Autor: Brás Cubas

  • PRÉMIO PINÓQUIO NA LATA: Bárbara Reis, redactora principal do Público

    PRÉMIO PINÓQUIO NA LATA: Bárbara Reis, redactora principal do Público


    Sempre admirei os sábios. Não aqueles que descobrem os factos quando estes ainda se escondem atrás das cortinas da conveniência, mas os que os descobrem depois de os tribunais lavrarem sentenças, os administradores caírem em desgraça e os balanços deixarem de admitir dúvidas. Esses pertencem a uma escola superior do conhecimento humano.

    A mais recente representante desta tradição é Bárbara Reis, antiga directora do Público e actual redactora principal do mesmo periódico, que esta tarde teve a gentileza de informar os leitores de que Luís Delgado era um mau gestor desde 2018.

    Confesso que a revelação me enterneceu.

    Não porque seja verdadeira ou falsa. Isso é secundário. Fascina-me sim pelo fenómeno intelectual que encerra. Durante anos, a Trust in News acumulou dívidas, ampliou passivos, tropeçou em contas difíceis de explicar e manteve o percurso em direcção ao precipício com a confiança do homem que, ao ver o telhado desabar, conclui que a casa está impecável do rés-do-chão para baixo.

    Durante anos, porém, as redacções portuguesas contemplaram o espectáculo com a mesma energia investigativa que o Serafim, mascot do PÁGINA UM, dedica à física quântica.

    Veio então o incómodo PÁGINA UM em Julho de 2023, que teve a deselegância de ler relatórios e contas, seguir o rasto das dívidas ao Estado e perguntar como uma empresa com dez mil euros de capital social sustentava um império editorial comprado por mais de dez milhões. E que já andava com dívidas ao Estado de 11,4 milhões de euros num passivo de 27 milhões. A recompensa concedida pela imprensa á investigação do PÁGINA UM foi previsível: silêncio, desdém e algumas acusações de fantasia.

    Entretanto, os anos passaram. O passivo cresceu. A insolvência chegou. O tribunal falou. E eis que, subitamente, sai da lata a omniscência retrospectiva.

    A omniscência retrospectiva é uma faculdade admirável: consiste em saber tudo depois de tudo acontecer. Na verdade, é a arte de transformar a evidência tardia numa profecia antiga. O seu praticante nunca avista o icebergue antes da colisão, mas, uma vez afundado o navio, anuncia imediatamente de que o tinha visto desde a partida.

    Por isso, ao ler o artigo de Bárbara Reis agora apontando o dedo com o vigor moral que só a segurança do passado proporciona, não vejo uma pessoa. Vejo uma metáfora. Vejo a musa tutelar de todos aqueles que descobrem em 2026 aquilo que garantem ter sabido em 2018.

    Claudia Serra Campos, Luís Delgado e Luís Filipe Passadouro formaram o trio de gerentes que liderou a TIN desde o seu arranque. Passadouro renunciou ao cargo de gerente da empresa em Abril de 2023 mas manteve-se ainda na empresa como consultor. Os três gestores estão a cumprir uma pena suspensa mas arriscam vir a cumprir pena de prisão efectiva por dívidas acumuladas da TIN ao Fisco e à Segurança Social. / Fotos: D.R.

    Por esse feito extraordinário proponho a atribuição do Prémio Pinóquio na Lata à jornalista Bárbara Reis. Não pela descoberta dos factos nem pela investigação. Muito menos pela denúncia. Mas sim pela rara capacidade que ela teve, e o seu jornal, de permanecer silenciosa durante anos a fio e surgir, no exacto momento em que a sentença é conhecida, a explicar ao mundo que tudo era óbvio desde o princípio.

    Virtude notável. Coragem sem risco. Clarividência sem previsão. Eis aqui o mais refinado jornalismo retrospectivo: aquele que, ao sábado, explica aos leitores que os números do Euromilhões sorteados à sexta-feira já estavam escritos nos céus desde o domingo anterior.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

    ***

    Nota: A ilustração é executada por inteligência artificial sob instruções humanas.

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    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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  • A arte de Luís Osório em descobrir uma vestal no estábulo da besta

    A arte de Luís Osório em descobrir uma vestal no estábulo da besta


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    Sempre tive pelas mulheres uma estima particular. Não apenas pelas razões que o leitor maldosamente suspeitará, mas porque a observação da História me convenceu de que elas possuem uma capacidade admirável para sobreviver aos homens, aos governos, às guerras, aos impérios, às modas literárias e, em certos casos difíceis e funestos, aos próprios maridos.

    Penélope esperou vinte anos por Ulisses, façanha que talvez mereça mais admiração do que todas as aventuras marítimas do marido. Antígona enfrentou Creonte, rei de Tebas e homem tão convencido da autoridade dos seus decretos que julgou possível corrigir os deuses, a família e a natureza humana. Judite salvou a sua cidade entrando sozinha no acampamento inimigo e resolvendo o problema de Holofernes de forma definitiva.

    Saindo das mitologias, Lucrécia contribuiu em Roma, com o seu sacrifício, para derrubar uma monarquia inteira, produzindo mais efeitos políticos do que gerações de senadores laboriosos e patriotas. Santa Mónica suportou as diabruras de Aurélio Agostinho de Hipona antes de este se tornar santo, circunstância que talvez constitua um milagre superior a vários dos que lhe são atribuídos. Joana d’Arc libertou a França numa época em que muitos dos homens encarregados dessa missão pareciam ocupados com tarefas menos urgentes. Isabel I de Inglaterra governou um reino cercado de ameaças religiosas, conspirações e armadas estrangeiras.

    E até a minha Virgília, que não chegou a salvar cidades, a governar reinos nem a alterar o destino das nações, possuía o talento mais raro de todos: compreender os homens sem lhes atribuir uma importância excessiva.

    Enfim, a mulher é, por regra, criatura de recursos superiores. Quando a fortuna abandona o homem, este procura de imediato um advogado, um contabilista ou um culpado. Quando abandona a mulher, esta procura uma solução. O homem perde dinheiro e perde, em simultâneo, a compostura. A mulher perde dinheiro e conserva ambas as coisas. O homem afunda-se; a mulher aprende a nadar. Trata-se de uma injustiça biológica que, resignado, fui aceitando sem recurso.

    Sucede, porém, que existe uma categoria de escritores incapaz de contemplar as qualidades femininas sem tombar em delírio aretológico. Refiro-me aos fabricantes profissionais de heroínas: indivíduos que atravessam a realidade não como investigadores, nem sequer como observadores, mas como caçadores de virtudes.

    Onde os outros encontram pessoas, eles descobrem lições de vida; onde os outros encontram acontecimentos, eles descortinam revelações espirituais; onde os outros encontram uma senhora a atravessar a rua com um saco de compras, eles divisam uma admirável metáfora da resistência silenciosa da mulher portuguesa perante os embates da modernidade. E se a dita senhora transportar dois sacos, elucubram uma reflexão sobre a coragem feminina; se forem três, redigem um pequeno evangelho sobre a dignidade humana; já com quatro, começam a reunir testemunhos para a futura beatificação.

    O fenómeno não nasceu ontem. Os hagiógrafos medievais possuíam tendência semelhante. A diferença é que exigiam algum esforço aos candidatos à santidade: um milagre, por exemplo; uma multiplicação de pães; uma conversa civilizada com um dragão; um mar separado por uma vara; um rio atravessado a pé enxuto. Já os cronistas sentimentais dos vossos dias, entre a vertigem devocional, revelam-se muito menos exigentes: basta uma expressão digna, um olhar firme ou uma fotografia correctamente enquadrada para que surja mais uma heroína destinada a enriquecer o património moral da Humanidade.

    Esta reflexão ocorreu-me ao ler uma recente crónica dedicada à derrocada de um conhecido banqueiro português, personagem que conseguiu realizar uma proeza que teria merecido a admiração dos velhos financistas da minha mocidade póstuma: enriqueceu durante décadas com uma habilidade quase alquímica e converteu essa prosperidade numa calamidade nacional com não menor destreza.

    Convém reconhecer que a primeira parte do feito não constitui novidade histórica. Os banqueiros sempre enriqueceram. Já no meu tempo havia cavalheiros que transformavam papel em ouro, promessas em património e confiança alheia em dividendos próprios. A banca possui esse talento singular: consegue fazer fortuna com dinheiro que pertence aos outros e receber louvores por essa ousadia.

    A segunda parte – a derrocada – exige, porém, qualidades mais raras. Não basta acumular riqueza para depois a perder: é mister possuir um génio especial para transformar uma dinastia financeira numa espécie de epidemia patrimonial, espalhando ruína com a mesma eficácia com que antes distribuíra prosperidade. Há homens que constroem impérios; o vosso banqueiro conseguiu a façanha mais moderna de construir o império para obter as ruínas.

    Mas não me interessa discutir o descalabro financeiro nem os tribunais, ainda mais porque estes possuem a desagradável mania de trabalhar com factos, circunstância que os torna pouco adequados para certas formas de literatura. Nem me interessam, em particular, as finanças modernas, essa forma industrializada de prestidigitação. Mesmo sabendo que apresenta resultados fascinantes. Enquanto os alquimistas medievais falharam, sem conseguir transformar estrume em ouro, os banqueiros modernos descobriram um método incomparavelmente mais eficiente: converteram ouro em papel e papel em estrume, distribuindo depois o resultado sob a forma de contas anuais fictícias anexadas a relatórios de governo societário e missais de responsabilidade social.

    Deixemos, porém, em paz os banqueiros, sobretudo os pobres que sofrem de Alzheimer. A espécie é muito antiga, resistente e suficientemente estudada. Centremo-nos antes, estoicos cavalheiros, na crónica em causa, porque o mais curioso desta história já nem é a derrocada do financista, fenómeno vulgar na História económica, mas a extraordinária capacidade de um escriba para descobrir, entre os destroços de uma fortuna e as ruínas de uma reputação, uma figura angelical.

    A operação merece admiração. Nem todos possuem talento para encontrar uma sacerdotisa da virtude no local onde a experiência comum julgaria ter encontrado apenas uma besta.

    Ora, no contexto em que milhares de pessoas perderam dinheiro, viram desaparecer as economias de uma vida inteira, empresas ruíram, patrimónios se evaporaram e investidores descobriram que a palavra “segurança” era sobretudo uma figura de retórica, o vosso cronista não se interessou pelos vencidos. Não lhe prenderam a atenção os reformados enganados, as viúvas despojadas, os pequenos empresários arruinados, os aforradores desiludidos nem as famílias que aprenderam demasiado tarde a diferença entre confiança e garantia. Entre milhares de vítimas disponíveis, a sua sensibilidade literária não escolheu vidas simples. Nanja. Um cronista de talentos sabe que não entusiasma ninguém assim.

    Sempre me poderão objectar, com aquela expressão jubilosa própria de quem acredita ter encontrado uma contradição fatal:

    Mas, Brás Cubas, Shakespeare escutava coveiros, bobos, soldados e taberneiros. Victor Hugo escrevia sobre presidiários, prostitutas, órfãos e mendigos. Dickens interessava-se por devedores e crianças abandonadas. Balzac por falidos e viúvas empobrecidas. Steinbeck pelos expulsos da terra. Saramago pelos cegos, pelos camponeses e pelos desgraçados de toda a espécie.

    Ao que vos respondo:

    Sim, meus caros leitores. Mas esses foram pioneiros.

    No tempo deles ainda havia mérito em descobrir tragédia nos infelizes. Hoje, qualquer jornalista estagiário consegue localizar um lesado, um reformado enganado ou uma viúva arruinada. A miséria tornou-se acessível, a desgraça vulgarizou-se, o sofrimento democratizou-se. O verdadeiro talento literário contemporâneo exige maior subtileza: já não consiste em encontrar a vítima; consiste em ignorá-la.

    Por isso é que se recortam agora no horizonte, sobressaindo dos demais, cronistas do quilate de Luís Osório, possuidor de faculdades tão singulares que mereceriam estudo académico, financiamento europeu e talvez uma cátedra própria numa universidade condigna.

    Com efeito, se Arquimedes descobriu os princípios da flutuação dos corpos — e ainda hoje navios, submarinos e engenheiros lhe agradecem a cortesia —; se Copérnico deslocou a Terra do centro do Universo — e ainda hoje a Humanidade não recuperou da humilhação —; se Galileu observou os céus e revelou luas em torno de Júpiter — e ainda hoje os astrónomos vivem dos dividendos dessa indiscrição —; se Newton formulou as leis da gravitação universal — e ainda hoje as maçãs persistem em cair com louvável disciplina científica —; se Champollion decifrou os hieróglifos — e ainda hoje os faraós continuam a conversar através dos papiros —; e se Freud se aventurou pelos subterrâneos da alma humana — e ainda hoje milhões de pessoas pagam honorários para tentar perceber o que lhes vai na cabeça —, Luís Osório realizou uma descoberta que não receio colocar ao lado destas: a existência de sentimentos delicados, nobres e quase angelicais numa vestal cuja singular circunstância biográfica consistiu em passar décadas a partilhar o estábulo com a besta.

    A proeza merece registo. Afinal, descobrir leis físicas, planetas, alfabetos perdidos ou perturbações psíquicas exige apenas estudo, método e perseverança. Descobrir uma Griselda entre os destroços morais e financeiros produzidos por um Gualtieri requer uma imaginação de qualidade boccacciana – e a imaginação, como todos sabem, é a mais respeitável das faculdades quando se decide conceder férias aos factos.

    Por isso, quando li a sua meditação sobre Maria João Salgado – e “a coragem de dar a cara e o modo como pegou nas rédeas e enfrentou os obstáculos” –, experimentei aquela alegria serena que os arqueólogos devem sentir ao descobrir uma cidade romana intacta. Tudo estava no seu lugar. A lágrima encontrava-se onde devia estar. A dignidade encontrava-se onde devia estar. A coragem encontrava-se onde devia estar. A resiliência encontrava-se onde devia estar. E a realidade, criatura desarrumada e pouco colaborante, encontrava-se discretamente afastada para um canto, de modo a não perturbar a harmonia da composição.

    Confesso que a revelação me deixou emocionado. Não tanto pela senhora, cuja dignidade não discuto, mas pela extraordinária elasticidade do génio humano. Durante séculos acreditou-se que, para merecer admiração, Penélope precisava de esperar vinte anos por Ulisses; que Antígona tinha de desafiar um rei; que Judite necessitava de salvar uma cidade; que Lucrécia devia contribuir para derrubar uma monarquia; que Santa Mónica tinha de suportar um fedelho que não queria aprender latim, antes deste atinar e se converter em futuro santo; que Joana d’Arc precisava de libertar a França; e que Isabel I tinha de governar um reino cercado de inimigos. Afinal, os critérios eram excessivos. Bastava atravessar com compostura uma desgraça financeira nas imediações do património familiar.

    Não censuro o cronista. Pelo contrário. Há qualquer coisa de enternecedor nesta incapacidade de atravessar uma calamidade sem procurar uma lição edificante. Transmutar a mulher do banqueiro Ricardo Salgado na principal fonte de comoção moral da história é um prodígio perante o qual até Lázaro se levantaria segunda vez da sepultura apenas para aplaudir a façanha. Luís Osório fundou, na crónica, a Aretologia Consolatória, essa arte de localizar virtudes edificantes em ambientes reconhecidamente pouco propícios à sua proliferação.

    Assim, se Herodes regressasse à Judeia, Luís Osório não perderia tempo com os incómodos episódios envolvendo inocentes e decretos régios. A sua atenção recairia, com naturalidade, sobre Mariamne, essa admirável senhora que conseguiu preservar os afectos apesar das singularidades profissionais do marido.

    Se Nero voltasse a contemplar Roma em chamas, não duvido de que Luís Osório encontraria matéria abundante para uma reflexão sobre a profundidade afectiva de Popeia Sabina, preservando o incêndio para nota de rodapé.

    Se Ivan, o Terrível, regressasse ao Kremlin, Luís Osório descobriria, por certo, na figura de Anastasia Romanovna um admirável exemplo de serenidade doméstica perante os desafios normais da vida conjugal e das ocasionais explosões temperamentais do cônjuge.

    Se os anos trinta soviéticos do século XX voltassem a florescer, haveria decerto uma crónica comovida de Luís Osório sobre a delicadeza espiritual de Nadezhda Alliluyeva, deixando os expurgos, os deportados e os fuzilamentos para os especialistas em minudências históricas.

    E se a Chancelaria do Reich reabrisse as portas, confio que Luís Osório nos ofereceria uma reflexão memorável sobre a ternura de Eva Braun, essa senhora cuja singularidade consistiu em conservar uma vida sentimental relativamente organizada ao lado do frustrado pintor Adolf.

    Reconheço que existe grandeza neste olhar. Os historiadores distraem-se com guerras, perseguições, massacres, ditaduras e ruínas. Luís Osório procura algo mais elevado: onde os restantes mortais vêem a História, ele vê sentimentos – infelizmente enviesados.

    O problema de Luís Osório não reside na bondade – Deus vos livre de viver num mundo com menos bondade. O problema reside naquela forma particularmente moderna de sentimentalismo que dissolve as proporções e embaralha as escalas.

    Quando toda a compostura se transforma em heroísmo, o heroísmo desaparece. Quando toda a dignidade se converte numa epopeia, as epopeias deixam de ter valor. E quando toda a adversidade produz uma Joana d’Arc, acaba-se inevitavelmente com mais Joanas d’Arc do que habitantes.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • ‘Fucking crazy’, ou os idiotismos que fazem dos poliglotas uns idiotas

    ‘Fucking crazy’, ou os idiotismos que fazem dos poliglotas uns idiotas


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    Entre as muitas desgraças que acometem a Humanidade — a gota, as muriçocas em noites quentes de Pernambuco, os credores, os genros, os reguladores da imprensa e os filósofos alemães —, poucas me parecem tão subestimadas quanto o estudo das línguas estrangeiras. Refiro-me ao estudo sério, laborioso, quase monástico, que leva um homem a passar anos a decifrar os vernáculos de povos remotos, separando uma preposição de uma interjeição, um dativo de um acusativo, um insulto de um elogio e, em certos países, um programa eleitoral de uma peça de ficção.

    Na minha juventude, tive a fortuna de aprender francês suficiente para impressionar viúvas, latim bastante para intimidar bacharéis e português o bastante para, em defunto, escrever as minhas memórias – e agora, estas crónicas. Quanto ao resto das línguas, deixei-as aos gramáticos, essa raça meticulosa que sabe dizer tudo sem ter nada para contar. Ainda assim, os anos ensinaram-me uma verdade melancólica: aprender uma língua é difícil; dominá-la é quase impossível; e traduzi-la é um acto de heroísmo intelectual que raramente recebe a gratidão merecida.

    Ortega y Gasset, espanhol de inteligência tão clara que chegava a parecer indiscrição, escreveu páginas admiráveis sobre essa tribulação. Traduzir, dizia ele, não é transportar palavras de uma margem para outra, como quem atravessa um rio de barca. Traduzir é tentar fazer passar uma civilização inteira através de uma ponte demasiado estreita. Por isso, toda a tradução é, em simultâneo, necessária e impossível.

    Os antigos compreendiam melhor esta tragédia. Admiravam os escritores e apenas toleravam os tradutores. Não sem razão. O escritor inventa metáforas; o tradutor passa a vida a explicar metáforas alheias. Um é livre para cometer genialidades; o outro está acorrentado, condenado a administrar dificuldades. O escritor cria um mundo; o tradutor recebe a ingrata missão de o transportar inteiro para outra língua, tarefa tão hercúlea quanto transportar um pôr-do-sol numa mala de viagem.

    Talvez por isso São Jerónimo, patrono dos tradutores, que passou a Bíblia para latim tenha sido canonizado. Com razão: poucos santos enfrentaram suplícios tão prolongados.

    Ortega tinha razão. Cada língua é uma conspiração colectiva dos seus falantes contra os estrangeiros. Em cada idioma existem expressões que só fazem sentido para quem nasceu dentro daquela tribo verbal. Chamam-lhes idiotismos. O nome é apropriado: um idiotismo transforma um estrangeiro inteligente num idiota.

    Quem não domina uma língua como um equilibrista pode pedir um café, comprar um bilhete de comboio ou declarar amor eterno a uma sueca em férias. Mas basta tropeçar num idiotismo para todo o edifício desabar. O indivíduo que, momentos antes, parecia um cosmopolita refinado, passa num instante para um estado próximo de um calhau.

    A História Universal está cheia destas catástrofes linguísticas, porque a tradução de uma língua é uma ponte, mas também uma armadilha.

    Ora, foi perante uma destas arapucas que a imprensa portuguesa se viu apanhada esta semana, quando Donald Trump resolveu oferecer ao mundo mais uma demonstração da sua eloquência presidencial, durante uma conversa telefónica com Benjamin Netanyahu. A frase original, segundo os relatos publicados, era simples. Brutalmente simples. Tão simples que apenas um político americano poderia pronunciá-la e apenas um jornalista europeu poderia transformá-la num problema filosófico.

    You’re fucking crazy.

    Cinco sílabas decisivas. Um adjectivo. Um advérbio explosivo. E um palavrão.

    Pois bem. Mal a frase atravessou o Atlântico começou a sua via-sacra, porque sucede que os homens modernos, apesar de possuírem máquinas capazes de enviar fotografias de gatos através dos oceanos em menos de um segundo, continuam a debater-se com as mesmas dificuldades linguísticas que atormentavam os escribas de Babilónia, os intérpretes de Alexandre e os diplomatas de Viena. Mudaram os instrumentos; não mudou a condição humana.

    Talvez assim suceda porque as palavras não são recipientes. São organismos vivos: crescem, envelhecem, adoecem, adquirem vícios locais, manias regionais e caprichos históricos. Daí que uma palavra inglesa não corresponda a uma palavra portuguesa da mesma forma que uma moeda corresponde a outra moeda. Aquilo que se transporta de uma língua para outra não é um significado; é apenas uma aproximação, umas vezes por negociação, outras por rendição.

    Tomemos o caso da palavra “fuck“, essa veterana da língua inglesa, que ao longo dos séculos conseguiu a proeza de servir como verbo, substantivo, adjectivo, advérbio, interjeição, manifestação filosófica, diagnóstico clínico e programa político. Se há palavras que ocupam uma função gramatical; esta, no vernáculo de Albion, ocupa uma civilização inteira. Também os seus derivados.

    Assim, quando um norte-americano incapaz de pronunciar אתה דפוק לגמרי, por não saber hebraico, se dirige a um israelita dizendo-lhe que está “fucking crazy“, não está, convenhamos, a emitir um parecer psiquiátrico. Não pretende enviá-lo para a Casa Verde de Itaguaí com vista a tratamento pelo doutor Bacamarte nem a recomendar-lhe uma visita ao neurologista. Está apenas a comunicar, com a subtileza habitual das locomotivas, que considera determinada conduta extraordinariamente absurda.

    Mas foi desse equívoco que nasceu a pequena tragédia cómica da imprensa portuguesa. Cada jornal julgou entrever na frase uma criatura diferente. O Correio da Manhã avançou com a determinação pragmática dos cirurgiões de guerra: amputou algumas letras e aplicou-lhe a terapêutica universal dos asteriscos. O Expresso preferiu a diplomacia semântica, essa arte de dizer sem dizer e de traduzir sem se comprometer. A RTP refugiou-se na moderação institucional, virtude estimável que consiste em nunca escandalizar ninguém, excepto os factos. A CNN encontrou uma solução particularmente saborosa, mantendo Netanyahu “fodidamente louco”, expressão que, convenhamos, tem a vantagem de conservar intacto o palavrão e a patologia. O Público, por sua vez, aproximou-se do problema com a cautela de um arqueólogo incumbido de desarmar uma bomba romana. E assim, cada qual à sua maneira, procurou preservar simultaneamente o significado, o decoro, a inteligibilidade e a respeitabilidade editorial — objectivo tão ambicioso quanto conservar um elefante vivo dentro de uma caixa de porcelana.

    Ora, minhas fluentes donzelas e meus versáteis cavalheiros, a realidade amiúde se apresenta em estado incompatível com a respeitabilidade. Donald Trump, convém não esquecer, não estava a redigir uma encíclica “aos irmãos mais velhos na fé de Abraão”, como fez João Paulo II. Não estava a proferir uma oração académica perante a Sorbonne. Não estava a apresentar um tratado sobre a paz perpétua. Estava zangado, profundamente zangado. E os homens furiosos recorrem, julgo, a palavras que os tradutores lamentam e os tipógrafos detestam.

    A dificuldade de traduzir palavras nem reside na língua nem no idiotismo. Na verdade, “You’re fucking crazy” é intraduzível porque não pertence sequer ao inglês. Pertence ao momento. Pertence ao tom de voz. Pertence à irritação. Pertence ao contexto. Pertence àquele universo particular onde um presidente dos Estados Unidos, um primeiro-ministro israelita e uma guerra no Médio Oriente se encontram unidos por um palavrão de três sílabas. Ou seja, traduzir palavras é relativamente simples, mas traduzir estados de espírito constitui um verdadeiro suplício.

    A história humana é, nesse aspecto, uma sucessão de diálogos de surdos numa Torre de Babel. Veja-se Colombo e outros aventureiros. Quando os espanhóis e os portugueses perguntavam a um indígena pelo nome de um rio, de uma montanha ou de uma região, os nativos respondiam qualquer coisa equivalente a “não percebo o que este louco quer”. E os europeus anotavam cuidadosamente a resposta e baptizavam o local com ela. Assim nasceram muitos topónimos, demonstrando que os mapas são monumentos geográficos à incompreensão recíproca.

    O mesmo sucedeu aos primeiros missionários que chegaram ao Japão. Convencidos de que explicavam os mistérios da Trindade, descobriram décadas mais tarde que muitos dos seus ouvintes tinham compreendido algo mais próximo de uma elaborada teoria administrativa do universo. Os jesuítas julgavam converter almas; os nipónicos julgavam assistir a uma palestra confusa sobre organização celestial. Ambas as partes ficaram satisfeitas durante bastante tempo, o que demonstra que a felicidade depende menos da verdade do que da ignorância.

    Melhor sorte teve Catarina da Rússia, mulher de inteligência tão vasta quanto o seu império. A imperatriz falava francês, sonhava em francês, correspondia-se em francês e, disseram-me, espirrava em francês, circunstância que não a impediu de governar milhões de filhos da Moscóvia. A corte em São Petersburgo falava como a de Versalhes, os diplomatas escreviam como em Paris, os nobres pensavam como Voltaire e os camponeses continuavam sem perceber uma palavra do que se passava. Suspeito que tenha sido uma das formas mais eficientes de governo alguma vez experimentadas. Só quando governantes e governados deixam de se compreender mutuamente, se reduzem, de forma considerável, as possibilidades de discórdia e discussão.

    Mais trágico foi, por isso, o destino de certos diplomatas europeus que, durante séculos, assinaram tratados redigidos em línguas que não dominavam por inteiro ou nem pela metade. Sempre me pareceu uma imprudência. Eu próprio nunca assinei um documento sem o ler; e mesmo lendo-o, arrependi-me várias vezes. Imagine-se, pois, o perigo de confiar a paz entre nações a um homem que apenas conhece metade dos advérbios e um terço dos particípios.

    Lembro-me, por exemplo, dos britânicos e dos maoris na Nova Zelândia em 1840. Sentaram-se ambos à mesma mesa, exibiram a habitual solenidade dos assuntos históricos, trocaram assinaturas, apertos de mão e expressões de cordialidade. Os britânicos saíram convencidos de que tinham adquirido soberania sobre aquelas terras; os maoris retiraram-se persuadidos de que a tinham conservado. Ambas as partes regressaram satisfeitas às respectivas habitações e talvez tenham dormido bem nessa noite. Só mais tarde descobriram que o tratado possuía a singular característica de significar coisas diferentes para os seus signatários. Acredito ainda ter sido este o acordo mais bem-sucedido da História, porque duzentos anos depois ainda se discute o que dizia.

    Menos afortunados foram os japoneses em 1945. Procurando responder aos Aliados com a prudência que as circunstâncias aconselhavam, recorreram a uma palavra suficientemente ambígua para satisfazer diplomatas, militares, burocratas e professores universitários. Uns entenderam uma coisa. Outros entenderam outra. A palavra chamava-se mokusatsu. Os filólogos continuam a estudar-lhe os significados possíveis, mas Truman resolveu o assunto com duas bombas atómicas. Poucas palavras custaram tantas vidas; e poucas vidas dependeram tanto de uma palavra.

    Enfim, cada língua possui os seus laços. Os franceses conseguem dizer uma insolência de forma tão elegante que o insultado agradece. Os ingleses transformam um palavrão numa categoria filosófica. Os alemães unem cinco substantivos e fabricam um palavrão capaz de alojar uma família inteira. Os espanhóis insultam com uma exuberância barroca que faz parecer os restantes povos meros amadores da ofensa. E vós, portugueses, desenvolvestes uma capacidade singular para suavizar brutalidades através da melodia – vejam-se os homens do Norte…

    Por tudo isto, a frase de Trump se revelou tão problemática. Não foi apenas uma frase, mas um pequeno confronto entre civilizações linguísticas. De um lado, um americano ulcerado, utilizando um dos instrumentos mais versáteis do inglês contemporâneo. Do outro, jornalistas lusos, educados numa tradição que prefere insinuar o palavrão em vez de o exibir.

    Talvez por isso, eu, Brás Cubas, que em vida não aprendi inglês, e que só quando os vermes me levaram a língua compreendi Shakespeare, olhe para toda esta controvérsia com uma certa ternura. Daqui vejo, deste meu observatório sempiterno, a reconstituição moderna de uma Torre de Babel – não a Babel grandiosa das Escrituras, mas uma Babel digital, povoada por redactores, revisores, editores e especialistas em SEO, todos reunidos em torno da mesma questão metafísica:

    Como traduzir um palavrão americano sem parecer pateta?

    E a resposta, receio bem, é que não se pode. Ou se traduz o palavrão e perde-se a respeitabilidade. Ou se preserva a respeitabilidade e perde-se o palavrão. Ora, como sucede tantas vezes na vida, a perfeição revela-se incompatível com a realidade.

    Por isso, na dúvida, aconselho o silêncio. Não por ser uma solução modelar, mas porque continua a produzir menos desastres do que a eloquência. Em vez de traduzirem, falarem ou explicarem, calem-se. Será uma solução imperfeita, sem dúvida; mas a experiência, essa velha professora que só aceita alunos depois de os castigar, ensinou-me que uma boa parte da Humanidade começa a parecer sensata no preciso momento em que deixa de abrir a boca ou de pegar na pena.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • Dos inconvenientes e ocasionais virtudes de me ver embrulhado com jurisconsultos

    Dos inconvenientes e ocasionais virtudes de me ver embrulhado com jurisconsultos


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    Sempre tive, desde os meus mais verdes e improdutivos anos — os únicos verdadeiramente úteis, porque neles nada se espera e, por isso mesmo, nada se perde —, ternura pelos reformadores. Não por aqueles que mudam algo, entenda-se, porque esses são, por norma, homens enfadonhos, de mangas arregaçadas, tabelas, regulamentos e hálito de repartição.

    Refiro-me antes, sim, aos reformadores de essência: aqueles cavalheiros tocados por uma espécie de febre moral que os leva a acreditar que a criatura humana, com suficiente método, bibliografia e perseverança, pode tornar-se um animal mais racional, mais justo e até, admire-se, mais prudente.

    Conheci alguns.

    Relembro-me, por exemplo, do conselheiro Anacleto de Péricles e Alvarenga, homem grave, barba acerada, leitor aplicado de Montesquieu, Beccaria, Bentham, Stuart Mill e Comte, que nas digestões mais longas sustentava que o Direito, se calibrado sob judicioso critério, extinguiria os vícios sociais como um jardineiro diligente extermina lagartas em roseiral. Acabou, porém, ludibriado pelo próprio genro, rapaz de suíças românticas e excelente dicção francesa, que lhe dissipou metade da prataria com papéis de crédito, uma companhia mineira inexistente e uma sósia de Adelina Patti com menos voz e mais tornozelo. E, segundo rumores persistentes, levou-lhe mesmo uma pequena estatueta de Minerva.

    Outro foi o desembargador Euclides Tangente de Chavigny, filho de diplomata afrancesado que ouvira Guizot à mesa, venerava Comte e tratava Descartes como director espiritual, acabado em magistrado de convicções geométricas, homem persuadido de que a razão judicial, disciplinada e desapaixonada, pairava acima das fraquezas comuns como um balão filosófico. Possuía o singular talento de confundir compostura com inocência e nervosismo com culpa — erro que, convenhamos, arruinou já mais destinos do que a sífilis e os empréstimos familiares. Certa vez, condenou um modesto caixeiro por furto com base, entre outros indícios, no “olhar esquivo” e na “resposta excessivamente pronta”, sinais inequívocos, segundo explicou, de consciência perturbada. Veio depois a saber-se que o homem era apenas tímido, gago em situações de autoridade e profundamente intimidado por bigodes judiciais. Convém informar que o verdadeiro autor do delito era o sobrinho de um comerciante, sujeito jovial e de excelente presença, incapaz, ao que parecia, de mostrar culpa.

    Enfim, a natureza humana tem este mau gosto de persistir nos românticos. Por isso, mantenho o meu olhar de cadáver observador — condição mui útil para julgar entusiasmos humanos sem risco de contágio por hantavírus ou norovírus transmitidos por sevandijas diversas —, com simultânea simpatia e sobrancelha arqueada (que já nem tenho), sobre os homens que ainda pretendem humanizar a justiça. Convenhamos que, ao fim de tantas gerações, desde os tempos de Gaio e Ulpiano, se mostra intenção nobre, embora a probabilidade de êxito se situe algures entre a restauro moral da política e a pontualidade das promessas eleitorais.

    Tal disposição de espírito talvez explique por que motivo não me escandalizou — antes me concedeu a indulgência com que as inteligências menos vulgares observam as industriosas combinações da espécie — a notícia recente de me ver associado, por expediente comercial, a um jurisconsulto contemporâneo. Sempre suspeitei que acabaria empacotado com juristas. Há piores destinos: já fui visto ao lado de poetas menores – e até de Sócrates, o José, pois o ateniense teve a prudência de nada escrever.

    Foi, pois, assim que me chegou às mãos a obra do causídico e jurisconsulto Miguel dos Santos Pereira, esse operário das lides forenses que tanto pleiteia por absolvições como se ocupa de iluminar os corredores lusitanos da Administração Pública, que, por hábito ou conforto, aprecia a penumbra.

    Confesso que abordei o volume com uma pergunta que a mais elementar higiene intelectual recomenda: estaria perante um desses ingénuos que julgam corrigível a Humanidade com conferências, bibliografia e terminologia técnica, ou diante de mim tinha um homem sensato, já instruído pela experiência de que os defeitos da nossa espécie raramente se deixam impressionar por notas de rodapé? Cumpre dizer, em justiça, que o doutor Miguel não parece pertencer à primeira categoria.

    O seu Primado do Direito não é nenhum panfleto de fé institucional, desses onde se proclama que a justiça falha apenas por escassez de meios, ligeira distracção administrativa ou insuficiente digitalização. A sua tese é mais incómoda — e, por isso mesmo, mais interessante: sustenta que a própria arquitectura da decisão judicial se encontra contaminada pelas limitações cognitivas daqueles que a produzem; que a memória, a percepção, a convicção, a narrativa e até a emoção conspiram, em silêncio, no acto de julgar.

    Ou seja, descobre, com aparato científico respeitável, aquilo que a literatura já suspeitava desde que Caim prestou declarações sem advogado. E é mesmo aqui que este vosso doutor – nos meus tempos seria bacharel – toca num ponto sério.

    Subsiste, de facto, desde sempre, uma dificuldade metafísica que nem os augustos desembargadores de arcada sentenciosa nem os conselheiros de bem engomada gravidade alguma vez resolveram com a abundância de latim: como alcançar a verdade quando ela comparece em tribunal fragmentada em múltiplas consciências, cada qual persuadida de possuir ao menos a sua parcela legítima?

    Veritas! O advogado da acusação contempla-a de um ângulo; o da defesa, de outro, com zelo não menos convicto e facturação igualmente meritória; o procurador empresta-lhe a solenidade funcional do Estado; e o juiz recolhe todos esses estilhaços com a dignidade própria da toga, procurando recompô-los numa narrativa suficientemente robusta para merecer o nome de justiça.

    E se a estes acrescentarmos os arguidos — criaturas por vezes mais imaginativas do que sinceras —, os assistentes — cuja dor nem sempre é boa arquivista —, as testemunhas — essas romancistas involuntárias da memória retrospectiva, nem sempre em perfeita consonância com os interesses dos patronos —, e até o oficial de justiça — esse discretíssimo Atlas burocrático que suporta o teatro quotidiano da degradação humana por vencimento modesto —, percebe-se que a verdade judicial talvez seja menos um bloco marmóreo aguardando a mão reveladora do escultor e mais um mosaico de tesselas moldadas em diversas terracotas, cozidas em fornos distintos e reunidas pela mera conveniência da composição.

    A ficção de que a verdade entra intacta pela porta do tribunal, toma assento diante do magistrado e aguarda reconhecimento como uma senhora decente e bem aparentada, com os papéis em ordem, sempre me pareceu mais própria de romance medíocre do que de epistemologia.

    Ora, com utilíssima inquietação, minhas perspicazes leitoras e meus hermenêuticos leitores, o doutor Miguel presentifica-vos de que a memória reconstrói, que a percepção filtra, que a narrativa seduz e que a convicção se veste amiúde de certezas apenas porque desconhece a fragilidade da sua própria costura. Isto, para um defunto que passou boa parte da eternidade a desconfiar da sinceridade humana, não deixa de ser reconfortante.

    Descobre-se, ainda assim, nas páginas desta dissertação sobre as hesitações da mente togada, um enternecedor optimismo — uma dessas esperanças que a experiência ensina a tratar com afectuosa reserva — de que, iluminando a magistratura com neurociência, psicologia cognitiva e humildade filosófica, ela se desprenda dos seus velhos hábitos inquisitoriais. Concebo semelhante metamorfose com a mesma confiança elegante com que certos fumadores anunciam a despedida do charuto, reservando-se o direito de o reacender após o jantar.

    Enfim, as instituições têm memória mais resistente do que as testemunhas. Ainda assim, não nego a nobreza do empreendimento. Aliás, se folheasse este Primado do Direito, Aristóteles lembraria que a prudência nunca foi disciplina exacta. Montaigne resgataria da memória que a razão humana oscila ao sabor dos humores. Pascal recordar-vos-ia — “Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point” — que nem toda a convicção nasce sob jurisdição da lógica. E Schopenhauer, com a sua proverbial antipatia pela espécie, que enalteço, explicaria que a razão entra tarde, apenas para justificar desejos já instalados. Já Balzac. limitar-se-ia a sorrir.

    Vista assim a matéria, devo reconhecer que a ideia desta promoção editorial, de meterem o meu Correio Mercantil no mesmo envelope de expedição do Primado do Direito é menos absurda do que me parecera de início.

    Se Miguel dos Santos Pereira vos explica que a justiça deve desconfiar da facilidade com que se constroem verdades, eu então passei a vida — e parte considerável da morte — a demonstrar que até a autobiografia e a crónica são exercícios de fraude penteada com aisance parisiense. Portanto, o leitor leva a teoria e recebe o espécime.

    Mas porque suspeito de que alguns dos compradores deste severo tratado jurídico talvez ainda não tenham frequentado devidamente as minhas Memórias Póstumas ou este meu Correio Mercantil — lacuna remediável por via desta engenhosa promiscuidade editorial —, permito-me oferecer antes alguns conselhos complementares ao excelente volume do doutor Miguel. Não porque o Primado do Direito deles careça, mas porque a condição humana, tema principal de qualquer tribunal e de quase toda a literatura decente, beneficia sempre de observações suplementares.

    Primeiro: jamais transformem a neurociência numa nova teologia.

    Conheci, no meu tempo, o conselheiro Leôncio de Andrade Vilela, homem de severidade mandibular e grande confiança na frenologia, ciência segundo a qual a protuberância craniana revelaria as inclinações morais do indivíduo. Bastava-lhe examinar a cabeça de um acusado como um horticultor inspecciona melões. Estou em crer que, se vivesse no vosso século, trocaria os compassos por imagens cerebrais coloridas e condenaria com igual entusiasmo, apenas com vocabulário mais caro.

    Segundo: jamais aguardem em demasia pela humildade institucional.

    Recordo, neste ponto, o desembargador Plácido Matias de Meneses, cavalheiro tão incapaz de admitir erro que, tendo absolvido por engano um burlão contumaz, sustentou durante anos que a reincidência posterior apenas confirmava a justeza da indulgência anterior. Quando confrontado com o absurdo lógico da tese, respondeu que a coerência institucional exigia estabilidade interpretativa. Sem agravo dos factos, as instituições apreciam reconhecer erros históricos, mas, quanto aos presentes, preferem baptizá-los de complexidades operacionais — expressão moderna para aquilo que no meu tempo se chamava teimosia bem remunerada.

    Terceiro: jamais subestimem a capacidade humana para racionalizar preconceitos com linguagem técnica.

    Passeou-se no Rio, por anos, o doutor Clemente Barbacena de Noronha, magistrado de impecável gravata e profunda antipatia por homens de bigode e cavanhaque. Nunca confessou semelhante aversão; limitou-se a notar que tais indivíduos revelavam “traços de personalidade compatíveis com predisposição moral duvidosa”. O preconceito, quando aprende sintaxe académica, torna-se extraordinariamente respeitável.

    Quarto: evitem que a dúvida, sendo virtude, degenere em paralisia.

    Mas devem cuidar do inverso: a certeza excessiva tem capacidade de produzir espécimes como o corregedor Fortunato Xavier Cavalcanti, que iniciava a leitura das peças processuais com a expressão de quem se recordava perfeitamente do crime, embora jamais tivesse conhecido nem o facto nem o réu. Tinha ele um faro prodigioso para a culpabilidade aparente. Era absolutamente infalível, excepto quando se enganava.

    Quinto: leiam romancistas.

    Dostoiévski compreendeu a culpa antes de muitos psiquiatras. Balzac percebeu magistrados melhor do que numerosos processualistas. Shakespeare conheceu as emboscadas da ambição e da hesitação antes de lhes chamarem mecanismos cognitivos. Proust farejou as traições da memória antes de a neurociência lhes conferir aparato laboratorial. La Rochefoucauld desmontou o amor-próprio com mais elegância do que muitos anatomistas da alma humana. E não acrescento mais, porque, se convoco outros, ainda me aparecem a pedir jantar.

    Sexto e último: conservem o sonho, mas tratem-no com prudência.

    Porque reformar a justiça pressupõe uma esperança digna das páginas de Utopia: a de que os homens, ao compreenderem melhor os seus defeitos, desejarão sinceramente corrigi-los. Ora, a experiência — essa universidade onde os diplomados raramente melhoram e frequentemente ascendem — ensinou-me, com precisão, o contrário. Conheci homens que identificavam os seus defeitos com admirável nitidez e, acto contínuo, passavam a administrá-los com maior eficiência.

    Alguns chegaram a ministros, como o visconde Aprígio de Albuquerque Paranhos, cuja vaidade exigia antessala mais ampla do que o próprio gabinete. Outros a juízes, como o desembargador Belarmino de Sá Cotegipe, que confundia severidade com justiça, ou o doutor Tibúrcio Fortunato de Menezes Werneck, que, com superciliosa empáfia, trazia a sentença desenhada no sobrolho muito antes de ouvir a primeira testemunha.

    Os espécimes mais completos, naturalmente, saíram conselheiros, como o digníssimo Anacleto de Vasconcelos e Alvarenga, cuja gravidade sobrevivia até às sobremesas; o preclaríssimo Epaminondas de Albuquerque Barbacena, homem de tal prudência que jamais permitia aos factos comprometerem uma convicção amadurecida; e o sereníssimo Aprígio Onofre de Alencastro Teles, cuja principal virtude consistia em nunca duvidar de si próprio, sobretudo quando mais razões havia para o fazer.

    Se destes cavalheiros ainda restarem retratos em alguma galeria abafada, rogo às benfazejas donzelas e aos misericordiosos cavalheiros que lhes façam a caridade de um pano; não para lhes limpar a poeira, mas para, cobrindo-os, lhes pouparem a vergonha.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • Polícias na rua, ou o elegante ofício de emagrecer amputando a perna

    Polícias na rua, ou o elegante ofício de emagrecer amputando a perna


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

    ***

    Certos homens, mal lhes assentam nos ombros os galões da autoridade, experimentam uma súbita metamorfose intelectual que os persuade de que a inteligência administrativa nasceu no preciso instante das suas nomeações. Até essa manhã providencial, o Estado teria sido governado por uma longa confraria de criaturas bem-intencionadas, talvez diligentes, mas incapazes de conceber a solução luminosa que agora, entre um despacho, uma entrevista e um café protocolar, se revela ao novo eleito como se Minerva lhe tivesse saído da fronte.

    A História, para tais espíritos, não constitui arquivo de experiência; funciona antes como um vasto catálogo de insuficiências alheias destinado a valorizar a sua aparição.

    A espécie não é nova. Júlio César atravessou rios e convenções com a elegante convicção de que Roma coincidia, no essencial, com a sua própria pessoa; Alexandre julgou que o mundo se reorganizaria à medida da sua espada; certos imperadores romanos posteriores trataram o poder como uma forma de autobiografia armada; Carlos V sonhou com uma Cristandade ordenada sob a sua tutela fatigada; Filipe II, enclausurado na solenidade mineral do Escorial, imaginou talvez que a fé e a papelada bastariam para disciplinar continentes inteiros.

    Mais tarde, Robespierre acreditou que o Terror serviria uma pedagogia moral, como se a virtude precisasse apenas de uma guilhotina bem afinada; Napoleão persuadiu-se de que a Europa poderia ser rearrumada como cómoda excessivamente cheia, bastando-lhe redistribuir reinos como quem troca meias de gaveta; Lenine julgou que a natureza humana aceitaria ser reescrita por decreto; Mussolini encenou-se como refundador imperial de opereta; Estaline levou essa fantasia à escala industrial, com a delicadeza habitual das locomotivas; Hitler, esse lunático com pretensões arquitectónicas, quis reorganizar povos, fronteiras e até a biologia; e Mao ofereceu à China o Grande Salto em Frente, expressão que descreve, com lirismo involuntário, uma marcha colectiva para o abismo.

    Querem mais exemplos? Eu vo-los dou. Dos meus tempos do Brasil Imperial, recordo-me do conselheiro honorário Anacleto Fortunato de Albuquerque, homem que, após ser nomeado subdirector interino das Calçadas, passou a caminhar com a compostura de quem aguardava uma estátua equestre, persuadido de que a História lhe reservaria menção comparável à dos legisladores romanos, tudo porque determinara, com especiosa energia, a uniformização dos intervalos entre paralelepípedos junto ao Paço.

    Não menos memorável foi o doutor Prudêncio Evaristo de Mendonça e Seixas, efémero inspector-geral adjunto dos Regulamentos Urbanos, criatura de suíças severas e verbo regulamentar, que falava dos seus pareceres com a solenidade de quem redige tratados de paz entre potências europeias. Convenceu-se de que as gerações futuras evocariam, com lágrimas discretas de gratidão cívica, o memorável despacho em que restringira a inclinação admissível dos toldos comerciais da Rua do Ouvidor.

    E como esquecer o coronel honorífico Belisário Amâncio de Aguiar Penteado, elevado ao cargo de supervisor extraordinário da reorganização logística do movimento de passageiros no Cais Pharoux? Esta criatura, após redistribuir filas de embarque, cocheiros e carregadores segundo um método que só ele compreendia, adquiriu a indulgência altiva dos pequenos déspotas satisfeitos, tratando conhecidos como quem concede audiências diplomáticas. Via-se claramente que se imaginava recordado como reformador da mobilidade nacional.

    Todos estes cavalheiros partilhavam a mesma terna convicção de que a posteridade, essa senhora por norma ocupada com assuntos mais sérios, lhes reservaria uma prateleira honrosa entre os grandes patronos do império, quando, na verdade, sobreviveram apenas no mofo dos arquivos, na traça dos regulamentos e na misericordiosa indiferença dos seus contemporâneos.

    Ora, minhas laboriosas leitoras e meus industriosos leitores, os vossos reformadores contemporâneos serão menos grandiosos na escala, mas não menos convictos, reproduzindo a mesma velha vaidade em versão burocrática, com menos cavalaria e mais consultoria, formulários electrónicos e a íntima convicção de que um organograma equivale a uma epifania.

    Porém, se eterna é a convicção do recém-chegado ao poder de ter descoberto, com o atraso dramático de uma terça-feira para quinta, a solução que escapou a todos os predecessores, existe um traço distintivo do vosso tempo que talvez mereça estudo próprio quando arqueólogos futuros escavarem os escombros conceptuais da administração contemporânea. Consiste essa singular patologia numa estranhíssima crença segundo a qual melhorar uma realidade pública exige, quase sempre, eliminar aquilo que até então justificava a sua existência.

    Outras eras, menos sofisticadas — ou talvez apenas menos intoxicadas pela liturgia gestionária e pelo hábito moderno de baptizar amputações como reformas — partiam de um pressuposto rudimentar: se faltavam meios, acrescentavam-se meios; se uma necessidade crescia, ampliavam-se estruturas; se a presença do Estado se revelava insuficiente, construíam-se instituições, reforçavam-se quadros, abriam-se portas, multiplicavam-se instrumentos.

    Roma, que sem dúvida cometeu erros apreciáveis, construía estradas quando pretendia afirmar presença imperial; nunca lhe ocorreu destruí-las para melhorar a mobilidade. Já os medievais, cuja reputação de obscurantismo convém rever, fundavam hospitais quando reconheciam carências assistenciais; nem dissolviam enfermarias para libertar médicos espiritualmente aprisionados pela arquitectura. Até certos monarcas absolutos, criaturas pouco exemplares em matéria de contenção financeira, compreendiam que a autoridade visível requer edifícios, homens e permanência.

    O reformador contemporâneo lusitano, porém, parece possuir uma imaginação orientada em sentido inverso. A sua inteligência, fascinada por tabelas, indicadores, apresentações estratégicas e outras elegantes quimeras, raramente concebe que melhorar possa implicar acrescentar. A sua inclinação natural dirige-se antes para a tesoura, como se a escassez possuísse misteriosas virtudes regeneradoras que escaparam a séculos de civilização.

    Foi assim, com a impecável coerência abstracta desta doutrina, ansiosa por descer ao mundo dos factos, que surgiu a recente proposta salvífica de colocar mais polícia na rua mediante o encerramento de esquadras. Não me sendo dado assegurar a cumplicidade integral da cabeça, este ousado expediente reformista saiu da pena ministerial do licenciado Luís Neves, homem elevado à pasta da Administração Interna tocado, como tantos recém-chegados ao Olimpo governativo, pela antiga tentação de descobrir soluções peregrinas sem o incómodo logístico de uma deslocação a Fátima.

    Confesso que poucas declarações políticas recentes me proporcionaram prazer intelectual tão delicado, não porque a ideia abra horizontes pela sua robustez, mas porque encerra, numa única formulação, toda a metafísica do vosso tempo.

    A construção lógica do ministro, à primeira vista, apresenta uma limpidez quase sedutora. Se uma esquadra exige efectivos para funcionar, e se esses efectivos escasseiam, parecerá natural concluir que a eliminação das paredes libertará recursos humanos para missões operacionais. Mas este raciocínio possui a clareza irresistível dessas simplificações geométricas que impressionam enquanto a realidade ainda não teve oportunidade de lhes estragar a elegância.

    Já me dizia o eminentíssimo fisiologista Anselmo Teotónio de Vasconcelos — ou o professor Eustáquio Pimentel, pioneiro da aritmética corporal aplicada — que um homem emagrece se perder uma perna, embora a circunstância de a balança confirmar a redução não garanta ser método a merecer consagração médica. Para infortúnio dos apaixonados pela abstração quantitativa, como o vosso ministro Luís Neves, uma esquadra não corresponde ao simples depósito de agentes sequestrados por paredes, balcões e secretárias.

    Uma esquadra, acredito, representa uma continuidade territorial, uma acessibilidade institucional, um conhecimento local, uma capacidade de resposta, um contacto comunitário, uma memória operacional e, sobretudo, aquela presença física do Estado cuja importância certos espíritos excessivamente enamorados da racionalização tendem a menosprezar. Eis aqui a soma de múltiplas presenças concretas que o ministro Neves, a recordar-me o bacharel Belarmino Cândido de Sequeira — homem do meu tempo que confundia subtracção com governação —, pretende converter numa elegante ausência estatística.

    Roma sabia tudo isto. Constantinopla sabia tudo isto. O Escorial sabia tudo isto. Whitehall continua a saber. Washington ainda sabe. E até impérios menos recomendáveis compreenderam que a autoridade não subsiste como mera enteléquia. Lisboa parece ter desaprendido.

    Maquiavel, observador frio das mecânicas do poder e pouco dado a lirismos burocráticos, desdenharia a proposta do vosso ministro, pois sempre entendeu que a autoridade exige presença perceptível e capacidade dissuasora, não meras fantasmagorias cartográficas. E Hobbes, que mais tarde deu ao problema a majestade conceptual do Leviatã, jamais aprovaria a ideia de um poder soberano cuja visibilidade se reforça pela subtracção dos seus próprios sinais materiais.

    Ambos, creio, olhariam com uma perplexidade apenas mitigada pelo humor para a implícita expectativa do vosso ministro de que assaltantes, traficantes e demais empreendedores da economia paralela mantenham o louvável hábito de alinhar os respectivos planos operacionais com as mais recentes inovações da engenharia organizacional do Estado.

    E no meio disto, o cidadão comum, esse rude intérprete da realidade, pouco inclinado para metafísicas do ministro da Administração Interna, ao ver desaparecer a esquadra da sua zona, não tende a concluir que a protecção aumentou. Imagina apenas, com brutal simplicidade, que lhe retiraram polícia.

    Mas talvez eu seja injusto. Talvez o doutor Luís Neves pertença a uma escola superior de estratégia, cuja profundidade por agora me escapa, e consiga que a criminalidade, confrontada com tão refinada racionalidade, se auto-regule por deferência republicana.

    Nesse caso, conviria aplicar o princípio a outros sectores, não por sarcasmo, mas por coerência experimental: um hospital reduzirá, sem dúvida, os tempos de espera se encerrar as urgências; uma escola melhorará os resultados se expulsar os alunos mais fracos; um tribunal acelerará a justiça se reduzir o número de causas que lhe cumpre apreciar, amnistiando arguidos sem julgamento; uma biblioteca resolverá o problema da falta de livros se proibir a entrada de leitores.

    Levada a doutrina ao seu esplendor lógico, talvez o próprio Estado possa atingir a perfeição no glorioso dia em que resolva, finalmente, extinguir-se, alcançando assim a forma suprema de eficiência: a inexistência. E libertando assim, de uma só vez, todos os recursos, a favor e em benefício dos cidadãos.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • O novi-português da Universidade de Lisboa, ou a ruminação assistida no redil de um veterinário

    O novi-português da Universidade de Lisboa, ou a ruminação assistida no redil de um veterinário


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Nas minhas memórias póstumas — cuja superioridade sobre as dos vivos residiu, entre outras vantagens, em não ter de prestar vassalagem à prudência, essa virtude tantas vezes confundida com cobardia social — nunca precisei de escrever isto para o pensar: as civilizações raramente tombam por excesso de violência; preferem definhar entre almofadas, convencidas da sua própria sofisticação.

    Roma não começou a claudicar quando os bárbaros lhe bateram às portas com a delicadeza própria de quem traz machados. A essa altura, Roma já padecia de doença antiga. O corpo ainda impressionava, a arquitectura ainda erguia colunas, as legiões ainda conservavam o aparato, mas a musculatura moral — essa substância invisível que sustenta povos antes de sustentar muralhas — há muito se dissolvera em luxo e complacência e no cómodo vício de acreditar que o passado herdado dispensa a virtude presente. Os bárbaros tiveram apenas a pontualidade de comparecer ao funeral.

    Constantinopla, por seu turno, não caiu quando Maomé II fez falar os canhões. Essa foi a cena final, apenas útil para pintores e cronistas amantes de estrondos. Bizâncio expirara antes, quando uma civilização outrora austera trocou a energia da preservação pela masturbação teológica das minudências, discutindo a natureza dos anjos com a seriedade de contabilistas celestes. Há povos que morrem por invasão; outros, mais sofisticados, suicidam-se por abstracção.

    E a França, essa grande actriz da História, não começou a ruir no instante em que a lâmina republicana decidiu simplificar a anatomia de Luís XVI. A guilhotina foi mero instrumento de pontualidade administrativa, pois a monarquia morrera antes: o poder convertera-se em etiqueta, a governação em minuete e a aristocracia numa confraria de cabeleiras empoadas, rendas inúteis e ociosidade cerimonial. Versailles foi menos um palácio do que um necrotério decorado.

    Quanto aos Estados Unidos — e aqui, porventura, me acusarão de pessimismo, defeito sempre atribuído aos que sabem ler sinais —, talvez não venham a cair no dia em que um inimigo estrangeiro lhes toque o hino com intenções hostis. Impérios modernos nunca tombam assim, com a elegância clássica dos mapas escolares: morrem de causas mais embaraçosas, quando substituem carácter por espectáculo, cidadania por tribalismo histérico, pensamento por slogans de cento e quarenta caracteres, e a liberdade — essa dama exigente — por uma sucessão de indulgências narcísicas embaladas como direitos absolutos.

    Mas se as minhas dilectíssimas leitoras e os meus estimadíssimos leitores julgam que semelhante decadência se manifesta apenas em muralhas derrubadas, em palácios transformados em museus ou em repúblicas que enlouquecem diante de ecrãs luminosos, enganam-se com louvável ingenuidade. Por vezes, o sintoma mais eloquente não está nos exércitos, nem nos parlamentos, nem sequer nos mercados, mas na língua — esse extraordinário instrumento que os cândidos persistem em vislumbrar como mero veículo de comunicação, e não oficina do pensamento.

    Wittgenstein, com a secura germânica que dispensava adornos, sintetizou a questão ao afirmar que os limites da linguagem são os limites do mundo. Com mais elegância civilizacional, George Steiner insistiu no vínculo íntimo entre complexidade verbal e profundidade cultural. E Orwell, que percebia bem os vícios modernos, entendeu que empobrecer a linguagem é um dos métodos mais subtis de castrar o pensamento; daí ter congeminado a Newspeak como arte refinada de impedir que certas ideias cheguem sequer a nascer.

    Por isso, uma civilização que passa a tratar a dificuldade linguística não como desafio formativo, mas como agressão indevida ao conforto cognitivo dos seus membros, entra — quase sempre com as melhores intenções, as mais perigosas — num curioso e até enternecedor processo de regressão.

    Primeiro simplificam-se os documentos administrativos, operação compreensível e até desejável, pois há despachos públicos que parecem redigidos por um cruzamento improvável entre um notário manuelino e um escrivão alcoolizado do purgatório.

    Depois condensam-se os materiais pedagógicos, para que o estudante não sofra a indignidade de perseverar. Em seguida, abrevia-se o debate público, já que a atenção se tornou artigo escasso. Mais adiante, desbastam-se os próprios conceitos políticos, para que caibam com conforto em slogans, infografias e indignações instantâneas. E um belo dia, sem alarme nem trombetas, uma sociedade desperta num mundo em que a subtileza é recebida com suspeita, a frase longa com manifesta hostilidade, e qualquer ideia que exija mais de sessenta segundos de atenção parece uma forma indecorosa de opressão intelectual.

    Foi, portanto, com verdadeiro interesse antropológico que recebi a notícia de que a Universidade de Lisboa resolveu, por fim, abraçar com frontalidade a complexidade vernacular lusitana, lançando uma ferramenta de inteligência artificial destinada a desossar textos em português, tornando-os macios “à primeira dentada”, mediante ajustes lexicais, reorganização sintáctica e outras formas de misericórdia linguística.

    Confesso que este projecto me delicia: sempre me pareceu cruel que a língua de Camões, essa criatura barroca em excesso e por vezes de assimilação difícil, continuasse a ser servida em consistência inadequada às reais capacidades mastigatórias do vosso tempo.

    E maior ainda foi a minha serenidade ao lobrigar que tão promissora orientação institucional decorre sob a égide de Luís Anjos Ferreira, um reitor oriundo da Medicina Veterinária.
    Não vejo, com franqueza, motivo para o sorriso malicioso de certos espíritos mesquinhos. Pelo contrário: a Providência compôs aqui uma alegoria perfeita. Quem melhor do que um ilustrado especialista em fisiologias animais para compreender as exigências digestivas de uma época intelectualmente ruminal? Quem mais habilitado para determinar a consistência ideal da linguagem em organismos sensíveis a impactações semânticas?

    A universidade, durante demasiado tempo, permaneceu presa a um preconceito antropocêntrico algo injusto: o de presumir que os estudantes, enquanto membros da espécie Homo sapiens, devessem comportar-se como criaturas dotadas de faculdades abstractas capazes de crescimento mediante esforço. A Veterinária, por fortuna, introduz uma perspectiva mais ampla, inclusiva do ponto de vista biológico e menos discriminatória.

    Sempre me pareceu, aliás, uma forma subtil de elitismo supor que Camões pudesse ser lido sem qualquer pré-processamento metabólico. Os Lusíadas, com aquela indecorosa profusão de inversões sintácticas, referências mitológicas e vocabulário de musculatura indigesta, representam uma forma manifesta de crueldade textual que hoje só passaria com engulho por uma comissão de bem-estar cognitivo.

    O Padre António Vieira, esse delinquente reincidente da frase subordinada desde o Maranhão, deveria responder, ainda que a partir do caixão, por atentado continuado à ergonomia interpretativa. E Eça, criatura de maldade estilística requintada, deveria ser censurado por nunca ter demonstrado a mínima preocupação em tornar as palavras mais acolhedoras para espíritos dispépticos. Ah, e quanto a Pessoa, então, esse fragmentário insolente com a indecorosa mania de se desdobrar em várias personalidades para confundir abomasos melindrosos, constitui caso flagrante de incompatibilidade com qualquer pedagogia da apreensão instantânea.

    Admire-se, pois, o benefício civilizacional da inteligência artificial para corrigir séculos de insensibilidade literária. Uma prosa demasiado fibrosa? Triture-se. Uma construção gramatical coriácea? Amacie-se. Uma expressão passível de gastroparesia ortográfica? Passe-se pela peletizadora. Uma metáfora mais densa? Remastigue-se. As universidades, que durante demasiado tempo trataram a alma como músculo, apresentam agora em Lisboa uma abordagem mais compassiva, que a trata como aparelho gastrointestinal delicado.

    A partir de agora, o estudante moderno jamais será constrangido pelo velho ideal socrático da ascensão intelectual. Será compreendido segundo a sua constituição natural, respeitado nas suas limitações manducatórias, protegido contra o risco traumático de uma frase com hipotaxe barroca, de um silogismo com premissas encadeadas e de uma reflexão ontológica com excessiva densidade metafísica.

    Montaigne, esse grande corrector da presunção humana, acharia justo que o homem, após tantos séculos a proclamar a sua superioridade sobre os animais, acabasse por solicitar que o conhecimento lhe fosse servido em consistência compatível com o pastoreio.

    Nabucodonosor, que segundo Daniel foi reduzido à condição animal e comeu erva como os bois, surge, à luz da visão pedagógica do reitor da Universidade de Lisboa, menos como castigado por Deus do que como precursor involuntário de uma nova antropologia académica. Os lotófagos da Odisseia contentaram-se com o esquecimento; a vossa geração aperfeiçoou a fórmula, substituindo o torpor mitológico por entorpecimento cognitivo assistido por algoritmo — e, para requinte da modernidade, baptizado com o nome doméstico de Evaristo.

    Imagino já a língua portuguesa conduzida ao curral metodológico da modernização, recebendo alguns coices pedagógicos e umas boas marradas tecnocráticas até abandonar os seus vícios aristocráticos. Adeus às ambiguidades fecundas, às subtilezas de registo, ao prazer da releitura, à lenta revelação do sentido. Bem-vinda a frase esterilizada, com certificado de simplificação do tecido significante, pronta para consumo universal. Camões resumido a uma experiência marítima. Platão convertido em debate facilitado numa gruta com boa iluminação. Hegel reduzido a “as coisas mudam”. Dante simplificado para “viagem difícil com ensinamentos”. A Bíblia adaptada para “Deus comunica orientações e consequências”.

    E eu, Brás Cubas, já não dependendo de avaliações académicas nem de pareceres pedagógicos, limito-me assim a saudar este vosso admirável progresso: com realismo biológico e sensibilidade veterinária, o vosso país compreendeu, por fim, que é mais humano — ou, de modo mais adequado, pós-humano — adaptar a linguagem às limitações hermenêuticas do rebanho, poupando-o ao incómodo anti-democrático de ter de crescer.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • A melanina, ou a literatura à flor da pele

    A melanina, ou a literatura à flor da pele


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

    ***

    Morto como estou — e a morte, entre outras vantagens, concede-nos a deliciosa liberdade de observar os vivos sem a obrigação de os aturar —, julgava ter adquirido alguma imunidade às extravagâncias humanas. Enganei-me. Os vivos persistem numa fertilidade moral que desmentiria qualquer teoria da escassez intelectual. Desde cedo os vi converter preconceitos em princípios, disparates em doutrina e vaidades em sistemas filosóficos.

    No meu tempo, homens instruídos discutiam frenologia com a solenidade com que hoje se discute justiça social; media-se o carácter pelo crânio, a virtude pelo aperto de mão e, suponho, a alma pela inclinação da pilosidade maxilo-mentoniana. A estupidez, quando comparece de casaca, continua a ser estupidez — apenas melhor vestida.

    Na verdade, muitos vícios humanos mudam apenas de indumentária. E entre os mais persistentes conta-se este curioso impulso de classificar os semelhantes, como se a humanidade fosse um arquivo mal organizado que exigisse gavetas, etiquetas e critérios de triagem moral. Essa classificação jamais se concerta por inocente amor taxonómico: classifica-se para distinguir, distingue-se para separar e separa-se, com frequência admirável, para discriminar com boa consciência, oferecendo sempre o prazer suplementar da hierarquia, para quem a faz, perfumada de elegantes intenções.

    Os antigos faziam esta segregação com a brutalidade simples de quem ergue muralhas e aponta lanças; os modernos, mais delicados e infinitamente mais vaidosos da sua própria virtude, preferem fazê-lo com manifestos, mesas-redondas e comunicados redigidos num dialecto moral que mistura sociologia apressada, terapia colectiva e catecismo administrativo da bondade pública.

    A minha geração — cínica, mas ao menos suficientemente airosa para não fingir pureza — acreditava ainda que o ridículo humano residia sobretudo na ambição, no dinheiro ou no adultério. A vossa descobriu prazer mais subtil: catalogar almas enquanto proclama detestar classificações. Já não exclui, nem separa, nem ergue muros — representa, visibiliza e desenha compartimentos terapêuticos. O carcereiro metamorfoseou-se em curador, transformando a grade em política cultural, e a segregação em pedagogia.

    Não me interprete mal, clarividente leitora e lúcido leitor, sobretudo se pertence àquela fauna moral que se indigna antes de compreender. Não deploro a intenção de reparar injustiças, ampliar vozes negligenciadas ou corrigir silêncios históricos. Seria indigno até de mim — e eu, como sabem, nem sempre fui modelo de virtudes. Não ignoro que há feridas históricas, exclusões reais e injustiças antigas; conheci demasiados homens para acreditar na inocência das sociedades.

    Roma falava de civilização enquanto alimentava escravos; Atenas celebrava a democracia deixando metade da população fora dela; os espanhóis levavam Cristo numa mão e correntes na outra. Mesmo o meu século, tão enamorado das palavras “progresso” e “civilização”, como certas tias solteiras acreditam em sobrinhos promissores, supunha que a humanidade avançaria graças a parlamentos eloquentes, ministros de suíças respeitáveis e homens graves que escreviam relatórios intermináveis com consciência curta. Ingénuos.

    A vossa época, mais engenhosa e incomparavelmente mais vaidosa, persuadiu-se de que a redenção moral da espécie humana depende da correcta arrumação vocabular, da vigilância terminológica e da multiplicação de categorias identitárias, como se a alma humana — essa velha rameira filosófica — pudesse ser reformada por despacho semântico.

    Ora, todo este introito apenas porque me chegou notícia de uma editora portuguesa, a Vírgula d’Interrogação, destinada, em exclusivo, à publicação de autores negros, empreendimento apresentado não como exclusão — Deus nos livre de palavra tão deselegante —, mas como “reparação”, “visibilidade”, “representatividade” e outras expressões pertencentes à vasta indústria contemporânea do humanismo burocrático. A intenção será nobre. Até Calígula, se acreditarmos em Suetónio — e às vezes convém não acreditar demasiado em biógrafos romanos —, julgava dignificar o Império ao promover cavalos…

    A História, porém, tem o desagradável hábito de revelar que boas intenções são frequentemente apenas disparates bem penteados. Nada disto me espanta — diverte-me apenas, com a melancólica alegria própria dos defuntos. Depois de séculos a tentar convencer a humanidade de que inteligência, sensibilidade e génio não obedecem a critérios raciais, anatómicos ou genealógicos, surge enfim uma nova pedagogia segundo a qual a primeira questão diante de um manuscrito já não será “como escreve?”, mas “quem escreve — e com que composição epidérmica?”

    Dir-me-ão os espíritos mais sensíveis que se trata de pluralidade, reparação histórica e abertura a vozes marginalizadas — expressões que fazem jovens doutorandos suspirar de satisfação epistemológica. Talvez contenham uma nova e universal verdade do amanhã: a literatura deixa de ser arte da inteligência humana para se tornar repartição antropométrica.

    Imagino o editor do futuro — mistura de sacerdote moral, técnico de recursos humanos e funcionário de repartição com consciência sociológica — inclinando-se sobre um romance sublime, escrito talvez com a profundidade psicológica de Dostoievski e a ironia de Voltaire, para perguntar, com gentileza democrática:

    — Muito interessante. E quanto à melanina?

    Esta ideia possui uma admirável elasticidade. Se há editoras para autores negros, por que não para ruivos, tão difamados desde Judas? Ou para canhotos, perseguidos a ponto de a própria língua associar a mão esquerda ao sinistro? Admito ainda uma chancela dedicada a poetas traumatizados por hamsters agressivos na infância. O absurdo moderno, felizmente, possui sempre departamento de comunicação.

    Talvez se objecte que exagero. Exagero sempre — é uma das poucas vantagens da morte. Examinemos, porém, a lógica até ao fim. Se o fundamento da selecção editorial passa a ser a identidade biológica ou cultural do autor, então a literatura deixa de ser território de universalidade humana para se transformar num condomínio de experiências autenticadas. Não basta escrever sobre a dor; é preciso possuir certificação genealógica da dor. Não basta compreender o outro; é necessário sê-lo por certidão de pia baptismal ou credo.

    Ainda bem, aliás, que semelhante critério nunca vigorou no meu tempo. Tivesse eu sido publicado apenas na “Editora Imperial para Cavalheiros Brancos de Extração Conveniente”, e talvez aquele mulato subtilíssimo chamado Machado de Assis — génio que conhecia a alma humana melhor do que muitos médicos conhecem o fígado — jamais tivesse tropeçado na minha existência.

    As minhas modestas frivolidades morreriam comigo; Quincas Borba continuaria a desenvolver o Humanitismo sem discípulos; Rubião enlouqueceria sem nome conhecido; e Sofia permaneceria apenas uma adúltera provinciana em vez de adquirir eternidade literária. A própria literatura brasileira perderia um dos seus grandes milagres: um homem nascido de um negro e de uma açoriana, entre limitações sociais e raciais tão reais quanto estúpidas, a produzir uma obra cuja inteligência esmagou essas categorias.

    Convém, aliás, recordar aos contabilistas da identidade que Machado de Assis não venceu por ser negro, mulato ou branco: venceu porque era um génio. E reduzir um génio à utilidade sociológica da sua epiderme seria, parece-me, uma forma moderna de diminuição intelectual.

    Em todo o caso, algo de deliciosamente hegeliano existe na Vírgula d’Interrogação: a tese antirracista produzindo, por excesso dialéctico, uma nova paixão classificatória. Diógenes, que procurava um homem honesto com uma lanterna, precisaria hoje de uma tabela cromática Pantone. Montaigne, que fez da dúvida um método civilizacional, seria acusado de insuficiente consciência identitária. Voltaire perguntaria, com o seu veneno habitual, se a tolerância moderna consiste em amar a humanidade dividindo-a cuidadosamente em compartimentos certificados. E Nietzsche, esse inimigo feroz dos rebanhos morais, observaria talvez que o ressentimento encontrou finalmente um vocabulário universitário.

    Não se conclua, porém, que defendo uma literatura asséptica, neutra ou abstractamente universal — conceitos que costumam agradar a espíritos preguiçosos. Será desejável que existam mais autores africanos, asiáticos, indígenas, árabes ou de qualquer outra proveniência no mercado editorial? Evidentemente. Será saudável que leitores descubram experiências históricas e culturais diferentes? Sem dúvida.

    Mas tive sempre para mim que a grande literatura nascia dessa monstruosa faculdade humana de sair de si própria. Um russo habita um francês; um brasileiro compreende um português; Shakespeare convence-nos a sofrer por um príncipe dinamarquês que nunca existiu; e este vosso criado defunto teve a honra póstuma de ser compreendido por um mulato carioca de génio incomparável.

    Quando se tentar ensinar que certas experiências pertencem apenas aos seus proprietários biográficos, que a imaginação deve apresentar certidões e que a sensibilidade carece de homologação epidérmica, não estarão a ampliar a literatura — estarão, sim, a reduzir a humanidade.

    Mas talvez eu esteja enganado. E pode bem suceder que o futuro me desminta, instituindo, portanto, editoras para ruivos melancólicos, canhotos oprimidos e poetas traumatizados. Se assim for, aceito desde já a inevitável modernidade. Tal como me resigno à minha eterna falta de melanina.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • PTRR, ou a permanente transformação, recuperação e repetição

    PTRR, ou a permanente transformação, recuperação e repetição


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

    ***

    Noéticas donzelas e gnósticos cavalheiros — porque sois sempre mais inteligentes do que eu, ainda que o disfarceis —, estou persuadido de que, ao ouvirdes esta semana, da boca do vosso primeiro-ministro, Luís Montenegro, a tríade solene Transformação, Recuperação e Resiliência, vos teríeis sentido transportados não para o Conselho de Ministros, mas para um púlpito barroco, onde um orador inspirado, talvez discípulo tardio do Padre António Vieira, declamasse três virtudes teologais de uma nova religião administrativa.

    Faltou apenas, para completar o quadro litúrgico, o incenso na sala de conferências e, no final, em vez do hino nacional, uma breve ladainha: “Credes no Fundo Europeu Todo-Poderoso, criador do défice e do investimento, e no sacrífico redentor do Santo Cidadão-Contribuinte?”

    Ora, detenhamo-nos — não com reverência, e sim com a lupa do espírito — na estranha coexistência destas três palavras – Transformação, Recuperação e Resiliência –, que, como as Parcas da mitologia, parecem fiar o destino do erário público sem nunca desvendar o novelo.

    Transformar implica, desde logo, uma pequena violência ontológica: mudar a natureza de algo, arrancá-lo àquilo que era para o precipitar no incómodo de deixar de o ser. Se recuarmos à Grécia, eis Heráclito a murmurar, com aquele ar de quem já viu tudo, que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio — não porque a água corra apenas, mas porque o próprio banhista deixa de ser o mesmo. Se avançarmos alguns séculos, encontraremos Hegel a ensinar que toda a transformação verdadeira implica negação, superação e síntese, num labor quase alquímico do espírito.

    Se ainda se quiser descer da metafísica à prosa deste mundo, bastará olhar para qualquer transformação administrativa contemporânea para perceber que, muitas vezes, aquilo que se transforma é somente o nome, ficando imóvel a substância, tal como o funcionário que muda de secretária mas jamais de hábitos.

    Ora, aqui principia — com a teatralidade patética das encenações políticas — um embaraço semântico no plano do vosso primeiro-ministro, Luís Montenegro: se recuperação e transformação são convocadas no mesmo fôlego, como podem coexistir sem se anularem? Recuperar é regressar ao que foi; transformar é deixar de o ser.

    A conciliação de ambos os impulsos no mesmo sopro programático nem se apresenta como síntese. Na verdade, mostra-se antes um prodígio de prestidigitação retórica, uma espécie de milagre conceptual digno de canonização apressada, com direito a hagiografia administrativa e despacho em Diário da República — devidamente autenticado com chave móvel digital, embora ainda carente de reconhecimento notarial.

    Dir-se-ia, logo aqui, que se estaria perante um plano político a prometer mutação sem perda, inovação com saudade e ruptura com memória intacta — uma espécie de conciliação impossível que faria franzir o sobrolho a Aristóteles e convidaria Parménides de Eleia a levantar-se da eternidade apenas para pedir esclarecimentos por escrito, em triplicado, sobre a ontologia do ser. Certo é que, entre a substância aristotélica e a imobilidade parmenídica, observo uma curiosa ambição de Luís Montenegro em mudar tudo sem alterar nada — uma espécie de metamorfose administrativa em que a lagarta passa a borboleta, mas mantendo a certidão permanente, o contabilista e, por via das dúvidas, o papel timbrado.

    E quanto à resiliência? Sim, a resiliência, essa palavra que se pronuncia com a gravidade de quem invoca uma virtude cardinal que, convém lembrar, pressupõe permanência sob pressão, não metamorfose nem regresso ao estado passado.


    E quanto à resiliência? Ah, a resiliência — essa palavra repetida 31 vezes com a gravidade de um credo laico, como se cada enunciação acrescentasse mais um tijolo à catedral do discurso —, que, convém lembrar, não é sinónimo de transformação nem de recuperação, mas apenas (e já não é pouco) a arte modesta de aguentar o embate sem se desfazer em migalhas. Resiste, não se fantasia; mantém-se, não anda para trás como quem procura a infância perdida. Chamá-la para baptizar tudo o que muda, remenda ou se anuncia com fanfarra é reduzi-la a bibelô semântico: brilha no aparador das palavras, mas não sustém o telhado quando uma Kristin chega.

    No fim de contas, esta tríade de Montenegro não é um programa: é um catecismo. E, como todo o catecismo, pede fé onde a razão, coitada, apenas pede coerência. Eis o vosso PTRR: mudar, voltar atrás e resistir — tudo ao mesmo tempo. É como ordenar a um exército que avance, recue e mantenha posição, sob pena de ser sancionado com um relatório técnico.

    Mas prossigamos, que o espectáculo ainda agora começou. O plano — como todos os programas políticos que aspiram a ser históricos e acabam por ser apenas histriónicos — apresenta-se como uma soma de fundos: europeus, nacionais e privados. Também aqui uma trindade — desta feita financeira — que, se não for heresia dizê-lo, rivaliza em mistério com a mais recôndita teologia de São Tomás de Aquino, embora com menos metafísica e mais contabilidade criativa. O fundo europeu desce como graça comunitária, quase sacramental, digno de um concílio em Bruxelas; o investimento privado surge como milagre da confiança, anunciado com a fé de Blaise Pascal — acredita-se porque convém acreditar —; e o fundo nacional… ah, esse é o velho conhecido: o contribuinte.

    Dir-se-ia, aliás, que o contribuinte é uma versão moderna de Atlas, sustentando os vícios públicos sem sequer o consolo de uma coluna com o seu nome, nem uma inscrição em latim que eternize o sacrifício. Trabalha, contribui, suporta — e, no fim, recebe o IRS para pagar mais ou para o reembolso do empréstimo ao Fisco, sem lugar a juros. Não há um agradecimento ou uma explicação, mas somente uma nota de liquidação, essa forma elevada de cinismo administrativo, redigida em nome do interesse público para benefício do interesse privado.

    Porém, delicio-me com o ingénuo entusiasmo do Governo de Montenegro que, na verdade, me parece estar a compor uma campanha militar à la Napoleão Bonaparte, bem planeada no gabinete, mas que se perderá no terreno. O documento fala-vos de simplificação, de celeridade, de desburocratização e de tantas outras palavras, termos e expressões que, na prática, significam geralmente o contrário, embora com gráficos e cores.

    Promete-se menos papel com mais plataformas, menos obstáculos com mais procedimentos, menos controlo prévio com mais controlo posterior, o que equivale, em linguagem comum, a dizer que se trocará o labirinto por um labirinto digital, com senha de acesso, autenticação de dois factores e, em dias de maior inspiração, uma palavra-passe encriptada — e uma hiperligação em permanente manutenção. E, enquanto isto, as escadas rolantes do metropolitano do Chiado continuarão avariadas.

    Vejo, pois, diante de mim, não um plano, mas uma epopeia administrativa — uma Ilíada sem Aquiles nem Heitor, onde os deuses são substituídos por comissões e os oráculos por plataformas digitais ainda “a disponibilizar brevemente”. Se Ulisses regressasse a Lisboa para assessorar Montenegro, não cantaria feitos de guerra, mas relatórios de execução. E Max Weber tomaria notas para uma versão ampliada de Economia e Sociedade — talvez um apêndice intitulado “Da Dominação Burocrática em Ambientes Digitais” —, maravilhado com esta racionalidade que transforma cada acto numa autorização e cada autorização num procedimento, até que o próprio acto, exausto, desista de acontecer.

    E, no entanto, não desejo ser injusto: há no documento deste Governo social-democrata, condimentado de populismo (a)ventureiro e aromatizado de catolicismo marialva, uma certa grandeza, ainda que involuntária.

    No documento do PTRR, Montenegro confirma a capacidade de dizer tudo em projecto sem dizer nada de definitivo, de prometer tudo sem se comprometer em nada de concreto, de transformar a incerteza em método e a ambiguidade em estratégia — isso, concedo, não é arte nada menor. Tudo isto recorda, aliás, certas utopias de Thomas More, tão perfeitas no papel que jamais ousaram enfrentar a realidade, e alguns sistemas de Hegel, onde a síntese aparece sempre no fim, mas raramente na prática.

    Não me surpreende assim que a apresentação do plano tenha terminado com o Governo em peso a cantarolar o hino nacional. Ao sabê-lo, hesitei entre a emoção e o receio. A emoção, porque há sempre algo de tocante em ver ministros unidos num coro — ainda que desafinado. O receio, porque me lembrei da Revolução Francesa, onde também se cantavam hinos com fervor, e nem sempre isso acabava bem para quem pagava os impostos.

    Além disso, cantar o hino, patrióticas leitoras e filopátricos leitores, é coisa séria: é o instante em que a nação se eleva acima das contas públicas, como se dissesse — “esquecei o défice, olhai para o infinito”. Mas quando o hino surge como prólogo de um plano de investimento, suspeito que se esteja a pedir à emoção aquilo que a razão não consegue sustentar. Nero, antes de aumentar os impostos, também saberia encontrar música para acalmar a multidão.

    Na verdade, sejamos francos, muitas destas obras — barragens, redes eléctricas, sistemas de emergência e outras faraonices — seriam feitas de qualquer modo. A diferença está no invólucro: antes era investimento; agora será “transformação”; antes remendo, amanhã será “recuperação”; antes era mera prevenção — essa prosaica arte de evitar desastres —, no futuro será “resiliência”. Esta é a velha arte romana, que já Júlio César bem dominava: não basta conquistar a Gália, era preciso escrever as Guerras da Gália para o mundo pensar ter sido uma epopeia.

    Mas regressemos ao ponto essencial, que é o da coerência — essa virtude esquecida. Se se transformar, não se recupera; se recuperarmos, não se transforma; e, se formos resilientes, talvez não se precise de nenhuma das outras duas coisas, porque se resiste ao choque sem alterar a essência. O PTRR não é um programa — é, sim, uma sobreposição de intenções, como aquelas pinturas antigas em que o artista, insatisfeito, cobria a tela até já não saber o que estava por baixo ou sequer o que desejava.

    Talvez seja esse, afinal, o retrato que Luís Montenegro vos quer legar: uma política que não escolhe entre mudar e conservar, nem entre inovar e restaurar, preferindo ensaiar tudo em simultâneo — na esperança de que o contribuinte, entretido com a retórica, não dê pela contradição… nem pela ausência. De obra — e do dinheiro que, como sempre, some enquanto soma em contas que raramente se explicam

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • A sinecura do doutor Eurico Castro Alves, ou apologia da ociosidade remunerada

    A sinecura do doutor Eurico Castro Alves, ou apologia da ociosidade remunerada


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Desde que foi expulso do Éden — e não saiu de livre vontade —, o homem entretém-se a discutir a relação entre esforço, utilidade e recompensa. E fá-lo com a mesma perplexidade com que Caim olhou para o seu campo estéril após ver aceite o sacrifício de Abel, como quem suspeita que o mérito nem sempre segue a lógica da fadiga e do suor.

    Mais tarde, na parábola dos trabalhadores da vinha, escandalizou-se ao ver os chegados ao entardecer receberem o mesmo denário dos que suportaram o peso do dia — sinal inequívoco de uma economia divina indiferente à produtividade marginal. E, para cúmulo, ainda teve de ouvir que “os últimos serão os primeiros”, sentença que, se aplicada à contabilidade terrena, faria desmaiar qualquer contabilista minimamente temente a Deus.

    Os gregos não melhoraram a equação — apenas a refinaram com elegância filosófica. Aristóteles desconfiava tanto da dignidade do labor manual que o delegou nos escravos. Platão, sempre mais sistemático, tratou de organizar a cidade ideal com uma divisão funcional tão rigorosa que o trabalho se tornava destino e jamais escolha. No mundo antigo, produzir era apenas necessário; pensar, isso sim, era nobre — e, sobretudo, menos cansativo.

    Caíram os deuses — com o estrondo próprio das coisas eternas que afinal não o eram — e, no lugar do Olimpo, ergueram-se os senhores feudais, que nunca pretenderam ser divinos, mas governaram como se o fossem. Instalou-se então uma nova camada de fatalismo: trabalhar deixou de ser castigo episódico para se tornar destino hereditário, inscrito na terra e no nascimento. O servo lavrava não para prosperar — ideia que lhe seria tão estranha como a geometria —, mas para sobreviver; e, se a Providência não estivesse distraída, para assegurar que o senhor pudesse dedicar-se a ocupações mais elevadas, como a guerra, a caça ou a contemplação. A recompensa, essa, era sempre adiada — primeiro para o céu, depois para a retórica.

    Veio depois Adam Smith, homem de boa-fé e melhor pena, tentar domesticar tamanha desordem com uma teoria: o trabalho seria uma fonte de valor, a divisão de tarefas uma máquina de eficiência e o interesse individual o motor de uma prosperidade colectiva que, por milagre, dispensava santos. Tudo isto temperado por uma fé devocional na mão invisível — essa divindade discreta que tudo governa sem jamais se deixar ver, como convém aos deuses modernos.

    Mas não tardou que surgisse Karl Marx, profeta de barbas espessas e desconfianças ainda mais densas, a declarar que tal ordem não passava de uma ilusão bem remunerada — como todas as ilusões eficazes. E assim o trabalho, longe de libertar, alienava; e o valor, esse conceito tão estimado pelos economistas, tinha o vício de não recompensar quem o produzia, mas quem o apropriava com engenho ou posição. Assim se regressou, por vias filosóficas e industriais, à velha suspeita que já inquietara Caim: o esforço e a recompensa mantêm entre si uma relação instável, caprichosa e, em certos dias, francamente indecente.

    Por fim, chegou Henry Ford, que não resolveu o dilema, mas pelo menos mecanizou-o numa linha de montagem, desta sorte deixando de ser vocação ou castigo para passar a ser repetição. Assim, o operário deixou de pensar, decidir e contemplar — executa. Em troca, recebe um salário digno na aparência para consumir aquilo que ajuda a produzir, num círculo tão perfeito que se assemelha a redenção — não divina, mas industrial. Enfim, do Éden à fábrica, o homem nunca afinal deixou de perseguir a mesma pergunta: quanto vale, afinal, o seu esforço?

    Mas eis que a modernidade administrativa, sempre criativa quando se trata de dissolver dúvidas, vos oferece agora uma síntese inesperada: a remuneração pode prescindir do trabalho, desde que se invoque uma razão superior — não já a produtividade, mas a necessidade; não a utilidade, mas o direito ao rendimento. E, se esse rendimento provier do Estado, tanto melhor, pois adquire um verniz moral.

    Ora, é neste ponto que a minha reflexão metafísica se cruza com a deliciosa concretude do caso do doutor Eurico Castro Alves, cuja existência profissional no Hospital de Santo António parece ter sido elevada à categoria de experimento filosófico. Eis um homem que, segundo os dados disponíveis, recebeu ao longo de anos largas dezenas de milhares de euros — dizem que quase dezoito dezenas — enquanto coordenava coisa nenhuma, sem participação directa em cirurgias nem entradas em salas de operação. Nada de extraordinário em terras lusitanas, conceda-se, se não fosse a justificação apresentada pelo doutor Alves: garante que teria ganhado muito mais se tivesse operado.

    Aqui, pacientes leitoras e pacientes leitores, entramos num domínio que nem São Tomás de Aquino ousaria sistematizar sem corar. A quietude operativa transforma-se, nas luvas do doutor Alves, em argumento económico — “não usarás as mãos” eleva-se a política laboral — e também em sofisma teológico — “ganharás o pão sem macular as mãos” —, tornando a imobilidade uma forma de abnegada protecção do erário público, digna de um mártir fiscal de mão-cheia.

    A questão do doutor Alves não é — note-se bem — saber se, operando ele, teria salvado mais vidas. Ou se as teria perdido — e, nesse caso, talvez a Providência tivesse sido prudente em poupá-lo a semelhantes ensaios, contemplando-o com rendas certas. Tais considerações são de somenos e nem chegam a entrar na sua equação.

    Aquilo que lhe importa é que, ao não operar, evitou custos adicionais — mesmo se os doentes, com reprovável falta de autonomia cirúrgica, tiveram de ser operados por algum cirurgião que teve a ousadia de cobrar pela tarefa. Eis uma inversão quase bíblica do milagre da multiplicação dos pães: com o doutor Alves, subtraem-se actos, adicionam-se argumentos e multiplicam-se os proventos na sua conta bancária, esse único milagre verdadeiramente verificável. As férias tropicais no Brasil do doutor Montenegro, convém recordar, não se pagaram sozinhas

    Se Sísifo, condenado a empurrar a pedra pela eternidade, vos serve de metáfora para o labor inútil, o doutor Alves introduziu uma inovação digna de registo para tornar útil a ausência de labor: suprime a pedra e, por esse gesto de génio, arrecada uma tença. Já não há esforço nem absurdo — apenas uma serenidade remunerada, que é, no fundo, a versão civilizada do suplício. Na verdade, o doutor Alves é um Midas de estetoscópio, e com maiores virtudes: o grego, para tudo converter em ouro, ainda tinha de tocar; já o vosso doutor, mais subtil, nem precisa sequer de auscultar para converter a própria ociosidade em rendimento líquido.

    Se Max Weber via na burocracia uma máquina racional de eficiência, teria aqui matéria para uma revisão melancólica: a racionalidade não desapareceu, apenas mudou de eixo — e, com ele, a definição do que conta como trabalho. E, no entanto, diligentes donzelas e empenhados cavalheiros, há uma coerência interna neste raciocínio do doutor Alves. Se o valor não depende do acto, mas da posição; se o estipêndio nem decorre da presença no hospital, mas da vizinhança à sala de operações, então o sistema funciona na perfeição. O doutor Alves não é uma anomalia: é a expressão acabada de um modelo, o zénite e a apoteose administrativa onde a inutilidade, essa velha mal-amada, sobe enfim ao trono das virtudes orçamentais.

    E, por isto, confesso uma pontada de inveja póstuma. Se em vida tivesse eu alcançado tão elegante fórmula, teria dispensado as minhas modestas tentativas nessa arte superior de nada fazer com proveito: bastar-me-ia coordenar melhor o vazio e auferir com método.

    Agora, vendo-me bem, eu que outrora ambicionei o célebre emplastro contra a melancolia — invenção que, por não ter vindo à luz, poupou a humanidade ao dispêndio inútil da sua compra —, deveria, em rigor, ter reclamado para mim os dividendos dessa economia universal. Não sucedeu. Falhei assim o invento e falhei a descendência, livrando-me assim, por dupla via, da ingrata tarefa de administrar heranças e de legar tristezas humanas aos vindouros.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas

  • Moranguete & Abacatudo, ou a decadência civilizacional segundo a doutora Feijão

    Moranguete & Abacatudo, ou a decadência civilizacional segundo a doutora Feijão


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    CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS

    (não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)

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    Todos vós sabeis, anelantes donzelas e estertorantes cavalheiros, que a Humanidade sempre revelou um gosto voluptuoso por anunciar a sua própria decadência. Nunca vive em pleno essa ruína, note-se; limita-se a prevê-la, a descrevê-la e a dramatizá-la com um zelo digno de melhor causa e nota. E sempre por culpa de fabulações sofisticadas. Nunca por culpa dos homens, que isso seria excessivamente simples.

    Desde tempos imemoriais, ergue-se uma voz — ora solitária, ora em coro — a advertir que certas narrativas, certos entretenimentos, certas ficções ligeiras, encerram em si o germe da dissolução moral. Foi assim no tempo em que a Inquisição tratava de purgar leituras inconvenientes com um calor excessivo; foi assim depois, quando o fogo deu lugar ao parecer técnico e à preocupação pedagógica; e é assim hoje, com uma elegância higiénica e mediática, onde o perigo chega sempre acompanhado de um especialista ou uma confraria de psicólogos mais abnegados do que o doutor Bacamarte.

    Desta vez, precavidas leitoras e avisados leitores, o perigo vem do TikTok, essa máquina de glórias instantâneas onde a vaidade se exibe em migalhas de segundos e o pensamento, comprimido até à asfixia, se julga eternidade enquanto dura um suspiro. Não é, atente-se, de um tratado filosófico, nem de um discurso escabroso, nem de um venturoso líder providencial de ocasião, mas de um género que a imaginação contemporânea conseguiu elevar ao estatuto de ameaça civilizacional: as novelas de frutas.

    Sim, frutas — a Moranguete, o Abacatudo e outros representantes da pomologia sentimental, que, cansados da imobilidade das fruteiras, decidiram entregar-se a paixões sumarentas, traições drupáceas, violências baciformes e ciúmes de polpa firme.

    A SIC Notícias, dos senhores Balsemão e Berlusconi, sempre vigilante — vigilância que, como certas virtudes, mais se proclama do que se exerce —, entendeu mostrar ao país, aos pais, os perigos desta novel dramaturgia vegetal e, para tal empresa, convocou a psicóloga Teresa Feijão — escolha que, pela coincidência botânica do apelido, roça a harmonia das esferas e quase persuade da existência de uma ordem secreta no mundo.

    Por esta selecção, me rendi à evidência. Não seria o mesmo, convenhamos, se o legador do fecundo apelido da douta senhora se chamasse senhor Lobo, que infunde temor, ou, pior ainda, senhor Carneiro, que inspira sacrifício. Quem, em tais circunstâncias, concederia crédito frutífero sobre tão delicada matéria à doutora Teresa Lobo ou à doutora Teresa Carneiro?

    Ora, mas a doutora Teresa Feijão é quem é — e, assumindo que “o trabalho do psicólogo é responsável, delicado, aprofundado, técnico e fundamentado em teorias e práticas psicoterapêuticas”, deu a gravidade que o tema exigia e logo dissertou sobre novidade constante, emoções intensas e imprevisibilidade. E eis que, daí a nada, ficou-se com a sensação de que a juventude pode confundir um abacate possessivo com um modelo de vida.

    Eu, que nem as lâmpadas de Edison conheci — e que me alumiei com o velho lume, as vetustas lamparinas de azeite e o paciente gás, esse pedagogo de sombras —, vejo-me agora convocado a crer que são os engenhos luminosos da modernidade, essas lanternas eléctricas de bolso onde desfilam imagens apressadas e danças sem memória, que moldam, com zelo quase sacerdotal, os vícios do espírito. Confesso a minha ignorância: sempre julguei que a fraqueza dos homens precedia a invenção das máquinas, e não o contrário. Mas a vossa época, generosa em novidades, também o é em inversões.

    Em todo o caso, custa-me, pois, aceitar — embora me incline, como convém aos mortos prudentes — que tais imagens conduzam à normalização de comportamentos tóxicos, à diminuição da tolerância ao tédio e ao definhamento da concentração, como diagnostica a doutora Teresa Feijão, com a gravidade de quem prescreve abstinência ao século e a obrigatoriedade de aposição de avisos sanitários em tudo o que a humanidade produziu desde Homero até à mais recente série dominical — não vá o leitor, entre um verso e um episódio, contrair o vírus da imaginação ou o vício irreparável de pensar.

    Porque, relutantes donzelas e reticentes cavalheiros, se tal fosse verdade — se a imagem, por si só, tivesse o poder de corromper os costumes e dissolver o espírito —, então teríamos sucumbido há muito, e com estrondo digno de tragédia clássica. Muito antes das frutas digitais, já o folhetim oitocentista prendia multidões com traições bem urdidas, revelações súbitas e lágrimas criteriosamente distribuídas; e não consta que, por isso, se tenha extinguido a faculdade de pensar, embora alguns a tenham usado com parcimónia desde o berço à sepultura.

    O teatro, esse arcaico laboratório das paixões humanas, ensinou-nos desde cedo — muito antes de Otelo — que o homem traz em si matéria bastante para a sua própria ruína. Já na Antiguidade grega se via a hybris tirânica e o desafio ao destino em Édipo Rei, de Sófocles, ou a cadeia de vinganças que se alimenta do próprio sangue em Oresteia, de Ésquilo, ou ainda o cálculo glacial de Medeia, de Eurípides. Logo depois, o teatro romano, menos sublime mas não menos instrutivo, ofereceu-nos as paixões sombrias de Séneca e as intrigas de avareza e engano em Plauto.

    Séculos mais tarde, veio Shakespeare mostrar a ambição desmedida de Macbeth, o ciúme homicida de Otelo e a loucura altiva de Rei Lear, que fazem do crime, da suspeita e da vaidade instrumentos de ruína. E até no burlesco de Molière, a avareza crispada de Harpagão e a hipocrisia devota de Tartufo se representaram com aplauso, lágrimas e repetição, e sem que alguém, até hoje, tenha proposto fumigações à saída do teatro para salvar o sono.

    E as óperas? Essas também jamais primaram pela temperança. Celebraram-se, entre árias e suspiros, o destino trágico de Carmen, de Bizet, que fez do amor um jogo de risco mortal, e de Violetta, de Verdi, que consumiu a própria vida em nome de um sentimento que a sociedade lhe negava. Não ficaram sós nesse panteão do excesso: ali estão também Tosca, de Puccini, que mata por desespero e amor; Don Giovanni, de Mozart, que faz da sedução um método e da queda um destino inevitável; e Lulu, de Berg, esse compêndio moderno de vícios, onde a volúpia se alia à manipulação, o desejo à violência e a liberdade à mais metódica autodestruição, como se cada impulso fosse já um ensaio para a queda. Chorou-se, aplaudiu-se e repetiu-se. E pergunto-me se alguém propôs a inserção de avisos profilácticos entre o libreto e a orquestra.

    E que dizer então das novelas — essas longas pedagogias do excesso? Houve-as de espanto, de coração e de puro desvario, onde o amor raras vezes se apresentou pacífico, e a virtude, quando surgia, vinha atrasada, fatigada e, amiúde, mal recompensada. Traições, intrigas, redenções tardias: tudo isto servido com generosidade e consumido com avidez por gerações inteiras. Tudo isto, note-se, sem relatórios clínicos nem advertências preventivas — e, ainda assim, continuou-se a jantar.

    Mas é na literatura maior — essa senhora antiga, de vícios refinados e memória longa — que o escândalo deveria assumir proporções verdadeiramente épicas para a doutora Teresa Feijão. Convém, todavia, arrumá-lo com método, que até a perdição ganha compostura quando bem catalogada.

    Comecemos pelo século XIX, esse tempo que os moralistas evocam com uma nostalgia quase doméstica, como se então os pecados viessem com certificado de autenticidade e prazo de validade. Entre vós, tivestes Eça de Queirós, que tratou de organizar a devassidão com método quase científico. Em Os Maias, a aristocracia entregou-se, na sua pena, ao luxo da inutilidade moral, com um incesto a fechar o repasto; em O Crime do Padre Amaro, ofertou-vos um sacerdote a descobrir que a carne tem mais argumentos do que a fé; e em O Primo Basílio, aprimorou o adultério à banalidade de uma visita.

    Já Camilo, esse engenheiro do desespero, em Amor de Perdição, decidiu que amar sem morrer era uma forma de tibieza; e assim vos concedeu uma paixão tão absoluta que só se resolve com grades, lágrimas e cadáveres. Do lado oposto do Atlântico, noutro sotaque, o ‘meu’ Machado de Assis construiu um Dom Casmurro consumido por um ciúme tão elegante que dispensa provas, e ainda assim convence.

    No meu Brasil, Nelson Rodrigues fez da família um laboratório de incestos e tragédias; e, no estrangeiro, houve Lolita, houve Laranja Mecânica — onde a linguagem, em dialecto inventado, e a violência, em escala quase pedagógica, fariam do mais atrevido Abacatudo um mero aprendiz de delinquente — e houve ainda American Psycho, para demonstrar que a literatura nunca teve receio de causar tremores.

    E até houve, há pouco, As 50 Sombras de Grey, que, com a modéstia de quem julga ter descoberto o escândalo, tratou de embrulhar velhas fantasias de poder e submissão em celofane editorial, encontrando legiões de leitores — e, apesar disso, continuou a tomar-se o café da manhã.

    E nem nunca a infância foi refúgio seguro antes dos abacates e dos morangos atacarem no TikTok. Veja, doutora Teresa Feijão, os Irmãos Grimm a lembrarem-se que a inocência pode conviver com o medo.

    Versão híbrida de Moranguete & Abacatudo em estilo Laranja Mecânica.

    Em Hansel e Gretel, duas crianças são abandonadas na floresta com a naturalidade de um gesto doméstico e acabam por cair numa armadilha açucarada onde a doçura serve apenas de pretexto para as engordar e devorar; em Branca de Neve, uma madrasta decide eliminar a rival com a serenidade de quem faz justiça doméstica, recorrendo ao veneno como instrumento de equilíbrio familiar; e, em Capuchinho Vermelho, um lobo antecipa-se ao percurso pedagógico da menina para deglutir, com cortesia protocolar, a avozinha — e, logo depois, a própria discípula.

    Acrescente-se A Pequena Sereia, de Hans Christian Andersen, onde amar dói — literalmente — e Pinóquio, de Carlo Collodi, onde a mentira se paga com juros imaginativos, para concluirmos que a infância sempre foi um território menos inocente do que supomos.

    Perante tal inventário, observo a Moranguete e o Abacatudo com uma indulgência quase paternal. Nem com a inteligência artificial se inventou algo. Limitam-se a continuar, com meios mais sumarentos e menos estilo, uma tradição antiga: a de contar histórias onde as criaturas — humanas, e agora vegetais — se traem, se desejam e se perdem com regularidade admirável.

    E é então que me ocorre um pensamento final, talvez pouco científico, mas profundamente útil: suspeito que a doutora Teresa Feijão, se tivesse a infeliz ideia de me ler — a mim, este defunto sem grande sentido moral — encontraria matéria abundante para alarme. Um narrador ocioso, irónico, desconfiado, pouco dado a virtudes e demasiado inclinado à ironia…

    Que perigo não representaria isto para a juventude! Poderia levá-la, imagine-se, a rir das convenções, a desconfiar das certezas — e, no pior dos casos, a pensar. E esse, admito, é um risco que nenhuma vigilância alguma vez conseguiu eliminar.

    Adeus, e um piparote.

    Brás Cubas