Categoria: Opinião

  • O mau vinho do David Marçal, os maus fígados do Público e a má vontade contra o PÁGINA UM

    O mau vinho do David Marçal, os maus fígados do Público e a má vontade contra o PÁGINA UM


    Há quem confunda ciência com religião, e divulgação científica com catequese. David Marçal, com crónica residente do Público, é um desses casos paradigmáticos — um personagem que, nos últimos anos, foi entronizado por certa comunicação social como uma espécie de sumo-sacerdote da “boa ciência”. Não se sabe bem por que méritos — talvez por ubiquidade mediática, talvez por conveniência ideológica —, mas o estatuto de “voz da razão” que lhe atribuíram sempre me pareceu suspeito. E digo “suspeito” porque a ciência, quando é ciência, é essencialmente dinâmica, provisória e contestável. Aquilo que é dogmático não é ciência: é fé travestida de método.

    Assisti de perto a essa ascensão mediática de David Marçal, sobretudo durante a pandemia. O seu discurso moralizador sobre a desinformação — que confundia divergência com heresia — encontrou paralelo apenas no seu próprio dogmatismo e na sua ânsia persecutória contra qualquer visão que não seguisse o catecismo sanitário dominante.

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    Foi ele um dos zeladores do pensamento único, caricaturando posições racionais e prudentes sobre o impacto social e económico da pandemia, como se só houvesse uma forma legítima de pensar em tempos de crise de saúde pública. Esqueceu-se de que uma crise de saúde pública — ao contrário de uma emergência sanitária — exige complexidade, ponderação e, acima de tudo, debate que não se restringe à ciência do momento.

    Não foi por acaso que, ao longo deste ano, voltei a cruzar-me com o “paradigma Marçal”. Em Março, escrevi O pedantismo cientifista de David Marçal, sacerdote da Verdade Absoluta, onde mostrei como a sua análise sobre o sarampo nos Estados Unidos era um exercício de viés ideológico: apontava o dedo ao “negacionismo” americano, ignorando olimpicamente que surtos mais graves ocorriam na Europa — em países como a Roménia, a França, a Itália ou a Holanda. Era a velha arte de escolher os factos que servem a tese e de omitir os que a desmentem.

    Meses depois, em Julho, publiquei O dogmatismo ‘científico’ e a desinformação: o paradigma David Marçal, porque, numa nova crónica no Público, ele voltou a exibir a mesma rigidez moral: denunciava as falhas do cidadão comum, mas calava os erros das instituições científicas, dos especialistas mediáticos e dos organismos internacionais — como se estes fossem infalíveis. Essa omissão não é inocente: é uma forma subtil de manipulação. A meia-verdade, como se sabe, é sempre mais perigosa do que a mentira.

    David Marçal

    Mas o clímax desta história chegou há duas semanas. Depois de publicar, no Público, uma crónica intitulada Beber vinho é dar cancro a muitos portugueses — um texto que é um monumento de sensacionalismo sob a capa de cientificidade —, decidi analisá-lo linha por linha, desmontando os exageros, as simplificações e a retórica alarmista. O resultado foi o meu artigo Não andar a beber vinho (provavelmente) transformou o David Marçal num mau divulgador de ciência, publicado no PÁGINA UM no passado dia 19. A minha crítica, sustentada com referências científicas, teve mais de 50 mil leituras, segundo o Google Analytics. Para que o confronto de ideias fosse leal – ou seja, os leitores do PÁGINA UM conhecessem o texto visado –, não apenas coloquei a ligação para o site do Público como, por ser artigo pago, disponibilizei o texto integral em pdf.

    Além de leal, o meu procedimento foi perfeitamente legítimo e encontra amparo directo no artigo 75.º, n.º 2, alínea c) e h) do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, lei portuguesa que regula a protecção das obras intelectuais, a qual admite expressamente a seleção regular de artigos de imprensa periódica, que não tenha por objectivo a obtenção de vantagem económica ou comercial, directa ou indirecta, ou ainda de trechos para serem usados “com fins de crítica, discussão ou ensino, e na medida justificada pelo objectivo a atingir”.

    A transcrição integral pareceu-me, portanto, justificada e necessária – e mesmo adequada para protecção das posições de David Marçal. Se transcrevesse apenas trechos, colocar-se-ia em dúvida se eu não teria apagado alguns por conveniência. Seria impossível discutir com rigor o conteúdo sem o reproduzir na íntegra. A crítica, para ser honesta, precisa de todo o contexto — e o contexto, neste caso, era o texto completo. Os visados deveriam ser os primeiros a reconhecer tal propósito.

    Além disso, não houve qualquer exploração comercial — directa ou indirecta. O PÁGINA UM é, como se sabe, de acesso livre, não tem publicidade, nem paywall, nem assinaturas. Incluir o texto do David Marçal não gerou qualquer vantagem económica e aquilo que sempre esteve em causa foi o exercício da liberdade de imprensa e de crítica, garantido pelos artigos 37.º e 38.º da Constituição da República Portuguesa.

    Presumo que isto tenha incomodado — e muito — o Público e o Dr. Marçal.

    Aquilo que para mim era um confronto legítimo de ideias, um exercício de crítica jornalística com base em factos, passou, para o Público (e presumo para o próprio Marçal), a ser tratado como uma “usurpação de direitos de autor”. E nem sequer se deram ao trabalho de pedir esclarecimento, mandaram logo uma ‘bazuca’: recorreram à Visapress — uma cooperativa de defesa de direitos autorais cujo conselho de administração inclui, curiosamente, uma administradora do próprio Público.

    Alegaram que a reprodução integral do texto de Marçal violava direitos de autor – e pacientemente expliquei o meu entendimento e, depois da troca de diversas longas mensagens, pedi que me fornecessem os documentos que transmitiam os direitos de autor de David Marçal ao Público no pressuposto que este os tivesse transmitido. E colocava à consideração dirimir esta questão nas instâncias legais.

    Não respondeu a Visapress, mas agiu extrajucialmente por uma via soez. A Visapress não tem sequer uma qualquer validação da sua interpretação por parte da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, nem da Sociedade Portuguesa de Autores, nem da Inspecção-Geral das Actividades Culturais, que é quem detém competência de fiscalização nesta matéria.

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    Não tem, mas o Público, através da Visapress, tem outros mecanismos mais capciosos, e assim identificou e contactou a empresa (estrangeira) que aloja o site do PÁGINA UM, que, de forma cega e burocrática, ameaça agora suspender o PÁGINA UM se não for retirado o texto — como se estivéssemos num regime de censura preventiva.

    Independentemente da resposta jurídica que já fizemos chegar à empresa que aloja o PÁGINA UM, aquilo que mais se lamenta neste episódio é o sinal de intolerância. O Público, e provavelmente o próprio David Marçal, parecem incapazes de lidar com o escrutínio. Confundem crítica com ofensa, confronto de ideias com afronta pessoal. E usa uma questão de lana caprina – que deve ser esclarecida no local próprio, sem ameaças de suspensão de serviços do site do PÁGINA UM – para silenciar um jornal incómodo.

    ‘Ameaça’ da empresa de web hosting de suspender os serviços do PÁGINA UM após a queixa da Visapress.

    A ironia maior é que o Público — esse mesmo que diz defender o “debate público informado” — reaja como uma instituição clerical ferida no dogma. A mesma direcção editorial que, poucos dias antes, sentiu necessidade de apor uma nota final à crónica de Marçal — provavelmente para acalmar os patrocinadores da sua secção de vinhos, Terroir —, não hesita usar uma cooperativa a que preside e a recorrer a meios extrajudiciais e moralmente questionáveis para tentar silenciar um contraditório legítimo.

    Por mim, continuarei a escrever — com liberdade, com documentos e com argumentos. Porque o jornalismo independente – mesmo quando exercido com a aparência de um ‘one man show’ (como depreciativamente escreveu há dias Bárbara Reis, ex-directora do Público Bárbara Reis, sobre o PÁGINA UM) – não existe para confortar os dogmas, mas para os testar até ao limite. E para denunciar deslealdades.

    N.D. Independentemente da resposta da empresa de alojamento do PÁGINA UM, ponderamos mudar o servidor para outra empresa, mesmo com custos mais elevados, porque inaceitável que uma empresa desta natureza, sem sequer auscultar previamente um jornal, e aparentemente sem conhecer a legislação nacional, ameace suspender um serviço que afectaria toda a divulgação do jornal. Este exemplo mostra também como se podem exercer pressões extra-judiciais sobre um órgão de comunicação social independente.

  • Uma democracia que até na música desafina

    Uma democracia que até na música desafina


    Como os velhos rezingões ou as senhoras de missa diária que confundem rotina com virtude, aos 51 anos a democracia portuguesa julga-se amadurecida, mas está apenas apodrecida. Vive de pose e de liturgia, convencida da sua própria perfeição, enquanto o cheiro do bolor se entranha nos alicerces do Estado.

    Temos orientações, leis, regulamentos, decretos e portarias – e, vejam lá, até uma Constituição –, tudo redigido com a solenidade de quem acredita no mito da exemplaridade democrática. Fala-se de princípios de grande democraticidade, de transparência, de escrutínio e de direitos fundamentais. Mas, na prática, tudo se empata, tudo se obstaculiza, tudo se arrasta até ao esquecimento — ou até aos tribunais, que são, por cá, apenas uma forma de esquecimento judicializado.

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    A lentidão da Justiça é apenas uma parte do problema. A outra, mais grave, é a indiferença com que o próprio Estado — ou melhor, aqueles que vivem da máquina do Estado — desrespeitam as decisões dos tribunais. A cultura de impunidade está tão enraizada que as instituições públicas já não se sentem obrigadas a cumprir sentenças. É o “Estado de direito” a gozar consigo mesmo.

    No campo da comunicação social, o retrato não é mais animador. Relatórios internacionais repetem, ano após ano, que Portugal é um dos bastiões da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa. Tirando o facto de não se fazerem prender jornalistas, tudo o resto é balelas. Não há lápis azul porque seria demasiado vistoso. Hoje, são poucos os jornalistas que se podem dizer verdadeiramente livres. A autocensura tornou-se hábito, o silêncio é moeda corrente e a ginástica argumentativa para contornar temas incómodos já é parte do treino diário das redacções.

    Porém, aquilo que mais me impressiona é o desrespeito institucional pela figura do jornalista. Multiplicam-se os casos em que ministérios, autarquias e entidades públicas recusam prestar esclarecimentos, negar documentos ou simplesmente ignorar perguntas. Como se a função política, uma vez conquistada, se transformasse em propriedade privada, imune a qualquer forma de escrutínio.

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    E quando, como faz o PÁGINA UM, os casos chegam aos tribunais administrativos, o cenário não melhora. As instituições mentem, distorcem factos, recorrem a manobras dilatórias e, não raras vezes, incumprirem sentenças com total impunidade. Que o digam a Administração Central do Sistema de Saúde e o Infarmed, exemplos paradigmáticos de como o poder público se protege, contornando a lei e desprezando o dever democrático de transparência. E depois há também os juízes que, a pretexto do excesso de trabalho, empatam processos e aguardam que o tempo passe — e podem ser 34 meses — até serem transferidos, deixando a sua incompetência a salvo do escrutínio.

    Contudo, nos últimos meses deparei-me com outro campo, aparentemente inócuo, onde se expõe a mesma lógica de arbitrariedade: o mundo da música.

    Quando decidi introduzir no PÁGINA UM uma secção de crónicas musicais — note-se, crónicas e não crítica musical, porque os meus dotes não vão além de tocar campainhas —, encontrei um universo de convivências promíscuas e amiguismos que parecem ser regra na esfera cultural portuguesa: os produtores de espectáculos são amigos dos jornalistas, e vice-versa, esforçando-se por agradar mutuamente. Um espelho daquilo que sucede em outros sectores da sociedade, mas aqui feito sem sequer disfarçar. E, portanto, alguns produtores sentem-se livres, perante os órgãos de comunicação social, para concederem ofertas e obterem dividendos.

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    Clarifique-se um aspecto essencial sobre a relação entre os jornalistas e qualquer entidade pública e privada no acesso a eventos com público. O Estatuto do Jornalista, diploma aprovado pela Assembleia da República, confere direitos especiais — acima dos do cidadão comum — em matéria de acesso àquilo que se classifica como eventos públicos. Por princípio, tudo o que for público, no sentido de ser disponibilizado às pessoas, é acessível a um jornalista em funções, sem que sejam colocados obstáculos, incluindo os de natureza financeira. Ou seja, um jornalista não deve pagar para noticiar um evento, nem deve contribuir activamente para que um terceiro beneficie directamente daquilo que escreve.

    Nessa linha, as produtoras e promotoras de espectáculos musicais são obrigadas a conceder acreditação a jornalistas com fins informativos, salvo critérios objectivos de limitação de acesso, devidamente fundamentados. Essa obrigação decorre do mesmo princípio que impõe regras de segurança ou licenciamento — o de garantir o exercício livre da actividade jornalística.

    Iron Maiden: só após uma deliberação da ERC, sob a ameaça de dois crimes (contra a liberdade de imprensa e de desobediência) a produtora Prime Artist permitiu o acesso ao concerto em Julho passado, no Meo Arena.

    Pois bem: em cerca de uma dezena de pedidos de acreditação apresentados pelo PÁGINA UM, duas produtoras recusaram de forma ostensiva o acesso, invocando — directa ou subtilmente — o facto de o jornal não ter publicado notícias prévias sobre os respectivos espectáculos. Ou seja, o PÁGINA UM não servia de plataforma de promoção, logo não merecia entrar.

    Esta visão utilitária da imprensa é, em si mesma, um sintoma grave de degradação democrática. Os promotores culturais tratam os jornais como parceiros de marketing e os jornalistas como influenciadores ao serviço do negócio. E o mais preocupante é o silêncio cúmplice dos órgãos de comunicação social, que aceitam o jogo, beneficiam dele e o reproduzem.

    Por mim, recuso-me a compactuar. E, mais do que denunciar, jdecidi agir. Assim, pela segunda vez em cinco meses, depois de já o ter feito em Junho contra a Prime Artist, apresentei queixa contra a Free Musica na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), a quem cabe fiscalizar o cumprimento desta obrigação legal. Em ambos os casos, as deliberações (aqui, em Junho, e ontem, aqui) confirmaram o óbvio: as produtoras violaram o direito de acesso dos jornalistas e incorrem, se mantiverem a recusa, na prática de dois crimes — um contra a liberdade de imprensa e outro de desobediência.

    Haverá quem diga que tudo isto é uma tempestade num copo de água, que não se justifica tanto zelo por causa de um simples espectáculo musical, que bastaria comprar um bilhete e resolver o assunto. Mas enganam-se. Aquilo que está em causa não é o acesso gratuito a um concerto; é o respeito pelos direitos fundamentais que estruturam uma democracia. Uma sociedade que se habitua a aceitar pequenas arbitrariedades acaba, inevitavelmente, por normalizar as grandes.

    Leprous, uma banda norueguesa de metal progressivo, com concerto marcada para dia 2 em Lisboa e no dia seguinte no Porto: a promotora Free Music acha que pode recusar arbitrariamente o acesso a jornalistas.

    Além disso, o jornalismo nunca pode ser visto como entretenimento. Exerce uma função pública essencial à vitalidade democrática. E quando se começa a condicionar o trabalho de um jornalista — seja num ministério, numa câmara ou numa sala de concertos —, o que se está a corroer é a base do próprio Estado de direito.

    Portugal vive hoje uma democracia de fachada, cheia de normas e relatórios, mas incapaz de garantir o cumprimento das leis mais simples. Uma democracia desafinada, onde os solistas do poder tocam para si mesmos e quem ousa pedir partitura é expulso da orquestra.

  • Orçamento do Estado: um assalto que se renova

    Orçamento do Estado: um assalto que se renova


    Na última terça-feira, o Parlamento português voltou a cumprir o ritual do espólio anual com a serenidade burocrática de quem pratica um gesto de rotina. Foi aprovado, na generalidade, mais um plano de assalto nacional.

    O Partido Socialista, há muito senhor do aparelho de Estado, absteve-se para permitir a aprovação, e a direita parlamentar simulou indignação com a convicção ensaiada de quem, no poder, faria o mesmo. O Chega votou contra, isolado e teatral, mas sem alterar o desfecho de uma peça cujo guião está escrito há cinquenta anos.

    Luís Montenegro, primeiro-ministro.

    Desde a década de setenta que Portugal vive sob o mesmo regime económico: o socialismo fiscal, sustentado por uma máquina que sobrevive de confiscar, redistribuir e endividar-se, enquanto proclama a virtude das “contas certas”. A alternância partidária é apenas a rotação dos administradores de um mesmo condomínio parasitário. Um rouba, o outro confirma, e ambos vivem do trabalho alheio.

    Em nome de nos “oferecerem” estradas, hospitais e escolas, o Estado irá arrancar a cada português em 2026 cerca de treze mil euros por ano, incluindo crianças e idosos – mais de mil e oitenta euros por mês. É o tributo moderno da servidão voluntária.

    Este rendimento, confiscado pela força da lei e pela ameaça de sanções, incluindo prisão, alimenta uma máquina que se auto-intitula benfeitora, mas que não produz nada: apenas redistribui, sempre com perdas, aquilo que primeiro confiscou. É um sistema em que o cidadão já não é o sujeito do contrato social, mas o seu objecto. Sob o pretexto de nos proteger, o Estado ocupa todos os espaços: pensa por nós, cuida por nós, decide por nós – e, por conseguinte, cobra-nos por isso.

    Se o rendimento permanecesse nas mãos de quem o gera, as pessoas contratariam livremente os serviços de que necessitam, escolhendo entre alternativas, comparando preços, avaliando qualidade. Mas não. O Estado impõe-se como mediador universal e monopolista: define o que é saúde, o que é educação, o que é justiça e até o que é moral.

    A liberdade é substituída por tutela, e a propriedade privada por promessa de segurança. É o velho pacto de submissão: entreguem-me o vosso dinheiro e cuidar-vos-ei. No entanto, o que recebemos é um Leviatã fiscal e administrativo que nos rouba em nome da protecção, e nos oprime em nome da igualdade.

    A saúde e a educação, as “jóias do regime de Abril”, são os melhores exemplos da ingovernabilidade do socialismo moderno. Sem preços nem lucros, são sectores cegos. A ausência de preços impede o cálculo económico – e sem cálculo, não há coordenação.

    José Luís Carneiro, secretário-geral do PS.

    O Estado não sabe o que os cidadãos valorizam, não distingue o necessário do supérfluo, não tem meios para avaliar se um euro gasto em hospitais rende mais saúde do que um euro gasto em educação. O dinheiro público é um dinheiro sem dono, e por isso mesmo, gasto com leviandade.

    Os planeadores centrais desconhecem se o país precisa de bons professores de matemática, de ensino à distância, ou de formação artística, se deve investir numa urgência hospitalar em Vila Real ou num centro oncológico em Faro. O socialismo não é apenas uma falência moral: é, antes de tudo, uma impossibilidade técnica, apenas possível numa sociedade tribal.

    A União Soviética já o demonstrara: sem preços e sem lucros, o planeamento central só sobrevive parasitando os mercados externos. Moscovo precisava de cotações capitalistas para saber o valor das coisas, tal como Lisboa precisa agora de Bruxelas para fingir que sabe governar.

    André Ventura (à direita), líder do Chega.

    Portugal repete, em escala menor, a mesma fraude: simula racionalidade financeira com défices baixos, quando na verdade vive do aumento da carga fiscal e da anestesia estatística dos fundos europeus. É um socialismo de folha de cálculo que substitui o mercado, em que o ministro das Finanças desempenha o papel de um contabilista de uma insolvência perpétua.

    Toda a história das “contas certas” é uma mistificação. Desde 2013 até à previsão para 2026, as receitas fiscais cresceram a um ritmo médio de 4,8% ao ano, acumulando um crescimento de 84% em treze anos; as despesas, a 3,9% anuais, um total acumulado de 65%.

    A diferença entre ambas é apresentada como virtude: “equilíbrio”, dizem eles. Na realidade, o equilíbrio resulta apenas de se roubar mais depressa do que se gasta. O superávite orçamental, essa jóia de propaganda do regime, é apenas o nome polido da pilhagem. As contas estão certas porque o assalto é metódico. O Estado é o único ladrão cuja regularidade contábil é celebrada como probidade.

    Na educação, a farsa atinge o grotesco. O Estado gastará 10,7 mil milhões de euros em 2026, somando o ensino básico, secundário e universitário. Com 2,06 milhões de alunos – 270 mil no pré-escolar, 955 mil no básico, 390 mil no secundário e 448 mil no ensino superior -, o custo médio é de 5 190 euros por aluno por ano, ou 520 euros por mês, considerando apenas os dez meses de aulas.

    É o preço de uma escola privada de qualidade, com resultados incomparavelmente superiores. Ou seja, o Estado gasta mais que o sector privado, mas oferece o pior ensino da OCDE. Chama-lhe “gratuito” e, por essa via, compra votos. A educação pública é o espelho moral da sociedade portuguesa: uma fábrica de mediocridade que confunde igualdade com nivelamento por baixo.

    Na saúde, o cenário repete-se. O Estado gastará 17,3 mil milhões de euros em 2026. Dividindo esse valor pelos 10,8 milhões de utentes, o custo médio é de 1 600 euros por pessoa por ano, cerca de 133 euros por mês. O que se recebe em troca são filas, greves e má gestão crónica.

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    Num sistema onde tudo é “grátis”, o racionamento é inevitável. O doente é tratado como um número, a espera é considerada normal e o sofrimento, inevitável. Não há preços, não há escolha, e por isso não há eficiência. Ninguém vai a um restaurante para ser informado de que “hoje só há sopa para três”, mas na saúde pública, essa é a norma. O racionamento é a essência do socialismo: a escassez disfarçada de justiça.

    Mas talvez a parte mais reveladora deste orçamento esteja no seu subtexto demográfico. O Estado admite, implicitamente, que não sobrevive sem imigração. Precisa de “novos contribuintes” – leia-se, novos assaltados – para alimentar o esquema.

    O modelo é um saque disfarçado de solidariedade: cada nova geração é assaltada para financiar o colapso adiado da anterior. Só em 2026, o Estado gastará 58 mil milhões de euros em prestações sociais, mais de 40% da despesa pública. É a confirmação de que o Estado português não é uma comunidade, mas uma máquina de redistribuição: um sistema de compra de votos financiado por impostos coercivos. Chamam-lhe “contribuições”, mas o termo exacto é extorsão institucionalizada.

    O drama português é que a maioria dos contribuintes acredita sinceramente que o Estado é quem os protege. Confunde protecção com submissão, solidariedade com expropriação, moralidade com dependência. O Orçamento do Estado tornou-se a liturgia anual da servidão, celebrada por comentadores e jornalistas como um acto de virtude nacional. A cada Outubro, o país ajoelha-se perante o novo sumo-sacerdote das finanças públicas, que proclama a boa nova das “contas equilibradas” e da “sustentabilidade”. Ninguém ousa perguntar o óbvio: quem paga, afinal, a conta dessa virtude?

    O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. (Foto: Presidência da República)

    Portugal transformou-se num país governado por um cartel político-fiscal, uma sociedade em que a espoliação é disfarçada de progresso. O Orçamento do Estado não é um instrumento de planeamento: é um documento de chantagem, um plano de assalto. A cada linha, uma promessa que serve para legitimar o roubo; a cada rubrica, uma forma mais sofisticada de dependência. O Estado social é o nome elegante de um mecanismo de pilhagem, e os seus defensores, conscientes ou não, são apenas os administradores morais da servidão.

    Enquanto o cidadão continuar a acreditar que o Estado é quem o protege – e não quem o explora -, este ciclo de espoliação continuará a repetir-se todos os anos, em Outubro, com pompa parlamentar e manchetes reverentes: “Aprovado o Orçamento do Estado.” Mais um assalto a ser aplaudido!

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • A consolidação do ocupante: aliança com os Estados Unidos e a guerra do Líbano

    A consolidação do ocupante: aliança com os Estados Unidos e a guerra do Líbano


    A derrota moral do mito do “milagre defensivo” em 1967 abriu espaço a uma nova fase: não mais um Estado inseguro que só se defendia, mas uma potência que precisava de se legitimar e gerir vastos territórios ocupados. Essa transição ficou mais visível na década de 1970.

    Em Outubro de 1973, o Egipto e a Síria lançaram um ataque-surpresa no dia do Yom Kippur – a data mais sagrada do calendário judaico, dedicada ao jejum e à expiação dos pecados; os primeiros dias foram um choque – Israel sofreu perdas e foi pressionado; até que, com a mobilização total e um gigantesco reabastecimento aéreo norte-americano, virou o jogo e impôs um armistício.

    O Yom Kippur mudou tudo: demonstrou que a ocupação tornara a região instável, empurrou Israel a depender militar e diplomaticamente dos EUA (a ponte aérea norte-americana, Operation Nickel Grass, foi decisiva) e reforçou a ideia de que só uma aliança estratégica com Washington garantiria a supremacia militar israelita.

    Politicamente, a década de 70 do século transacto também significara uma mudança interna: a vitória eleitoral do Likud em 1977 pôs fim à hegemonia trabalhista e abriu caminho a políticas mais assertivas de colonização. A partir daí, os assentamentos deixaram de ser apenas pioneirismo ideológico: tornaram-se política de Estado, recebendo financiamento, benefícios fiscais e protecção militar. A ocupação deixava de ser temporária e passava a ser reengenharia demográfica deliberada – estradas, postos militares, incentivos para populações judaicas deslocarem-se para a Cisjordânia e para Jerusalém Oriental.

    Em 1978–79, os Acordos de Camp David criaram uma fissura ainda maior: o Egipto assinou a paz com Israel e recuperou o Sinai, mas o custo foi enorme para a causa árabe e para os palestinianos – a questão palestiniana foi marginalizada, a autoridade egípcia virou um parceiro ocidental, e o espaço político para uma solução palestiniana diminuiu. Washington consolidou o seu papel de patrocinador privilegiado de Tel Aviv: ajuda militar maciça, cobertura diplomática e tecnologia de defesa tornaram-se pilares da relação.

    O ponto de viragem seguinte ocorreu em 1982, com a invasão do Líbano. Oficialmente destinada a “destruir a infra-estrutura terrorista” da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), a operação transformou-se numa ocupação profunda do sul libanês e numa intervenção que ultrapassou largamente os objectivos declarados.

    A queda de Beirute, o cerco longuíssimo e o massacre de Sabra e Shatila – perpetrado por milícias locais sob a responsabilidade indirecta das forças israelitas – marcaram brutalmente a imagem internacional de Israel e criaram um ressentimento duradouro. A ocupação do sul do Líbano e a política de segurança instalada aí deram origem a novos focos de resistência (mais tarde o Hezbollah), mostrando que a lógica ocupante gera sempre mais resistência, mais violência e mais custos humanos e estratégicos.

    No balanço de 1973 a 1982: Israel saiu desta década com maior poder militar e com uma aliança profunda com os Estados Unidos; saiu também com uma ocupação cada vez mais institucionalizada – assentamentos, infra-estrutura militar, leis e práticas que consolidavam uma realidade colonial. Politicamente ganhou aliados poderosos, mas perdeu legitimidade entre os vizinhos árabes e agravou a situação dos palestinianos, que viram o sonho de retorno e de Estado tornar-se cada vez mais remoto.

    A década de 1980 terminou com uma erupção inesperada: em Dezembro de 1987, depois de anos de ocupação, colonização e repressão, os palestinianos da Cisjordânia e de Gaza levantaram-se numa revolta popular conhecida como a Primeira Intifada. Não foi planeada por líderes exilados nem armada até aos dentes – começou com greves, boicotes, pedras contra tanques e a mobilização de uma geração inteira que já nascera sob ocupação.

    A resposta de Israel foi brutal. Ariel Sharon e Yitzhak Rabin usaram uma política que o próprio Rabin resumiu na fórmula: “quebrar os ossos”. As tropas receberam ordens para reprimir manifestações com violência física sistemática, centenas de casas foram demolidas, milhares de jovens presos sem julgamento. A imagem internacional de Israel sofreu um golpe profundo: o mundo viu, em directo, a disparidade entre colonos armados protegidos e crianças palestinianas a enfrentar soldados com pedras.

    Politicamente, a Intifada mudou o equilíbrio: mostrou que os palestinianos não eram apenas refugiados em campos ou figuras em negociações diplomáticas, mas um povo vivo, organizado, capaz de resistir colectivamente. Também empurrou Israel e os EUA a reconhecerem a OLP como um interlocutor legítimo – até então tachada de “terrorista” – e abriu caminho para negociações.

    Esse caminho culminou em 1993, com os Acordos de Oslo. Apresentados ao mundo como um “histórico aperto de mão” entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, prometeram um processo de paz, a criação de uma Autoridade Palestiniana e a perspectiva de um futuro Estado palestiniano – essa organização criminosa que sempre é proposta como solução para toda e qualquer salvação.

    Na prática, porém, Oslo funcionou como uma armadilha: a ocupação militar manteve-se intacta, os colonatos não só não pararam como aceleraram, e a nova Autoridade Palestiniana ficou reduzida a um gestor subcontratado da população sob controlo israelita. A promessa de dois Estados tornou-se retórica diplomática, enquanto no terreno a realidade colonial aprofundava-se. A Intifada tinha nascido de desespero e dignidade. Oslo transformou-a numa vitrina para a diplomacia, mas sem tocar na raiz do problema: a terra, os refugiados e a brutal ocupação.

    A década de 1990 terminava com as promessas de Oslo, que depressa se revelaram um engodo. Os colonatos multiplicavam-se, os checkpoints asfixiavam a mobilidade, a terra palestiniana era retalhada em enclaves desconexos. A chamada “Autoridade Palestiniana” funcionava mais como polícia auxiliar da ocupação do que como embrião de soberania. Era inevitável que a frustração acumulada explodisse.

    A centelha surgiu em Setembro de 2000, quando Ariel Sharon, então líder da oposição, entrou ostentosamente na Esplanada das Mesquitas em Jerusalém Oriental, rodeado de centenas de polícias. Foi visto como uma provocação deliberada, e no dia seguinte eclodiram confrontos em toda a Cisjordânia e em Gaza. Assim começou a Segunda Intifada.

    Ao contrário da primeira, esta revolta depressa escalou em violência: atentados suicidas palestinianos atingiram cidades israelitas, enquanto a resposta militar de Israel foi devastadora – bombardeamentos aéreos, incursões de tanques em zonas densamente povoadas, execuções selectivas.

    A narrativa oficial apresentava Israel como uma vítima de “terrorismo irracional”. Mas a realidade é que o terrorismo é também produto da ocupação, da humilhação diária, da ausência de horizonte político. Quem semeia a violência estrutural da colonização não pode fingir surpresa quando a violência regressa sob formas mais cruas.

    Em 2002, Israel lançou a Operação Escudo Defensivo, voltando a invadir cidades da Cisjordânia sob o pretexto de “erradicar o terrorismo”. Os tanques entraram em Jenin, Nablus, Ramallah; cercos e destruições maciças devastaram campos de refugiados.

    Foi também nesse ano que começou a construção do muro de separação: uma barreira de betão e arame, erguida não na linha de 1967, mas profundamente dentro da Cisjordânia, anexando, de facto, vastas áreas e colonatos. Chamavam-lhe o “muro da segurança”; na prática, era engenharia territorial, criando realidades irreversíveis e transformando aldeias palestinianas em ilhas cercadas.

    O auge desta fase veio em 2005, quando Ariel Sharon – já primeiro-ministro – decidiu retirar unilateralmente os colonos de Gaza. Apresentou-o como um gesto de paz, mas era sobretudo um cálculo estratégico: Gaza tornava-se uma prisão a céu aberto, isolada por terra, mar e ar, enquanto a colonização na Cisjordânia era acelerada. A desconexão de Gaza permitiu a Israel alegar que já não ocupava o território, mas continuou a controlá-lo de fora, em todos os aspectos essenciais.

    O período de 2000 a 2005 expôs de forma ainda mais clara a essência do problema: Oslo tinha sido uma ilusão diplomática; a realidade era a de um Estado que expandia colonatos, erguia muros, consolidava a ocupação e relegava milhões de pessoas para guetos sob vigilância. A Segunda Intifada terminou oficialmente em 2005, mas o que mostrou – a violência como resposta inevitável à ocupação – ficou gravado na memória de uma geração inteira.

    Em conclusão, foi o colapso das ilusões de Oslo. De um lado, um povo sufocado por colonatos, muros e checkpoints, que respondeu com a revolta desesperada de quem não tinha futuro. Do outro, um Estado que usou tanques, bombardeamentos e um muro de betão para consolidar a ocupação e redesenhar as fronteiras pela força.

    A retirada unilateral de Gaza em 2005 foi apresentada como gesto de paz, mas funcionou como uma manobra de cálculo: uma prisão cercada por mar, ar e terra, enquanto a Cisjordânia continuava a ser retalhada e colonizada. No fim deste ciclo, o mapa estava mais fragmentado, a violência mais enraizada e a promessa de dois Estados mais distante do que nunca.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • Diz-me se o Trump gosta de ti, dir-te-ei quem és

    Diz-me se o Trump gosta de ti, dir-te-ei quem és


    É habitual ouvir-se “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. É um lema que raramente desilude e que, aplicado a Trump, parece uma verdade matemática. Ainda estou para ver o Trump a elogiar alguém que se consiga ouvir, enquanto se janta, sem vomitar. No último texto que escrevi aqui no PÁGINA UM, a propósito de um encontro de líderes da extrema-direita em Madrid, referi-me a Maria Corina Machado como a senhora da Venezuela que apareceu por lá em vídeo.

    Estava longe de imaginar que, umas semanas depois, a mesma senhora seria Nobel da Paz. Mesmo sabendo que o Nobel da Paz foi perdendo o seu sentido ao longo dos anos — pensemos que já foi entregue a personalidades como Kofi Annan, Malala, Ximenes Belo, Arafat, Rabin, Mandela, Gorbatchov, Dalai Lama, Desmond Tutu ou Lech Walesa —, ainda estou para perceber como é que foi parar a um Guaidó 2.0.

    Maria Corina Machado (MCM) está a representar aquele papel, tantas vezes repetido na História, do fantoche útil ao serviço de uma potência externa. Não é um exclusivo americano, obviamente; russos e chineses usam e abusam da mesma estratégia, mas os Estados Unidos já andam nesta vida há pelo menos cem anos.

    Pahlavi no Irão, Suharto na Indonésia, Pinochet no Chile, Videla na Argentina, Somoza na Nicarágua, Trujillo na República Dominicana ou Batista em Cuba são alguns dos exemplos que me ocorrem assim de repente.

    O caso da Venezuela é, obviamente, mais aborrecido porque tem as maiores reservas de petróleo do mundo e não há maneira de se arranjar um governo que agrade às sucessivas administrações americanas. Ou seja, por outras palavras, é um país em absoluto desespero para que lhe sirvam uma dose de democracia a sério. Ah, e que os libertem. Democracia e liberdade são, normalmente, as coisas de que os países que não partilham os seus recursos como as potências querem… mais precisam. Se forem países sem recursos naturais, bom, por norma já estão bem servidos de democracia e de todas as comodidades que fazem as pessoas sentirem-se livres.

    MCM nem sequer se aproxima da população venezuelana com rodeios ou grandes argumentações. Diz mesmo ao que vai e, entre juras de amor a Trump, já prometeu a partilha das reservas de petróleo e o bar aberto para as multinacionais americanas. Pelo caminho, ainda aplaude e incentiva os ataques a embarcações venezuelanas, alegadamente na luta americana contra o tráfico de droga. É, aliás, um tema caricato.

    Os Estados Unidos já mataram quase quarenta pessoas em ataques fora das suas águas territoriais, sem qualquer prova, acusação e muito menos julgamento. Não é preciso aqui dizer que isto é um acto ilegal de um país que mata habitantes de outro, sem estar em guerra com eles ou ter qualquer acusação fundamentada. É uma reversão do direito internacional e, claro está, uma imposição unilateral de regras que resulta na morte de civis acusados de nada. Que a administração Trump não respeite seja o que for na ordem instituída pelas Nações ao longo das décadas já é o novo normal; que Maria Corina Machado, a Nobel da Paz, aprove isto, é que é mais macabro.

    Como é que alguém que está, descaradamente, ao serviço de interesses estrangeiros, por muito má que seja a situação interna, pode ser considerada uma pacifista?

    A lista de países que são considerados ditaduras ou regimes híbridos (autocracias com bases democráticas) tem quase noventa candidatos — pouco menos de metade do globo. Para lá da Venezuela e de Cuba, os clássicos para onde me costumam mandar, aparecem nomes como os Emirados Árabes Unidos, o Azerbaijão (que é o novo amigão do gás da Von der Leyen), o Qatar, o Bahrain, a Ucrânia, a quem doamos boa parte dos impostos, a Tailândia, onde fazemos aquelas fotos porreiras para o Instagram, a Rússia, a Índia e, obviamente, a Arábia Saudita, estimado aliado do Ocidente e que manda barris em quantidade suficiente para não precisar de Marias Corinas de serviço.

    Ou seja… não é verdadeiramente o regime político que nos importa, mas sim a forma como deixam meter a pata em cima. Durante décadas chamava-se a isto golpe de Estado, guerra fria, interesses geo-estratégicos, realpolitik e mais uma série de nomes óptimos para livros de lombada grossa. Em 2025 passou a chamar-se Prémio Nobel da Paz.

    Sinal dos tempos.

    Tiago Franco é engenheiro e CEO da techLisbon

  • Democracia autárquica: manual de boas aparências

    Democracia autárquica: manual de boas aparências


    No passado dia 12 de Outubro, o país engalanou-se uma vez mais para a grande missa cívica do regime: as eleições autárquicas, pomposamente designadas como “a festa da democracia”. As televisões rejubilavam com a coreografia das urnas, os comentadores fingiam sabedoria enquanto contavam votos como quem conta indulgências, e o povo, esse bom crente da religião republicana, acorreu em romaria a depositar no altar do sufrágio o seu grão de fé.

    Tudo se passou com a serenidade das cerimónias litúrgicas: filas ordeiras, abraços entre adversários, promessas de redenção municipal e, por fim, o hino à maturidade democrática. É nestas alturas que o português se sente súbdito e rei, explorado e soberano, escravo e legislador.

    Foto: CNE

    Em cada concelho reergueram-se os mesmos santos do panteão local, as mesmas estátuas humanas de betão armado, cuja biografia mistura expediente administrativo com génio do compadrio. Voltou, claro, o senhor Isaltino, apóstolo penitente das finanças municipais, a provar que em Portugal a ressurreição é um direito constitucional.

    O povo de Oeiras, magnânimo e distraído, deu-lhe nova unção eleitoral, como se a passagem por Évora fosse um estágio em virtude. Em Loures, Almada, Matosinhos e outros reinos menores da república, sucederam-se idênticos milagres de reeleição, como se a eternidade tivesse assento no orçamento camarário. São os mesmos de sempre, com o mesmo ar de sacristia e o mesmo zelo missionário pelo erário público.

    No tempo do rei absoluto, sabíamos quem roubava. Tinha nome, brasão e barriga. Se abusasse dos tributos, arriscava-se a ser pendurado num poste, espectáculo moral que a modernidade suprimira por indecoroso.

    Com a democracia, porém, o ladrão perdeu corpo e ganhou instituição. Já não há gordos a quem lançar a corda, há departamentos e secretarias. O saque tornou-se anónimo, e a pilhagem, regulada por decreto. A moral fiscal converteu-se em dogma patriótico: quem paga é virtuoso, quem recebe é indispensável, e quem rouba em nome do bem comum é apenas gestor de interesses superiores.

    Foto: DR

    A nação divide-se em dois bandos que fingem não se ver – os que produzem e são espoliados e os que vivem e são sustentados – mas o regime chama-lhes apenas cidadãos, e até lhes concede a mesma cruzinha no boletim, essa hóstia de papel que legitima o festim.

    Chamam a este ritual a “festa da democracia”, expressão que cheira a mofo parlamentar e vinho verde institucional. Dizem-nos que é o menos mau dos regimes, fórmula que só um povo resignado poderia aceitar como elogio. É o mesmo que preferir a febre à peste. Todavia, o que é, no fundo, esta democracia que veneramos?

    Uns dizem que é o governo do povo, outros que é o povo a escolher quem governa. Uns crêem que decide o destino, outros que escolhe apenas o carrasco. No primeiro caso, dispensaríamos o parlamento; no segundo, bastaria um sorteio. Assim se constrói o paradoxo: o povo é soberano, mas a soberania não lhe pertence; manda por delegação, e obedece por costume.

    Como se não bastasse essa ambiguidade, a vontade popular depende ainda da geometria dos mapas. Uma linha mais a norte ou mais a sul, um círculo maior ou menor, e a maioria muda de dono. A soberania, afinal, é uma questão de régua e compasso. Um governo eleito pela perícia do cartógrafo. A vontade do povo é como a água: toma a forma do recipiente.

    Foto: DR

    Os democratas entusiastas costumam dizer que a maioria tem o direito de se separar da minoria, como a Catalunha de Espanha, mas calam-se quando a minoria dentro da maioria quer separar-se dessa maioria maior. É a velha contradição que conduz, por degraus lógicos, ou à tirania universal ou à liberdade individual.

    Ou admitimos que o indivíduo possa separar-se da comuna e esta do Estado, ou acabamos todos numa prisão planetária de sufrágios perpétuos. A democracia moderna sonha com um governo mundial, isto é, com um cárcere cosmopolita onde todos votam e ninguém escapa.

    Também nos dizem que o sistema proporcional é mais justo, mais representativo, mais científico. Pura charlatanice. A justiça das urnas é tão arbitrária como a dos deuses antigos: depende da fórmula usada no templo. Com os mesmos votos se fazem maiorias ou coligações, vitórias ou derrotas, regimes estáveis ou pandemónios ministeriais. O sufrágio é um oráculo de conveniência.

    Depois há a apoteose tecnológica. Com o milagre das aplicações, o povo poderia hoje votar em tudo – no IRS, na imigração de terceiro mundo, na saúde, no número de feriados. Mas ai de quem o proponha: logo surge a objecção de que o povo é ignorante, incapaz de compreender assuntos complexos.

    a person stacking coins on top of a table

    A mesma multidão que é sábia para escolher governantes é estúpida para escolher políticas. Eis o raciocínio circular que sustenta a república moderna: o eleitor é competente no Domingo, quando elege, e imbecil no Sexta-Feira, quando seria chamado a decidir.

    Quanto à independência dos juízes, outro dogma do catecismo democrático, bastaria lembrar que quem nomeia os tribunais é quem governa, e quem governa é quem legisla. A toga, outrora símbolo de severidade, é hoje capa de funcionário. A justiça vive do orçamento e o orçamento vive de voto; logo, a independência é uma ficção orçamental.

    O eleitor comum, esse santo anónimo do regime, não conhece quem elege. Vota em rostos, em sorrisos, em que promete “casas grátis”, em que promete um futuro radiante, cheio de coisas “grátis”. Julga mérito por simpatia, competência por fotogenia. Um médico não escolheria o seu cirurgião por cartaz, mas o povo escolhe assim o seu primeiro-ministro. A democracia é o único regime onde a ignorância é virtude e a frivolidade, método.

    Quando tudo o mais falha, invoca-se o argumento da paz. Dizem que a democracia evita o sangue porque substitui a bala pelo boletim de voto. É meia-verdade que soa a piedade. A história mostra que os regimes de sufrágio universal produziram tantas ou mais guerras que as monarquias, mais brutais, com muito mais carnificina. A diferença é que agora os exércitos partem com mandato popular. O voto não aboliu a violência, apenas a terceirizou.

    person standing near table

    A democracia não é um valor moral, apenas um instrumento. Serve tanto ao socialista que sonha com a igualdade como ao libertário que sonha em ver-se livre do bandido estacionário. É um martelo: tanto prega o prego como estilhaça a cabeça. No entanto, há quem veja nela uma divindade capaz de criar o bem do nada.

    Mas eis o escândalo que o democrata não suporta ouvir: se o povo, por esmagadora maioria, elege um tirano que decide abolir as eleições, então tal tirania é, segundo o próprio princípio democrático, legítima. A vontade do povo abole a própria vontade do povo – e o regime morre aplaudido. É a serpente a devorar o próprio rabo, entre vivas à liberdade.

    E o que dizer da contradição entre a democracia e o socialismo, esse casamento impossível de uma multidão com uma forca. Pois num regime socialista, o partido no poder – detendo os empregos, a imprensa, os tribunais e os subsídios – destruiria economicamente os seus opositores antes que estes pudessem disputar o voto. A igualdade seria mantida pela fome.

    Se isto parece uma hipótese teórica, basta visitar certas autarquias portuguesas, esses laboratórios domésticos de planificação: o presidente distribui cargos, o vereador adjudica contratos, o primo recebe avenças e o opositor político descobre que o concurso público tinha critérios retroactivos. A democracia municipal é a caricatura perfeita do socialismo: um partido, todos os cofres, e um boletim de voto a legitimar o saque.

    a bridge over a river with a city in the background

    O “povo”, essa entidade metafísica que o regime invoca em cada frase, não existe senão como ficção. Existem indivíduos, cada qual com a sua vontade, o seu suor e o seu bolso. A vontade do povo é apenas a soma algébrica de obediências, uma criação estatística que confere majestade ao saque. Quando um governo expropria, fá-lo em nome dessa entidade invisível; quando mente, diz que foi mal interpretado por ela; quando falha, declara que o povo não compreendeu o seu génio.

    Assim se cumpre o ciclo. O eleitor, submisso, acredita que manda; o eleito, hipócrita, finge que obedece; o Estado, voraz, come os dois. A democracia é o sistema que transforma o roubo em virtude, o suborno em política e a servidão em dever patriótico.

    No tempo dos reis, sabíamos onde morava o ladrão. Hoje mora em nós, disfarçado de consciência cívica e orgulho nacional. O voto, essa moeda de fé, é o selo da nossa obediência. O povo deposita o boletim como quem confessa o pecado, e sai da urna absolvido. Mas ao contrário da confissão, aqui o perdão é para o ladrão, não para o penitente.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • A criação do Estado de Israel

    A criação do Estado de Israel


    Em 1947, a Palestina encontrava-se em plena tensão. Depois de três décadas de Mandato Britânico, de imigração sionista acelerada e de revoltas árabes esmagadas com brutalidade, Londres já não tinha fôlego para segurar o território.

    O império britânico, falido e desgastado pela Segunda Guerra Mundial, entregou a questão à recém-criada Organização das Nações Unidas. Foi neste palco que os Estados Unidos assumiram o papel central. Sob uma pressão diplomática quase sem precedentes, Washington impôs ao plenário da ONU a aprovação de um plano de partilha que atribuía aos judeus, que eram apenas um terço da população e detinham menos de 7% das terras, quase metade do território da Palestina.

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    Foto: D.R.

    A Assembleia Geral não reflectia um consenso espontâneo; foi o produto de intensa pressão norte-americana, de promessas, chantagens económicas e jogos de bastidores. A União Soviética, ironicamente, alinhou com os Estados Unidos nesta votação, acreditando que um Estado judeu socialista poderia nascer em ruptura com o Ocidente. O resultado foi a Resolução 181, aprovada em Novembro de 1947: uma Palestina partida em dois Estados, um judeu e outro árabe, e uma Jerusalém internacionalizada sob a tutela das Nações Unidas.

    Mas esta resolução, já de si profundamente desequilibrada, trazia duas condições básicas que são sistematicamente esquecidas. Primeiro, Jerusalém devia ser uma cidade internacional, fora da soberania de qualquer das partes. Segundo, os dois Estados deveriam formar uma união económica, assegurando a livre circulação de bens, serviços e pessoas.

    Foram precisamente estas duas cláusulas que Israel ignorou de imediato, lançando-se numa política de ocupação e exclusão. A criação de Israel foi, assim, desde o primeiro dia, não um simples “acto de independência”, mas uma operação de engenharia política global, sustentada pelo poder norte-americano e violando as próprias condições mínimas do plano da ONU.

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    Foto: D.R.

    A resolução da ONU, aprovada em Novembro de 1947, não trouxe paz mas guerra. Para os árabes da Palestina, que representavam dois terços da população e detinham a esmagadora maioria da terra, a partilha foi sentida como um assalto legalizado.

    Logo a seguir à votação, começaram os confrontos entre as comunidades. Milícias sionistas – Haganah, Irgun e Lehi – lançaram ofensivas contra aldeias árabes, não apenas em defesa das áreas atribuídas pelo plano, mas com o objectivo deliberado de expandir o território do futuro Estado judeu.

    O que se seguiu ficou para a história como Nakba, a catástrofe palestiniana. Entre 1947 e 1949, cerca de 750 mil árabes foram expulsos das suas casas, mais de 400 aldeias foram destruídas e a geografia da Palestina alterou-se de forma irreversível.

    a close up view of rocks and grass
    Foto: D.R.

    As expulsões não foram um “acidente da guerra”: documentos revelados décadas depois, mostram planos militares claros para “limpar” áreas inteiras de população árabe. Massacres como o de Deir Yassin espalharam o pânico, levando milhares de famílias a fugir.

    Quando, em Maio de 1948, Ben-Gurion declarou unilateralmente o nascimento do Estado de Israel, os exércitos árabes vizinhos entraram em território palestiniano. A versão oficial, repetida até hoje, descreve essa guerra como uma “invasão árabe” contra um jovem Estado que apenas se defendia.

    Mas a realidade é outra: todos os combates ocorreram em território árabe, e Israel aproveitou a guerra para conquistar áreas que a ONU tinha destinado ao futuro Estado palestiniano – partes da Galileia, Jaffa, Beersheba, e um corredor até Jerusalém ocidental.

    A couple of people that are hugging each other
    Foto: D.R.

    No final, o saldo era brutal: um Estado judeu consolidado sobre as ruínas de centenas de aldeias árabes, três quartos de milhão de refugiados expulsos ou impedidos de regressar, e uma minoria árabe que permaneceu dentro de Israel submetida a um regime militar durante quase duas décadas. Casas, terras, bancos e bens dos que fugiram foram imediatamente confiscados e entregues a novos colonos judeus. A limpeza étnica, negada durante anos, é hoje amplamente reconhecida até por historiadores israelitas.

    A história de Israel pós-1948 não foi de consolidação pacífica, mas de expansão permanente. O jovem Estado nunca se contentou com as fronteiras arrancadas pela guerra; via-se como uma potência regional em crescimento. Esse ímpeto encontrou uma oportunidade perfeita em 1956, quando o Reino Unido e a França procuravam derrubar Nasser, que acabara de nacionalizar o Canal de Suez. Para as velhas potências imperiais, a nacionalização era um insulto intolerável. Para Israel, era a ocasião para quebrar o Egipto e mostrar a sua utilidade como aliado do Ocidente.

    Foi assim que se formou uma aliança tripla: Israel invadiu o Sinai, enquanto britânicos e franceses simulavam intervir como “força de paz” para proteger o canal. Tudo foi preparado em segredo e lançado com a lógica do exército nazi: ataques de surpresa, avanço rápido, terror militar. Os mesmos governos ocidentais que durante a Segunda Guerra Mundial denunciaram as tácticas nazis de guerra-relâmpago agora aplaudiam a sua repetição, desde que praticada por Israel e seus aliados.

    aerial view of trees during daytime
    Foto: D.R.

    O resultado militar foi claro: Israel ocupou a Faixa de Gaza e o Sinai em poucos dias, provando a sua capacidade de agir como braço armado das velhas potências coloniais. Politicamente, porém, a aventura ruiu quando os Estados Unidos e a União Soviética se opuseram à agressão e forçaram a retirada. Mas a mensagem já estava dada: Israel tinha demonstrado que podia ser útil como parceiro militar de primeira linha contra regimes árabes nacionalistas. O “Estado jovem e frágil” de 1948 mostrava-se afinal como uma potência agressiva, plenamente inserida no jogo imperialista.

    Foi assim que em Junho de 1967, Israel lançou uma ofensiva fulminante contra o Egipto, a Jordânia e a Síria, conhecida como a Guerra dos Seis Dias. A narrativa oficial fala de uma guerra defensiva, quase milagrosa, em que o pequeno Estado sobreviveu a uma ameaça existencial. Mas os documentos e as próprias declarações de líderes israelitas da época revelam outra realidade: uma guerra premeditada, preparada durante meses e conduzida como ataque surpresa, com o objectivo de expandir fronteiras.

    Em apenas seis dias, Israel destruiu a aviação egípcia ainda no solo, avançou sobre o Sinai até ao Canal de Suez, ocupou Gaza, conquistou a Cisjordânia (incluindo Jerusalém Oriental) e tomou os Montes Golã à Síria. Foi uma vitória militar esmagadora, mas também o início de uma ocupação que se prolonga até hoje. A partir daí, a “questão palestiniana” deixou de ser apenas a tragédia dos refugiados de 1948: passou a incluir milhões de pessoas a viver sob administração militar directa de Israel, sem direitos políticos, sem soberania e sob colonização acelerada.

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    Foto: D.R.

    O Ocidente aplaudiu a guerra como acto de autodefesa, quando todos os factos indicavam o contrário. Foi Israel quem disparou primeiro, foi Israel quem ocupou territórios alheios, foi Israel quem consolidou a sua posição como potência regional com a bênção implícita dos EUA. O resultado político foi a transformação do conflito num impasse permanente: refugiados que não regressam, territórios ocupados que não são devolvidos, uma população submetida a regras militares que se arrastam há mais de meio século.

    A Guerra dos Seis Dias marcou, assim, a transição de Israel de Estado nascido da limpeza étnica de 1948 para uma potência ocupante em sentido pleno, com o peso de uma ocupação colonial que não cessou. É também aqui que se começa a desenhar a aliança estratégica com os Estados Unidos: Washington descobre em Israel não apenas um parceiro ideológico, mas um activo militar indispensável no Médio Oriente.

    Se em 1948 a expulsão em massa criara centenas de milhares de refugiados, ainda existia a expectativa – reforçada por resoluções da ONU, como a Resolução 194 – de que os palestinianos pudessem regressar às suas casas. Mas, depois de 1967, essa porta fechou-se de forma quase absoluta. Israel consolidou-se como potência ocupante e, em vez de permitir o regresso dos expulsos, lançou uma política activa de colonização nos territórios conquistados.

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    Foto: D.R.

    As terras que pertenciam a palestinianos ausentes, já confiscadas desde Nakba, foram reafectadas para novos imigrantes judeus. Leis como a Absentees’ Property Law foram usadas para declarar as propriedades abandonadas “património do Estado”.

    Ao mesmo tempo, programas de colonização incentivaram famílias judias, muitas delas recém-chegadas da Europa ou dos Estados Unidos, a instalar-se em colonatos fortificados nos territórios ocupados. A ironia é cruel: o camponês palestiniano expulso de uma aldeia em 1948, e depois impedido de regressar em 1967, via as suas terras entregues a quem nunca tinha vivido nelas.

    O mesmo Estado que impedia o regresso de centenas de milhares de refugiados palestinianos oferecia incentivos fiscais, terrenos baratos e segurança militar a colonos judeus europeus. Era uma política deliberada, não de segurança, mas de engenharia demográfica, destinada a garantir uma maioria judaica irreversível e a fragmentar qualquer possibilidade de um Estado palestiniano viável.

    Detail of the Israeli national flag highlighting the Star of David, emphasizing its cultural significance.
    Foto: D.R.

    A consequência foi a criação de um duplo sistema jurídico: um para os colonos, cidadãos israelitas com todos os direitos políticos; outro para os palestinianos, submetidos a administração militar, sem direito de voto, sem acesso livre à terra, e frequentemente sujeitos a demolições e expropriações adicionais.

    A ocupação de 1967 não foi apenas uma questão militar: foi a transformação de milhões de pessoas em população subjugada, enquanto a sua terra ancestral era oferecida a estrangeiros em nome de um projecto colonial.

    A criação de Israel não foi o mito idílico de um povo que regressa pacificamente à sua terra ancestral. Foi, desde o primeiro instante, um acto político forçado pela pressão norte-americana na ONU, legitimado por promessas contraditórias das potências imperiais, e executado com armas na mão.

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    Foto: D.R.

    Entre 1947 e 1949, um terço da população transformou-se em dois terços, centenas de aldeias foram riscadas do mapa e três quartos de milhão de pessoas viraram refugiados permanentes. As casas, as terras e até as contas bancárias dos que fugiram foram confiscadas e entregues a recém-chegados.

    Israel nasceu não como um Estado partilhado, mas como um Estado exclusivo, erguido sobre a expulsão e o silenciamento do outro. Foi este o verdadeiro parto: uma operação de engenharia demográfica, baptizada na retórica de independência, mas sustentada pela violência e pela limpeza étnica.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • A morte do Jornalismo e os últimos dias da Democracia no Ocidente

    A morte do Jornalismo e os últimos dias da Democracia no Ocidente


    Na adolescência e juventude, tive o privilégio de poder ler jornais, graças à minha mãe que me proporcionava semanalmente esse “luxo”. Gostava do Expresso e do Público de Domingo, com a revista que não perdia. Adorava a Colóquio/Ciência, da Gulbenkian. Quando nasceu a Fórum Ambiente, não perdia uma edição.

    Na minha juventude, os meios de comunicação social e revistas especializadas eram uma janela para o mundo. Hoje, o mundo é um “livro aberto”. Não há “intermediários”. Na altura, era diferente. Por exemplo, se quisesse saber mais sobre as práticas abusivas e maus tratos na criação de animais para a indústria alimentar, tinha de investigar. Hoje, encontra-se facilmente todo o tipo de informação. Em segundos.

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    Foto: D.R.

    O mundo ainda precisa de jornais e de jornalistas? Acredito que sim, mais do que nunca. Mas num mundo como o de hoje, em que a informação é um universo descentralizado, por que motivo irão adolescentes e jovens querer ler jornais, ouvir rádio ou ver TV? Que valor lhes trazem os media de hoje?

    Escrevo este artigo a propósito do balanço do programa estatal que prometia oferecer jornais digitais a jovens entre os 15 e os 18 anos e que foi divulgado pelo PÁGINA UM. Sem surpresas, este programa iniciado há cinco meses, é um fiasco: dos 418.682 potenciais leitores, até agora só 4.442 aceitaram “a prenda” — um em cada 100. Lançado em Maio, o projecto queria fomentar a “literacia mediática”.

    Será que o problema está nos jovens e adolescentes? Ou está nos media?

    O primeiro erro, a meu ver, é pensar-se que os adolescentes e os jovens são ignorantes e que precisam ser “ensinados”, “educados”. Esta visão encaixa numa outra: a da infantilização dos adultos nas sociedades ocidentais. Trata-se o adulto como alguém que “coitado, precisa de ser ensinado e guiado” por alguém que “sabe” o que é melhor para ele.

    An open notebook with a blue pen lies on a rustic wooden table, inviting creativity and writing.
    Foto: D.R.

    Na verdade, é o oposto. Num mundo em que os leitores e consumidores de informação têm acesso a fontes primárias, os jornais e as TVs parecem … obsoletos. Ou mesmo … burros. Sim, burros. Quantas vezes lemos nos jornais ou vemos nas TVs notícias com informação errada ou desactualizada?

    Sobretudo, existe, há muito, um divórcio entre as redacções e a população. Dos jornais, às rádios e TVs. Os canais de TVs estão cheios de política, futebol, novelas e reality shows decadentes. Nas horas que restam na programação, estão cheios de comentadores de… política, futebol e reality shows decadentes. Nos jornais, as manchetes oscilam entre política e … política. O Jornalismo e a informação têm sido substituídos em massa por uma indústria do entretenimento informativo de má qualidade.

    Além da escassa diversidade temática e pluralismo, falta hoje algo fundamental ao sector dos media: confiança e credibilidade. E isso também se deve à entrada dos interesses comerciais e políticos nas empresas de comunicação social. Mas não só. Também se deve a um outro fenómeno: a entrada da ideologia e do activismo em força nas redacções. Esse activismo veio sobrepor-se ao papel nobre de ser jornalista.

    Peguemos no exemplo da cobertura jornalística de políticas repressivas e de censura em países no Ocidente. No Reino Unido, políticas distópicas estão a levar cidadãos, humoristas e políticos, a serem interrogados e até detidos por causa de posts online ou por publicarem piadas ou memes. Em geral, a cobertura que os media tradicionais têm feito destes casos de repressão são favoráveis à perseguição e censura. Há mesmo jornalistas a justificar as detenções e condenações com a narrativa usada pelo governo britânico, de que se trata de crimes de “discurso de ódio ou desinformação”. Certamente que na China o governo também diz que censura, prende e persegue só “os maus cidadãos” e “por bons motivos”.

    a person sitting on a couch with a laptop
    Foto: D.R.

    Os media também têm sido benevolentes com as políticas autoritárias levadas a cabo pela Comissão Europeia, liderada por Ursula von der Leyen, para restringir a liberdade de imprensa e de expressão. Quem acompanhe o tema apenas através dos media, irá pensar que aquelas políticas e leis até são “amigas” e foram feitas “para o bem” do Jornalismo. Nada mais errado. Veja-se também a polémica medida “Chat Control” que acaba com a privacidade nas mensagens encriptadas.

    Quem lê apenas as notícias da imprensa, desconhece que o reforço do autoritarismo e do poder de políticos no continente europeu está em marcha acelerada, bem como o fim de direitos fundamentais. Se à legislação repressiva juntarmos a intenção de implementar à força o cartão de identidade digital (no Reino Unido) e a introdução do euro digital, não é preciso ser vidente para se perceber que é séria e real a ameaça de se instalar na Europa um regime autoritário com recurso ao policiamento digital. Daí, é um pequeno passo para a sociedade transmutar para um sistema de créditos, similar ao chinês, em que os cidadãos “desobedientes” serão facilmente punidos com um clique, ficando sem acesso ao seu dinheiro e à Internet.

    Pavel Durov, fundador e presidente-executivo da plataforma de mensagens encriptadas Telegram, alertou hoje, numa mensagem difundida online, para esse caminho distópico que já se vive na Europa. “Um mundo negro e distópico aproxima-se rapidamente — enquanto dormimos. A nossa geração arrisca ficar na História como a última que tinha liberdades — e que permitiu que elas fossem eliminadas.”

    Parte de uma mensagem divulgada hoje pelo CEO do Telegram em que alerta que está em marcha a criação de um regime distópico no Ocidente, em que as liberdades fundamentais estão a ser eliminadas progressivamente.

    Também Meredith Whittacker, que preside à plataforma de mensagens encriptadas Signal, tem feito alertas sobre a gravidade de políticas em curso. “Estamos muito aliviados por ver a Alemanha reafirmar sua oposição à perigosa proposta ‘Chat Control’ — que exigiria a monitorização em massa das comunicações. Há muito tempo que a Alemanha é uma firme defensora da privacidade, e a notícia de que estava a considerar apoiar a vigilância em massa foi alarmante.”

    Estes alertas surgem depois de muitos outros. A ameaça à democracia no Ocidente é grave. No PÁGINA UM, vários entrevistados fizeram alertas. Foi o caso de Stella Assange, que afirmou que “Julian Assange tem sido um canário na mina de carvão“, e também do jornalista Boštjan Videmšek, que avisou que “A era da democracia está praticamente no fim“.

    Mas, da Europa para os Estados Unidos, a cobertura noticiosa de muitas políticas de censura e repressão tem falhado redondamente. Veja-se um exemplo: os media perceberam, de repente, que perseguir um opositor político usando meios do Estado é uma ameaça à democracia. Mas só perceberam isso quando um republicano está na Casa Branca. Não perceberam isso quando democratas estavam na Casa Branca e usaram meios do Estado para … perseguir judicialmente, difamar e censurar opositores.

    Close-up of a vintage typewriter with the text 'Stories matter' typed on paper, evoking nostalgia.
    Foto: D.R.

    Um jornalista pode “adorar” Biden ou o partido democrata e pode “odiar” Trump ou o partido republicano. Mas um jornalista não deve trair o Jornalismo em prol das suas preferências políticas, ideológicas ou religiosas. O facto de, nos Estados Unidos, jornalistas terem fechados os olhos às políticas antidemocráticas dos democratas constituiu uma ameaça para o futuro do Jornalismo no país e ainda ajudou Trump a regressar à Casa Branca.

    A censura e perseguição de opositores e vozes “dissidentes” executadas por Biden foram gravíssimas. Está tudo comprovado em e-mails que foram tornados públicos e as próprias empresas donas das grandes plataformas online confirmaram isso mesmo. A mais recente foi a Google, que confirmou que o YouTube silenciou vários utilizadores a pedido da Casa Branca de Biden, não porque tivessem difundido “desinformação” ou violado as políticas da plataforma, como alguns media alegam. Essa tem sido a desculpa para calar vozes vistas como incómodas em diversos países.

    E o que fizeram os media quando irrompeu o chamado “Russia hoax” e o escândalo do laptop de Hunter Biden? E o que fizeram os media quando se tornou evidente que a Casa Branca estava sem presidente, por Biden se encontrar num sério declínio de saúde, com sinais de demência? Já para não falar dos escândalos de Obama ou em torno de Hillary Clinton, designadamente o caso dos e-mails. E o caso do misterioso enriquecimento de alguns democratas, como a família Biden ou Nancy Pelosi?

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    Foto: D.R.

    Nestes casos, os media assobiaram para o lado. Tal como no caso do criminoso sexual e traficante de raparigas, Jeffrey Epstein. Os media ignoraram praticamente a sua condenação em 2008 e o escandaloso acordo judicial de que beneficiou, e também olharam para o lado sobre a sua proximidade a figuras como Bill Gates e Bill Clinton. Só perante a nomeação de nomes como Trump ou Elon Musk — que afirma ter recusado um convite de Epstein — é que os media se “interessaram” pelas ligações do criminoso sexual que se suspeita poder ter sido um potencial “activo” a soldo de serviços secretos para manter operações de chantagem sobre figuras públicas e poderosas.

    O público acaba por perceber que este enviesamento existe e isso alimenta os partidos e os políticos que são vítimas do enviesamento dos media.

    A democracia está em perigo nos Estados Unidos, na União Europeia e no Reino Unido. Mas não apenas pela elevada corrupção, a censura, as acções repressivas e a perseguição judicial de opositores feita por governantes. Porque nas sociedades democráticas, as acções de políticos, sendo relevantes, enfrentam um escrutínio público e jornalístico.

    A democracia está em perigo no mundo ocidental porque jornalistas se demitem de fazer o seu trabalho para se tornarem actores políticos.

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    Foto: D.R.

    A vitória dos conservadores nas últimas presidenciais norte-americanas surgiu depois de anos de mentiras, escândalos, censura e repressão. Mas os media estiveram calados e quietos e serviram para mostrar caras sorridentes de democratas na Casa Branca. Já para não falar num dos piores escândalos: os jornalistas pactuaram com a censura e a repressão na pandemia. É nas crises que se vê a saúde do Jornalismo e das democracias. A crise da pandemia serviu para ver a gigantesca crise existente nos media: deixaram de fazer Jornalismo e tornaram-se fantoches de políticos.

    Em Portugal, não tem sido diferente. É só ver a forma como os media tratam jornalisticamente os diferentes partidos. A gritante falta de democracia no Livre é tratada com ligeireza. Uma polémica no PCP é temporária. Um escândalo no PS era gerido com pinças, com comentadores “amigos” dos socialistas e editoriais mansos nos jornais. Já se envolver o PSD, CDS-PP ou, sobretudo, o Chega, cai o Carmo e a Trindade. Este último partido tem sido a maior vítima de enviesamento dos media em Portugal. E isso alimenta-o.

    A este enviesamento jornalístico juntam-se outras vozes, como a da historiadora Raquel Varela, que apelou publicamente ao desrespeito por valores democráticos fundamentais. Varela exige que os partidos boicotem os candidatos do partido Chega nos debates, acusando o partido de ser “extrema-direita”. E defende que “nenhum jornalista deve publicar, entrevistar, [fazer] qualquer notícia sobre o Chega“.

    Acontece que Varela pode não gostar do Chega, mas é hoje o maior partido da oposição e chegou lá com os votos de portugueses. Ou será que a historiadora pensa que os portugueses que votam no Chega também deviam ser alvo de um qualquer boicote? Uma coisa é certa: as palavras de Varela, a concretizarem-se, seriam a morte em definitivo de Abril e da Revolução dos Cravos.

    person standing near table
    Foto: D.R.

    A cobertura enviesada dos partidos políticos pela imprensa e o incitamento ao boicote a um partido democraticamente eleito feito por personalidades, como Raquel Varela, têm alimentado os votos no Chega. Não foi por acaso que, na entrevista a André Ventura que publicámos em Fevereiro de 2024, escolhi como título: “Vejo-me como primeiro-ministro, mas depende dos portugueses, não de mim“. Sempre foi evidente, a meu ver, que quanto mais se ostracizar o Chega nos media, mais depressa Ventura será eleito primeiro-ministro (ou Presidente). É matemático.

    Mas, além do enviesamento noticioso estar a ter impacto no sentido de voto, está a destruir a credibilidade dos jornalistas. Possivelmente, serão vários os motivos para jornalistas destruírem o Jornalismo: ideologia, fanatismo, financiamento, comportamento de rebanho, medo de represálias, busca de fama…

    Fashionable reporter with microphone posing dramatically next to a news van.
    Foto: D.R.

    Seja como for, a queda do Jornalismo no mundo ocidental constitui a maior de todas as ameaças à Democracia. Porque um partido ou outro podem ter tiques de autoritarismo, como aconteceu desde 2020, com vários atentados graves aos direitos humanos e civis e às leis fundamentais em países como Portugal. Mas se houver um Jornalismo saudável e a funcionar, a sociedade está alerta.

    O Jornalismo tem falhado com a população. Os jornalistas têm, em geral, falhado com a população. E isso inclui os adolescentes e jovens. O resultado foi inevitável. Jornalistas são, hoje, em geral, vistos como meros fantoches ao serviço de interesses ou contaminados com ideologia.

    Os jornalistas têm de procurar — independentemente das suas preferências pessoais ideológicas ou religiosas — fazer um trabalho isento. Mas tem havido pouco disso. Precisa haver mais.

    Close-up shot of vintage typewriter keys in black and white, highlighting classic technology.
    Foto: D.R.

    É como se, numa fábrica de sapatos, os trabalhadores passassem, de repente, a produzir almofadas. E os patrões lhes dissessem que, sim, que continuassem a fabricar almofadas porque era mais lucrativo. Os consumidores continuam a pensar que estão a encomendar sapatos. Só que, quando abrem as caixas, saem-lhes almofadas… Daquelas fofinhas, para logo adormecerem e nem repararem que, um dia acordam, e a Democracia desapareceu.  Tal como o Jornalismo, que morreu, asfixiado por tantas “almofadas fofinhas” produzidas. Mas, em todo o caso, o que interessa isso? É que, sem leitores jovens, quem vai ler os jornais no futuro?

  • A soberania como pilar da democracia

    A soberania como pilar da democracia


    1. O conceito de soberania: origem, decadência e usurpação

    Poucas palavras carregam tamanha densidade histórica e ideológica como o termo “soberania”. Olhada ora como escudo da liberdade colectiva, ora como instrumento de opressão estatal, a soberania é um conceito que, ao longo dos séculos, oscilou entre a justificação do poder absoluto e a consagração da autodeterminação popular. No entanto, é precisamente nesta ambiguidade fecunda que reside a chave para compreender a arquitectura política de qualquer regime que se pretenda democrático. A soberania é, em última instância, uma decisão fundadora sobre quem manda em quem — e porquê.

    O jurista francês Jean Bodin foi, no século XVI, talvez o primeiro a sistematizar a ideia moderna de soberania: o poder supremo, indivisível e perpétuo de legislar, isento de qualquer sujeição. A soberania, para Bodin, repousava no monarca — mas não era um despotismo sem limites: deveria submeter-se à lei divina e à ordem natural. O seu conceito viria a ser radicalizado pelo britânico Thomas Hobbes, no século seguinte, que viu no soberano o Leviatã necessário para conter a barbárie da guerra de todos contra todos. A paz social exigia um poder absoluto, não por capricho, mas por necessidade lógica. O francês Jean Jacques Rousseau, por sua vez, operaria uma viragem já na segunda metade do século XVIII: a soberania não pertence ao rei, mas ao povo. E a vontade geral torna-se o novo trono.

    Mas a transição histórica da soberania monárquica para a soberania popular não apagou o seu traço fundamental: a soberania é sempre uma fonte última de decisão política. A questão nunca é se há ou não soberania, mas onde reside e a quem serve. E é precisamente essa questão que o nosso tempo procura dissimular com neologismos administrativos como governança, resiliência institucional, cooperação reforçada, multilateralismo funcional — fórmulas pensadas para despolitizar o acto de decidir, camuflando relações de poder sob retóricas de consenso técnico.

    Se a modernidade política se construiu sobre o princípio de que o povo é soberano, o século XXI parece ter-se encarregado de esvaziar esse princípio da sua substância. O processo não foi abrupto, mas gradual — e, por isso, mais eficaz. O poder soberano foi-se deslocando silenciosamente para entidades não eleitas – como a Comissão Europeia –, tribunais constitucionais com vocação supranacional, organismos técnicos com competência normativa, bancos centrais com autonomia inquestionável. Aquilo que permanece nos parlamentos nacionais é, cada vez mais, a função de carimbar decisões tomadas noutros areópagos. A soberania transformou-se num ritual constitucional – e ainda por cima desprovido da sua força performativa.

    A decadência da soberania não se fez apenas pelo alto, mas também pelo baixo. O cidadão comum, embrutecido por décadas de propaganda globalista, passou a ver a soberania como um resquício reaccionário, uma palavra tóxica associada a muros, autoritarismos e isolacionismo. O cosmopolitismo tecnocrático triunfou ao convencer as massas de que a renúncia à soberania era sinal de progresso, de maturidade democrática, de integração no concerto das nações civilizadas. Assim se forjou o paradoxo contemporâneo: o cidadão vota em representantes que não têm poder soberano, mas confia que os “órgãos competentes” farão o necessário — ainda que sem prestar contas a ninguém.

    Esta renúncia voluntária ao exercício da soberania constitui, em si mesma, uma tragédia política. Quando um povo abdica de decidir sobre o essencial — as suas leis, os seus impostos, a sua moeda, os seus tratados, as suas fronteiras —, deixa de ser um corpo político e transforma-se numa clientela social. Os grandes pactos do século XX, como as constituições democráticas ou os contratos sociais pós-guerra, pressupunham a existência de comunidades soberanas. A sua erosão corrói a base sobre a qual repousa qualquer legitimidade política duradoura. Onde a soberania se eclipsa, o Estado torna-se apenas uma agência de execução.

    A usurpação da soberania, no entanto, não é – ou não foi – feita com violência, mas com protocolos. Não exige – ou exigiu – tanques nas ruas, mas pareceres jurídicos. Não convoca – ou convocou – assembleias, mas workshops. Não declara – ou declarou – estados de sítio, mas ajustamentos estruturais. O golpe pós-moderno contra a soberania é tecnocrático e silencioso: não precisa de abolir a Constituição, basta interpretá-la à luz dos “compromissos europeus”. A excepção torna-se norma, o provisório torna-se estrutural, e o soberano torna-se amnésico — incapaz de recordar quando perdeu o direito de decidir sobre si mesmo.

    O filósofo alemão Carl Schmitt, com a sua célebre frase sobre o estado de excepção, recorda-nos que o verdadeiro soberano é aquele que, num momento de crise, suspende a norma para ‘salvar’ a ordem. Mas no mundo actual, quem decide sobre a excepção? Não são os parlamentos. Não são os cidadãos. São os políticos, mas já com base em conselhos científicos, em directórios financeiros, em consórcios reguladores. Isto equivale a dizer que a soberania não desapareceu — apenas mudou de mãos.

    É tempo, portanto, de resgatar o conceito de soberania não como bandeira de guerra, mas como instrumento de emancipação. A soberania não é um fetiche nacionalista, nem um capricho autoritário: é a condição para que uma comunidade se reconheça como autora das suas leis e responsável pelo seu destino. Sem soberania, não há cidadania plena — há obediência condicionada. E uma democracia sem soberania não passa de uma ilusão coreografada, onde todos dançam ao som de uma música que já não compuseram.

    A restauração da soberania exige coragem intelectual e acção política. Mostra-se necessário romper com a anestesia discursiva que reduz a política a compliance. É preciso declarar que a legitimidade de um Estado não se mede pelo número de pareceres que respeita, mas pelo grau de autonomia com que decide e responde aos seus cidadãos. E, sobretudo, torna-se fundamental recuperar a ideia simples — mas hoje quase subversiva — de que um povo que não manda em si mesmo, não é livre. É apenas governado.

    2. A União Europeia como laboratório da pós-soberania

    Se o conceito de soberania passou, nas últimas décadas, por uma erosão sistemática, então a União Europeia é o seu laboratório mais avançado. Nenhuma outra estrutura política contemporânea foi tão eficaz a transformar a abdicação da soberania numa virtude moral, num imperativo económico e numa inevitabilidade institucional. A União Europeia não combateu a soberania de frente: dissolveu-a em regulamentos, derreteu-a em comissões, despolitizou-a em nome do progresso. O golpe foi subtil e inicialmente lento, mas depois mais rápido e profundo: não tirou o poder aos Estados; convenceu-os de que já não valia a pena exercê-lo.

    A génese da integração europeia não nasce da vontade de criar uma comunidade política plena, mas de impedir a repetição das tragédias do século XX. Foi um projecto fundado no trauma e erguido sobre a promessa de estabilidade, comércio e convergência. No seu alvorecer, era uma engenharia económica com pretensões civilizacionais. Mas cedo se percebeu que, para que o mercado comum florescesse, seria necessário conter os ímpetos soberanistas dos Estados-membros. A moeda única — introduzida com solenidade e propaganda — foi o dispositivo mais eficaz desse condicionamento.

    Ao abdicar da sua política monetária, os Estados aceitaram um novo tipo de tutela: não a de uma potência estrangeira, mas a de uma arquitectura institucional que fala com o timbre neutro da razão técnica. A Comissão Europeia, o Banco Central Europeu, o Tribunal de Justiça da União Europeia — eis os vértices de um poder que decide sem se submeter ao escrutínio de um povo. A legitimidade não é democrática, mas funcional: a União decide “bem” porque decide “com competência”, porque tem “experts”, porque tem “estudos”. Mas quem define o que é “bem”? Quem decide os termos da competência? Quem fiscaliza os experts? O povo europeu, esse mito sem corpo nem voz, não entra na equação.

    A União Europeia é, portanto, o lugar onde se inverteu a ordem clássica da soberania: em vez de os Estados fundarem uma união, é a união que reformata os Estados. Os tratados europeus funcionam como constituições não ratificadas: vinculam os parlamentos nacionais a políticas predeterminadas, sujeitam decisões orçamentais a metas comuns, impõem regras que nenhuma maioria eleitoral pode facilmente revogar. O caso grego, durante a crise da dívida, foi paradigmático: um povo inteiro disse “não” nas urnas, mas Bruxelas respondeu com um “sim” irrevogável. O referendo foi apenas uma pausa na austeridade.

    Aquilo que temos, portanto, é uma transferência de soberania sem transferência de responsabilidade. Os líderes nacionais escondem-se atrás de “obrigações europeias” para justificar cortes, reformas ou imposições fiscais. A democracia é subcontratada. A impopularidade é externalizada. E assim o pacto entre governantes e governados vai-se dissolvendo numa névoa de relatórios e calendários comunitários. O cidadão não elege quem decide, nem pode demitir quem impõe. O seu único gesto político é o protesto infrutífero ou o voto simbólico num parlamento europeu que não legisla de facto.

    A União Europeia, neste modelo, não é um império clássico — porque não conquista territórios — nem uma federação madura — porque não tem povo constituinte. É antes uma tecnocracia expandida, uma cúpula administrativa com pretensões normativas. E como toda a tecnocracia, vive do simulacro de neutralidade: os seus comissários não têm partidos, os seus pareceres não têm ideologia, os seus regulamentos não têm alternativa. Mas o facto de se apresentar como “apolítica” é precisamente o seu acto mais político.

    Dir-se-á que tudo isto foi livremente aceite pelos Estados-membros. Mas o que significa “aceite” quando a pressão é feita sob chantagem económica? Quando se financiam campanhas de adesão com fundos europeus, quando se sancionam Estados desobedientes com cortes ou bloqueios, quando se condiciona o acesso a fundos a reformas estruturais que alteram profundamente o modelo social — o que resta da soberania senão um selo cerimonial? A adesão voluntária torna-se adesão extorquida.

    A retórica da solidariedade europeia apenas esconde a assimetria de poder entre os Estados centrais e periféricos. A soberania não é apenas erodida; é hierarquizada. A França e a Alemanha têm direito ao déficit estratégico. Os pequenos Estados têm a obrigação da austeridade virtuosa. Os grandes bancos são salvos. As pequenas economias são auditadas. A soberania é selectiva — e, portanto, é privilégio.

    Por isso, o projecto europeu, tal como hoje está desenhado, exige uma crítica profunda, não para ser destruído, mas para ser desmitificado. Já não se trata de um projecto comum de povos soberanos, mas de uma engrenagem institucional que sobrevive melhor quanto menos soberanias lhe resistirem. A verdadeira questão europeia deixou de ser o estar dentro ou fora da União — é se dentro dela ainda podemos ser donos do nosso destino.

    Recuperar a soberania no contexto europeu não significa recuar para o isolacionismo, mas restaurar o princípio de que só há legitimidade política quando há capacidade efectiva de decidir com autonomia. Uma Europa de nações soberanas não é uma contradição: é uma necessidade democrática. Mas para isso, é preciso dizer o óbvio: uma união que exige obediência cega, que impõe regras sem voz, que apaga fronteiras sem fundar um povo — não é uma união, é uma simulação.

    3. Soberania fiscal e monetária: o mito da convergência e a verdade da dependência

    A perda de soberania raramente se anuncia em fanfarras. Não há decretos com brasões dourados, nem tanques a cruzar fronteiras. Há, isso sim, gráficos com curvas descendentes, relatórios de convergência, decisões técnicas ditas “inevitáveis”. E no centro desse processo silencioso está a renúncia ao controlo fiscal e monetário — os dois nervos centrais da autonomia de um Estado moderno. Um país que não pode determinar os seus impostos nem emitir a sua moeda já não é plenamente soberano: é um gestor subalterno da vontade alheia.

    No caso europeu, a promessa da moeda única foi apresentada como um instrumento de convergência: os países do sul poderiam beneficiar da estabilidade germânica, e os países do norte ganhariam mercados estáveis para os seus produtos e capitais. A teoria era elegante, mas como em muitas fábulas da integração europeia, a prática revelou-se assimétrica. A convergência prometida tornou-se divergência estrutural. Os países mais frágeis perderam a capacidade de ajustar a sua economia através da desvalorização cambial e da flexibilidade monetária. E em troca receberam metas orçamentais rígidas, reformas impostas e vigilância permanente.

    A independência do Banco Central Europeu (BCE), celebrada como garantia de estabilidade, tornou-se um dogma tecnocrático imune ao escrutínio popular. O BCE não responde a governos eleitos, nem a cidadãos. Decide com base em modelos macroeconómicos, projecções inflacionistas e pressões dos mercados. A sua missão não é a prosperidade de cada Estado-membro, mas a estabilidade da moeda — uma moeda que, não tendo dono político, acaba por ser capturada pelas conveniências do mais forte. Os juros sobem ou descem, não em função das necessidades de Lisboa ou Atenas, mas do humor de Frankfurt.

    Este modelo cria uma divisão fundamental entre Estados de dívida soberana e Estados de dívida tutelada. A Alemanha pode emitir dívida sem grande risco de especulação. Portugal, Grécia ou Itália estão permanentemente sob ameaça de reacções adversas nos mercados. O resultado é uma transferência de soberania orçamental: quem quer emitir dívida deve convencer primeiro os mercados — e depois, implicitamente, o BCE. Não há autonomia fiscal sem margem orçamental. E não há margem orçamental sob uma moeda única desenhada sem união política.

    Os Pactos de Estabilidade e Crescimento, os Semestres Europeus, os Programas de Ajustamento, os Planos de Recuperação e Resiliência — todos estes dispositivos transformaram a política orçamental interna numa extensão da política de contenção da inflação. A despesa pública é vigiada, os investimentos são avaliados por critérios de sustentabilidade financeira, as reformas estruturais são exigidas em troca de fundos. A política torna-se contabilidade. E o sufrágio universal, uma formalidade sem alcance real.

    A dependência que daí resulta é mais profunda do que uma simples subordinação técnica – ela corrói a legitimidade interna. Governos eleitos com promessas de investimento público ou de justiça fiscal veem-se impedidos de cumpri-las por constrangimentos externos. Cria-se uma dissonância permanente entre o que se promete em campanha e aquilo que se executa no governo. Os políticos fingem governar; os burocratas fingem não mandar. No meio, o eleitorado afasta-se.

    O euro, longe de ser um instrumento de coesão, funcionou como acelerador de desequilíbrios. Os países periféricos passaram a importar mais do que exportam, acumularam défices externos e viram os seus sectores produtivos fragilizarem-se. Sem possibilidade de ajustamento cambial, a única via de “competitividade” tornou-se a compressão de salários e o desmantelamento de direitos laborais. A famosa “austeridade expansionista” foi um eufemismo para dizer: empobreçam-se os povos para salvar a moeda.

    O caso português é exemplar. Desde a entrada no euro, perdeu-se controlo sobre a moeda, sobre os juros, sobre as reservas. A política orçamental tornou-se prisioneira de metas externas e de agências de rating. A margem para uma política económica contra-cíclica desapareceu. Ficou a retórica europeísta como consolo simbólico. Mas perdeu-se mais do que ferramentas técnicas: perdeu-se a capacidade de decidir com base na realidade nacional.

    Há quem acredite que tudo isto é o preço da integração e que a resposta será mais Europa — uma união fiscal, um governo económico comum. Mas essa proposta ignora a assimetria de interesses dentro da própria União Europeia. Uma união fiscal sem união política será apenas a formalização da tutela. Uma união política sem povo comum será um simulacro de democracia. E enquanto se espera por esse horizonte longínquo, a realidade continua a ser a de Estados que não podem decidir quanto gastar, onde investir, como tributar. Estados amputados da sua vontade.

    Assim, recuperar a soberania fiscal e monetária não é um capricho nacionalista, mas uma exigência democrática. Significa devolver à deliberação política aquilo que nunca deveria ter sido expropriado pela gestão tecnocrática. Significa aceitar que o risco faz parte da liberdade — e que a estabilidade imposta de fora é, muitas vezes, apenas um outro nome para a servidão voluntária.

    A moeda não é neutra. A dívida não é apolítica. O orçamento não é uma mera folha de Excel. São instrumentos de poder, de decisão, de justiça social. E um povo que os entrega sem resistência abdica, não apenas do seu presente, mas da sua possibilidade de futuro.

    4. A soberania sanitária e o novo paradigma bio-administrativo

    Durante séculos, a soberania assentava-se em dois pilares: o território e a autoridade sobre os corpos em caso de conflito — seja através da guerra, seja por meio da justiça criminal. O poder decidia sobre a vida e morte: quem podia matar, quem devia morrer, quem era punível. O Estado exercia o seu domínio por fora do corpo, ou sobre o corpo, mas não a partir de dentro.

    Com o advento da biopolítica — conceito inaugurado por Michel Foucault e actualizado nas suas implicações mais sombrias por Giorgio Agamben —, a soberania desloca-se para um domínio mais insidioso: o da vida nua, do corpo gestionado, do ser humano transformado em vector de risco e unidade estatística.

    A pandemia da COVID-19 não foi a origem desta mutação, mas recentemente comportou-se como um catalisador. De súbito, a gestão da saúde pública passou a sobrepor-se a todas as restantes dimensões da existência política: liberdades suspensas, direitos relativizados, deveres impostos. Não por imposição de um tirano, mas com o aval de peritos, agências sanitárias e instituições supranacionais. A obediência tornou-se uma virtude, e a dúvida — mesmo que científica — foi rotulada de negacionismo. O corpo deixou de ser sujeito político para ser tratado como possível ameaça bioestatística.

    Este novo paradigma — que aqui designo como bio-administrativo — funda-se na tecnocracia médica, mas vai muito além da medicina: é uma fusão entre gestão, estatística, vigilância e narrativa. O risco sanitário substitui o risco político como fundamento da acção governamental. Os cidadãos tornam-se simultaneamente pacientes e suspeitos. A liberdade de movimento, de trabalho, de reunião e até de expressão passou a estar subordinada ao imperativo sanitário, gerido não por parlamentos mas por comités de crise.

    Nada disto se mostra possível sem uma profunda mutação ideológica na percepção do bem comum. Em nome da saúde pública, aceitaram-se restrições impensáveis poucos meses antes. O confinamento compulsivo de saudáveis, o encerramento de escolas, a imposição de injecções periódicas, o rastreio digital de contactos, a segregação de não-vacinados — tudo isto foi normalizado, muitas vezes celebrado. As garantias constitucionais foram suspensas ou reinterpretadas à luz de uma urgência sanitária que passou a ser o novo estado de excepção.

    Esta soberania sanitária não se exerce apenas sobre os corpos, mas sobre os dados dos corpos. A saúde digital, os certificados de vacinação, as plataformas de rastreio e os registos centralizados transformam o cidadão num fluxo contínuo de informação. E essa informação, longe de ser neutra, torna-se fundamento para decisões automatizadas: quem pode viajar, quem pode trabalhar, quem pode entrar num edifício, incluindo num restaurante ou num ginásio. A democracia transforma-se, assim, numa arquitectura condicional: os direitos tornam-se permissões.

    A suposta neutralidade científica que sustenta as decisões é uma das maiores falácias deste novo modelo. O discurso técnico mascarou opções políticas, muitas vezes ideologicamente carregadas. A censura de alternativas terapêuticas, o monopólio narrativo das terapias genéticas catalogadas de vacinas, a criminalização de protestos — tudo foi justificado com base numa autoridade científica tão consensual quanto opaca. E quem ousou divergir, por mais qualificado que fosse, foi ostracizado, silenciado ou até perseguido judicialmente.

    É neste contexto que a soberania sanitária revela o seu verdadeiro rosto: não é a saúde que comanda a política, mas a política que instrumentaliza a saúde para reforçar o seu poder. O corpo torna-se a última fronteira da soberania: um corpo disciplinado, injectado, rastreado, isolado, sacrificado se necessário. A medicina já não cura — administra. E o cidadão já não decide — consente, por vezes impelido a consentir mesmo sem compreender.

    Este paradigma bio-administrativo tem ainda uma dimensão moral. A saúde passa a ser um imperativo ético, e quem o recusa é visto não como alguém com uma opção legítima, mas como um delinquente cívico. A vacinação ou a administração de um fármaco, por exemplo, torna-se um dever social, a máscara um sinal de obediência, o confinamento um acto de solidariedade. A política de saúde converte-se em liturgia, com os seus rituais, dogmas e heresias. E os apóstatas — os que questionam — são tratados como perigos públicos.

    Esta nova forma de soberania é particularmente perigosa porque invisível e até desejada. Não exige polícias nem exércitos — basta uma aplicação, uma directiva sanitária, um boletim epidemiológico. A submissão não é forçada: é interiorizada. O cidadão exige ser controlado, pede que os outros sejam vigiados, denuncia infractores. A servidão é voluntária, porque se acredita estar a salvar vidas.

    Mas o que se perde neste processo é incalculável: perde-se a ideia de que a liberdade é um valor em si, mesmo em tempos de risco. Perde-se o princípio de que o Estado existe para garantir direitos, e não para suspender vidas. Perde-se a distinção entre cuidado e controlo. E ganha-se uma sociedade mais segura, talvez — mas menos humana, seguramente.

    É por isso defender a ponderação da soberania sanitária não é um apelo ao obscurantismo, nem uma recusa da ciência. É, pelo contrário, a exigência de que a ciência permaneça livre, que o debate permaneça aberto, e que a saúde nunca seja usada como cavalo de Tróia para destruir as liberdades que ainda nos restam. A soberania sanitária deve ser, acima de tudo, uma soberania cidadã — não um decreto de emergência perpétua.

    5. Soberania energética e a ideologia da transição verde

    Se outrora a soberania energética significava a capacidade de um Estado controlar as suas fontes de energia, vital para a sua independência económica e até política, gerir os seus recursos estratégicos e garantir o abastecimento em nome da autonomia nacional, o discurso contemporâneo — dominado pela retórica da transição verde — dissolveu essa noção num nevoeiro ideológico. Sob a aparência virtuosa do combate às alterações climáticas, assiste-se hoje à edificação de um novo sistema de dependências, mais difuso e tecnológico, mas não menos assimétrico e coercivo.

    Durante o século XX, a soberania energética estruturava-se segundo os 4S clássicos: Security (Segurança), Sustainability (Sustentabilidade), Supply (Abastecimento) e Smartness (Racionalidade Tecnológica). Estes quatro princípios procuravam equilibrar as dimensões geopolítica, ambiental, económica e científica da energia: garantir fornecimento estável, reduzir a poluição – e não apenas a questão das emissões de dióxido de carbono, mas também a conservação de áreas sensíveis e a qualidade de vida das populações –, assegurar autonomia de recursos e aplicar a inovação com prudência.

    Com a globalização digital e a financeirização da energia, contudo, este equilíbrio foi capturado por lógicas corporativas e tecnocráticas. O poder decisório passou dos Estados para oligopólios tecnológicos e financeiros, que controlam redes, algoritmos e fluxos de dados, substituindo a prudência política pela eficiência algorítmica. O apagão de Abril de 2025 na Península Ibérica veio demonstrar essas fragilidades.

    O abandono progressivo dos combustíveis fósseis é hoje apresentado como um imperativo científico inquestionável, um dogma moral acima de qualquer divergência. Contudo, a substituição do petróleo (um produto demasiado precioso para ser simplesmente como combustível) e do gás natural por energias renováveis e mobilidade eléctrica não dissolve as lógicas geopolíticas da energia — apenas as transmuta. As torres eólicas, os painéis fotovoltaicos e as baterias de lítio não emergem do ar nem se alimentam do sol: dependem de cadeias de valor globais, assentes em matérias-primas críticas, tecnologias proprietárias e processos de extracção frequentemente violentos e ambientalmente agressivos.

    A nova soberania energética não é nacional, mas corporativa. Aquilo que outrora era domínio das políticas públicas tornou-se mercado regulado por fundos de investimento, tratados climáticos e bolsas de carbono. A Europa, que antes edificara a sua segurança energética sobre uma base industrial diversificada, rendeu-se à ‘teologia da neutralidade carbónica’, aceitando como inevitável a dependência de semicondutores asiáticos, de lítio sul-americano, de cobalto africano e de turbinas chinesas. Em nome do clima, sacrificou-se a autonomia e até sectores ambientais relevantes como a preservação de habitats e da paisagem natural.

    Não se trata de negar a necessidade de uma transição energética — mas de questionar o modo como ela é conduzida: verticalmente, sob hegemonia tecnocrática, fora do escrutínio democrático e do debate plural. E com pouco ênfase para a eficiência. A transição verde, em vez de projecto emancipador, tornou-se um processo pós-político, onde as decisões são impostas por agências multilaterais que definem metas, calendários e custos à revelia das comunidades. Qualquer dissidência é rapidamente considerada patológica: quem ousa criticar é rotulado de negacionista climático ou reaccionário energético, anulando-se o espaço para uma ecologia crítica e plural. Mimetiza-se o que se fez na pandemia.

    A retórica verde oculta também a violência material da sua própria infraestrutura. A mineração intensiva de lítio, a expropriação de terras para megaparques eólicos e solares, a precarização laboral e os danos ecológicos são efeitos colaterais silenciados, apresentados como preço inevitável de um futuro limpo. Não há neutralidade quando os custos recaem sobre o Sul global e os benefícios se concentram no Norte financeiro.

    Neste quadro, o conceito de soberania energética converteu-se em ornamento discursivo. Os Estados já não governam os seus recursos: executam agendas internacionais, medindo o êxito não pela resiliência dos cidadãos, mas pela adesão a metas de descarbonização definidas em conferências e gabinetes. A democracia energética cedeu lugar à governança tecnocrática, onde a legitimidade deriva de algoritmos, e não do voto.

    Mais preocupante ainda é o uso do paradigma verde como nova gramática de austeridade. Sob o pretexto da sustentabilidade, impõem-se políticas regressivas: tarifas elevadas, proibição de veículos de combustão, taxação de carbono e imposição de obras coercivas de eficiência habitacional. Os ricos compensam com painéis solares e viaturas Tesla; os pobres pagam a factura da virtude climática. Assim, a transição verde corre o risco de reproduzir as desigualdades que prometia corrigir.

    Há também uma dimensão simbólica nesta nova dependência. A bandeira ecológica tornou-se instrumento de legitimação política, substituindo a promessa de prosperidade pela retórica da sobrevivência. Os governos já não prometem direitos, mas metas ambientais; já não garantem bem-estar, mas salvação climática. A energia, outrora domínio da soberania, transforma-se em credo moral, onde a dúvida é heresia e a obediência é cidadania.

    E, como em todas as cruzadas morais, os lucros concentram-se. Os fundos globais dominam as redes de distribuição, as multinacionais monopolizam a inovação, e as plataformas digitalizam e comercializam a pegada de carbono. O verde deixa de ser cor da terra: é o novo verniz do capital financeiro.

    O verdadeiro desafio, portanto, não é recusar a transição energética, mas repolitizá-la. O combate às alterações climáticas não pode servir de cavalo de Tróia para a erosão da soberania e o agravamento das desigualdades. Uma autêntica soberania energética deve assentar em quatro princípios: diversidade de fontes, resiliência territorial, transparência dos custos e participação cidadã.

    A dependência verde é, na verdade, sempre uma dependência; a soberania amputada é mera gestão da escassez com selo ecológico. Devolver à energia o seu estatuto de bem comum, e não de activo financeiro é, sim, a verdade emergência – e só uma cidadania energética consciente poderá converter o imperativo ambiental em instrumento de liberdade, e não em novo grilhão dourado da servidão tecnológica.

    6. Soberania alimentar e a submissão aos mercados globais

    A alimentação, por mais banal que pareça no quotidiano dos supermercados, é a forma mais íntima de dependência de um cidadão face ao seu Estado. A soberania alimentar, portanto, não é uma questão de agricultura nem de ambiente — é uma questão de poder. E, como acontece frequentemente na história dos impérios, a perda de controlo sobre os alimentos assinala a queda silenciosa da soberania.

    No discurso político contemporâneo, a expressão “segurança alimentar” tornou-se uma espécie de calmante semântico, como se estivesse em causa uma mera classificação biológica. Tudo parece garantido desde que os lineares estejam cheios. Mas o que se omite neste conforto aparente é o seguinte: os alimentos chegam, mas a que custo? De onde vêm? Quem os produz? O que se adiciona? Quem os controla? E sobretudo: quem define o que comemos e como comemos?

    A globalização dos sistemas alimentares criou uma estrutura em que as cadeias de produção são tão longas quanto opacas. Um tomate consumido em Lisboa pode ter sido produzido com sementes patenteadas por uma multinacional suíça, cultivado em estufas espanholas com mão-de-obra marroquina, embalado na Holanda e distribuído por uma cadeia sediada na Alemanha. Nada neste processo é soberano. Tudo é funcional a um mercado global onde as decisões são tomadas por empresas cotadas e intermediários logísticos. Os Estados limitam-se a assegurar que não haja protestos populares — ou, quando muito, no limite, que haja alimentos suficientes para as escolas e os quartéis.

    Esta submissão é frequentemente disfarçada de modernidade. Fala-se em eficiência da globalização, em segurança no controlo alimentar, em produtividade, em livre comércio. Mas por trás desta retórica, oculta-se a verdade crua: a dependência alimentar da Europa — e de Portugal em particular — é estrutural, estratégica e crescente. Por exemplo, a produção nacional de cereais é anémica, com excepção do arroz, a balança comercial de bens alimentares é deficitária, e as políticas agrícolas são cada vez mais determinadas por directivas comunitárias negociadas entre gabinetes e lobbies, em Bruxelas, onde a terra é apenas uma abstração.

    A Política Agrícola Comum (PAC), que foi frequentemente apresentada como um pilar de coesão europeia, tem funcionado sobretudo como um instrumento de uniformização e submissão dos sistemas produtivos nacionais. Sob o pretexto de eficiência e competitividade, a PAC impôs quotas, penalizações e modelos de financiamento que favorecem grandes explorações mecanizadas e penalizam o agricultor tradicional, aquele que, com o corpo e o saber, sustenta a fertilidade de uma comunidade. Em Portugal, a PAC contribuiu para a liquidação do sector pesqueiro e leiteiro tradicional, o abandono da cultura cerealífera e a reconversão forçada de zonas produtivas em áreas de conservação “passiva”, geridas por burocratas e organizações não-governamentais que vivem do culto do “reverdecer sem cultivar”.

    Mas o problema não é apenas externo. A degradação da soberania alimentar é também cultural e institucional. A pressão regulatória, ambiental e sanitária sobre os pequenos e médios produtores tem conduzido à desertificação rural e ao colapso de estruturas locais de produção. A agricultura de proximidade é tratada como folclore ecológico, boa para feiras de fim-de-semana e relatórios de responsabilidade social. O modelo dominante é o da agricultura intensiva para exportação — ou da monocultura subsidiada —, gerida por operadores financeiros mais interessados em fluxos de capital do que em alimentos.

    É nesta lógica que se impõe a ditadura do “custo por quilo” ou do “preço à saída da fábrica”, como se a alimentação de um povo devesse ser gerida com os critérios de uma cadeia de montagem. A qualidade nutricional, a resiliência do território, a justiça intergeracional ou a saúde pública tornam-se externalidades ignoradas. E quando surgem crises — guerras, pandemias, disrupções logísticas —, descobre-se que não há cereais suficientes, que os fertilizantes vêm todos de fora, que os circuitos de distribuição estão concentrados, que os preços disparam e que o país é apenas um entreposto.

    A própria relação com os alimentos tornou-se precária e artificial. O saber culinário — que outrora garantia variedade, aproveitamento e saúde — foi substituído por uma dependência de alimentos ultra-processados, formatados para vício e longevidade de prateleira. A perda da soberania alimentar começa também na ignorância do que se come. E continua na renúncia voluntária a cozinhar, a plantar, a guardar sementes, a cuidar do solo e a conhecer o seu ciclo.

    Mais recentemente, a subordinação alimentar assumiu contornos ainda mais inquietantes com a entrada em cena das novas narrativas tecnológicas: agricultura de precisão, carnes sintéticas, proteínas de insecto, agricultura vertical, alimentos geneticamente modificados. Tudo é apresentado como solução moderna e inevitável – e sempre com um selo científico. Mas quem controla estas tecnologias? Quem detém as patentes? Quem define as normas? A promessa de inovação serve, muitas vezes, para encobrir uma nova camada de dominação — agora biotecnológica — sobre os sistemas alimentares. A soberania, outrora exercida pela terra e pelas mãos, cede agora lugar ao algoritmo e à licença.

    Estas novas formas de controlo alimentar têm ainda uma componente neocolonial. Os países do Sul global são, cada vez mais, tratados como “armazéns vivos” de terras aráveis, aquíferos e mão-de-obra barata. Os fundos soberanos, multinacionais alimentares e grandes investidores de tecnologia agrícola compram, em silêncio, milhões de hectares em África, Ásia e América Latina. Aquilo que aí se produz já não alimenta os povos locais — alimenta os mercados de capitais e as projecções de lucros dos fundos de investimento. E esta apropriação silenciosa da terra reverte-se, num dia, em chantagem alimentar sobre os que, nas cúpulas diplomáticas, dizem querer combater a fome no Mundo.

    E não faltam novos sacerdotes deste culto alimentar: consultores do Fórum Económico Mundial, filantrocapitalistas entusiastas da agricultura sem solo, ecologistas que pregam o fim da pecuária e da cozinha tradicional, políticos que recitam metas de sustentabilidade sem nunca ter plantado um nabo. Todos dizem agir pelo bem do planeta, mas raramente pelo bem do cidadão concreto, que apenas quer pão digno, carne limpa, leite de verdade, preços justos e um campo vivo.

    A soberania alimentar, em sentido estrito, não significa auto-suficiência integral – estamos muito preconizar políticas na linha da famigerada Campanha do Trigo que devastou campos agrícolas no Alentejo durante o Estado Novo. Significa, isso sim, a capacidade de um povo determinar o seu modelo agrícola, proteger os seus produtores, garantir o acesso justo aos alimentos e decidir, sem imposições externas, aquilo que come e o que recusa comer. Significa também saber dizer não à chantagem das sanções, aos diktats dos tratados de comércio, às imposições fitossanitárias que mascaram guerras económicas. E significa recusar a lógica que transforma a alimentação numa, em mais uma, mercadoria volátil ao sabor dos mercados de futuros.

    Reabilitar a ideia de soberania alimentar como pilar de independência política é, por isso, uma prioridade. Um povo que não se alimenta a si mesmo não decide por si mesmo. Um Estado que não protege os seus produtores entrega-se, aos poucos, à servidão económica. E uma sociedade que aceita comer o que lhe mandam, não perde apenas um dos pilares da sua soberania – perde o último resquício de liberdade.

    7. Soberania digital e o império dos algoritmos

    A soberania, que outrora se media pelo controlo da moeda, do território ou das fronteiras, é hoje silenciosamente dissolvida nos cabos de fibra óptica, nos servidores remotos e nos centros de decisão algorítmica que orbitam acima da soberania clássica dos Estados. Aquilo a que se chama “transformação digital” é, na sua essência, uma operação de desmaterialização do poder, mas não da sua concentração. A materialidade do mundo político cedeu espaço à opacidade do ciberespaço, e a democracia passou a ser modulada por métricas, plataformas e inteligências artificiais que não prestam contas a ninguém — excepto aos seus accionistas. E são inalcançáveis aos cidadãos.

    Quando se diz que os dados são o novo petróleo, diz-se mais do que se imagina. O petróleo serviu para alimentar a revolução industrial, mas também para cimentar hegemonias e alimentar guerras. Os dados não são diferentes. São matéria-prima, mas também instrumento de controlo. E os Estados que não controlam os seus dados, nem as infra-estruturas onde eles circulam, tornaram-se protectorados tecnológicos, mesmo que mantenham as cores da sua bandeira e os hinos da sua soberania.

    O cidadão médio, iludido pela ubiquidade do digital, imagina-se mais livre por ter mais acesso à informação, mais meios de comunicação, mais serviços online. Mas esta aparente emancipação é, na verdade, uma nova forma de sujeição. A economia da atenção extrai da mente humana o seu rendimento mais cobiçado — o comportamento previsível. Através de sistemas de vigilância consentida, as grandes plataformas analisam padrões, antecipam decisões, moldam preferências e, a pouco e pouco, anulam a liberdade. A manipulação algorítmica não é ficção distópica — é prática corrente.

    O modelo das plataformas é hoje a forma dominante de organização digital, e a sua arquitectura não é neutra. Foi desenhada para maximizar lucros por via da captura de dados, da modulação do comportamento e da intermediação de relações. A própria linguagem da rede — os gostos, as partilhas, os seguidores — transformou-se em sistema simbólico de legitimação, onde o mérito foi substituído pela visibilidade e a verdade pelo engajamento. O algoritmo substituiu o editor. E quando o algoritmo se torna a autoridade editorial, a censura deixa de ser um acto explícito: torna-se um desvio estatístico.

    Não há aqui apenas um problema de concentração económica. Há um problema de concentração civilizacional. Nunca, em tempo algum, meia dúzia de empresas privadas teve tanto poder sobre a linguagem, a memória, a comunicação e a imaginação de biliões de seres humanos. E nenhuma destas empresas é europeia. O velho continente, ao abdicar da sua soberania digital, colocou-se numa posição de subalternidade histórica, à semelhança de colónias tecnológicas que importam ferramentas, lógicas e dependências, sem ousar construir alternativas.

    Os governos, quando não colaboram, acobardam-se. Em nome da segurança digital, da inovação ou da luta contra o “discurso de ódio”, crimes de pornografia infantil ou abusos de opinião, aceitam mecanismos de vigilância e de filtragem de conteúdos que nunca passariam por referendo popular. Delegam nas plataformas privadas o policiamento da linguagem, entregam dados sensíveis a operadores externos e compram sistemas críticos a fornecedores estrangeiros. A soberania digital, entendida como a capacidade de um Estado garantir o controlo estratégico das suas redes, dos seus dados e das suas infra-estruturas, é sacrificada em nome da conveniência.

    Durante a pandemia, este processo acelerou-se de forma brutal. Os passaportes sanitários digitais, os sistemas de rastreio, a monitorização de movimentos e a partilha compulsiva de dados médicos tornaram-se normalizados. A privacidade foi tratada como luxo burguês ou excentricidade conspirativa. Quem questionava os mecanismos digitais de controlo era silenciado, rotulado, banido. O que era provisório tornou-se estrutural. E as populações habituaram-se a não decidir, mas apenas a clicar.

    Mas a perda de soberania digital não é apenas uma questão de governança técnica – é um problema filosófico. A substituição da mediação humana por sistemas automatizados implica uma nova ontologia do poder. O algoritmo não apenas executa uma ordem: interpreta, decide, antecipa. A inteligência artificial, mesmo quando limitada, actua como filtro da realidade e, por conseguinte, como poder constituinte. E se esse poder não é sujeito a controlo democrático, então temos uma nova forma de tirania — uma tirania sem rosto.

    Repare-se como os sistemas de inteligência artificial já são usados para decidir sobre crédito bancário, admissões universitárias, prioridades de tratamento médico e medidas de vigilância policial. E como, perante decisões erradas ou discriminatórias, não há responsabilidade pessoal: o erro é do sistema, que não pode ser julgado, nem processado, nem removido por voto. Cria-se assim uma imunidade estrutural, onde os novos tiranos não usam uniforme nem ceptro, mas código e contrato de adesão.

    Recuperar o conceito de soberania digital como parte integrante da soberania política é um dos desafios dos próximos anos. Isso implica exigir transparência algorítmica, limitar a concentração de plataformas, proteger dados sensíveis, reforçar infra-estruturas públicas de comunicação e, acima de tudo, promover uma cultura de autonomia tecnológica. Um país que não domina os seus sistemas digitais – e isso já se verifica, uma vez que, por exemplo, a ANACOM não tem intervenção diercta sobre as plataformas – está condenado a ser governado por entidades que não controla de facto por mais regulação e ameaças de multa que prometa.

    Mais do que “inclusão digital”, o que mais falta é uma independência digital. Mais do que “competências digitais”, o que se precisa é de visão estratégica. A Europa, em particular, tem de decidir se quer ser uma colónia digital dos Estados Unidos e da China, ou se pretende construir uma civilização tecnológica própria, assente nos seus valores — incluindo o da liberdade.

    E para isso, talvez seja preciso recusar o encantamento com a inovação pelo simples facto de ser nova. Nem toda a tecnologia é emancipadora. Nem todo o progresso é libertador. A soberania digital, enquanto condição de liberdade, exige não só engenharia, mas também coragem intelectual e vontade política. Exige dizer não ao servilismo tecnológico, e sim a uma nova ideia de civilização — onde os algoritmos não sejam senhores, mas servos.

    8. Soberania institucional e o ocaso da legitimidade democrática

    Uma instituição viva não se distingue de uma estrutura decadente por via de uma longevidade formal, nem pela pompa dos seus rituais, mas sim pela confiança que nela depositam os cidadãos que a sustentam. Por isso, uma democracia, enquanto arquitectura institucional, depende menos de sufrágios e mais de legitimidade. Mas essa legitimidade está hoje profundamente corroída no mundo ocidental — não por golpes de Estado, ou por riscos dessa natureza, mas por um longo processo de esvaziamento simbólico e captura funcional. Hoje, as instituições continuam de pé, mas muitas já não se têm de pé.

    O apelo contemporâneo à “estabilidade”, à “transparência” e ao “progresso” transformou-se, paradoxalmente, num instrumento de legitimação da excepção política. Em nome da estabilidade, legitimaram-se na Europa governos tecnocráticos sem mandato popular directo, como na Itália de Mario Monti ou na Grécia de Lucas Papademos, ambos investidos em 2011 por via parlamentar e sob tutela da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu, quando o discurso da urgência financeira permitiu suspender a lógica representativa. Em nome da transparência, aceitaram-se decisões opacas de organismos supranacionais, que fixam directrizes políticas sem qualquer sufrágio. E, em nome do progresso, normalizou-se a imposição de políticas públicas — fiscais, sanitárias ou ambientais — por peritos não eleitos, cujo saber técnico se tornou uma nova forma de autoridade moral.

    Esta mutação semântica — em que valores emancipatórios são invocados para restringir a deliberação colectiva — representa um dos traços mais insidiosos da modernidade política. O filósofo alemão Jürgen Habermas descreveu este fenómeno como a “colonização do mundo da vida”: o momento em que a racionalidade burocrática e económica subjuga a comunicação pública, substituindo o diálogo pelo imperativo técnico. A estabilidade e o progresso, outrora promessas de emancipação, converteram-se afinal em narrativas de contenção, justificando governos de excepção.

    Em Portugal, esta inversão atingiu o seu ponto mais visível durante a intervenção da troika (2011–2014). Sob o pretexto da salvação nacional, impuseram-se reformas estruturais — cortes salariais, privatizações e desmantelamento de serviços públicos — sem mandato eleitoral e sob condicionalismos externos. As eleições mantiveram-se, mas a soberania material foi transferida para instâncias externas, num modelo que aparentava legalidade democrática, mas operava segundo lógicas de tutela. Um padrão semelhante reapareceu durante a crise pandémica, quando restrições severas de direitos fundamentais foram legitimadas por autoridades sanitárias e comités científicos, frequentemente imunes a escrutínio.

    O pensador italiano Giorgio Agamben identificou neste tipo de situações a consolidação do “estado de excepção permanente”: um regime em que a suspensão temporária da norma se torna condição habitual do poder. E se outrora a excepção era uma resposta transitória ao caos, hoje ela ameaça ser a gramática da governação. A autoridade democrática dissolve-se na gestão de crises, e o cidadão é convidado a obedecer em nome da sua própria protecção.

    Neste cenário, a crítica e a contestação social, que constituem a essência da cidadania, são frequentemente requalificados como desvios. Quem exige escrutínio, contesta consensos ou questiona a retórica da inevitabilidade é rotulado de “populista”, “negacionista” ou “antissistema”. Este mecanismo de deslegitimação cumpre uma função disciplinadora: neutraliza a divergência e restaura o monopólio interpretativo das elites políticas e mediáticas, ainda mais quando a própria comunicação social se encontra, cada vez mais, sequestrada financeiramente por grupos económicos associados ao poder político.

    Contudo, o verdadeiro problema não se encontra na desobediência dos povos, mas na deslealdade das instituições face ao seu pacto fundacional. Como advertiu o pensador francês Pierre Rosanvallon, as democracias correm o risco de se transformar em “contrademocracias invertidas” — isto é, sistemas em que o voto permanece, mas o poder de decidir se esvai. As estruturas políticas tornam-se autorreferenciais, orientadas não pelo bem comum, mas pela autopreservação.

    Em Portugal, este desvio tem-se manifestado na crescente delegação da decisão soberana em agências reguladoras, tribunais e peritos sob a forma de task forces ou comissões – supostamente independentes, mas quase sempre controladas –, cujos critérios escapam ao controlo público. Sob a aparência da competência técnica, esconde-se uma lógica de distanciamento democrático. O cidadão, reduzido a espectador, é convidado a confiar em vez de deliberar. E quando o consentimento substitui o juízo, o espaço público converte-se num ritual vazio.

    O sociólogo alemão Ulrich Beck defendia que vivemos já na “sociedade do risco”, em que o medo se torna agora um método de governo. A antecipação do perigo — financeiro, sanitário, climático — serve de justificação para medidas extraordinárias: governa-se pelo alarme, e o medo converte-se em legitimidade.

    A crise das democracias, portanto, não é uma crise de participação, mas de representação e responsabilidade. O desafio do nosso tempo é restituir sentido político às instituições, reconectando-as ao juízo cívico e à pluralidade de vozes que lhes dá legitimidade. A estabilidade não pode ser pretexto para abdicar da soberania; a transparência não pode servir de cortina à opacidade; e o progresso não pode impor-se por decreto. Enquanto o contraditório for tratado como heresia, a democracia será apenas um eco do poder, e não a sua medida. As democracias liberais do pós-guerra construíram-se sobre a ideia de representação, separação de poderes, garantias de direitos e controlo público da autoridade. No entanto, à medida que a globalização e o neoliberalismo se tornaram hegemónicos, essas instituições foram sendo adaptadas a uma nova realidade em que a política se subordinou à tecnocracia e o eleitor se transformou num espectador irrelevante.

    A União Europeia é, neste ponto, um caso de estudo: o Parlamento não tem iniciativa legislativa, a Comissão não é eleita, o Conselho decide à porta fechada. A soberania institucional foi sacrificada à eficiência burocrática. Em simultâneo, os parlamentos nacionais foram-se tornando caixas de ressonância de partidos cartelizados, mais atentos às sondagens do que à soberania popular. A separação entre poder executivo e legislativo diluiu-se, a fiscalização perdeu vigor, e os poderes de controlo — como tribunais, entidades reguladoras ou órgãos de comunicação social — passaram a agir em simbiose com o poder, não como seu limite. O sistema deixou de ser um jogo de pesos e contrapesos e tornou-se um circuito fechado de legitimação mútua.

    Na administração pública, a situação é igualmente preocupante. A lógica de “governança” substituiu a ideia de serviço público, transformando direcções-gerais em plataformas de execução de políticas externas ou interesses corporativos. A permeabilidade a grupos de pressão e fundações ditas “filantrópicas” compromete a independência decisória, e os organismos de supervisão são frequentemente habitados pelos próprios supervisionados, numa dança de cadeiras que anula qualquer aparência de imparcialidade.

    Mas o mais grave é que esta erosão institucional decorre muitas vezes com o aplauso — ou a indiferença — da cidadania. Viciada no ruído mediático, absorvida por escândalos episódicos, anestesiada por políticas identitárias superficiais, a opinião pública deixou de exigir responsabilidade estrutural. Substituiu a crítica pela indignação – amiúde apenas nas redes sociais –, a acção pela denúncia moral, a participação pelo comentário. E as instituições, percebendo isso, adaptaram-se: tornaram-se mais performativas, mais mediáticas, mais decorativas.

    No plano internacional, a subordinação das instituições democráticas a organismos multilaterais de contornos nebulosos acelerou a perda de soberania real. Decisões com impacto directo na vida dos cidadãos — como políticas sanitárias, fiscais ou ambientais — são frequentemente tomadas em fóruns onde não há representantes eleitos nem mecanismos de escrutínio. A democracia nacional torna-se uma ficção mantida por rotinas eleitorais, enquanto o essencial do poder escapa à deliberação popular.

    Esta crise de legitimidade não é invisível: manifesta-se também em taxas crescentes de abstenção, desconfiança nas instituições, voto de protesto em partidos populistas e surgimento de movimentos alternativos — alguns genuinamente democráticos, outros perigosamente oportunistas. Mas a resposta institucional tem sido, quase sempre, reforçar os mecanismos de blindagem: criminalização da contestação (mesmo que apenas por palavras), censura disfarçada, reformas eleitorais que limitam a pluralidade, concentração dos media em grandes grupos, cooptação de movimentos sociais. Em vez de ouvir o clamor popular, o poder instituído procura abafar-lhe o eco.

    E, contudo, mesmo assim há resistências. Há cada vez jornais de nicho, com linhas editoriais livres. Há plataformas jurídicas e académicas que desmontam narrativas oficiais e expõem as contradições normativas. Há cidadãos que, mesmo sem rede nem tribuna, insistem em escrever cartas, organizar debates, contestar decretos. São minorias — mas são esses elementos que preservam a ideia de que as instituições não são apenas mecanismos, mas formas de dignidade colectiva.

    Se observarmos bem, a soberania institucional começa por uma ideia simples: a de que o poder deve prestar contas. E que não basta ser legal — é preciso ser legítimo. Ora, a legitimidade exige transparência, participação, pluralismo, justiça e memória. Quando as instituições se tornam opacas, exclusivas, dogmáticas, punitivas ou amnésicas, deixam de ser democráticas, mesmo que conservem os nomes e os edifícios. Passam a ser simulacros.

    Recuperar a soberania institucional não é uma tarefa administrativa — é uma missão civilizacional. Exige reconquistar o valor da palavra dada, o peso da responsabilidade, a coragem da dissidência, a centralidade do bem comum. Exige que se diga, sem medo nem cálculo, que o rei vai nu — e que há mais dignidade na verdade solitária do que na mentira partilhada.

  • Alterações climáticas: a explicação preguiçosa

    Alterações climáticas: a explicação preguiçosa


    As alterações climáticas (AC) estão na ordem do dia e são, cada vez mais, invocadas para justificar todo o tipo de “acontecimentos”, desde grandes incêndios a fenómenos meteorológicos supostamente atípicos, passando por inundações, secas, etc. Sempre que acontece um evento com características anormais, logo aparece alguém a classificar o fenómeno como “extremo” e a atribuir a culpa às AC, deixando implícita a ideia de que, se não fossem as AC, não haveria cataclismos naturais nem sobressaltos causados pelos elementos.

    Não há grandes dúvidas de que o clima está a mudar e que isso tem consequências para a humanidade e também para a vida selvagem. Contudo, se por um lado é verdade que as AC acarretam diferentes impactos, alguns deles bastante sérios, tal não significa que tudo o que muda à nossa volta a elas se deva. Apontar acriticamente o dedo às AC para explicar todo e qualquer fenómeno é uma abordagem preguiçosa, porém conveniente: as AC são aquele “inimigo sem rosto” que serve de saco de pancada e arca com todas as culpas sem se queixar. Deste modo, dispensa-se a busca por responsabilidades mais concretas.

    a group of seagulls sitting on a white fence

    O problema desta abordagem, já de si cientificamente muito questionável, é que coloca o foco nas AC e ofusca outros factores que podem ser tão ou mais relevantes.

    Um dos temas que tenho acompanhado com atenção é o da distribuição das aves selvagens na Europa. Ao longo das últimas décadas, os padrões de distribuição de muitas espécies têm vindo a alterar-se bastante, havendo umas a expandirem-se e outras a regredirem.

    A explicação preguiçosa diz que tais variações acontecem “obviamente” por causa das AC. A teoria resume-se assim: com o aquecimento global, as zonas de conforto das espécies, isto é, as áreas geográficas em que cada uma delas encontra condições favoráveis de sobrevivência, vão-se deslocando para norte e, portanto, é expectável que as áreas de distribuição sofram uma expansão a norte (à medida que fica menos frio em latitudes elevadas) e uma contracção a sul (onde vai ficando demasiado quente e mais seco).

    Ou seja, supostamente as aves respondem às AC movendo-se para norte, podendo assim continuar a beneficiar das condições óptimas. Este raciocínio, aparentemente lógico, assenta numa premissa errada: a de que, num cenário sem AC, as áreas de distribuição das aves se manteriam estáveis. Todavia, a realidade é bastante diferente, pois há outros factores que condicionam fortemente as distribuições.

    O segundo atlas europeu de aves nidificantes, ou European Breeding Bird Atlas (EBBA2), publicado em 2020, expõe detalhadamente as alterações registadas desde o EBBA1, realizado na década de 1980. Os mapas que se seguem foram retirados do site do EBBA2.

    Exemplo 1: o abelharuco (Merops apiaster)

    Ao longo das últimas duas décadas, o abelharuco teve uma forte expansão para norte na Europa e ocupou diversos países em latitudes temperadas. Esta espécie sido mencionada por diversos autores como um caso típico de uma ave que se expandiu para norte como consequência das AC. O efeito parece algo exagerado, porque, mesmo com algum aquecimento, as temperaturas na Alemanha estão, ainda hoje, bastante abaixo das que se registavam no Mediterrâneo há 40 anos.

    Mapa comparativo da distribuição do abelharuco; a azul as quadrículas onde a espécie apareceu do EBBA1 para o EBBA2, a laranja onde desapareceu entre os dois atlas e a cinzento onde se manteve.

    Exemplo 2: o tordo-ruivo (Turdus iliacus)

    Há quarenta anos, o tordo-ruivo, espécie típica do norte da Europa, nidificava em diversas zonas temperadas europeias: Polónia, Chéquia, Eslováquia, Alemanha (incluindo nos Alpes) e Inglaterra. Hoje quase desapareceu como espécie nidificante de todos estes países e a sua área de distribuição abrange a Escócia, os países nórdicos, os países bálticos e a Bielorrússia. A área de distribuição deste tordo está claramente a deslocar-se para norte. Terá a Europa central ficado demasiado quente para esta espécie?

    Mapa comparativo da distribuição do tordo-ruivo; a azul as quadrículas onde a espécie apareceu do EBBA1 para o EBBA2, a laranja onde desapareceu entre os dois atlas e a cinzento onde se manteve.

    Os dois exemplos anteriores parecem confirmar a teoria apresentada, seja com expansões a norte ou com contracções a sul. Contudo, quando continuamos a ver mapas, surgem algumas dúvidas.

    Exemplo 3: o rolieiro (Coracias garrulus)

    O caso do rolieiro não se encaixa na lógica acima descrita. Efectivamente, o mapa desta ave revela que se tem registado um aumento da presença a sul, e não a norte: repare-se como as novas quadrículas estão sobretudo na orla do Mediterrâneo e do Mar Negro. Além disso, as quadrículas onde a espécie desapareceu, ainda que distribuídas um pouco por todo o continente, surgem em maior número na metade norte da área de ocorrência, seja na metade norte da Península Ibérica, seja acima de tudo no leste europeu.

    Claramente, o “centro de gravidade” do rolieiro moveu-se para sul, como que desafiando a narrativa segundo a qual as espécies se deslocariam para norte com o aumento das temperaturas. Poderia este ser um caso isolado, mas não é.

    Mapa comparativo da distribuição do rolieiro; a azul as quadrículas onde a espécie apareceu do EBBA1 para o EBBA2, a laranja onde desapareceu entre os dois atlas e a cinzento onde se manteve.

    Exemplo 4: o picanço-de-dorso-ruivo (Lanius collurio)

    Este picanço é uma espécie escassa em Portugal. Historicamente só era conhecido das terras altas do norte, mas, em anos recentes, têm sido detectados novos núcleos cada vez mais para sul, havendo já vários casos de nidificação a sul do rio Douro. Na vizinha Espanha, o terceiro atlas de nidificantes dá conta de uma expansão semelhante para sul, com ocupação do Sistema Central.

    O mapa do EBBA2 mostra também que a espécie está a regredir mais a norte, nomeadamente no Reino Unido (de onde praticamente desapareceu) e em várias zonas da Escandinávia, e a leste, como na Itália e na Grécia. A situação em Espanha parece contrariar a narrativa dominante e o atlas espanhol apresenta uma interpretação bizarra: reconhece a expansão para sul, mas salienta que os modelos baseados nos efeitos previstos das AC prevêem uma forte contracção deste picanço nas próximas décadas para as zonas altas e frias.

    E se essa contracção não se verificar e a expansão para sul continuar, quanto tempo será necessário até os autores aceitarem a realidade e admitirem que os modelos baseados apenas em AC precisam de ser revistos?

    Mapa comparativo da distribuição do picanço-de-dorso-ruivo; a azul as quadrículas onde a espécie apareceu do EBBA1 para o EBBA2, a laranja onde desapareceu entre os dois atlas e a cinzento onde se manteve.

    Estes quatro exemplos foram seleccionados, entre várias centenas de espécies de aves, para ilustrar diferentes situações de alterações registadas nas áreas de distribuição. Claro que a interpretação destas variações e as conclusões que daí resultam dependerão sempre do conjunto de exemplos escolhidos.

    Assim, e para eliminar o inevitável enviesamento resultante de uma amostra pouco representativa, nada melhor que olhar para os resultados globais, isto é, para o conjunto de todas as espécies registadas no atlas, que são muitas centenas. Estes resultados foram apresentados publicamente pela equipa que organizou o EBBA2, num workshop realizado em Dezembro de 2020 e cuja gravação está disponível online.

    O orador Aleksi Lehikoinen que apresentou os resultados globais do projecto (1h19m a 1h29m) exibiu um gráfico de barras, no qual se representa o número de espécies cuja distribuição se moveu para norte e para sul, bem como a distância média de deslocamento.

    Variações latitudinais nas áreas de distribuição, registadas entre o EBBA1 e o EBBA2.

    Os resultados são surpreendentes: embora em termos globais haja uma ligeira deslocação para norte à velocidade média de 1 km por ano, o próprio orador releva o facto de 42% das espécies se terem deslocado para sul e reconhece que este resultado é bastante diferente do que a equipa esperava. Como interpretar que haja tantas espécies a deslocarem-se em sentido contrário ao que “era suposto”? A conclusão óbvia, segundo o próprio, é a de que haverá outros factores em jogo para além das AC e que será necessário estudar de perto esses factores, para os compreendermos melhor.

    As alterações climáticas são, sem dúvida, um aspecto a ter em conta na avaliação das políticas ambientais, mas é essencial não esquecermos que elas representam apenas uma parcela numa equação complexa, da qual fazem parte outros factores limitantes – no caso das aves, há a considerar as alterações de uso do solo, a perturbação, a introdução de espécies exóticas e o abate intencional. Não devemos, pois, cair no erro de tirar conclusões precipitadas com base em pressupostos simplistas, desconsiderando outros aspectos que são igualmente relevantes, caso contrário estaremos não apenas a fazer má ciência, como também a alimentar ilusões acerca da forma como evolui o mundo que nos rodeia.

    Gonçalo Elias é ornitólogo, com uma vasta bibliografia de livros de divulgação de aves.


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