
Título
Economia Comestível
Autor
HA-JOON CHANG (tradução: Dinis Pires)
Editora
Casa das Letras (Março de 2026)
Cotação
17/20
Recensão
Ha-Joon Chang nasceu em Seul, na Coreia do Sul, em 1963, e especializou-se em economia institucional e do desenvolvimento. Chegou ao Reino Unido em 1986 como estudante de pós-graduação em Cambridge, onde fez o seu doutoramento e ensinou economia durante mais de três décadas, entre 1990 e 2022. É actualmente professor de economia na School of Oriental and African Studies (SOAS) da Universidade de Londres, e consultor de organismos como o Banco Mundial, o Banco Asiático de Desenvolvimento e diversas agências das Nações Unidas. Vencedor do Prémio Myrdal de 2003 e do Prémio Leontief de 2005, é autor de obras de referência como Kicking Away the Ladder, Bad Samaritans e 23 Things They Don’t Tell You About Capitalism.
Em Economia Comestível (editado pela Casa das Letras), Chang não abandona o rigor que o distingue, pelo contrário, torna-o ainda mais precioso nesta época de tantas dissensões e crescentes conflitos bélicos ao nível mundial. É quase sempre uma questão de poder, e este livro mostra-nos que a territorialidade representada pela origem dos produtos e bens alimentares é, afinal, uma falácia. O cacau e a banana são dois dos inúmeros exemplos com que o autor nos presenteia.
O modo cativante e original como inicia cada capítulo, invocando, chamemos-lhe, um superalimento (não no sentido nutricional tão em voga, mas no que significa em termos de trocas e de poder económico), revela-se uma estratégia vencedora. A economia mundial explicada por metáforas, por receitas e pela história dos alimentos torna o assunto acessível ao leigo e a todos quantos têm dúvidas sobre as razões por que tantos conflitos são espoletados, de forma contínua e aparentemente sem fim à vista.
Chang confessa-o no próprio prefácio, afirmando que as histórias de comida funcionam como o gelado que algumas mães oferecem para persuadir os filhos a comer os “verdes”. Mas acrescenta, com razão, que as histórias económicas são recompensas por si só, uma vez que são mais variadas e complexas em sabor. É uma promessa cumprida ao longo de dezassete capítulos, cada um baptizado com o nome de um alimento, do camarão ao chocolate, passando pela cenoura, a massa, o frango, até ao centeio ou morango.
A estrutura é deliberadamente não convencional, e é precisamente aí que reside a sua força. Mais do que escrever sobre a economia dos alimentos, Chang discorre acerca da economia do mundo, e os alimentos são uma espécie de trampolim. Uma reflexão sobre as anchovas desemboca na importância do investimento em ciência e tecnologia. O capítulo do morango evolui para uma meditação sobre a automação e o futuro do trabalho. E a cenoura transforma-se numa entrada inesperadamente luminosa para compreender o sistema de patentes e a inovação.
Um dos momentos mais certeiros do livro surge no capítulo dedicado ao coco. Chang desconstrói com elegância cirúrgica o mito da “preguiça tropical”, isto é, a crença comum nos países ricos de que os povos dos trópicos são pobres porque não trabalham, seduzidos pela abundância natural da sua geografia. Uma narrativa conveniente que o autor não hesita em classificar com a economia de palavras que é a sua marca:
“Uma história bastante plausível, só que é inteiramente falsa.” (p. 57)
A brutalidade da frase é intencional. Chang demonstra que a pobreza dos países tropicais tem causas históricas, políticas e estruturais e não culturais ou climáticas. Longe de simbolizar a indolência, o coco ilustra como os estereótipos culturais funcionam como instrumentos de poder e servem para justificar relações económicas desiguais e para desviar a atenção das suas causas reais.
Este é também um livro profundamente pessoal. Chang cresceu na Coreia do Sul dos anos 1960 e 70, num país então empobrecido que viria a ser, em poucas décadas, uma potência económica e cultural global. A sua origem ajudou, sem dúvida, a modelar a sua visão e a sua convicção de que o desenvolvimento é difícil, que exige décadas de investimento e sacrifício, e que o livre comércio não foi, historicamente, o caminho que os países ricos percorreram para se tornarem ricos. Foram eles, pelo contrário, os primeiros a retirar a escada depois de a subirem. O modo que encontrou para nos lembrar da sua tese central em Kicking Away the Ladder, que ressurge aqui com nova roupagem.
O capítulo do centeio é, neste sentido, exemplar. Chang reconstrói a história do “casamento do ferro com o centeio”, a aliança forjada por Bismarck, na Alemanha unificada de 1871, entre os poderosos industriais e os latifundiários prussianos, os Junkers, em torno de uma política abertamente protecionista. Uma coligação de interesses que defendia tarifas aduaneiras pesadas e que moldaria, durante décadas, o modelo de desenvolvimento alemão. A lição que Chang partilha com o leitor é a de que o protecionismo é um dos instrumentos mais recorrentes da história económica, usado com êxito pelos países que hoje pregam o livre comércio como dogma universal.
A ironia não podia ser mais aguda quando, no capítulo sobre a gamba, Chang examina a cumplicidade histórica entre os arautos da liberdade económica e algumas das mais sombrias experiências autoritárias do século XX. Os defensores do mercado livre invocam a liberdade como valor supremo. Todavia, como recorda Chang, foram estes economistas, discípulos de Hayek e Friedman, que apoiaram abertamente a ditadura militar de Pinochet no Chile. A liberdade de mercado, conclui-se, raramente inclui a liberdade tout court.
Um dos temas mais persistentes do livro é, assim, a desconstrução do mito da neutralidade económica. A economia jamais pode ser considerada uma ciência exacta, tão-pouco desinteressada. A economia é uma disciplina imbuída de escolhas políticas, culturais e ideológicas. O neoliberalismo que tem dominado o pensamento económico nas últimas décadas é uma opção totalmente deliberada e de inocente não tem nada. Como todas as escolhas, também esta pode e deve ser questionada, reformada e, mais do que isso, substituída, como propõe Chang no tom irónico que caracteriza e perpassa todo o livro.
Economia Comestível é um livro para todos os leitores que querem perceber as tramas do poder e o lugar que as matérias-primas, neste caso, os alimentos, ocupam na cadeia económica mundial. Às mesas do poder estamos, afinal, todos sentados, mesmo quando julgamos que não fomos convidados.
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