Nos últimos cinco anos, Portugal atribuiu nacionalidade a 248.816 estrangeiros, mas quase metade destes novos portugueses nem sequer reside no país. Com efeito, apenas 46,3% (115.116 pessoas) viviam efectivamente em território nacional no momento da naturalização.
A explicação para esta discrepância está sobretudo numa única via: a lei dos descendentes de judeus sefarditas, responsável por 104.802 naturalizações nos últimos cinco anos, o que representa 42,1% de todas as aquisições de nacionalidade no período analisado pelo PÁGINA UM com base nos dados anuais do INE. Esta via, criada em 2015, permitia que descendentes das antigas comunidades judaicas expulsas de Portugal no final do século XV readquirissem a nacionalidade portuguesa sem necessidade de residência.
Os sefarditas — judeus originários da Península Ibérica (Sefarad, em hebraico) expulsos em 1496 e dispersos por regiões como o Mediterrâneo Oriental, o Norte de África ou as Américas — encontraram nesta lei uma porta jurídica directa para a cidadania portuguesa. E, de facto, 96% dos naturalizados por esta via — 100.558 pessoas — vivem hoje fora de Portugal, revelando a natureza extraterritorial do regime.
Esta via será agora extinta com a entrada em vigor da nova Lei da Nacionalidade, aprovada no final de Outubro com 157 votos dos deputados do PSD, Chega, Iniciativa Liberal, CDS e JPP. O Partido Socialista, Livre, PCP, Bloco de Esquerda e PAN votaram contra, somando apenas 64 votos.
Excluindo a via sefardita, a naturalização por residência em Portugal durante pelo menos seis anos — que corresponde quase na totalidade a estrangeiros efectivamente residentes no país — somou 76.631 novos portugueses entre 2020 e 2024, representando 30% do total. Em 2024, foram atribuídas 15.267 nacionalidades por residência, o valor mais elevado desde 2021, mas ainda distante dos números pré-pandemia: 22.663 em 2020, 15.937 em 2019, 16.612 em 2013 e 17.299 em 2009.
Por outro lado, nos últimos cinco anos, um total de 17.232 menores obtiveram nacionalidade portuguesa por serem filhos de pessoas entretanto obtiveram nacionalidade. Destes, 9.198 viviam em Portugal e 8.034 residiam no estrangeiro, o que revela uma tendência semelhante à das naturalizações por via sefardita.
Também a obtenção da nacionalidade por via do casamento ou por união de facto há mais de três anos com cidadãos portugueses registou números expressivos no total acumulado do período — 37.154 naturalizações, das quais 16.940 relativas a residentes e 20.214 a estrangeiros a viver no exterior. No entanto, esta via evidencia uma recente queda acentuada: em 2024, apenas 2.633 pessoas receberam nacionalidade por casamento ou união de facto, o valor mais baixo desde 2008, ano em que começam os registos comparáveis.
A distribuição etária revela um padrão particularmente consistente ao longo dos últimos cinco anos: a esmagadora maioria das nacionalizações ocorre entre os 20 e os 49 anos de idade, que somam 33.224 pessoas em 2024 — mais de 70% do total anual. O segmento dos 30-39 anos, isoladamente, é responsável por 9.533 nacionalizações, sendo o grupo mais representado desde 2020.
A concentração nesta faixa etária demonstra que o processo de naturalização portuguesa actua sobretudo sobre indivíduos em plena idade económica, reforçando a presença de adultos jovens e de meia-idade na estrutura demográfica do país.
Por contraste, os mais idosos têm expressão residual. Em 2024, apenas 1.669 pessoas tinham mais de 65 anos, abrangendo todas as subfaixas até aos 85 anos ou mais — cerca de 3,5% do total. Mesmo somando os grupos dos 60-64 anos e 65-69 anos, não se ultrapassam as 2.600 naturalizações. Esta tendência mantém-se inalterada desde 2020 e confirma que os processos de aquisição da nacionalidade estão fortemente associados a percursos prolongados de residência, integração laboral e vínculos familiares, factores que afectam muito menos as populações mais velhas.
Nos mais jovens, observa-se um número relativamente estável de naturalizações: 4.001 menores de 15 anos em 2024, um valor praticamente idêntico a 2022 (4.189) e significativamente abaixo de 2020 (4.931). Esta redução é coerente com a diminuição global de naturalizações desde o pico pandémico e reflecte também a estabilização dos fluxos familiares ao abrigo do reagrupamento. Ainda assim, estes menores representam quase 10% das novas nacionalizações, o que indica que a renovação geracional associada à imigração continua activa e com impacto demográfico mensurável.
Em síntese, o retrato etário das naturalizações portuguesas revela um fenómeno estrutural: Portugal está a integrar sobretudo adultos em idade laboral, com reduzida incorporação de seniores e com uma base juvenil estável mas não expansiva.
Esta composição etária tem efeitos directos na demografia futura, na sustentabilidade da Segurança Social, na força de trabalho e na pressão sobre serviços públicos — factores que, apesar de raramente discutidos no debate político, são evidentes nos próprios dados do INE.
Em casa de ferreiro, espeto de pau. O Centro de Estudos Judiciários (CEJ) — a escola por excelência dos futuros juízes e procuradores, guardiã teórica do rigor, da legalidade e da boa administração — decidiu fazer tábua rasa do Código dos Contratos Públicos, conduzindo um processo de contratação tão irregular quanto opaco para seleccionar a empresa de psicólogos responsável pela primeira avaliação dos candidatos aos cursos de ingresso na magistratura.
Sem concurso público, sem consulta prévia formal, sem caderno de encargos, sem júri, e com a particularidade de ter recorrido à Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) para uma espécie de divulgação e pré-selecção dos potenciais prestadores de serviços, o CEJ acabou por adjudicar o trabalho à Talking About – uma empresa com dois empregados, sendo um deles o seu gerente, o psicólogo e comentador da SIC Mauro Paulino –, numa ‘nomeação’ final feita pela própria ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice.
A governante, entretanto, já se escudou desta escolha numa nota enviada pelo seu gabinete de comunicação ao PÁGINA UM, argumentando tratar-se apenas de uma formalidade por o processo ser conduzido pelo CEJ, que tem autonomia administrativa.
Segundo apurou o PÁGINA UM – já que o CEJ continua a não responder directamente às questões enviadas, remetendo apenas para explicações vagas publicadas num comunicado após as nossas primeiras notícias –, em vez de lançar um concurso público ou promover uma consulta prévia formal, como determina o Código dos Contratos Públicos, a direcção desta “escola de magistrados”, tradicionalmente liderada por desembargadores ou conselheiros, recorreu à OPP.
E esta associação profissional – que, apesar de estatuto público, não é entidade adjudicante nem tem qualquer função na contratação pública – terá enviado, em 16 de Maio deste ano, uma comunicação interna aos seus membros para recolher manifestações de interesse de entidades interessadas em prestar serviços ao CEJ.
Fernando Vaz Ventura esteve entre 2012 e 2021 no Tribunal Constitucional e transitou no ano seguinte para a liderança do Centro de Estudos Judiciários, em ambos os cargos por indicação do Partido Socialista. Não foi reconduzido pela ministra social-democrata e encontra-se agora colocado no Supremo Tribunal de Justiça.
Após essa recolha informal — que não encontra qualquer base no Código dos Contratos Públicos, sendo aliás proibida, por retirar ao CEJ a integral responsabilidade procedimental —, o CEJ enviou, no início de Junho, um convite à Talking About para apresentar proposta. O PÁGINA UM sabe que terão sido mais de três dezenas as entidades a manifestar interesse – informação que nem o CEJ nem a OPP quiseram confirmar –, mas nem isso levou à abertura de qualquer procedimento concursal.
Em vez disso, a escolha final recaiu sobre a empresa de Mauro Paulino sem que se conheça quem analisou as propostas, quem decidiu, quais eram os critérios ou sequer se existiu contrato formal. Em todo o caso, o despacho de confirmação da ministra da Justiça foi assinado em 22 de Julho.
Ignora-se igualmente se os pagamentos foram efectuados directamente à empresa, mediante factura, ou se foram feitos pagamentos avulsos através de recibos verdes dos psicólogos recrutados por Mauro Paulino. Apenas se sabe que por cada avaliação psicológica – mais de 250 na primeira fase –, o CEJ pagou 83 euros, ao abrigo de um despacho de 2008 que fixa apenas um limite de preço, nunca o método ou procedimento de contratação. Ou seja, o despacho não isentava o CEJ de cumprir obrigatoriamente o Código dos Contratos Públicos. Suceder isso numa ‘escola’ que forma futuros juízes de tribunais administrativos é “coisa de pasmar”, confidenciou um jurista sob anonimato ao PÁGINA UM.
Mauro Paulino, psicólogo e comentador da SIC: nove em cada 10 ‘chumbos’ que decretou foram depois revertidos numa segunda avaliação externa. Também é vogal do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos.
A Ordem dos Psicólogos também não respondeu a outras perguntas enviadas pelo PÁGINA UM, neste caso num segundo procedimentos que chega a ser ainda mais absurdo: a escolha dos peritos responsáveis pela segunda avaliação psicológica, após a primeira análise realizada pela Talking About ter “chumbado” mais de metade dos candidatos previamente aprovados em duras provas escritas e orais.
Neste caso, é verdade que, por força de uma alteração legislativa deste ano, a segunda avaliação – e só esta – já previa a intervenção da OPP a quem caberia a selecção de um colégio de psicólogos sorteado de uma lista. Mas o processo montado pela Ordem oscila perigosamente entre a comédia e a caricatura.
Com efeito, a nova lei determinava que os psicólogos seriam sorteados de uma lista indicada pela Ordem dos Psicólogos, com um mínimo de sete elementos. Porém, a OPP decidiu ainda inovar, introduzindo uma engenharia classificativa quase barroca: abriu convite aos seus membros, estabeleceu critérios de especialidade, experiência e formação, e criou uma grelha de pontuação onde, por exemplo, um psicólogo da especialidade de Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações recebia 35 pontos, um de Psicologia Vocacional 20, e um de Psicologia da Justiça 15. A isto somavam-se 30 pontos atribuídos a quem tivesse certificações avançadas em técnicas de recrutamento e selecção.
Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos.
O resultado desta triagem produziu uma lista de 52 psicólogos avaliados. Até aqui, tudo pareceria alinhado com boas práticas de mérito. Não fosse o pormenor absolutamente extraordinário de 14 desses 52 terem obtido zero valores – zero formação relevante, zero experiência relevante, zero pontos em critérios que a própria OPP definira como essenciais. Mas mesmo assim entraram, alegremente, no sorteio final.
E que sorteio. Como se se tratasse da Liga dos Campeões, a OPP dividiu os 52 psicólogos em “jarras”, de onde eram retirados, de cada grupo de sete, três nomes à sorte. Resultado: dos 10 psicólogos mais bem classificados – aqueles que, segundo os critérios da própria Ordem, tinham mais mérito para avaliar candidatos a juízes – apenas quatro foram escolhidos. Os restantes seis ficaram de fora simplesmente porque a bola… não saiu. Ao invés, vários psicólogos com pontuação irrelevante ou até nula foram agraciados com um papel decisivo na avaliação do futuro corpo de magistrados.
Ou seja: a OPP não escolheu os peritos pelo mérito, pela competência ou pela experiência. Escolheu-os ao acaso. Jogou à sorte – literalmente – para determinar quem avaliaria futuros juízes, incluindo profissionais que a própria Ordem tinha classificado com zero pontos. Tudo isto seria delicioso, dado tratar-se de psicólogos, se não fosse trágico: a sorte venceu o mérito. E nem sequer se sabe quem tirou as bolas — ou se havia “bolas quentes”.
Sede do Centro de Estudos Judiciários, em Lisboa. / Foto: D.R.
Num ano marcado por polémicas sucessivas na avaliação psicológica do CEJ, e depois de uma primeira fase em que mais mais de metade dos candidatos foi excluída pela Talking About, apenas para que a segunda avaliação revertesse nove em cada dez desses “chumbos”, tanto o processo de contratação da empresa como o método de selecção dos peritos responsáveis pelo parecer final levantam dúvidas profundas sobre a seriedade, a legalidade e a credibilidade de todo o modelo.
Depois de tudo isto, poucos podem estranhar que a Justiça em Portugal ande pelas ruas da amargura. Ou melhor dizendo, por sendeiros esburacados – leia-se, verendas esventradas – por onde só passam sendeiros escanzelados – leia-se, cavalgaduras velhas e ruins.
Será já na próxima quinta-feira, dia 20, no Campus da Justiça de Lisboa, que se inicia o julgamento em que a Ordem dos Médicos e três dos seus mais mediáticos rostos durante a pandemia – Miguel Guimarães, Filipe Froes e Luís Varandas – procuram receber 60 mil euros do director do PÁGINA UM, acusando-o de os ter difamado quando, em 2021, divulgou artigos sobre as ligações financeiras entre médicos influentes e várias farmacêuticas envolvidas em contratos com o Estado durante a covid-19.
No mesmo julgamento foi apenso outro processo, este pelo actual candidato à Presidência da República, Gouveia e Melo, que apresentou também uma participação criminal por artigos de investigação jornalística sobre a sua acção enquanto líder da task force da vacinação contra a covid-19.
O caso chega agora a tribunal após a apresentação de duas queixas-crime distintas – a primeira pela Ordem e pelos três médicos; a segunda pelo então coordenador da Task Force, o almirante Gouveia e Melo – ambas acolhidas integralmente pelo Ministério Público, que transformou investigações jornalísticas baseadas em dados oficiais em alegadas ofensas de honra e “ataques pessoais”. Já estão marcadas sete audiências até Dezembro (vd. agenda no final do texto)
No processo movido pela Ordem dos Médicos, o Ministério Público adoptou uma posição particularmente opaca: não explica, em lado nenhum, por que razão considera que críticas fundamentadas, baseadas na Plataforma de Transparência do INFARMED, constituem um crime. A acusação limita-se a repetir as expressões dos queixosos, sem uma única linha de enquadramento, sem uma única demonstração factual de falsidade das informações publicadas e sem um único esforço para diferenciar investigação jornalística de insulto pessoal.
No caso da queixa individual de Gouveia e Melo – que será ouvido como assistente, apesar de o seu pedido de indemnização ter sido rejeitado por intempestivo –, a procuradora segue o mesmo trilho acrítico: revela desconhecimento sobre o próprio jornal, afirmando que o PÁGINA UM é “um jornal digital” e, simultaneamente, que tem venda em banca, o que não corresponde ao facto mas que é revelador da qualidade do trabalho da magistrada Silvana Andrade.
Miguel Guimarães, ao centro, antigo bastonário da Ordem dos Médicos e actual deputado social-democrata, quer 15 mil euros do director do PÁGINA UM..
Mais grave, porém, está no facto de a procuradora do Miistério Público nada ter investigado – ou seja, não analisa os artigos publicados, não verifica fontes, não confronta dados, não solicita documentos –, limitando-se a presumir intenção difamatória a partir da mera existência de investigação incómoda.
Este comportamento contrasta radicalmente com o adoptado pelo Ministério Público num outro processo, apresentado em 2023, no qual a ministra da Saúde, o então deputado social-democrata Miguel Guimarães, a APIFARMA, a Ordem dos Médicos e a Ordem dos Farmacêuticos também acusaram o director do PÁGINA UM de difamação por causa da investigação sobre a gestão financeira da campanha “Todos Por Quem Cuida”.
Aí, o procurador Nuno Morna de Oliveira, responsável pelo processo, dedicou 72 páginas a analisar detalhadamente cada afirmação publicada, contextualizando, verificando e ponderando cada elemento. E concluiu – de forma cristalina e fundamentada – que não havia qualquer matéria criminal, que a investigação se inseria na liberdade de imprensa e que o escrutínio público da campanha, financiada com mais de 1,3 milhões de euros de doações das farmacêuticas, era não apenas legítimo, mas necessário. O processo foi, portato, arquivado.
Filipe Froes ao centro, tendo ao seu lado esquerdo o actual bastonário Carlos Cortes. Apesar de ser um dos médicos que mais dinheiro recebe das farmacêuticas, quer ainda receber mais 15 mil euros do director do PÁGINA UM apenas por este ter revelado as suas promiscuidades.
Agora, quanto aos processos de Gouveia e Melo e da Ordem dos Médicos, segundo o despacho do tribunal judicial de Lisboa, o julgamento arranca com a audição de Pedro Almeida Vieira e da Ordem dos Médicos no dia 20 de Novembro, prosseguindo com as declarações de Filipe Froes, Luís Varandas e Gouveia e Melo no dia 25, e continuando nos dias 27 de Novembro, e ainda nos dias 2, 4, 9 e 11 de Dezembro, datas reservadas às testemunhas de acusação e de defesa.
Nos autos está um longo historial de publicações efectuadas durante Agosto e Setembro de 2021 – quando o PÁGINA UM, então ainda apenas um projecto em preparação –, em que Pedro Almeida Vieira analisava dados públicos sobre relações financeiras entre médicos e farmacêuticas, descrevendo valores concretos, pagamentos regulares, patrocínios a palestras, avenças mensais, contratos de colaboração e discrepâncias contabilísticas evidentes entre o que era declarado ao INFARMED e o que era facturado através de empresas privadas.
Esses dados eram – e continuam a ser – oficiais, disponibilizados na Plataforma de Transparência do regulador do medicamento. E foi precisamente no período em que estas relações começaram a ser escrutinadas que o PÁGINA UM, já depois da sua criação em Dezembro de 2021, avançou para os tribunais administrativos com pedidos de acesso aos documentos ocultados da campanha “Todos Por Quem Cuida”.
Julgamento inicia-se na próxima quinta-feira, dia 20 de Novembro, e já conta sete audiências marcadas até Dezembro.
A campanha, apresentada como operação solidária conjunta da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Farmacêuticos, movimentou mais de 1,3 milhões de euros, mas essas verbas foram geridas fora da contabilidade oficial das ordens e canalizadas para uma conta partilhada por Miguel Guimarães, Ana Paula Martins (actual ministra da Saúde) e Eurico Castro Alves.
O PÁGINA UM conseguiu aceder a toda a documentação desta campanha por via de uma intimação no Tribunal Administrativo de Lisboa, e detectou assim um vasto conjunto de irregularidades significativas: ausência de pagamento de impostos e declarações falsas com efeitos fiscais, facturas falsas, contabilidade paralela e falta de transparência financeira.
Foi também no âmbito dessa documentação que se detectaram combinações entre Miguel Guimarães e o então vice-almirante Gouveia e Melo para se vacinarem médicos não-prioritários, em violação da norma em vigor da Direcção-Geral da Saúde e extravasando competências da task force, sendo que houve ainda um pagamento de 27 mil euros ao Hospital das Forças Armadas.
Extracto do e-mail de 17 de Março de 2021 enviado por Miguel Guimarães a Gouveia, admitindo a administração de uma dose “em Lisboa a uma personalidade política, por uma questão de necessidade e oportunidade”.
A queixa da Ordem dos Médicos – que está a suportar os custos de advogados de Miguel Guimarães, Filipe Froes e Luís Varandas –, apresentada em 2022, surgiu precisamente nesse contexto de tensão: na altura em que o PÁGINA UM requereu judicialmente o acesso integral à documentação, e quando começavam a surgir as primeiras provas da gestão paralela da campanha. A acusação do Ministério Público repete esta narrativa dos queixosos, chegando ao ponto de sustentar que o arguido terá publicado factos verdadeiros com o objectivo de “atrair leitores” – uma lógica que, aplicada a qualquer jornalista, transformaria a actividade profissional em crime sempre que fosse incómoda.
No processo de Gouveia e Melo, a acusação vai mais longe na superficialidade: presume intenção difamatória sem demonstrar um único erro factual, e sem dedicar um minuto que fosse a investigar o trabalho jornalístico. E fá-lo precisamente quando o PÁGINA UM investigava o papel do almirante no alinhamento entre a Task Force e os sectores dirigentes da Ordem dos Médicos – incluindo figuras que geriam a campanha “Todos Por Quem Cuida” e que beneficiaram directamente dos donativos das farmacêuticas.
Neste caso, a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) ainda abriu um procedimento, mas acabou por nem sequer ouvir Gouveia e Melo nem investigar detalhes relevantes como a vacinação de um político à margem da lei. Além disso, a inspectora da IGAS alterou a data da norma da DGS para assumir que os médicos não-prioritários afinal podiam ser vacinados, o que se mostra falso. Em todo o caso, a IGAS enviou a questão do pagamento ao Hospital das Forças Armadas para o Ministério Público, mas desconhece-se a evolução.
O pediatra Luís Varandas foi um avençado da Pfizer durante a pandemia e defendeu a vacinação contra os adolescentes sem revelar essa sua relação com a farmacêutica. Este pediatra foi um dos médicos que ‘perseguiu’ Amil Dias, presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos, mesmo sabendo que existia um parecer engavetado por Miguel Guimarães que não recomendava a vacinação a menores de idade saudáveis.
Agora, será um tribunal criminal a avaliar se investigações e revelações de um jornalista devem ser reprimidas como difamação ou protegidas como jornalismo. O contraste com o processo arquivado – onde o Ministério Público reconheceu de forma explícita que o PÁGINA UM actuou no exercício legítimo da liberdade de imprensa – torna esta acção particularmente relevante para a transparência institucional e para o futuro da fiscalização pública em Portugal.
A partir do dia 20, e ao longo de sete sessões já marcadas até 11 de Dezembro, o tribunal ouvirá dezenas de testemunhas. O director do PÁGINA UM será defendido pelo advogado Miguel Santos Pereira. E poderá assim finalmente perceber-se se os tribunais portugueses decidem de acordo com a lei de um país democrático, que protege a liberdade de imprensa, ou se ajustam a sua sensibilidade consoante o incómodo provocado pelas investigações jornalísticas e o peso institucional dos queixosos.
AGENDA DO JULGAMENTO
1) 20 de Novembro – 09h00
(com eventual continuação às 14h00) – Declarações do arguido Pedro Almeida Vieira – Declarações dos Assistentes da Ordem dos Médicos: • Bastonário Carlos Cortes • José Miguel Ribeiro de Castro Guimarães
2) 25 de Novembro – 09h00
(com eventual continuação às 14h00) – Declarações dos Assistentes: • Luís Filipe Froes • Luís Manuel Varandas • Henrique Gouveia e Melo
3) 27 de Novembro – 09h00
(com eventual continuação às 14h00) – Inquirição das três testemunhas de acusação (processо 144/23.0T9LSB)
4) 2 de Dezembro – 09h00
(com eventual continuação às 14h00) – Inquirição das primeiras oito testemunhas do PIC (processо 1076/22.5T9LSB)
5) 4 de Dezembro – 09h00
(com eventual continuação às 14h00) – Inquirição das restantes sete testemunhas do PIC (processо 1076/22.5T9LSB)
6) 9 de Dezembro – 09h00
(com eventual continuação às 14h00) – Inquirição das três testemunhas de defesa (processо 144/23.0T9LSB) – Inquirição deduas testemunhas de defesa (processо 1076/22.5T9LSB)
7) 11 de Dezembro – 09h00
(com eventual continuação às 14h00) – Inquirição das últimas cinco testemunhas de defesa (processо 1076/22.5T9LSB) – Demais actos da audiência
O Ministério da Justiça diz que “não se revê no tipo de perguntas e linguagem” do inquérito usado pela empresa Talking About, liderada pelo psicólogo e comentador da SIC Mauro Paulino, para aferir as capacidades psicológicas dos candidatos ao curso de juízes e magistrados do Ministério Público. E acrescenta que, como o Centro de Estudos Judiciários (CEJ) “goza de autonomia administrativa”, não houve por assim, por parte do Governo, “qualquer intervenção no processo de selecção ou avaliação”.
A tomada de posição do ministério liderado por Rita Alarcão Júdice – chegada durante a noite desta terça-feira, e que também esclarece que, na verdade, houve cumprimento das 181 vagas prometidas em Fevereiro [ver Nota de Direcção no final] – constitui a primeira reacção governamental ao polémico concurso que, por causa do teste psicológico, atrasou a abertura das aulas em quase dois meses.
Rita Alarcão Júdice distancia-se das opções do CEJ,
As relações entre o CEJ e a tutela não têm sido fáceis, sobretudo após a não recondução de Fernando Vaz Ventura – associado ao Partido Socialista, desde que em 2012 foi proposto por esta força política para o Tribunal Constitucional, onde se manteve até 2021 –, que, como director, liderou todo o processo de candidaturas aos próximos cursos de magistrados, incluindo a escolha da empresa de Psicologia, com ‘poderes’ de excluir candidatos.
E a empresa não fez outra coisa que não dar ‘chumbo grosso’. Com efeito, apesar de o CEJ manter um inexplicável silêncio, o PÁGINA UM sabe agora que, de entre um total de 250 candidatos para o curso de magistrados judiciais e administrativos que tinham superado as provas orais (após aprovação nos exames escritos), mais de metade acabou reprovada pelas mãos dos psicólogos da Talking About, que usa a pomposa denominação Mind – Instituto de Psicologia Clínica e Forense, apesar de ter apenas dois empregados fixos, um dos quais Mauro Paulino, também como gerente.
A ‘chacina psicológica’ foi depois revertida por sete equipas de três psicólogos, com a intervenção da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP): mais de nove em cada dez candidatos reprovados pela empresa de Mauro Paulino foram ‘repescados’ pela segunda reavaliação. Os resultados foram conhecidos esta segunda-feira.
Fernando Vaz Ventura esteve entre 2012 e 2021 no Tribunal Constitucional e transitou no ano seguinte para a liderança do Centro de Estudos Judiciários, em ambos os cargos por indicação do Partido Socialista. Não foi reconduzido pela ministra social-democrata e encontra-se agora colocado no Supremo Tribunal de Justiça.
A causa principal para a inédita ‘avalanche de chumbos’ – e consequente ‘chuva de reclamações’ para uma segunda opinião – foi a aplicação de um inquérito denominado “Personality Assessment Inventory (PAI)”, constituído por 344 afirmações, às quais os candidatos tinham de responder se eram, no seu caso particular, falsas ou verdadeiras (em três graus).
Assim, frases como “Já pensei em algumas formas de me suicidar”, “Sou incapaz de controlar o meu consumo de drogas”, “Aproveitar-me-ia dos outros se fosse fácil”, “Faço muitas coisas perigosas só pela emoção que me causam” ou “Tenho planos de me converter, algum dia, numa pessoa famosa” foram perguntas que dificilmente se imaginariam colocadas a futuros juízes e procuradores — presumivelmente adultos instruídos, com formação jurídica, sem historial criminal nem perturbações comportamentais.
Mas a bizarria não se ficava por aí. O mesmo inventário questionava ainda se o candidato reconhecia que “Sou incapaz de controlar o meu consumo de drogas”, “O consumo de drogas provocou-me alguns problemas de saúde”, “Algumas pessoas já me disseram que tenho problemas com as drogas” ou “Já tive problemas económicos devido ao consumo de drogas” — formulações que fariam sentido num centro de desintoxicação, mas não num concurso público de selecção de magistrados.
Excerto do inquérito PAI usado nas provas psicológicas do CEJ.
Havia igualmente uma vertente quase caricatural na tentativa de detectar impulsividade ou descontrolo emocional, com itens como “Às vezes, expludo e perco o controlo sobre mim”, “Quando me enfureço, é muito difícil acalmar-me”, “Faço muitas coisas perigosas só pela emoção que me causam” ou “Quando estou a conduzir e me indigno com os outros condutores, faço para que deem conta disso”. E não faltavam formulações de tom paranóide ou delirante, como “Algumas pessoas fazem coisas para me deixar mal”, “Às vezes, misturo os pensamentos uns com os outros” ou “Certas partes do meu corpo ficaram sem sensibilidade, sem que eu saiba o porquê”.
Um jurista contactado pelo PÁGINA UM, que pediu anonimato por temer represálias institucionais, expressa “profunda perplexidade” perante o teor das perguntas utilizadas no inventário psicológico aplicado pelo CEJ, classificando-o como “um questionário clínico travestido de avaliação administrativa”. Segundo o mesmo especialista, a aplicação deste tipo de inquérito “nem sequer é lícita”, por violar simultaneamente o princípio da legalidade — uma vez que nenhuma norma habilita o CEJ a recolher dados íntimos sobre saúde mental, consumo de drogas ou tendências suicidárias — e o princípio da proporcionalidade, já que tais perguntas “não são necessárias, adequadas ou pertinentes para aferir a aptidão de futuros magistrados”.
Além disso, acrescenta este jurista, a recolha de informação sensível desta natureza colide frontalmente com a Constituição e com o regime de protecção de dados pessoais, tornando o procedimento “materialmente inválido e juridicamente insustentável”. Os candidatos foram ‘coagidos’ a assinar um consentimento informado, isto porque se não concordassem em realizar o teste por ser intrusivo seriam automaticamente desqualificados. Não se conhece qualquer outro país que tenha aplicado este conhecido teste para seleccionar candidatos à magistratura.
Mauro Paulino, psicólogo e comentador da SIC: nove em cada 10 ‘chumbos’ que decretou foram depois revertidos numa segunda avaliação externa. Também é vogal do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos.
Mais o mais incrível neste processo é que a empresa de Mauro Paulino – que nunca respondeu a nenhuma das 23 perguntas colocadas pelo PÁGINA UM – nunca pareceu achar estranho o resultado da sua avaliação. Ou sejam uma avaliação em que reprovava mais de metade de uma amostra de portugueses altamente seleccionada, composta por candidatos que já haviam superado exigentes provas escritas de Direito e de cultura geral, além de painéis de provas orais de diversas áreas do Direito perante júris qualificados.
Apesar disso, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), liderada por Sofia Ramalho – chamada ao processo apenas na fase de reapreciação dos chumbos – divulgou nesta terça-feira uma nota pública que, não mencionando Mauro Paulino pelo nome, surge como uma defesa tácita da actuação da empresa e dos profissionais que conduziram a avaliação inicial.
Numa tentativa de marcar terreno e controlar danos reputacionais, a OPP sublinha que a “segunda avaliação psicológica (…) não resulta de qualquer irregularidade ou erro da primeira fase”, feita pela empresa de Mauro Paulino, acrescentando que se trata “de uma etapa de desenvolvimento habitual do método de selecção, que neste caso foi realizada com recurso a uma entrevista semi-estruturada”. Contudo, a instituição não explica qual a razão então para não recomendar ao CEJ a entrevista semi-estruturada, se a outra alternativa dá tantos erros – ou seja, exclui erradamente tantos candidatos.
Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos.
Aliás, a grande preocupação da Ordem dos Psicólogos – que omite, nesta sua informação, que Mauro Paulino é vogal do Conselho Jurisdicional, o seu órgão de disciplina e deontologia – centra-se na divulgação dos materiais de avaliação, como os inquéritos do PAI, que diz ser “uma violação deontológica e ética”, defendendo que “distorce o seu significado e pode comprometer a integridade futura dos instrumentos e dos próprios processos de avaliação”.
Por sua vez, a editora Hogrefe – que gere os direitos de autor da aplicação do PAI, na sua versão portuguesa feita por Mauro Paulino – veio ameaçar o PÁGINA UM com um processo judicial.
Por e-mail [ver aqui a troca de mensagens], a directora-geral, Magda Machado, diz que “face à gravidade da situação [a revelação do inquérito pelo PÁGINA UM por razões de interesse público], já estabeleci contacto com o departamento jurídico da Hogrefe Alemanha, com quem irei analisar directamente os danos causados à integridade e comercialização do instrumento e a necessidade de comunicar formalmente os factos à PAR Inc.”, a empresa norte-americana detentora do PAI original.
Sede do Centro de Estudos Judiciários, em Lisboa. / Foto: D.R.
A responsável pela editora em Portugal adiantou mesmo ao PÁGINA UM que existia jurisprudência, citando partes de um suposto acórdão do Supremo Tribunal Administrativo (STA) relativo ao Processo n.º 01463/18.6BELSB, que, na verdade, nunca existiu. Confrontada com esse facto, Magda Machado veio depois corrigir a sua primeira versão, indicando um acórdão de 2020, que até se encontra publicado no Diário da República.
Contudo, não só esse acórdão não tem a citação que indicou como a decisão dos juízes conselheiros é oposta aos argumentos da editora.
Com efeito, aquilo que é consagrado nesse acórdão é que “os direitos de autor não existem para obstar à divulgação da obra criada – o que, na maioria dos casos, até seria ‘contra naturam’; ao invés, tais direitos visam impedir que outrem se aproveite da obra, porventura já conhecida e divulgada, apresentando-a falsamente como sua”.
E mais: os juízes conselheiros defenderam que os testes feitos pelos candidatos [neste caso para admissão à Polícia Judiciária] não poderiam ser considerados “documentos classificados ou sujeitos a segredo (industrial, comercial ou relativo à propriedade científica)”, porque isso “raiaria o absurdo, pois esses testes foram mostrados a todos os concorrentes que a eles se submeteram”.
Mauro Paulino (segundo à esquerda, que não respondeu às perguntas) e Magda Machado (ao centro); a directora-geral da Editora Hogrefe ameaçou o PÁGINA UM por revelar as perguntas de um inquérito aplicado de forma bizarra para a selecção de futuros juízes e magistrados do Ministério Público. Foto: DR.
E acrescentam que “a questão é, evidentemente, outra. A empresa proprietária do exame psicológico quer mantê-lo num relativo segredo para oportunamente o reutilizar. Mas o uso sucessivo daquela bateria de testes tende a diminuir o sigilo, inicialmente absoluto, de que eles gozavam – já que os examinandos podem memorizá-los, ao menos em parte, e difundir o seu teor”.
Os juízes afirmam ainda que “a repetição do mesmo exame em vários concursos propicia esse desgaste, tornando-o menos fiável”, mas que uma “recusa da certidão relativa aos testes não se funda num qualquer segredo intrínseco deles e oponível à peticionante – que até os viu e realizou”, mas sim para “evitar que a entrega de uma cópia dos testes propicie a sua divulgação pública, potenciando o relativo descrédito já inerente à utilização repetida do mesmo exame.” E concluem que a única parte que deve ser passível de não divulgação é a grelha de interpretação. Porém, obviamente, não apenas essa parte não foi revelada pelo PÁGINA UM como o interesse público em revelar a aplicação inadequada de um teste mereceria sempre a salvaguarda da liberdade de imprensa.
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NOTA DA DIRECÇÃO: O PÁGINA UM assume integralmente um erro publicado na notícia “Polémica continua: Centro de Estudos Judiciários ‘marimba-se’ para despacho da ministra da Justiça“, publicada às 20h44 do dia 12, relativa ao número final de vagas preenchidas no concurso para o curso de formação de magistrados do Centro de Estudos Judiciários (CEJ). Na referida notícia, afirmámos que o CEJ não teria preenchido as 181 vagas anunciadas pela ministra da Justiça em Fevereiro deste ano, sugerindo que apenas 149 candidatos haviam sido admitidos, apesar de existirem mais candidatos aprovados.
Importa esclarecer que o PÁGINA UM tomou todas as diligências razoáveis e possíveis, em tempo útil, para obter confirmação oficial antes da publicação da notícia, contactando tanto o CEJ (que desde a semana passada tem ignorado todos os nossos pedidos de esclarecimento) como o Ministério da Justiça, solicitando resposta urgente até às 18h00, precisamente para garantir rigor na informação a transmitir aos leitores.
Sem qualquer resposta até essa hora, e perante o silêncio absoluto das duas entidades, publicámos a notícia às 20h44, considerando que se tratava de assunto de elevado interesse público num processo que tem sido marcado por opacidade, irregularidades e atrasos. Todavia, às 21h41, recebemos finalmente a resposta do Ministério da Justiça, esclarecendo que as 181 vagas foram efectivamente preenchidas, uma vez que o concurso da magistratura dos tribunais administrativos e fiscais decorrera autonomamente do concurso para magistratura judicial e do Ministério Público, razão pela qual a análise directa da lista dos 149 admitidos não reflectia todas as admissões.
Em rigor, mesmo perante a ausência de informação oficial fornecida em tempo útil, o PÁGINA UM tinha a obrigação de efectuar uma verificação autónoma mais profunda, de modo a evitar uma leitura incorrecta dos dados e a consequente indução dos leitores em erro. Não o tendo feito com a diligência exigível, assumimos o erro sem reservas.
Por este motivo, pedimos sinceras desculpas aos nossos leitores.
O compromisso do PÁGINA UM é, como sempre, com o rigor, a transparência e a verdade factual. Continuaremos a desenvolver o nosso trabalho com independência e sentido crítico, reforçando os mecanismos internos de verificação para evitar que situações semelhantes se repitam no futuro, ainda mais cometidas pelo próprio director.
NOTA DA DIRECÇÃO: O PÁGINA UM assume integralmente um erro ETInesta notícia, publicada às 20h44 do dia 12, relativa ao número final de vagas preenchidas no concurso para o curso de formação de magistrados do Centro de Estudos Judiciários (CEJ). Na notícia, destacando-se isso no título, como se pode constatar, afirmámos que o CEJ não teria preenchido as 181 vagas anunciadas pela ministra da Justiça em Fevereiro deste ano, sugerindo que apenas 149 candidatos haviam sido admitidos, apesar de existirem mais candidatos aprovados.
Importa esclarecer que o PÁGINA UM tomou todas as diligências razoáveis e possíveis, em tempo útil, para obter confirmação oficial antes da publicação da notícia, contactando tanto o CEJ (que desde a semana passada tem ignorado todos os nossos pedidos de esclarecimento) como o Ministério da Justiça, solicitando resposta urgente até às 18h00, precisamente para garantir rigor na informação a transmitir aos leitores.
Sem qualquer resposta até essa hora, e perante o silêncio absoluto das duas entidades, publicámos a notícia às 20h44, considerando que se tratava de assunto de elevado interesse público num processo que tem sido marcado por opacidade, irregularidades e atrasos. Todavia, às 21h41, recebemos finalmente a resposta do Ministério da Justiça, esclarecendo que as 181 vagas foram efectivamente preenchidas, uma vez que o concurso da magistratura dos tribunais administrativos e fiscais decorrera autonomamente do concurso para magistratura judicial e do Ministério Público, razão pela qual a análise directa da lista dos 149 admitidos não reflectia todas as admissões.
Em rigor, mesmo perante a ausência de informação oficial fornecida em tempo útil, o PÁGINA UM tinha a obrigação de efectuar uma verificação autónoma mais profunda, de modo a evitar uma leitura incorrecta dos dados e a consequente indução dos leitores em erro. Não o tendo feito com a diligência exigível, assumimos o erro sem reservas.
Por este motivo, pedimos sinceras desculpas aos nossos leitores.
O compromisso do PÁGINA UM é, como sempre, com o rigor, a transparência e a verdade factual. Continuaremos a desenvolver o nosso trabalho com independência e sentido crítico, reforçando os mecanismos internos de verificação para evitar que situações semelhantes se repitam no futuro, ainda mais cometidas pelo próprio director.
Mantemos, em todo o caso, a notícia original na íntegra para assumir essa falha com maior seriedade.
Pedro Almeida Vieira
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A divulgação dos resultados das candidaturas para o curso de formação de juízes e magistrados do Ministério Público não travou a polémica — nem, tampouco, a estupefacção geral — quanto ao modus operandi de um processo que deveria ser, por natureza e exigência institucional, um exemplo de rigor, transparência e decência procedimental.
Na passada segunda-feira, já ao cair da noite, o Centro de Estudos Judiciários (CEJ) publicou finalmente duas listas. A primeira consistia num uma relação graduada com 202 números associados a candidatos identificáveis — todos com média final igual ou superior a 10 valores, variando entre 16,259 e 10,625 —, dando a entender que, cumprindo um despacho do Ministério da Justiça de Fevereiro, seriam preenchidas as prometidas 181 vagas.
Rita Alarcão Júdice, ministra da Justiça, prometeu 181 vagas; CEJ decidiu só homologar 149 candidatos, mesmo havendo 202 com notas suficientes.
Porém, em simultâneo, surgiu uma segunda lista que afinal apenas homologava a aceitação de apenas 149 candidatos para frequentar o curso. Ou seja, ficaram pelo caminho 32 candidatos, apesar de terem ultrapassado todas as fases do concurso e de haver vagas legalmente fixadas para os acolher. Uma parte dos alunos desse grupo de 32 tiveram notas finais superiores á da última entrada no curso de 2024, que até teve menos vagas, o que aumentou o clima de injustiça.
Nem o CEJ, que manteve uma postura de completo silêncio ao longo de todo o processo — um silêncio que roça o obscurantismo —, nem o Ministério da Justiça, tutelado por Rita Alarcão Júdice, prestaram qualquer esclarecimento ao PÁGINA UM sobre os motivos que levaram a este incumprimento de uma promessa pública e formal.
Recorde-se que, no início de Fevereiro, a ministra social-democrata prometeu com pompa e circunstância a abertura de 181 vagas para o curso de formação de magistrados, o que representava um aumento de 34% face ao concurso de 2024. O reforço seria viabilizado pela abertura de um novo pólo do CEJ em Vila do Conde, descentralizando a formação e, segundo o discurso político, respondendo à crónica escassez de juízes e procuradores num sistema judicial conhecido pela morosidade e pela falta de recursos humanos.
Um outro diploma aprovado pela Assembleia da República permitia uma maior abertura de candidaturas porque passou a contemplar, entre outras medidas, a criação de reservas de recrutamento, a extensão de protecção social aos auditores de justiça — que até aqui se encontravam desprovidos de qualquer regime — e até uma nova estrutura directiva para o CEJ. Tudo parecia preparado para um ciclo de renovação e reforço do corpo magistral.
O despacho da ministra seria publicado no dia 21 de Fevereiro determinando 75 vagas para magistratura judicial, outras tantas para a magistratura do Ministério Público e 31 para a magistratura dos tribunais administrativos e fiscais.
Mas o que se seguiu foi um processo que os próprios candidatos descrevem como “kafkiano” (expressão mais justa do que “rocambolesco”), digno de uma sátira burocrática em três actos: primeiro, em Junho, o CEJ anulou um exame de Direito Penal e Processo Penal porque alguns candidatos fizeram batota e tiveram acesso prévio ao enunciado da prova.
Mauro Paulino, psicólogo e comentador da SIC: nove em cada 10 ‘chumbos’ que decretou foram depois revertidos numa segunda avaliação externa.
Mais recentemente, uma empresa privada de Psicologia — a Talking About, dirigida por Mauro Paulino, conhecido pelos seus comentários matinais na SIC — foi contratada, sem sequer se conhecer os procedimentos nem o valor, para aplicar testes psicológicos aos candidatos. E os resultados foram devastadores: mais de metade dos candidatos foram chumbados. Um verdadeiro extermínio psicológico. Entre os afectados, encontravam-se cerca de uma centena de candidatos que tinham superado as provas escritas e orais, exigentes e longas, sobre matérias de Direito e Cultura Geral.
Algumas das perguntas de um dos testes psicológicos, que o PÁGINA UM revelou em primeira mão, pareciam saídas de um manual de caricaturas comportamentais. Face às reclamações, o CEJ mandou proceder a uma nova avaliação psicológica, desta vez sob supervisão da Ordem dos Psicólogos Portugueses. E o resultado foi, no mínimo, revelador: das mais de 100 reprovações iniciais, apenas oito foram confirmadas. Em bom rigor, o “método científico” do ‘psicólogo da SIC’ falhara em nove de cada dez casos.
Este desfecho, contudo, não trouxe qualquer serenidade a uma parte dos candidatos que acabaram ‘salvo’ de um diagnóstico psicológico desfavorável.
A reavaliação atrasou o início das aulas em quase dois meses e deixou cicatrizes num processo já profundamente desacreditado. E, como se não bastasse, a lista final voltou a surpreender — desta vez pela exclusão inexplicável de mais de três dezenas de candidatos aprovados, o que contradiz o próprio despacho ministerial que fixara o número de vagas.
Sede do Centro de Estudos Judiciários, em Lisboa. / Foto: D.R.
Perante a ausência de esclarecimentos dos principais intervenientes – CEJ e Ministério da justiça –, em rigor, há três planos de responsabilidade a apurar.
Primeiro, o da direcção interina do CEJ, que geriu o processo de forma errática, escondendo informação e nunca prestando contas públicas. Segundo, o do Ministério da Justiça, que, tendo fixado as 181 vagas, não garantiu o cumprimento da sua própria decisão, nem veio explicar a razão de apenas 149 formandos terem sido admitidos. E terceiro, o da empresa privada Talking About, cuja actuação — a par do silêncio cúmplice do CEJ e Governo — levanta sérias dúvidas sobre a seriedade dos critérios usados para avaliar a aptidão psicológica de quem pretende servir a Justiça.
Foi do 80 – ou próximo desse número – até ao 8 (exacto). Cerca de uma centena de futuros juízes e magistrados do Ministério Público respiraram ontem de alívio após verem os seus nomes na lista final de candidatos homologada pela direcção interina do Centro de Estudos Judiciários (CEJ).
Este desfecho surge após um processo rocambolesco de avaliação psicológica conduzido pela empresa Talking About, que ‘chumbara’ em Outubro passado mais de metade dos candidatos que tinham antes ultrapassado as exigentes provas escritas e orais para aceder ao curso de formação de juízes e magistrados do Ministério Público. O curso vai iniciar-se agora em 2 de Dezembro, com quase dois meses de atraso.
Sede do Centro de Estudos Judiciários. / Foto: D.R.
A Talking About, uma empresa de psicologia liderada por Mauro Paulino – conhecido por ser comentador nos programas da manhã da SIC –, fora escolhida pela direcção doCEJ para avaliar a capacidade psicológica dos candidatos, ignorando-se ainda as condições e preço, bem como o procedimento de escolha, uma vez que o contrato não surge no Portal Base. A ministra da Justiça, Rita Alarcão Júcide, apenas fez um despacho de concordância. O CEJ – que se encontra agora em gestão interina, após a não recondução do juiz desembargador Fernando Vaz Ventura – não respondeu a quaisquer pedidos de esclarecimento do PÁGINA UM, demonstrando uma evidente falta de apetência pela transparência.
Numa “operação de emergência” montada em colaboração com a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), o CEJ tentou atenuar a avalanche de reclamações e reuniu um “batalhão” de 21 psicólogos para elaborar uma segunda avaliação, destinada a confirmar ou desmentir a primeira análise da empresa Talking About.
Conforme o PÁGINA UM revelou este domingo, um dos testes que culminou com um chumbo maciço estava um, denominado “Personality Assessment Inventory (PAI)” – que se aplica sobretudo em contexto forense, e em especial para reclusos e pessoas com desvios psicológicos –, onde constavam quase duas centenas de perguntas polémicas e pouco adequadas para este tipo de selecção.
Sabe-se, sim, que para ‘savar’ o destino desta centena de candidatos foram formadas sete equipas de três psicólogos, escolhidos pela OPP, tendo cada uma analisado – através de entrevistas semi-estruturadas de perto de duas horas – uma média de 15 candidatos inicialmente reprovados pela empresa de Mauro Paulino, totalizando assim cerca de 105.
Essa segunda avaliação trouxe resultados desastrosos — mas não para os candidatos inicialmente reprovados, mas sim para os métodos da Talking About. Com efeito, de entre a centena de “chumbos” da primeira avaliação, a reavaliação efectuada pelos psicólogos independentes reduziu o número de exclusões para apenas oito [vd. alínea c) da listagem dos excluídos].
Isso significa que o primeiro exame, realizado pela equipa de Mauro Paulino, errou em mais de nove em cada dez reprovações que decretou. Ou dito de outro modo: apenas cerca de 7% dos chumbos iniciais foram verdadeiros negativos — isto é, candidatos efectivamente inaptos. Em rigor técnico, a esmagadora maioria correspondeu a falsos positivos, casos em que o teste indicou um problema psicológico no candidato que era afinal inexistente.
O mais incrível neste processo é que a empresa de Mauro Paulino – que não respondeu a nenhuma das 23 perguntas colocadas pelo PÁGINA UM – nunca pareceu achar estranho o resultado da sua avaliação em que reprovava mais de metade de uma amostra altamente seleccionada, composta por candidatos que já haviam superado exigentes provas escritas de Direito e de cultura geral, além de painéis de provas orais de diversas áreas do Direito perante júris qualificados.
Aliás, a selecção foi-se realizando aos longo dessas fases, pois de um lote inicial de 988 candidatos (número de inscrições aprovadas antes do início das provas escritas), apenas restavam pouco mais de duas centenas para serem avaliados do ponto de vista psicológico. Saliente-se que as três provas escritas – que versavam Direito Penal e Civil e ainda um exigente conjunto de interpretação e argumentação de cultura – exigiam notas positivas, bastando uma inferior a 10 valores para se ser eliminado.
Sala de audiências do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. / Foto: D.R.
Ora, imaginar que desse ‘grupo de elite’, mais de metade não reunia afinal condições psicológicas (ou psiquiátricas) sequer para iniciar a formação é, no mínimo, “espantoso” – conforme manifestaram ao PÁGINA UM diversos psicólogos, sob anonimato, por temerem represálias institucionais.
Certo é que a reavaliação trouxe um novo alento à centena de candidatos que foram obrigados a enfrentar uma das provas mais cruéis das suas vidas: convencer, numa entrevista de duas horas, um derradeiro painel de psicólogos de que Mauro Paulino e a Talking About estavam errados. A empresa, recorde-se, aplicara um questionário em que se perguntava, entre muitas outras ‘pérolas’, se os candidatos tinham diarreia frequente ou ouviam vozes.
Quanto a Mauro Paulino e à sua Talking About, depois deste desfecho, o futuro na área das avaliações psicológicas para o CEJ é incerto. Mas tudo indica que alguns dos formandos do CEJ poderão, no futuro, cruzar-se novamente com os seus pareceres forenses, uma vez que uma das principais actividades da empresa é a elaboração de relatórios sobre arguidos em julgamentos. Depois desta prova de fogo no CEJ, talvez não fosse despropositado avaliar a qualidade desses pareceres. Ou da própria empresa.
Sede do Centro de Estudos Judiciários, em Lisboa. / Foto: D.R.
De facto, apesar de se denominar Talking About, a empresa de Mauro Paulino apresenta-se publicamente como Mind – Instituto de Psicologia Clínica e Forense, com uma alegada “equipa” de 11 pessoas listadas no site. Na realidade, o sucesso parece ser bem mais modesto. Segundo as contas anuais, a Talking About facturou cerca de 310 mil euros – valor que incluirá os trabalhos do ano anterior para o CEJ – e tem apenas dois empregados, um dos quais o próprio Mauro Paulino, que auferiu pouco mais de 27 mil euros como gerente.
A análise das contas da Talking About, que tem Mauro Paulino e a sua sogra como sócios, indicia assim que a generalidade dos seus colaboradores é remunerada pontualmente, à peça. E a empresa registou um lucro líquido de apenas 407 euros o ao passado. Pouco, muito pouco, para quem se apresenta publicamente como “Instituto de Psicologia Clínica e Forense” e pretende avaliar a saúde mental de futuros magistrados.
Há testes que parecem nascer de uma estranha alquimia entre a psicologia e o absurdo. O PAI — Personality Assessment Inventory, no seu nome pomposo e internacional — é um desses instrumentos que, à primeira vista, pode provocar o riso ou a incredulidade de quem o lê sem conhecer a sua lógica interna.
Centenas de afirmações – 344 para ser exacto – dispostas em série, numeradas como uma ladainha laica, pedem ao respondente que diga, para cada uma, se é “falsa”, “ligeiramente verdadeira”, “bastante verdadeira” ou “completamente verdadeira”. Lidas de forma literal, parecem um retrato caricatural da mente humana, um mosaico do absurdo.
Mas a psicometria não é literatura — embora, neste caso, pareça imitá-la. De facto, os psicólogos explicam que a razão destas perguntas reside nas nuances e nas intersecções entre respostas. Um teste como o PAI não se lê linha a linha, mas em padrões. A magia — ou a ciência — está no cruzamento das respostas, nos desvios estatísticos e nas correlações discretas entre, por exemplo, a afirmação 19 e a 244, entre o nervosismo declarado e a paciência negada.
Aparentemente inócuas, certas perguntas funcionam como espelhos cruzados: servem para medir a consistência interna do respondente, detectar incongruências ou indícios de falsificação. Há até um nome para o fenómeno em que o examinado responde não o que sente, mas o que acha que deve sentir: chama-se viés de desejabilidade social — a tendência de dar as respostas “boas”, as respostas que se imagina que o avaliador espera.
Porém, por mais que se possa compreender a utilidade de tais instrumentos no diagnóstico clínico, a sua aplicação a candidatos ao Centro de Estudos Judiciários levanta um desconforto ético e intelectual, até porque não estamos a inquirir pessoas com suspeita de problemas clínicos, de sociabilidade ou mesmo reclusos. Trata-se de pessoas que já superaram provas escritas de Direito e de cultura geral, avaliações orais de painéis de júris e avaliações de raciocínio jurídico — e que, de repente, são sujeitas a um questionário em que se pergunta se ouvem vozes, se se sentem controladas por forças invisíveis ou se gostam de coleccionar selos ou se têm diarreia frequente.
Sede do Centro de Estudos Judiciários. / Foto: D.R.
É, convenhamos, uma experiência desconcertante – e reside aí, porventura, terem chumbado mais de metade dos candidatos que tinham ultrapassado todas as provas técnicas – e isso fez com que o CEJ tenha sido obrigado a fazer uma segunda avaliação, atrasando o início das aulas em quase dois meses.
Compreende-se até bem que um jurista lúcido e emocionalmente equilibrado – e que, como candidato ao curso de juízes e magistrados do Ministério Público – se tenha irritado perante algumas perguntas, que parece querer testar sobretudo a paciência perante a estupidez.
Não é preciso ser Freud para reconhecer que há algo de profundamente literário neste tipo de experimentos — basta, “apenas”, ter lido Machado de Assis. Na novela “O Alienista”, publicada em 1882, o doutor Simão Bacamarte, tomado de um zelo científico quase divino, decide internar os alienados de Itaguaí em nome da razão. Primeiro encerra os loucos evidentes, depois os excêntricos, a seguir os virtuosos, os prudentes e, por fim, todos os que se desviam — mesmo que minimamente — da sua noção de equilíbrio. Na sua própria loucura metodológica, o alienista Bacamarte, obcecado em definir o que é sanidade, acaba por ter um lampejo de lucidez: reconhece que a loucura é, afinal, a norma, e encerra-se a si próprio na Casa Verde. É o desfecho irónico de um enredo que desmonta o delírio científico e a pretensão de medir a alma humana com réguas de laboratório.
O PAI, na sua forma moderna, não chega a tanto, mas transporta a mesma tentação — a de reduzir o espírito humano a uma soma de variáveis e percentagens —, ainda mais inquietante quando se pretende aplicá-lo a futuros juízes e magistrados do Ministério Público, que, antes de tudo, deveriam continuar a ser humanos como os demais.
Entretanto, esta tarde o PÁGINA UM recebeu um “aviso” da editora Hogrefe, que se diz detentora dos direitos do PAI em Portugal, exigindo a cessação imediata de qualquer divulgação adicional dos seus conteúdos e até a remoção dos já publicados. E diz ainda que aquilo que o PÁGINA UM publicou são de “versão não autorizada” e que não correspondem à versão “utilizada no processo de selecção do Centro de Estudos Judiciários”.
Convém referir que a editora não diz quais, em concretos, são as questões apresentadas como exemplo pelo PÁGINA UM que não foram usadas no CEJ, sendo que a instrumento PAI está padronizado internacionalmente, ou seja, apenas admite pequenas alterações ao modelo Leslie Charles Morey. Assim, comparando a versão espanhola com a portuguesa (ambas na posse do PAGINA UM), as diferenças são de pormenor de tradução ou de adatação ao contexto do país. Por exemplo, a pergunta 40, em português é: “O meu poeta favorito é o Daniel Sampaio“, enquanto na versão em espanhol é: “Mi poeta favorito es Ruperto Miralles“.
Sala de audiências do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. / Foto: D.R.
O gesto da editora (que, na verdade, comercializa a versão portuguesa adaptada por Mauro Paulino, da empresa Talking About, contratada pelo CEJ), além de intimidatório, é revelador da opacidade com que certos instrumentos “científicos” são tratados. Como se compreende, o PÁGINA UM não está a divulgar segredos industriais ou a violar a privacidade de alguém, mas a discutir a adequabilidade de um teste aplicado em concursos públicos — e, portanto, sujeito ao escrutínio público.
Por essa razão, decidimos publicar a totalidade das 344 afirmações do PAI, destacando a negrito aquelas que considerámos mais relevantes ou questionáveis. A selecção não foi fácil, tal a profusão de curiosidades insólitas e intrusivas que, com frequência, se imiscuem mesmo nos recantos da vida íntima dos candidatos — expondo-os perante os psicólogos — e, em certos casos, descem mesmo a pormenores de natureza escatológica (no sentido literal do termo).
Note-se que os candidatos eram ‘convidados’ a assinarem um “consentimento informado” antes do preenchimento do inquérito, mas, na prática, jamais poderiam recusar: sem o preenchimento do inquérito seriam automaticamente desclassificados.
Mauro Paulino, gerente e psicólogo principal da Talking About, contratada pelo Centro de Estudos Judiciários, para elaborar os inquéritos aos candidatos.
A decisão de publicar na íntegra as 344 afirmações do questionário do PAI, apesar do aviso da editora de capital alemão, é sustentada por um princípio que deveria ser elementar numa democracia: o interesse público. Quando um instrumento de avaliação é usado para excluir ou condicionar o acesso a carreiras públicas — como a de juiz ou magistrado do Ministério Público —, a sociedade tem o direito de conhecer a sua natureza, os seus pressupostos e as suas implicações.
A liberdade de imprensa não é um luxo: é o antídoto contra a arbitrariedade. E a transparência é a única garantia de que a psicologia não se transforma numa nova forma de censura científica, onde o cidadão é reduzido a um código estatístico. O PÁGINA UM não se move por curiosidade mórbida, mas por convicção democrática: quem aspira a julgar os outros não pode ser julgado por um algoritmo. E quem acredita na razão não deve temer a transparência. Destaque-se ainda que a empresa Talking About e o CEJ mantêm silêncio quanto às questões formuladas pelo PÁGINA UM na passada semana.
INQUÉRITO DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA APLICADA PELA EMPRESA TALKING ABOUT AOS CANDIDATOS AO CURSO DO CENTRO DE ESTUDOS JUDICIÁRIOS
(a negrito estão as afirmações – às quais se deveria responder com uma de quatro opções (“falsa”, “ligeiramente verdadeira”, “bastante verdadeira” ou “completamente verdadeira”) – que o PÁGINA UM considera mais insólitas no contexto em causa)
1 — Os meus amigos estão disponíveis quando preciso deles.
2 — Tenho alguns conflitos internos que me causam problemas.
3 — A minha saúde tem limitado algumas das minhas atividades.
4 — Em algumas ocasiões, sinto tanta tensão que custa-me muito suportá-la.
5 — Às vezes, preciso de fazer as coisas de uma certa forma para não ficar nervoso.
6 — Estou triste, grande parte do tempo, sem que haja uma razão.
7 — Frequentemente, penso e falo tão rápido que os outros não me conseguem acompanhar.
8 — A maior parte das pessoas que conheço são dignas de confiança.
9 — De vez em quando, perco completamente a memória.
10 — Tenho algumas ideias que os outros acham estranhas.
11 — Estraguei intencionalmente os pertences de outras pessoas.
12 — O meu estado de saúde é muito bom para a minha idade.
13 — Sou uma pessoa muito sociável.
14 — Tenho mudanças de humor repentinas.
15 — Às vezes, sinto-me culpado pela quantidade de álcool que bebo.
16 — Sinto-me confortável nas situações em que tenho que orientar ou coordenar outras pessoas.
17 — Frequentemente, mudo a imagem e a ideia que tenho de mim.
18 — Tenho um caráter bastante mau.
19 — Tive alguns relacionamentos atribulados.
20 — Em certas ocasiões, gostaria de estar morto.
21 — As pessoas têm medo do meu feitio.
22 — Às vezes, tomo drogas para me sentir melhor.
23 — Experimentei quase todos os tipos de droga.
24 — Às vezes, até as coisas pequenas preocupam-me demasiado.
25 — Tenho dificuldades em concentrar-me por causa dos meus nervos.
26 — Frequentemente, tenho medo de “meter a pata na poça” e dizer algo inconveniente.
27 — Sinto que dececionei todo o mundo.
28 — Tenho muitas ideias brilhantes.
29 — Existem pessoas que me querem magoar.
30 — Parece-me que não me relaciono bem com as pessoas.
31 — Já pedi dinheiro emprestado sabendo que não podia pagar.
32 — A maior parte do tempo, não me sinto bem.
33 — Frequentemente, sinto-me inquieto.
34 — Continuo a viver algo horrível que me aconteceu.
35 — Quase não tenho energia.
36 — Irrito-me quando as pessoas são demasiado lentas a perceber as minhas ideias.
37 — Geralmente, as pessoas tratam-me bastante bem.
38 — Os meus pensamentos tornaram-se bastante confusos.
39 — Dá-me prazer fazer coisas perigosas.
40 — O meu poeta favorito é o Daniel Sampaio.
41 — A maior parte das pessoas, no meu meio, estão disponíveis quando preciso.
42 — Preciso de fazer algumas mudanças na minha vida.
43 — Tive algumas doenças que os médicos não foram capazes de explicar.
44 — O meu nervosismo impede-me de fazer algumas coisas bem.
45 — Tenho certos impulsos que luto para controlar.
46 — Esqueci-me o que é sentir-me feliz.
47 — Assumo tantos compromissos que não sou capaz de os cumprir.
48 — Devo estar alerta perante a possibilidade de algumas pessoas não serem leais.
49 — Quase não tenho boas memórias da minha infância.
50 — Às vezes, as outras pessoas metem ideias na minha cabeça.
51 — Fiz coisas que não eram completamente legais.
52 — Os meus problemas de saúde são muito complicados.
53 — Faço novos amigos com facilidade.
54 — Experimento estados de ânimo muito intensos.
55 — Tenho alguma dificuldade em controlar a quantidade de álcool que bebo.
56 — Geralmente, atuo como um líder de forma natural.
57 — Às vezes, sinto uma sensação intensa de vazio interior.
58 — Nunca tenho problemas por culpa do meu feitio.
59 — Quero que algumas pessoas saibam que me causaram muito dano.
60 — Já pensei em algumas formas de me suicidar.
61 — Às vezes, expludo e perco o controlo sobre mim.
62 — Algumas pessoas já me disseram que tenho problemas com as drogas.
63 — O consumo de drogas provocou-me alguns problemas de saúde.
64 — Não aceito bem as críticas.
65 — Frequentemente, acho difícil divertir-me porque tudo me preocupa.
66 — Tenho medos excessivamente grandes.
67 — Às vezes, penso que não valho nada.
68 — Tenho muitas qualidades interessantes que outras pessoas não têm.
69 — Algumas pessoas fazem coisas para me deixar mal.
70 — Tenho pouco que dizer a outras pessoas.
71 — Aproveitar-me-ia dos outros se fosse fácil.
72 — Tenho muitas dores.
73 — Às vezes, preocupo-me tanto que parece que vou desmaiar.
74 — Frequentemente, vêm à minha mente memórias do passado que me provocam mal-estar.
75 — Adormeço com facilidade.
76 — Não tenho paciência para as pessoas que me tentam controlar.
77 — Creio que na minha vida tive tanta sorte como a maior parte das pessoas.
78 — Às vezes, misturo os pensamentos uns com os outros.
79 — Faço muitas coisas perigosas só pela emoção que me causam.
80 — Às vezes, recebo por correio anúncios que não me interessam nada.
81 — Quando tenho problemas, tenho pessoas com quem posso contar.
82 — Tenho que mudar alguns aspetos, mesmo que me custe muito.
83 — Certas partes do meu corpo ficaram sem sensibilidade, em algumas ocasiões, sem que eu saiba o porquê.
84 — Algumas vezes, sinto medo sem que haja razões para isso.
85 — Incomoda-me que as coisas não estejam no seu sítio.
86 — Qualquer atividade exige-me um grande esforço.
87 — Os meus amigos não são capazes de seguir todas as minhas atividades sociais.
88 — Grande parte das pessoas tem boas intenções.
89 — O meu destino é ser infeliz desde o dia que nasci.
90 — Às vezes, parece que os meus pensamentos se produzem em voz alta e que os outros conseguem ouvi-los.
91 — Já disse muitas mentiras para livrar-me de situações comprometedoras.
92 — Custa-me muito fazer as coisas por causa dos meus problemas de saúde.
93 — Gosto de conhecer pessoas novas.
94 — Às vezes, meto-me em problemas porque ajo de forma muito impulsiva.
95 — Algumas pessoas próximas acham que bebo demasiado.
96 — Gosto dos trabalhos em que tenho que coordenar os outros.
97 — Preocupo-me muito que as outras pessoas possam abandonar-me.
98 — Quando estou a conduzir e me indigno com os outros condutores, faço para que deem conta disso.
99 — Algumas pessoas muito próximas já me abandonaram.
100 — Já fiz planos para matar-me.
101 — Quando me enfureço, é muito difícil acalmar-me.
102 — Já tive problemas económicos devido ao consumo de drogas.
103 — Sou incapaz de controlar o meu consumo de drogas.
104 — Às vezes, queixo-me demasiado.
105 — Frequentemente, sinto grande preocupação e nervosismo que mal consigo suportar.
106 — Quando tenho que fazer algo diante de outras pessoas, sinto-me muito nervoso.
107 — Sinto-me sem forças para continuar.
108 — Tenho planos de me converter, algum dia, numa pessoa famosa.
109 — As pessoas que me rodeiam são leais comigo.
110 — Sou uma pessoa solitária.
111 — Fazia qualquer coisa se me pagassem o suficiente.
112 — Tenho boa saúde.
113 — Às vezes, sinto tonturas quando estive debaixo de uma forte pressão.
114 — A recordação de uma má experiência afetou-me durante muito tempo.
115 — É raro ter dificuldades para adormecer.
116 — Às vezes, irrito-me porque as outras pessoas não compreendem os meus planos.
117 — Tenho dado muito, mas é pouco o que tenho recebido em troca.
118 — Algumas vezes, custa-me separar uns pensamentos dos outros.
119 — Às vezes, comporto-me de forma desenfreada e insensata.
120 — O desporto que mais gosto de ver pela televisão é salto em altura.
121 — As pessoas que conheço preocupam-se comigo.
122 — Necessito de ajuda para enfrentar os problemas importantes.
123 — Em algumas ocasiões, as minhas pernas estavam tão fracas que não podia caminhar.
124 — Frequentemente, tenho a sensação que está prestes a acontecer algo horrível.
125 — Sou capaz de descansar ainda que a minha casa esteja desarrumada.
126 — Parece que nada me proporciona prazer.
127 — Em certas ocasiões, os meus pensamentos movem-se a uma velocidade excessiva.
128 — Geralmente, as pessoas ocultam as suas verdadeiras intenções.
129 — Tenho problemas psicológicos graves que começaram de forma repentina.
130 — Existem pessoas que tentam controlar os meus pensamentos.
131 — Nunca tive problemas com a lei.
132 — Parece que os meus problemas de saúde são sempre difíceis de tratar.
133 — Sou uma pessoa acolhedora.
134 — Às vezes, não consigo conter a minha raiva.
135 — O meu hábito de beber trouxe-me alguns problemas nas relações com os outros.
136 — Custa-me muito defender-me sem ajuda.
137 — Frequentemente, pergunto-me o que deveria fazer com a minha vida.
138 — Seria capaz de gritar com os outros de forma a que fiquem claros os meus argumentos.
139 — Quando estou zangado, tendo a fazer coisas que me magoam.
140 — Nos últimos tempos, tenho pensado no suicídio.
141 — Às vezes, parto coisas quando estou muito zangado.
142 — Nunca consumo drogas ilegais.
143 — Prejudica-me o meu comportamento excessivamente impulsivo.
144 — Às vezes, sou demasiado impaciente.
145 — Os meus amigos dizem-me que preocupo-me demasiado.
146 — Raramente, sinto medo.
147 — Por mais que tente, nada me sai bem.
148 — Creio que tenho as respostas a algumas perguntas importantes.
149 — Algumas pessoas procuram impedir-me de evoluir.
150 — Há poucas pessoas de quem me sinto próximo.
151 — Penso em mim antes de tudo e deixo que os outros cuidem de si próprios.
152 — São raras as vezes que me queixo do meu estado de saúde.
153 — Às vezes, custa-me respirar quando estou submetido a muita tensão.
154 — Parece que não me posso livrar de certos acontecimentos do passado.
155 — Tenho-me movido com mais lentidão do que o normal.
156 — Tenho planos importantes e incomoda-me muito que outras pessoas tentem meter-se no meio.
157 — Muitas pessoas não são capazes de apreciar o que fiz por elas.
158 — Às vezes, parece que alguém está a bloquear os meus pensamentos.
159 — Tenho prazer em conduzir muito depressa.
160 — Grande parte das pessoas deseja ir ao dentista.
161 — As pessoas não compreendem o quanto eu sofro.
162 — Tenho muitos problemas económicos.
163 — Recentemente, têm acontecido muitas mudanças na minha vida.
164 — Na minha casa existe pouca estabilidade.
165 — As coisas não vão bem com a minha família.
166 — Perdi interesse em coisas que antes gostava.
167 — Ultimamente, tenho tido mais energias que o normal.
168 — Geralmente, presumo que as pessoas dizem a verdade.
169 — Sinto-me sozinho, na maior parte do tempo.
170 — Oiço vozes que mais ninguém consegue ouvir.
171 — Gosto fazer coisas só para provar se consigo sair delas impune.
172 — Tenho tido unicamente problemas de saúde que a maioria das pessoas tem.
173 — Necessito de tempo para sentir-me confiante com pessoas que não conheço.
174 — Sempre fui uma pessoa bastante feliz.
175 — A bebida ajuda-me a suportar certas situações sociais.
176 — Sou o tipo de pessoa que toma conta das coisas.
177 — Não posso suportar separar-me das pessoas que são muito próximas de mim.
178 — Nunca perco o controlo quando estou demasiado furioso.
179 — Cometi alguns erros graves em relacionamentos com pessoas que escolhi como amigas.
180 — Durante muito tempo, pensei em suicídio.
181 — Ameacei magoar outras pessoas.
182 — Utilizei medicamentos para me animar.
183 — Normalmente, tenho poucas mudanças de humor.
184 — Às vezes, tento evitar as pessoas de quem não gosto.
185 — A minha preocupação com as coisas é geralmente igual à da maioria das pessoas.
186 — Não me assusta conduzir em autoestradas.
187 — Acho que me custa muito concentrar-me.
188 — Tive alguns êxitos notáveis.
189 — Algumas pessoas mudam os seus planos para me incomodar.
190 — Desfruto a companhia de outras pessoas.
191 — Não gosto de sentir-me ligado a outra pessoa.
192 — Tenho problemas de costas.
193 — Sou capaz de relaxar com facilidade.
194 — Tive algumas experiências terríveis que fazem com que me sinta culpado.
195 — Com frequência, acordo cedo pela manhã e não sou capaz de voltar a dormir.
196 — Posso ser muito exigente quando quero que as coisas se façam rapidamente.
197 — Geralmente, reconhecem o que eu faço.
198 — A minha mente tende a saltar rapidamente de umas coisas para outras.
199 — A ideia de uma vida tranquila e ordenada nunca me interessou.
200 — Os meus passatempos favoritos são o tiro com arco e coleção de selos (filatelia).
201 — Gosto de estar com a minha família.
202 — Gosto de ser como sou.
203 — Em certas ocasiões, perdi a sensibilidade nas mãos.
204 — São raras as vezes que sinto tensão ou ansiedade.
205 — Normalmente, dou conta de quando algo tem muitos germes.
206 — Não tenho interesse pela vida.
207 — Tenho a sensação de que necessito estar em constante atividade, sem descansar.
208 — As pessoas pensam que sou demasiado suspeito.
209 — Às vezes, não me recordo de quem sou.
210 — Outras pessoas podem ler os meus pensamentos.
211 — Nunca me expulsaram da escola durante a minha infância, nem mesmo temporariamente.
212 — Já tive doenças ou incómodos bastante raros.
213 — É preciso tempo para as pessoas chegarem a conhecer-me.
214 — Em algumas ocasiões enfureci-me de tal forma que era incapaz de manifestar toda a ira que sentia.
215 — Em algumas ocasiões tive que deixar a bebida.
216 — Prefiro que sejam os outros a tomar as decisões.
217 — Normalmente, não me aborreço.
218 — Sempre que posso, evito as discussões.
219 — Quando tenho um amigo ou amiga, é para muito tempo.
220 — A morte seria um alívio.
221 — Os outros pensam que sou uma pessoa agressiva.
222 — Nunca consumo drogas para ajudar-me a enfrentar o mundo.
223 — Raras vezes, sinto-me uma pessoa solitária.
224 — Às vezes, deixo as coisas para o último momento.
225 — Geralmente, preocupo-me pelas coisas mais do que devia.
226 — Não me assustam as alturas.
227 — Creio que no futuro vão-me acontecer coisas favoráveis.
228 — Creio que podia ser um bom comediante.
229 — É muito raro que as pessoas me tratem mal de propósito.
230 — Sempre que posso, gosto de estar com outras pessoas.
231 — Não gosto de manter um relacionamento durante muito tempo.
232 — Tenho problemas de estômago.
233 — Às vezes, noto que o meu coração bate muito forte.
234 — Continuo a ter pesadelos sobre o passado.
235 — Tenho um bom apetite.
236 — Incomoda-me muito se uma pessoa trata de impedir que cumpra os meus objetivos.
237 — As pessoas que têm tido êxito, geralmente merecem-no.
238 — Às vezes, parece que me roubaram os pensamentos.
239 — Quando me canso de um sítio, vou para outro imediatamente.
240 — Não gosto de comprar coisas que me parecem excessivamente caras.
241 — Na minha família, discutimos mais do que falamos.
242 — Muitos dos meus problemas são consequências da minha atitude.
243 — Já tive experiências de visão dupla e visão turva.
244 — Sobressalto-me com facilidade.
245 — Os outros consideram que dou muita atenção aos detalhes.
246 — Nos últimos tempos, sinto-me geralmente feliz.
247 — Ultimamente, tenho menos necessidade de dormir que o habitual.
248 — Geralmente, as coisas não são o que aparentam à primeira vista.
249 — Às vezes, vejo apenas em preto e branco.
250 — Tenho um sexto sentido que me avisa das coisas que vão acontecer.
251 — Geralmente, portava-me bem quando ia para a escola.
252 — Já fui, muitas vezes, ao médico.
253 — Tento acolher as pessoas que parecem estar sós.
254 — Às vezes, bebo um copo de bebida alcoólica quando acordo.
255 — A bebida causou-me alguns problemas em casa.
256 — Digo sempre o que penso.
257 — Geralmente, faço o que as pessoas me pedem.
258 — Às vezes, posso ser uma pessoa violenta.
259 — É muito difícil ficar irritado.
260 — Tenho estado a pensar no que podia dizer numa carta de suicídio.
261 — Não tenho motivos para continuar a viver.
262 — Nunca tive problemas no trabalho por causa das drogas.
263 — Gasto dinheiro com demasiada facilidade.
264 — Às vezes, faço promessas que não posso cumprir.
265 — Às vezes, fico tão nervoso que parece que vou morrer.
266 — Evito andar de avião.
267 — Posso contribuir com coisas importantes.
268 — Ultimamente, confio tanto em mim que acredito conseguir o que me proponho.
269 — As pessoas implicam comigo.
270 — Faço amigos com facilidade.
271 — Tenho sempre algo a dizer ou a opinar sobre qualquer coisa.
272 — Dói-me a cabeça com mais frequência que as outras pessoas.
273 — Frequentemente, fico com as mãos suadas.
274 — Tive uma experiência muito má que me fez perder o interesse por algumas coisas que antes desfrutava.
275 — Frequentemente, acordo a meio da noite.
276 — Às vezes, estou muito desconfiado e aborreço-me facilmente.
277 — Não sou uma pessoa que costuma guardar rancor.
278 — Os pensamentos desaparecem rapidamente da minha cabeça.
279 — Nunca corro riscos se os puder evitar.
280 — Grande parte das pessoas prefere ganhar do que perder.
281 — Passo pouco tempo com a minha família.
282 — Sou capaz de resolver sozinho os meus problemas.
283 — Algumas partes do meu corpo ficaram paralisadas em alguma ocasião.
284 — Não sou das pessoas que se assustam facilmente.
285 — Controlo-me de uma forma muito rigorosa.
286 — Quase sempre, sou uma pessoa alegre e positiva.
287 — Quase nunca compro coisas por um impulso repentino.
288 — As pessoas têm que ganhar a minha confiança.
289 — Tenho visões onde me vejo obrigado a cometer certos crimes.
290 — Não creio que existam pessoas capazes de ler mentes.
291 — Nunca roubei dinheiro ou objetos de outras pessoas.
292 — Gosto de falar com outras pessoas sobre os seus problemas de saúde.
293 — Sou uma pessoa afetuosa.
294 — Se bebo, nunca conduzo.
295 — Quase nunca bebo álcool.
296 — As pessoas costumam pedir-me opinião.
297 — Se me atendem mal num estabelecimento, reclamo ao responsável.
298 — Repreendo as pessoas se o merecem.
299 — Procuro evitar levantar a voz.
300 — Já me perguntei como é que as pessoas reagiriam se eu me suicidasse.
301 — Tenho muitos motivos para viver.
302 — Partilho o consumo de drogas com os meus melhores amigos.
303 — Sou uma pessoa imprudente.
304 — Às vezes, podia ter agido de uma forma mais refletida do que aquela que o fiz.
305 — Não me preocupo com as coisas que escapam ao meu controlo.
306 — Não me preocupa andar de autocarro ou comboio.
307 — Tenho bastante êxito com os meus projetos.
308 — Sou incapaz de me ver como uma pessoa famosa.
309 — Sou alvo de uma conspiração.
310 — Mantenho contato com os meus amigos e amigas.
311 — Quando faço uma promessa, não sinto a necessidade de a cumprir.
312 — Tenho diarreia com frequência.
313 — Tenho o pulso firme.
314 — Evito certas coisas que trazem más recordações.
315 — Tenho pouco interesse por sexo.
316 — Sou pouco paciente com as pessoas que não estão de acordo com os meus planos.
317 — A longo prazo, uma pessoa vê-se recompensada se ajudar alguém.
318 — Sou capaz de me concentrar tão bem como nos meus melhores tempos.
319 — Não sou uma pessoa que se assusta com os desafios.
320 — No meu tempo livre, costumo ler, ver televisão ou simplesmente descansar.
321 — Gostaria de entender o porquê de agir da forma que o faço.
322 — A minha vida é completamente imprevisível.
323 — Em algumas ocasiões, a minha visão piorou e depois voltou a melhorar.
324 — Sou uma pessoa muito tranquila e relaxada.
325 — As pessoas dizem que sou perfecionista.
326 — Satisfaz-me plenamente a minha situação laboral.
327 — Preocupa-me não ter bastante dinheiro para ir em frente.
328 — A minha relação conjugal não vai bem.
329 — Creio que dentro de mim há três ou quatro personalidades completamente diferentes.
330 — Sou uma pessoa bastante compreensiva.
331 — É importante, para mim, ter relacionamentos pessoais íntimos.
332 — Tenho pouca paciência com as pessoas.
333 — Tenho mais amigos do que a maior parte das pessoas que conheço.
334 — Nunca tive problemas por ter bebido.
335 — Tive alguns problemas no trabalho por causa da bebida.
336 — Costumo tentar que os outros não se apercebam quando discordo deles.
337 — Sou uma pessoa muito independente.
338 — As pessoas ficariam surpreendidas se me vissem a gritar com alguém.
339 — Desde que sou uma pessoa adulta, nunca comecei uma luta.
340 — Estou a pensar na possibilidade de me suicidar.
341 — As coisas nunca me correram tão mal ao ponto de pensar em suicídio.
342 — O consumo de drogas nunca me causou problemas com a família ou os amigos.
343 — Tenho muito cuidado com a forma como gasto o dinheiro.
Se não houver mais surpresas, esta segunda-feira serão finalmente anunciados os candidatos aprovados para os cursos de juízes e magistrados do Ministério Público, cujo início só deverá ocorrer no princípio de Dezembro — um atraso inédito de quase dois meses. A razão dessa demora reside no elevadíssimo número de reprovações de candidatos que, apesar de terem superado as três exigentes provas escritas (de Direito Civil, Direito Penal e de Cultura Geral) e sido aprovados nas provas orais, acabaram eliminados por uma empresa de psicologia, a Talking About, que, segundo uma notícia do Correio da Manhãno início de Outubro, chumbou mais de metade dos “resistentes”.
Embora o número exacto de reprovações não tenha sido oficialmente divulgado, sabe-se que passaram todas as provas escritas e orais 165 candidatos, o que significa que terão ocorrido mais de 82 exclusões na fase psicológica. O arranque do curso acabou por ser adiado para permitir uma segunda avaliação psicológica, conduzida por vários psicólogos indicados pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, numa espécie de “segunda opinião” institucional.
Sede do Centro de Estudos Judiciários. / Foto: D.R.
A principal causa deste número invulgar de chumbos parece estar no tipo de testes aplicados pela Talking About, uma empresa unipessoal criada em 2020 por Mauro Paulino, psicólogo forense conhecido do público pelas participações em programas da SIC como Análise Criminal e Casa Feliz. Segundo apurou o PÁGINA UM, Mauro Paulino, enquanto psicólogo clínico, decidiu aplicar — aparentemente sem qualquer validação científica específica para este contexto — um inquérito desenvolvido nos anos 1990, o “Personality Assessment Inventory (PAI)”. Apesar de amplamente utilizado na avaliação clínica e forense, o PAI está longe de ser adequado para aferir características de personalidade de futuros juízes e procuradores, já que foi concebido para contextos clínicos, hospitalares e penitenciários com o objectivo de detectar perturbações psicológicas, ajustamento emocional e comportamentos de risco.
Na verdade, pretende sobretudo identificar sintomas de depressão, impulsividade, tendências suicidas, psicopatias, abuso de substâncias e perturbações de ansiedade. O seu objectivo primário é diagnóstico e terapêutico, não a aferição de idoneidade, ponderação racional ou estabilidade cognitiva — atributos essenciais à função judicial. A escolha do PAI deve-se ao facto de Mauro Paulino ter sido o psicólogo português que traduziu e adaptou experimentalmente esse modelo para Portugal, a partir dos trabalhos do psicólogo norte-americano Leslie Charles Morey, professor da Texas A&M University, que reviu o teste em 2007.
Por essa razão, a aplicação do PAI em concursos para a magistratura levanta sérias reservas científicas e éticas: trata-se de um teste de triagem clínica — útil para identificar risco psicopatológico — mas inadequado como critério eliminatório entre candidatos saudáveis, sobretudo porque, segundo apurou o PÁGINA UM, houve candidatos com classificações de excelência que foram reprovados nas provas psicológicas.
Sala de audiências do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. / Foto: D.R.
O PÁGINA UM teve acesso às 344 perguntas – para as quais se poderia responder com uma de quatro formas (Falso, Ligeiramente Verdadeiro, Bastante Verdadeiro e Completamente Verdadeiro – que compõem o PAI e constatou que muitas são claramente inapropriadas ou absurdas no contexto da selecção de magistrados, chegando mesmo a invadir a intimidade dos candidatos ou a incidir em dimensões sem relevância funcional para o exercício da magistratura. A leitura ao calhas do inquérito do PAI chega a ser divertido, se não fosse trágico.
Eis cinco exemplos paradigmáticos: “Já pensei em algumas formas de me suicidar.” (n.º 60) – uma questão de natureza clínica, que pressupõe vulnerabilidade depressiva, mas cuja resposta isolada não deve determinar eliminação num concurso público.
“Experimentei quase todos os tipos de droga.” (n.º 23) – adequada em avaliação de toxicodependência, mas completamente deslocada num processo de selecção baseado em mérito intelectual e moral.
Sede do Centro de Estudos Judiciários. / Foto: D.R.
“O meu poeta favorito é o Daniel Sampaio.” (n.º 40) – uma pergunta que roça o absurdo metodológico, sem qualquer relação com traços de personalidade relevantes para o desempenho judicial, mesmo que uma resposta afirmativa pudesse ser estúpida, porque o irmão do antigo presidente da República Jorge Sampaio não é conhecido como vate.
“Tenho planos para me converter, algum dia, numa pessoa famosa.” (n.º 108) – sugere fantasia narcísica, mas é irrelevante para aferir competências éticas ou jurídicas.
“Tenho prazer em conduzir muito depressa.” (n.º 159) – explora impulsividade e busca de risco, mas o seu valor discriminativo para a magistratura é nulo.
Mauro Paulino, psicólogo. / Foto: Captura de imagem de um vídeo da SIC.
Numa análise mais detalhada encontram-se formulações que, para qualquer pessoa intelectualmente equilibrada e socialmente integrada, soam absurdas e ridículas. Frases como “Já pensei em algumas formas de me suicidar”, “Sou incapaz de controlar o meu consumo de drogas”, “Aproveitar-me-ia dos outros se fosse fácil”, “Faço muitas coisas perigosas só pela emoção que me causam” ou “Tenho planos de me converter, algum dia, numa pessoa famosa” são perguntas que dificilmente se imaginariam colocadas a futuros juízes e procuradores — presumivelmente adultos instruídos, com formação jurídica, sem historial criminal nem perturbações comportamentais.
Mas a bizarria não se fica por aí. O mesmo inventário questiona ainda se o candidato reconhece que “Sou incapaz de controlar o meu consumo de drogas”, “O consumo de drogas provocou-me alguns problemas de saúde”, “Algumas pessoas já me disseram que tenho problemas com as drogas” ou “Já tive problemas económicos devido ao consumo de drogas” — formulações que fariam sentido num centro de desintoxicação, mas não num concurso público de selecção de magistrados.
Há igualmente uma vertente quase caricatural na tentativa de detectar impulsividade ou descontrolo emocional, com itens como “Às vezes, expludo e perco o controlo sobre mim”, “Quando me enfureço, é muito difícil acalmar-me”, “Faço muitas coisas perigosas só pela emoção que me causam” ou “Quando estou a conduzir e me indigno com os outros condutores, faço para que deem conta disso”. E não faltam formulações de tom paranóide ou delirante, como “Algumas pessoas fazem coisas para me deixar mal”, “As pessoas que me rodeiam são leais comigo”, “Às vezes, misturo os pensamentos uns com os outros” ou “Certas partes do meu corpo ficaram sem sensibilidade, sem que eu saiba o porquê”.
Foto: D.R.
Os absurdos continuam. Os candidatos foram ainda ‘convidados’ a pronunciar-se sobre afirmações como “Tenho diarreia com frequência”, “Tenho o pulso firme”, “Evito certas coisas que trazem más recordações”, “Tenho pouco interesse por sexo”, “Sou pouco paciente com as pessoas que não estão de acordo com os meus planos”, “A minha vida é completamente imprevisível”, “Em algumas ocasiões, a minha visão piorou e depois voltou a melhorar” e “A minha relação conjugal não vai bem”.
O tom do questionário oscilou entre o clínico e o grotesco, perguntando ainda se “Tenho pouco que dizer a outras pessoas”, “Qualquer actividade exige-me um grande esforço”, “Aproveitar-me-ia dos outros se fosse fácil”, “Grande parte das pessoas tem boas intenções” ,“O meu destino é ser infeliz desde que nasci”, “Sou alvo de uma conspiração” ou “Creio que dentro de mim há três ou quatro personalidades completamente diferentes”.
Em suma, difícil é seleccionar as questões absurdas que mostram um retrato desconcertante: o Estado português, no momento em que avalia quem julgará os seus cidadãos, submete os candidatos a um interrogatório mais próximo de uma triagem psiquiátrica do que de uma aferição ética ou cognitiva.
Excerto do inquérito PAI.
O PÁGINA UM colocou diversas perguntas ao CEJ e ao responsável pelo inquérito, Mauro Paulino, sobre a razão deste tipo de inquérito de exclusão após exigentes provas jurídicas e de cultura geral, mas não obteve qualquer resposta.
Saliente-se que apesar de ser formalmente o Ministério da Justiça a entidade responsável pela aprovação da empresa de psicologia encarregue de avaliar os candidatos, o PÁGINA UM apurou que todo o processo de selecção e escolha foi conduzido internamente pelo então director do CEJ, Fernando Vaz Ventura, que tomou posse em 2022 e acabou por não ser reconduzido pela actual ministra, Rita Alarcão Júdice.
Segundo documentação oficial, a proposta partiu directamente de Fernando Vaz Ventura, tendo sido formalizada em despacho da ministra datado de 21 de Julho de 2025, que nomeou a empresa Talking About – Psicologia e Ciências Forenses, também conhecida como Mind, para realizar as provas psicológicas do 42.º Curso de Formação de Magistrados Judiciais e do 12.º Curso de Juízes dos Tribunais Administrativos e Fiscais.
O Juiz Conselheiro Fernando Vaz Ventura, diretor do CEJ. / Foto: D.R.
Contudo, não existe qualquer registo público do contrato celebrado entre o CEJ e a empresa escolhida, nem qual o procedimento seguido (concurso público, consulta prévio, ajuste directo ou outro) nem sequer o valor pago pelos serviços. Apesar de se tratar de um procedimento sujeito às regras da contratação pública, não há vestígios no portal BASE. Tanto o CEJ como a Talking About não responderam às perguntas enviadas pelo PÁGINA UM sobre o processo de adjudicação.
Este caso suscita sérias dúvidas sobre transparência e conformidade legal, sobretudo quando está em causa a avaliação psicológica de futuros magistrados. A ausência de informação pública e de resposta institucional aumenta a opacidade da actuação do CEJ e poderá justificar um pedido de esclarecimento formal à ministra da Justiça sobre os critérios e fundamentos da escolha.
Trata-se do desfecho de um processo exemplar da opacidade institucional, arrastado ao longo de três ministros da Saúde (Marta Temido, Manuel Pizarro e Ana Paula Martins) e de duas presidências da ACSS (Victor Herdeiro e André Trindade), e que se tornou símbolo maior da resistência burocrática ao escrutínio público.
Ao centro, Ana Paula Martins, ministra da Saúde; na ponta direita, André Trindade, actual presidente da ACSS; e na ponta esquerda, Victor Herdeiro, ex-presidente da ACSS, que durante mais de dois anos lutou para esconder e manipular uma base de dados,. Foto: ACSS.
A história deste calvário judicial começou em Julho de 2022, quando o PÁGINA UM solicitou acesso à Base de Dados Central dos Grupos de Diagnóstico Homogéneos (GDH) e à reposição da Base de Morbilidade e Mortalidade Hospitalar no Portal da Transparência do SNS, que tinha sido subitamente retirada meses antes por decisão de Victor Herdeiro, então presidente da ACSS e homem de confiança de Marta Temido. A clara intenção de Victor Herdeiro ao retirar a segunda base de dados do Portal da Transparência do SNS — uma versão simplificada da relativa aos GDH — era “estancar” a possibilidade de o PÁGINA UM prosseguir um conjunto de investigações sobre a gestão da pandemia, sobretudo no caso das afecções não-covid.
Com o pedido apresentado no Verão de 2022, ao abrigo da Lei de Acesso aos Documentos Administrativos, o PÁGINA UM pretendia, para um período temporal mais alargado e com maior detalhe, realizar uma análise da evolução das doenças, das taxas de internamento e da performance dos hospitais públicos — informação vital que o Ministério da Saúde nunca tratou com transparência, preferindo guardá-la como se fosse segredo de Estado.
Apesar das sucessivas decisões judiciais que reconheceram o direito do jornal a aceder à informação, a ACSS adoptou uma estratégia deliberada de evitar a sua divulgação: primeiro alegando que a anonimização dos dados seria impossível; depois, invocando o volume de registos e até supostos direitos de propriedade.
Três anos a esconder uma base de dados ‘ameaça’ terminar só depois de uma sentença determinar uma multa diária a ser paga pelo bolso de gestores públicos.
Ainda assim, os tribunais administrativos, por três vezes, deram razão ao PÁGINA UM. Contudo, quer sob a presidência de Victor Herdeiro quer sob a de André Trindade, a ACSS continuou a desrespeitar as ordens judiciais, tentando entregar versões truncadas e mutiladas da base de dados, removendo variáveis essenciais e suprimindo a desagregação hospitalar. O resultado era um ficheiro inócuo, incapaz de revelar padrões epidemiológicos ou medir o desempenho das unidades de saúde — uma simulação de transparência.
Depois de meses de tentativas de diálogo — incluindo duas reuniões presenciais na sede da ACSS —, o PÁGINA UM viu-se obrigado, no final do ano passado, a avançar com um “incidente de incumprimento”, mecanismo legal que permite responsabilizar pessoalmente os dirigentes públicos pelo não cumprimento de uma sentença transitada em julgado.
Mas o processo, que deveria ser simples, transformou-se numa ópera bufa de incompetência e má-fé, sobretudo por parte dos actuais dirigentes da ACSS. Após a oficial de justiça encarregada das notificações se ter enganado por duas vezes no envio, quando finalmente as remeteu para o endereço correcto — o edifício 16 do Parque de Saúde de Lisboa, junto ao Hospital Júlio de Matos — começou uma autêntica comédia de evasão institucional.
Carlos Galamba, Sandra Brás, Paula Oliveira e André Trindade: por cada dia sem cumprir a sentença, dirigentes da ACSS vão ficar sem 70 euros. Veremos se mantêm agora a “coragem” de recusar a informação ao PÁGINA UM.
O carteiro dos CTT, que tentou por duas vezes entregar as notificações, encontrou “portas fechadas” — não por ausência, mas por ordem. Em ambas as tentativas, nenhuma das quatro cartas foi reclamada, apesar de existir uma recepção e serviços administrativos na ACSS. Todas as notificações regressaram ao tribunal com a menção “objecto não reclamado”: um eufemismo administrativo para “fuga deliberada”. A ACSS, entidade tutelada pelo Ministério da Saúde, recusou ostensivamente receber notificações de um tribunal.
O juiz Miguel Crespo tomou, em todo o caso, uma decisão, mesmo perante este absurdo desrespeito institucional de meros funcionários públicos de confiança política. A sentença agora proferida marca um ponto de viragem. Pela primeira vez, os dirigentes da ACSS são pessoalmente responsabilizados — e cada dia de atraso custar-lhes-á 70 euros, título de “sanção pecuniária compulsória”, até que cumpram o que a lei e os tribunais determinaram há mais de dois anos. A medida é rara e demonstra a gravidade da desobediência. No essencial, o tribunal reconhece que não se trata de um erro administrativo ou de interpretação, mas de uma recusa consciente e continuada em cumprir uma obrigação legal de transparência.
Além da sentença, o juiz do Tribunal Administrativo de Lisboa não deixa espaço para mais fugas interpretativas por parte da ACSS. A base de dados dos GDH contém 46 variáveis, mas a ACSS insistia em eliminar 26 e em agregar outras quatro, suprimindo detalhes como a idade e a identificação do hospital. Na prática, pretendia entregar uma base de dados inútil, sem valor analítico.
Agora, o juiz Miguel Crespo vem esclarecer que apenas sete variáveis pouco relevantes — “seq-number” (substituível pelo número fictício de utente), “Data_Nasc” (substituível pela idade), “Freguesia”, “Hora_urgência”, “Hora_entrada”, “Hora_saída” (que são irrelevantes, porque se tem as datas) e “versão_icd” — são “susceptíveis, directa ou indirectamente, de permitir ou facilitar a identificação de pessoas singulares ou contribuir para a sua identificação, pelo que devem ser objecto de anonimização”.
Lista das 46 variáveis da base de dados dos Grupos de Diagnóstico Homogéneos: a ACSS queria eliminar 26 e agregar quatro, tornando inútil qualquer análise.
Todas as restantes devem ser integralmente disponibilizadas, incluindo variáveis que permitem uma análise epidemiológica e hospitalar detalhada, como o hospital de internamento, o concelho de residência, a data do internamento e a evolução das doenças ou afecções e o desfecho clínico (alta, transferência ou morte).
Resta agora saber se, depois desta sentença, a ‘coragem’ dos quatro membros do Conselho Directivo da ACSS se manterá, insistindo em recusar o acesso à base de dados dos GDH de forma ostensiva e prepotente. Para cada um deles, essa ‘coragem’ não lhes custará demasiado: “apenas” cerca de 2.100 euros por mês a menos no salário, ou seja, 70 euros por dia.
N.D. Este foi um dos mais longos, morosos e onerosos processos do PÁGINA UM no âmbito das intimações que tem vindo a apresentar nos tribunais administrativos, e que, neste caso, em concreto, tiveram o inexcedível patrocínio jurídico do advogado Rui Amores e o apoio financeiro dos leitores através do FUNDO JURÍDICO.
Na entrevista feita esta semana por Piers Morgan, Cristiano Ronaldo falou da sua carreira – que já o coloca no Olimpo do futebol, a ‘escassas’ dezenas de golos para ultrapassar a barreira dos mil –, mas também da sua vida pessoal e dos seus negócios. Mas se dentro de campo, CR7 desafia os limites e o tempo, convenhamos que fora dele, no mundo dos negócios, o génio madeirense ainda aguarda um toque de mestre para transformar o seu já ‘império empresarial’ num colosso de rentabilidade.
O mais recente relatório e contas da sua holding, a CR7, referente ao exercício de 2024, mostra uma estrutura societária em grande crescimento e diversificação, mas com resultados financeiros ainda longe do brilho desportivo.
Sediada na Torre II das Amoreiras, em Lisboa, a CR7 já não é uma empresa pequena, embora seja considerada uma microempresa, por ser uma holding com poucos empregados. Tem activos de quase 148 milhões de euros, quase tudo (138,7 milhões) indexados às participações financeiras em 29 empresas espalhadas por Portugal, Espanha, Reino Unido, Países Baixos, Alemanha, Chipre, Luxemburgo e Emirados Árabes Unidos.
Digamos que se trata de um império de amplitude global, mas o retorno económico é, para já bastante modesto: em 2024, a CR7 registou lucros líquidos de apenas 724.977 euros, o que representa uma rentabilidade de 0,5% sobre o activo — um número que, ironicamente, fica abaixo do juro médio de um simples depósito a prazo.
A leitura detalhada das contas permite perceber porquê. A esmagadora maioria das empresas do grupo ainda não gera lucros significativos nem dividendos. O desempenho consolidado da holding assenta sobretudo em dividendos de apenas três das 29 subsidiárias do grupo, além de rendimentos financeiros, com 245.650 euros obtidos em juros de aplicações bancárias, provavelmente devidos aos quase nove milhões de euros do activo em depósitos bancários. Este será um sinal de liquidez folgada, mas também de subaproveitamento financeiro.
De acordo com a análise do PÁGINA UM, no ano passado os investimentos da CR7 resultaram num retorno por via de dividendos de 1.220.046 euros. A Insparya, clínica de transplante capilar e medicina estética, contribuiu com 200.040 euros; a Insparya National, que gere a rede portuguesa do mesmo grupo, pagou-lhe 300.006 euros; e a Medialivre, através da Expressão Livre distribuiu 720.000 euros. Uma suprema ironia: para já, a empresa mais lucrativa de Cristiano Ronaldo é a que publica o Correio da Manhã e é dona da CMTV, que durante anos infernizou a vida do futebolista com ‘escândalos’ e fofocas. O cenário mudou quando há dois anos Cristiano Ronaldo entrou com 30% no capital do grupo de media.
Todas as restantes subsidiárias – num total de 26 – apresentaram resultados negativos ou optaram por reter lucros para reinvestimento. A conclusão é inequívoca: Cristiano Ronaldo está, sem dúvida, a construiu uma constelação empresarial vasta, mas o brilho financeiro e económico ainda é ténue.
O grupo mantém, contudo, uma solidez estrutural invejável. A CR7, S.A. apresenta capitais próprios de 20,9 milhões de euros, face a um endividamento de 126,9 milhões, mas que é essencialmente composto por financiamentos de longo prazo, internos e externos. No entanto, os custos operacionais são elevados para uma estrutura desta natureza: em fornecimentos e serviços externos a CR7 gastou quase 477 mil euros e em gastos com pessoal (apenas cinco pessoas) 167 mil euros.
Pela análise do balanço e da demonstração de resultados, o passivo será suportado pelo próprio Cristiano Ronaldo – e não por empréstimos bancários ou dívidas a terceiros, porque o pagamento de juros é praticamente zero. A estrutura de capital é robusta, a tesouraria é confortável e as contas revelam disciplina. Falta, porém, o essencial: o lucro operacional que justifique a magnitude do império.
O portefólio empresarial de Cristiano Ronaldo é hoje, de facto, uma das mais complexas estruturas privadas detidas por uma figura pública portuguesa. Com 29 empresas identificadas — 19 em Portugal e 10 no estrangeiro —, o universo CR7 constitui um verdadeiro conglomerado transnacional que se estende do turismo à biotecnologia, da tecnologia digital ao imobiliário de luxo, do entretenimento desportivo à saúde personalizada.
Acrescem outras que ainda não estão integradas na holding, como a CR7 Sports Investments e a CR7 Lifestyle. Em todo o caso, é um império onde o nome próprio é o activo mais valioso e a diversificação a estratégia dominante, mesmo que, por agora, a rentabilidade continue modesta.
Em Portugal, concentram-se as empresas mais activas e operacionais. A CR7 Footwear é a mais antiga e mantém a exploração da marca de calçado e acessórios, um dos primeiros projectos de licenciamento da imagem de Ronaldo. A 7EGEND, fundada em 2017, tornou-se o núcleo tecnológico e criativo do grupo, responsável pela comunicação digital, conteúdos e inovação associada à marca. No sector do turismo, a Category Challenge, em parceria com o grupo Pestana através da Pestana CR7 Holding, S.A., gere os hotéis CR7 em Lisboa, Madrid, Funchal e Marraquexe, consolidando a vertente de hospitalidade e lazer do império.
Na vertente da saúde e bem-estar, destacam-se a Insparya, clínica de transplante capilar e dermatologia de referência, e a Insparya National, que centraliza a gestão da rede portuguesa. Ambas foram responsáveis por dividendos no último exercício, sinal de vitalidade empresarial. A este núcleo soma-se a Erakulis, dedicada à nutrição e desempenho físico, e a Green Fit Recovery, centrada na reabilitação e performance desportiva.
No imobiliário e na gestão patrimonial, a Domum Septem e Ponta de Lança, gere activos de luxo e investimentos residenciais, enquanto a Maravilha Décimal comercializa água alcalina. Na comunicação, o seu principal activo é a participação na MediaLivre e mais recentemente a CR7 Media, por agora dedicada à coordenação mediática e digital do jogador.
Outras sociedades portuguesas ocupam nichos estratégicos: a Footlabworld, que explora a combinação entre futebol e tecnologia em experiências imersivas; a Celestialaxis, de consultoria e gestão de participações; a Smooth Odyssey, vocacionada para inovação tecnológica; a Vista Alegre Atlântica, que liga o universo CR7 ao sector do luxo e design português; e a Lisboa Racket Centre, centrada no desporto e lazer. Juntas, estas empresas representam o corpo operativo nacional do império, a partir do qual se articulam investimentos e participações externas.
No plano internacional, o grupo assume um perfil mais sofisticado e disperso. Em Espanha, Cristiano Ronaldo participa na Global Leisure Partners, dedicada à consultoria em lazer e entretenimento, na Xcell Medical Solutions, focada em medicina regenerativa, e na Dutton Invest, que gere activos e aeronaves. A sua presença ibérica completa-se com a VA Vista Alegre España, responsável pela distribuição da marca de porcelana e cristal em território espanhol.
Nos Países Baixos, Ronaldo é investidor na Catapult Therapeutics, uma start-up de biotecnologia que desenvolve terapias com anticorpos monoclonais aplicados a doenças hematológicas. No Reino Unido, detém uma posição na BQ Holding Limited (Bioniq), empresa de health-tech especializada em nutrição personalizada. Já em Chipre, através da XTEN Limited, controla uma holding de investimento tecnológico. No Luxemburgo, é accionista da Fresh-52 SARL, dedicada ao retalho alimentar e produtos de bem-estar, mas que tem um projecto planeado para Almeirim de cultura de cenouras.
O mapa empresarial completa-se com duas estruturas mais recentes e estratégicas: a CR7 Middle East, com sede nos Emirados Árabes Unidos, que gere a expansão comercial e o licenciamento da marca CR7 no Golfo; e a MPN Marketplace Holdings Ltd., ligada à operação alemã de comércio digital.
Este mosaico de 29 empresas – onde a CR7 apenas controla (mais de 50% do capital) uma dezena, sendo que as restantes acabam por ser mero investimento – traduz uma ambição global de Cristiano Ronaldo, mas também gostos e interesses pessoas: criar um império diversificado e de investimento de longo prazo que sobreviva ao jogador e transforme a marca pessoal numa holding internacional de luxo, saúde e performance.