Promiscuidades: directora do jornal Agroportal tem empresa de comunicação e agora até faz assessoria de imprensa


Não é só nos maiores órgãos de comunicação social portugueses que há jornalistas a exercer actividades incompatíveis com o jornalismo. A promiscuidade na imprensa também atinge publicações mais pequenas e especializadas.

Sara Pelicano, jornalista (CP 5640) e directora de uma publicação online sobre o sector agrícola, o Agroportal, tem uma empresa de marketing e comunicação — a Tinta Pertinente — e, segundo com o director-geral da Associação de Jovens Agricultores Portugueses, é agora a sua nova assessora de imprensa.

Foto: D.R.

Assim, de acordo com o Agroportal e o Portal da Transparência da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), Sara Pelicano é a directora daquele meio de comunicação online. O Agroportal é detido por José Diogo de Albuquerque, antigo secretário de Estado da Agricultura, quando Assunção Cristas foi ministra.

Em simultâneo, a jornalista criou, em Junho de 2024, a empresa Tinta Pertinente que tem um vasto objecto social que inclui “consultoria nas áreas de comunicação”, “implementação de planos de comunicação para empresas e outras entidades”, “actividades de relações públicas e comunicação” e “produção de conteúdos de suporte à comunicação empresarial e consultoria de marketing”.

A empresa, com um capital social de 2.000 euros, é detida a meias com o marido, Pedro Valente Ferreira, e Sara Pelicano é gerente e a única funcionária. No primeiro ano de actividade — que teve apenas seis meses — a empresa facturou 22 mil euros, o que corresponde, em média, a uma receita de quase 3.700 euros por mês. As contas de 2025 ainda não foram apresentadas.

Foto: Captura de imagem do site da empresa de Sara Pelicano.

Contudo, desde pelo menos 2023 que a jornalista se apresenta como representante da Tinta Pertinente, designadamente em conferências onde foi moderadora.

A empresa, além de um site, está presente nas redes sociais, designadamente no Facebook e no LinkedIn, e tem publicações recentes. Sara Pelicano não esconde que detém a empresa. No LinkedIn, a jornalista consta como a única funcionária da empresa e há três meses partilhou uma publicação da Tinta Pertinente a publicitar a própria empresa.

No site da empresa, surge em destaque a frase “marketing de conteúdo e comunicação”. Os serviços oferecidos incluem a produção de blogs, revistas, newsletters e conteúdos multimédia. E acrescenta: “a Tinta Pertinente é especialista na produção de conteúdo para diversos suportes e pode ajudá-lo a trilhar o caminho do marketing de conteúdo e comunicação”.

Página da Tinta Pertinente no LinkedIn. Sara Pelicano surge como funcionária. / Foto: Captura de imagem

A jornalista especializou-se no sector agrícola e agroflorestal e o seu nome é conhecido no meio das associações destes sectores. Sara Pelicano também consta como coordenadora editorial da revista Agrotejo, pertencente à União Agrícola do Norte do Vale do Tejo.

No sector, a jornalista é apontada como colaboradora activa de outras revistas de associações do sector. Também tem artigos publicados em outras publicações, como a Revista Sustentável e a Vida Rural, ambas da Abilways Portugal (Skolae Formação). Há alguns anos, também colaborava na Saúde Oral, uma revista especializada dirigida a profissionais de medicina dentária, higienistas orais e técnicos de prótese dentária detida pela News Pharma (ex-Coloquial Form), empresa de comunicação empresarial gerida por João Paixão Martins.

Além de ser jornalista, colaboradora de publicações empresariais, e deter uma empresa de comunicação, o PÁGINA UM apurou também que Sara Pelicano é já a nova assessora de imprensa da Associação de Jovens de Agricultores de Portugal, confirmado esta sexta-feira por esta associação ao nosso jornal.

Sara Pelicano surge como coordenadora editorial na ficha técnica da revista Agrotejo, uma publicação da União Agrícola do Norte do Vale do Tejo. / Captura de imagem da edição de Novembro de 2025.

Esta sexta-feira, o PÁGINA UM enviou questões por e-mail a Sara Pelicano, que respondeu às mesmas por telefone, por sua iniciativa. A jornalista negou que estivesse em situação de incompatibilidade. Garantiu que a sua empresa não presta serviços de comunicação e que apenas presta serviços “de jornalismo”. Também negou que publicasse artigos em revistas de associações ou empresariais ou que colaborasse com este tipo de publicações.

Sobre as suas alegadas novas funções como assessora de imprensa da AJAP, afirmou que ainda está a decidir se aceita o cargo ou não. “Se decidir aceitar, vou pedir para ‘cancelar’ a carteira [de jornalista]”, disse. No entanto, pouco depois deste telefonema de Sara Pelicano, o PÁGINA UM confirmou directamente com o director-geral da associação, Firmino Cordeiro, que a AJAP indica a jornalista como sendo a sua nova assessora de imprensa.

Já após estes contactos, ao início da noite desta sexta-feira, Sara Pelicano comunicou por SMS que não tinha autorizado nenhuma “entrevista” por telefone e que as suas respostas não poderiam ser utilizadas para “fins jornalísticos”. Isto apesar de ter sido a própria Sara Pelicano a telefonar à jornalista do PÁGINA UM, que se identificou sempre como tal, para responder às questões enviadas por e-mail. E na conversa telefónica, Sara Pelicano chegou a perguntar se o jornal ainda precisava de respostas por escrito. Foi-lhe dito que as respostas já estavam dadas.

Um artigo de Sara Pelicano sobre bioprodutos florestais valeu à jornalista um prémio patrocinado pela associação de empresas da “bioindústria”, a Biond (ex-CELPA). Ou seja, a jornalista foi premiada por um artigo que escreveu em que destaca os produtos das empresas representadas pela Biond.
/ Foto: captura de imagem do LinkedIn

A jornalista, por via destas ligações, está bem cotada no meio das associações dos sectores agrícola e agroflorestal. Aliás, recentemente, foi premiada por um artigo publicado no Agroportal sobre “Floresta: Da gestão activa no território aos novos bioprodutos de valor acrescentado“.

O prémio foi patrocinado pela Biond (ex-CELPA), associação que reúne os gigantes do sector da celulose e do papel, como a Altri, a Navigator e a Renova. A Biond apresenta-se como sendo representativa da “bioindústria” em Portugal, que produz e vende “bioprodutos”, mesmo se continua a ser um dos sectores industriais mais poluentes, de acordo com o Registo de Emissões e Transferência de Poluentes gerido pela Agência Portuguesa do Ambiente. As questões da poluição das fábricas de celulose não constam do artigo premiado de Sara Pelicano com o patrocínio da Biond, que promoveu o texto no seu site.