A poluição saiu das manchetes, não das chaminés

black metal tower with smoke

Comecei no jornalismo a escrever sobre Ambiente. Foi há mais de três décadas, numa época em que os temas ambientais ainda não tinham sido transformados numa gigantesca indústria política, comunicacional e financeira. Escrevi na revista Fórum Ambiente, mais tarde no Expresso, acompanhei debates sobre poluição industrial, resíduos perigosos, qualidade da água, saneamento básico, ordenamento do território, impactes ambientais e conservação da natureza. Nessa altura, o Ambiente era um tema complexo, multifacetado e, sobretudo, concreto.

Ao longo dos anos fui diversificando as minhas áreas de trabalho jornalístico. O Ambiente nunca desapareceu das minhas preocupações, mas acabou por perder espaço no meu quotidiano profissional. Ainda assim, o interesse manteve-se. Talvez por isso tenha recuperado e registado novamente a marca Fórum Ambiente, não por nostalgia, mas porque continuo a acreditar que o jornalismo ambiental é demasiado importante para ser reduzido a slogans publicitários ou a campanhas de marketing institucional.

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Foto: Alexander Tsang.

Nos anos 90 escrevi muito sobre alterações climáticas. Fi-lo quando o tema ainda não ocupava manchetes diárias nem alimentava conferências internacionais com milhares de participantes. Contudo, à medida que o debate evoluiu, fui também desenvolvendo um crescente espírito crítico relativamente ao modo como as alterações climáticas passaram a ser utilizadas como instrumento político, económico e reputacional.

Não deixei de questionar a existência do fenómeno nem a necessidade de o estudar de forma séria, e tomar medidas. Questiono, isso sim, a forma como uma parte significativa do discurso público europeu, perante um facto de ser a China hoje a ‘ditar as regras’ (pela dimensão das suas emissões), transformou as alterações climáticas numa espécie de monarquia absoluta do Ambiente, capaz de canibalizar todos os outros problemas ambientais.

O resultado está hoje à vista. Enquanto governos anunciam metas de neutralidade carbónica, empresas exibem relatórios de sustentabilidade cuidadosamente ilustrados e parte da comunicação social reproduz comunicados empresariais com escasso espírito crítico, temas como a poluição atmosférica convencional, a contaminação da água, os resíduos industriais, os metais pesados ou a degradação dos ecossistemas foram desaparecendo da agenda mediática. Não porque os problemas tenham sido resolvidos. Simplesmente porque deixaram de ser convenientes. Aliás, hoje muitos problemas estruturais são ‘desculpados’ alegando as alterações climáticos: os incêndios rurais são um exemplo.

Refinaria de Sines. Foto: Galp.

O fenómeno tornou-se muito visível na relação estabelecida entre alguns dos maiores grupos económicos nacionais e uma parte da imprensa portuguesa. Empresas como a Galp, a Navigator, a Secil ou a Cimpor surgem, com frequência, associadas a grandes campanhas de comunicação sobre sustentabilidade, transição energética ou responsabilidade ambiental. Muitas dessas iniciativas beneficiam de uma cobertura jornalística surpreendentemente benevolente, quando não mesmo de parcerias mediáticas cuja promiscuidade deveria suscitar maior reflexão editorial. O resultado é um debate público centrado na narrativa e menos atento à realidade mensurável.

Mas a realidade tem uma característica incómoda: insiste em existir independentemente das narrativas.

Por essa razão, o PÁGINA UM decidiu iniciar um novo grande dossier ambiental baseado em dados oficiais. Fomos analisar o Pollutant Release and Transfer Register (PRTR), a base de dados gerida em território nacional pela Agência Portuguesa do Ambiente que reúne as emissões declaradas por centenas de instalações industriais e produtivas. Não começámos pelo dióxido de carbono. Não porque seja irrelevante, mas porque o seu peso esmagador tende a ocultar tudo o resto.

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Foto: Patrick Hendry.

Aquilo que encontrámos foi um retrato muito mais complexo da poluição atmosférica portuguesa. A análise das emissões declaradas em 2024 mostra que refinarias, cimenteiras, fábricas de pasta e papel, centrais de biomassa, siderurgias, unidades vidreiras e até algumas infra-estruturas ambientais continuam a libertar para a atmosfera quantidades significativas de partículas, óxidos de azoto, óxidos de enxofre, compostos orgânicos voláteis, metais pesados e outros contaminantes com impacto directo na saúde humana e nos ecossistemas.

Entre os nomes que surgem, de forma repetida, ao longo dos diversos poluentes encontram-se empresas como a Galp, através da Refinaria de Sines, a Navigator, a Cimpor e a Secil, ao lado de outros operadores industriais relevantes.

Importa sublinhar que este trabalho não pretende demonizar empresas nem ignorar a importância económica dos sectores industriais. Uma sociedade moderna precisa de energia, cimento, papel, vidro, aço e inúmeras outras actividades produtivas. O problema começa quando o debate público deixa de querer saber quais são os custos ambientais associados a essas actividades. Uma democracia madura não escolhe entre Economia e Ambiente. Exige transparência sobre ambos.

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Foto: Robina Weermeijer.

Este primeiro trabalho constitui apenas o início. Nas próximas semanas analisaremos a poluição da água, os resíduos, os contaminantes específicos e outras dimensões agora frequentemente esquecidas do problema ambiental português. Não partimos de preconceitos nem de agendas ideológicas. Partimos de dados oficiais.

Talvez a principal conclusão deste primeiro capítulo seja, em simultâneo, simples e incómoda. A poluição não desapareceu. Apenas deixou de ser notícia. E quando um problema deixa de ser notícia sem ter deixado de existir, isso diz-nos muitas vezes mais sobre o estado do jornalismo do que sobre o estado do Ambiente.