Em nome do amor

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O QUE FAZER? I Cada um é como cada qual e age ou reage segundo as suas idiossincrasias. A raiz dos maiores problemas é a dicotomia. Se não estás comigo, estás contra mim. No caso político arrumam-se as gentes pela esquerda, centro, direita e os extremos. Todo aquele que vive na pólis é parte da política, ainda que se esteja nas tintas (os limites da liberdade individual estão na lei). Tal não implica o 8 (o fiel cumpridor) ou o 80 (o desalinhado). A virtude está no meio, mas não necessariamente num partido do centro. Sem entrar nas minhas escolhas (que alguns já conheceis), o que fazer é não acatar o injusto, o que leva à desigualdade tanto ou mais gravosa quando parte de um conjunto de fazedores de leis. Quem provoca o “mal” e os males-estares são humanos pensantes. Eles sabem o que fazem, como criar pandemias, massacrar inocentes ou ditar o preço das coisas. As modas. São cartéis iguais aos do narcotráfico mas operam do lado da lei. Todos correm atrás do lucro e da submissão. Tenho por princípio activo a contestação, mas à medida que o tempo passa sinto-me mais inclinado a averiguar da qualidade do Amor. A começar pelo meu. Quanto mais forte, verdadeiro e criativo for o Amor, mais paz haverá e melhor sairá a Comunicação. Se caírmos no fascismo, desse Amor brotará uma arma em louvor da Liberdade.

VAMPIROS I Se formos a Ver (com olhos de Ver) há uma confluência de Mercado que conduz à estupidificação e à servidão voluntária. Todos somos potenciais compradores e vendedores de retalho. Este reduto (e o dispositivo androide onde escrevo) é um desses meios de forjar dependentes. Gritar Liberdade dá trabalho. Requer olho vivo para não ir em modas. É como votar – dar o voto implica estudar o programa e os fulanos agremiados para não nos sair o tiro pela culatra. Ainda o melhor é andar pelas margens, escrutinar as contra-indicações e se for preciso mandar os vendilhões para a gávea, que é como quem diz ide para o CRL.

VIDAS I Tudo na Vida (mineral, vegetal, animal…) está ligado, nem que seja por fios invisíveis. Quando Lobo Antunes diz eu hei-de amar uma pedra atinge o auge da simbiose. Amar o que não se manifesta por actos e palavras, mas na perenidade, na imobilidade serena. Se tudo é impermanência – até na erosão de uma pedra – o Amor, esse grande vocábulo da esperança de unificação, permite viver apontado a um fim maior do que a própria satisfação. O Amor não divide para reinar. Quando o Amor é cego (e não só o amor conjugal) leva ao conflito. O conflito nasce da frustração. É a chama da raiva. Na Vida ganhamos e perdemos. Em última instância perdemos a vida. É uma perda de tempo lidar com calhaus ou deixarmos embrutecer a possibilidade de refinamento na tentativa de moldar o que não nos agrada. Há que polir o diamante que porventura estará oculto em todos nós. Tudo o que existe à face ou no miolo da terra. Até nos pântanos nascem flores. Ou mesmo no Universo sideral.

ESPECTROS I À conversa com o Resende (guia ilustre) surgiu a questão. Quem foram (ou são) os nossos grandes estadistas? Para mim, Acrata, não ponho ninguém em pedestais. O Resende, homem ilustrado, falava do Sá Carneiro, o Kennedy português, do Marquês de Pombal, esse déspota esclarecido, ou mesmo do Botas enquanto ministro, até chegar ao bochechas, o pai da Democracia da era moderna (😀). Deixei-o encantar-se com as suas palavras. Falei apenas do Álvaro Cunhal, a quem faltou a oportunidade de governar em nome do povo e para o povo (o povo teme o papão comunista). O povo, Alto e para o baile, não é sagrado. Aliás, o povo somos todos e só é quem mais ordena se age pelo bem comum e não se deixa levar pelo triunfo dos porcos. Estadistas abnegados, cultos e agregadores de um país com classe e sem distinções de classe, rareiam. É como o Amor. É raro que seja mútuo e muito bom para ambas as partes envolvidas.

Tiago Salazar é escritor e jornalista (com carteira profissional inactiva)

As ilustrações foram elaboradas com recurso a inteligência artificial.