de mordacidade. Não é obra de amor, mas de lucidez; não consola, mas esclarece; não perdoa, mas diverte. Se rirdes, cumpri o meu intento. Se vos ofenderdes, melhor ainda

    Brás Cubas

    ***

    Promoção (extinta: Dia Mundial do Livro)

    Ilustríssimas leitoras e digníssimos leitores, permitam-me, por um breve instante, aquela solenidade antiga — com pó de biblioteca, rangido de estante e um leve perfume de papel que já viu mais séculos do que eu vi dias.

    Celebra-se hoje o Dia Mundial do Livro, essa invenção civilizacional que consiste, no essencial, em lembrar aos vivos que ainda existem mortos com algo para dizer. E, como não poderia deixar de ser, a gerência do PÁGINA UM — essa entidade simultaneamente esclarecida e aflita — resolveu assinalar a data com um gesto que oscila entre a magnanimidade e o desespero logístico.

    Assim, a primeira temporada do Correio Mercantil de Brás Cubas vê o seu preço reduzido — não por caridade, mas por cálculo — para 12 euros por um exemplar e para um módico pack de três (um para si, um para um amigo e outro, por justiça moral, para um inimigo) ao montante de 35 euros. Valores que, feitas as contas com a frieza de um escrivão régio, equivalem a cerca de 25 cêntimos por crónica, impressa em papel digno e com tinta que, até ao momento, não desbotou por vergonha.

    Trata-se, convenhamos, de um preço que quase ofende o esforço literário — mas que honra, isso sim, a urgência de escoamento. Porque há armazéns que, como certos espíritos, não suportam já mais acumulação sem risco de colapso moral e estrutural.

    E porque a liberdade — essa palavra tão invocada e tão raramente lida — se aproxima no calendário, entendeu a mesma gerência prolongar esta liberalidade até ao dia 25 de Abril. Uma espécie de revolução tipográfica, se me permitem a imagem: menos barricadas, mais páginas. Após essa data, o preço regressará à sua compostura habitual, por elementar respeito para com os que, em momento de maior fervor patriótico, já haviam pago o valor íntegro.

    Aproveitai, pois, antes que a razão regresse, os preços subam e o escriba — esse infatigável intermediário entre o além e a tipografia — volte a lembrar-se de que escrever custa, ainda que pouco se pague.

    De resto, nada celebra melhor o Dia do Livro do que comprá-lo. E nada honra mais a liberdade do que lê-lo — ainda que seja, como neste caso, sob a tutela de um defunto.

    Vosso, com a habitual distância ontológica,
    Brás Cubas

    23 de Abril de 2026