Categoria: Opinião

  • Introdução: A suave tirania dos nossos tempos

    Introdução: A suave tirania dos nossos tempos


    Há momentos na História em que o discurso político, o pensamento público e até a consciência individual parecem mergulhados num torpor feito de palavras repetidas, de ideias ocas, de rituais sem alma. Vivemos um desses tempos. Um tempo em que as ideologias, outrora projectos estruturantes de mundo, caíram no descrédito ou na irrelevância, sendo substituídas por etiquetas vagas, por alinhamentos circunstanciais e por automatismos discursivos que já não mobilizam consciências nem iluminam caminhos.

    A política deixou, em larga medida, de ser a arte da escolha entre visões de sociedade para se converter num mercado de slogans, numa arena de reacções instintivas, numa sequência de performances ajustadas ao algoritmo ou ao inquérito de opinião. Por isso, mostra-se cada vez mais urgente recentrar o debate nos valores — não nos rótulos, não nos programas, não nos partidos, mas nos valores perenes que dão sentido à liberdade, à verdade, à responsabilidade e à soberania do indivíduo e da comunidade.


    1. O colapso das ideologias tradicionais e a ascensão do dogmatismo funcional

    Durante grande parte do século XX, os confrontos ideológicos não eram apenas jogos de poder: eram confrontos de visões do mundo. O liberalismo clássico, o socialismo democrático, o conservadorismo nacional — com todas as suas variantes e degenerescências — disputavam entre si não apenas votos, mas sentidos, princípios e horizontes. Discutia-se o papel do Estado, o valor da propriedade, a relação entre liberdade e igualdade, o lugar da tradição e da inovação.

    Discutia-se, de facto, política — com paixão, com erro, com demagogia por vezes, mas com substância. Havia, para o bem e para o mal, uma batalha de ideias. A própria luta contra as formas totalitárias — o nazismo, o comunismo, o fascismo — exigia posicionamento e coragem intelectual. Ser de direita ou de esquerda implicava, até certo ponto, uma coerência moral, um conjunto de referências, um mapa do mundo.

    Essa arquitectura ruiu. Não de forma repentina, mas por erosão lenta. O liberalismo económico divorciou-se do liberalismo político, convertendo-se numa técnica de gestão de mercados. O socialismo sucumbiu entre a burocracia estatal e a sedução do consumo. O conservadorismo deixou de conservar seja o que for — perdeu o sentido de pertença e rendeu-se ao marketing político. Aquilo que sobra das ideologias do século XX são versões anémicas de si mesmas: a esquerda que defende bancos e vacinações compulsórias; a direita que aceita défices, censura e dissolução da soberania nacional; os centristas que vegetam entre um simulacro de consenso e a rendição à tecnocracia.

    As ideologias perderam conteúdo porque foram cooptadas pelos aparelhos institucionais, pelos interesses económicos, pela lógica da comunicação instantânea. Como defendeu o recém-falecido filósofo britânico Alasdair MacIntyre, vivemos um tempo de “fragmentação moral”: já não há um quadro partilhado de sentido, mas apenas segmentos dispersos de valores instrumentais, sem hierarquia nem finalidade comum.

    O resultado não tem sido a emancipação do cidadão, mas a sua reprogramação funcional. O vazio deixado pelas ideologias não foi ocupado por um renascimento do pensamento, mas por um novo dogmatismo: mais discreto, mais eficaz, mais domesticador. Não se apresenta como ideologia, mas como inevitabilidade. Não propõe um projecto político, mas uma engenharia social. Este novo dogmatismo é funcional, não doutrinário: não tem como missão formar convicções, mas produzir comportamentos. Apresenta-se sobretudo como tecnocracia apostada na neutralidade, na moral institucionalizada que se confunde com virtude, no higienismo que se impõe como salvação, na burocracia da igualdade que desumaniza em nome da inclusão — é o poder sem rosto, sem narrativa, sem contestação visível; é um poder que normaliza o anormal e rotula como extremista quem apenas ousa pensar fora da grelha predefinida.

    Estamos perante uma nova forma de tirania da maioria, como já antecipava Alexis de Tocqueville no século XIX: uma maioria não necessariamente numérica, mas mediática, algorítmica, institucional — uma maioria fabricada e legitimada não pelo debate, mas pela repetição. Este novo consenso moral-operativo não precisa de censura formal: basta-lhe a difamação mediática, o cancelamento digital, o controlo subtil da linguagem, o medo socialmente inculcado. O triunfo da tirania da maioria surge com a instalação da uniformidade do pensamento, da obediência voluntária, da infantilização do juízo. Embora numa outra perspectiva, Hannah Arendt alertou para a banalidade do mal — e esse mal implanta-se agora não pelo fanatismo ideológico, mas pela normalização da passividade, pela rotinização da mentira, pela aceitação preguiçosa da ordem estabelecida.

    Esse novo dogmatismo apresentou-se, sobretudo na última década, e particularmente desde 2020, com múltiplas máscaras: sanitária, climática (não ambiental), identitária, digital. Mas por trás de todas essas máscaras está o mesmo impulso: manter o indivíduo sob vigilância e a sociedade sob tutela, convencer-nos de que a liberdade é perigosa, a dúvida é ofensiva, a responsabilidade é opressiva, a verdade é relativa. Tudo é reconfigurado ao serviço da funcionalidade: a Ciência como validação de políticas, a Educação como engenharia comportamental, a Cultura como entretenimento subvencionado, o Jornalismo como extensão do poder. E o mais grave é esse processo muitas vezes ser aceite pelos próprios agentes sociais — médicos, professores, jornalistas, juristas — que, em vez de resistirem, adaptam-se, integram-se, reproduzem as lógicas institucionais sob o pretexto de servirem o bem comum.

    Estamos, pois, num tempo em que os partidos e os políticos já não pensam, apenas reagem; em que os parlamentos já não deliberam, apenas carimbam; em que os cidadãos já não escolhem, apenas consentem. A democracia formal mantém-se — com eleições livres, debates condicionados, liberdades reguladas —, mas a substância do regime democrático esvaziou-se: sem ideologias com conteúdo e sem valores em disputa, a política degenerou numa luta de máquinas, de narrativas e de ressentimentos. Restam alguns focos de lucidez, por vezes na periferia, por vezes fora do sistema político, mas são tratados como excentricidades ou ameaças, nunca como interlocutores legítimos.

    É neste cenário que este conjunto de crónicas se inscreve — não como manifesto partidário, nem como catecismo ideológico, mas como exercício de resgate do essencial. Não proponho substituir uma ortodoxia por outra, mas recentrar o debate no que verdadeiramente importa: os valores que permitem pensar e agir com liberdade, integridade e responsabilidade. Contra a lógica das etiquetas e das fidelidades tribais, sugiro aqui uma grelha de princípios que, sendo antigos, se tornam hoje revolucionários. Por exemplo, o simples acto de afirmar que a liberdade é um valor superior à segurança, que a soberania é um direito democrático e não uma relíquia nacionalista, que a verdade importa mesmo quando é incómoda, que o Jornalismo deve vigiar o poder e não servi-lo — tudo isso, que há poucas décadas seria senso comum liberal ou republicano, tornou-se subversivo.

    Estas crónicas, por isso, não servem para crentes, mas para pensantes. Não ofereço soluções mágicas nem convido à adesão automática. Convido, sim, ao exame crítico, à recusa do automatismo, à recuperação do juízo moral. Inicio a partir de um diagnóstico duro — o colapso das ideologias e a ascensão de um dogmatismo funcional e anónimo — para propor um caminho exigente: o da reconstrução do espaço público com base em valores sólidos, não em alinhamentos convenientes. Um caminho que não se faz com indignações epidérmicas nem com palavras de ordem, mas com coragem intelectual, memória histórica e sentido de responsabilidade.

    Aquilo que proponho, portanto, não é o regresso a um passado idealizado, mas a recuperação daquilo que foi abandonado por preguiça, por medo ou por conveniência. A liberdade, a verdade, a responsabilidade, a soberania, a integridade, a crítica, a expressão livre — não como bandeiras identitárias, mas como fundamentos de uma vida cívica digna. Dizer isto é, hoje, um acto político — e, talvez, um acto de resistência.


    2. A necessidade de um novo referencial baseado em valores perenes

    A erosão das grandes ideologias não deu lugar ao pensamento, mas ao vazio. E esse vazio, incapaz de suportar a exigência do juízo crítico, foi rapidamente preenchido por sucedâneos discursivos que prometem tudo e significam quase nada.

    O mais insidioso destes sucedâneos é o centrismo, essa palavra cómoda que disfarça a abdicação do pensamento sob a aparência de equilíbrio. O centro político, que poderia ser um espaço de síntese ou de ponderação, converteu-se num refúgio para os que recusam escolher, os que temem afirmar, os que preferem a gestão à visão. O mesmo se aplica à chamada moderação, termo que nos tempos actuais deixou de significar prudência ou contenção para se tornar sinónimo de capitulação moral. Já não é o radicalismo que assusta: é a possibilidade de ter convicções claras, de afirmar valores como inegociáveis, de recusar as zonas cinzentas que anestesiam o juízo.

    A consciência social, por sua vez, tornou-se uma fórmula piedosa para justificar políticas contraditórias, assistencialismos estruturais e moralismos públicos. Com ela, legitima-se tudo: da restrição de liberdades à imposição de comportamentos, desde que embrulhado numa linguagem de inclusão e compaixão institucionalizada. Trata-se, no fundo, de uma operação de ocultação: esvaziar o conteúdo político do debate, neutralizar os conflitos de valor e transformar a deliberação democrática num ritual de consenso forçado, onde discordar é ser extremista e questionar é ser perigoso.

    Estas soluções fáceis não são apenas intelectualmente pobres: são mecanismos activos de erosão da cidadania, pois promovem a obediência revestida de virtude e a conformidade disfarçada de ponderação.

    Neste cenário, torna-se fulcral um novo referencial, mas não um referencial ideológico — já vimos como as ideologias se tornaram cascas vazias, instrumentos de marketing ou de sobrevivência partidária. Aquilo que se impõe é a substituição das etiquetas por uma arquitectura de valores, que sirvam de critério normativo e de fundamento ético para a acção pública e individual. Esta arquitectura não é um sistema fechado, mas uma grelha de referência; não impõe conclusões, mas fornece critérios de orientação, que permitem distinguir entre o essencial e o acessório, entre aquilo que pode ser negociado e o que deve ser preservado, entre o que é opinião e aquilo que é princípio.

    A proposta destas crónicas assenta precisamente nesse resgate dos valores estruturantes, que não dependem de programas eleitorais, de conveniências partidárias ou de consensos fugazes. Falo de valores que não mudam com o ciclo noticioso nem oscilam ao sabor das redes sociais. Falo da liberdade, da verdade, da responsabilidade, da soberania, da expressão crítica, da integridade — valores que moldam o carácter de uma sociedade e a dignidade de um cidadão. Não são fórmulas — são fundamentos. Não são sentimentos — são compromissos. E é essa distinção que urge recuperar, pois a confusão também se mostra quando se acredita que “valores” são apenas slogans ou posturas públicas.

    Mas, afinal, o que são valores perenes? A resposta deveria ser simples: são aqueles princípios que resistem ao tempo, à moda e à manipulação, que exigem constância, coragem e clareza — precisamente por não serem adaptáveis ao gosto do dia. São aqueles que, como dizia Simone Weil, nos enraízam: não nos prendem ao passado, mas impedem que sejamos levados pela corrente de cada presente. A liberdade, por exemplo, não é uma política — é um princípio. A verdade não é um ponto de vista — é uma exigência. A responsabilidade não é uma função — é uma escolha pessoal. A soberania não é um capricho nacionalista ou patriótico — é o direito a decidir o próprio destino. Estes valores não são acessórios: são a gramática da dignidade.

    Já os valores acessórios — como a eficiência, a inovação, a sustentabilidade ou a competitividade —, embora possam ser desejáveis, não fundam nada por si mesmos. São instrumentais, não estruturantes. Podem servir a liberdade ou a tirania, a responsabilidade ou o servilismo, consoante o fim que os enquadra. A confusão entre uns e outros é, aliás, um dos grandes perigos do tempo presente: tomam-se meios por fins, virtudes técnicas por virtudes morais, consensos operacionais por princípios políticos. E assim, pouco a pouco, perde-se o sentido do essencial — como quem, em nome de conduzir mais depressa, se esquece do destino.

    Proponho, assim, um acto de ordenação — não no sentido autoritário, mas no sentido aristotélico: recolocar cada coisa no seu lugar, distinguir os planos, hierarquizar os critérios. Vivemos agora, como advertiu no século passado Isaiah Berlin, num mundo de conflitos trágicos entre valores; mas o pluralismo de valores não é relativismo. Saber que há valores em tensão não significa que todos valham o mesmo. A liberdade pode entrar em tensão com a segurança, mas não é por isso que se pode abolir uma em nome da outra. A verdade pode colidir com a conveniência, mas não é por isso que se pode renunciar à sua busca como se fosse um luxo. A responsabilidade pode ser dura, mas não é por isso que se deve infantilizar o cidadão sob o pretexto da protecção.

    Neste contexto, os valores perenes funcionam como âncoras num tempo líquido, para usar a célebre metáfora do sociólogo polaco Zygmunt Bauman. São antídotos contra a manipulação emocional, contra a oscilação retórica, contra a volatilidade programática. Permitem, sobretudo, resgatar a autonomia do juízo, que é o verdadeiro fundamento de uma democracia viva. Quando tudo é opinião e tudo é sensibilidade, os valores fornecem uma base para o discernimento. Quando tudo é ruído e reacção, os valores permitem distinguir o necessário do acessório, o essencial do conjuntural.

    Talvez seja esse, afinal, o maior desafio contemporâneo: reaprender a distinguir. Distinguir entre liberdade e permissividade, entre verdade e narrativa, entre responsabilidade e delegação, entre soberania e isolamento, entre expressão e propaganda. Só essa capacidade de discriminar, de julgar, de hierarquizar — e de agir em conformidade — permite que o indivíduo se afirme como sujeito cívico, e não como peça funcional de uma engrenagem social ou económica. E é essa distinção, esse juízo, essa coragem que os valores perenes exigem e oferecem.

    Estas crónicas serão, pois, um convite para essa reconstrução. Não com arrogância moral, nem com nostalgia restauradora, mas com a serenidade crítica de quem acredita que há coisas que não passam — e que, por isso, nos podem orientar quando tudo parece disperso. Valores em vez de ideologias; critérios em vez de slogans; consciência em vez de reflexo. Essa é a proposta. E também a provocação.


    3. Uma crítica à infantilização da cidadania e à política performativa

    Entre os efeitos mais perversos do esvaziamento ideológico e do colapso valorativo está a lenta, mas eficaz, infantilização da cidadania. O cidadão emancipado, consciente dos seus direitos, mas também dos seus deveres, informado e capaz de deliberar, deu lugar a uma figura tutelada — um menor cívico perpétuo, que não pensa, mas consome; que não questiona, mas subscreve; que não age, mas espera que alguém o represente, o proteja, o salve.

    O Estado, outrora pensado como expressão da vontade política do povo soberano, converteu-se numa entidade paternalista, uma espécie de tutor universal que administra riscos, distribui subsídios e regula comportamentos, sempre em nome do bem, da segurança, da inclusão ou da saúde pública. E o cidadão, por sua vez, já não é um sujeito político, mas um cliente de direitos, sempre pronto a reclamar, mas pouco disposto a participar; sempre ávido de garantias, mas alérgico à responsabilidade.

    Esta cultura da tutela, alimentada por décadas de pedagogia estatal, de retórica protectora e de engenharia social, produziu um modelo de cidadania que já não é autónomo, mas dependente por design — dependente do Estado, das instituições, dos especialistas, das plataformas. A autonomia tornou-se suspeita; a dúvida, subversiva; a exigência de coerência, um luxo burguês. Promoveu-se a ideia de que o cidadão precisa de ser guiado, esclarecido, conduzido — como se a maturidade política fosse uma meta inalcançável e a liberdade, uma ameaça à ordem. Esta concepção tutelaresca do poder reduziu o espaço público a uma espécie de sala de aula infantilizada, onde os “bons alunos” recebem prémios e os “mal-comportados” são punidos com censura, marginalização ou rotulagem.

    Paralelamente, a política tornou-se espectáculo. Não no sentido clássico de representação — que pressupunha uma ligação simbólica com a vontade colectiva —, mas no sentido contemporâneo de simulação. O Parlamento deixou de ser um fórum de debate para ser um palco de encenação. As redes sociais converteram-se no verdadeiro hemiciclo do presente: é ali que se ganha ou perde o dia, que se define a agenda, que se forjam reputações.

    O político performativo não tem ideias, mas frases; não tem visão, mas pose; não tem projecto, mas indignações rotativas. A acção política resume-se a hashtags, a vídeos de 15 segundos, a indignações de serviço, a gestos simbólicos que nada mudam, mas servem para manter a coreografia do envolvimento cívico. Estamos perante o império da estética sobre a ética, da forma sobre o conteúdo, da visibilidade sobre a substância.

    No século passado, Guy Debord já proclamara a “sociedade do espectáculo” — mas hoje o espectáculo político ainda é mais perverso do que aquele que este teórico francês descreveu nos anos 1960: é interactivo, personalizado, algorítmico. Sobretudo por via das redes sociais, o cidadão já não é apenas espectador: é convidado a participar — desde que dentro dos limites do guião. Pode reagir, pode comentar, pode partilhar, mas não pode mudar nada. A ilusão da participação substituiu a prática da cidadania. A emoção substituiu o juízo. A reacção substituiu a deliberação. O debate real desapareceu — e com ele a possibilidade de conflito produtivo, de divergência estruturada, de construção comum. Finge-se que há debate onde só há marketing. Finge-se que há diversidade onde só há variações sobre o mesmo tom. Finge-se que há democracia onde só há gestão da percepção pública.

    Este ambiente favorece, naturalmente, a docilidade política. Um cidadão infantilizado é mais fácil de mobilizar — ou de desmobilizar. Basta-lhe um susto, um escândalo, um escudo fiscal. Não exige princípios, apenas resultados. Não quer verdade, apenas conforto. E, acima de tudo, não quer responsabilidades. O preço da autonomia torna-se demasiado alto para quem foi educado na lógica da tutela e da promessa: é mais cómodo seguir o fluxo, alinhar com o “lado certo da História”, repetir as palavras permitidas, partilhar os slogans da moda. A liberdade, neste contexto, é não ter de decidir; a cidadania, não ter de pensar. Por isso, os poderes instalados — sejam políticos, mediáticos ou económicos — fomentam esta infantilização: não por malícia, mas por conveniência. Um cidadão que pensa, questiona. Um cidadão que duvida, atrasa. Um cidadão que exige, complica. Melhor, então, mantê-lo entretido, indignado, emocionado — mas nunca desperto.

    Este processo de adormecimento da cidadania seria, porventura, reversível se existissem instâncias de formação crítica capazes de operar uma contra-narrativa. Mas aquilo a que outrora chamávamos Escola, Imprensa e Cultura deixou, em larga medida, de cumprir essa função. A Escola, rendida ao utilitarismo e ao relativismo, já não forma para o juízo, mas para a adaptação — ensina competências, não pensamento. A Imprensa, em vez de questionar o poder, tornou-se seu apêndice — ora laudatório, ora servil, ora simplesmente ausente. O Jornalismo transformou-se numa extensão do marketing institucional ou numa tradução apressada de agências noticiosas. E a Cultura, cada vez mais reduzida ao entretenimento, deixou de ser um espaço de elevação para ser um palco de identidades ou um produto de consumo rápido.

    O norte-americano Neil Postman advertia, com lucidez profética, que nos poderíamos “divertir até à morte” — não pela censura explícita, mas pelo colapso da relevância. Quando tudo é espectáculo, nada importa. Quando tudo é indignação, nada permanece. Quando tudo é emoção, nada se transforma. E é precisamente esta lógica de ruído, de dispersão e de excitação permanente que impede a emergência de um espaço público maduro, onde a política seja mais do que um teatro e a cidadania mais do que um contrato de prestação de serviços.

    Muito a propósito, o filósofo grego Cornelius Castoriadis falava, no século passado, da “cidadania autónoma” como a capacidade de auto-instituição colectiva: não apenas participar nas regras, mas pensar as regras, questioná-las, recriá-las. Ora, essa cidadania autónoma é hoje o maior desafio — e o maior tabu.

    A proposta destas crónicas é, também aqui, clara: recusar a tutela e o espectáculo, e reivindicar o juízo e a responsabilidade. Não se trata de idealizar um cidadão perfeito ou um modelo abstracto de participação. Trata-se, antes, de defender a ideia de que a cidadania é uma exigência, não uma concessão; que a liberdade não se delega, a verdade não se terceiriza, a responsabilidade não se subcontrata. Trata-se de recordar que viver em democracia não é apenas votar ou opinar, mas agir com consciência, com risco, com consequência. E que sem essa atitude, sem essa disposição, sem essa vigilância, a democracia degenera em administração, e a cidadania em obediência decorada.


    4. O papel da integridade e do Jornalismo vigilante como balizas da democracia

    Nenhuma democracia sobrevive sem vigilância. E nenhuma vigilância é eficaz sem Jornalismo independente, corajoso, íntegro — um Jornalismo que não se limite a relatar o que convém, mas que ouse investigar o que incomoda, que não se deixe enredar em protocolos de obediência, mas que conserve a capacidade de perturbar, de revelar, de acusar.

    O Jornalismo, quando é digno do nome, não é neutral — é leal à verdade, à liberdade e ao interesse público, mesmo quando esses colidem com o poder instituído. O problema é que, na prática, nas décadas mais recentes, a imprensa transformou-se no contrário do que proclama: deixou de ser um contra-poder para se tornar um reprodutor de discursos oficiais, um braço comunicacional de instituições públicas ou privadas, um gestor de narrativas em vez de um escrutinador de factos.

    Esta mutação tem causas múltiplas: económicas, políticas, culturais. A progressiva dependência da publicidade institucional e empresarial, os projectos editoriais subsidiados pelo Estado ou pela União Europeia, a promiscuidade entre redacções e gabinetes ministeriais, os conselhos reguladores capturados por interesses partidários, o declínio da leitura crítica e a ascensão do infotainment digital — tudo isso corroeu a base ética do Jornalismo, substituindo a vigilância pela reverência, a interrogação pelo eco, a independência pela conveniência. O jornalista, que deveria ser incómodo, tornou-se afável; que deveria ser desconfiado, tornou-se confidente; que deveria ser livre, tornou-se alinhado. Não por censura imposta, mas por domesticação progressiva.

    A chamada neutralidade, nesse contexto, é uma das ficções mais perigosas, porque não há neutralidade possível quando se trata da verdade. Fingir imparcialidade enquanto se escolhe sistematicamente o ângulo favorável ao poder, ou se omitem vozes dissonantes, ou se reverberam comunicados como se fossem investigações, é uma forma de traição ao princípio fundacional do Jornalismo. Alguém atribuiu a George Orwell a frase: “Dizer a verdade é um acto revolucionário”, mas independentemente de ser apócrifa, representa aquilo que o Jornalismo perdeu: o sentido de missão, o compromisso com a verdade como valor e não como produto.

    Em vez disso, temos narrativas construídas por conveniência, indignações selectivas, fact-checkings de conveniência, silêncios cúmplices e uma ausência ensurdecedora de investigação real sobre temas sensíveis, incómodos ou politicamente desconfortáveis.

    É neste vazio que o poder tem prosperado. E um poder sem Jornalismo vigilante é um poder sem freios — porque a primeira fronteira da liberdade não é a urna, é a palavra livre. Quando o discurso público é condicionado, tutelado, homogeneizado, a democracia torna-se uma farsa elegante, com aparência de pluralismo, mas sem substância deliberativa. Cabe ao jornalista perguntar aquilo que não se deve perguntar, escavar onde ninguém quer que se escave, expor o que se quer esconder — é esse jornalista que mantém vivo o espaço democrático. E quando ele desaparece, desaparece com ele o oxigénio da República.

    Por isso, não me dirijo apenas ao leitor enquanto cidadão, mas também enquanto potencial jornalista — no sentido mais nobre da palavra. Porque, em tempos de silêncio coreografado, todo cidadão pensante é um jornalista em potência. Aquele que observa, que confronta, que recolhe factos e os analisa, que se recusa a repetir palavras alheias sem passar pelo crivo do juízo — esse é irmão do jornalista vigilante. Ambos são expressões de uma democracia viva, não domesticada. Ambos recusam o papel de papagaio, de técnico de comunicação, de reprodutor de slogans. Ambos sabem que a liberdade não é compatível com a preguiça intelectual nem com a cedência ao conforto institucional.

    O também jornalista franco-argelino Albert Camus defendeu que o Jornalismo, para ser digno, deve ser um combatente ético — contra a mentira, contra a injustiça, contra a indiferença. E é esse combate que importa recuperar: não como heroísmo retórico, mas como prática quotidiana de vigilância, de integridade e de independência. A integridade, aliás, é aqui palavra-chave: integridade como coerência entre aquilo que se pensa, aquilo que se diz e aquilo que se faz; como recusa da duplicidade e da omissão; como fidelidade à consciência e não ao alinhamento; como base moral de qualquer crítica que se queira legítima.

    É essa integridade que está em causa quando se permitiu — ou se legitimou — que os media fossem instrumentos de propaganda sanitária, educativa, climática ou financeira, ou se silenciaram denúncias de promiscuidade entre reguladores e regulados, entre anunciantes e redacções, entre governos e comentadores. E é essa integridade que se deve exigir, sem concessões, aos que se dizem jornalistas, mas preferem o conforto da obediência ao desconforto da exposição. Não há Jornalismo sem risco. E, sobretudo, não há democracia sem jornalistas que aceitem correr riscos — por vezes profissionais, outras vezes apenas morais, mas sempre necessários.

    Este conjunto de crónicas, ao propor uma arquitectura de valores, coloca o Jornalismo onde ele pertence: no centro da vigilância cívica, como sentinela da verdade, da liberdade e da dignidade pública. Não como profissão reservada a uma classe, mas como atitude intelectual acessível a qualquer cidadão que se recuse a ser espectador passivo da mentira ou cúmplice voluntário do silêncio. E é por isso que não se fala de imprensa, fala-se de Jornalismo. Não se fala de media, fala-se de integridade. Porque o que está em causa não é a sobrevivência de um sector, mas a possibilidade de existir ainda um espaço público onde se pense, se discuta, se resista.

    E se a resistência hoje se faz mais com palavras do que com barricadas, mais com arquivos do que com slogans, mais com investigação do que com indignação, então que seja essa a missão: resistir dizendo, pensando, denunciando. Sem concessões, sem reverências, sem receio. Até porque, como nos ensinou o jornalista norte-americano Isidor Feinstein Stone, se “todos os governos mentem”, só quem ousa desconfiar com método e publicar com coragem poderá merecer ainda o nome de jornalista.


    Fecho da Introdução — Convite ao leitor

    Esta primeira crónica é, acima de tudo, um gesto de compromisso. Compromisso com a liberdade como valor inegociável, com a verdade como dever público, com a responsabilidade como condição da cidadania, com a soberania como expressão da dignidade democrática. Não é uma convocatória à militância, nem um apelo sentimental ao reformismo bem-pensante, e muito menos um catecismo doutrinário — é sobretudo uma proposta de reencontro com fundamentos esquecidos, numa época em que pensar por conta própria se tornou acto de ousadia e em que recusar alinhar se tornou suspeita de deslealdade.

    Recusemos, pois, o niilismo de quem já não acredita em nada, mas também o partidarismo de quem tudo reduz à luta tribal entre etiquetas. Nenhum dos dois serve a democracia. Ambos servem, aliás, os poderes instalados: o niilismo, porque paralisa; o partidarismo, porque divide. Entre a apatia e o automatismo, proponho outra via: a da consciência — a consciência de quem decide pensar com clareza, agir com coerência, resistir com responsabilidade. Não se trata de propor utopias — mas de recuperar aquilo que foi abandonado: o valor da palavra, o peso do juízo, o sentido da liberdade, a nobreza da responsabilidade cívica.

    Por isso, deixo um convite exigente ao leitor: não peço adesão, mas atenção; não solicito concordância, mas presença, porque não escrevo para os que procuram pertença, mas para os que procuram critério. Escrevo para aqueles que se cansaram de slogans e desconfiam das unanimidades. Escrevo para os que suspeitam que a política não se reduz a campanhas, que o Jornalismo não se esgota em soundbites, que a cidadania não pode viver de indignações partilhadas. Escrevo para aqueles que ainda acreditam que viver livre é mais do que ter direitos — é ter deveres, critérios, memória, responsabilidade.

    Vivemos tempos em que a ambiguidade é premiada, a coragem punida, a lucidez silenciada. Por isso, não proponho consolo, mas discernimento. É esse o convite. E é também o desafio.

  • Estado da União das Repúblicas Socialistas Europeias (URSE)

    Estado da União das Repúblicas Socialistas Europeias (URSE)


    No ano passado, no Porto, a não eleita Ursula von der Leyen, a actual presidente da Comissão Europeia, discursava perante uma plateia obediente. O ambiente era cuidadosamente coreografado, como em todos os eventos do poder europeu; de repente, um manifestante a favor da Palestina ousou interromper. O que fez a senhora? Com a arrogância típica de quem nunca teve de responder a votos, atirou-lhe: “Se estivessem em Moscovo, estavam agora na prisão”.

    A frase saiu-lhe com a naturalidade de quem confunde liberdade com obediência e democracia com espectáculo. O mais irónico é que, nesse mesmo instante, quem estava a ser esmagado pela polícia portuguesa era o manifestante, não na Rússia, mas na cidade do Porto, sob as ordens de uma União Europeia que se autoproclama campeã da liberdade!

    O momento em que um manifestante é detido após interrupção do discurso de Von der Leyen no Porto. (6 de Junho de 2024) / Foto: Captura de imagem a partir de vídeo da TVI / D.R.

    Na mesma altura, na Finlândia, repetia-se o mesmo número. Armando Mema, um político local de Nurmijärvi, interpelou von der Leyen durante a campanha para as eleições europeias. O tema era simples: questionar a dirigente não eleita sobre as suas políticas.

    O mesmo número: enquanto lhe dizia que tinha a sorte de viver na União Europeia, em que a liberdade de expressão é protegida, Mema era detido no local, multado e advertido de que seria preso novamente caso ousasse repetir o atrevimento de falar em público. Hoje, enfrenta julgamento em Helsínquia, acusado do crime de “desobediência a um funcionário público”.

    Estas duas cenas – Porto e Helsínquia – são perfeitas para compreender a União Europeia em que a nossa classe política nos meteu ao longo de 50 anos. Trocaram soberania por sinecuras, autonomia por subsídios, liberdade por regulação, tudo embrulhado na linguagem piedosa do “projecto europeu”.

    Von der Leyen ao lado de Luís Montenegro numa acção de campanha, no Porto. / Foto: D.R.

    O resultado é hoje inescapável: a União Europeia tornou-se uma organização directamente descendente da extinta União Soviética. Um corpo burocrático sem escrutínio, governado por dirigentes não eleitos, que multiplica reguladores como coelhos e legisla sobre tudo o que mexe. O seu objectivo é claro: destruir liberdades individuais e reduzir-nos a vassalos.

    Comecemos pela legislação já em vigor: o chamado Regulamento Europeu relativo à Liberdade dos Meios de Comunicação Social. O nome é, por si só, uma fraude. Sempre que o poder fala em “liberdade”, trata-se de um eufemismo para controlo. Tal como os partidos comunistas invocavam o “bem-comum” para justificar os campos de concentração, hoje, Bruxelas invoca a “liberdade” para erguer uma rede de vigilância e censura.

    O artigo 4.º, apesar de aparentar proteger as fontes jornalísticas, proibindo buscas e detenções, abre a porta a excepções, em nome de “razões imperiosas de interesse público”. Ninguém sabe o que isto significa; é precisamente por isso que serve para tudo. O mesmo artigo autoriza a instalação de spyware em telemóveis, desde que haja crimes puníveis até cinco anos de prisão. O que impede que amanhã um jornalista crítico seja vigiado em nome da “segurança pública”? Nada. É o método clássico: proclama-se a liberdade na regra e destrói-se a liberdade na excepção.

    Cctv camera is mounted on a red wall.

    O artigo 7.º concede aos reguladores o poder de exigir informações não apenas às empresas visadas, mas a “qualquer outra pessoa” que possua dados relevantes. Traduzido: um profissional liberal, um fornecedor de vídeos, ou uma agência de publicidade podem ser coagidos a entregar ficheiros internos para alimentar investigações políticas. É a infiltração difusa do Estado em todo o ecossistema mediático.

    O artigo 14.º introduz a “cooperação acelerada” entre reguladores de diferentes países. Em 14 dias, uma página web acusada de “prejudicar a segurança pública” num determinado Estado pode ser silenciado em toda a União. Conceitos vagos como “risco grave” bastam para justificar reacções em cadeia. Num exemplo prático: um jornal cobre protestos públicos e é acusado de instigar a violência. Em duas semanas, as autoridades de vários países podem coordenar a sua limitação. Tudo legal, tudo em nome da “liberdade”.

    O artigo 17.º cria um mecanismo para restringir os meios de comunicação social “provenientes de fora da União”. Basta dois Estados-Membros considerarem que um serviço “prejudica a segurança pública”. Desta forma, abre-se a porta para banir canais estrangeiros incómodos, rotulando-os de propaganda – não é novidade, já o fizeram com vários canais informativos russos. Em suma: a União Europeia acusa outros de censura enquanto ergue os seus próprios muros informativos.

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    Foto: D.R.

    O artigo 18.º institucionaliza o rótulo de “imprensa reconhecida” para redes sociais. Quem não aderir a códigos aprovados pelo poder político ficará sem prioridade nas plataformas. É um sistema de castas: propaganda oficial com privilégios, imprensa independente condenada à invisibilidade.

    Os artigos 22.º e 23.º vão ainda mais longe: permitem travar fusões de jornais e rádios não apenas com base em critérios económicos, mas na “influência sobre a opinião pública”. Imaginemos dois jornais regionais a tentarem sobreviver fundindo-se. O regulador pode bloquear a operação por considerar que “influenciam demasiado” os leitores locais. Eis a arrogância: decidir até que ponto os cidadãos podem ou não ser expostos a determinadas opiniões!

    Tudo isto, reparem, é vendido sob o rótulo de “pluralismo e liberdade”! Mas a realidade é o exacto oposto: centralização, vigilância e censura. A União Europeia comporta-se como uma União Soviética digital, mas com legislação “bem desenhada”, repleta de palavras pomposas e bonitas!

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    Foto: D.R.

    Como se não bastasse, prepara-se agora uma legislação ainda mais intrusiva: o Regulamento para prevenir e combater o abuso sexual de crianças. Ninguém ousará levantar-se contra, porque, quem o fizer, será acusado de não querer proteger crianças inocentes. É precisamente esta chantagem moral que dá força ao projecto.

    Os artigos 7.º a 10.º obrigam as plataformas de mensagens a detectar automaticamente conteúdos suspeitos em comunicações privadas. Não interessa se a conversa decorre no WhatsApp, no Signal ou no Telegram. Mesmo que esteja encriptada de ponta a ponta, será digitalizada no dispositivo do utilizador, antes da encriptação. Chamam a isto “client-side scanning”.

    Traduzido: cada telemóvel e computador terão dentro de si um agente invisível, a vigiar todas as mensagens. É o equivalente digital a colocar um polícia sentado à mesa de cada jantar entre dois amigos.

    blue bmw car in a dark room
    Foto: D.R.

    As plataformas, por sua vez, ficam obrigadas a informar automaticamente as autoridades de tudo o que o algoritmo possa assinalar como suspeito. O risco de falsos positivos é gigantesco. Uma fotografia de família, uma piada privada ou um ficheiro mal interpretado podem cair numa base de dados. Imaginemos um pai a enviar ao pediatra uma foto do filho nu na banheira para avaliar uma erupção cutânea. No dia seguinte, pode ter a polícia à porta.

    O artigo 11.º dá poderes extraordinários às autoridades nacionais: ordens directas às plataformas para aceder a comunicações privadas, sob pena de banimento do mercado europeu! A presunção de inocência desaparece. Todos somos suspeitos até prova em contrário!

    O artigo 34.º prevê sanções “eficazes e dissuasivas” para empresas que não cumprirem. Isto significa que qualquer aplicação de mensagens terá de instalar portas traseiras ou desaparecer da Europa. O Signal já anunciou que preferirá abandonar o continente a trair os seus utilizadores. Se esta lei avançar, a União Europeia será pioneira na destruição da encriptação global.

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    As consequências vão muito além da Europa. Como a União é um dos maiores mercados digitais, a sua legislação exporta-se por osmose. Regimes autoritários poderão apontar para Bruxelas e dizer: “Se a Europa o faz, porque não nós?” A desculpa será sempre a mesma: “é para proteger as crianças”.

    A técnica é sempre a mesma. Fala-se de liberdade para retirar liberdade. Fala-se de segurança para justificar vigilância. Fala-se de proteger as crianças para vigiar os adultos. É a linguagem dupla do totalitarismo. As palavras significam o contrário do que dizem.

    Von der Leyen proclama liberdade de expressão enquanto manda prender quem a questiona. A Comissão Europeia fala em “pluralismo” enquanto cria mecanismos para banir vozes incómodas. Agora invoca a infância para obrigar todos os cidadãos a aceitarem espiões digitais nos seus telefones.

    person using black laptop computer

    A Europa tornou-se um laboratório do autoritarismo. O seu escol fala de democracia, mas nunca se submete a votos. Criam reguladores independentes, mas todos dependem do poder central. Redigem relatórios cheios de boas intenções, mas todos escondem a mesma obsessão: controlar, vigiar, domesticar.

    A pessoa comum é hoje tratada como um inimigo em potência. Cada correio electrónico pode esconder terrorismo. Cada fotografia pode esconder abuso. Cada opinião pode ameaçar a segurança pública. A lógica é clara: todos são culpados até prova em contrário. O Estado, que deveria ser limitado e vigiado, transforma-se no vigilante absoluto, e o indivíduo, que deveria ser soberano, reduz-se a um ficheiro na polícia.

    Eis o futuro que nos impõem: jornalistas perseguidos em nome do “interesse público”; manifestantes presos em nome da “segurança”; cidadãos vigiados em nome da “protecção das crianças”. Tudo legal, tudo regulamentado, tudo aprovado por parlamentos onde quase ninguém lê as leis que vota.

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    Foto: D.R.

    A União Europeia não é hoje uma união de povos e estados livres, mas uma máquina burocrática a caminho do totalitarismo digital. Tal como a União Soviética, que se desmoronou pelo peso da sua mentira, também esta “união” irá afundar-se. Mas, até lá, quantas liberdades serão esmagadas? Quantas vidas serão destruídas por acusações algorítmicas? Quantos cidadãos verão a sua intimidade devassada por regulamentos redigidos em Bruxelas?

    Ano passado, no Porto e em Helsínquia, foi possível conhecer melhor a verdadeira Europa: arrogância, hipocrisia e repressão. As novas leis mostram para onde está a caminhar: vigilância total, suspeição permanente e censura institucionalizada. É hora de dizer sem medo: não, isto não é liberdade. É a mais perigosa forma de tirania — aquela que se apresenta como virtude.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • O arraial dos ditadores

    O arraial dos ditadores


    Que absoluta maravilha foi o encontro de Madrid, onde se reuniu a fina flor do fascismo europeu. Ou, como diria um qualquer colunista do Observador, da direita mais conservadora.

    Desde a página de internet (“Patriots”) até ao lema “hacer Europa grande outra vez“, todo um nacionalismo de bater no peito, sem um invasor mais escuro que se aproximasse do palco (a não ser que estivesse a servir os canapés). Nota máxima para a cópia do slogan trumpista, adaptado ao nosso continente e dito em espanhol. Sim, porque a conferência pode reunir líderes racistas de vários países mas, convenhamos, se o cidadão espanhol comum já se vê aflito a entender-se com o inglês, quanto mais os nacionalistas.

    Santiago Abascal, ao centro, líder do Vox, com André Ventura, à esquerda. Foto: D.R.

    Cada um dos aspirantes a ditador discursou na sua língua ou em inglês. O nosso Ventura foi a excepção, tecendo loas à caça aos imigrantes ou sugerindo a prisão de Pedro Sánchez, em castelhano. Ou vá, em portunhol, daquele género que faria o Jorge Jesus corar de vergonha.

    Falou-se pouco de hambúrgueres, e foi uma pena, mas não faltaram referências aos cidadãos europeus que apoiam esta malta. E é justo que se assuma que são muitos ou, como disse Geert Wilders, o lunático que manda nos nacionalistas da Holanda, “estamos a ganhar eleições por toda a Europa”. É um facto. Há milhões de pessoas da minha geração que dormiram nas aulas de História do 8.º ano e agora todos pagamos com a repetição dos factos ocorridos na década de 30 do século passado. Repetição, para alguns, claro. Para quem vota nesta gente, fazendo fé na sua ignorância, tudo isto é novidade.

    Escusado será dizer que ouvi os discursos e, portanto, não vou ficar a sofrer sozinho com eles. Tenho que estragar o dia a mais alguém. Em princípio, não será a uma apoiante do Chega, porque isto já vai com mais do que um parágrafo.

    O meu favorito foi o concorrente da Estónia. Vou tratá-los como participantes do Festival da Canção, está bem? Vocês depois logo vão ao Google ver os nomes. Dizia ele que não bastava parar com a imigração, era necessário mandá-los de volta para as suas terras. Ora… isto no sul de França, Andaluzia, Portimão, ainda tem algum impacto. Ainda se consegue um “preto vai para a tua terra” ou algo do género.

    Agora, na Estónia? Um país com 1,3 milhões de habitantes, onde 96% da população é formada por estonianos (70%), russos (20%) e ucranianos (6%)? Vão mandar quem para casa? Espero que arranjem por lá uns ciganos ou dez nepaleses, porque, se a ideia for deportar russos, é natural que os estonianos acabem por ganhar um passaporte novo, feito na loja do cidadão de Moscovo. Acho pouco eficaz ser-se nacionalista num país cheio de neve e gente branca. É esquisito.

    Também gostei bastante do concorrente da Polónia. Não deve ser fácil tentar formar uma oposição nacionalista quando o governo já é formado por nacionalistas. É como tomar banho de mangueira em dia de chuva. Uma pessoa pensaria que, de todos os países europeus, os polacos seriam aqueles que teriam mais asco a pessoas desta laia, mas não. É vê-los crescer quais cogumelos. Estes movimentos que rejeitam as alterações climáticas, casamentos entre pessoas do mesmo sexo, imigração ou tolerância religiosa.

    Eurodeputados do grupo Patriots for Europe.

    O nosso Ventura foi o primeiro a chamar por Milei (Mariana, nem a motosserra vão deixar para ti). Abriu o esgoto e parecia que estava no nosso Parlamento. O homem tem carisma, é um facto. E ali, entre os seus, não se fez rogado, pedindo a prisão do actual primeiro-ministro de Espanha. Tudo bem que foi dito dentro de um pavilhão onde ninguém acredita na democracia, mas, assim de repente, a frase tinha tudo para criar um incidente diplomático. Pelo menos enquanto Portugal e Espanha ainda tiverem governos democráticos.

    Falando em governos democráticos, a estrela da companhia foi, sem dúvida, Orbán, que fez um discurso emotivo sobre os seus quase 20 anos como primeiro-ministro. Santiago Abascal, o Ventura espanhol, elogiou o ancião húngaro e disse como era um exemplo para todos os outros. Esperei pela parte em que Orbán explicava as mudanças da Constituição no seu primeiro mandato para transformar a Hungria numa autocracia, mas… não aconteceu. Foi uma pena. O melhor da história fica sempre para a temporada seguinte.

    O senhor da Áustria esteve muito bem também. Os austríacos deviam ter presença permanente nestes arraiais de fachos. Ouvir alemão e uma voz anasalada, em discursos contra imigrantes, é sempre refrescante.

    Viktor Orbán (Hungria) e Geert Wilders (Holanda). Foto: D. R.

    Entre elogios a Trump, apareceu também a senhora venezuelana que faz sombra ao governo de Maduro, para justificar os recentes ataques da marinha norte-americana. Excelente cabelo para o rapaz da Holanda, que jurou que o seu bom amigo, “Santaigo Escabal”, seria o próximo primeiro-ministro de Espanha. Avisou que o multiculturalismo tinha acabado na Europa. Não sei se inclui a Holanda, um país com 17 milhões de habitantes, entre os quais 5 milhões de origens de outras paragens. Não é fácil andar a saquear ilhas nas Caraíbas ou na costa da América do Sul e depois querer um país cheio de louros.

    Le Pen e Salvini participaram no concurso: “Quem expulsa mais africanos?”, arrancando palmas eufóricas aos congressistas delirantes. Foram os mais estatistas entre os alucinados, com críticas constantes às políticas da UE. Bruxelas foi um dos alvos, curiosamente o mesmo alvo que Le Pen usou para desviar fundos europeus. Mas quem é que quer saber disso? É preciso repetir que os senegaleses roubam, seja lá o que for, aos franceses.

    Quando cheguei ao discurso do espanhol do Vox já estava farto de ouvir estes gajos todos. A palavra mais repetida foi “reconquista”, porque, como se percebe, a Europa está a ser invadida. Não se sabe bem por quem, mas, uma vez mais, não nos percamos nos detalhes. Entre os oradores passava uma música ao estilo Vangelis, para puxar pelo heroísmo da situação, a coragem do movimento e a epopeia em curso.

    André Ventura (Portugal), Geert Wilders (Holanda), Marine Le Pen (França), Santiago Abascal (Espanha), Viktor Orbán (Hungria) e Matteo Salvini (Itália) em encontro anterior do Patriots for Europe. Foto: D. R.

    Não tenho a menor dúvida de que boa parte dos que ali estavam serão líderes nos respectivos países, desde logo o nosso mente-sempre-que-respira Ventura. Salvini e Orbán já o são. Putin, que não estando presente é o fundador do movimento, e Le Pen, entre tribunais e Bardellas, cedo ou tarde terá os nacionalistas a governar França.

    Avizinham-se tempos negros para a Europa. Aproxima-se a terceira década do século e, tal como há 100 anos, os nacionalismos crescem e a corrida às armas é real. Contar-vos-ia o fim, uma vez que já vi este filme, mas não quero ser um desmancha-prazeres. Aproveitem bem o vosso voto. Ainda é coisa para dar uma chatice ou duas.

    Tiago Franco é engenheiro e CEO da techLisbon

  • E se a esquerda fizesse Ventura Presidente? Isso seria… o fim do Chega

    E se a esquerda fizesse Ventura Presidente? Isso seria… o fim do Chega


    Portugal gosta de se apresentar como uma democracia semi-presidencialista. Mas, se formos rigorosos, talvez a melhor designação fosse um “pseudo-semi-presidencialismo” porque o Presidente da República – um órgão uninominal, ou seja, representado apoenas por si –, somente no papel tem poderes que impressionam: pode dissolver a Assembleia da República, demitir o Governo, vetar decretos e fiscalizar a constitucionalidade, nomeia os primeiros-ministros e chefes militares, pode convocar referendos.

    Porém, na prática, quase tudo isto se esgota em raros momentos de crise – e raramente o seu papel se mostra determinante – , o poder não passa de um exercício de rotineira e delicada parcimónia, a famosa magistratura de influência, sabendo que, se ousar transgredir demasiado, se arrisca a transformar-se num pária institucional, isolado numa redoma de cristal com honras de figura decorativa, respeitado apenas pelo protocolo e tolerado pelo cerimonial. O peso político do Presidente português não se mede, pois, pelos decretos promulgados ou vetados, mas pelo equilíbrio que consegue manter entre a deferência e a invisibilidade.

    Ora, é neste palco de poderes latentes, mas raramente usados, que André Ventura resolveu encenar a sua oitava candidatura em seis anos. É, convenhamos, um recorde para os manuais de ciência política e para os almanaques da estatística eleitoral: ninguém, no Portugal democrático, que me lembre, se candidatou tantas vezes em tão pouco tempo. Mas Ventura não é um político de manuais – é um homem de um partido que, com 60 deputados, vive na dependência absoluta da sua voz e do seu ego. O Chega, de facto, parece menos uma estrutura partidária do que um prolongamento do líder, uma corporação unipessoal travestida de movimento político.

    A decisão de Ventura avançar para as presidenciais explica-se, paradoxalmente, pela sua força e pela sua fraqueza.

    Força, porque recentes sondagens — as primeiras da história a colocarem o Chega como força maioritária — lhe dão um palco onde pode dançar à vontade, e ele nos últimos meses conseguiu assumir-se verdadeiramente como o líder de oposição, até face ao cinzentismo de José Luís Carneiro, incapaz de renovar um Partido Socialista à deriva e com os mesmos do costume.

    Fraqueza, porque, justamente por estar no auge, Ventura não tem ninguém a quem delegar qualquer protagonismo para as Presidenciais. Gouveia e Melo, outrora visto como o almirante salvador, tornou-se indigesto: demasiado vaidoso para piscar o olho a um partido populista, demasiado enredado em anticorpos para uma coligação sequer tácita. Por seu lado, Marques Mendes e Cotrim de Figueiredo até seriam hipóteses aceitáveis para uma direita “respeitável”, mas jamais poderiam sê-lo à custa de o Chega admitir que não tinha candidatos seus – e isso seria uma derrota com o sabor amargo da irrelevância.

    Restaria a André Ventura inventar uma figura interna, uma espécie de homúnculo político, desprovido de carisma e destinado a uma derrota sem glória. Mas isso já se viu com Tânger Corrêa nas eleições europeias que se quedou pelos 10%, demasiado pouco para um partido que se quer habituar agora a estar sempre acima dos 20%. E não há, em redor das primeiras linhas do Chega, ninguém com estatura institucional ‘presidenciável’ para não causar vergonha ou calafrios a Ventura.

    Assim, Ventura escolheu o caminho mais arriscado, mas também o mais tentador: ser candidato ele próprio. A jogada tem lógica: Ventura não acredita que vá ganhar, pela taxa de rejeição que tem, mas acredita, com razão, que pode alcançar a segunda volta face à fragmentação ideológica dos candidatos. E alcançar a segunda volta já seria, para o seu eleitorado, um feito de glória, a consagração do homem que enfrentou o “sistema”.

    Mas, paradoxalmente, há um cenário, pouco improvável, mas politicamente delicioso: imaginemos que a esquerda, no seu zelo punitivo, se unia para castigá-lo… elegendo-o Presidente. Seria uma vingança com travo hegeliano: a história a pregar uma rasteira dialéctica, transformando o triunfo em derrota.

    Imaginemos o cenário: Ventura eleito Presidente da República. Um Presidente limitado, refém do dever institucional de ponderação, obrigado a pronunciar discursos mornos no 25 de Abril e a receber em Belém embaixadores de países longínquos. Um Presidente a quem o povo, por mais que o tenha (falsamente) amado na hora da escolha (concedendo-lhe um presente envenenado), rapidamente começaria a ignorar. E, sobretudo, um Presidente que deixaria vago o trono do Chega, esse partido de um só homem, para o qual não há sucessor, não há delfim, não há sequer sombra. Quem substituiria Ventura como líder do Chega? Pois, aí reside a tragédia — ninguém.

    A filosofia tem, como sempre, imagens que nos ajudam a entender a ironia desta situação. Recordemos a parábola de Epimeteu, irmão de Prometeu. Epimeteu recebeu dos deuses a tarefa de distribuir qualidades aos animais: força, velocidade, astúcia. E foi gastando as dádivas sem pensar no futuro, até chegar ao homem — para o qual já não sobrava nada. Desesperado, teve de pedir ao irmão que roubasse o fogo dos deuses para compensar a falta.

    Ventura, neste caso, é simultaneamente Epimeteu e Prometeu: distribuiu todas as qualidades políticas a si mesmo, deixando o partido sem reserva de talento; e roubou o fogo mediático para manter viva a chama do seu protagonismo. Mas, se fosse eleito Presidente, não poderia usar esse fogo — ficará sentado em Belém, com as mãos atadas, um Prometeu acorrentado não a uma rocha mas à liturgia constitucional.

    Há também em Maquiavel um eco útil para compreender este dilema. O florentino aconselhava o príncipe a evitar o desprezo e o ódio, e a manter sempre a imagem de poder mesmo quando não o podia exercer. Porém, constitucionalmente, o cargo de Presidente da República Portuguesa é precisamente o contrário: obriga a renunciar ao exercício para preservar a imagem, obriga a não governar para não perder autoridade. Ventura, habituado a viver do choque, do insulto e do excesso, teria de se converter em guardião da compostura. Seria, nesse momento, como Sansão a cortar o cabelo: manteria a figura, mas perderia a força.

    Quem quiser, de facto, neutralizar Ventura e enfraquecer o Chega, não tem já de o combater nas arenas parlamentares ou nos palcos televisivos. Basta elegê-lo Presidente da República. Conseguir isso seria a apoteose e a derrota, o clímax e a decadência numa mesma eleição. O homem que grita contra o sistema ficaria condenado a presidir ao sistema; o agitador tornar-se-ia figura de cortesia; o gladiador acabaria num trono cerimonial. O Chega, sem Ventura, tornar-se-ia irrelevante, um partido em estado vegetativo, reduzido a resmungos parlamentares e a intrigas de segunda linha.

    É esta a ironia maior: Ventura corre à Presidência não para ganhar, mas para perder com estilo. Só não percebe que, se ganhar, perde de vez. E perder de vez, para quem construiu um partido à imagem do seu ego, é perder não apenas o poder, mas o próprio sentido de existir.

    Talvez seja por isso que a melhor forma de travar o avanço do Chega seja não combatê-lo — mas aplaudir Ventura até à cadeira de Belém, onde se tornará o mais inútil dos presidentes e, por isso mesmo, o mais letal para o seu próprio partido.

  • Fumar mata? Dar ‘jobs’ a ‘boys’ também

    Fumar mata? Dar ‘jobs’ a ‘boys’ também


    Há tristes e trágicas ironias do destino que dispensam legendas e moral da história: bastam-se a si próprias, num enredo de que só a realidade é capaz. A composição do Conselho de Administração da Carris é um belo exemplo de como o Estado português, geridos por Governos de quadrantes indistintos, quando decide ser patrão, o faz com aquela fleuma paternalista que nos leva a acreditar que o mérito é uma moeda fora de circulação.

    Vejamos, neste contexto, quem são os cinco administradores da Carris, a empresa municipal que gere os ascensores históricos de Lisboa. Pedro Bogas, presidente, é advogado e passou grande parte da sua vida profissional entre gabinetes ministeriais, assessorias jurídicas e cargos de administração em empresas públicas. Não é alguém que se tenha distinguido por dirigir frotas de autocarros ou garantir a segurança de funiculares, mas sim por conhecer os meandros dos corredores do poder.

    Conselho de Administração da Carris (da esquerda para a direita): Ema Favila Vieira, Maria Albuquerque, Pedro Bogas, Ana Coelho e Fernando Pedro Moutinho.

    A sua vice, Ana Coelho, licenciada em Economia, fez praticamente toda a carreira na CP — mas não na operação ferroviária, onde se respiram horários, acidentes e redundâncias de segurança, mas antes na contabilidade e controlo orçamental. Era na CP, podia ser noutra qualquer empresa pública: números são números, folhas de Excel não distinguem se o activo é um comboio ou um autocarro ou um parafuso. Ou um cabo que pode colapsar.

    A outra vice, Maria Albuquerque, engenheira civil com mestrado em planeamento territorial e ambiente, é um produto típico da tecnocracia ministerial: carreira feita em gabinetes, programas comunitários e, mais recentemente, na estrutura de gestão do IFRRU 2020 — o Instrumento Financeiro para a Reabilitação e Revitalização Urbanas —, onde se gere dinheiro, não se gerem equipamentos que transportam pessoas em carris de ferro.

    Ema Favila Vieira, promovida este ano a vogal, tem um percurso sui generis: advogada de formação, era desde 2018 secretária-geral da Carris e, depois, directora jurídica, mas antes tinha feito carreira no que se poderia chamar cultura política — foi chefe de gabinete da vereadora da Cultura da Câmara de Lisboa, passou pelo Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia (ICAM) e também por gabinetes ministeriais na Defesa.

    Por fim, Fernando Pedro Moutinho, vogal não executivo, é arquitecto paisagista e, sobretudo, um homem político: foi deputado do PSD nos períodos 1995-1999 e 2002-2005, e desde então foi vivendo à sombra de cargos públicos de nomeação política, incluindo vice-presidente da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (2013-2019) e, actualmente, é director municipal da Higiene Urbana de Lisboa, responsável pela frota municipal e recolha de resíduos.

    Olhando para este ramalhete, percebemos o que em Portugal se institucionalizou como “boys” e “girls” para “jobs” públicos. São tachos, no sentido mais cru do termo, ou se quisermos recorrer a um léxico mais arcaico e erudito: sinecuras — esses cargos que, na velha acepção latina, eram remunerados mas dispensavam trabalho árduo ou risco. Há quem passe a vida aos saltos de gabinete em gabinete, de nomeação em nomeação, até que lá pelos cinquenta e poucos anos se encontra uma cadeira mais confortável, com salário generoso, viatura de serviço, cartão de combustível e direito a convites para inaugurações. É a vida, dirão alguns: a política sempre foi o palco onde se distribuem recompensas aos fiéis.

    Mas há áreas onde o preço das sinecuras é demasiado alto. Há funções públicas e empresas públicas que não podem ser transformadas em prateleiras douradas para quem foi leal ao partido certo ou esteve no gabinete certo na hora certa. A tragédia recente do Elevador da Glória prova-o de forma dolorosa.

    Não estamos apenas perante um acidente: estamos perante o paradigma de uma tragédia anunciada. O desastre não foi o rompimento do cabo, nem a morte e ferimento dos passageiros: o verdadeiro desastre foi político, começou anos antes, quando alguém na Câmara Municipal de Lisboa decidiu nomear para a administração da Carris uma equipa de cinco pessoas sem conhecimento operacional nem sensibilidade para a segurança de ascensores centenários.

    Ao longo dos anos, ninguém — sublinho, ninguém — pareceu ter o discernimento para abrir o caderno de encargos da manutenção e questionar se aquelas exigências minimalistas eram suficientes para proteger a vida dos passageiros. Ninguém achou estranho que a poupança em custos de manutenção fosse esmagada até ao osso. Ninguém se deu ao trabalho de ler a legislação com atenção e perceber que a substituição de um cabo num equipamento histórico necessitava de autorização prévia do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), de ensaios, de testes, de documentação formal.

    E ninguém, sobretudo, fez a pergunta fundamental: estamos a gerir património histórico, a assegurar a segurança das passageiros ou estamos apenas a fechar orçamentos?

    O resultado está à vista: um equipamento que deveria ser símbolo de Lisboa transformou-se em notícia internacional pelos piores motivos. E com 16 mortes e duas dezenas de feridos. Foi no dia 3 de Setembro de 2025, mas poderia ter sido em qualquer altura – quando qualquer um dos leitores estivesse à hora errada no local errado para um acidente certo.

    A responsabilidade do desastre do Elevador da Glória não se dilui no nevoeiro burocrático: está na escolha das pessoas. Escolher administradores que nunca respiraram manutenção, operação ou segurança para gerir uma empresa de transporte é como pôr um poeta a pilotar um avião: pode até ser uma viagem inspiradora, mas o risco de cair é real.

    O acidente do Elevador da Glória é, por isso, mais do que um acidente: é o corolário de uma cadeia de decisões políticas e administrativas. E deve ser lido como aviso sério: dar “jobs” a “boys” e “girls” pode ser tão perigoso quanto fumar. Tal como o cigarro, pode dar algum prazer no momento, o conforto de satisfazer clientelas políticas ou de recompensar carreiras de fidelidade. Mas tal como o cigarro, tem efeitos secundários fatais. Porém, neste caso, mata inocentes, não o próprio fumador.

    Por isso, aquilo que está em causa não é apenas a responsabilidade civil ou criminal de quem falhou — é a responsabilidade política de quem escolheu estas pessoas para estes lugares. Quando a incompetência institucional se alia à indiferença operacional, o resultado é sempre o mesmo: tragédia.

    Concluindo, é tempo de compreender que há lugares na administração pública que não podem ser ocupados por profissionais de carreira política, mas sim por quem detenha competência técnica para assegurar o funcionamento dos equipamentos e infraestruturas, garantir a integridade das pessoas e impedir que os erros do passado se repitam. Caso contrário, preparemo-nos: depois do Elevador da Glória, a próxima tragédia estará ao virar da esquina — e quando ela acontecer, não haverá desculpa, apenas mais uma lápide a lembrar que o vício de distribuir cargos aos apaniguados mata.

  • Hambúrgueres: como uma ‘gaffe’ arrisca engordar (ainda mais) o Chega

    Hambúrgueres: como uma ‘gaffe’ arrisca engordar (ainda mais) o Chega


    Nos últimos dias, multiplicaram-se as celebrações, os comentários jocosos e os memes virais devido à “gaffe dos hambúrgueres” cometida por André Ventura, presidente do partido Chega.

    Os comentários na imprensa e nas redes sociais foram implacáveis com Ventura, que confundiu o evento Bürgerfest – Festa dos Cidadãos – com uma festival de hambúrgueres. O evento, que se realizou a partir de sexta-feira em Berlim, teve Portugal como país convidado e o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, marcou presença – graças aos contribuintes que “assumiram” as despesas de deslocação.

    Foto: Chega/ D.R.

    Mas os opositores e críticos de Ventura deitaram os foguetes cedo demais. Abriram prematuramente as garrafas de champanhe, vaticinando o início da queda de popularidade do presidente do Chega — e actual líder da oposição —, que continua em ascensão.

    Aliás, quem se tem rido à custa da gaffe de Ventura está, na realidade a fazer-lhe um enorme favor. Por três motivos.

    Por um lado, os portugueses não parecem apreciar muito os “sabichões”. Aquelas pessoas que corrigem as outras. Que citam trechos de livros. Que sabem tudo. Também não parece serem grandes fãs de malta intelectual, que, mesmo sem querer, dá naturalmente ares de superioridade. A não ser que sejam um pouco freaks — como Marcelo, com as suas selfies, modo peculiar de falar e episódios caricatos.

    person holding burger bun with vegetables and meat
    Foto: D.R.

    Por outro lado, os portugueses parecem ter uma “queda” para os “pobrezinhos”, os injustiçados, os vitimizados, os perseguidos. Os “coitadinhos”. Não é que Ventura seja um coitadinho ou pobrezinho, mas, claramente foi diminuído e escarnecido em público pela cómica gaffe que cometeu.

    Por fim, com esta gaffe, Ventura mostrou ter fraquezas e vulnerabilidades. Mostrou que também comete erros. Enfim, mostrou que é humano. Como todos. E comete erros e gaffes.

    Ventura não é um intelectual. Um sabichão. Um sabe tudo. Ventura é um tipo “normal”. E isso é muito apelativo a quem já o admira. Cria empatia. E é apelativo para quem já cometeu erros e gaffes. Para quem não sabia o que é, afinal, o evento Bürgerfest, na Alemanha. Para quem não pertence ao clube restricto dos “intelectuais” de topo do país.

    Foto: Chega / D.R.

    Ou seja, esta gaffe de Ventura tem o potencial de lhe trazer mais seguidores — e votos — vindos de quem se identifica com ele — enquanto português “normal”.

    No livro ‘The the new psychology of leadership‘, os autores elaboram sobre como líderes de sucesso conseguem criar uma espécie de comunidade — uma ideia de “nós”. Assim, o líder não está acima de ninguém, mas está ao lado, faz parte da comunidade. É um semelhante.

    Num artigo que os mesmos autores publicaram antes, em 2007, sobre este mesmo tópico, referem como essa percepção de identificação e proximidade pode ser passada através da linguagem utilizada pelo líder. E dão um exemplo. Quando houve o atentado às Torres Gémeas, George W. Bush, então presidente dos Estados Unidos, fez um discurso ao país em que prometeu “to hunt down and to find those folks who committed this act“. O uso de expressões como “hunt down” e “folks” aproximou o presidente do norte-americano comum. Este tipo de posicionamento ajudou a reforçar o seu poder político nos primeiros anos na Casa Branca.

    Depois, há todo um histórico de marcas, empresas e políticos que aproveitaram crises, erros, gaffes e até acusações de adversários para se promoverem. Por exemplo, em 2018, uma conhecida cadeia de fastfood transformou a sua marca KFC em FCK, para pedir desculpa aos clientes no Reino Unido e Irlanda, durante uma crise que afectou a empresa — uma mudança de distribuidor levou ao fecho de restaurantes por falta de frango. A empresa não só assumiu o erro como o transformou numa campanha de marketing de sucesso.

    Foto: D.R.

    E vale a pena recordar uma das muitas gaffes de Donald Trump, que se tornou um fenómeno, quando, no seu primeiro mandato na Casa Branca, escreveu um tweet com um erro de escrita: “covfefe”. Trump quereria escrever “coverage”. O que é certo é que a gralha tornou-se um fenómeno viral.

    Desengane-se, pois, quem aposta já numa descida a pique do número de admiradores de Ventura e de militantes do Chega. Esta confusão dos hambúrgueres ainda vai parar a uma tese de mestrado sobre marketing político.

    Resta saber se o Chega ainda vai fazer como fizeram algumas marcas, empresas e até políticos, que aproveitaram erros, deslizes e confusões para aumentar a sua popularidade. Talvez com um Chegafest? Com hambúrgueres, claro.

    Elisabete Tavares é jornalista


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • Duas mortes, uma imprensa racista e anti-cristã

    Duas mortes, uma imprensa racista e anti-cristã


    Alterações Mediáticas, podcast da jornalista Elisabete Tavares sobre os estranhos comportamentos e fenómenos que afectam o ‘mundo’ anteriormente conhecido como Jornalismo.

    No 23º episódio, analisa-se a cobertura que a imprensa fez (ou não fez) de dois crimes que resultaram em duas mortes nos Estados Unidos: um jovem conservador e cristão devoto; uma jovem refugiada ucraniana.

    No caso da jovem, que era branca, a imprensa fez um blackout enquanto pôde. Sobre o assassinato do jovem conservador, a imprensa colou-o erradamente à extrema-direita ou tratou de quase justificar a sua morte, optando por destacar apenas algumas das suas posições mais controversas.

    Acesso: LIVRE, mas subscreva o P1 PODCAST com um donativo mensal de 2,99 euros. Ajude o PÁGINA UM a amplificar o seu trabalho.

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  • Assim, a Justiça no Brasil não tem jeito

    Assim, a Justiça no Brasil não tem jeito


    Há um momento em que um observador estrangeiro, mesmo o mais benevolente, deixa de suspender o juízo e começa a franzir o sobrolho: a justiça no Brasil não tem jeito. Não é apenas um lugar-comum; é uma constatação empírica de quem conhece, com algum detalhe, a génese desse grande país unificado artificial e miraculosamente (sabem quantos países saíram das colónias espanholas na América?) e acompanha, há anos, os desdobramentos de um sistema judicial que se tornou, simultaneamente, protagonista e encenador da vida política.

    Aquilo que por cá, em Portugal, ainda chamamos de sistema de Justiça – mesmo assim com demasiados defeitos e falhas –, lá assume um figurino peculiar, quase barroco, em que os magistrados do topo não se limitam a interpretar leis e julgar litígios: são eles próprios personagens centrais da narrativa pública. E o pior é que parecem saborear esse estatuto de protagonistas.

    Alexandre de Moraes

    Não se trata aqui de uma denúncia ideológica, nem de uma defesa de qualquer corrente política, seja a esquerda lulista ou a direita bolsonarista. A questão é outra e bem mais séria: é o Estado brasileiro enquanto tal, é a credibilidade das instituições, é o pacto social que se fragiliza cada vez que um julgamento se transforma num reality show televisivo, com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a darem entrevistas, a trocarem farpas em plenário, a medirem a popularidade nas redes sociais e a decidirem o destino de candidatos que polarizam o país. É certo que as democracias precisam de tribunais constitucionais fortes. Mas não precisam de tribunais-vedeta.

    O STF é, em teoria, o guardião último da Constituição. Na prática, tornou-se um actor político de primeiro plano. Cada ministro detém um poder quase imperial sobre os processos que relata: decide quebras de sigilo, prisões preventivas, diligências de busca e apreensão, medidas cautelares de grande impacto, e depois, no julgamento, apresenta o seu voto – o qual serve de guia para os demais ministros, que o acompanham na maioria dos casos. É um sistema que mistura investigação e julgamento numa única pessoa, criando o risco óbvio de pré-julgamento. Em democracias maduras, essas funções estão separadas: quem investiga ou supervisiona a legalidade da investigação não deve ser quem julga o mérito. Mas isso não se circunscreve ao STF – é visível noutros níveis.

    O exemplo paradigmático é o de Sérgio Moro e da Operação Lava Jato. Há quase uma década, Moro conduziu a investigação, determinou prisões, autorizou escutas e, no fim, sentenciou Lula da Silva. Mais tarde, o próprio STF reconheceu a sua parcialidade e anulou o processo. Mas o mal estava feito: Lula ficou inelegível em 2018, passou quase dois anos preso e a eleição presidencial decorreu sem a sua participação.

    Sérgio Moro

    E depois ficou indelével um rasto de dúvida: será que houve justiça ou apenas uma coreografia judicial com efeitos políticos? E depois sabemos o que sucedeu com Sérgio Moro: integrou em finais de 2018 o Governo Bolsonaro, como ministro da Justiça, ‘aventura’ que durou cerca de um ano e meio, tendo depois saltitado por dos partidos. E hoje é senador da União Brasil pelo estado do Paraná. Temos, portanto, um magistrado com vaidades e pretensões políticas a conduzir um julgamento enviesado, independentemente dos actos e culpas do arguido.

    Hoje, repete-se um enredo semelhante, desta vez com Jair Bolsonaro. Os inquéritos multiplicam-se, as decisões monocráticas sucedem-se, e já houve consequências políticas paralelas: o ex-presidente está impedido de concorrer durante oito anos e arrisca-se agora a ter prisão declarada se o STF assim o decidir (neste momento, está um ‘resultado’ de 2 a 1). Não se trata aqui de absolver Bolsonaro das acusações – é evidente que ele terá responsabilidades políticas, talvez até criminais, no ambiente de contestação e na invasão dos edifícios dos Três Poderes a 8 de Janeiro de 2023. Mas o problema é outro: a Justiça parece ter pressa em dar uma resposta exemplar, uma espécie de purga política que tem tanto de punitivo como de pedagógico. Ora, Justiça não deve ser vingança nem pedagogia; deve ser justiça.

    E, pior, assiste-se a uma celebração mediática dessa punição como espectáculo. As televisões e os portais de notícias transmitem cada voto, cada frase sonora, cada ironia lançada no plenário. O processo judicial torna-se entretenimento, combustível para as bolhas de ódio nas redes sociais. É o ‘circo mediático’ que transforma um julgamento em espectáculo, que transforma magistrados em celebridades e réus em vilões ou mártires, conforme o lado do espectador. O resultado é um reforço da polarização, não a sua superação.

    Lula da Silva

    A Justiça brasileira precisa urgentemente de mecanismos que a resguardem dessa tentação de protagonismo. O juiz de garantias, figura prevista mas não implementada, é um desses mecanismos. Num sistema verdadeiramente acusatório, a investigação é conduzida pelo Ministério Público e supervisionada por um juiz de garantias, que decide sobre a legalidade das provas, mas não julga o mérito.

    Depois disto, outro juiz, ou um colegiado, faz o julgamento final. Isso reduz drasticamente o risco de parcialidade e aumenta a confiança de que o arguido está a ser julgado por alguém que não se comprometeu previamente com a sua condenação, algo que não sucedeu com Lula e não sucede agora com Bolsonaro.

    Mostra-se também fundamental limitar o poder monocrático dos ministros do STF. Um único juiz não pode ter nas mãos a possibilidade de suspender leis, interditar políticos ou bloquear redes sociais inteiras sem um debate colegiado prévio, como já se observou com Alexandre de Moraes. O Brasil precisa de recuperar a noção de que tribunais são árbitros, não jogadores – e que o seu papel é aplicar a Constituição, não moldar o tabuleiro político ao sabor de convicções pessoais.

    Jair Bolsonaro

    Não se trata aqui de criar uma agenda para beneficiar Bolsonaro – sobre quem não tenho a mínima simpatia pessoal, e ainda menor afinidade de valores e princípios – ou qualquer outro arguido célebre. Trata-se de evitar que, no próximo ciclo, outro nome seja sacrificado no altar do justicialismo, talvez alguém da esquerda, talvez um líder social, talvez um jornalista incómodo. Quando a Justiça se torna uma arma política, cedo ou tarde será usada contra todos.

    E há ainda uma dimensão moral que não pode ser esquecida. Justiça não é apenas punição, é também redenção. Uma democracia precisa de encontrar caminhos para reintegrar aqueles que erraram, desde que cumpram a pena que lhes foi imposta. Impedir um político de se candidatar durante quase uma década pode ser uma medida legítima, mas será a mais inteligente para um país que precisa desesperadamente de reduzir a sua polarização?

    Não seria mais útil permitir que Bolsonaro e o bolsonarismo enfrentem o juízo das urnas, em vez de os transformar em vítimas e lhes dar o combustível da narrativa de perseguição?

    Luiz Fux, um dos cinco juízes do STF, que está a julgar Bolsonaro e mais sete arguidos, e que mostra um julgamento-espectáculo.

    O Brasil precisa de Justiça, não de justicialismo. Precisa de previsibilidade jurídica, não de decisões que parecem responder ao clamor das ruas ou às capas dos jornais. Precisa de magistrados que sejam respeitados pelo seu silêncio e pela sua sobriedade, não pelas suas tiradas de efeito. Precisa de um sistema que trate Lula, Bolsonaro ou qualquer cidadão comum segundo as mesmas regras, e que não permita que a história de um processo se confunda com a biografia de um ministro.

    Enquanto isso não acontecer, continuaremos a assistir a julgamentos históricos que, mais do que fortalecer a democracia, a corroem. Continuaremos a ver réus que se tornam heróis ou mártires, tribunais que se tornam palcos e ministros que se tornam estrelas. Continuaremos, em suma, a dizer que a justiça no Brasil não tem jeito. Mas tem de ter: porque sem ela não haverá redenção possível para um país que precisa desesperadamente de paz institucional.

  • Não, Moedas não é responsável pela tragédia no Elevador da Glória

    Não, Moedas não é responsável pela tragédia no Elevador da Glória


    Quando ocorrem tragédias, há, infelizmente, logo quem delas se quer aproveitar. Foi assim também com o acidente trágico que ceifou 16 vidas depois de, aparentemente, se ter partido um cabo no mítico Elevador da Glória, em Lisboa. Um cabo que prendia os passageiros à vida.

    Nos media e nas redes sociais, foi um desfile de figuras, oportunistas, a por as garras de fora e a tirar proveito do luto e do choque. A principal vítima destes ataques tem sido o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas.

    Yellow tram ascends a steep cobblestone street.
    Foto: D.R.

    Não vou citar um a um porque são muitos e porque não lhes quero dar mais palco. Mas colheram aplausos, ‘likes‘, partilhas nas redes sociais. As hienas puseram-se em campo: políticos; adversários de Moedas e do Governo; comentadores das TVs. Enfim, os do costume. Tudo lhes serve para reforçar a fama, a qual está indexada ao que depois recebem para ir a programas de variedades — que é como classifico os actuais painéis de comentadores televisivos e das rádios.

    Os factos pouco interessam a esta gente. O que interessa é ‘malhar’ no Moedas. É vender ideologias, berrar acusações absurdas. Uns aproveitam para vender as “benesses” e os “milagres” proporcionados pelos sindicatos, e que se “estes tivessem mais poder nada disto acontecia” — uma enorme tolice. (Servem hoje, sobretudo, para manter intacto um mercado de trabalho obsoleto, em que a maioria dos trabalhadores sobrevive com migalhas, num regime democrático corrompido). Outros aproveitaram para “puxar a brasa à sua sardinha” a tempo das eleições autárquicas. Outros opinam porque sim. Os factos? Isso é chato. Não interessa.

    Mas há, pelo menos, 16 razões para atender aos factos. As vítimas mortais merecem o apuramento dos factos. E também os feridos do acidente merecem o apuramento de todos os factos. E de todas as responsabilidades. Técnicas e de gestão.

    Carlos Moedas, com a ministra do Ambiente e o presidente da Carris, no anúncio da formalização da candidatura da empresa para o fornecimento de 15 elétricos, em 28 de Junho de 2024.
    / Foto: CML/ D.R.

    É já evidente que o acidente não ocorreu, assim, do nada. Do que se sabe até agora, terá ocorrido na sequência de uma série de acontecimentos que criaram a “tempestade perfeita” para uma tragédia.

    O acidente terá tido origem em eventos que tiveram início há, pelo menos, três anos, quando a Carris lançou um concurso público para a manutenção dos centenários ascensores.

    No concurso lançado em 2022, concorreram quatro empresas: três sem o obrigatório alvará da Direcção-Geral da Energia e da Geologia (DGEG) e uma empresa muito experiente e com licença. Uma das empresas sem alvará e sem experiência na manutenção de ascensores era a MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia.

    Nesse concurso, o preço era de 1.728.000 euros. A MNTC ganhou com uma proposta que esmagou esse preço. O contrato acabou por lhe ser adjudicado por 995.515,20 euros.

    Foto: D.R.

    Além do preço, o que é chocante é ver que o caderno de encargos desse concurso é paupérrimo em termos de exigências e requisitos para a prestação da manutenção.

    O que se seguiu foi uma catadupa de acontecimentos que resultaram no trágico desfecho.

    Como é que a Carris colocou nas mãos de uma empresa sem experiência e com alvará com poucas semanas a manutenção dos ascensores? Sabemos o porquê: poupar nos custos.

    Quem tomou a decisão de adjudicação deste contrato, em 2022, pode enfrentar acusações criminais. Os nomes que constam do contrato são dois: Pedro Gonçalo de Brito Aleixo Bogas, presidente da Carris; e Maria de Albuquerque Rodrigues da Silva Lopes Duarte, vice-presidente da empresa. O conselho de administração da Carris tem ainda outra vogal executiva: Ana Cristina Coelho.

    Pedro Bogas, presidente da Carris. / Foto: D.R.

    Entretanto, este ano, a Carris cancelou um concurso público para a manutenção dos ascensores. No dia do acidente, não havia nenhum contrato válido e eficaz publicado no Portal Base referente à manutenção daqueles elevadores. O anterior contrato conhecido, com a MNTC, tinha terminado a 31 de Agosto.

    Pressionada, a Carris mostrou então aos jornalistas uma minuta de um contrato, alegadamente adjudicado por ajuste directo à mesma empresa, MNTC, com data de 20 de Agosto. A Carris tem mantido a narrativa de que o contrato foi mesmo assinado a 20 de Agosto, mas sem assinaturas digitais, vale a palavra dos gestores da Carris. (Resta saber se terá algum valor para as seguradoras e o Ministério Público.)

    Será que a tragédia poderia ter sido evitada se, em 2022, a Carris tivesse entregado a manutenção dos elevadores a uma empresa experiente? Será que teria sido evitada se, no passado mês de Agosto, a Carris tivesse entregado a manutenção a uma empresa com mais experiência? Será que a nova empresa teria conseguido detectar, no dia 1 ou 2 de Agosto, que o cabo dos ascensores da Glória não se encontrava em condições? Jamais saberemos.

    O que sabemos é que a manutenção dos ascensores foi deficiente. Falhou. Foi negligente. Foi uma brincadeira. Isso é evidente. Se tivesse sido bem feita, não teria havido esta tragédia.

    Foto: D.R.

    O que sabemos é que uma empresa, a Carris, para poupar nos custos, entregou a manutenção dos emblemáticos elevadores nas mãos de uma empresa que fazia sobretudo contratos de manutenção de piscinas públicas.

    O que sabemos é que a empresa de manutenção MNTC não tinha experiência. E nunca deveria ter postos os pés na Calçada da Glória para ali prestar serviços à Carris.

    O que sabemos é que as 16 vidas perdidas no acidente tiveram um preço: 732.484,80 euros. É o valor da “poupança” que a Carris teve em 2022, quando decidiu adjudicar o contrato de manutenção à MNTC.

    732.484,80 euros. Foi por este valor que se perderam 16 preciosas vidas. Foi por este valor que os gestores da Carris meteram as suas responsabilidades debaixo do tapete e entregaram a vida dos passageiros dos ascensores nas mãos da sorte.

    a hand with a finger pointing at a red and white dice
    Foto: D.R.

    Desde o dia 1 de Agosto de 2022, quando a MNTC começou a fazer a manutenção dos elevadores da Carris, os passageiros arriscaram cada vez que subiram os degraus para andar nos ascensores. Nos últimos três anos, a Carris fez os passageiros dos elevadores jogar uma espécie de roleta russa, sem que nenhum suspeitasse que aquela viagem poderia ser a última na vida.

    Agora, é preciso atender aos factos e apurar responsabilidades. Tudo parece apontar para a existência de negligência, menosprezo pelas regras de segurança e de cuidados com a manutenção do elevador da Glória.

    É certo que num país “preso por fios”, onde o bem público é muitas vezes gerido como bem privado de alguns, só surpreende que não haja mais tragédias.

    Mas querer usar esta tragédia para promover ideologias, reforçar a fama de comentador ou ganhar votos nas eleições é simplesmente nojento — e raramente uso esta palavra.

    Foto: D.R.

    Os factos já conhecidos são claros. Concretos. Querer culpar Moedas não só não faz sentido, como é estúpido. É fechar os olhos a dos maiores males que corrói o país: a eterna desresponsabilização efectiva.

    Alguém tomou decisões de gestão. Alguém fez um trabalho deficiente. Alguém foi negligente. Alguém matou 16 passageiros que apenas queriam subir a Calçada da Glória no histórico Elevador da Glória (não se excluindo que entre as vítimas haja pessoas que circulavam no passeio). Isto é indiscutível.

    Esta tragédia precisa servir para alguma coisa. Pode servir para se corrigir alguns grandes males do país. E garanto que tudo mudará, em Portugal, se houver, desta vez, pelo menos uma coisa que nunca há: Justiça. Célere.

    Elisabete Tavares é jornalista


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • Um pasquim chamado Público (e o problema daqueles que o seguem)

    Um pasquim chamado Público (e o problema daqueles que o seguem)


    A palavra “pasquim” vem do italiano pasquino, a estátua romana do século XVI onde se pregavam libelos satíricos — as famosas pasquinatas — que troçavam do poder e da Igreja. Com o tempo, passou a significar escrito maldoso, anónimo, e em português ficou sinónimo de jornal de má qualidade, daqueles que se enchem de opinião mas esvaziam-se de ética.

    Assumamos, pois, que, por derivação de sentido, um pasquim possa, em pleno século XXI, também ser chamado sem pejo a um jornal que se contorce para ignorar as notícias dos outros, não por falha, mas por birra, por despeito, por ódio de estimação. Um pasquim é assim um jornal que prefere enganar os seus leitores fingindo que descobriu sozinho aquilo que alguém noticiou dias antes. Um pasquim é, em suma, um jornal que tem a mania da exclusividade, mas vive à boleia do trabalho alheio.

    Ora, no sábado, o PÁGINA UM publicou em exclusivo — e depois do acesso ao relatório integral de 59 páginas da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) — a notícia de que o cirurgião Pedro Cavaco Henriques foi sancionado com 40 dias de suspensão aplicada ao cirurgião Pedro Cavaco Henriques por cinco infracções graves cometidas em apenas três meses.

    Publicámos a notícia no sábado, com toda a prudência exigida: não inventámos, não especulámos, só escrevemos depois de ter acesso ao texto integral, lemos, analisámos e noticiámos. relatando os factos, mas sem expor nomes de doentes ou detalhes clínicos.

    No domingo, reforcei o tema num editorial com o título “Quem quer estar sob o bisturi do doutor Pedro Miguel Mendonça Felício Cavaco Henriques?”, lido por mais de dez mil pessoas no nosso site e com mais de 30 mil visualizações nas redes sociais.

    Não foi por uma hora de diferença nem por duas… O PÁGINA UM publicou uma notícia com impacte público há três dias.

    E a imprensa mainstream? Silêncio. Três dias de silêncio, como quem finge que o assunto não existe. Até que hoje, oh eureka!, houve um pasquim, outrora jornal de referência, que insiste em se chamar Público, que ‘descobre’ o caso nas redes sociais da médica denunciante e escreve como se tivesse descoberto a pólvora. Como se tivesse trabalhado, investigado, apurado. Como se fosse jornalismo de referência. Como se não houvesse um outro jornal a fazer a ‘cacha’, cumprindo regras éticas.

    E depois, como tem sido hábito, a restante imprensa — a SIC e TVI, neste caso — correu atrás da “notícia” do pasquim, ignorando quem realmente a trouxe a público e aliviada por assim não ter de citar o PÁGINA UM.

    Este é o modus operandi dos pasquins: apagar o trabalho dos outros para parecer indispensável. Mas há um problema para os pasquins de serviço: os leitores começam a perceber o truque. E quando perceberem de vez, vão tratar esses pasquins como aquilo que são: panfletos de agenda, mais preocupados com o seu prestígio do que com a verdade.

    Capa do relatório do processo disciplinar da IGAS que aplicou uma sanção de 40 dias de suspensão que terá de ser confirmada pela ULS do Algarve, que o PÁGINA UM usou no sábado e domingo passado.

    Se o Público e os seus directores têm engulho em citar o PÁGINA UM, se lhes causa urticária reconhecer que um jornal pequeno lhes está a dar lições de jornalismo, têm uma alternativa simples: deixem de ser pasquim. Façam jornalismo, com rigor e sem promiscuidades.

    Independentemente disso, como sempre fizemos, o PÁGINA UM citará o Público quando o Público merecer ser citado. Mas enquanto for um pasquim, chamá-lo-emos pasquim. Porque pasquim se mostra, pasquim será.

    N.D. Esta tarde, escrevi à jornalista do Público, Inês Schreck, lamentando que tenha ignorado a ‘cacha’ do PÁGINA UM. A jornalista, com 23 anos de experiência, ignorou o e-mail.