Uma globalização de investimento implica uma política com ingerência. Um país é governado pelos seus povos no uso da democracia, mas a realidade é que os títeres e os bufões sobem da incultura e da incapacidade de análise dos que votam.
Votar é um direito transversal, livre e igualitário. Claro que há agremiações onde alguns possuem direitos acrescidos outorgando-lhes o poder de votar mais vezes que os outros. Também há países onde o voto é obrigatório e tem penalizações para quem não o exerce.
Nada invalida a ideia de que deveria ser transversal, igualitário e livre. Assim o voto incumbe quem o recebe de cumprir um mandato que deve ser temporário, vigiado pelas instituições adequadas e coerente com os princípios constitucionais.
Assim, quando escolhemos relacionar as democracias com os títeres e os ditadores, damos um passo complexo entre direitos e deveres. Um Estado democrático tem de engolir dezenas de sapos para negociar com um regime sem lei e sem ordem. Os incumprimentos, as regras alteradas constantemente, a corrupção, a incapacidade de controlar os portos e a chegada de produtos criam um processo de constrangimento aos investidores.
Os países deste género têm de ser isolados num processo “ingerente” que os devolva à democracia e aos direitos humanos. As chegadas de migrantes de países desgovernados, miseráveis, com agentes políticos empenhados no eu e esquecidos dos outros, onde o cumprimento dos contratos não se realiza, onde a justiça é cativa do poder, devem ser repensados. Temos o direito de ajudar a mulher maltratada, os animais abandonados, mas não podemos ter acção directa sobre a brutalidade dos estados e a sua incompetência?
Os migrantes em barcos e a pé existem em vários circuitos de fuga da miséria. A Venezuela distribuiu refugiados por todos os países à sua volta. A Nicarágua é uma dor de alma. Na Ásia há verdadeiros produtores de fluxos migratórios, como nas Filipinas.
Para o Mediterrâneo a situação é dramática e apocalíptica. Morrem no mar crianças às centenas. Mas a culpa não é dos corruptos e loucos, e dos ladrões que governam os países que originam os fluxos por guerras e fome e desemprego.
Não! Dr. Guterres, a culpa não é nossa, que lhes damos emprego, e simultaneamente damos segurança social, subsídios e benesses aos nossos que recusam trabalhar. Não, Dr. Guterres! A culpa não é deste lado do Mediterrâneo. Refira os nomes dos Presidentes que roubam as ajudas internacionais, os valores que pagamos para tentar que não mandem mais pessoas. Depois, eles usam os migrantes de novo, como pressão da mão estendida.
As políticas de contenção da migração têm de ser interferentes, ingerir com as decisões, seguir o dinheiro que é dado para apoios, frequentemente sem prestação de contas.
Os cidadãos europeus não fazem ideia da quantidade bárbara de milhões de euros que se distribuem em programas inócuos, incompetentes e desnecessários pelo Mundo fora. Damos dinheiro para sossegar os negócios. Damos dinheiro para as vaidades dos criadores de ilusões que invadem com ONGs o Mediterrâneo, e acreditam ser importantes para mudar o curso desta tragédia.
Os discursos de António Guterres são fantásticos, são de qualidade livresca, mas a realidade é um martelo que entrega 500 mortos hoje e muitos mais amanhã. O problema não é aqui! O problema é lá, de onde estão a sair de campos de refugiados, mártires de traficantes, entregues à ineficiência dos políticos, produtos de ilusões sobre grandes salários na Europa.
Diogo Cabrita é médico
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
Este texto, com pequenos acertos de edição, como rescaldo do incêndio de Pedrógão Grande há seis anos, foi originalmente publicado na edição de 22 de Junho de 2017 da revista Visão. Convém recordar que, em Outubro daquele ano, uma nova vaga de incêndios causou mais 49 mortes. Oficialmente, foram declaradas 115 mortes pelos incêndios rurais em 2017, que destruíram 540.754 hectares.
No passado sábado [17 de Junho de 2017], numa das suas já voluntariosas sessões de confortos e alentos, o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, desferiu a derradeira machadada na credibilidade do Estado. Não falo da credibilidade do Governo, que é um fluxo. Falo sim do Estado, aqui visto como uma espécie de stock, de reserva de confiança dos cidadãos, uma espécie de Deus ex machina, ao qual nos dispomos em oferendas – vulgo impostos – e em submissão às suas/ nossas leis, em troca de protecção, de harmonia. Para enfim não andarmos homens feitos lobos em guerra contínua, evitando que, como lamentava Thomas Hobbes no século XVIII, a vida nos seja solitária, pobre, suja, brutal e curta.
Note-se que a dita machadada do Presidente da República, embora possa ter sido involuntária, não tem nenhuma mácula. É inteiramente verdadeira. De facto, também eu acredito, e há já demasiado tempo, que “o que se fez, foi o máximo que se podia fazer”, que “não era possível fazer mais”, citando as suas palavras.
De facto, o Estado – através dos sucessivos Governos, pois não lhes encontro diferenças substanciais em política florestal e de protecção civil – tem mostrado à saciedade por estes dias; mostrará ao longo deste Verão, como mostrou em anos anteriores, que se faz sempre o que se pode, o que é pouco e, muitas vezes, mal. E dando os resultados tristes, tenebrosos que a comunicação social agora expõe. Os presentes e os passados. E muitos esquece, porquanto somos lestos em acordar estremunhados e com vontade de mudar o mundo nos dias de tragédia, para em seguida serenarmos quase tudo no olvido até ser uma fugaz ocorrência histórica.
A nossa memória é, de facto, curta. A minha ainda não é.
Quem se recorda do incêndio da Madeira do ano passado [2016]? Um desastre ambiental e três mortes. Ou o de Arouca? 22 mil hectares destruídos. Acham pouco ou muito?
Assim a frio, muitos nem sabem dizer. Direi que já nem está no top 10 dos mais destrutivos de sempre – o de Pedrogão Grande já o suplantou – mas se tivesse ocorrido nos anos 90 seria considerado catastrófico. De facto, quanto maiores são os dramas, mais depressa se esquecem os anteriores. Hoje, um Governo lança metaforicamente foguetes se não se ultrapassam os 100 mil hectares de área ardida num ano.
Há duas décadas, em Espanha – que tem um território cinco vezes maior – nuestros hermanos mudaram toda a estratégia de gestão florestal e montaram um combate assente no profissionalismo. Os efeitos positivos foram imediatos.
Nós por cá damo-nos ao amadorismo, que é uma mistura de amor com laxismo. Tem efeitos catastróficos, porque em qualquer sistema profissional que premeia o mérito, seria difícil observar, sem melhor escrutínio, na cúpula de uma estrutura como a Liga dos Bombeiros Portugueses, alguém que, durante duas décadas, foi comandante da corporação de Vila Nova de Poiares – um município onde em, entre 1990 e 2005, foi consumida uma área acumulada de 113% (não é engano). Aqui, no combate aos fogos, é o contrário do futebol: ascendem aos lugares cimeiros os goleiros frangueiros.
Não há milagres com o fogo. Embora tudo me pareça um déjà vu, os números recordam-me que estamos sempre a piorar, e quando um ano não é mau, o futuro cobrará com juros. Sempre. Nos anos 90 um fogo com mais de 5.000 hectares fazia manchetes, abria telejornais. O maior incêndio até ao final dessa década foi em Arganil, com 10.076 hectares. O último do top 10 foi em Arganil, em 1995, com cerca de 4.000 hectares. Isto é, cerca de 10% da área ardida do mais destrutivo incêndio em território português, o de Nisa de 2003, que dizimou 41 mil hectares, aproximadamente quatro vezes a cidade de Lisboa. É um valor inimaginável, mas poderá vir a ser ultrapassado pelo de Pedrógão, porque em Portugal, neste sector, até agora pode sempre ser-se pior.
E enquanto tudo isto acontecia, fomos sendo embalados com promessas, novas promessas, mais promessas, mais legislação reinventando a roda – nem imaginam, por exemplo, as revisões de leis, desde o Estado Novo, que sucessivamente proíbem o uso de fogo em zonas florestais no Verão –, mais as ideias estapafúrdias, outras mais que ainda agravam o problema – conforme se verificou com uma recente abertura à eucaliptização –, etc., etc., etc..
Nesta mescla de acontecimentos recentes, as fortuitas declarações da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, são chocantes. Pressenti um déjà vu, intolerável porque desta vez subimos um patamar tétrico: 64 mortes num sopro de chamas, algo que eu, que acompanho estas desgraças ano após ano, não imaginei sequer poder acontecer com esta dimensão. Apelou ela ser tempo para «a dor e o pesar». A avaliação ficava para mais tarde; e eu sei no que dão as avaliações. Dão em nada; dão em aumentos da dimensão das catástrofes, até que uma maior faça esquecer a anterior. E uma maior que 64 mortes é, para mim, uma morte. Uma só morte deve considerar-se, a partir de agora, intolerável.
Na verdade, perante este cenário, perante o nosso histórico, acho que a hora é para revolta, para indignação, porque esta, como dizia Santo Agostinho, é uma das filhas da esperança, sendo irmã da coragem. A indignação hoje é a melhor forma de dignificar as vítimas mortais – se é que isso é possível; e se é, bem que prescindia do acto em troca do retorno daquelas vidas –; mais do que a solidariedade e a caridade.
Não havendo jamais mortes úteis – cada morte é uma tragédia multiplicada –, aquilo que sucedeu em Pedrógão Grande tem de valer mais do que lamentos, mais do que os dois milhões de hectares ardidos em cerca de duas décadas (e que, aliás, ceifaram a vida de várias dezenas de pessoas). Têm de valer. Porque se 64 mortes não fizerem agora mudar a atitude de um Estado insuportavelmente incapaz na protecção civil e na gestão florestal, nada mais fará.
E isso para mim é insuportável; deveria por todos ser considerado insuportável. Não apenas por aqueles que vivem em zonas rurais – que ficam agora a saber que estarão sujeitos a tragédias que os possam fazer figurar em dias de luto e cadeias de solidariedade –, mas mesmo para todos. Para os lisboetas, por exemplo, como eu, que têm agora a absoluta certeza que, havendo um terramoto, nada mais obterão, perante um inexistente sistema de protecção civil do Estado, do que palavras de comiseração e de luto.
A actual ministra – que como assessora de António Costa, que ocupava essa pasta em 2005 – não é leiga nestas matérias. António Costa muito menos. Ambos apanharam em 2005 um dos mais violentos anos de fogos florestais (325 mil hectares dizimados). Esta será, para eles, a segunda oportunidade. A partir de agora só podem agir de forma diferente. Não podem optar, como sucedeu em 2006, por pacotes legislativos perfeitos na forma e ocos na aplicação. Aliás, um deles, assinado então por António Costa como titular da Administração Interna, determinando exactamente o encerramento de estradas em períodos críticos (vd. Decreto-lei 124/2006).
Enfim, parafraseando Almada Negreiros, já existem todas as frases, todas as medidas essenciais para salvar a floresta, salvar vidas humanas deste flagelo dos incêndios; estão todas escritas e sabidas; só faltando executá-las. Mudando o status quo: apostando na prevenção e na gestão florestal economicamente sustentável; alterando o obsoleto modelo de combate assente num pseudo-voluntarismo, heróico mas ineficaz; reforçando um sistema de protecção civil pro-activo e preventivo; etc., etc., etc.. Sabe-se tudo.
A ladainha é tão longa como a desgraça Só falta mesmo fazer. Tem de se fazer. Para não chegarem novas vítimas, novos lamentos, novas reportagens, novos artigos de opinião. Já cansa. Já tudo é demasiado trágico. Até a própria tragédia.
A greve dos professores levou-me a prestar um pouco mais de atenção à Educação que se pratica no Portugal de hoje.
Como sempre que decidi analisar, com algum cuidado, o que se passa no meu País, o resultado foi uma tremenda decepção, uma dolorosa angústia e imensas perguntas para as quais não consegui resposta.
Começo por dizer que, não sendo expert (também) nesta área, é possível que algumas das minhas dúvidas possam parecer disparatadas à maioria daqueles que tenham a suficiente pachorra para me ler.
Há, até, a hipótese de algumas das minhas observações parecerem “estranhas” (para não ser o primeiro a insultar as minhas próprias ideias).
Ainda assim, deixo aqui algumas das questões para as quais não vislumbro resposta.
Comecei por comparar a minha passagem pelas diversas escolas com o dia-a-dia dos estudantes de hoje.
Lembro a escola primária do meu tempo.
Recordo que todos os alunos do Minho ao Algarve, Ilhas e Colónias, tinham as mesmíssimas disciplinas e estudavam pelos mesmos livros.
Desde há muito que cada escola tem os livros que o professor selecciona para cada disciplina.
A “explicação” mais comum é que as realidades são diferentes nas diversas regiões.
Num país do tamanho de uma caixa de fósforos (das pequenas) a explicação não faz muito sentido.
Menos ainda quando sabemos que os exames (ou provas, ou lá como é que se chamam, hoje) são iguais para todas as escolas do país.
Não vejo grande problema em haver livros únicos, para cada disciplina, desde que elaborados por educadores qualificados e que não tenham, como missão, quaisquer tentativas de criação de “pensamento único” ou, pior, de incutir, nas crianças em idade escolar, as grandes linhas políticas e sociológicas de qualquer área política.
O livro único tinha, pelo menos, a enorme vantagem de ser muito mais barato por ser editado em grandes quantidades.
O grande murro no estômago que apanha quem começa a analisar a escola dos nossos dias é, todavia, o facilitismo, a falta de exigência, a ausência de qualidade.
Das escolas desapareceram livros essenciais como a gramática e, até, a tabuada.
Hoje, um aluno vai do primeiro ano da escola primária ao último ano da universidade sem ter, nas mãos, uma gramática.
O resultado é conhecido.
Os erros gramaticais, mesmo de profissionais que deveriam ser mais exigentes (professores e jornalistas, por exemplo), são constantes.
A matemática é a disciplina mais temida e odiada porque exige método, atenção e disciplina.
Tudo o que não existe na maioria das salas de aulas onde se presta mais atenção aos telemóveis do que aos professores.
E será “estranho” acreditar que haja material escolar “ridículo”, aos olhos de alunos, pais e professores de hoje, a fazer falta nos primeiros anos de ensino?
Pode parecer absurdo, mas lembrei-me, por exemplo, do “caderno de duas linhas”, onde aprendíamos a escrever direito, e com letra legível, quando li que testes de miúdos de sete anos, vou escrever de novo, sete anos, serão feitos, este ano, com respostas à base de cruzinhas, em computadores.
Gravíssimo é, também, constatar o desdém pelo esforço e trabalho dos alunos com a ausência do prémio ao mérito e castigo ao desleixo.
Como se pode compreender que, no fim de um ano escolar, todos os alunos passem para o ano seguinte sem se ter em conta o trabalho desenvolvido?
Com o fim das reprovações o esforço deixou de ser valorizado e, logicamente, a qualidade do ensino baixou assustadoramente.
A medida, recorde-se, foi tomada para poupar, aos cofres do Estado, cerca de 250 milhões de euros, visto que era estimado que cada um dos 50 mil alunos do 9º ano que, em média, reprovava todos os anos, custasse cerca de 5 mil euros.
Fizeram contas a uma poupança imediata esquecendo os custos dessa estupidez no futuro.
Os pais têm, por tudo o acima dito, e muitas mais razões que uma crónica não permite desenvolver, um papel cada vez mais preponderante no acompanhamento escolar dos seus filhos.
Tentemos perceber porque raio é que, actualmente, entre os melhores alunos das escolas portuguesas, de norte a sul, uma enorme percentagem seja de jovens chineses e ucranianos.
Não nos preocuparmos com estas realidades, não pormos a Educação como a grande prioridade do País, vai fazer com que nos afastemos, cada vez mais, dos países desenvolvidos.
Nada que não seja conhecido de todos.
Apesar de tudo, vamos continuar na mesma pela simples razão que nos falta… Educação.
Vítor Ilharco é secretário-geral da APAR – Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
A entrevista que hoje publicamos no PÁGINA UM, conduzida pela Elisabete Tavares, ao jornalista norte-americano Paul D. Thacker, é de leitura obrigatória porque constitui uma peça fundamental para compreender os tempos mais recentes, e sobretudo o papel vergonhoso da comunicação social. Dos jornalistas. De muitos jornalistas. De demasiados jornalistas, daqueles que dirigem órgãos de comunicação social, daqueles que pactuam com as promiscuidades, daqueles que agem por omissão.
A entrevista tem como pano de fundo a Ciência e o sector das farmacêuticas, mas incide, e muito, na forma como a comunicação social tradicional se deixou envolver num venenoso abraço, se foi vergando ao “canto da sereia”, e aos milhões, da indústria farmacêutica.
Paul D. Thacker, que tem um percurso invejável, ostentando vários prémios de investigação – um dos mais recentes pela denúncia de conflitos de interesse de conselheiros do Governo do Reino Unido durante a gestão da pandemia (onde já vimos isto?) –, afirma, por exemplo, que “se entrarmos em qualquer livraria encontramos livros sobre o historial de corrupção na indústria farmacêutica; é a indústria que mais multas pagou na História dos Estados Unidos. Mas, a partir de 2015, todas as pessoas que faziam perguntas sobre o sector começaram a ser chamadas de “anti-vacinas”.
E, depois conta, como de repente, deixou de ser possível colocar qualquer questão sobre fármacos e sobre vacinas. “As pessoas que fazem essas perguntas são chamadas de ‘anti-vacinas’. A forma como, nos últimos anos, sobretudo a partir da pandemia, os órgãos de comunicação social introduziram rótulos, deixando de questionar, enquanto se amancebavam com as farmacêuticas, deve fazer-nos reflectir sobre que imprensa temos, já que sobre as farmacêuticas sempre soubemos o que são: empresas com accionistas, que legitimamente querem vender um produto que beneficia os seus clientes mas que estão ali para beneficiar sobretudo os seus accionistas num mercado fortemente concorrencial. Não são, nunca foram a Madre Teresa de Calcutá, e por isso a necessidade de uma regulação independente e de uma comunicação social independente e atenta.”
Não sejamos ingénuos. Sabe-se como a comunicação social e jornalistas sem escrúpulos conseguem “matar” mensageiros que trazem más notícias: silenciamento e difamação. Não foi por acaso que o nascimento do PÁGINA UM, em Dezembro de 2021, foi brindado por um ataque torpe da CNN Portugal (ladeado por Lusa, Expresso, Público e Observador), que “conseguiu” transformar uma investigação jornalística exemplar da minha autoria numa acusação de desinformação de movimentos negacionistas. Ainda hoje a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ) continua a recusar abrir um processo à CNN Portugal por essa canalhice.
Aliás, a CCPJ, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas são bem a imagem, à escala lusitana, da forma como contribuem para a agenda do silenciamento de um projecto jornalístico incómodo como o PÁGINA UM. Por exemplo, não é normal que todos os três processos instaurados pela ERC contra mim tenham sido espoletados por notícias que envolvem pessoas ligadas à indústria farmacêutica, e que duas das intervenções da CCPJ contra mim tenham também o DNA daquele sector. Não surpreende também que eu seja arguido num processo judicial desencadeado pela própria Ordem dos Médicos, pelo seu ex-bastonário Miguel Guimarães e por dois “avençados” pela indústria farmacêutica: o pneumologista Filipe Froes e o pediatra Luís Varandas.
Também a forma como a imprensa mainstream não acompanha nem dá eco das notícias do PÁGINA UM sobre a pandemia e outros escândalos relacionados com fármacos (e não apenas vacinas) mostra bem a outra face da indústria farmacêutica a corromper moralmente a sociedade. Hoje, jamais se põe em causa um fármaco, jamais se fala de efeitos adversos, de más práticas, de manipulação, de corrupção. Paul D. Thacker fala-nos disso, com propriedade, até porque foi afectado por campanhas de difamação, promovidas por agências de comunicação e pela própria imprensa mainstream.
Por isso mesmo, cada vez se mostra menos concebível a dependência financeira que grupos de media internacionais e portugueses – por exemplo, a Impresa, a Global Media e o Público, só para citar alguns – têm hoje da indústria farmacêutica, e que coloca sérias dúvidas sobre a independência da informação quando o tema são fármacos.
Não encontramos, hoje, nenhum órgão de comunicação social generalista de grande dimensão que coloque em causa medicamentos (incluindo vacinas) das farmacêuticas; pelo contrário, hoje a comunicação social constitui um veículo de excelência para as farmacêuticas criarem lobby em conluio com “especialistas” associadas a dependentes sociedades científicas, através de eventos e mesmo notícias. Concretizarei ainda mais esse tema muito em breve.
Urge, nesse aspecto, que o Infarmed – essa entidade, que parece andar mais a proteger a indústria farmacêutica e o Governo do que a proteger a saúde colectiva e individual dos portugueses– exerça o seu papel de moralização, obrigando a que sejam revelados, como indica a lei, os montantes envolvidos nas parcerias entre comunicação social e farmacêuticas.
Já seria um começo.
Até lá, uma coisa parece-me evidente: uma entrevista como esta a Paul D. Thacker nunca seria hoje publicada em qualquer jornal de âmbito nacional de Portugal, muito menos com este título: “As farmacêuticas têm um longo historial de corrupção“. E sendo essa uma afirmação verdadeira, e não sendo agora previsível aparecer num qualquer jornal mainstream, isso diz muito da nossa imprensa. E das capacidades das farmacêuticas em influenciar e condicionar a liberdade de informação.
Este último Sábado, 10 de Junho, o Dia de Portugal, lá tivemos mais um “novo escândalo” do regime, proporcionando páginas, vídeos, caricaturas e notícias sem fim acerca do mesmo.
Reza assim o “escândalo”: após o término das comemorações, no momento em que António Costa, o actual primeiro-ministro, e a sua mulher se dirigiam a pé para o local do repasto, no Peso da Régua, foram “incomodados” por uma manifestação de professores, onde alguns empunhavam cartazes com a caricatura de António Costa, retratado como um porco com dois lápis nos olhos.
Com a irritação do momento, envolvendo também a sua mulher, parece que António Costa atirou com a palavra “racista” aos manifestantes. Mais tarde, ao ser interpelado pelos órgãos de propaganda, atirou: “é um direito de manifestação… com melhor gosto, com pior gosto, com estes cartazes um pouco racistas, mas pronto, é a vida“.
Todo o regime rasgou as vestes, numa defesa em uníssono do grande líder; até apareceu um grupo (qual foi o critério da selecção?!) de advogados que nos brindou com esta pérola: “Estamos claramente perante uma situação de discurso de ódio, em que os limites foram ultrapassados”.
Os glosadores do regime, há décadas a comentar a política nacional, logo vieram a terreiro condenar os cartazes. Um deles até afirmava: “Fazem qualquer pessoa decente e de bem, estar do lado do primeiro-ministro e também até do ministro da Educação.”
Reparem, temos as pessoas de bem, exactamente a mesma expressão usada pelo líder da “extrema-direita” nacional: “os portugueses de bem”. Aparentemente, todos partilham da visão maniqueísta da sociedade: há os bons e há os maus. Eles são obviamente os bons.
Para nossa surpresa, parece que apenas houve um dissidente que não tomou as dores do primeiro-ministro: o nosso Presidente da República, o “guardião” da Constituição da República Portuguesa (CRP)! Questionado sobre se as imagens dos cartazes presentes no protesto eram racistas, afirmou que “não ofende quem quer, ofende quem pode“. Sem mais!
Mas, pasme-se, uma das promotoras da actual revisão constitucional ilegal, em que um funcionário administrativo, em lugar de um juiz, pode decretar a prisão domiciliária do cidadão, ignorando as restrições impostas pelo artigo 288 da CRP, veio insurgir-se contra as palavras do Presidente da República: “Marcelo jurou defender a constituição, o que é algo objectivo. Defender os valores objectivos da constituição passa por não os desvalorizar em função de uma aparente avaliação subjectiva do caso e que passou a ser o caso de Marcelo. O caso chama-se racismo e prejudica todos.”
É hilariante o apelo ao respeito pela CRP quando se ignorou, ao longo dos últimos três anos, os atropelos à mesma, incluindo o próprio Presidente da República.
Para além de cartazes “racistas”, também consideraram que os manifestantes promoviam o “discurso do ódio”!
Quem não se recorda do artigo de uma das apaniguadas do regime, intitulado “E agora, o que fazer com os chalupas?”, para além de se arvorar em cientista – “…hidroxicloroquina e ivermectina, fármacos comprovadamente ineficazes” –, também libertou o seu fel nos não vacinados: “É, pois, preciso consequências, imediatas, rápidas e duras”. Ou quando no seu Twitter chamava os não vacinados de “calhaus”? Alguém se indignou com este claro discurso de ódio? Não me parece.
A associação de políticos a animais é algo que vem de longe. Quem não se recorda da caricatura “Política: a Grande Porca”, desenhada por Rafael Bordalo Pinheiro no início do século XX, em que este associava a política a uma grande porca que amamentava uma ninhada de bacorinhos, cada um deles representando partidos políticos e os seus membros, identificados por siglas nos respetivos traseiros.
Quem não se recorda do livro “O Triunfo dos Porcos” de George Orwell, publicado em 1935, em que Estaline era satirizado através de um porco chamado Napoleão, o vilão da história, e Trotsky pelo porco “Snowball”?
No início do presente regime, quem não se lembra da crítica mordaz do grande mestre e já falecido José Vilhena, em que este representava Mário Soares, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral e Francisco Sá Carneiro como galinhas a receberem o milho de uma cesta com a legenda FMI, na primeira das três bancarrotas do actual regime socialista?
Ou, mais recentemente, quem não se recorda de ver o líder da “extrema-direita” nacional ser representado como um sapo, publicado num blog da “extrema-esquerda”?
O que dizer do agora “ofendido” primeiro-ministro, quando este apelidava os membros de outro partido político de “queques que guincham”? Para além de animais, estavam histéricos.
O que me parece é que o regime alimenta de propósito estas polémicas frívolas, com o intuito de nos fazer esquecer os temas essenciais. E são muitos, mas importa não os discutir.
Ocorreu alguma discussão sobre o envelhecimento do corpo docente das escolas, mal pago e sem prestígio social, de que outrora gozava? Não, apenas temos de apurar se os seus cartazes eram ou não racistas; se o primeiro-ministro foi ou não vítima da sua fúria.
Não importa discutir a inflação galopante, e que está a obliterar o poder de compra das classes com rendimentos fixos, sem nunca discutir sua verdadeira origem: o Banco Central Europeu. Não se discutem igualmente as causas da actuação em cartel por parte da banca comercial, que há décadas remunera os aforradores abaixo da inflação. A política do Banco Central a este respeito é discutida? Não.
Também não se discute a prática de reservas fraccionadas da banca, a maior responsável pela inflação que vivemos, em que se lhes permite imprimir dinheiro, algo vedado ao comum dos mortais.
Não importa discutir o caminho a que o Ocidente está a ser conduzido, em particular para um governo mundial, controlado por multimilionários não eleitos, numa espécie de regresso ao feudalismo. Alguém discute a permanente perda de soberania da maioria dos Estados-Nação a favor de instituições globais não eleitas, controladas por estes senhores?
Ninguém logra associar a presente revisão constitucional ilegal, com o acordo dos dois principais partidos socialistas (que nos dizem ser oposição um do outro!), com a aprovação do novo tratado pandémico da OMS. Alguém discute esta nova perda de soberania, em que indivíduos não eleitos e financiados pelo Sr. Gates podem determinar se um cidadão pode ou não viajar, se tem ou não de carregar uma fralda facial a toda hora?
O que dizer da adopção pela Organização Mundial de Saúde do certificado digital da União Europeia (UE) e que permitirá controlar todas as nossas viagens ao estrangeiro? Passará a ser obrigatório em conjunto com o passaporte? Seremos obrigados a inocular-nos com todas as substâncias experimentais produzidas pela indústria farmacêutica? Bem que o ex-primeiro ministro do Reino Unido, Tony Blair, nos tinha avisado há uns meses de que múltiplas inoculações estavam a caminho e que eles precisavam de saber quem as tinha tomado!
A identidade digital junto com as novas moedas digitais dos bancos centrais (central bank digital currency, ou CBDC) serão o nosso Gulag.
Enquanto isso, a agência nacional da propaganda dizia-nos que tudo isto é para o nosso bem, tudo idílico, tudo romântico, pois “ajudará a facilitar a mobilidade global e a proteger os cidadãos de todo o mundo contra as ameaças à saúde actuais e futuras”. Não menciona qualquer crítica às palavras dos poderosos, apenas uma transcrição. Os jornalistas limitam-se a escrever o que os seus mestres ventríloquos lhes ditam.
Recordemo-nos que o certificado digital da UE nos foi vendido com base numa mentira, que se sabia desde o início ser uma mentira, isto é, que as inoculações experimentais covid-19 não evitavam a transmissão do vírus nem a infecção.
Assim, o tal certificado, para além de ser uma ferramenta de segregação, de discriminação absurda, própria de um regime nazi, não certifica absolutamente nada. Então por que razão esta terrível ferramenta de controlo continua a fazer caminho, sem qualquer oposição ou discussão nos órgãos de propaganda?
O que dizer da actual ditadura fiscal, em que os Estados assaltam praticamente 50% do nosso rendimento, eliminando a liberdade económica, essencial à prosperidade do mundo Ocidental? Hoje, recrutados aos milhões para reguladores, polícias, inspectores, revisores, auditores, temos na verdade uma pletora de agentes que nada produz, apenas nos incomoda e nos persegue. Serve apenas para perseguir e condicionar a actividade económica. Alguém as discute, em particular o seu efeito devastador sobre a prosperidade económica?
O que dizer de toda a soberania entregue à UE, em que o parlamento nacional nada decide, limitando-se a transpor a legislação imposta por um corpo de burocratas não eleitos, impondo custos e burocracias sem-fim às pequenas empresas?
Por fim, ninguém discute a ordenação ESG (Environmental, social and corporate governance), uma ferramenta que irá permitir às grandes empresas e reguladores eliminar os pequenos negócios, retirando-lhes energia barata, através dos combustíveis fósseis, condicionando-lhes as contratações, onerando-os substancialmente e obrigando-os a expor todos os seus segredos empresarias, em nome da “transparência”. Um dia destes, sem uma boa pontuação ESG ninguém terá acesso a crédito.
Estas realidades nunca são objecto de discussão, apenas as polémicas da grande porca e os seus leitõezinhos.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
Passam hoje 6.339 dias desde o momento em que aterrei na Suécia para dar início a uma vida de emigrante. Ou, por outras palavras, passam hoje 6.339 dias desde o dia em que perguntei quando voltaria. Como quase todos, saí de Portugal com a teoria dos dois anos bem presente.
O que é a teoria dos dois anos, pergunta o leitor? É uma mentira que contamos à família no momento da despedida. “Vamos apenas por dois anos para ter a experiência… e depois voltamos”. É uma mentira tão boa que até nós, os que embarcamos para um país diferente, acreditamos nela.
Os dias foram passando e, como é fácil de perceber, ao fim de 730, dois anos portanto, não regressei. E por cada 365 que passavam, mais difícil era esse regresso.
Uma das coisas que sempre achei estranho foi a ligação a Portugal, que teimava em desaparecer. É normal que, ao fim de algum tempo, o emigrante se vá desligando da realidade que deixou para trás e se vá inteirando daquela que, entretanto, conheceu. Não foi o meu caso.
Quer dizer, embrulhei-me na realidade sueca e na forma como a sociedade funciona, mas não deixei de ouvir notícias de Portugal por um dia que fosse. Percorri o país de norte a sul, fiz questão que conhecer toda a Escandinávia, subi montanhas e experimentei mares diferentes. Votei sempre nas eleições locais e procurei entender a base social em que assenta este país. Mas os acontecimentos que me incomodavam, as notícias mais marcantes, as fontes de preocupação vinham sempre da realidade portuguesa.
Ia para o trabalho com a TSF ligada, limpava a cozinha com o jornal da noite no ar e pedalava com um podcast qualquer de debate. A cada regresso, em conversas com familiares e amigos, notei, por vezes, que sabia mais do que por ali se passava do que eles que nunca tinham saído do mesmo bairro. Essa necessidade de saber a realidade lusa fez-me perceber que não conseguiria desligar-me de Portugal.
Ao contrário do que se possa pensar, manter este laço com o país de origem não torna a emigração mais fácil. Faz-nos pensar, repetidas vezes, afinal o que fazemos aqui.
No caso da Escandinávia é mais ou menos fácil perceber a dificuldade de aceitar o regresso. Basta consultar qualquer tabela de desenvolvimento social para compreender que esta zona do globo está naquilo a que convencionámos chamar o mundo civilizado.
A base social assente em impostos progressivos permite que o país seja dotado de um sistema público de saúde e uma educação verdadeiramente universal. Gratuita desde o primeiro dia na creche até ao último dia da universidade. Classes profissionais separadas por pequenos degraus onde, por exemplo, o fosso entre um gestor de empresa e um canalizador não permite que algum deles viva na pobreza. Uma Economia assente num sector produtivo tão grande que nunca há gente suficiente para preencher as vagas.
Atravessei duas crises mundiais por aqui, com milhares de despedimentos. Lembro-me de ao fim de seis meses já estar tudo em ritmo de “business as usual” enquanto mais a sul demoraram anos a reerguer.
É, de facto, difícil largar uma realidade onde a sociedade civil funciona, as regras são cumpridas e as oportunidades são mais do que muitas. Ninguém enriquece a trabalhar por aqui, mas também ninguém volta a olhar para o saldo. É uma realidade que ouço de vez em quando na boca de outros emigrantes.
O problema é a outra parte. Os afectos, as relações, a proximidade, o contacto. Aquele calor humano, a espontaneidade, o improviso, a alegria não planeada. Todos os ingredientes que nos fazem latinos. O sol, o céu azul, o mar com ondas, a gastronomia. Enfim, não ter que pensar no que se diz quando se misturam três línguas diariamente.
Num destes dias, disse-me o meu filho, nascido aqui, que depois de acabar a escola queria sair da Suécia. Perguntei porquê, afinal, esta é a realidade que ele conhece e de onde nunca pareceu interessado em sair. Disse-me que quando a vida académica o separasse dos amigos que o acompanham desde a creche, qual seria o sentido de passar a vida num sítio gelado?
Realmente… Para ele isto é um sítio gelado onde tem os amigos. Não é um país de primeiro mundo que por acaso também é gelado.
Ele não tem termo de comparação e, ainda assim, todos estes anos com meses passados em Portugal, já o fizeram perceber que a vida pode ser mais simples noutras latitudes. Pelo menos aos olhos de uma criança que depende das relações humanas e, ainda não, de um emprego.
Durante estes anos, perdi a conta às pessoas que ajudei a vir para aqui, a arranjar um primeiro emprego, o primeiro alojamento. A todos disse, quando me perguntaram, que a emigração não era um el dorado. Ao contrário do que o Passos Coelho disse, não chega ter uma Europa sem fronteiras e com livre circulação.
Ninguém, absolutamente ninguém, deveria ter necessidade de sair do sítio de onde nasceu à procura de melhores condições de trabalho. É uma violência da qual nunca recuperamos e é uma fatia da vida que, por muitas coisas boas que nos traga, leva invariavelmente uma boa parte da alma.
O tempo que perdemos com a família e amigos. Os momentos em que aparecemos no vídeo numa mesa recheada de caras conhecidas. As semanas de solidão que atravessamos nos invernos que parecem não ter fim.
Hoje, ainda coloco questões. Voltaria a fazer tudo de novo? Sim. Não sou um emigrante mal-agradecido ao país de acolhimento. Todo o reconhecimento profissional que obtive, devo-o à Suécia. A vida que é proporcionada à minha família, devo-o à Suécia. As oportunidades que os meus filhos têm hoje e o conhecimento que têm do mundo, devo-o à Suécia.
Provavelmente, poderia ter sido mais fácil. Certamente ter-me-ia dado jeito alguma ajuda no início do processo.
Mas sim, voltaria a fazer este caminho, passando pelo mesmo sofrimento, sabendo que poderia dessa forma ajudar a minha família.
De há uns anos a esta parte, venho dizendo aos que me estão mais próximos que está na hora de voltar. Normalmente, ouço um “deixa-te estar lá que estás bem, aqui não há nada”.
Discordo. Aí está praticamente tudo o que importa. Aos 46 anos, e 6.339 dias depois, o ciclo fechou.
Vou para casa. Agora.
Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
Gotas de chuva como pingos de mel dourado, caem em raios de luz, e eu juro que o céu, ao descer de Trancoso, indeciso entre a Primavera e o Verão no crepúsculo do fim do meu dia, parece desabar-se em cascatas de algodão, incandescente, que fazem até acreditar no divino, ou em galopadas furiosas de quadrigas romanas pertencentes a uma classe superior de seres – se olhar cá para baixo, podem, num respingo, alumiar ou ensombrar tudo o que nos sustém.
O carro mantém a rota a serpentear por asfalto, agora lambido por um rio de ouro líquido, fino, singelo.
Penso talvez que, assim, as cerejas ganharam viço, mas e ai que boas que estavam – e que importam os bonecos a papaguear nos ecrãs que o fim está próximo, alterações e climáticas e patati patatá!
Calem-se diacho!
Já todos entendemos que querem é fechar o país, porque vem aí o calor, e temos todos que fingir que os incêndios não são um negócio, e isto há já décadas.
Agora, aquilo que está a dar é fingir ser tudo pelo nosso bem (patati!), pedir licença de porte de isqueiro para não chegar fogo à mata e não fumar para não chegar fogo aos pulmões (patatá!), que isto de viver num estado totalitário será coisa a estranhar devagarinho e depois entranhamos, que remédio!
Mas as gotas de chuva como mel continuam a correr, quando tem de mesmo de ser, e sinto-as como quem atravessa uma tempestade de cometas rasgando o dia… Ou a noite.
Tenho saudades de Arraiolos. Tenho de ir derreter ossos nortenhos por lá, até porque já fazem falta as migas. Vou pela estrada fora, e continuarei a seguir até lá, é sensato procurar o calor, ao contrário do que me diz a televisão, que cresceu, duplicou e alastrou pela parede da sala, que nem bolor negro, tóxico, intrusivo…
Mariana Santos Martins é arquitecta
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
Demonic males: uma longa série sobre o masculino, com torrentes de detalhes, exactamente como as pessoas daqui fazem quando lhes perguntamos onde ficam os correios – Episódio 4
Inicialmente, poucos biólogos levavam a sério a ideia da violência inter-específica. Existia tão pouca evidência de animais a matarem outros do seu mesmo grupo que se presumia que assassínios destes só ocorriam quando qualquer coisa corria mal – os jardins zoológicos estavam sobrelotados ou mal equipados, ou havia um acidente resultante de erros humanos. A ideia combinava-se perfeitamente com a visão da ordem natural das coisas dominante à época, segundo a qual o comportamento animal era concebido para o bem de todos. A selecção natural darwinista funcionava como um filtro desenhado com o propósito de eliminar a violência assassina. O assassínio, por suposto inexistente no restante mundo vivo, era um produto evidente das guerras humanas, pelo que havia que aceitar que, num dado momento da sua ascensão ao poder, o Homo violara as regras da Natureza ao tornar-se sapiens[1]. Aos olhos dos cientistas, os primatas assassinos, tal como os assassinos em qualquer outro grupo animal[2], não passavam de uma fantasia dos romancistas até à década de 70.
Richard Wrangham e Dale Peterson
DEMONIC MALES: APES AND THE ORIGINS OF HUMAN VIOLENCE (1996)
Já ficámos a saber que a violência doméstica entre os chimpanzés é de tal ordem que muitas das fêmeas agredidas chegam a morrer em consequência. Resta acrescentar que o chimpanzé também não se ensaia nada de formar um grupo de comandos que caminha pela savana vários dias até chegar à família mais próxima, a cercar discretamente, esperar pela primeira vítima desprevenida, atacar em massa com grande estridência, gerar o caos e o pânico, matar tantos machos quantos possível e violar todas as fêmeas capturáveis, que depois são arrastadas de volta ao grupo guerreiro e entregues para o resto da vida ao marido que eles lhe escolhem.
É um cenário bastante familiar, ou não é?
Os primeiros confrontos entre as primeiras tribos humanas não hão de ter sido muito diferentes disto, incluindo a boçalidade com que cada vencedor trata a fêmea a quem conseguir deitar as unhas.
Há muito quem argumente que nós não somos mais do que um outro grande primata. E, assim sendo, é evidente que vale mesmo a pena continuar a usar a vida nesta cidadezinha em termos de microcosmos demonstrativo de como o demónio se aloja profundamente dentro da essência masculina.
Devo dizer que, entre os 16 e os 19 anos, enquanto ainda não tinha idade e depois ainda não tinha dinheiro[3], andei muito à boleia pelo País inteiro. Tudo o que era homem sozinho[4], fosse qual fosse o seu veículo, ao fim de um bocado tentava a sua sorte. Eu dizia “NÃO!”, o homem em causa respondia “Está bem, está bem… mas tens que ver, se eu não tentasse era parvo, não achas?”, e a viagem seguia amena, sem mais sobressaltos.
Até que cheguei ao Alentejo.
Nos seis meses da minha primeira experiência corria o ano da glória de 1978, e estávamos todos em pleno PREC – o que quer dizer que, para aquelas bandas, estavam todos em plena Reforma Agrária. Num cenário destes, o que é que espera uma revolucionariazinha de dezoito anos? Oh, aquele seria sem dúvida um povo equalitário e solidário, educado e estudado, enfim: não era certamente dos camionistas daquelas estradas que eu esperava ouvir dizer “a gente damos boleia mas nã damos de graça, óvistes?”, ou “isto pra nós tudo o que tá à beira da estrada é gado”, e outros insultos abertamente insultuosos, e visivelmente perigosos. Não era no Alentejo que eu alguma vez imaginaria que ia acabar ao murro com um motociclista de FAMEL e penico que ficou a bradar impropérios do pior com uma roda torta no caminho de terra por onde tinha tentado desviar-se comigo.
Mas enfim, tinham passado quarenta anos. Estou no Alto Alentejo, e não no Baixo Alentejo[5], como antes. De certeza que as coisas, agora, já não são assim.
Família de chimpanzés depois de uma caçada, apanhada a empanturrar-se de carne de gazela. É verdade que nós, os Pan troglodytes, temos por hábito ser herbívoros. Mas isso não implica que sejamos necessariamente estúpidos. Sempre que matar não seja dispendioso em termos de energia, e não implique correr grandes riscos pessoais, a caça é uma forma perfeita de garantir quantidades substanciais de comida de alto valor proteico e de grande especial riqueza calórica. Nada que aliás vocês não saibam, ó seus humanos voyeurs que andam sempre a espiar-nos.
Bastava-me esquecer o motociclista da FAMEL e da luta ao murro. Esse piolhoso era de Estremoz, onde eu estava a pedir boleia para Portalegre.
O primeiro sinal que, mesmo no Alto Alentejo, tudo continuava a ser assim, veio do gajo do mercado. Eu nunca o tinha visto mais gordo, e vi-o tão pouco que se me cruzasse agora com ele na rua nem o reconheceria. Tinha finalmente conseguido transportar uma boa quantidade dos meus livros cá para casa, e andava obcecada com a questão das estantes. Naquele dia procurava uma estante especial, forte que chegasse para suportar os meus grandes álbuns de História da Biologia, e suficientemente bonita para ficar mesmo ao cimo da escada.
E não é que encontrei isso mesmo? Era uma estante linda, que parecia um coreto todo feito em ferro forjado. Como acontece com frequência no mercado, comprei-a por tuta-e-meia, feliz da vida.
O pior foi começar a carregá-la dali para casa num dia de calor vingativo. Eu não transportava outros pesos, mas tinha que parar o tempo todo para limpar o suor dos olhos. Ora, vendo-me fazer todo aquele esforço, um senhor simpático que estava ali à conversa com outros senhores veio oferecer-se para carregar a estante por mim.
“Eu fico-lhe muito agradecida, mas a minha casa ainda é ali no Anónimo[6]. Eu posso é segurar à frente se o senhor segurar atrás, já ajudamuito” – “Ora, menina, eu sei muito bem onde fica a sua casa, ponho-lhe lá a estante num instantinho” – “Mas com este calor...”
O senhor sorriu, pôs a estante de ferro em cima do ombro, e começou a andar rumo à minha casa. À época ainda me enervava um bocado toda a gente saber onde era a minha casa, mas enfim. Também não deve ser todos os dias que uma menina vem viver para o centro histórico de Estremoz. E, de facto, ainda nem eu tinha acabado de pensar tudo isto e já estávamos à porta de casa.
“Pronto, deixe aqui em baixo que isto ainda são dois andares sem elevador, logo à noite, pela fresquinha, eu peço ajuda às minhas amigas e levamos a estante para cima” – “Ah, não, por favor, eu sei que a menina mora no segundo andar, ponho-lhe já lá a estante e pronto.”
Bem… se por “e pronto” se entender “e assim que a pousar eu estendo os braços e apalpo-a toda, em todos os sítios onde conseguir apalpá-la”, foi de facto isso mesmo que o senhor simpático tentou fazer. O que quer dizer que, acto contínuo, lhe espetei com um bruto pontapé naquele sítio que faz doer muito aos senhores, ao mesmo tempo que proferia, de forma tranquila mas autoritária, “saia já daqui seu[7]”, enfatizado por um empurrão nos olhos[8], o que acto contínuo fez o senhor simpático cair de costas pela escada abaixo.
Tinhoso.
As minhas amigas dizem que estas coisas me acontecem, mesmo com uma idade tão adiantada, porque uma pessoa como eu devia ter um marido, e a ausência dessa entidade representativa do poder na vida em sociedade é tão grave que perturba até os homens mais lutadores.
Ou seja, e como escreveu o grande Mao Zedong, “O poder cresce sempre no cano de uma arma[9].”
(continua)
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora
[1] Veja-se a história da serpente, de Eva, da maçã, de Adão, da fúria de Deus, da expulsão do Homosapiens do Jardim do Paraíso, onde o arcanjo Uriel ficou à porta com uma espada flamejante para que nenhum ser humano pudesse alguma vez voltar a entrar. Não é ciência, como toda a gente sabe. Mas há que admitir que é um pressentimento fantástico.
[2] Bom… e tal como as plantas carnívoras, ou tal como muitos peixes, incluindo as orcas e os tubarões. Para não falar da raivosa e inolvidável Moby Dick, mas lá está – fantasia de romancista.
[3] Primeiro para tirar a carta (diga-se em abono do meu estoicismo que passei neste exame uma hora depois de ter passado no exame de Cálculo 2, sem dúvida a mais traumatizante de todas as disciplinas do meu curso, e mesmo no fim do Primeiro Ano, quando a pessoa já se arrastava de cansaço e ainda nem tivera direito de pôr um pé na praia); e depois para comprar o Carocha quatro anos mais velho que eu, onde o nosso colega João Rabaça pintou um noitibó na porta do meu lado, e que, além de fazer toda a Lisboa-Vilar de Mouros com seis pessoas lá dentro à data do primeiro festival, também aguentou dois anos de saídas de campo pelo meio de sapais, e carreiros de terra rumo a praias desconhecidas, até ser trocado por outro ligeiramente mais jovem, exactamente da minha idade e igualmente dado a viajar sem fim. As letras da matrícula eram HB, pelo que o baptizámos com o nome controverso de Herri Batasuna.
[4] A menos que fosse um gajo porreiro, já com um emprego fixo destinado a ajudar a família e pouco mais velho do que eu. Isso era diferente. Conversávamos imenso, falávamos do que é que gostaríamos de fazer quando pudéssemos, ouvíamos cassettes e era costume gostarmos das mesmas músicas, e nenhum de nós acreditava no casamento porque é o género de vida que mata o amor. Fomos uma geração bestial, na qual ainda hoje tenho muito orgulho.
[5] Em 1978, eu estava a aproveitar o segundo semestre daquela interessante experiência que antecedeu o 12º ano e se chamou “ano propedêutico” para ganhar umas massinhas a trabalhar em Aljustrel com os miúdos da telescola. Até esses miúdos tinham aquele olhar alentejano que varre as mulheres de alto a baixo. Foi nessa altura, a ouvir confidência atrás de confidência das raparigas da minha idade que não tinham ninguém com quem falar, que comecei a ter umas ideias, ainda vagas, sobre um romance policial que veio a chamar-se ADEUS, PRINCESA.
[6] AHAHAH. Não, não sou minimamente dada a distracções. Nunca direi onde fica a minha casa.
[7] Parece-me inútil inserir a longa sequência da frase. As escadas são altas, pelo que qualquer vira-lata ainda demora o seu tempo a cair delas abaixo. E eu não me calei enquanto ele não embateu na porta e deu de frosques.
[8] Isto tem a virtude de perturbar a visão, fazer chorar, e em consequência assustar imenso os senhores. Quanto mais os anos passam mais nós vamos aprendendo, não é.
[9] Não, não é nenhuma metáfora de gosto duvidoso. É uma verdadeira ideia de como viver correctamente dentro da colmeia. Resta-nos esperar que o tempo se despache a transformá-la num arquetípico tigre de papel.
António Costa voltou a mostrar nas comemorações do 10 de Junho como é que se consegue atravessar a turbulência dos casos da TAP, escândalos de ministros desde os tempos do Cabrita, uma pandemia, uma guerra, pobreza crescente, inflação descontrolada, taxas de juro altíssimas e famílias desesperadas e, ainda assim, manter o cargo de primeiro-ministro durante sete anos.
Este foi o homem que chegou à liderança do PS depois de António José Seguro atravessar sozinho o deserto e, em eleições nacionais, o que formou Governo sem ser o mais votado (felizmente, acrescento eu aqui).
Portanto, meus amigos: António Costa é hábil, político de corpo e alma (para o bem e para o mal) e pensa as jogadas uma semana antes dos oponentes.
Naquelas tristes comemorações do Dia de Portugal destacam-se sempre três coisas: discursos aborrecidos com recados que não servem para nada, a quantidade de latas velhas que a cada ano vai desaparecendo do desfile (positivo) e o barómetro de popularidade aos políticos em funções.
Marcelo, o habitual rei do “não chove nem molha” recolheu o apoio popular, Galamba foi o alvo-mor dos apupos e não há quem perceba como é que este homem ainda é ministro. Costa andou no limbo, teve que suar pelo voto e… safou-se.
Fez questão de andar a pé com a mulher no meio dos professores descontentes e enfrentou-os. Certamente ia preparado para isso, mas a paciência com que falava e era interrompido (ou insultado) sem perder a calma, mostra que nada lhe acontece por acaso.
Deixou os jornalistas apanharem o teor das conversas com alguns professores que o apertaram e tinha as medidas do descongelamento das carreiras na ponta da língua. Costa é um rapaz que se prepara.
Um grupo mais restrito de professores fez-lhe o favor de o insultar com cartazes de muito mau gosto e índole racista. Meus amigos: numa luta onde a razão está toda do lado dos professores, dar tiros de pólvora seca com uns cartazes que até ao Chega envergonhariam (ou talvez não), é fazer do Governo um alvo de simpatia popular. Com este tipo de pensamento tão limitado e uma visão tão reduzida da realidade, espero que nenhum daqueles professores dê aulas de história. Seria uma verdadeira catástrofe.
A Fenprof afastou-se deste grupo de professores e traçou a linha da decência. E fez bem. Na luta pelos direitos laborais, ou em qualquer luta, não se usam argumentos racistas. Se o fizermos a causa está perdida antes sequer de começar.
Até que chegou o momento Luísa Brandão. Uma professora que fez 120 km para se meter na fila das selfies.
Chegada a sua vez, disse que não queria fotografias mas sim ser ouvida. Falou das suas preocupações e de tudo o que ia para lá dos salários, nomeadamente a vertente pedagógica e a falta de condições em que os professores trabalham.
Costa ouviu, debateu, argumentou e sacou o golpe de génio: prometeu, em frente a um batalhão de jornalistas, que lhe ligaria para discutir aqueles temas e ainda lhe pediu o número de telefone, escrito num papel para que em redor ninguém ficasse com ele. É o tocar no chão e meter-se ao nível dos problemas de cada um de nós. É o ganhar a simpatia entre quem o insulta. Saiu entre sorrisos e boa disposição.
No dia seguinte poucos falavam do “momento Galamba” do discurso do presidente da República (quando disse que era preciso cortar alguns galhos estragados) e muitos contavam a história de Luísa, a professora da Póvoa de Lanhoso, que saíra de casa com a convicção de que chegaria à fala com o primeiro-ministro.
Em princípio, ninguém se lembrará de confirmar, daqui a umas semanas, se Costa efectivamente lhe ligou mas, naquele dia, o ódio ao Governo caiu em Galamba, a indiferença em Marcelo e Costa, uma vez mais, passou pelos pingos e saiu em ombros.
Anselmo Crespo dizia na CNN que por muito mau que seja o Governo, as pessoas olham em redor e pensam nas alternativas. Ventura e Montenegro. Montenegro e Ventura. É pouco, muito pouco. Costa mete-os no bolso com duas ou três Luísas.
A direita ainda se arrisca a perder as eleições mais fáceis da história.
Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
A covid-19, doença chegada de um mercado chinês sob transmissor ainda pouco claro, apesar de se terem massacrado milhões de visons, e acusado pangolins e morcegos, acabou por decreto.
Já não há doença! Ontem havia, mas agora não!
Destruídos milhões de negócios e empresas, desequilibrado o padrão mundial de comércio e chegado à mortalidade cataclísmica de 4,1 milhões de pessoas em três anos de desgraça. Os valores são crus e frios, não têm família, não gozam de emoções, e por isso, em 2019 só de doença cardiovascular morreram 9 milhões de pessoas no Mundo, mais do dobro de toda a crise covid-19. Estes números crescem a cada ano, e por isso, nos anos sob a ditadura pandémica, morreram 21 milhões de pessoas de doenças cardiovasculares e Doença Pulmonar Obstrutiva. Muitos milhões morreram de cancro e vários milhões de fome e outras infecções.
O que aprendemos da covid-19? Primeiro, que matava muitos idosos, e sobretudo aqueles que frequentavam residências, lares e cuidados continuados. Os idosos nas suas residências, autónomos, em seus lugares ficaram para contar a história do tempo em que ninguém os visitava, em que os plastificaram, em que lhes falavam com acrílicos de permeio.
Os lares, os lugares onde a concentração de idosos era maior, tiveram grandes dificuldades em conter o vírus. Nem as medidas mais fascistas, o desrespeito constitucional do direito à liberdade, a presença de escafandros, as desinfecções de mãos, pés e boca, contiveram o SARS-CoV-2.
Então, países como a Suécia, a Dinamarca, introduziram uma discussão sobre os lares, as medidas de envelhecimento saudável, a opção autónoma, independente, o reforço do pensamento de que a nossa casa é um castelo defensivo.
Os idosos amontoados são uma bênção das epidemias, são uma selva seca onde nasce a chama. A opção pode ser investir nos domicílios, subsidiar a colocação de polibans, a colocação de suportes de mobilidade, a educação e formação para exercício, o apoio aos familiares que cuidam.
Portugal foi numa via diferente. Portugal, através das suas cabeças extraordinárias, vai lançar mais cinco mil camas de cuidados continuados. Portugal vai ajudar a concentração, para preparar o cenário da próxima gripe, da próxima legionela, do SARS-CoV-3.
Por vezes, vou ao espelho e digo dez vezes que sou eu que não entendo, sou eu que sou estúpido, sou eu que ignoro os factos.
Depois, vejo os jornais, pesquiso e encontro números que demonstram como esta solução tem sido uma tragédia e uma indignidade. São imperdoáveis os dois anos de cárcere a que se votaram os idosos. O resultado foi que neles se deram as maiores taxas de mortalidade da covid-19 – aqui e noutros países.
Envelhecer é uma programação, tem uma logística própria, tem uma previsibilidade – não podes envelhecer e ficar sem acesso à tua casa. Não podes deixar-te num prédio sem elevador até à perda da locomoção.
A nossa existência pode ser pensada com antecedência e o nosso envelhecimento deve ser equacionado e preparado. Claro que há instituições pensadas com sofisticação, com elevação, onde se encontram momentos muito agradáveis, actividades importantes para o bem-estar e a manutenção de tarefas.
Claro que há famílias limitadas nas opções, porque a vida é um tractor sem sentimentos, que nos lavra as vontades e desejos. Estúpido mesmo é optar por mais este serviço político de distribuir umas camas de cuidados continuados que vão ter custos de manutenção a ultrapassar os mil milhões. O investimento nos votos continua até que uma bancarrota regresse.
Diogo Cabrita é médico
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.