A morte concede isenção de impostos e níveis nulos de colesterol, daí que agora possa contemplar, sem perigo para as coronárias, um filet de bœuf en croûte nas redes sociais. Foi nessas buscas que me apareceu Mafalda Anjos, antiga directora da Visão e ex-publisher da Trust in News — esse redil de falcatruas e dívidas ao Estado e jornalistas da casa —, entregue aos preparativos de um belo naco de lombo, desses que não costumam entrar em casa pela porta dos fundos nem sair do talho embrulhados em papel de merceeiro.
Era mesmo para um Wellington. Detive-me. Há nomes que carregam uma biografia — e Wellington carrega uma batalha inteira. O duque venceu Napoleão em Waterloo e ganhou depois a rara fortuna reservada aos grandes homens: acabar transformado em prato. César ficou numa salada, Chateaubriand num pedaço de vaca e Wellington dentro de massa folhada. A História possui destas vinganças da cozinha.
Mafalda Anjos exibe a peça de lombo destinada ao Wellington, um dos cortes mais caros da vaca, cujo preço no retalho pode facilmente ultrapassar os 50 euros por quilograma.
Mafalda Anjos, por sua vez, conheceu também a sua Waterloo, embora sem cavalaria prussiana. Durante os anos em que dirigiu a revista Visão e exerceu funções de publisher da Trust in News, andou a esquartejar o jornalismo e a empresa acumulou dívidas, acabando mergulhada numa insolvência cuja sentença dispensou metáforas. A antiga directora, contudo, parece conservar intacto o apetite, faculdade que não deve ser confundida com o balanço patrimonial.
Não lhe censuro o lombo. Seria mesquinho. Cada homem tem direito à sua posta e cada mulher à sua massa folhada. Um defunto, sobretudo eu, deve mostrar tolerância pelos prazeres dos vivos, porque já não os pode experimentar. Apenas me maravilha esta pedagogia involuntária das redes sociais: enquanto alguns antigos trabalhadores das revistas e jornais insolventes onde Mafalda Anjos meteu as mãos na massa aprendem a pesquisar os descontos das asas de frango, ela ensina a temperatura certa do forno.
Veio-me então à memória Maria Antonieta. A pobre rainha passou dois séculos acusada de ter recomendado brioches a quem não tinha pão. Talvez nunca o tenha dito, mas a História, quando encontra uma boa frase, procede como certos jornalistas diante de um comunicado: publica primeiro e verifica depois.
Mafalda Anjos tem, neste ponto, uma superioridade documental sobre a arquiduquesa: ninguém precisa de lhe pôr o Wellington na boca — foi ela própria que o colocou nas redes sociais.
Não se diga, porém, que Mafalda aconselhou os seus camaradas jornalistas que comandou a “comer bifes”. Seria historicamente abusivo, socialmente deselegante e, acima de tudo, gastronomicamente ignorante. Um Wellington não é um bife que se atira para uma frigideira: exige preparação, paciência, bons ingredientes, atenção ao ponto e alguma arte para impedir que tudo se desfaça quando chega a hora de abrir. Há que selar a carne, tratar dos cogumelos, envolver o conjunto e fechar bem a massa. Repare os leitores — e as leitoras menos prendadas — na ironia: certas receitas exigem aquilo que algumas empresas nunca conseguiram fazer às contas e certos jornalistas às notícias — preparar, verificar, fechar e apresentar sem que o recheio saia pelos lados.
Também me ocorreu uma reminiscência mais próxima. Ainda há poucas semanas, Mafalda surgia coberta de lama negra num spa algarvio, episódio que lhe valeu nesta casa o Prémio Pinóquio na Lata. A pele recebia então tratamentos que a antiga directora recomendava com entusiasmo, sabendo-se que a credibilidade não tem exfoliante conhecido que a repare. Agora saiu da lama e entrou na massa folhada. Há carreiras que se fazem por escalões; a de Mafalda Anjos avança por menus.
Enfim, entre a lama e o filet mignon reconheço uma coerência que seria injusto não louvar. Primeiro o tratamento exterior, depois a alimentação. Mens sana in corpore sano, diriam os romanos, embora desconhecessem o Facebook e tivessem o bom gosto de não filmar o jantar.
Concedo-lhe, portanto, o Prémio Wellington na Lata, categoria “Que comam folhados”, composto por uma pequena estátua do duque de Wellington montado num boi, com Napoleão a segurar uma travessa e Maria Antonieta, ao fundo, perguntando se não sobrou brioche.
O júri, constituído por mim, deliberou ainda acrescentar uma faca de trinchar: é justo — depois de tantos cortes na Visão, Mafalda Anjos merece finalmente acertar num.
(não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)
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Do lugar donde escrevo, jurisdição em que as gravatas perderam toda a competência e a surpresa deixou de figurar entre as obrigações mundanas, posso certificar-vos, minhas esclarecidíssimas donzelas e meus perspicacíssimos cavalheiros, que a longa comédia das civilizações ensinou os vivos a mudar muitas vezes de roupa e raríssimas vezes de joelhos.
A adulação, com efeito, atravessou dinastias, revoluções, constituições, repúblicas e modas com a robustez própria dos vícios que descobriram cedo a vantagem de se apresentarem como auxiliares das virtudes. Mudaram os soberanos, os títulos e os cerimoniais – e, neste processo, a disposição para lhes facilitar a grandeza mostrou uma fidelidade institucional que muitos regimes teriam desejado para os seus funcionários.
Na época em que um homem precisava de peruca alva de pó, casaca de veludo, peitilho e punhos de renda, meias de seda e sapatos de fivela para alcançar a antecâmara de um poderoso, a lisonja era empresa de corpo inteiro. O cortesão entrava como quem sobe ao palco, calculava a inclinação do busto, compunha o sorriso, administrava a reverência e só depois de três metáforas solares, dois deuses do Olimpo e de descobrir no homenageado alguma afinidade secreta com César ou Alexandre se atrevia a pronunciar-lhe o nome. A servilidade podia ser censurável, mas era trabalhosa – exigia preparação, guarda-roupa, memória clássica e alguma resistência lombar.
Cyrano de Bergerac, na célebre tirada que Edmond Rostand lhe emprestou, conseguiu encontrar uma multidão de maneiras de falar de um nariz e não consentiria, portanto, que uma vénia fosse despachada em três substantivos lançados no assento de merecimentos de algum amanuense de secretaria.
O meu século XIX, que não padeceu de escassez de vaidades, dispensou a peruca, mas conservou a cartola, a sobrecasaca, o colete, o plastrão, as polainas e a bengala. Trocou também o pó de arroz pelo lustro das botas, embora sem tocar na substância do obséquio. Um adulador podia ser medíocre, mas não lhe era lícito comparecer mal vestido. A própria hipocrisia, antes de sair de casa, mandava engomar o colarinho.
Entretanto, a Humanidade abandonou a cabeleira empoadada e, com aquela solicitude que a civilização costuma reservar aos vícios de uso frequente, tratou também de poupar a articulação femorotibial, nos seus compartimentos medial e lateral, e a femoropatelar às repetidas flexões que a vida pública outrora lhes reclamava. Mudaram as casacas, caíram as cartolas, desapareceram os jabots e aperfeiçoaram-se, ao mesmo tempo, os instrumentos da reverência.
A conveniência emancipou-se da alfaiataria e até da arquitectura. Bajula-se agora de camisa aberta no pescoço ou de t-shirt estampada, diante de um microfone, de uma câmara ou de um computador – e há quem consiga fazê-lo sem levantar os olhos do teclado, prodígio postural que nenhum mestre de cerimónias de Versalhes teria ousado prever. O turíbulo cabe num portátil, o incenso segue por newsletter e a vénia executa-se sentado, por vezes com os cotovelos sobre a mesa, como se a informalidade da posição diminuísse a profundidade da inclinação.
O pequeno teatro da deferência deixou de exigir salões, espelhos dourados, criados de libré, tectos pintados por italianos e carruagens à porta. Basta uma coluna de opinião e aquela disponibilidade do espírito capaz de transformar uma frase de circunstância num acontecimento moral, uma concordância numa coragem e dois períodos numa escritura de nobreza.
A extinção das cortes em muitas nações não levou consigo os cortesãos, pela mesma razão por que a demolição de uma igreja não extingue a devoção dos sacristães. As instituições humanas raras vezes sacrificam uma função útil pela simples ruína do edifício onde ela nasceu; mudam-lhe o endereço, simplificam-lhe a indumentária e dão-lhe uma designação compatível com a época.
Um pedaço da antiga corte instalou-se nos ministérios, outro nas academias, outro nas fundações, outro nos congressos e festivais, e o remanescente dispersou-se pelas redacções, pelos estúdios de televisão, pelas agências de comunicação e por essas pequenas repúblicas de reputação onde todos observam com prudência quem sobe, quem desce e, sobretudo, quem convém começar a admirar antes que a admiração adquira força regulamentar. Os reis desapareceram de muitos palácios; as antecâmaras, pelo contrário, multiplicaram-se.
O áulico desta vossa centúria adaptou-se com aquela agilidade que distingue os vícios genuinamente vocacionados para a sobrevivência. Já não necessita de aguardar pelo favor de Sua Excelência, conhecer o camareiro, mandar entregar um soneto ao secretário ou descobrir a hora exacta em que o príncipe se encontra receptivo à imortalidade. Pode exercer o mister em perfeita autonomia, desde que disponha de ligação à Internet e assinatura no rodapé.
Se o cortesão antigo precisava de acesso ao poderoso, o moderno alcançou a vantagem civilizacional de poder ajoelhar-se à distância, sem o desconforto do mármore, o risco de ser pisado por um cavalo ou sequer a necessidade de o destinatário reparar na homenagem. A reverência tornou-se telemática, assíncrona e, nos casos de maior diligência, programável: o encómio pode aparecer às dez da manhã quando o autor ainda dorme.
Perdeu-se, em compensação, alguma qualidade, convenhamos. O velho louvaminheiro sabia que, pretendendo elevar um mortal acima dos restantes, não podia contentar-se em chamar-lhe “corajoso”, “determinado” ou “convicto”, vocábulos que servem com igual docilidade para um chefe de divisão, um concorrente de televisão ou um candidato a funcionário do mês. Tinha de mobilizar Roma, Atenas, o Parnaso, a astronomia, a botânica, a zoologia e, quando o objecto da louvação reclamava urgência especial, alguns serviços auxiliares da Providência.
Um só homem podia sair de um parecer convertido sucessivamente em ave, astro, metal precioso, flor, árvore e substância aromática. Frei António de Santo Elias, diante de Vieira, fez dele “Águia entre as aves”, “Sol entre os astros”, “Ouro entre os metais”, “Rosa entre as flores”, “Palma entre as árvores” e “Bálsamo entre os aromas”. Pode discutir-se a exactidão do retrato; jamais acusar o pintor de parcimónia cromática. Aqueles homens louvavam com os três reinos da natureza e, quando estes se revelavam insuficientes, anexavam o céu.
O encomiasta contemporâneo adquiriu hábitos mais económicos: três qualidades resolvem o que outrora exigia meio Olimpo, dois historiadores romanos e uma pequena mobilização das Musas. Uma frase transforma-se em carácter; uma opinião, em coragem; uma declaração de princípio, em capítulo da História. Poupa-se nas metáforas, nos deuses, no vocabulário e, sobretudo, no trabalho, exigindo-se do leitor, em contrapartida, uma contribuição crescente de credulidade. A velha adulação era dispendiosa para quem a escrevia e divertida para quem a lia, enquanto a moderna, sempre atenta às vantagens da racionalização, inverteu os encargos.
É neste ponto, e apenas neste, que o vosso Luís Osório — águia entre os áulicos, lagartixa entre os louvaminheiros e bálsamo das reputações acometidas de insuficiência épica — merece entrar em cena. Não o convoco por qualquer excepcionalidade moral, o que seria injusto para ele e ofensivo para uma classe profissional assaz numerosa, mas por razões de especialização. Entre vós, Luís Osório cultiva o elogio público com uma regularidade que já permite estudá-lo não como acidente, mas como género literário, e talvez mesmo como serviço permanente, daqueles que não encerram aos domingos nem dependem de marcação prévia.
Onde outros encontram uma frase, ele entrevê carácter; onde surge uma declaração, descobre ele uma biografia; e onde uma personalidade pública manifesta uma opinião aproximadamente compatível com aquilo que dela se esperaria, este cronista começa a remexer nas arrecadações da História à cata de uma coroa, de um pedestal e de alguma virtude cardinal sem proprietário.
Teofrasto, que reservou ao adulador um lugar entre os seus caracteres, reconheceria a espécie. Plutarco, que se deu ao trabalho de explicar como distinguir o incensador do amigo, procuraria talvez salvar a fronteira. Baldassare Castiglione, mais indulgente com os homens de corte, exigiria ao menos que o artifício escondesse o esforço e que a reverência conservasse alguma graça.
Mas Osório dispensa estes três cuidados. Não esconde a adulação, porque lhe chama admiração; não precisa de amizade, porque distribui intimidade moral sem convivência; e não oculta o labor pela razão suplementar de que o aboliu. Onde o cortesão renascentista necessitava de música, armas, letras, dança, conversação e sprezzatura, Luís Osório apresenta uma opinião, três substantivos abstractos e a segurança de que a assinatura fará o resto.
A ocasião mais recente ofereceu-lhe matéria de uma parcimónia quase cruel: duas frases, uma ministra, uma plateia partidária e nenhum perigo discernível. Para um panegirista vulgar seria pouco, mas para Osório, que domina a multiplicação dos méritos com eficácia comparável à que outros reservaram à dos pães, bastou e ainda sobrou para prover uma sucessão inteira.
Margarida Balseiro Lopes, a vossa ministra da Cultura, declarou: “Eu sou feminista. Continuam é a faltar feministas mais activas.” O próprio cronista teve até o cuidado de esclarecer que a afirmação ia “ao encontro da matriz ideológica do seu partido”. E a cena ocorreu em plena Universidade de Verão do PSD, não numa corte absolutista onde a palavra “feminista” figurasse no Index, nem perante um Santo Ofício redivivo, uma Convenção em estado de Terror ou um pelotão encarregado de executar substantivos politicamente inconvenientes.
Ninguém teve, pois, de escolher entre a fidelidade à ministra e a porta dos fundos; não se fecharam fronteiras, não se preparou a cela, não se afiou a guilhotina nem se carregaram mosquetes. A coragem, ausente das circunstâncias conhecidas, compareceria algumas linhas depois, já inteiramente ao abrigo do perigo e pela mão prestável do cronista.
Luís Osório não se limitou a registar as duas frases, a concordar com elas ou a conceder-lhes a aprovação discreta que se concede a uma ideia quando ela não ofende a razão, os bons costumes nem a linha editorial. Preferiu operação dilatada e, sobretudo, mais generosa, daquela generosidade que distribui virtudes alheias sem sujeitar o beneficiário ao incómodo de as demonstrar. Margarida Balseiro Lopes, escreveu ele, “provou a sua coragem, determinação e convicção”; e, como três qualidades ainda lhe parecessem recompensa avara para duas orações declarativas, acrescentou que a ministra mostrara “fazer parte de uma linhagem que representa o melhor do país”.
Detenhamo-nos no verbo, porque há verbos inocentes por natureza que acabam condenados a trabalhos forçados. “Afirmou” exigiria apenas voz; “defendeu”, uma posição; “sustentou”, talvez um argumento; “provou” reclama matéria mais ingrata: factos, actos, resistência do mundo, consequências e alguma submissão ao velho encargo da lógica.
Talvez Luís Osório tenha querido oferecer-vos um entimema, essa cómoda invenção aristotélica que permite ao orador omitir uma premissa quando o auditório é capaz de a encontrar sozinho. Mas Aristóteles, que fez muitas concessões aos homens e poucas à lógica, autorizou a ocultação da premissa, não o seu falecimento. No raciocínio do vosso cronista, ela desaparece sem deixar cadáver. De um lado, Margarida Balseiro Lopes declara-se feminista; do outro, entra imediatamente na posse da coragem.
Entre uma coisa e outra deveria existir qualquer perigo, oposição, custo ou resistência — uma pequena ponte de Horácio Cocles por onde a virtude tivesse de passar ou, para não irmos tão longe, alguma porta de Martim Moniz que fosse preciso impedir de fechar.
Sucede que o próprio Osório informa de que a declaração da ministra ia “ao encontro da matriz ideológica do seu partido” e foi pronunciada perante esse mesmo partido. Não se vê, pois, a ponte, a porta, o inimigo ou sequer a dobradiça hostil. Restava ao silogismo um embaraço doméstico: alcançar a conclusão sem encontrar passagem para ela. Osório resolveu-o como certos governantes resolvem uma estrada ainda por construir — inaugurou primeiro a chegada. Aristóteles, se ainda recebesse provas tipográficas, riscaria à margem: “falta aqui qualquer coisa”.
Não concluam as diligentes leitoras — algumas inclinadas, como toda a humanidade, às precipitações — que nego coragem à titular da Cultura. Os mortos prudentes não retiram qualidades com a facilidade com que certos vivos as distribuem. Admito que Margarida Balseiro Lopes possa possuir coragem, determinação, convicção, temperança, fortaleza, magnanimidade e até aquela paciência rara que permite ler em vida a própria canonização mediática.
Limito-me a observar que nenhuma dessas virtudes decorre das duas frases juntas aos autos. A coragem, por tradição antiga e estabelecida com razoabilidade, mantém uma relação incómoda com o perigo: Múcio Cévola teve um braseiro, Antígona um édito de Creonte e Sócrates uma taça. A vossa ministra apenas dispunha de um microfone, de uma Universidade de Verão de jovens políticos e de uma audiência onde a discordância, a existir, não vinha munida de cicuta.
A operação laudatória de Luís Osório não terminou aí, porque o ditirambo, quando começa por fabricar uma virtude, ganha facilmente apetite dinástico. Osório ainda convocou Natália Correia, Helena Roseta, Helena Vaz da Silva, Amélia de Azevedo, Leonor Beleza, Assunção Esteves, Teresa Patrício Gouveia, Paula Teixeira da Cruz e Teresa Morais, dispondo-as na hagiografia como uma guarda de honra retrospectiva.
Algumas surgem ligadas, no próprio panegírico, a intervenções e responsabilidades concretas: Leonor Beleza à eliminação do conceito de “chefe de família” no Código Civil; Assunção Esteves à presidência da Assembleia da República e do Tribunal Constitucional; outras a percursos públicos, combates políticos e rupturas que, concorde-se ou não com eles, aconteceram no terreno menos cómodo dos actos. Feito o desfile, bastaram as duas frases de Balseiro Lopes sobre o feminismo para que o encomiasta averbasse a sucessão.
A heráldica conheceu processos mais trabalhosos. Reis de armas examinaram brasões, sucessões, matrimónios, bastardias, pergaminhos, sepulturas e depoimentos de parentes quase fossilizados antes de reconhecerem a alguém o direito de usar uma águia, um leão ou três flores-de-lis. No cartório osoriano, Margarida Balseiro Lopes necessitou apenas de conjugar o verbo “ser”. O resto foi despachado por escritura particular de posteridade. Há elogios que honram o elogiado – e outros, pela pressa em lhe montar o pedestal, acabam sobretudo por revelar a sofreguidão do pedreiro.
Permita-me, pois, o bom Luís Osório — e digo bom porque a morte me tornou indulgente com os homens e cada vez menos tolerante com os períodos — que lhe mostre como poderia ter praticado o mesmo excesso sem obrigar o leitor ao vexame de o confundir com demonstração:
“Sem eu a ouvir, a houvera de louvar, porque bastava ver o nome da Ministra e a profissão de feminista para dispensar segunda aprovação; porém, como este obséquio ao seu nome é golpe da minha obrigação, escutei-lhe as duas frases com aquela atenção que merecem todos os oráculos pronunciados numa Universidade de Verão e não achei menos do que grandes motivos para passar de modesto cronista a fervoroso turiferário. Ao primeiro ‘sou’, recuaram os preconceitos; ao segundo período, estremeceu o tecto de vidro; e logo as mulheres ilustres da República, suspendendo por instantes os seus feitos, abriram lugar entre si para receber a nova companheira. Margarida ficou sendo entre as ministras como Minerva entre os conselhos, Débora entre as mulheres fortes, a rosa entre as flores do Governo e o bálsamo entre as pastas da Administração.”
Continuaria a faltar a prova, mas já não escassearia literatura. E o disparate, vestido de gala, teria ao menos a cortesia de se anunciar ao leitor, em vez de atravessar a porta dos factos com documentos de identidade falsos. O exagero entraria coberto de plumas, ouro e trombetas, como convém aos exageros de boa família, e só uma alma inteiramente abandonada pela metáfora o tomaria por demonstração. A velha hipérbole tinha, entre outras virtudes, esta honestidade: apresentava-se mascarada de hipérbole e não exigia que ninguém lhe passasse certidão de nascimento.
Osório preferiu, desgraçadamente, artifício mais económico e, por isso mesmo, menos inocente: vestiu a hipérbole com a sobriedade da evidência. Não escreveu sequer que a ministra lhe parecera corajosa – escreveu que ela “provou a sua coragem”. Não declarou que, por gosto seu, a associava a determinada tradição – fez-lhe entrega formal de uma “linhagem”, como quem transfere um morgadio por escritura. A poesia, que deveria conservar-se no território livre das figuras, saiu dele sem passaporte, entrou no cartório, reconheceu a assinatura e pediu para ser averbada como facto.
O defeito, portanto, não reside sequer no excesso da louvação, mas na contrafacção do género. Uma metáfora pode exagerar sem mentir, porque ninguém de juízo lhe exige certidão; uma hipérbole pode subir ao céu sem apresentar licença de voo. Mas uma prova sem prova, minhas justas leitoras e meus íntegros leitores, é coisa menos desculpável: uma metáfora que perdeu a vergonha e decidiu apresentar-se de gravata.
Posto isto, não proponho que Luís Osório abandone o elogio, porque cada criatura deve cumprir o movimento que a natureza, o emprego ou a sociabilidade lhe imprimiram. O pavão não recolhe a cauda por advertência de um pardal, nem o incenso se converte em balança porque alguém lhe explicou os benefícios da imparcialidade. Peço-lhe somente algum respeito pela grande tradição em que, com diligência quase periódica, procura inscrever-se.
Quando descobrir heroísmo em duas frases, convoque César, Alexandre, Minerva e ao menos uma Sibila. Quando fundar uma casa moral numa declaração, mande vir brasão, cartório, arauto e um pergaminho ainda húmido. Quando decidir ajoelhar-se, faça-o com a pompa de quem sabe que a posição, sendo baixa, não obriga a frase a sê-lo também.
Enfim, não se lhe exige que se levante — cada homem deve conservar a postura em que encontrou o seu público. Peço-lhe apenas que, já no chão, não faça a língua portuguesa rastejar com ele.
(não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)
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Nunca tive grande confiança nas palavras, embora tenha vivido, como quase todos os homens de alguma educação, à custa delas. Nisto há uma ingratidão que reconheço, que não nego nem lamento, porque a morte, além de outras vantagens menos divulgadas, dispensa correcções e correctivos de carácter.
As palavras serviram-me para adorar sem amar bastante, prometer sem me comprometer demasiado, admirar pessoas de quem não gostava, deplorar sucessos que me eram indiferentes e, nos melhores dias, atribuir motivos elevados a alguns feitos cuja causa verdadeira era mais rasteira. Não fui original – a espécie inteira faz, nas cercanias, o mesmo, variando apenas a sintaxe.
Entre o que um homem deseja e aquilo que diz desejar existe, com efeito, um pequeno corredor, por vezes uma avenida, onde se alojam a conveniência, o medo, a vaidade e essa excelente criada de servir chamada razão, que chega sempre depois do apetite para lhe arrumar o quarto. Não afirmo que os homens sejam falsos na essência – seria injustiça, e além disso pouco subtil. São eles capazes de sinceridade, até de sinceridade completa, desde que não lhes custe muito. O fenómeno mais curioso é outro: pode desejar-se honestamente uma coisa e, no instante em que ela se aproxima, começar honestamente a desejar que espere.
Foi porventura o caso de Santo Agostinho, que pediu a Deus a castidade com uma reserva de calendário. Não o censuro – pelo contrário, vejo nessa prece uma das confissões mais exactas da natureza humana: o homem não detesta a virtude, detesta, algumas vezes, a sua pontualidade. A virtude de amanhã tem uma beleza que raras vezes conserva se aparece hoje de manhã, sem aviso nem bilhete de visita, à hora do expediente, trazendo um impresso para assinar.
Agostinho nem sequer descobriu o problema. Muitos séculos antes, Ovídio pusera Medeia a confessar que via o melhor, aprovava-o e seguia o pior — video meliora proboque, deteriora sequor. Nesta meia dúzia de palavras encontra-se uma antropologia mais económica do que muitos tratados: conhecer o bem nunca foi garantia suficiente contra a conveniência de fazer outra coisa. Agostinho introduziu apenas um aperfeiçoamento que me parece digno de nota: entre reconhecer a virtude e contrariá-la, colocou um prazo. Não lhe recusou entrada; pediu-lhe que chegasse mais tarde.
Desde então refinou-se muito a técnica. Já não se diz que se fez o que convinha – diz-se que se ponderou. Não se cedeu – atendeu-se às circunstâncias. Não se recuou – reavaliou-se o calendário. Não se desejou conservar uma vantagem – procurou-se evitar um efeito desproporcionado. A civilização é também isto: a lenta substituição dos substantivos desagradáveis por locuções mais habitáveis, até ao ponto em que uma fraqueza, depois de redigida a preceito, pode sair da tipografia com a compostura de um princípio.
Não julgueis, virtuosas leitoras e honrados leitores, que estou a fazer a apologia do cinismo. O cínico é uma criatura demasiado simples: sabe que não acredita. Interessa-me mais o homem que acredita sinceramente, e sobretudo sinceramente em si próprio. Este é capaz de defender a regra com fervor e de pedir a excepção com igual convicção, sem que uma coisa lhe pareça incompatível com a outra. A regra pertence ao universo moral, enquanto a excepção pertence à sua biografia. Ora, entre o universo e uma biografia, é raro que a biografia perca por falta de advogado.
Talvez por isso se tenham inventado as leis. Se o homem fosse a criatura racional e virtuosa que se costuma apresentar nos prefácios, seriam necessários poucos conselhos. “Sê justo.” “Não favoreças os teus.” “Não uses o poder em proveito próprio.” “Não confundas o interesse público com o jantar de família.” Cinco linhas teriam poupado bibliotecas jurídicas inteiras. Mas a Humanidade, depois de alguns milénios de experiência consigo própria, acabou por desconfiar dessa economia e criou incompatibilidades, impedimentos, fiscalização, publicidade, sanções e assinaturas, não porque tivesse deixado de acreditar no bem, mas porque começou, com e por prudência, a não depender apenas dele.
Há nisto uma ideia humilhante e, por isso mesmo, civilizada. O Estado de direito nasce em boa parte desta pequena desconfiança organizada: acredita-se na honra dos homens, porém conferem-se as contas; presume-se a imparcialidade, mas estabelecem-se regras para os casos em que ela possa vacilar; respeita-se a palavra, mas prefere-se que certas palavras fiquem acompanhadas de uma assinatura. O documento é, por isso, uma homenagem pouco poética à fragilidade humana. Acaba por ser a confissão de que a consciência, embora seja excelente instituição, nem sempre arquiva na gaveta adequada os processos.
Quando uma sociedade proclama uma regra destinada a limitar as tentações dos próprios homens que exercem o poder, encontram-se então duas vontades que não são inimigas, mas também não são parentes próximas: a vontade política de anunciar o princípio e a vontade humana, bem mais discreta, de conservar alguma elasticidade na sua aplicação. Nem sequer se mostra necessário imaginar conspiradores numa sala escura. As salas bem iluminadas, com actas, água mineral e assessores jurídicos, têm produzido demoras respeitáveis. Basta que cada pessoa encontre uma boa razão e que, no fim, todas as boas razões reunidas produzam uma excelente demora.
Por esta porta se chega, enfim, à corrupção, assunto que em Portugal adquiriu nos últimos anos uma existência robusta no discurso e delicada na prática. Em 2020, dizem-me, foi apresentada uma Estratégia Nacional de Combate à Corrupção. Depois surgiu a obrigação de determinadas pessoas que intervêm em decisões sensíveis declararem a inexistência de conflitos de interesses.
Não vale a pena recitar aqui o calendário completo – o tropel de datas obscureceria o essencial: a aplicação da medida já foi adiada quatro vezes e resolveu-se agora remetê-la para 31 de Julho de 2027, declarando, com aquela serenidade literária que só a linguagem administrativa consegue conservar diante do absurdo, que “mantêm-se os pressupostos subjacentes” aos adiamentos anteriores e que se entendeu “adequado diferir a data da entrada em vigor”. Há datas que parecem escolhidas por um funcionário e acabam escolhidas pela História: nesse mesmo dia cumprir-se-ão quinhentos anos do nascimento de Maximiliano II, cujo lema era Providebit Deus – Deus proverá. Menos ambicioso em matéria providencial, o Governo lusitano limitou-se a prover novo prazo.
Neste ponto, o vosso Luís Montenegro merece alguma atenção, não por ser um caso excepcional, mas porque não é. Chegou ao Governo prometendo reforçar o combate e a prevenção da corrupção; apresentou a sua própria Agenda Anticorrupção; e dois anos depois, sob a sua chefia, uma obrigação preventiva tão elementar como a declaração de inexistência de conflitos de interesses no presente foi empurrada para o futuro.
Existe aqui, na verdade, uma forma de coerência que o meu velho Quincas Borba teria apreciado. Se lhe levasse o caso, talvez ele encontrasse no Humanitismo uma explicação satisfatória: a virtude não foi derrotada, apenas transferida para uma região do tempo onde conserva intacta a sua beleza e não produz ainda os inconvenientes da aplicação. Quincas era capaz de descobrir uma vitória em certas derrotas; os governos lusos, pelo que vejo, descobriram uma reforma em certos adiamentos.
No Rio de Janeiro do meu tempo também se conhecia essa enfermidade dos grandes propósitos, e não poucas vezes assisti a ministérios que subiam as escadas de São Cristóvão carregados de reformas e as desciam deixando a maior parte delas confiada à posteridade, esse vasto arquivo onde a política deposita tudo quanto prefere não cumprir no presente. Em vida ouvi discursos sem conta sobre reforma, regeneração, economia e moralização, porquanto a política imperial do meu Brasil dominava já, com notável desenvoltura, essa arte de fazer do futuro uma dependência cómoda do presente, mobilada com promessas e fechada à chave pelas circunstâncias.
Não seria, pois, justo atribuir aos portugueses a invenção do expediente; a espécie é cosmopolita nos defeitos e, ao contrário do que sucede com certas mercadorias, nunca precisou de tratados para os fazer circular. Em todo o caso, o vosso país talvez tenha sabido aperfeiçoar — com essa vocação normativa que consegue dar solenidade até a uma hesitação — uma forma jurídica elegante da promessa incumprida.
Quando um particular promete e falha, deixa atrás de si uma palavra quebrada, talvez uma amizade estremecida e, nos casos mais graves, uma porta fechada; quando um Governo promete e adia, publica uma portaria. A substância moral da operação não ganha muito com a passagem pela Imprensa Nacional, mas adquire número, data, assinatura e aquela compostura tipográfica que transforma a demora em decisão soberana.
Talvez esteja, apesar de tudo, a exigir demasiado de Luís Montenegro e dos seus ministros. A política vive de promessas pela mesma razão por que os poetas vivem de metáforas: umas e outras permitem transportar para longe aquilo que, demasiado perto, perderia parte do encanto. O futuro é, aliás, o mais generoso dos territórios políticos, porque aí se podem, em abundância e equidade, distribuir justiça, transparência, prosperidade, eficiência, hospitais pontuais, administrações exemplares e até a extinção de vícios que acompanham o homem desde que este descobriu que o poder também podia servir para alguma coisa.
O presente, criatura bem menos lírica, cobra renda: nele há contratos, licenças e adjudicações, cargos, famílias e amizades, e ainda gratidões, carreiras e coincidências cujos incómodos se elevam na proporção dos pedidos de explicação. Enquanto permanece no futuro, uma promessa conserva a castidade das coisas que ainda não foram submetidas à experiência. E a lei, chata, quando entra em vigor, perde logo essa delicadeza e adquire o desagradável costume de fazer perguntas.
Descobriu-se por isso, com o progresso das instituições, uma solução mais humana do que a antiga quebra da palavra: conserva-se a promessa e sacrifica-se a data. Esta é uma operação limpa, não derrama sangue nem sequer obriga a renegociar princípios: a medida continua excelente, o compromisso mantém-se firme, a virtude conserva todo o seu prestígio – apenas se assume, em homenagem à própria importância da reforma, que seria temerário sujeitá-la desde já ao desgaste da realidade.
O primeiro adiamento advém da prudência, o segundo confirma a prudência do primeiro, o terceiro demonstra que os dois anteriores tinham fundamento e o quarto, que agora coube ao Governo Montenegro assinar, já nem é uma demora: começa a adquirir a dignidade de uma doutrina sobre o tempo. E assim se passa de prazo em prazo sem grande tumulto da consciência, sem dano desmesurado, porque a palavra permanece no partido do bem e só o calendário, pobre criatura sem voto, vai sofrendo as consequências.
Nestes procedimentos, a luta contra a corrupção oferece ao observador, contudo, uma dificuldade de ordem metafísica. Nunca encontrei — nem em vida, nem depois dela, embora a morte amplie o campo de observação — político que se apresentasse como corrupto, administrador que reclamasse para si o privilégio do favoritismo, ou dirigente público que confessasse uma fraqueza especial por parentes, amigos e benfeitores. Pelo contrário, todos chegam ao assunto munidos de integridade para si e, não raras vezes, de alguma sobra para fiscalizar a dos adversários. A corrupção, todavia, teima em persistir no horizonte: elaboram-se estratégias contra, anunciam-se a favor reformas, endurecem-se discursos, fluem mecanismos…
Resulta daqui uma criatura gramatical curiosa: existe o substantivo, abundam os complementos, publicam-se diplomas, mas o sujeito desaparece sempre no momento da conjugação. “Combateremos a corrupção” é frase de uso universal, enquanto “sou corrupto” continua, ao que parece, sem aplicação prática.
Na verdade, a prevenção da corrupção introduz neste harmonioso arranjo uma nota de descortesia, porque parte da hipótese, pouco lisonjeira, mas solidificada na História, de que o homem pode julgar-se imparcial com uma convicção muito superior à imparcialidade que efectivamente possui. Desta sorte, uma declaração de conflitos de interesses, nunca acusando ninguém de corrupção, se mostra rude por sugerir que a consciência individual talvez não constitua, por si só, um sistema de controlo satisfatório.
Ora, para quem já se considera honesto, a sugestão pode parecer quase uma afronta – é como pedir a Catão que mostre os bolsos antes de entrar no Senado: não se afirma que tenha roubado coisa alguma, mas estraga-se-lhe um pouco a solenidade.
Compreende-se, portanto, que as instituições portuguesas possam estar apenas a seguir esta lógica até às suas últimas consequências. Se todos os intervenientes são íntegros, não há urgência excessiva em verificar; se não se verifica, aparecem menos factos susceptíveis de abalar a presunção de integridade; se aparecem menos factos, confirma-se que a urgência talvez fosse exagerada; e, se apesar de tamanha prudência algum escândalo consegue furar a superfície, ele próprio fornece matéria excelente para um novo discurso sobre a necessidade imperiosa de reforçar o combate à corrupção. Admito, há raciocínios circulares menos perfeitos – e este tem ainda a vantagem de permitir que cada volta seja apresentada como avanço, sem o incómodo geométrico de sair do mesmo ponto.
Não censuro, pois, o Governo por ter mandado a virtude regressar em 31 de Julho do próximo ano. Santo Agostinho pediu prazo à castidade e acabou santo; não seria razoável exigir à prevenção da corrupção uma pontualidade que nunca se exigiu à salvação de uma alma.
Resta assim apenas saber se, quando a virtude tornar a bater à porta do Conselho de Ministros, haverá alguém disposto a recebê-la. Se não houver, também não se perde tudo: publica-se outra portaria, e a virtude conservará por mais algum tempo aquela beleza impecável que só as coisas por cumprir conseguem manter.
Quem cobre o rosto por vergonha procura desaparecer. Quem o esconde para não ser reconhecido tenta escapar aos olhos alheios. A jornalista Mafalda Anjos cobriu-o de lama negra e foi a correr meter nas redes sociais para ser vista por mais gente. A vergonha, nos tempos de antanho, subia à face e pintava-a de vermelho; a desvergonha contemporânea aplica-se em camada generosa, filma-se na vertical e termina com uma hashtag.
Num vídeo publicado no Facebook, a antiga directora da Visão apresenta-vos um spa salino de Castro Marim, identifica o estabelecimento, mostra os tratamentos, entra nos tanques, cobre-se de lama e garante aos seguidores que aquele é “um dos melhores programas neste lado do Algarve”. Falta apenas o botão “Reserve agora”. Nenhuma indicação visível de publicidade, parceria ou convite perturba o relaxamento.
Talvez Mafalda Anjos não tenha recebido um cêntimo, uma borla ou sequer um punhado de flor de sal. O vídeo não esclarece. Mas uma mensagem não deixa de cumprir a função de anúncio só porque a apresentadora trabalhou de graça. A marca aparece, os serviços desfilam, as virtudes são proclamadas e a jornalista empresta-lhes a sua credibilidade que acumulou nos jornais, na CNN e na estação pública. Ou aquilo que resta dela.
Mafalda Anjos dirigiu a Visão entre 2016 e 2023 e acumulou também funções de publisher da Trust in News até 2022. Durante esse período, a empresa acumulou dívidas, apresentou contas que acabariam nos tribunais e avançou para um futuro tão negro como a lama agora espalhada pelo rosto da antiga directora. Quando o PÁGINA UM revelou o buraco financeiro, Mafalda classificou a investigação como “fantasiosa”. A fantasia acabaria insolvente; a realidade, essa velha criatura mal-educada, apareceu acompanhada por uma sentença de insolvência culposa.
Nesse ínterim, Mafalda Anjos teve, em 2017, a angelical lata de escrever sobre este mesmo spa para a revista que dirigia. Uma peça muito simpática, com elogios, morada, telefone e até preços. Nove anos depois, a fidelidade permanece. Alguns leitores abandonam revistas; certos estabelecimentos conseguem conservar jornalistas.
Conceda-se-lhe, pois, o merecido prémio de se esfoliar depois de ter esfolado a credibilidade da Visão. Primeiro retirou à revista, camada após camada, a confiança dos leitores; agora retira de si, à epiderme, as células mortas. Num caso, chama-se gestão editorial; no outro, bem-estar. A pele regenera; a credibilidade, nem sempre.
Assim, pelo desplante, reunido comigo mesmo, atribuo a Mafalda Anjos o Prémio Pinóquio na Lata, edição especial Lama Negra. Não um Pinóquio vulgar, de madeira, porque a salmoura poderia empená-lo. Será fabricado em plástico editorial resistente, coberto de argila preta e acompanhado por um pequeno folheto com o artigo 3.º do Estatuto do Jornalista, para ler enquanto a lama seca.
O prémio não lhe é concedido por ter mergulhado num tanque, coberto o corpo de lama ou procurado melhorar a pele. Qualquer mortal conserva o direito ao banho. A distinção nasce do mérito raro de transformar uma exibição comercial numa inocente diversão familiar e, sobretudo, da extraordinária coerência cromática: depois de deixar a Visão com o futuro negro, decidiu mostrar esse negro no próprio rosto.
Em 2017, Mafalda Anjos escreveu sobre o mesmo spa na revista Visão, com muitos elogios e até uma lista de preço. Foto: Visão.
Só falhou num pormenor. A lama do spa de Castro Marim sai com água. O negro que ficou no futuro da Visão não. E a credibilidade, depois de esfolada até ao osso, também não regressa com sais minerais.
(não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)
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A morte, que me extorquiu alguns prazeres e quase todos os compromissos, deixou-me, em compensação, uma cadeira excelente para assistir ao progresso humano. Daqui vejo os vivos correrem de descoberta em descoberta, avançarem de uma desocultação para uma revelação, da vela para a electricidade, da diligência para o automóvel, da pena de aparo para o computador, do almanaque para o satélite – e confesso que poucas coisas me divertem tanto como verificar que, enquanto a técnica galopa, a natureza humana segue atrás, de chinelos, sem pressa nenhuma e levando consigo, intactos, os mesmos medos, vaidades, superstições e tolices com que já se embaraçavam os gregos, os romanos e os meus contemporâneos.
Não digo isto por misantropia, que seria defeito pouco elegante num defunto – digo-o por experiência. Andei aí o bastante para desconfiar dos vivos e morri há tempo suficiente para confirmar as suspeitas. A inteligência humana possui a particularidade de inventar instrumentos cada vez mais perfeitos para servir paixões que permanecem primitivas, de modo que o telescópio não matou o astrólogo, o microscópio não extinguiu o charlatão e a estatística, longe de eliminar o medo, deu-lhe casas decimais.
A Astronomia oferece talvez o exemplo mais belo desta combinação entre grandeza e ridículo. Durante milénios, um eclipse não era uma simples interposição de corpos celestes, mas uma carta registada do além, por regra redigida em tom ameaçador. Na Mesopotâmia, anunciava perigos para o rei; na China, um dragão com apetite desmedido a morder o Sol e obrigava os homens a bater em tambores para lhe estragar a digestão.
Entre medos e lídios, conta Heródoto, bastou que o dia se vestisse de noite para que cessasse uma guerra que nem a prudência, nem a diplomacia, nem sequer o cansaço dos homens haviam logrado interromper; donde se pode concluir, sem grande injúria para a espécie, que o céu sempre exerceu sobre ela uma autoridade que ela própria jamais soube exercer sobre si.
Depois chegaram os astrónomos, esses grandes desmancha-prazeres do sobrenatural, e começaram a pôr método onde antes bastava o assombro. Tales ganhou fama de áugure, sem necessidade de esventrar vítima alguma, limitando-se a prever um eclipse; Halley calculou outros com uma precisão que aos seus antepassados teria parecido feitiçaria; Newton submeteu boa parte do céu à disciplina das leis; Einstein concedeu à luz a delicadeza de se curvar; e, para que não restasse ao firmamento sequer o consolo do mistério, em 1919 Eddington foi ao Príncipe e Crommelin ao Ceará perguntar ao Universo se obedecia ao alemão. Obedecia.
Desde então, o homem passou a saber não apenas que o Sol desapareceria, mas onde, quando, durante quantos segundos e com que inclinação voltaria a mostrar a cara.
Seria de esperar que, uma vez desvendado o mecanismo, se dissipasse também o assombro. Leitores e leitoras, conheceis mal a espécie…
O homem não abandona facilmente o prodígio. Quando a Ciência lho explica, limita-se a transferi-lo para a cerimónia, para o protocolo e, se possível, para o Diário da República. E assim chegamos a esta quarta-feira, em que Portugal terá, numa estreita faixa transmontana, cerca de vinte e seis segundos de velamento total — duração que me pareceria bastante para um espirro, um soluço ou uma declaração de amor sincera, mas que o país entendeu revestir de solenidade quase cesariana. Porque vinte e seis segundos de sombra podem ser breves para o Sol, mas não para a República: e assim, para os acompanhar, aos segundos, nada menos do que um Comissário Nacional para o Eclipse do Sol de 2026.
Detive-me algum tempo na designação, não por desconfiar do homem — Pedro Mota Machado, dizem-me, é astrofísico e, por isso mesmo, talvez seja a primeira vítima inocente da pompa —, mas porque um Comissário Nacional pressupõe, para o meu espírito antiquado, uma matéria que exige comissão solene, supervisão vigilantíssima, coordenação superior, autoridade quase majestática ou, pelo menos, uma remota possibilidade de desobediência; e pressupõe ainda, segundo a liturgia terrena destas grandiosas sinecuras, motoristas, assessores, gabinetes, ajudas de custo e alcavalas.
O Sol, até onde sei, dispensa tudo isso e continua a cumprir o expediente sem sequer pedir senha; a Lua, pelo que me consta, não recebe circulares; e a Terra jamais se sindicalizou – pelo que, assim, anda a mecânica celeste na desagradável modorra de cumprir o calendário mesmo se o responsável de serviço faltar.
Ora, o senhor comissário poderá mesmo adormecer sobre os papéis, perder o comboio, confundir a data, ficar cativo entre dois andares ou, num assomo de independência pastoral, abandonar o posto e entregar-se à pesca: nada disso perturbará a menor engrenagem do firmamento. À hora aprazada, a Lua comparecerá, o Sol consentirá no seu breve desaparecimento e a Terra prosseguirá, impassível, a sua rotação secular, com aquela soberba pontualidade dos corpos celestes que nunca conheceram despacho, greve, tolerância de ponto ou crise ministerial. O eclipse começará e terminará sem esperar pelo titular do cargo, privilégio administrativo de uma elegância quase ofensiva e que, convenhamos, pouquíssimos governantes conseguem oferecer aos governados.
Procurei, na verdade, com a curiosidade ociosa dos mortos, o decreto que instituíra semelhante magistratura sideral e não o encontrei – talvez não exista, talvez pertença apenas à arquitectura organizativa da Ciência Viva, talvez tenha brotado, de modo espontâneo, como certas flores depois da chuva. Pouco importa: o título adquire em si suficiência, porque há títulos que explicam uma época melhor do que tratados inteiros.
O Governo do senhor Montenegro, como é natural, não deixou o comissário entregue, sem escolta administrativa, a tamanha calamidade orbital. Publicou, entretanto, recomendações, muitas delas de uma ternura quase maternal, advertindo os cidadãos para o perigo de se dirigir, olhos nos olhos, para o Sol, porque tal imprudência pode lesar a retina — descoberta que, suponho, terá poupado ao país algumas experiências empíricas desnecessárias.
Sucede, porém, que a solicitude governativa, uma vez posta em movimento, sofre do mesmo vício dos grandes rios e de certos departamentos do Estado: custa-lhe reconhecer a margem e ainda mais deter-se nela. Ainda assim, seria injusto exagerar. A nota oficial não chegou ao ponto de recomendar protector solar factor 50, panamá para os cavalheiros, lenço de cambraia para as donzelas e um casaquinho leve para o eventual arrefecimento ao fim da tarde. Nem aconselhou água, merenda, sapatos confortáveis ou uma pequena almofada lombar para quem pretenda contemplar os vinte e seis segundos com dignidade postural.
Há limites para o paternalismo. Em algum momento, até o Estado português é forçado a admitir, com manifesto desconforto, que o cidadão talvez consiga tomar conta de si.
Confesso que poucas formulações administrativas me deram tanto prazer desde que deixei o mundo dos vivos, porque dois milénios de filosofia natural, três séculos de ciência moderna, Darwin, Pavlov, Lorenz, toda a etologia e grande parte da Medicina Veterinária conduziram, por fim, a esta síntese sublime da sabedoria estatal: se o gato quiser esconder-se, deixe o gato esconder-se.
Imagino o Bobi e o Tareco reunidos de manhã junto à televisão, atentos às orientações do Conselho de Ministros, aliviados por saberem que, durante aqueles vinte e seis segundos terríveis, poderão reagir sem incorrer em infracção administrativa. O Bobi talvez rosne, o Tareco talvez desapareça debaixo do sofá, e ambos poderão fazê-lo com aquela paz de espírito que só nasce quando o comportamento instintivo recebe homologação do primeiro-ministro Montenegro e do ministro Pinto Luz, verdadeiros luminares de uma Nação às apalpadelas.
Por sua vez, a imprensa, que possui o admirável talento de transformar qualquer prudência numa temporada da Netflix, tratou logo de desenvolver o capítulo veterinário: ponderar se a interposição dos astros assusta cães e gatos, como devemos ajudá-los, o que sucede quando o dia se transforma em noite, que sinais observar, que ambiente proporcionar. E, num momento de particular elevação civilizacional, sentiu-se até na necessidade de esclarecer que não se devem pôr óculos de eclipse nos cães, recomendação cuja existência me parece mais alarmante do que a hipótese que pretende prevenir.
Porque, ajuizadas leitoras e sopesados leitores, uma sociedade que necessita de ser advertida para não enfiar óculos protectores num labrador — e muito menos num pinscher, mas aí já por razões que dizem respeito à conservação dos dedos — talvez não deva inquietar-se em demasia com o desaparecimento temporário do Sol.
No meio deste umbrático ofício, vieram ainda os óculos humanos de protecção, distribuídos, procurados, esgotados, repostos e de novo desaparecidos com aquela velocidade reservada às mercadorias que a comunicação social consegue elevar, em poucas horas, da condição de objecto dispensável à de requisito elementar da sobrevivência.
Durante algum tempo chegou mesmo a anunciar-se um ataque informático à plataforma de reservas, notícia que me deu a esperança, infelizmente breve, de que a humanidade tivesse enfim conciliado os terrores da mitologia antiga com as comodidades da tecnologia contemporânea. Os chineses tinham um dragão que devorava o Sol; os lusitanos, menos indocíveis, ficam com hackers a atacarem a plataforma digital dos óculos. Mudaram os monstros, conservaram-se os viventes.
E, porque nenhum pânico moderno alcança a dignidade de acontecimento nacional sem o concurso organizado das instituições, todos acudiram. A Ordem dos Médicos quis avisos em praias e miradouros; multiplicaram-se as cautelas para câmaras e telemóveis; a Protecção Civil considerou deslocações, aglomerações e incêndios; os operadores eléctricos vigiaram, apreensivos, o breve soluço da produção fotovoltaica; os municípios traçaram estacionamentos; Espanha mobilizou milhares de polícias; a Iberia preparou um voo especial para perseguir a sombra; os hotéis encheram; e não tardaram a chegar ainda sacerdotes menores da vossa época em sessões de ioga, meditação, retiros espirituais e cocktails heliacais.
Em suma, três corpos celestes, que executam há alguns milhares de milhões de anos as suas sizígias sem pedir licença, orçamento ou parecer jurídico, conseguiram produzir agora em terras do século XXI uma dessas grandes óperas administrativas e comerciais em que cada organismo, empresa e especialista desempenha com gravidade a sua pequena parte para que o vivente, até capaz de olhar para o céu por conta própria, se convença de que necessita de instruções, reserva, estacionamento, polícia, aplicação móvel, assistência médica e talvez um mojito para sobreviver a vinte e seis segundos de obnubilação.
Na verdade, a Astronomia progrediu muito; a espécie, pelo que se vê, tem encontrado maneiras mais sofisticadas de permanecer parva.
(não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)
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Daqui, onde nunca se publicam recensões — a Providência retirou os autores de circulação, talvez para os poupar à escrita dos críticos, e estes, uma vez chegados cá, descobrem enfim o que custa ler um livro até ao fim —, tenho dedicado algumas horas vagas ao estudo de uma faculdade humana que os naturalistas, inexplicavelmente, deixaram fora dos seus compêndios: a aptidão para formar juízo antes de adquirir conhecimento.
No mundo dos vivos, Teofrasto estudou as pedras; Plínio, o Velho, quase tudo o que encontrou entre elas e o firmamento; Lineu classificou as plantas; Buffon, os animais; Cuvier, os ossos; Lombroso, com resultados menos felizes, os criminosos pela forma do crânio. Nenhum deles, porém, se lembrou de estudar o Homo opinans, espécie abundantíssima, reconhecível pela prontidão com que conclui e pela lentidão com que verifica. O Homo sapiens pensa; o Homo opinans já pensou. Aquele hesita diante da complexidade; este resolve-a antes de tomar o pequeno-almoço.
A minha entrada antecipada na confraria dos finados, associada ao pouco entusiasmo dos boticários — homens que acolhem qualquer cura com a reserva de quem vê o negócio ameaçado —, não consentiu que o meu génio terapêutico amadurecesse nas ciências nem que legasse à Humanidade o emplasto destinado a aliviar-lhe a melancolia. Conservo, ainda assim, ciência bastante para ensaiar uma modesta taxonomia das almas opinativas.
Esta espécie não apareceu ontem. Os sofistas já ensinavam a vencer uma disputa sem o incómodo de ter razão. Os escolásticos discutiam quantos anjos caberiam na ponta de uma agulha, embora nenhum apresentasse uma agulha nem trouxesse um anjo para medição. Pico della Mirandola propôs-se defender novecentas teses sobre todas as matérias conhecidas, mas teve a prudência de viver antes das redes sociais; hoje teria de defender novecentas teses por manhã e ainda comentar a crise ministerial ao jantar.
Montaigne, homem desconfiado, perguntava: Que sais-je? A interrogação fez-lhe a reputação. No vosso tempo, arruiná-la-ia. Imaginai um comentador convidado a pronunciar-se sobre a guerra, a inflação, a inteligência artificial, a queda do Império Romano, o teatro pós-dramático e a composição química dos iogurtes, respondendo: “Que sei eu?” Ao segundo programa seria substituído por alguém que soubesse menos, mas falasse mais depressa.
Darwin, que não ignorava a fauna moral da espécie, deixou escrito que “a ignorância gera mais frequentemente confiança do que o conhecimento”. Eu, menos severo — talvez por já não disputar lugar no vosso mundo —, acrescentaria que a ignorância, quando tímida, nunca causa grande dano. Pode até possuir certa graça: o homem que não sabe cala-se, pergunta ou muda de assunto.
Mais perigosa é a ignorância depois de adquirir vocabulário. Essa cita contextos, invoca estruturas, denuncia paradigmas, passeia pela hermenêutica, pela arqueologia, pelo cinema e pela geopolítica e, se lhe pedem uma data, considera a pergunta positivista.
Nos meus tempos, para certos livros, existia a fórmula “não li, mas gostei”. Era um gesto de amizade literária. Comprava-se o livro, elogiava-se o título, acariciava-se a lombada e prometia-se uma leitura para depois do verão. O autor recebia o elogio; o leitor conservava a tarde. Tratava-se de uma pequena hipocrisia civilizadora, comparável a dizer que a criança é muito parecida com o pai quando ninguém deseja averiguar o assunto.
Agora, a modernidade inventou uma fórmula mais audaciosa: “não li e não gostei”.
Esta segunda modalidade é, do ponto de vista intelectual, mais económica: dispensa a leitura, sacode a simpatia e expulsa até a dúvida. O crítico não perde tempo com o objecto, que poderia enfraquecer-lhe a opinião. A obra permanece intacta, fechada e, portanto, incapaz de contradizê-lo. Nada é mais perigoso para uma convicção do que o contacto com aquilo sobre que se formou.
Esta última espécie, porém, não deve ser confundida com todos os que se pronunciam sobre livros ou filmes sem lhes fazerem antes a arqueologia completa. A vida é breve, o catálogo do mundo é excessivo e, no caso do cinema, ainda há a obrigação de sobreviver à publicidade antes de chegar à sala. O episódio que me ocorreu é de natureza mais subtil.
Esta reflexão ocorreu-me a propósito de uma apreciação de Raquel Varela sobre uma adaptação cinematográfica da Odisseia. Nem de propósito: tenho por esta historiadora aquela simpatia que se deve às inteligências combativas. Atira-se às polémicas como Aquiles entrava na batalha: com energia, rapidez e escassa disposição para deixar sobreviventes. Professora, investigadora e presença assídua no debate público, discorre sobre História, trabalho, política, sociedade, Economia e outros vastos continentes do saber com uma desenvoltura e uma segurança capazes de fazer o próprio Diderot corar diante da sua Enciclopédia.
A certeza é, aliás, um dos seus talentos mais visíveis. Há pessoas que chegam a uma conclusão depois de atravessarem as dúvidas; outras preferem saltar por cima delas. Raquel pertence à segunda escola, que é mais veloz, exige menos bagagem e chega primeiro aos estúdios.
Tudo corre admiravelmente enquanto se percorrem províncias onde a convicção vale quase tanto como a prova. Na política, uma certeza bem projectada pode passar por carácter; na Economia, uma estatística escolhida com números sustenta uma tarde inteira. A Cultura, porém, tem o desagradável costume de conservar os seus mortos: Homero, Ésquilo, Dante, Cervantes, Shakespeare e outros defuntos de péssimo feitio, que escreveram demasiado e se recusam, mesmo depois de enterrados, a caber numa tese de quinze linhas.
Ora, Raquel escreveu-vos a dizer que foi ao cinema assistir à adaptação da Odisseia e saiu da sala exausta. O filme pareceu-lhe um suplício: barulho ensurdecedor, movimento frenético, emoções primárias, contagem de corpos, uma espécie de videojogo destinado a um público educado para a falta de atenção. Até aqui, nada a objectar. Quem pagou o bilhete adquiriu também o direito ao tédio, à irritação e, em casos extremos, ao desejo de fugir do intervalo ou após acabar o balde de pipocas.
Mais delicada se mostrou a afirmação de que o realizador apagara tudo o que seria importante na obra: as alegorias, a memória, os encontros, o amor, a escolha e o canto das sereias. Porém, pouco depois, com uma franqueza que quase salva a empresa, Raquel Varela confessou nunca ter lido a Odisseia.
Admirei o método.
Não é qualquer pessoa que consegue comparar um filme com um livro que não leu e determinar, com precisão, quais os elementos que a adaptação suprimiu. Exige imaginação, autoridade e uma resistência considerável à embaraçosa vigilância da lógica. Ulisses precisou de dez anos para regressar a casa; a crítica contemporânea chega lá em dois parágrafos, sem mapa, sem navio e sem Virgílio, autor da Odisseia, como me ensinou o padre Lopes, meu antigo professor de latim.
Virgílio o quê?! Não me interrompais!
Voltarei a Virgílio mais adiante…
Este episódio recordou-me o conselheiro Venâncio Pires de Alvarenga, que jamais assistira a uma ópera, mas detestava Wagner por excesso de metais. Perguntei-lhe certa vez qual das obras do alemão lhe parecera mais barulhenta.
— Nenhuma — respondeu. — Nunca me sujeitei a ouvi-las.
— Então como sabeis que são barulhentas?
— Meu caro Brás, um homem não precisa de cair a um poço para concluir que o fundo é húmido.
Venâncio passou quarenta anos a evitar poços, Wagner e todos os factos susceptíveis de modificar-lhe as conclusões. Morreu especialista nos três temas.
Esta tentação de falar sobre tudo não nasceu com as redes sociais: é anterior à imprensa, ao mexerico e aos próprios mentideros — e suspeito de que preceda a linguagem, pois o homem terá começado a formar opiniões alguns minutos antes de aprender a exprimi-las. O século que aí corre não inventou assim o vício — limitou-se a dar-lhe velocidade, plateia e um botão para publicar.
O sábio antigo sabia pouco e, por isso, perguntava. O sábio de agora sabe tudo e, por isso, fala, escreve e publica. Sócrates, que afirmava saber apenas que nada sabia, seria agora afastado de qualquer debate por manifesta insuficiência curricular. Como convidar para comentar uma guerra na Trácia um indivíduo que começa por confessar ignorância? Alcibíades, pelo contrário, reuniria todas as qualidades exigidas: boa presença, vocabulário flexível e capacidade para defender Atenas, Esparta e a Pérsia em três canais diferentes na mesma noite.
Julgo, aliás, que Sócrates foi condenado à cicuta por se recusar a preencher uma grelha de competências. Ou talvez tenha sido Séneca. Paciência: ambos morreram e nenhum apresentou reclamação dentro do prazo.
A erudição verdadeira, bem sei, pesa mais que os ossos. Obriga a comparar fontes, verificar datas, distinguir uma personagem de outra e reconhecer que certas matérias são maiores do que o vosso conhecimento. A falsa erudição, pelo contrário, é leve como espuma. Permite atravessar Homero, a Bíblia, Shakespeare, Marx, Freud, o cinema expressionista, a arqueologia micénica e a tinta pomorina antes do almoço, conservando ainda energia para explicar a estratégia naval no Mediterrâneo depois do café.
Conheci no Rio de Janeiro o doutor Epaminondas Castelo Branco, que dominava todas as ciências, excepto aquelas que estudara. Por isso, falava de Medicina aos advogados, de Direito aos médicos, de Engenharia aos poetas e de Poesia aos engenheiros. Nunca escolhia um auditório capaz de o desmentir — era prudente. Desse modo, sustentava que a peste de Atenas fora causada pela queda do Império Romano, que Napoleão perdera Waterloo por não ter lido Maquiavel e que Cleópatra seduzira Júlio César durante as Cruzadas. Quando alguém lhe apontava uma inexactidão, Epaminondas sorria:
— Meu caro, não se prenda a pormenores. Estou a falar do essencial.
O essencial é um esconderijo muito cómodo. Cabe lá qualquer disparate, desde que seja pronunciado com voz grave. Se disserdes que Aquiles morreu atingido no cotovelo, aparecerá um pedante a corrigir-vos: foi no calcanhar. Respondei-lhe que o cotovelo representa um símbolo da vulnerabilidade das articulações do poder. O aristarco ficará embaraçado, vós ficareis profundos e Aquiles continuará morto, incapaz de esclarecer a controvérsia.
Posto isto, nunca ter lido a Odisseia não constitui falta digna de censura. A vida é breve, as bibliotecas são compridas e há livros que a prudência manda conservar fechados.
Mais singular é transformar essa ausência de leitura em instrumento de comparação: não conheço o original, mas sei que a adaptação o atraiçoou; não estudei a matéria, mas identifico sem esforço os erros de quem a estudou; nunca visitei o país, mas compreendo-lhe melhor a alma do que os habitantes; não assisti à peça, mas ofendeu-me a encenação; não ouvi a entrevista, mas reprovo-lhe o tom. Convenhamos, esta é uma sublime forma superior de conhecimento: dispensa o contacto com o objecto e preserva intacta a certeza — o milagre moderno da opinião sem contacto.
São Tomé precisou de tocar nas chagas de Cristo para acreditar. Hoje seria censurado por excesso de exigência documental. Bastaria ter visto uma fotografia truncada, lido três comentários e recebido uma mensagem de um primo que conhecia alguém no Sinédrio. “Felizes os que não viram e acreditaram”, disse Moisés no Sermão da Montanha, máxima que viria a constituir o princípio fundador das caixas de comentários.
Não foi Moisés?!
Adiante…
Em verdade vos digo, a crítica cinematográfica oferece terreno fértil a estas façanhas porque o espectador sai da sala ainda vibrando, física ou moralmente. Se o filme tem estrondo, acusa-se o realizador de barulho; se tem silêncio, de pretensão; se explica, de didactismo; se não explica, de hermetismo; se respeita o livro, de falta de imaginação; se o altera, de sacrilégio. O crítico possui sempre uma porta de emergência, mesmo quando o cinema não a possui.
Pode assim declarar-se que o filme destruiu “as alegorias, a memória, os encontros, o amor e a escolha”. São palavras excelentes: tanto servem para Homero como para Proust, para um anúncio de perfume e para a ementa de um casamento. A sua vantagem está em ninguém saber exactamente que cena provaria a presença ou a ausência de cada uma. Onde termina a memória e começa o encontro? Quantos decibéis apagam uma alegoria? A partir de que número de cadáveres deixa uma guerra de ser homérica e passa a ser contemporânea?
A resposta depende, com naturalidade, do comentário que se deseja escrever.
Nada disto impede que um filme seja péssimo — um suplício, um videojogo de três horas, uma sucessão de explosões com actores lá dentro. Não o vi. E, justamente por não o ter visto, encontro-me numa posição de singular inferioridade perante quem viu. Posso desconfiar, ler críticas, conhecer o realizador e estudar a produção, mas jamais posso recordar o que não presenciei.
Esta modéstia elementar está a cair em desuso. O vosso tempo considera que admitir desconhecimento equivale a perder autoridade, quando é quase sempre a única forma de a merecer. Também eu, confesso agora, cometi neste texto algumas “ligeiras” imprecisões. Virgílio não escreveu a Odisseia, mas a Eneida; Homero ficou com Ulisses, embora não se saiba ao certo quem ficou com Homero. Sócrates bebeu cicuta; Séneca abriu as veias por ordem de Nero, que não estava no júri ateniense. Moisés não pronunciou a frase sobre os que não viram; foi Cristo, depois da incredulidade de Tomé. E Cleópatra dificilmente poderia ter seduzido César durante as Cruzadas, visto que ambos tiveram a indelicadeza de morrer mais de mil anos antes.
Deixei os erros ficar porque me pareceram expressivos. Esta é, aliás, a defesa mais usada por quem é apanhado em falso: o erro não era erro, era metáfora; a falsidade não era falsidade, era provocação; a ignorância não era ignorância, era uma crítica ao modo como construímos o conhecimento. Um homem pode confundir Aristóteles com Aristófanes e, descoberto o equívoco, declarar que quis demonstrar a proximidade secreta entre Filosofia e Comédia. Se o público aceitar, nasceu um ensaísta. Se não aceitar, nasceu uma polémica. Em qualquer dos casos, este homem será convidado para falar.
Por isso, sapientes leitoras e doutos leitores, quando não souberdes, experimentai uma extravagância: calai-vos. Não por humildade cristã, que dá muito trabalho, mas por vaidade bem administrada. O silêncio nunca é citado contra quem o produz.
Já uma opinião pode sobreviver vinte anos nas mãos de um inimigo, enquanto uma hesitação dura apenas o tempo de uma pergunta. E, por sua vez, um inteligente “não sei” dito a tempo poupa-vos à penosa tarefa de escrever três páginas para explicar que Virgílio era Homero em sentido alegórico.
Quanto à Odisseia, não vos direi se a adaptação é fiel, infiel, ruidosa ou sublime. Nem vi o filme, mas li com deleite este célebre romance de viagens em que o troiano Ulisses regressa a Esparta, embora já não saiba se todo, se metade ou apenas as páginas que não saltei. A memória, depois da morte, detém a mesma fidelidade de certas adaptações cinematográficas.
Mas posso assegurar-vos uma coisa: entre passar dez anos perdido no mar e passar três horas numa sala de cinema a olhar para o relógio, Ulisses escolheria o mar. Ao menos as sereias cantavam sem colunas Dolby Surround.
Adeus, e um piparote.
Brás Cubas
[Acaba Homero de me advertir de que Ulisses não era troiano, nem regressava a Esparta e aquilo que ele escreveu jamais poderia ser tido por romance. Felicitou-me, contudo, por eu conservar a Antiguidade, o Mediterrâneo e o protagonista. Nem toda a inexactidão alcança tamanha unidade.]
(não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)
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Daqui, de onde vos escrevo, rijas donzelas e hirtos cavalheiros, chegam os ministros sem motorista, os directores-gerais sem cartão de visita e os grandes homens sem o pequeno séquito que lhes sustentava a grandeza. Despojados do gabinete, da precedência protocolar e daquele ar de eternidade que acompanha os automóveis oficiais, ei-los a observar com rara nitidez uma verdade que, aí por cima, costuma circular mascarada de teoria política: o poder não transforma os homens; limita-se a proporcionar-lhes melhores instalações para exibirem aquilo que sempre foram.
Conceda-se a um sujeito um gabinete forrado a madeira, um chauffeur à porta, três assessoras à retaguarda, dois telefones sobre a secretária e a consoladora persuasão de que a sua consciência constitui uma fonte subsidiária de Direito, e logo o veremos confundir o próprio juízo com a razão de Estado. Consumada esta pequena transubstanciação administrativa — pela qual um mortal de expediente passa a considerar-se intérprete autorizado da Providência —, desaparece-lhe até o vocabulário vulgar da culpa.
O homem comum, quando se engana, pede desculpa — por vezes chega mesmo a corar, manifestação fisiológica que o exercício prolongado do poder tende a curar. O poderoso, quando se engana, convoca o contexto. Se o contexto não bastar, invoca a complexidade. Se a complexidade se mostrar ingrata, chama o interesse público, esse vasto guarda-chuva sob o qual cabem todas as conveniências privadas. E, quando se esgotam os substantivos administrativos, as perífrases técnicas e as nebulosas circunstâncias, surge finalmente o Bem, de toga branca, auréola regulamentar e honorários pagos pelo erário, a exercer o seu antigo ofício de advogado de causas perdidas.
In illo tempore — que é como quem diz, nos meus tempos de vivo —, o conselheiro Venâncio de Alvarenga, que serviu três ministérios do Império, atravessou quatro reformas administrativas e nunca chegou a perceber qual era a sua função, costumava dizer: “Autoridade que manda nunca erra; é apenas mal compreendida.”
Venâncio nunca leu Maquiavel nem Hobbes, nem sequer os editoriais do Diário de Notícias do senhor Filipe Alves, circunstância que muito favoreceu a sua carreira. Sabia apenas, pela observação paciente dos superiores, que o poder desenvolve no espírito uma espécie de alergia à culpa.
Segundo essa jurisprudência íntima do poder, o governante deixa de praticar actos: passa a atravessar circunstâncias. Não toma decisões discutíveis: enfrenta dilemas. Não beneficia ninguém: preserva relações institucionais. Não omite: jamais foi informado. Não se esquece: ocorreu uma efémera falha procedimental. E, quando o sucedido possui a indelicadeza de deixar vestígios, declara, com a serenidade dos mártires e o aprumo dos inocentes profissionais, que tudo fez em nome do Bem.
Eis por que não vos deve admirar que Luís Neves, quando por fim falou sobre aquilo que toda a gente conhece, tenha trocado o rés-do-chão dos factos pelo andar nobre da metafísica. A matéria é toda terrena: uma herdade alentejana e o seu empreiteiro de Barcelos, com obras secretas para a Polícia Judiciária, um tanque que ascendeu à dignidade balnear de piscina em zona protegida e algumas soluções arquitectónicas que parecem ter resultado de um conciliábulo entre um mestre-de-obras, um cenógrafo de telenovela e um proprietário de churrasqueira com leituras ocasionais de Andrea di Pietro della Gondola, vulgo Palladio.
Perante tão pedestre catálogo de terras, betão, água e contratos, Luís Neves preferiu elevar a defesa ao firmamento. E assim escolheu uma frase digna de figurar entre as grandes relíquias da antropologia política: “Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do Bem.”
A primeira metade da frase aparenta uma concessão; mas já a segunda recolhe-a imediatamente, embrulha-a e manda-a de volta ao remetente. Nem sempre acertou, admite Luís Neves; porém, os seus erros pertencem à categoria superior das falhas virtuosas. Tropeçou, talvez, nos meios, mas triunfou na geografia moral. Pode ter tomado a estrada errada, passado um sinal vermelho, abalroado dois regulamentos e estacionado sobre a responsabilidade, mas conduzia para o lado do Bem. E quem segue para o Bem, como sabe qualquer condutor de viatura oficial, julga-se, com inteira naturalidade, dispensado de portagens.
No meu Rio de Janeiro, o desembargador Honório de Sá Barreto, presidente vitalício de uma comissão imperial para apurar irregularidades, definiu assim esta magna matéria: “O erro do homem público não é propriamente erro quando a intenção traz plastrão.”
Esta frase vale por um tratado. Um delito, quando praticado em mangas de camisa, desce ao xadrez; de sobrecasaca, colete e gravata de seda, sobe a controvérsia administrativa. Uma omissão praticada por um contínuo dá processo disciplinar; cometida por um dirigente superior chama-se insuficiência de articulação. Uma vantagem recebida por um cidadão comum desperta suspeitas; recebida por um ministro transforma-se numa conjugação infeliz de circunstâncias. A hierarquia não melhora os actos, mas aprimora o vocabulário.
Mas a verdadeira engenhosidade da frase de Luís Neves consiste em transformar uma questão verificável numa questão celestial. Perguntam-lhe pelos factos; ele responde com a alma. Pedem-lhe procedimentos; ele oferece intenções. Querem saber quem decidiu, quem autorizou, quem recebeu, quem transportou, quem contratou, quem fiscalizou, quem declarou e quem se esqueceu de declarar; e ele apresenta o seu certificado de bondade.
Convenhamos: torna-se difícil acusar um homem que já convocou Deus como testemunha de defesa. A lei pede documentos; ele traz uma auréola. O escrutínio pede datas; ele exibe princípios. O cidadão pergunta se podia; ele, o governante, responde que só queria ajudar o povo. E assim, com tamanha santidade e água benta, se constrói, entre o verbo poder e o verbo querer, grande parte da ruína administrativa lusitana.
Quanto à idoneidade de Luís Neves, não me pronuncio, por cortesia, sobre a existência de crimes, ilegalidades ou culpas, matérias que competem a magistrados, inspectores e outros profissionais do verbo aguardar. O vosso país conhece os episódios, as relações, os contratos, as obras, o atrelado, os bidões, as declarações e as explicações. Conhece também aquela coreografia nacional em que um facto surge de manhã, uma justificação aparece à tarde e, à noite, já existem três versões, todas compatíveis com a honra do protagonista e nenhuma inteiramente compatível entre si.
Portugal nem é uma república de escândalos – é mais uma escola de exegese. Cada caso produz mais intérpretes do que testemunhas, mais comunicados do que certezas e mais indignação selectiva do que memória. O barão de Itapecuru-Mirim, subsecretário de Estado dos Negócios em governo efémero do Império, resumiu-me certa vez o método: “Quando o facto é desagradável, discuta-se a intenção; quando a intenção é duvidosa, discuta-se o tom; quando o tom é indefensável, abra-se então um inquérito.” O inquérito, como se sabe, é o purgatório administrativo onde os factos assentam e aguardam que a opinião pública morra primeiro.
Invocar o Bem é, na verdade, um salvo-conduto para a absolvição terrena, mesmo se, sendo falso, cause danação divina. Junto ao chão, como todos os advogados de reputação sublime, o Bem não costuma perder tempo com os pequenos trabalhos da administração corrente: não lê contratos, não confere assinaturas, não compara versões, não consulta declarações de interesses nem se rebaixa a essa vulgaridade rasteira a que os mortais chamam cronologia. E para semelhantes serviços dispõe de uma procuradora antiquíssima, diligente e infatigável, cuja presença se detecta em quase todas as absolvições autobiográficas: a Boa-Fé.
Ah, a Dona Boa-Fé! Delicadas leitoras e sensíveis leitores, estamos perante uma senhora de reputação imaculada, genealogia antiquíssima e hábitos francamente suspeitos. Comparece com assiduidade em todos os escândalos, entra sem ser anunciada, instala-se com elegância ao lado do acusado e, por uma dessas coincidências que fazem a fortuna das democracias, nunca é chamada a depor. Não consta dos autos, não assina documentos, não recebe avenças nem figura nas declarações de interesses. Surge apenas no momento oportuno, envolta numa alvura moral que os factos, gente grosseira e pouco dada a transcendências, teimam em não confirmar.
Discreta, incansável e extraordinariamente versátil, a Dona Boa-Fé serviu imperadores, tiranos, papas, inquisidores, cruzados, revolucionários, ditadores, ministros, vereadores, administradores de empresas públicas e até presidentes de junta. Nunca recusou trabalho, nunca pediu férias e jamais revelou incómodo por mudar de regime. Foi monárquica por devoção, republicana por civismo, revolucionária por humanidade, reaccionária por prudência e democrata por paixão. Tem, aliás, a invejável particularidade de se conservar sempre do lado certo — sobretudo depois de se saber qual deles venceu.
Encontramo-la em toda a parte: na mitologia e na Bíblia, nos palácios de Tebas e nos pretórios de Jerusalém, nos concílios e nas cruzadas, nas fogueiras do Santo Ofício e nas praças ensanguentadas da Revolução Francesa, nos gabinetes dos impérios coloniais e, nos nossos dias, nas salas climatizadas onde assessores de comunicação decidem que um abuso não passou de uma opção infeliz tomada em circunstâncias exigentes.
A Boa-Fé acompanhou a História como certas senhoras acompanham funerais: não conheciam intimamente o morto, mas fazem questão de ocupar um lugar na primeira fila. Torquemada, por exemplo, sempre julgou proceder de boa-fé quando defendia que salvava almas pelo fogo. A fogueira, considerada à luz da época e da doutrina aplicável, não constituía suplício, mas uma forma particularmente calorosa de acompanhamento espiritual. O Grande Inquisidor não queimava homens: promovia a sua reconversão térmica.
Robespierre possuía tanta boa-fé que precisou de uma guilhotina para a administrar em série. Sendo a virtude, no seu entendimento, inseparável do terror, tratou de assegurar à primeira os meios mecânicos indispensáveis ao exercício do segundo. Não mandava decapitar adversários: corrigia desvios cívicos pela altura do pescoço. A lâmina, rápida, igualitária e republicana, resolvia com exemplar eficiência os problemas que o debate parlamentar insistia em prolongar.
Pilatos, menos ambicioso e mais higiénico, limitou-se a lavar as mãos. Foi talvez o primeiro governante a compreender que a água não remove a culpa, mas melhora consideravelmente o retrato. “Não condenei Cristo”, esclareceria hoje em comunicado; “respeitei a autonomia decisória das autoridades competentes após uma consulta pública informal e perante forte pressão dos parceiros locais.”
Também Bruto matou César por boa-fé: não por inveja, ressentimento ou ambição, vícios plebeus e pouco compatíveis com a estatuária, mas para salvar a República. César caiu sob vinte e três punhaladas, todas elas, suponho, constitucionalmente motivadas por quem estava do lado do Bem.
A História ensina-vos, aliás, que a rectidão das intenções possui uma notável resistência ao sangue alheio. A Boa-Fé sempre esteve, de igual modo, ao lado dos conquistadores que atravessaram oceanos para civilizar povos que não tinham solicitado o favor, dos missionários que salvaram almas destruindo culturas e dos impérios que ocuparam territórios por altruísmo geográfico. As Companhias das Índias nunca exploraram: dinamizaram mercados de boa-fé. Leopoldo II jamais fez do Congo um domínio privado: implementou, também de boa-fé, um ambicioso projecto de modernização sujeito a alguns constrangimentos operacionais, demográficos e anatómicos.
Não suponhais, porém, que a senhora se reformou com os impérios coloniais. A História, escrita de boa-fé pelos vencedores e revista pelos respectivos gabinetes jurídicos, constitui em larga medida a arte de substituir os verbos desagradáveis por substantivos abstractos.
Os modernos, que herdaram dos antigos a consciência e acrescentaram-lhe consultores, já não lavam apenas as mãos. Lavam a biografia, higienizam o currículo, desinfectam as declarações e submetem o passado a uma limpeza profunda de reputação. Onde ontem existia um favor, aparece hoje uma “cooperação informal”. Onde se encontrava um conflito de interesses, descobre-se uma “proximidade institucional”. Onde houve omissão, ocorreu uma “falha de comunicação”. Onde alguém mentiu, produziu-se uma “imprecisão susceptível de interpretação descontextualizada”. O pecado, passando por um assessor, regressa ao mundo como lapso.
A Dona Boa-Fé adaptou-se admiravelmente a esta linguagem. Já não aparece de mantilha nem fala latim. Usa fato neutro, pronuncia-se pausadamente e inicia todas as frases com “importa esclarecer”. Quando os factos são incómodos, recorda as intenções. Quando as intenções parecem duvidosas, chama pelo contexto. Quando o contexto agrava a culpa, apela à complexidade. E, quando nem a complexidade se mostra suficiente, profere a fórmula sacramental: “Fiz sempre aquilo que entendi ser melhor.”
Eis a grande maravilha moral proporcionada pela Boa-Fé: permite que o poderoso seja, ao mesmo tempo, réu, juiz, testemunha abonatória e autor da sentença de absolvição. O Bem subscreve a defesa; a Boa-Fé fornece o álibi. Um proclama de que lado o homem estava; a outra dispensa-o de explicar o que fez.
Feita a genealogia da procuradora, regressemos ao cliente.
O ponto interessante neste episódio lusitano nem sequer está em saber se Luís Neves se considera uma boa pessoa. Todos se consideram. Nem vejo o Nero da lenda acordar uma manhã a pensar: “Hoje incendiarei Roma por maldade.” Julgar-se-ia, quiçá, apenas empenhado numa reforma urbanística de largo alcance. O Mal nunca se reconhece ao espelho; quando muito, acha-se enérgico, incompreendido e rodeado de assessores incompetentes.
A espécie humana possui uma capacidade inesgotável para converter conveniência em princípio e interesse em dever. O ladrão chama necessidade ao furto; o déspota chama ordem ao medo; o burocrata chama procedimento à cobardia; o político chama serviço público à permanência no cargo. E o homem público, quando sente o chão a ranger, chama Bem ao conjunto das suas intenções.
O vosso ministro Luís Neves faz-me, por tudo isto, lembrar o meu amigo conselheiro Ambrósio Furtado de Mendonça, que passou quarenta anos a fiscalizar contas alheias e os dois últimos meses da carreira a explicar as próprias. Depois de o processo ter sido arquivado entre suspeitas de favorecimento, auxílios providenciais e aquelas coincidências administrativas que só visitam os ocupantes de gabinetes importantes, deixou-nos esta sentença: “A consciência é um tribunal onde o réu nomeia o juiz, escolhe o escrivão e manda perder as actas.”
Nunca encontrei melhor definição em filósofo algum; e procurei em vários, embora nenhum deles tivesse sido director-geral.
Esta sentença explica, de facto, uma curiosa deformação produzida pelo exercício prolongado do poder: o titular começa por mandar nos outros e acaba convencido de que manda também no significado das palavras. Um favor sobe de categoria e torna-se cortesia institucional. Uma proximidade emagrece até se transformar em coincidência. Uma omissão é promovida a lapso. Uma vantagem recebida converte-se em equívoco. Uma irregularidade, depois de penteada, perfumada e entregue aos cuidados de um assessor, recebe o nome delicado de erro. E o erro, desde que cometido por alguém instalado do lado do Bem, adquire por fim a dignidade de sacrifício.
Os gregos, que compreendiam melhor estas coisas por não disporem de departamentos de comunicação, chamaram hybris à desmesura de quem se esquece da própria condição. O poderoso não precisa de se julgar um deus; basta-lhe acreditar que a sua rectidão o dispensa dos limites impostos aos restantes mortais. O protocolo encarrega-se do resto.
A tragédia começa nesse exacto momento: não quando o homem deseja o Mal, mas quando se convence de que o Bem que deseja legitima tudo quanto faz. O perverso assumido ainda reconhece a existência de uma fronteira, embora a atravesse; o virtuoso profissional apaga-a do mapa e manda instalar no lugar uma placa com a inscrição “interesse público”. Daí, talvez, a relação singular do poderoso com a responsabilidade. Um homem sem poder diz: “Talvez esteja enganado.” Um homem com poder declara: “Assumo inteiramente a responsabilidade” — frase que, traduzida do dialecto ministerial, significa quase sempre que não tenciona suportar consequência alguma.
O visconde de São Jerónimo das Pastas, ministro durante os seis dias do primeiro gabinete de Zacarias de Góis e Vasconcelos — que pela brevidade do mandato jamais foi responsável por qualquer decisão que tivesse chegado a tempo de ser tomada —, chamava-lhe “responsabilidade honorífica”: aceita-se com solenidade, ostenta-se na lapela durante a cerimónia e devolve-se intacta à saída, juntamente com o traje de gala.
Em política, uma profissão de alinhamento com o Bem ou com o Mal vale uma nonada quando é o próprio interessado quem passa a certidão moral. Não porque ambos se equivalham, mas porque nenhum pronunciamento subscrito pelo respectivo beneficiário prova coisa alguma. De resto, a metafísica não dispõe de conservatória: não emite certidões, não reconhece assinaturas nem arquiva processos.
Enfim, um governante pode ser bondoso, generoso, patriota, católico, sportinguista, amigo dos animais e tão incapaz de esmagar uma formiga que a própria criatura lhe atravessa o gabinete sem receio — e nenhuma dessas virtudes esclarece o que decidiu, por que motivo o decidiu, com que fundamento legal e em benefício de quem. A formiga até poderá sair comovida do gabinete; mas o processo continuará, imperturbável, à espera de factos, documentos e explicações.
Concedamos, ainda assim, por espírito de caridade, que Luís Neves permaneceu, mesmo, sempre do lado do Bem e nunca chegou sequer a vislumbrar o Mal, nem ao longe, por detrás de uma azinheira alentejana. Resta saber se permaneceu também do lado da lei, da prudência, da transparência e da responsabilidade. São lados menos luminosos, reconheço, sem anjos, trombetas ou querubins encarregados de lavrar pareceres, mas possuem a vantagem, bastante terrena, de poderem ser comprovados.
O resto pertence à teologia autobiográfica, género em que os vivos são insuperáveis: escrevem a própria Paixão, reservam para si o papel de Cristo e entregam aos jornalistas, aos juízes e aos cidadãos a ingrata função de romanos.
Quanto a mim, desconfio sempre de quem sente necessidade de anunciar o lado moral a que pertence. Os verdadeiramente bons jamais precisam de legenda — a virtude, quando autêntica, não costuma exibir-se em letras garrafais. São os outros que mandam fazer o cartaz — de preferência por ajuste directo, entregue a um empreiteiro de Barcelos, com os biscates de fim-de-semana liquidados em numerário. Em notas pequenas, de preferência.
(não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)
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No meu século, conheci hipócritas de grande talento. Eram homens respeitáveis, porque ao menos sabiam que representavam uma comédia, vestindo a virtude como quem traja casaca para um baile: por conveniência, por interesse ou por ambição. Neste cenário, a sinceridade, ainda que derrotada, conservava a dignidade de existir como termo de comparação. Na verdade, o vício precisava da virtude para se disfarçar.
Nos tempos hodiernos, a espécie aperfeiçoou-se nimiamente. Já não se finge aquilo em que não se acredita. Limita-se a dissimular que se perfilham as convicções que se imaginam dominar os outros. A diferença parece subtil, mas mede a distância que separa um actor de um eco. O primeiro interpreta um papel; o segundo limita-se a repetir um som. E nunca uma civilização como a vossa produziu tantas caixas de ressonância convencidas de que pensavam por si.
Por isso as opiniões dos vossos dias se parecem tanto umas com as outras. Não é por todos terem chegado às mesmas conclusões, mas por quase ninguém suportar o risco de chegar a uma conclusão diferente. Pensar tornou-se uma actividade perigosa. Já concordar, essa sim, converteu-se em forma elegante de sobrevivência social.
Não vos iludais, porém, intemeratas donzelas e galhardos cavalheiros: não estou a falar apenas da política, essa velha senhora que continua a receber culpas até quando alguém tropeça no passeio. Refiro-me a tudo. À arte, à literatura, à música, à publicidade, aos discursos institucionais e até às conversas de café, que outrora produziram mais filosofia do que muitos departamentos universitários. E até ao pontapé na bola.
Tomai como exemplo o hino oficial da vossa malograda selecção da Ludopédia, que tombou como um calhau no dia seguinte à minha canarinha se afundar contra o país do bacalhau. Não me lembrei de fazer esta crónica por ser má a cançoneta: durante a minha permanência entre os vivos, escutei coisas bastante piores, e nem agora, com os tímpanos comidos pelos vermes, deixei de ser incomodado por melodias de pior extracção. Também não me moveu a falta de talento dos seus intérpretes — que dizem possuí-lo de sobra. O alvo do meu interesse é outra coisa, assaz interessante: a extraordinária dificuldade contemporânea em dizer uma única frase que pareça nascer de uma convicção interior.
Tudo naquela letra da musiqueta do É Tuga ou Nada, encomendada pela Federação Portuguesa de Futebol, transmite a impressão de ter sido previamente autorizada por uma assembleia invisível encarregada de certificar que nenhuma sensibilidade ficaria por contemplar.
Nos primeiros versos, a letra procura instalar solenidade, mas acaba por revelar sobretudo ansiedade simbólica numa pátria convertida em anatomia cardiovascular de ocasião. As Quinas já não estão apenas na bandeira: foram alojadas no miocárdio. Portugal, pelos vistos, deixou de ser uma comunidade histórica, uma memória imperfeita, uma língua comum e uma sucessão de mortos ilustres e vivos desagradáveis, para se transformar numa arritmia patriótica. A paixão bombeia nas linhas, a coragem instala-se no ventrículo, o escudo marcha para a celebração, tudo amontoado como se fosse necessário garantir, logo à entrada, que ninguém confundiria aquilo com outra coisa que não Portugal.
Nada de mal em se convocarem símbolos nacionais — todos os hinos, como o dos “Heróis do Mar”, o fazem. Mas seleccioná-los de modo tão acumulativo faz a emoção depender menos da música e mais da enumeração. Em vez de uma imagem forte, tem-se uma vitrina. Em vez de uma convicção, um inventário.
Este primeiro verso quer comover, mas parece recear o silêncio entre dois emblemas. Por isso acrescenta mais um sinal, depois outro, depois outro ainda. Nada disto é grave — apenas caracteriza o vosso tempo: a incapacidade de confiar numa ideia simples, dita com sobriedade, sem a rodear de símbolos auxiliares, como muletas de uma emoção que já não sabe andar sozinha.
Na verdade, coisa nenhuma parece sair dos neurónios e nem sequer do coração — escreveu-se a partir de uma lista de verificação. Senão vejamos:
Quinas? Presentes.
Escudo? Obviamente.
Fado? Cá está.
Cristiano Ronaldo? Naturalmente.
Luís Figo? Também.
Eusébio? Pantera! Como não poderia deixar de ser.
Galo de Barcelos? Como poderia faltar?
Diversidade? Em quantidade regulamentar.
Modernidade? Devidamente certificada.
Patriotismo? Em doses reforçadas, mas homeopáticas, para não provocar alergias.
No meu tempo, um poeta começava por ter uma ideia. No vosso, começa por perscrutar se a ideia cumpre os requisitos. E depois mete muitos oh-oh-oh.
Chamam a isto inclusão. Permiti então que, nessa linha, um defunto tenha a vossa indulgência para sorrir, mesmo com alguns dentes já caídos da mandíbula. Incluir nunca significou empilhar referências como quem decora uma montra na semana do turismo. E um país não se torna mais plural porque pronuncia palavras pertencentes a grupos diferentes. Se assim fosse, a Torre de Babel teria sido o momento culminante da fraternidade humana e não o monumento eterno à incapacidade dos homens para se entenderem.
Depois surge a genealogia oficial dos santos da bola: do Eusébio ao Figo, do Figo ao Ronaldo, como se a epopeia nacional coubesse numa caderneta de cromos. Camões precisou de deuses, monstros, mares, Adamastores e oitavas reais. Os vossos bardos contemporâneos resolvem o assunto com uma sucessão de ícones federativos, bem alinhados, como retratos numa parede de restaurante temático. Do Figo ao Ronaldo é seguir o enredo, diz-se. Que enredo? O enredo de todos os hinos fabricados por comissão: começar na glória antiga, atravessar a glória recente e acabar numa esperança rimada com quebrança nos descontos de um jogo miserável contra castelhanos. A Padeira de Aljubarrota fez melhor.
A certa altura, escutei outra enumeração prodigiosa sobre uma voz, ou alguém, que possui “um tique de cigano”, fala alfacinha e ostenta “carapinha mandinga”. Confesso que interrompi, diversas vezes, a audição para verificar se não me encontrava diante de uma declaração antropológica emitida por um catálogo de património imaterial. Nada faltou, admito. Aqui há um pouco de tudo, apenas porque já ninguém acredita em nada. A ansiedade de incluir acaba por excluir aquilo que faz nascer qualquer obra: a personalidade.
E assim nasce neste hino uma extraordinária criatura dos vossos dias: o “híbrido”. O homem contemporâneo não nasce — é composto: um pouco de fado, um pouco de mandinga, um pouco de Barcelos, um pouco de inglês, um pouco de “indeed”, um pouco de vermelho, um pouco de verde, tudo misturado com a precaução de quem receia deixar fora da receita um ingrediente socialmente obrigatório. O doutor Frankenstein, se tivesse conhecido o departamento de comunicação de uma federação desportiva, não teria fabricado um monstro: teria criado um hino.
Depois apareceu-me o Galo de Barcelos a cantar “Fígaro, Fígaro”. Ri-me. Não do galo, pobre criatura que há séculos carrega nas costas o turismo lusitano sob a forma de pechisbeque, mas da facilidade com que os vossos símbolos são convocados para desempenhar qualquer função disponível. O infeliz que já provou a inocência de um peregrino, que já decorou cozinhas, que já ilustrou postais, agora estreia-se na ópera. Daqui a alguns anos não me admiraria de o ver presidir ao Banco de Portugal enquanto come um pastel de Belém servido pela Confeitaria Santos Pereira.
Admito, contudo, que o verso mais enternecedor é outro: “O meu fado é vadio e é antipolítico.” Antipolítico? Um hino destinado a representar simbolicamente uma comunidade nacional, patrocinado pela mais alta instituição do futebol português, celebrando a bandeira, a identidade colectiva e a união em torno de uma selecção… antipolítico?
Pilatos também lavou as mãos — e nem por isso deixou de participar na História. Nero talvez preferisse dizer-se melómano enquanto Roma ardia. Ulisses poderia jurar ser apenas turista enquanto inventava estratagemas. E Maria Antonieta, se tivesse tido assessores de comunicação, talvez se tivesse corrigido argumentando que o brioche era uma metáfora inclusiva sobre a soberania alimentar. Enfim, a política tem este aborrecido costume: aparece sobretudo quando alguém garante que não está lá.
A canção prossegue com esse achado pneumológico segundo o qual a fé conduz o pulmão. No meu tempo, a fé movia montanhas, consolava viúvas, incendiava conventos e justificava guerras. No vosso, pelos vistos, conduz aparelhos respiratórios de jogadores da bola.
Mas nada supera a frase “um por todos é a unidade a produzir plural”. Detive-me nela com a prudência de quem encontra, no caminho, um animal desconhecido: não sabia se devia admirá-la, temê-la ou chamar o veterinário. A unidade, nos velhos tempos, tinha a função modesta de unir; no vosso século, mais ambicioso e menos inteligível, já produz plural. Imagino, aliás, uma linha de montagem metafísica, com a unidade a entrar por um lado, fardada de boa intenção, e o plural a sair pelo outro, depois de escrupulosamente inspeccionado para garantir que nenhuma consciência se sentiria melindrada. Já não se está no domínio da poesia, mas da burocracia sentimental.
Também a bota, essa antiga serva do pé, ascendeu agora ao magistério. “A bota te ensina”, proclama-se, como se o ensino da História tivesse sido finalmente confiado ao calçado. Antanho, havia cronistas, arquivos, batalhas, navegações, tratados, túmulos e ruínas; hoje, pelos vistos, basta uma bota pedagógica. Não admira, assim, que os vivos de agora caminhem tanto e compreendam tão pouco.
A metáfora do parkour é igualmente preciosa. “Eles são o obstáculo, nós somos parkour.” Já não se vence o adversário — salta-se por cima dele com sapatilhas e metáfora de ginásio urbano. Se tivesse conhecido semelhante doutrina, talvez D. Afonso Henriques fundasse Portugal saltando um portão, façanha que agora seria registada, 883 anos depois, nas comemorações dos 900 anos presididas pelo Doutor Paulo Portas.
Em todo o caso, talvez nada denuncie melhor a insegurança das convicções do que a obsessão pela palavra “Portugal”. Repeti-la tantas vezes faz-me recordar certos pregadores que pronunciavam incessantemente o nome de Deus, não por excesso de fé, mas por receio de que alguém lhes descobrisse a descrença. As convicções profundas raras vezes necessitam de ser proclamadas a cada vinte segundos. Tal como um homem corajoso não passa a vida a informar os outros da sua bravura, um patriota seguro de si também não precisa de repetir “Portugal” a cada refrão.
Por fim, o remate é sublime: “é tuga ou nada”. Depois de tanta diversidade regulamentar, tanta pluralidade produzida, tanta identidade híbrida, tanta mandinga, tanto fado vadio, tanto inglês de importação, tanto pulmão conduzido pela fé, a canção regressa ao velho binário tribal: tuga ou nada. Dá a volta ao mundo para acabar na tasca. Quis ser cosmopolita, inclusiva, moderna, mestiça, patrimonial, federativa e emocional — e, afinal, termina a bater com a caneca no balcão. Quase aplaudi: ao menos ali, por um instante, a máscara caiu.
Tudo isto seria apenas uma curiosidade musical, não fosse representar tão bem o vosso século. Antigamente, os homens procuravam ser sinceros, ainda que errassem. Hoje procuram dar ares de irreverência, mas quedam-se na irrepreensível previsibilidade. Cada frase é escrita como quem atravessa um campo minado. Cada palavra olha primeiro para os lados antes de sair da boca.
Chamais a isto sensibilidade. Eu, que tive o privilégio de morrer antes desta epidemia, permito-me outro diagnóstico: medo. Medo de desagradar. Medo de destoar. Medo de não parecer suficientemente moderno. Medo de não parecer suficientemente inclusivo. Medo, sobretudo, de possuir uma voz que não venha afinada pelo coro.
Eis por que motivo esta canção me parece menos um hino do que um documento histórico. Não diz grande coisa sobre Portugal, mas proclama quase tudo sobre a época que a produziu: a espontaneidade substituída pelo cálculo, a convicção pela conformidade e a sinceridade pela eterna preocupação de parecer sincero.
Mas não desejo censurar os autores deste hino nem os actores pela qualidade da peça. Limito-me até a agradecer-lhes: sem o pretenderem, ofereceram-me uma magnífica oportunidade para estudar os vivos. E continuo convencido de que a maior tragédia da vossa geração não consiste em pensar mal, mas em nunca correr o risco de possuir uma ideia que não tenha sido antes homologada pelo espírito do tempo.
(não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)
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Confesso às sapientes leitoras e aos judiciosos leitores que nunca me impressionaram os imbecis. Conheci muitos no meu século. Alguns foram ministros, outros académicos, vários administradores, dois ou três poetas, um bispo, um banqueiro e pelo menos um sujeito que, segundo a imprensa da época, era especialista em tudo. Nenhum deles me causou grande espanto. Como a chuva miudinha de Novembro, a atrofia do pensamento é fenómeno antigo, persistente e costumeiro. E cai sobre todas as gerações com uma admirável imparcialidade democrática.
Aquilo que sempre me fascinou — e não o digo sem alguma ternura zoológica — foram os caçadores de imbecis. Esses, sim, merecem ser observados com atenção: constituem uma espécie curiosíssima, dotada de faro moral, paciência de entomologista e uma extraordinária vocação para encontrar no semelhante aquilo que, por prudência ou por milagre, não descobriram ainda em si próprios.
Se o imbecil comum se limita a existir, já o caçador de imbecis precisa sempre de uma missão, necessita de uma teoria, requer uma vocação. E, sobretudo, exige um rebanho suficientemente numeroso de estúpidos para justificar a sua própria superioridade.
Talvez por isso eu sempre tenha lido com particular interesse certas reflexões sobre o triunfo da estultícia contemporânea. Segundo essa escola de pensamento, a Humanidade atravessa agora uma época de singular imbecilidade. Os ignaros prosperam, os desassisados dominam e os obtusos multiplicam-se, enquanto a inteligência recua, a sabedoria bate em retirada e o acerto colapsa.
Tudo isto é muito comovente.
Sucede, porém, que semelhantes diagnósticos aparecem, com assaz regularidade, desde que os seres humanos aprenderam a escrever.
Hesíodo queixava-se da decadência dos homens. Cícero lamentava o declínio dos costumes. Santo Agostinho assistiu à queda de Roma rodeado de profetas do fim dos tempos. Erasmo escreveu um elogio à estultícia. Swift encontrou brutos por toda a parte. Schopenhauer tinha dificuldade em localizar alguém que não fosse um idiota. Nietzsche olhava para a Humanidade com o entusiasmo de quem observa um acidente ferroviário.
E, apesar de tantos séculos de imbecilidade, e de até eu já ter morrido, o mundo permanece e continuam a nascer imbecis.
Estas reflexões ocorreram-me, e decidi consigná-las ao papel, ao ler por estes dias uma entrevista da revista Visão ao escritor Valter Hugo Mãe, publicada por ocasião do aparecimento do seu romance O Século dos Imbecis, título que possui desde logo a rara virtude de proporcionar ao leitor uma sensação antecipada de inteligência, pois ninguém adquire semelhante volume supondo, ainda que por um remoto instante, que a designação estampada na capa lhe possa ser aplicável; pelo contrário, abre-o já confortavelmente instalado na convicção de que os imbecis são, por fatalidade estatística e por justiça moral, os outros.
Ora, exactamente como os pecadores dos sermões são sempre os vizinhos, os corruptos dos discursos políticos militam invariavelmente no partido adversário e os maus condutores são todos aqueles que, por manifesta perversidade cívica, teimam em partilhar a mesma estrada.
Valter Hugo Mãe — escritor de cuja inteligência, por um acaso, até já me ocorreu contestar — propõe-vos, através da personagem Agilulfo, uma alegoria curiosa e, devo admitir, involuntariamente divertida para quem observa estas coisas do alto da sua condição cadavérica. Agilulfo sobe a uma montanha e ganha discernimento; desce à povoação e perde-o. A inteligência parece residir nas alturas; a tacanhez, pelo contrário, prefere os lugares habitados.
Há nesta construção uma certa nostalgia dos antigos profetas, porque desde Moisés que os homens sobem aos montes para regressarem com tábuas da lei, revelações, mandamentos, doutrinas ou, pelo menos, uma opinião muito melhorada acerca da inferioridade intelectual dos que permaneceram cá em baixo.
A preocupação do escritor é séria: a sociedade infantiliza-se, a ignorância perde a vergonha, a informação transforma-se em entretenimento, a cidadania converte-se em espectáculo, a democracia corre o risco de ser entregue a pessoas insuficientemente preparadas para compreender a complexidade do mundo. E o belzebu a quatro com Donald Trump às cavalitas.
Seja-me permitido declarar que me diverte a presença inevitável de Donald Trump em conversas de intelectuais. Não porque Trump me interesse em particular — faz-me apenas lembrar um Napoleão III de província, enriquecido em negócios obscuros, com vocação de imperador constitucional e linguagem de cocheiro triunfante —, mas porque começo a suspeitar que o presidente norte-americano desempenha hoje uma função cultural muito semelhante à que o Diabo teve durante séculos na literatura religiosa.
O Diabo explicava quase tudo. Se uma colheita falhava, aparecia o Diabo. Se um monge caía em tentação, surgia o Diabo. Se uma jovem desenvolvia opiniões próprias, o Diabo era imediatamente convocado. A extraordinária vantagem do Diabo consistia em permitir explicar acontecimentos complexos através de uma única personagem.
Trump possui qualidades semelhantes. Uma parte considerável da intelectualidade contemporânea encontrou nele uma espécie de síntese portátil das ameaças modernas. A ignorância? Trump. O populismo? Trump. A degradação do discurso público? Trump. A simplificação do pensamento? Trump. O mau gosto? Trump. A decadência da civilização ocidental? Naturalmente, Trump.
Não afirmo que seja inocente. Limito-me a observar que uma personagem tão útil jamais poderia passar despercebida aos profissionais da inquietação pública.
André Ventura, evocado pelo senhor Mãe, desempenha entre a elite lusitana função semelhante, embora numa escala mais doméstica, quase municipal. Constitui aquilo a que os antigos teólogos chamariam uma presença pastoralmente indispensável. Não é apenas um político: é uma referência moral negativa, um instrumento de medição e uma régua. A sua mera existência permite que numerosas pessoas descubram, de forma instantânea, onde se encontram na hierarquia da virtude. Basta discordar dele e uma agradável sensação de superioridade intelectual começa a circular pelo organismo.
Não se trata, aliás, de fenómeno novo. Os santos, por exemplo, não dispensaram pagãos, cismáticos, tiranos, demónios e, em último recurso — quando já não bastavam os homens para justificar uma auréola —, dragões. A carreira de São Jorge, por exemplo, teria conhecido dificuldades consideráveis se o réptil, em vez de se apresentar pontualmente para o serviço da hagiografia, tivesse decidido rumar para a Nárnia. Sem dragão não haveria combate; sem combate, glória; sem glória, iconografia; sem iconografia, vitrais. E sem vitrais, milhares de fiéis teriam ficado privados de uma importante referência espiritual, para não dizer decorativa.
Suspeito que o mesmo sucede hoje com certos monstros políticos. Eles desempenham uma função litúrgica. São necessários porque permitem organizar sermões, facilitar conferências, justificar artigos, inspirar livros e consolidar identidades. E, ademais, permitem aos inteligentes reconhecerem-se mutuamente pela partilha dos mesmos receios, formando essa discreta confraria daqueles que, ao contemplarem o mundo, se felicitam por não se confundirem com ele. E com o povo.
De facto, o homem inteligente inevitavelmente descobre que a multidão não corresponde inteiramente às suas expectativas. Platão chegou a semelhante conclusão há mais de dois mil anos, circunstância que deveria inspirar alguma prudência aos que anunciam a novidade do fenómeno. O ateniense observou os seus contemporâneos e concluiu que talvez não fosse sensato deixar a cidade entregue aos cidadãos. Desde então, gerações sucessivas de espíritos superiores têm repetido a mesma inquietação com roupagens diferentes.
Mudam os séculos, mudam os regimes, mudam os figurantes, mudam os instrumentos tecnológicos, mas permanece inalterada a velha suspeita aristocrática de que o povo, quando deixado à sua espontaneidade, revela uma desconcertante tendência para não seguir os conselhos dos seus melhores.
É aqui, porém, que o assunto começa a tornar-se interessante. A figura verdadeiramente fascinante desta história, e do romance do senhor Mãe, não é o imbecil, porque este raras vezes faz alguma coisa digna de análise. Limita-se a viver: levanta-se, trabalha, vota, discute, engana-se, acerta ocasionalmente, regressa a casa e morre sem deixar tratados sobre a sua própria triste condição. O verdadeiro objecto de estudo é, repito, o homem que se dedica profissionalmente a identificar imbecis.
Esse homem, sim, merece atenção. Esse homem organiza categorias, estabelece critérios, define fronteiras, distribui certificados de lucidez e procede à delicada tarefa de separar os esclarecidos dos obscuros, os conscientes dos alienados, os sábios dos simplórios, os aptos dos ineptos e os eleitos dos condenados.
E tal actividade possui mesmo uma longa e respeitável tradição histórica: a Igreja identificou hereges, os tribunais buscaram blasfemos, os inquisidores localizaram apóstatas, os revolucionários descobriram contra-revolucionários, os marxistas encontraram burgueses, os burgueses encontraram marxistas, os moralistas localizaram libertinos e os libertinos localizaram moralistas.
Na verdade, a Humanidade parece incapaz de sobreviver sem a existência de determinadas categorias humanas destinadas a desempenhar o papel de ameaça necessária, porque toda a comunidade precisa de um espelho negativo através do qual possa contemplar as suas próprias virtudes.
Talvez por isso eu tenha ficado interessado, em particular, numa passagem da entrevista do senhor Mãe em que a preocupação deixou de ser apenas a existência da boçalidade e passou a ser a sua eventual maioria. Eis o velho fantasma: não basta que os imbecis existam; o verdadeiro terror consiste na hipótese de se tornarem numerosos. A questão nem é já a ignorância; é a sua democratização. O perigo não reside no erro; reside já na possibilidade de o erro ganhar eleições.
Não censuro semelhante inquietação. Ela é antiga, ilustre e frequentou as melhores bibliotecas da civilização ocidental, onde se cultivou sempre uma relação ambígua com a multidão: as elites amam-na quando a imaginam, temem-na quando a encontram.
Com efeito, o povo, quando existe em abstracto, é magnífico: possui dignidade, sabedoria ancestral, autenticidade, raízes culturais e uma infinidade de outras virtudes que os escritores lhe atribuem com generosidade. A dificuldade começa quando esse mesmo povo aparece, em concreto, com carne e osso, sob a forma de eleitores, consumidores, espectadores ou utilizadores de redes sociais, e manifesta opiniões próprias, algumas delas lamentáveis, outras absurdas e várias simplesmente diferentes daquelas que os seus pedagogos considerariam desejáveis.
Nesse instante, a venerável entidade chamada povo sofre uma curiosa metamorfose e transforma-se numa massa manipulável, desinformada, emocionalmente instável e perigosa em potência para a sobrevivência da democracia. É uma transformação quase alquímica. Basta uma urna.
Nada disto significa, evidentemente, que a estupidez não exista. Pelo contrário. Existe em abundância e com notável capacidade de adaptação. Sobreviveu à invenção da imprensa, atravessou a Revolução Industrial, resistiu ao aparecimento da universidade moderna e continua a prosperar numa época em que a Humanidade transporta no bolso mais informação do que aquela que estava disponível à maioria dos sábios do século XVIII. Tal resistência merece, aliás, uma certa admiração biológica.
No entanto, aquilo que me parece mais discutível é a tendência para imaginar que a estultícia, a imbecilidade e outros desdouros constituem património exclusivo das massas. Essa ideia não resiste a uma observação minimamente honesta da História: existem imbecis sem biblioteca e imbecis com biblioteca; existem ignorantes sem diploma e ignorantes com vários diplomas; existem simplórios que passam a vida em tabernas e simplórios que passam a vida em congressos internacionais; existem tolos que acreditam em teorias absurdas publicadas em obscuros sítios da internet e existem tolos que acreditam em teorias absurdas publicadas por editoras prestigiadas.
A distribuição da estupidez revela um igualitarismo que faria as delícias de muitos reformadores sociais. Por isso, olho com alguma desconfiança para a categoria do imbecil quando esta aparece excessivamente bem delimitada. Sempre que alguém me explica com grande segurança quem são os atrofiados de espírito do seu tempo, sinto uma irresistível curiosidade acerca do mapa utilizado para proceder à classificação. Quem desenhou as fronteiras? Quem elaborou os critérios? Quem distribuiu os certificados? Quem nomeou os inspectores? Foi o Doutor Simão Bacamarte?
Estas são talvez as perguntas que raramente aparecem nestas discussões. Quem certifica os certificadores? Quem examina os examinadores? Quem vigia os vigilantes? Quem garante que a inteligência encarregada de identificar a estupidez não acaba por desenvolver uma certa embriaguez de superioridade?
Tal facto deveria introduzir alguma modéstia no debate. Mas a modéstia nunca foi uma paixão dominante entre os intelectuais. Talvez resida aí a verdadeira ironia deste Século dos Imbecis. E não é na abundância dos imbecis, que sempre existiram e continuarão a existir enquanto houver seres humanos, mas sim a extraordinária proliferação dos seus especialistas, dos seus comentadores, dos seus intérpretes, dos seus cartógrafos, dos seus inspectores e dos seus certificadores, todos ocupados a medir a estupidez alheia com instrumentos cuja calibração nem aceitam discutir.
E assim se vai aperfeiçoando a humanidade: de um lado, os imbecis; do outro, os homens que os contam, catalogam e denunciam — sem jamais ocorrer a nenhum deles que talvez estejam todos no mesmo inventário.
Adeus; e, antes que me venham medir a caveira, um piparote.
Confesso aos leitores que, sendo eu um defunto de longa experiência, já vi muitas coisas. Vi médicos receitarem sanguessugas, vi alquimistas prometerem ouro, vi economistas garantirem prosperidade universal e vi até deputados jurarem moderação fiscal. Mas poucas vezes testemunhei espectáculo tão requintadamente moderno como o de assistir a alguns dos mais ardorosos evangelistas da vossa recente pandemia subirem agora a palcos para falar de ética, verdade e desinformação.
Sucedeu recentemente numa FNAC Talks, sob o título pomposo de “Saúde sob pressão: ética e verdade na era da desinformação”. O lema era ainda mais ambicioso: “Repensar, desafiar e agir”. Ora, quando li aquilo, quase deixei cair a tampa do meu caixão. Repensar? Desafiar?
Logo ali, diante de vós, encontrava-se um dos rostos mais visíveis do sacerdócio pandémico português. O doutor Filipe Froes, homem que durante anos distribuiu certezas com a generosidade de um frade distribuindo hóstias. Se houve dúvidas, eram dos outros. Se houve perguntas, eram dos outros. Se houve contestação, era desinformação. A ciência, como o Espírito Santo, manifestava-se através de canais muito específicos.
Não me interpretem mal. Não censuro um doutor por ter opiniões, mas deslumbra-me a metamorfose. Ontem era ele o guardião das verdades oficiais; hoje surge como arauto do pensamento crítico. Ontem combatia os hereges; hoje convida-vos a desafiar dogmas. Convenhamos, é uma evolução tão admirável que Darwin, se a tivesse presenciado, teria acrescentado um capítulo inteiro à sua teoria.
Acresce um pormenor delicioso. Durante a pandemia vendeu ao público determinados fármacos e intervenções com entusiasmo missionário. Anos depois, muitos revelaram um destino menos glorioso. Uns mostraram-se equivalentes ao velho Melhoral da minha infância: não faziam grande bem nem grande mal. Outros, menos afortunados, suscitaram interrogações que continuam a ser discutidas por médicos, investigadores e reguladores. Mas sobre isso reina frequentemente um silêncio de biblioteca fechada.
Ora, é por essa capacidade de atravessar os anos sem que a dúvida lhe perturbe a compostura, por essa arte superior de nunca permitir que os factos importunem as convicções previamente estabelecidas, que decidi distinguir o ilustre clínico.
Assim, reunido comigo mesmo, deliberei atribuir ao Doutor Filipe Froes o Prémio Pinóquio na Lata.
Não um Pinóquio vulgar, de madeira artesanal e nariz variável conforme as circunstâncias. Não. Um Pinóquio industrial, esterilizado, homologado, embalado a vácuo e pronto para consumo mediático.
Receberá ainda uma bússola comemorativa que aponta invariavelmente para a mesma direcção, qualquer que seja a posição dos factos. Porque, se há homens que seguem a realidade, outros há que aguardam, serenamente, que a realidade acabe por lhes obedecer. O Doutor Filipe Froes pertence, sem dúvida, à segunda categoria. E isso, caros leitores, merece não apenas um Pinóquio — merece uma lata inteira.
Brás Cubas
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Nota: A ilustração é executada por inteligência artificial sob instruções humanas.