CORREIO MERCANTIL DE BRÁS CUBAS
(não inclui esta crónica inédita; para ler o prólogo e três crónicas do livro, veja aqui)
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Morto como estou — e a morte, entre outras vantagens, concede-nos a deliciosa liberdade de observar os vivos sem a obrigação de os aturar —, julgava ter adquirido alguma imunidade às extravagâncias humanas. Enganei-me. Os vivos persistem numa fertilidade moral que desmentiria qualquer teoria da escassez intelectual. Desde cedo os vi converter preconceitos em princípios, disparates em doutrina e vaidades em sistemas filosóficos.
No meu tempo, homens instruídos discutiam frenologia com a solenidade com que hoje se discute justiça social; media-se o carácter pelo crânio, a virtude pelo aperto de mão e, suponho, a alma pela inclinação da pilosidade maxilo-mentoniana. A estupidez, quando comparece de casaca, continua a ser estupidez — apenas melhor vestida.

Na verdade, muitos vícios humanos mudam apenas de indumentária. E entre os mais persistentes conta-se este curioso impulso de classificar os semelhantes, como se a humanidade fosse um arquivo mal organizado que exigisse gavetas, etiquetas e critérios de triagem moral. Essa classificação jamais se concerta por inocente amor taxonómico: classifica-se para distinguir, distingue-se para separar e separa-se, com frequência admirável, para discriminar com boa consciência, oferecendo sempre o prazer suplementar da hierarquia, para quem a faz, perfumada de elegantes intenções.
Os antigos faziam esta segregação com a brutalidade simples de quem ergue muralhas e aponta lanças; os modernos, mais delicados e infinitamente mais vaidosos da sua própria virtude, preferem fazê-lo com manifestos, mesas-redondas e comunicados redigidos num dialecto moral que mistura sociologia apressada, terapia colectiva e catecismo administrativo da bondade pública.
A minha geração — cínica, mas ao menos suficientemente airosa para não fingir pureza — acreditava ainda que o ridículo humano residia sobretudo na ambição, no dinheiro ou no adultério. A vossa descobriu prazer mais subtil: catalogar almas enquanto proclama detestar classificações. Já não exclui, nem separa, nem ergue muros — representa, visibiliza e desenha compartimentos terapêuticos. O carcereiro metamorfoseou-se em curador, transformando a grade em política cultural, e a segregação em pedagogia.

Não me interprete mal, clarividente leitora e lúcido leitor, sobretudo se pertence àquela fauna moral que se indigna antes de compreender. Não deploro a intenção de reparar injustiças, ampliar vozes negligenciadas ou corrigir silêncios históricos. Seria indigno até de mim — e eu, como sabem, nem sempre fui modelo de virtudes. Não ignoro que há feridas históricas, exclusões reais e injustiças antigas; conheci demasiados homens para acreditar na inocência das sociedades.
Roma falava de civilização enquanto alimentava escravos; Atenas celebrava a democracia deixando metade da população fora dela; os espanhóis levavam Cristo numa mão e correntes na outra. Mesmo o meu século, tão enamorado das palavras “progresso” e “civilização”, como certas tias solteiras acreditam em sobrinhos promissores, supunha que a humanidade avançaria graças a parlamentos eloquentes, ministros de suíças respeitáveis e homens graves que escreviam relatórios intermináveis com consciência curta. Ingénuos.
A vossa época, mais engenhosa e incomparavelmente mais vaidosa, persuadiu-se de que a redenção moral da espécie humana depende da correcta arrumação vocabular, da vigilância terminológica e da multiplicação de categorias identitárias, como se a alma humana — essa velha rameira filosófica — pudesse ser reformada por despacho semântico.

Ora, todo este introito apenas porque me chegou notícia de uma editora portuguesa, a Vírgula d’Interrogação, destinada, em exclusivo, à publicação de autores negros, empreendimento apresentado não como exclusão — Deus nos livre de palavra tão deselegante —, mas como “reparação”, “visibilidade”, “representatividade” e outras expressões pertencentes à vasta indústria contemporânea do humanismo burocrático. A intenção será nobre. Até Calígula, se acreditarmos em Suetónio — e às vezes convém não acreditar demasiado em biógrafos romanos —, julgava dignificar o Império ao promover cavalos…
A História, porém, tem o desagradável hábito de revelar que boas intenções são frequentemente apenas disparates bem penteados. Nada disto me espanta — diverte-me apenas, com a melancólica alegria própria dos defuntos. Depois de séculos a tentar convencer a humanidade de que inteligência, sensibilidade e génio não obedecem a critérios raciais, anatómicos ou genealógicos, surge enfim uma nova pedagogia segundo a qual a primeira questão diante de um manuscrito já não será “como escreve?”, mas “quem escreve — e com que composição epidérmica?”
Dir-me-ão os espíritos mais sensíveis que se trata de pluralidade, reparação histórica e abertura a vozes marginalizadas — expressões que fazem jovens doutorandos suspirar de satisfação epistemológica. Talvez contenham uma nova e universal verdade do amanhã: a literatura deixa de ser arte da inteligência humana para se tornar repartição antropométrica.

Imagino o editor do futuro — mistura de sacerdote moral, técnico de recursos humanos e funcionário de repartição com consciência sociológica — inclinando-se sobre um romance sublime, escrito talvez com a profundidade psicológica de Dostoievski e a ironia de Voltaire, para perguntar, com gentileza democrática:
— Muito interessante. E quanto à melanina?
Esta ideia possui uma admirável elasticidade. Se há editoras para autores negros, por que não para ruivos, tão difamados desde Judas? Ou para canhotos, perseguidos a ponto de a própria língua associar a mão esquerda ao sinistro? Admito ainda uma chancela dedicada a poetas traumatizados por hamsters agressivos na infância. O absurdo moderno, felizmente, possui sempre departamento de comunicação.
Talvez se objecte que exagero. Exagero sempre — é uma das poucas vantagens da morte. Examinemos, porém, a lógica até ao fim. Se o fundamento da selecção editorial passa a ser a identidade biológica ou cultural do autor, então a literatura deixa de ser território de universalidade humana para se transformar num condomínio de experiências autenticadas. Não basta escrever sobre a dor; é preciso possuir certificação genealógica da dor. Não basta compreender o outro; é necessário sê-lo por certidão de pia baptismal ou credo.

Ainda bem, aliás, que semelhante critério nunca vigorou no meu tempo. Tivesse eu sido publicado apenas na “Editora Imperial para Cavalheiros Brancos de Extração Conveniente”, e talvez aquele mulato subtilíssimo chamado Machado de Assis — génio que conhecia a alma humana melhor do que muitos médicos conhecem o fígado — jamais tivesse tropeçado na minha existência.
As minhas modestas frivolidades morreriam comigo; Quincas Borba continuaria a desenvolver o Humanitismo sem discípulos; Rubião enlouqueceria sem nome conhecido; e Sofia permaneceria apenas uma adúltera provinciana em vez de adquirir eternidade literária. A própria literatura brasileira perderia um dos seus grandes milagres: um homem nascido de um negro e de uma açoriana, entre limitações sociais e raciais tão reais quanto estúpidas, a produzir uma obra cuja inteligência esmagou essas categorias.
Convém, aliás, recordar aos contabilistas da identidade que Machado de Assis não venceu por ser negro, mulato ou branco: venceu porque era um génio. E reduzir um génio à utilidade sociológica da sua epiderme seria, parece-me, uma forma moderna de diminuição intelectual.

Em todo o caso, algo de deliciosamente hegeliano existe na Vírgula d’Interrogação: a tese antirracista produzindo, por excesso dialéctico, uma nova paixão classificatória. Diógenes, que procurava um homem honesto com uma lanterna, precisaria hoje de uma tabela cromática Pantone. Montaigne, que fez da dúvida um método civilizacional, seria acusado de insuficiente consciência identitária. Voltaire perguntaria, com o seu veneno habitual, se a tolerância moderna consiste em amar a humanidade dividindo-a cuidadosamente em compartimentos certificados. E Nietzsche, esse inimigo feroz dos rebanhos morais, observaria talvez que o ressentimento encontrou finalmente um vocabulário universitário.
Não se conclua, porém, que defendo uma literatura asséptica, neutra ou abstractamente universal — conceitos que costumam agradar a espíritos preguiçosos. Será desejável que existam mais autores africanos, asiáticos, indígenas, árabes ou de qualquer outra proveniência no mercado editorial? Evidentemente. Será saudável que leitores descubram experiências históricas e culturais diferentes? Sem dúvida.
Mas tive sempre para mim que a grande literatura nascia dessa monstruosa faculdade humana de sair de si própria. Um russo habita um francês; um brasileiro compreende um português; Shakespeare convence-nos a sofrer por um príncipe dinamarquês que nunca existiu; e este vosso criado defunto teve a honra póstuma de ser compreendido por um mulato carioca de génio incomparável.

Quando se tentar ensinar que certas experiências pertencem apenas aos seus proprietários biográficos, que a imaginação deve apresentar certidões e que a sensibilidade carece de homologação epidérmica, não estarão a ampliar a literatura — estarão, sim, a reduzir a humanidade.
Mas talvez eu esteja enganado. E pode bem suceder que o futuro me desminta, instituindo, portanto, editoras para ruivos melancólicos, canhotos oprimidos e poetas traumatizados. Se assim for, aceito desde já a inevitável modernidade. Tal como me resigno à minha eterna falta de melanina.
Adeus, e um piparote.
Brás Cubas