Categoria: Opinião

  • Psicologia, ou a Casa Verde da doutora Sofia Ramalho

    Psicologia, ou a Casa Verde da doutora Sofia Ramalho


    Há corporativismos discretos, há corporativismos ruidosos e depois há o corporativismo da Ordem dos Psicólogos, presidida pela doutora Sofia Ramalho, que parece determinada a reeditar, em pleno século XXI, a Casa Verde de Itaguaí. Tal como Simão Bacamarte, acredita que só ela e o seu círculo de devotos compreendem a realidade e definem aquilo que é ciência e método científico e o que é permitido aos comuns mortais pensar.

    O artigo que publicou hoje no Expresso é disso prova eloquente: uma defesa audaciosa — e totalmente infundada — do uso do Personality Assessment Inventory (PAI) para seleccionar juízes e procuradores, como se Portugal estivesse prestes a liderar uma revolução psicométrica que nem os países mais experimentais do planeta ousaram tentar.

    Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses

    É revelador que a bastonária não responda ao essencial. Como é possível que um método supostamente rigoroso, aplicado por uma equipa supostamente experiente, tenha produzido tal hecatombe que uma segunda avaliação reverteu nove em cada dez exclusões feitas pela empresa do seu amigo Mauro Paulino — ele próprio membro do Conselho Jurisdicional da Ordem?

    O simples enunciado desta pergunta dispensaria qualquer comentário adicional. Mas não: Sofia Ramalho prefere ignorá-la. Não responde porque não pode; não justifica porque não há justificação que resista à matemática; e, para escapar ao fiasco, recorre ao expediente clássico dos fracos argumentadores, desviando a discussão para onde a poeira é mais densa e mais conveniente.

    Insiste em dar lições de psicometria a quem não as pediu, como se a incompetência metodológica pudesse ser compensada com uma avalanche de jargão. Segundo a bastonária, o problema não está na grelha de avaliação, nem na escolha dos instrumentos, nem na metodologia aplicada, mas nas “interpretações” dos leigos, da ministra, dos juristas, dos candidatos e — inevitavelmente — do jornalista que ousou perguntar o que não devia. É a velha táctica da autoridade que se substitui à evidência, da condescendência que se sobrepõe ao escrutínio. Se alguém não concorda, é porque não percebe. Um truque tão antigo como medíocre.

    Mauro Paulino, comentador televisivo e psicólogo, aplicou uma avaliação que chumbou dezenas de candidatos ao CEJ, mas uma segunda avaliação, por equipas de psicólogos, reverteu nove em cada 10 ‘chumbos’

    Mais grave é a forma como ela tenta deslocar a crítica para um plano emocionalmente confortável, insinuando que o questionamento do uso do PAI equivale a colocar “a Psicologia no banco dos réus”. Nada mais falso. Aquilo que está em causa não é a Psicologia, mas o mau uso de um instrumento específico — um teste desenhado para contextos clínicos e forenses, destinado a avaliar psicopatologias, fronteiras diagnósticas, imputabilidade, risco de reincidência ou adequação parental.

    Andei a pesquisar — e não existe, em nenhum país do mundo, um único caso em que o PAI seja utilizado para seleccionar candidatos ao ingresso de escolas de magistrados. E só encontrei um que o aplique a magistrados: no Equador, este teste é aplicado a quem queira ir para a luta anti-corrupção. Deve estar a dar um resultado fantástico, visto que o Equador ocupa a posição 121, entre 180 países, no Índice de Percepção da Corrupção da Transparency International. A Dinamarca, a Finlândia, Singapura, a Nova Zelândia, a Suíça, a Noruega, o Luxemburgo, a Suécia, a Holanda e a Austrália — que estão no top 10 dos países com menor percepção de corrupção — deviam já contratar o doutor Mauro Paulino e a sua ‘advogada’ Sofia Ramalho para melhorarem ainda mais a performance dos magistrados com o PAI.

    Além de tudo isto, a bastonária confunde uma racionalização apressada com ciência, numa tentativa desastrada de justificar um erro monumental. E, pior ainda, varre do seu texto, com um silêncio ensurdecedor, o resultado da segunda equipa de psicólogos, igualmente credenciada, igualmente formada, igualmente conhecedora de psicometria — e até escolhida pela própria Ordem dos Psicólogos — que invalidou quase tudo o que fora feito na primeira fase com a empresa do seu amigo Mauro Paulino. Quando 90% das exclusões são revertidas, não estamos perante interpretações “leigas”: estamos perante um falhanço metodológico de proporções épicas, que deveria preocupar qualquer pessoa que, de facto, preze o rigor científico

    Algumas perguntas do PAI: m inquérito perfeitamente desajustado ao objectivo, com uma Ordem dos Psicólogos incapaz de admitir o óbvio por uma questão corporativa.

    Ao invés, Sofia Ramalho prefere transformar o desastre numa pirueta retórica. Tudo está errado — menos, claro, o que ela defende. O problema nunca está na primeira avaliação: está, presume-se, na segunda, ou nos candidatos, ou na comunicação social, ou na ministra, ou no CEJ, ou no clima, ou no alinhamento dos astros. A única coisa que não pode estar errada é aquilo que ela decidiu proteger. E para isso corre para o Expresso, porto de abrigo habitual das teses frágeis que precisam de acolhimento acrítico. É uma estratégia antiga: quando o argumento é fraco, procura-se o conforto de uma imprensa que não faz perguntas difíceis. O Expresso, sempre pronto a confundir solenidade com autoridade, dá-lhe o palco. E ela aproveita-se.

    O texto da bastonária da Ordem dos Psicólogos é um festival de falácias que Schopenhauer aprovaria sem pestanejar — talvez até lhe dedicasse um capítulo suplementar. Lá estão todas: a falácia da autoridade (“nós é que sabemos”), a falsa equivalência (“há literatura, logo serve para tudo”), a cortina de fumo (“o público não percebe, logo cala-se”) e a infantil crença de que a validade de um instrumento transfere, por osmose, validade para qualquer uso que dele se faça. É como elogiar uma panela de pressão por ser excelente — o que é verdade — e concluir, com a mesma cientificidade, que é perfeita para fazer gelado. Ou sugerir que, porque um bisturi corta bem, pode substituir uma motosserra.

    O problema de Sofia Ramalho e de Mauro Paulino não é técnico — é político, ético e epistemológico. Ambos pretendem uma Psicologia sem escrutínio, onde decisões administrativas se escondem atrás de uma fórmula mágica chamada “evidência científica”, mesmo quando os resultados contradizem a própria evidência. Querem uma Psicologia que não tem de explicar nada, que não responde a ninguém, que se irrita quando alguém ousa pedir contas. Mas ciência que não admite perguntas não é ciência: é dogma.

    Rita Alarcão Júdice, ministra da Justiça, criticou a aplicação do PAI.

    A bastonária Sofia Ramalho exige respeito pela Psicologia. Pois bem: o maior respeito que se pode ter por uma ciência é submetê-la ao debate, aceitar a crítica e corrigir o erro quando ele ocorre. E quando uma equipa erra nove em cada dez avaliações, a única resposta admissível — a única verdadeiramente científica — seria reconhecer o erro, corrigi-lo e garantir que não se repete. Em vez disso, tivemos um exercício de contorcionismo retórico que nem Simão Bacamarte ousaria ensaiar. Ao menos o alienista de Machado tinha coerência — e até uma certa doçura lunática. Na Ordem dos Psicólogos, sobra apenas uma obstinada recusa a admitir o óbvio.

    E o óbvio é este: o problema não são os candidatos, não são os jornalistas, não é a ministra, não é o CEJ. O problema é uma avaliação mal concebida, pior aplicada e ainda pior defendida. Se a Psicologia quer credibilidade — institucional, pública e científica — terá de começar pelo princípio básico do método científico: reconhecer que errou.

    Até lá, a Casa Verde, ali para os lados da lisboeta Avenida Fontes Pereira de Melo, continua aberta. E, pelos vistos, arrisca lotação esgotada.

  • Uma proposta de ‘transplante de alma’ para salvar a Inteligência Artificial

    Uma proposta de ‘transplante de alma’ para salvar a Inteligência Artificial


    Há uma frase atribuída ao filósofo Étienne Bonnot de Condillac (1714–1780) que sempre me acompanhou na vida clínica: “Nunca encontrei a alma na ponta do meu bisturi.” Nem eu. E garanto que já procurei mais do que o razoável — não por misticismo, mas por curiosidade científica. A alma, seja o que for, não aparece em TAC, não sai em análises, não se deixa suturar. É imaterial. E, curiosamente, descobri que o mesmo problema afecta a Inteligência Artificial: por mais Data Centers que visitemos, por mais servidores a chiar como motores de avião, não encontramos ali nenhuma alma.

    A tecnologia avança a velocidade estonteante, mas continua a faltar-lhe aquilo que, nos humanos, orienta decisões difíceis: um conjunto claro de valores, prioridades, estilos de julgamento e limites morais. A IA tem estatísticas, padrões e correlações. O que não tem — e isso é hoje perigoso — é uma estrutura normativa inteligível. Falta-lhe aquilo que Condillac não encontrou no bisturi e que os engenheiros não encontram nos chips: falta-lhe uma alma.

    an abstract image of a sphere with dots and lines

    É aqui que entra a ideia que desenvolvi, em tom meio sério, meio brincadeira: talvez seja necessário um transplante de alma para salvar a IA. Transplantar, claro, não no sentido biológico — não ando por aí a recolher almas com fórceps —, mas no sentido arquitectónico: criar um modelo explícito daquilo que, nos humanos, sustenta o julgamento, e integrá-lo nas máquinas.

    Chamo a isso o Persona Modeling Framework (PMF). O conceito é simples — tão simples que surpreende não ter surgido mais cedo. Em vez de deixar a IA improvisar valores com base em padrões linguísticos, proponho construir modelos formais de personas reais, autorizadas e identificáveis. Cada persona contém:

    • Princípios base: aquilo que a pessoa realmente valoriza e que usa como bússola moral.
    • Heurísticas de decisão: regras práticas, aquele “como costumo decidir quando a coisa aperta”.
    • Estilo cognitivo: tendência para o prudente, o ousado, o probabilístico ou o narrativo.
    • Assinaturas de trade-offs: como prioriza risco vs. benefício, autonomia vs. segurança, liberdade vs. estabilidade.
    • Linhas vermelhas: limites absolutos que não se ultrapassam, custe o que custar.
    a computer circuit board with a brain on it

    Isto é, de certa forma, uma alma sintética: não mística, não sobrenatural, mas uma arquitectura de valores coerentes que permite à IA decidir como alguém decidiria, e não apenas o que a estatística prevê que alguém diria.

    Porque é que isto importa? Porque atualmente pedimos à IA para tomar posições sobre medicina, ética, política, direito, segurança — tudo áreas onde não basta acertar factos; é preciso julgar. É preciso decidir quando dois valores entram em choque: segurança vs. privacidade, benefício vs. risco, eficiência vs. justiça. Sem uma alma — ou seja, sem uma arquitectura de valores explícita — a IA decide conforme o vento estatístico do momento. E isso, para ser franco, é assustador.

    O PMF, por outro lado, permite algo novo: pluralismo transparente. Em vez de uma única resposta “da IA”, podemos pedir pareceres de várias personas — o médico prudente, o regulador rigoroso, o filósofo liberal, o economista pragmático. Cada posição acompanha uma explicação das suas prioridades, dos seus limites e do raciocínio aplicado. Tal como numa equipa multidisciplinar, mas sem necessidade de café e bolachas.

    a computer generated image of a human brain

    É aqui que a metáfora do “transplante de alma” deixa de ser brincadeira e passa a ser diagnóstico. A IA é extraordinária, poderosa, veloz — mas vazia. Não no sentido humano do termo, mas no sentido funcional: não tem estrutura interna para lidar com dilemas. Sem valores explícitos, a IA torna-se um titã cognitivo com a profundidade moral de uma torradeira.

    Condillac dizia não encontrar a alma no bisturi. Eu confirmo. Mas talvez tenha encontrado o sítio onde ela faz falta: na IA. E, já agora, talvez tenha descoberto como transplantá-la. Não em forma etérea, mas como arquitectura de valores. Uma alma desenhada, modelada, explicável — e, pela primeira vez na história da tecnologia, auditável.

    Se queremos que a IA nos ajude a decidir e não apenas a calcular, então sim: está na hora de um transplante de alma. E este, felizmente, não requer anestesia.

    Joaquim Sá Couto é médico

  • A Psicologia segundo Mauro Paulino, ou Portugal segundo os iluminados

    A Psicologia segundo Mauro Paulino, ou Portugal segundo os iluminados


    Há momentos na vida pública portuguesa que parecem escritos por um argumentista especializado em “tragicomédias institucionais”. O episódio dos testes psicológicos dos candidatos ao curso de magistrados no CEJ — e, sobretudo, a reacção de Mauro Paulino, o psicólogo responsável pela aplicação dos inquéritos — pertence a esse género raro em que a realidade ultrapassa a ficção. Se alguém me dissesse que um concurso para juízes e procuradores dependia de perguntas como “gostaria de estar morto” ou “tenho diarreia com frequência”, ou “ouço vozes”, eu diria que era exagero. Mau gosto, talvez. Mas verdade? Ora, estamos em Portugal: é sempre verdade.

    Semanas depois, e no decurso das críticas da ministra Rita Alarcão Júdice sobre os absurdos inquéritos, veio Mauro Paulino, num registo que mistura zelo corporativo com paternalismo científico, declarar ao Nascer do SOL que qualquer crítica ao teste não passa de “achismos”. ou ainda “percepções pessoais”. Os leigos — incluindo ministros, jornalistas e, presume-se, candidatos a magistrados — não têm competência para questionar a ‘ferramenta’. A ciência, explica ele, pertence a um pequeno grupo de iniciados. O resto do país deve limitar-se a baixar a cabeça, preencher quadrículas e confiar na iluminação psicométrica dos doutos. É a velha lógica do não percebem nada disto: o argumento preferido de quem não quer discutir nada.

    Mauro Paulino, comentador televisivo e psicólogo.

    Convém recordar que, no seguimento das noticias do PÁGINA UM, a ministra da Justiça — usando um saudável senso comum que tem faltado a meio governo — disse, com todas as letras, que o inquérito não era adequado e que deveriam ser apuradas responsabilidades. E a resposta de Paulino foi essencialmente esta: “a ministra não percebe o que diz”.

    Mas a pergunta que se impõe é outra: haverá alguém, fora do círculo da vidinha de Mauro Paulino, que ache razoável avaliar magistrados perguntando-lhes se têm vontade de morrer ou se sofrem de distúrbios intestinais? Que relação científica existe entre diarreia frequente e capacidade para decidir casos de corrupção, homicídios ou violência doméstica? Falhou-me esse capítulo nos manuais.

    O psicólogo veio com a ladainha de que o Personality Assessment Inventory (PAI) possui uma “extensa literatura científica, com mais de 14 mil publicações”. É verdade: também há milhares de artigos sobre o uso da aspirina em cardiologia e não é por isso que se prescreve aspirina para tratar miopia. A existência de literatura académica não legitima qualquer utilização, ainda mais porque o senhor doutor ainda não apontou nenhum sítio, nem que fosse em Ouagadougou, que aplique o PAI em avaliações de candidatos a ‘escolas de juízes’. A existência de um teste clínico — criado para identificar psicopatologia — jamais poderia ser usado como instrumento eliminatório num concurso de elevada responsabilidade institucional. A ciência, quando invocada de forma acrítica, corre o risco de se transformar em fetiche.

    Mas Paulino vai mais longe: citou escalas de validade, argumentou que itens isolados não têm significado e sublinhou ainda que alguns itens “aparentemente absurdos” servem para detectar respostas ao acaso. Tudo verdade, tecnicamente. Mas falta o detalhe crucial: mesmo escalas de validade podem ser interpretadas de forma errada, sobretudo quando o contexto é high-stakes (testes usados em decisões de grande impacto) e os candidatos respondem sob pressão, sabendo que uma resposta mal calibrada pode ditar o fim de um percurso de meses. Paulino jamais poderia esquecer (e ignorou) que não estava a avaliar reclusos ou pessoas com problemas de índole psicógica, mas sim mais de duas centenas de licenciados em Direito que tinham ultrapassado exigentes provas escritas e orais. A psicometria não elimina a subjectividade; apenas a reorganiza.

    E, claro, surge uma parte divertida: afinal, o PAI não foi o único instrumento culpado da razia psicológica dos candidatos. Foram oito! Oito instrumentos mágicos que, combinados, permitiram uma decisão “colegial e integrativa”. Ora, se o processo era tão robusto, porque razão dezenas de candidatos foram excluídos com uma taxa de “não favoráveis” anormalmente elevada? A culpa, apressa-se Paulino a esclarecer, não é dos psicólogos — nunca é. Nem atrasaram o concurso, nem reprovaram demasiados candidatos; tudo não passou de percepções erróneas, mal-entendidos, confusões, ignorância do público. O país não compreende, ponto final.

    Mas eis o ponto que Paulino não explica — e é aqui que a tragicomédia atinge o seu auge: afinal, como é possível que um método tão “científico”, tão “validado”, tão “robusto”, tenha produzido um número tão absurdo de chumbos que, quando avaliados por outra equipa de psicólogos, nove em cada dez foram revertidos?

    Sede do Centro de Estudos Judiciários. / Foto: D.R.

    É uma estatística que desarma qualquer tentativa de retórica.
    Se um cirurgião errasse 90% das operações, seria afastado.
    Se um juiz se enganasse em 90% das sentenças, seria destituído.
    Se um meteorologista falhasse 90% das previsões, tornava-se humorista. Mas um psicólogo que reprova candidatos em massa e vê 90% das suas decisões anuladas… esse, pelos vistos, considera-se vítima de incompreensão pública.

    Para alguém que realiza avaliações forenses — usadas em tribunais, em processos de regulação parental, em perícias decisivas — convém reconhecer que uma taxa de falhanço tão monumental não é propriamente um selo de credibilidade. É um alarme.

    Aqui, surge-me a tentação literária: o psicólogo Mauro Paulino faz-me lembrar Simão Bacamarte, o alienista de Machado de Assis, aquele que se julgava o supremo intérprete da sanidade e da loucura em Itaguaí. Mas esta comparação é ingrata e injusta — para Bacamarte. Na loucura do alienista da Casa Verde havia método, havia lógica interna, havia até uma doçura involuntária. Era uma loucura ingénua, quase nobre na sua obsessão. Já em Mauro Paulino não há doçura nem grandeza trágica. Há apenas duas coisas: petulância e uma gigantesca cara de pau, revestidas de jargão científico.

    A convicção de infalibilidade de Mauro Paulino é tão firme que transforma qualquer contestação em ignorância. A ministra não sabe. Os jornalistas não sabem. Os candidatos não sabem. A segunda equipa de psicólogos não sabe. Só ele sabe. Só ele vê. Só ele compreende os mistérios do PAI e dos sete instrumentos suplementares. Só o Mauro Paulino acerta. Sempre.

    A ciência, infelizmente para Paulino, não funciona assim. A ciência que importa — a verdadeira — aceita escrutínio. Admite falhas. Revê-se. Corrige-se. E, sobretudo, responde quando falha 90% das decisões. Não se esconde atrás de tecnicismos.

    Mauro Paulino pede rigor no debate. Concordo inteiramente. Comecemos então com a única pergunta que realmente importa: “Quem avalia os avaliadores?” Se a resposta for “ninguém”, então o problema não é o PAI. O problema é o país — e pessoas como ele.

  • Quatro anos depois, Filipe Froes, o ‘marketeer das farmacêuticas’, ainda não ganhou vergonha

    Quatro anos depois, Filipe Froes, o ‘marketeer das farmacêuticas’, ainda não ganhou vergonha


    Quatro anos depois, Filipe Froes continua igual a si mesmo: sem ética nem vergonha.

    No processo judicial que ele intentou contra mim, cujo julgamento decorre no Campus da Justiça de Lisboa, falou-se hoje, manhã e tarde, em vários dos textos que sobre ele escrevi em 2021, razão pela qual estou ali a responder como arguido.

    Filipe Froes, um dos médicos portugueses com mais ligações à indústria farmacêutica, mantém-se como consultor da DGS e com intenso palco mediático.

    Dos vários textos (quase uma vintena), chamou-me a atenção este – considerado difamatório (logo se verá na sentença) pelo Ministério Público, a Ordem dos Médicos e, claro, o doutor Filipe Froes —, escrito em 27 de Agosto de 2021, e que reza assim:

    “[Filipe Froes] não quer admitir que há uma evidente e flagrante diferença entre Lei e Ética, e que a existência de transparência (por imposição legal) não significa a existência de Ética; em muitos casos a transparência somente revela que não se tem nem Ética nem vergonha na cara. O Doutor Filipe Froes pode e tem o direito de aproveitar a sua inteligência e saber para angariar palestras e serviços de farmacêuticas. Longe de mim limitar esse seu objectivo, conquanto que ele não esteja a dar palestras e a prestar serviços às farmacêuticas durante o período em que deve estar a exercer as suas funções, pagas pelo SNS, de director de serviços do Hospital Pulido Valente. Não pode é o Doutor Filipe Froes achar que é só a sua inteligência e saber que fazem as farmacêuticas contratarem os seus serviços. Se porventura o Doutor Filipe Froes se demitisse – como deve e me parece de irremediável caminho – das suas funções de consultor da DGS (e aliás, convinha conhecer os seus pareceres, sobretudo as eventuais recomendações para aquisição de fármacos), de membro do painel de especialistas da Comissão Técnica de Vacinação e de líder do Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos, prevejo que as solicitações das farmacêuticas se reduziriam… E mais ainda se reduziriam as solicitações e pagamentos se o Doutor Filipe Froes – que sempre se apresentou como um especialista isento e falando apenas ‘baseadas na melhor evidência disponível e independente’ (blá blá blá) – começasse a ser apresentado como consultor de farmacêuticas quando fosse convidado para falar aos media… Por exemplo, quando ele recomenda que se compre mais vacinas para a gripe, deveria ser apresentado também como consultor da Sanofi… Bom, talvez a própria Sanofi não gostasse disso. A discrição é a alma dos bons negócios.

    Post integral publicado no Facebook em 27 de Agosto de 2021

    Ironias da vida: hoje mesmo, o doutor Froes publica no Diário de Notícias um artigo de opinião, “Gripe ou Flu a mesma solução: vacinar!”, onde apela fervorosamente à vacinação no seguimento de um alerta do ECDC — o centro europeu de prevenção e controlo das doenças — sobre uma nova mutação do subtipo H3N2. Alega que tal mutação implica uma “provável menor efectividade da vacina”, mas garante, paradoxalmente, que “o objectivo deste alerta é reforçar a preparação e aumentar as taxas de vacinação, sobretudo nas pessoas com 65 ou mais anos, que tendem a sofrer maior impacto pelo subtipo H3N2”.

    Nada tenho contra apelos à vacinação — desde que feitos com transparência. E que o médico não funcione como marketeer. Porém, Froes reincide no seu velho hábito: esconde o essencial e funciona como ‘delegado de propaganda médica’. De facto, tal como sempre fez durante a pandemia – em que escondia as suas relações com farmacêuticas que beneficiavam dos seus conselhos junto da administração de saúde, neste seu texto no DN identifica-se simplesmente como “doutorado em Saúde Pública e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública”.

    E omite, obvia e descaradamente, as suas relações financeiras com a Sanofi, principal fornecedora de vacinas da gripe. E não se diga que, ao menos oficialmente, tais ligações são pequenas. Eis apenas os registos deste ano (seria fastidioso revelar a de todos os anos conhecidos) dos financiamentos da Sanofi: 5.942,06 euros pela participação no Scientific Meeting on Influenza (por quatro dias em Viena); 1.698,94 euros pela participação nas Jornadas de Medicina Geral e Familiar; 1.130,74 euros por uma palestra no Flu Summit 2025; e mais 1.070,10 euros pela participação no Congresso de Pneumologia do Centro-Ibérico.

    Artigo do Diário de Notícia em papel onde Filipe Froes se identifica como “Doutorado em Saúde Pública e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública” para falar sobre vacinas da gripe, sendo que este ano a Sanofi lhe pagou quase 10 mil euros, incluindo uma viagem a Viena de Áustria.

    Tudo somado, apenas um relance do “gato escondido com o rabo de fora”. A estratégia é antiga: nunca, jamais, em tempo algum, Froes revela as suas ligações às farmacêuticas enquanto exibe as credenciais públicas. E não se pense que este padrão é apenas doméstico.

    Agora, pavoneia-se ele por ser membro do Advisory Committee on Public Health Emergencies da União Europeia — um comité que, em regra, é zeloso quanto à transparência dos conflitos de interesses. Mas, chegada a ficha do doutor Froes, nada consta: apenas autorizou a divulgação da última página (a sexta de seis), sem qualquer informação sobre as suas ligações comerciais.

    Convém notar que, entre os 44 peritos desse comité, 34 revelam os seus conflitos; 10 optam por esconder. Froes, coerente consigo mesmo, integra o segundo grupo – daqueles que esconde.

    person holding orange and white plastic bottle

    Neste aspecto, Froes é coerente na escuridão e na falta de vergonha. Até para me meter em tribunal, por lhe dizer umas verdades, decidiu poupar no advogado. Quem está a pagar a conta é a Ordem dos Médicos.

    Afinal, quem aufere um salário público de director de serviços num hospital público e uns 50 mil euros anuais de pagamentos oficiais de farmacêuticas prefere que os honorários de patrocínio para perseguir judicialmente um jornalista seja distribuídos pelos seus colegas médicos. Isto não é para qualquer um…

  • Vale a pena ser jornalista para acabar no banco dos réus?

    Vale a pena ser jornalista para acabar no banco dos réus?


    Vale a pena ser jornalista em Portugal? A pergunta, que tantas vezes ouvi colocada em surdina por colegas mais novos, hoje ecoa-me com uma intensidade que não esperava sentir. Talvez porque, nas próximas duas semanas, estarei de novo — já nem sei se quatro ou cinco vezes vezes — sentado no banco dos arguidos no Campus de Justiça de Lisboa. No Porto já estive três desde Setembro. Não por ter mentido, inventado, manipulado ou caluniado. Apenas por ter incomodado. E porque o Ministério Público preferiu achar que a liberdade de expressão e de imprensa são direitos de um ‘deus menor’. Ou então por dar demasiado trabalho e ‘chatice’ investigar com seriedade aquilo que revelei sobre as negociatas da vacinação em plena pandemia. Em vez de olhar para os factos, escolheu olhar para mim.

    Pergunto-me, pois: vale a pena?

    Valeu a pena investigar que, em Fevereiro e Março de 2021, em plena escassez de vacinas, foram desviadas cerca de oito mil doses para vacinar quatro mil médicos não-prioritários — de entre o universo de 64 mil —, violando normas que nunca foram alteradas (embora a IGAS tenha depois inventado uma alteração fantasma)?

    Vale a pena expor que essa vacinação paralela tinha por detrás dinheiros de uma campanha de angariação de fundos patrocinada sobretudo pela indústria farmacêutica, e movimentados a partir de uma conta pessoal titulada por Miguel Guimarães (actual deputado do PSD), Ana Paula Martins (actual ministra da Saúde) e Eurico Castro Alves (amigo íntimo do primeiro-ministro)?

    Vale a pena mostrar que a task force, liderada por Gouveia e Melo, não tinha competência legal para criar excepções, e que tudo aquilo foi feito no silêncio conveniente das instituições? Até um político foi vacinado á socapa por “conveniência”.

    Pelos vistos, para o Ministério Público, não vale.

    E, no entanto, o MP até mantém processos de investigação em aberto sobre a gestão da campanha de angariação de fundos e sobre pagamentos ao Hospital das Forças Armadas. Porém, estão em banho-maria. E avançou com uma acusação contra mim porque Gouveia e Melo se queixou. E, num outro processo, também, porque aparentemente não se pode criticar a Ordem dos Médicos, e os médicos Miguel Guimarães, Filipe Froes e Luís Varandas por terem sido promíscuos com a indústria farmacêutica durante a pandemia.

    a wooden judge's hammer sitting on top of a table

    Pergunto outra vez: vale a pena?

    Vale a pena passar horas num banco de arguidos por ter feito jornalismo? Vale a pena ver magistrados, como me sucedeu no Porto, a tratarem-me um jornalista como ignorante, insinuando que, apesar da minha formação académica, não tenho competência para analisar e interpretar dados epidemiológicos, como se o conhecimento científico fosse reserva espiritual de um grupo profissional (médicos)?

    Vale a pena assistir a julgamentos onde não se discutem documentos, factos, evidências, mas apenas a forma como o jornalista “incomodou” pessoas com poder ou influencers sanitários ‘bonzinhos’?

    Vale a pena, afinal?

    Quando vejo o que se passa noutros países — ataques à imprensa, processos para intimidar, SLAPPs usados para silenciar — percebo que Portugal não é excepção. Aquilo que muda é apenas o decoro: entre nós, fazem-se as mesmas coisas, mas com uma cortesia cínica que tenta mascarar o propósito. E o propósito é sempre o mesmo: cansar o jornalista, desgastar o jornalista, empurrar o jornalista para um canto onde a exaustão suplante a convicção.

    Sala de audiências do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa. / Foto: D.R.

    E é assim, confesso, que estou: exausto. Mas exausto sobretudo do país com 51 anos de uma democracia podre — de uma democracia que não censura, mas que asfixia pelo cansaço, o que é uma forma ainda mais hipócrita de condicionar a liberdade.

    Pergunto-me: vale a pena revelar documentos que ninguém queria mostrar? Vale a pena ganhar processos administrativos que provam que o segredo era injustificado, mas depois ser processado por difamação por revelar aquilo que se escondia? Vale a a pena expor contratos, trocas de e-mails, relatórios escondidos, decisões opacas, contas paralelas, abusos de poder e omissões deliberadas? Vale a pena ser arguido e sentir que ali sou um criminoso que, na melhor das hipóteses, vai ‘safar-se’?

    Por norma, diria que vale. Sempre valeu.

    Valerá porque o jornalismo não existe para agradar, mas para incomodar.

    Valerá porque os direitos não se defendem com silêncios convenientes.

    Valerá porque, se o jornalista se cala, quem fala?

    Hoje, em cansaço, não digo que vale — digo apenas que valerá, algures fora deste dia exausto. Amanhã, talvez o ânimo volte.

  • Como falar de Camarate à mesa de Natal

    Como falar de Camarate à mesa de Natal


    Já se passaram 45 anos e continua-se a discutir se Camarate foi atentado ou acidente. O assunto pode vir à tona durante o Natal em família, tanto mais que vamos ter eleições presidenciais, algo que também estava no plano político de 1980. Por isso, aqui ficam algumas dicas sobre como pode ser abordado o assunto de Camarate de modo a evitar estragar a harmonia sempre tão necessária nesta festa da família.

    Placa em memória das vítimas do atentado que tirou a vida ao então primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, instalada junto ao local onde se deu a tragédia, em Camarate. / Foto: D.R.

    1 – Diga que foi acidente

    Ainda há dias, numa entrevista na rádio da rua João Saraiva, o candidato a candidato à Presidência da República, — o “não sou maçon” — Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo, disse de forma muito enfática e sem espaço para dúvidas que Camarate foi “acidente”. Como não creio que o ex-militar tenha sido testemunha ocular do acidente, deduzo que estivesse apenas a produzir uma opinião pessoal.

    É bem mais seguro dizer que Camarate foi acidente do que atentado. O acidente encerra logo ali o assunto, pelo que podemos seguir em frente na vida, sem mais questões. Esta opinião é até aquela que mais agrada a jornalistas, pois não têm depois de fazer perguntas que podem ser incómodas. Agrada igualmente a juízes, investigadores judiciais e a outros ligados à área, que assim podem dar o assunto por encerrado e não se fala mais nisso. E agrada ainda a certos meios políticos, já que não abre caminhos para se ir mexer em assuntos delicados e que não interessam nada aos seus interesses.

    O recém-falecido ex-primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão, por exemplo, era adepto do acidente e, no caso dele, sabemos bem que também não podia ter sido testemunha ocular, pois há testemunhas de que estava no Porto, no aeroporto de Pedras Rubras, à espera da chegada de Francisco Sá Carneiro para o comício extra que iria ter lugar no Coliseu da Rua Passos Manuel.

    Foto: D.R.

    Por isso, se não quiser arranjar problemas na conversa da família, diga que Camarate foi um infeliz acidente, que o avião estava podre, os pilotos andavam cansados e, sobretudo, não havia maneira de saber se Sá Carneiro iria estar ou não naquele avião, mas que, à última da hora, Sá Carneiro mudou para o aparelho podre. Ah! E ainda havia o avião da TAP, para onde ele tinha reservas.

    Por isso, acidente. Sem sombra de dúvidas. É bem mais seguro e evita chatices.

    2 – Diga que ainda não está bem esclarecido

    Se é daqueles que, por uma questão intelectual, não pode ficar calado e não consegue dizer que foi acidente, pois parece que é uma posição simples e de alguém que está mal informado, é então obrigado a dizer que foi atentado. Sabe que o acidente nunca foi verdadeiramente explicado e, um avião, mesmo podre, não cai assim. Que a falha de um motor até pode ser compensada pelos pilotos — por muito cansados que estivessem.

    E como seguiu a polémica, leu os livros do Cid, sabe ainda que havia um segundo avião, aquele que Balsemão pediu ao dono da RAR, o empresário João Macedo e Silva, e em melhores condições. Também esteve atento às inúmeras comissões de inquérito, pelo que pode sempre dizer mal do exagerado número de comissões — foram 10, mas metade delas foram a continuação da outra, após terem sido interrompidas pelo fim das legislaturas até serem retomadas na seguinte. Esta é também uma maneira segura de mostrar que até se interessou pelo assunto e procurou informar-se melhor sobre o caso. Que não tem uma opinião ligeira.

    Foto: D.R.

    Pode sempre demostrar alguma superioridade perante aqueles que dizem ter sido acidente, dando a entender que até sabe mais sobre o assunto.  Mas, como não quer ser visto muito deslocado do resto da família e convém não ser desagradável em relação aos que estão sentados na confortável ideia do acidente, o melhor a fazer é dizer que, mesmo sendo atentado, ainda existe muita confusão. Embora pense que o atentado é algo plausível, ainda assim não sabe explicar muito bem como foi e, por isso, seria melhor haver mais uma comissão, mas o problema dessa confusão toda é precisamente por ter havido já muitas comissões, pelo que não faz sentido haver mais outra, mas lá que seria necessário, lá isso seria.

    Uma posição informada, segura e que não ofende ou coloca em perigo a convicção daqueles que vivem tranquilamente na segurança do acidente. 

    3 – Diga que foi atentado, mas o alvo era o Adelino

    Este já está um nível mais acima, mas ainda assim dentro daquele conforto que também não cria perigos e não provoca choques sociais. Está apenas ao alcance de um grupo de pessoas muito específicas. Ainda há dias ouvi, por exemplo, o antigo grão-mestre da maçonaria regular, José Manuel Anes, a justificar as acusações da sua filha nas redes sociais — onde ele era acusado de ter feito a bomba de Camarate —, a dizer que as palavras da filha não faziam qualquer sentido, pois ele investigou o caso e concluiu que houve uma bomba. E que até foi ameaçado de vida — por quem? Não disse.

    Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    Manuel Anes, que na altura dos factos era funcionário do laboratório científico da PJ desde 1978, é uma daquelas pessoas, que ao contrário do Henrique Melo, não pode dizer que foi acidente. Mas como também não pode parecer ter dúvidas quanto a ter sido um atentado, acrescentou à jornalista Tânia que o atentado foi contra Adelino Amaro da Costa e não contra Francisco Sá Carneiro. E a jornalista nem tugiu nem mugiu.

    Esta opinião foi aquela que Conceição Monteiro, a secretária de Sá Carneiro e principal testemunha do que se passou durante aquele dia, começou a propalar quando se viu perante as evidências de um atentado, confirmado depois por Manuel Anes. Disse a senhora que, como não havia tempo para preparar um atentado contra Sá Carneiro, o alvo seria o ministro da Defesa, Amaro da Costa.

    Como se a morte de um ministro fosse algo que se pudesse varrer depois para baixo do tapete e não merecesse uma investigação cabal. Mas, como o mais importante é retirar o nome de Sá Carneiro desta equação, para evitar uma investigação mais aprofundada, esta posição é aquela que deve ser usada por aqueles que não têm mesmo hipóteses de negar o atentado e que, tal como Anes, não podem discutir as conclusões oficiais das últimas comissões de inquérito e não podem parecer ter dúvidas.

    Adelino Amaro da Costa na tomada de posse como ministro da Defesa do Executivo liderado por Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    Dizer que foi para o Adelino é uma boa maneira de dizer que foi atentado, mas depois arrumar o assunto sem ter de dar muitas mais explicações.

    4 – Sobretudo, nunca diga estes factos:

    Sá Carneiro estava no avião que caiu em Camarate porque era o único táxi-aéreo disponível no País depois de, uma semana antes, a 26 de Novembro, os aviões da campanha presidencial de Soares Carneiro terem sido apreendidos pela Guarda Fiscal no aeródromo de Tires. Essa apreensão, levada a cabo por uma autoridade que dependia do ministro das Finanças, Cavaco Silva, tem de ser considerada como parte do plano e demonstra que, ao contrário do que dizia Conceição Monteiro, houve mesmo tempo para preparar um atentado contra o primeiro-ministro Sá Carneiro.

    Sá Carneiro nunca teria tido necessidade de ir ao Porto de avião se não lhe tivessem marcado um comício extra no Coliseu do Porto, facto de que foi informado a 1 de Dezembro, quando estava em Évora. De acordo com a agenda há muito feita, o comício onde ele deveria ter ido era o de Setúbal e não no Porto. O comício do Porto fora no dia anterior.

    Foto: D.R.

    Havia um segundo avião privado, mas Sá Carneiro nunca foi informado da existência desse aparelho. Esse era o avião privado da RAR que Balsemão garantiu que iria haver e que, depois, a sua prima, a secretária Conceição Monteiro, desmarcou após o encontro de Sá Carneiro e Amaro da Costa à hora do almoço.

    Sim, havia reservas no voo comercial da TAP, mas isso era apenas uma medida de último recurso caso o avião privado não fosse autorizado a descolar devido ao mau tempo. Também havia, dentro da mesma linha de pensamento, reservas para o comboio. Aliás, o avião privado foi solicitado para levar Sá Carneiro de volta para Lisboa após o comício e permitir cumprir a agenda de primeiro-ministro na manhã do dia seguinte. E não havia avião da TAP para fazer esse regresso após o comício.

    Quem insistiu na ideia do avião da TAP como uma mudança de última hora, ampliando as dúvidas em relação a um acidente e não a um atentado, foi o então director-interino do semanário Expresso, Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República.      

    Francisco Sá Carneiro. / Foto: D.R.

    A morte ocorreu numa altura em que Sá Carneiro andava a ameaçar fazer um ajuste de contas com os traidores no seu partido, andava a extremar a luta presidencial contra o general Ramalho Eanes e colocava em perigo a estabilidade democrática de Portugal, recusando um futuro bloco central com o PS de Mário Soares.

    No campo internacional também coincidiu com o negócio de tráfico de armas para o Irão e que levara à derrota, um mês antes, do presidente norte-americano, Jimmy Carter, perante Ronald Reagan e George Bush. As ligações à CIA ainda estão por esclarecer, mas estão lá, pois Bush tinha sido chefe da CIA e o chefe da sua campanha presidencial, e principal mentor do negócio de tráfico de armas ilegal para o Irão no sentido de atrasar a libertação dos reféns norte-americanos em Teerão, William Casey, foi depois nomeado chefe da CIA. Na altura da morte de Sá Carneiro, o número dois da CIA era o ex-embaixador dos Estados Unidos em Lisboa, Frank Carlucci, uma pessoa que não tivera boas relações pessoais com o primeiro-ministro durante a sua permanência no nosso País.

    De resto, bom jantar em família!

  • Como se pode enterrar a liberdade de imprensa? Com a ajuda dos tribunais

    Como se pode enterrar a liberdade de imprensa? Com a ajuda dos tribunais


    Há decisões judiciais que não apenas desafiam a lógica: desafiam a própria ideia de que Portugal é um país onde a liberdade de imprensa tem valor real. Ontem, uma juíza do Tribunal Administrativo de Lisboa decidiu aceitar uma providência cautelar apresentada por uma promotora musical, a Prime Artist, para suspender temporariamente uma deliberação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) que ordenava a minha acreditação para o concerto de Marilyn Manson no Campo Pequeno. E fê-lo com tal denodo que andaram até a telefonar para a empresa de segurança das instalações da ERC para que a citação ao regulador fosse efectuada ontem ao início da noite, conforme a descrição das diligências.

    O caso parece absurdo – e é. E absurdo em toda a sua extensão, incluindo para mim, que pensava que introduzir umas simples crónicas literárias no PÁGINA UM sobre espectáculos musicais, era uma forma descontraída e útil de promover a Cultura e de ‘fugir’ ao jornalismo mais intenso. Porém, sucede que fui encontrar, em alguns casos, ao longo da dúzia de espectáculos que cobrimos desde Março, uma oposição de algumas produtoras que olham para os jornalistas independentes com desconfiança, ou até desprezo, porque lhes é mais produtivo relacionar-se com ‘jornalistas de confiança’ ou sites e influencers que não apenas escreverão sempre bem como garantem promoção dos espectáculos (e vendas de bilhetes).

    O jornalismo, porém, não faz publicidade nem promoção – e, por isso, já tenho tido algo que nunca desejei para escrever simples crónicas (e nunca fui a um espectáculo em que não tenha escrito): solicitar ao regulador o cumprimento do Estatuto do Jornalista na acreditação de jornalistas. Não é pedir favores: é fazer cumprir uma lei de 1999 que consagra, em democracia, direitos de acesso aos jornalistas. Acham que é um privilégio que não devem ter? Se sim, então revoguem a lei.

    Convém recordar o que estava em causa. A ERC analisou uma recusa arbitrária da Prime Artist, promotora do evento, que decidiu atribuir acreditações a uma extensa lista de websites e plataformas de promoção comercial, marketing musical e entretenimento – alguns sem jornalistas, outros sem qualquer prática redactorial identificável –, enquanto excluía órgãos de comunicação registados na ERC e jornalistas devidamente acreditados.

    O PÁGINA UM não foi o único a ser preterido, diga-se. E entre as entidades privilegiadas estavam páginas dedicadas a “lançamentos de singles”, “entretenimento artístico”, “marketing de concertos” e projectos que operam essencialmente como extensões promocionais da própria indústria musical. A lista enviada à ERC pela Prime Artist mostra isso com clareza embaraçosa: o critério não era jornalismo, era conveniência comercial.

    A large building with a clock tower on top of it

    Perante este quadro, a ERC actuou como lhe competia neste caso: declarou que a promotora violou a transparência, a igualdade e o Estatuto do Jornalista – e determinou, com base na lei da Assembleia da República, que a acreditação fosse atribuída. A deliberação era clara e vinculativa, sendo que o seu incumprimento levaria a um crime de desobediência qualificada.

    A Prime Artist, incapaz de justificar a discriminação e menos ainda de demonstrar qualquer critério objectivo, recorreu a um expediente processual que lhe custará a comissão de muitos bilhetes dos Marilyn Manson, de quem nem sou particular fã: pediu uma providência cautelar para suspender a deliberação.

    E é aqui que começa a tragédia judicial – e já nem falo na inusitada rapidez. A juíza Maria Carolina Duarte aceitou liminarmente essa providência, o que significa que assumiu que a Prime Artist poderia ser “lesada” se fosse obrigada a cumprir a deliberação da ERC, ou seja, a deixar entrar um jornalista que iria escrever uma singela crónica sobre um concerto. Se há coisa onde não se vislumbra dano – ou haverá? – é permitir o acesso de um jornalista a um espaço público para escrever para o público.

    Ou seja, num volte-face jurisprudencial digno de uma república de opereta, a juíza considerou que esse suposto prejuízo tinha mais peso do que o dano ao jornalista que, impedido de trabalhar, vê o seu direito anulado.

    Mas o mais grave não é isto – é o significado disto. A juíza sabia, ou tinha a obrigação funcional evidente de saber, que a decisão, mesmo sendo temporária – a acção principal decorrerá em linha diferente e mais lenta –, teria um efeito irreversível: o concerto decorre já amanhã, enquanto o julgamento do mérito só ocorrerá nos próximos meses.

    Significa, assim, que mesmo que a ERC vença no mérito da sua deliberação – e a lei, os factos e a interpretação da deliberação indicam claramente que vencerá –, o jornalista já terá perdido. Não há forma de recuperar uma crónica sobre um espectáculo que nunca pôde ser feita, nem de restaurar o exercício de um direito profissional destruído pelo decurso do tempo. Isto chama-se, no jargão jurídico, inutilidade superveniente da lide. E foi precisamente isso que a juíza criou com a sua decisão.

    Afinal, escrever crónicas de espectáculos incomoda mais do que jornalismo de investigação?

    Uma providência cautelar existe para evitar danos irreparáveis – não para causá-los. Aqui, o tribunal fez o contrário: transformou um processo legal num ritual vazio, anulando antecipadamente o direito que deveria ser protegido. A tutela judicial efectiva foi substituída pela tutela do mais ousado. Um promotor de espectáculos vence por desgaste temporal, porque um magistrado lhe abriu esse caminho.

    Nada disto é conciliável com o Estado de Direito. A liberdade de imprensa não pode ser suspensa por conveniências comerciais. Uma empresa privada não tem qualquer “direito” a controlar quem escreve sobre os seus espectáculos – isso é uma das regras do jogo democrático –, e muito menos a alegar que “sofre prejuízo” por ter de cumprir uma lei nacional.

    A juíza, no entanto, decidiu que sim: decidiu que um alegado interesse económico de uma promotora vale mais do que um direito legal, constitucional e profissional de um jornalista.

    O caso é tanto mais perturbador quanto revela uma fragilidade crescente para o Jornalismo em Portugal: a facilidade com que já se aceita subalternizar a imprensa em benefício de operadores privados (e daqui a nada públicos, e não apenas na cultura e lazer), que distribuem acreditações, notícias, publicidade e parcerias ao sabor da conveniência – privilegiando páginas de promoção comercial e marketing musical, e barrando jornalistas independentes. Que uma empresa tente este expediente não surpreende. Que um tribunal o aceite, isso já é devastador.

    Actuação dos Marylin Manson ocorrerá este domingo no Campo Pequeno.

    Com este episódio – que receio se venha a repetir –, fica claro que o problema não é apenas a recusa da Prime Artist em cumprir a lei – e em gastar dinheiro numa providência cautelar que lhe custará centenas de euros. É a complacência judicial que transforma essa recusa num acto eficaz. É a mão do Estado a empurrar o jornalismo para fora da porta – e a entregar o espaço informativo aos produtores, aos promotores, aos que confundem imprensa com publicidade.

    O editorial de hoje, infelizmente, escreve-se a si próprio: uma juíza enterrou o jornalismo, mas também enterrou o respeito pela lei e pela liberdade de imprensa. E quando um tribunal falha deste modo, não falha apenas um caso: falha o país que insiste em dizer que é uma democracia.

  • Os fariseus do jornalismo

    Os fariseus do jornalismo


    O jornalismo constrói-se sobre um princípio simples: a busca dos factos e da verdade factual. Para isso, o verdadeiro jornalista, antes de ser escritor, é um investigador: recolhe documentos, analisa informação, ausculta testemunhos, consulta especialistas e contacta entidades sempre que tal seja necessário para confirmar dados ou esclarecer dúvidas.

    Neste processo, confirmar factos pode, ou não, implicar ouvir os visados. Mas ouvir os visados não serve para confirmar factos em si mesmo, porque estes têm, à partida, uma posição subjectiva, por vezes bastante enviesada, que procuram até, em muitos casos, deturpar ou tentar desmentir factos verdadeiros recolhidos com base em documentação e outros elementos objectivos. As palavras ditas são maleáveis, manipuláveis – e tem de ser o faro jornalístico a determinar, após a recolha de outros meios de prova, se haverá necessidade de recorrer à auscultação do visado.

    André Carvalho Ramos: a ERC lava mais branco…

    Aliás, defendo que nem sempre é aconselhável ouvir os visados em casos polémicos: nem sempre acrescenta rigor; e, por vezes, até o prejudica. Dar o mesmo relevo à opinião do visado – que nada acrescenta para o conhecimento da verdade – e ao facto indesmentível pode lançar uma falsa dúvida no leitor, transformando um elemento comprovado numa suposta controvérsia.

    Isto não significa, longe disso, que nunca se ouçam os visados. Seria absurdo defender isso. Aquilo que se defende é que ouvir um visado é uma decisão editorial — tão útil na esmagadora maioria dos casos quanto dispensável noutros. Não é uma imposição legal nem sequer uma exigência deontológica. Ouvir o visado não é qualquer espécie de obrigação fundada num alegado “direito ao contraditório”.

    A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e, tristemente, o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas insistem, porém, em tratar este procedimento técnico – o de auscultar um visado – como um “direito de contraditório” erigido a dogma regulatório. E fazem-no mesmo quando os factos são públicos, auto-evidentes ou comprovados documentalmente — alguns, até, baseados em declarações anteriores do próprio visado.

    Por exemplo: se um jornalista anuncia publicamente que vai participar num curso de media training incompatível com o Estatuto do Jornalista — como sucedeu com André Carvalho Ramos, pivot de um canal televisivo por cabo — e outro jornal noticia esse facto, que sentido teria “ouvi-lo” apenas para cumprir um pseudo-imperativo de um “direito ao contraditório” que não existe na lei? O facto estava assumido pelo próprio, estava já publicado anteriormente na imprensa, documentado. Ouvi-lo seria irrelevante. Exigir que fosse ouvido antes da publicação da notícias seria absurdo, porque permitiria ao visado negar uma evidência com o mesmo destaque da evidência.

    Chegados aqui, eis a verdade crua: o “direito de contraditório” é um termo que não existe como direito autónomo no ordenamento jurídico português no contexto do jornalismo. Não está na Lei de Imprensa, não está no Estatuto do Jornalista, não está no Código Deontológico. A ERC e o Conselho Deontológico não citam nenhuma norma porque não a podem citar. Inventaram o conceito. Fantasiaram-no. E, não encontrando suporte normativo, produzem relatórios com malabarismos interpretativos, defendendo que tal direito estaria “implícito”. Implícito onde? Em que frase? Em que artigo? Fica sempre por demonstrar.

    O que existe, e apenas isso, é o direito de resposta e de rectificação, exercido após a publicação e regulado de forma clara e restrita. O resto é imaginação regulatória. A ERC tenta transformar uma prática editorial — útil em certas circunstâncias, desnecessária noutras — numa obrigação universal, aplicável mesmo quando o jornalista dispõe de documentos autênticos, muitos assinados pelo próprio visado, ou de observações directas e inequívocas que não carecem de comentário adicional. Pouco lhe importa que a ausência de auscultação prévia nada altere quanto à verdade factual.

    O resultado desta imposição à força de um “direito de contraditório” — que permite ao visado, em muitos casos, preparar uma resposta estratégica para mitigar o impacto da notícia, funcionando quase como uma contra-narrativa antecipada — é uma tentativa de redefinir o jornalismo como uma actividade dependente da vontade do visado, tornando impossível qualquer investigação séria.

    Mais grave: esta invenção terminológica é agora usada para classificar como “violação do rigor informativo” qualquer notícia que desagrade ao poder ou às corporações, mesmo quando assente em provas irrefutáveis. O truque é simples: não se contestam os factos; acusa-se o jornalista de não ter cumprido um “contraditório” imaginário. É o expediente perfeito para quem prefere silenciar, intimidar ou adiar o escrutínio público.

    O PÁGINA UM conhece bem esta táctica abusadora da ERC, que é safadamente reincidente. Investigamos com documentos, relatórios oficiais, pareceres, registos públicos, e-mails e comunicações assinadas pelos próprios protagonistas. Mas para a ERC nada está bem: insiste no relambório da ficção jurídica do contraditório, concedendo “trunfos” até a jornalistas promíscuos como André Carvalho Ramos, que agora até apresenta um programa ao lado de Pedro Costa, filho de António Costa e actual director-geral da empresa de comunicação onde o pivot da CNN Portugal anunciou dar aulas de media training. Seria cómico, não fosse trágico: nunca nenhum tribunal desvalorizou um documento autêntico por falta de contraditório. Só a ERC seria capaz de semelhante alquimia.

    Aquilo que está em causa não é doutrina; é liberdade. Se um jornalista tem de telefonar ao visado para “equilibrar” documentos autênticos, então está condenado a produzir notícias anémicas, domesticadas, inócuas — notícias que servem o visado, não o público.

    Helena Sousa, presidente da ERC.

    Obviamente, as repetidas deliberações da ERC – um regulador que não cumpre as suas verdadeiras atribuições no combate às promiscuidades na imprensa e que esconde documentos numa obscuridade incompreensível – moem, mas estão longe de vergar o PÁGINA UM. São actos administrativamente inócuos, ao nível do bitate de um treinador de bancada, e vindos de um regulador cuja presidente tem um passado jornalístico pouco superior ao medíocre.

    Por isso, continuaremos a cumprir a lei e a deontologia, mas não aceitaremos deveres que a lei não contém. A ERC e o seu séquito podem continuar a inventar o que quiserem — mas não conseguirão impor aos jornalistas aquilo que não tem existência jurídica. Pelo menos aqui no PÁGINA UM.

  • Marxismo: o protestantismo secularizado

    Marxismo: o protestantismo secularizado


    Há espectáculos televisivos que, de tão repetitivos, se tornaram uma espécie de missa negra do pensamento português: o candidato presidencial do PCP, António Filipe, senta-se diante das câmaras, despeja o catecismo marxista com a serenidade de quem recita contas de um rosário gasto, e os jornalistas acenam, reverentes, como se estivessem diante de uma esfinge portadora de verdades eternas.

    António Filipe, na sua última entrevista na CNN, brindou-nos com uma daquelas frases que fariam corar até o velho Marx – não de vergonha, mas de tédio: “O velho de Marx ensinou-nos algo que hoje é aceite (sic) unanimemente: o trabalho cria a riqueza produzida”! Como se o disparate inicial tivesse de ser coroado por outro ainda maior, arrematou: “Os lucros resultam da parte não paga aos trabalhadores; se os lucros aumentam exponencialmente, isso é retirado dos salários.” Assim, sem pestanejar, como quem anuncia que descobriu a pólvora.

    António Filipe, candidato presidencial apoiado pelo PCP, na entrevista que concedeu à CNN, no dia 16 de Novembro. / Foto: Imagem obtida a partir do vídeo da CNN | D.R.

    Estas afirmações grotescas continuam a infectar o espaço público como um vírus, aceites como verdades cristalizadas, repetidas por gerações de alunos mal preparados e comentadores educados nas madraças estatais ainda piores.

    É o velho mito protestante — esse veneno intelectual que rejeitou toda a autoridade natural e pariu o socialismo — transfigurado em axioma económico. A recusa da autoridade papal, que durante séculos moldou a ordem social, degenerou no dogma moderno de que todas as relações humanas resultam em conflitos insanáveis: empregador contra empregado, professor contra aluno, general contra soldado. Não há colaboração, não há benefício mútuo; há exploração, opressão, antagonismo.

    O socialismo é o protestantismo secularizado: a ideia de que ninguém tem autoridade legítima, de que toda a estrutura social assenta num roubo camuflado, e de que um qualquer comité de iluminados tem de reorganizar o mundo para espiar o pecado original do lucro.

    a rack of t - shirts hanging on a brick wall
    Foto: D.R.

    Eis o terreno perfeito para a supremacia do estado totalitário em que hoje vivemos: se toda a cooperação humana é um conflito, se o trabalhador é sempre uma vítima do empresário, então o Estado – esse bandido estacionário com licença para roubar – surge como o mediador inevitável, o “protector dos fracos”, o “árbitro dos litígios”.

    Na realidade, cria apenas conflitos artificiais para nos roubar melhor: assalta o trabalhador através de impostos pornográficos; furta o empresário através de burocracias confiscatórias; subtrai o bolso do consumidor através da inflação patrocinada pelo Banco Central e a banca comercial com a sua licença para operar. Quanto mais conflito artificial, maior a autoridade do predador. É o milagre da multiplicação das esmolas obrigatórias.

    Destrua-se agora, de uma vez por todas, esta patranha. Se um escultor competente passa oito horas a esculpir uma estátua em mármore, aplicando talento, técnica, sensibilidade, anos de aprendizagem e domínio da forma, o resultado é um objecto desejado, valioso, apreciado. Se, ao lado dele, o Sr. Joaquim — picareta humano, inimigo público do belo — passa exactamente as mesmas oito horas a martelar um bloco de mármore sem saber o que faz, o resultado é um pedaço de cascalho disforme que nem como pisa-papéis serviria.

    work, hands, sculptor, stonemason, sculptor, sculptor, sculptor, sculptor, sculptor, stonemason
    Foto: D.R.

    Segundo António Filipe, ambas as peças deveriam ter o mesmo valor: afinal, têm igual quantidade de “trabalho incorporado”. O consumidor, esse reaccionário que insiste em querer utilidade, discorda – a estátua vale, o cascalho não. Eis, em toda a sua nudez, a falência da teoria do valor-trabalho.

    O valor não está na pedra. Nem no tempo cronometrado. Nem no suor pingado. Está na cabeça dos consumidores, na utilidade subjectiva que cada um atribui ao bem. A primeira estátua satisfará a necessidade mais urgente: embelezar a sala de estar. A segunda, talvez a entrada da casa. A terceira, o jardim. A quarta já não servirá para nada. Quanto maior a quantidade de um bem, menor o valor que cada unidade adicional tem na escala das necessidades humanas. É por isso que o ouro é caro: é escasso e tem usos subjectivos de elevado valor. Não é porque alguém gastou “x horas” a minerá-lo.

    Quanto ao capitalista — esse ogre de duas cabeças na mitologia marxista — desempenha a função mais nobre da economia moderna: adianta a poupança para permitir a produção. Se todos fossem co-proprietários dos frutos, como seria?

    a person stacking coins on top of a table
    Foto: D.R.

    Imaginem uma cooperativa de vinicultores. Plantam a vinha. Esperam anos pela primeira colheita. Primeiro drama: como dividir o futuro vinho se não sabem quanto haverá? Segundo drama: todos terão de esperar anos para consumir; ninguém recebe salário agora. Terceiro drama: se, quando o vinho finalmente sair, o consumidor não o desejar? Falência da cooperativa, miséria “democrática”.

    O capitalista oferece a solução: “Eu pago-te hoje — com a minha poupança — e compro a tua produção futura.” O trabalhador recebe já, não espera anos, não corre risco. O risco é do capitalista: pode perder tudo. Pode aplicar mal, pode produzir algo que ninguém queira.

    Ao diferir consumo, espera ser remunerado: se o sacrifício é de 5%, exigirá um retorno de 10% para ter lucro de 5%. Este diferencial entre receitas e poupanças adiantadas para adquirir factores produtivos é o sinal que atrai os empreendedores, esses detectores de oportunidades que coordenam os capitais disponíveis. Não há exploração: há cooperação voluntária. O trabalhador vende bens futuros em troca de consumo presente; o capitalista compra bens futuros prescindindo de consumo presente. Tudo voluntário, sem polícia, sem comités centrais, sem Marx debruçado sobre o ombro.

    selective focus photography of blackberry fruit during daytime
    Foto: D.R.

    Quando os empreendedores acertam, os lucros são reinvestidos. Há mais máquinas, mais fábricas, mais computadores, mais ferramentas – e mais produtividade. Um agricultor africano com uma enxada, a trabalhar dez horas, produzirá uma migalha face a um agricultor chinês com um tractor de quinhentos cavalos. O chinês pode ganhar vinte vezes mais, mas o custo por unidade produzida é irrisório em comparação. É a acumulação de capital, não o “trabalho incorporado”, que enriquece sociedades. O socialismo, ao odiar o capital, odeia o único mecanismo que tira os povos da miséria. Por essa razão, invariavelmente, produz pobreza.

    António Filipe remata ainda com outra pérola: “o capitalismo destrói recursos”. Eis a mentira preferida de quem nunca produziu um alfinete. Julian Simon destruiu esta fantasia malthusiana quando humilhou Paul Ehrlich na famosa aposta: escolheu cinco metais que, segundo os profetas da escassez, iriam inevitavelmente tornar-se mais caros. Dez anos depois, todos estavam mais baratos. A humanidade tinha mais população, mais consumo, mais indústria – e mais abundância.

    A escassez é humana, não natural: é o tempo, o engenho, a tecnologia que transformam recursos brutos em bens úteis. O capitalismo multiplica recursos porque multiplica a inteligência aplicada. Só o socialismo é capaz de criar escassez artificial: basta nacionalizar qualquer sector para transformar ouro em chumbo.

    person welding steel
    Foto: D.R.

    Chegamos, assim, ao ponto final: os comunistas continuam a espalhar mentiras porque a mentira é a argamassa do seu edifício intelectual. O comunismo é, por natureza, totalitário porque pretende substituir a coordenação descentralizada feita por preços e lucros – sinais indispensáveis – por uma entidade central que decide quem produz, quanto produz e para quem produz.

    Sem preços nem lucros, decide-se às escuras; não se sabe se os recursos escassos estão a ser afectados correctamente; ninguém conhece custos reais, preferências reais, oportunidades reais. A miséria, a escassez, a ruína são inevitáveis.

    Foto: D.R.

    A história do século XX é suficientemente clara para qualquer pessoa honesta. Mas os nossos jornalistas continuam encantados com a liturgia socialista, prontos a indignar-se com a “extrema-direita”, mas incapazes de um suspiro perante a patranha marxista que, há cem anos, mata povos e destrói economias.

    Até quando suportaremos esta catequese da mentira? Até quando jornalistas e comentadores continuarão a enfiar-nos pela boca a papinha comunista enquanto fingem que é um alimento intelectual? Talvez até ao dia em que o escultor português, cansado de ser tratado como picareta, decida largar o martelo e emigrar. Nesse dia, talvez alguém perceba que o valor não nasce do trabalho – nasce da verdade. A verdade, ao contrário do marxismo, não pode ser planificada.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • Filipe Alves, ou a hipócrita solidariedade de um torpe homúnculo

    Filipe Alves, ou a hipócrita solidariedade de um torpe homúnculo


    Decorre, desde a semana passada, no Campus de Justiça de Lisboa um julgamento em que me sento no banco dos arguidos por, entre outros, obra e graça do Almirante Gouveia e Melo. O meu ‘crime’ foi denunciar no PÁGINA UM as negociatas realizadas em Fevereiro de 2021 entre o então líder da task force e o então bastonário da Ordem dos Médicos (e actual deputado do PSD) Miguel Guimarães para se vacinarem cerca de quatro mi médicos que não se inseriam nas prioridades da norma 002/2021 então em vigor.

    O agora candidato a Presidente da República não só extravasou as competências que detinha à data como contrariou de forma grave a norma da DGS, numa altura de escassez, pelo que, dessa forma, tanto como ele Miguel Guimarães preferiram vacinar quatro mil médicos sem contacto com doentes em vez quatro mil idosos com mais de 80 anos. Estas notícias do PÁGINA UM caíram em saco roto nos restantes media, o que até permitiu que numa análise prévia da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS), a inspectora Aida Sequeira a data de uma alteração da norma 002/2021 para dar uma aparência de legalidade onde só havia negociata e falta de ética.

    Presumo que não é todos os dias que um jornalista no exercício das suas funções se senta no ‘banco dos réus’ por iniciativa de um candidato presidencial – e ainda mais no contexto deste caso. Mas, apesar disso, e por aquilo que me apercebi, só a Lusa fez uma breve (e muito incompleta) notícia sobre o tema, tendo a jornalista perdido, pelo facto de não ter estado presente à tarde, a oportunidade de saber que corre no DIAP não apenas uma investigação sobre alegadas irregularidades em pagamentos ao Hospital das Forças Armadas (no âmbito da tal negociata da vacinação dos médicos não-prioritários) como outra investigação sobre a gestão da campanha ‘Todos por quem cuida’ que envolve directamente a a actual ministra da Saúde, Ana Paula Martins, Miguel Guimarães e Eurico Castro Alves, amigo íntimo de Luís Montenegro.

    No decurso deste processo judicial – que é duplo, porque está apenso outro em que os assistentes são a própria Ordem dos Médicos e os médicos Miguel Guimarães, Filipe Froes e Luís Varandas – tenho recebido muitos apoios e solidariedade de leitores do PÁGINA UM, e alguns (não muitos) de camaradas de profissão.

    Mas é sobre solidariedades que esta crónica se faz. Porque há solidariedades que nascem da amizade, outras da confiança, outras da nobreza de espírito – mas há também aquelas, raras mas inconfundíveis, que exalam um perfume tão barato quanto o carácter de quem as oferece.

    Neste outdoor em Alcântara esteve antes um cartaz da campanha da coligação liderada pelo PS na corrida às autárquicas. No mesmo local, esteve também um cartaz a criticar Carlos Moedas. / Foto: D.R.

    A recente manifestação de “solidariedade” de Filipe Alves, director do Diário de Notícias, pertence, sem sombra de dúvida, a esta última categoria: um mimo de pacotilha disfarçado de magnanimidade pública, que não engana quem ainda conserva intactos o olfacto moral e a paciência para distinguir trigo de palha.

    Vejamos: o director do Diário de Notícias — esse mesmo que dirige um jornal cuja uma empresa está em falência técnica, atolada em dívidas ao Estado e que, em prodigiosa demonstração de opacidade, se recusa há 120 dias entregar a Informação Empresarial Simplificada na Base de Dados das Contas Anuais — publicou uma prosa melíflua na qual se apresenta como apóstolo da liberdade de expressão e mártir da tolerância. Fá-lo, no entanto, com a subtileza de um hipopótamo a dançar sobre cristais.

    Antes de manifestar a sua “solidariedade”, avisa os seus incautos leitores (nas redes sociais) de que recentemente não avançou judicialmente contra mim porque tem causas mais úteis para a sua saúde mental e familiar — uma forma oblíqua de insinuar que só um tresloucado me processaria, e que, em boa verdade, me não processa por magnanimidade, não por falta de razão. Nada seria mais enternecedor, não fosse isto apenas a antecâmara do seu golpe de rins.

    A “solidariedade” de Filipe Alves, director do Diário de Notícias.

    Porque o homem, para me conceder solidariedade, reincide nas mesmas acusações absurdas que pespegou o seu jornal em Agosto passado: repete que “não declaro rendimentos”, que confundo funções, que sou um disparate ambulante. Ou seja, a sua solidariedade é uma espécie de dádiva que lhe permite voltar a caluniar-me com redobrada condescendência. Isto não é solidariedade: é pulhice. Ainda mais quando arrisca ser obrigado pelo tribunal judicial a publicar direitos de resposta que me negou no jornal que, sendo já uma sombra decrépita do passado, conjunturalmente dirige.

    E depois vem o remate sublime: Filipe Alves — sempre com aquele tom de virgem ofendida por se ver apanhada num bordel — declara que “compreende e respeita as pessoas que se sentiram ofendidas” por aquilo que eu escrevi, entre os quais se encontram o seu colunista Filipe Froes e o seu querido e idolatrado Gouveia e Melo.

    E fá-lo sem demonstrar o menor interesse em saber o que está realmente em causa, como convém ao devoto que nunca questiona o oráculo. A sua melhor solidariedade seria enviar um jornalista ao julgamento para fazer jornalismo. Mas Filipe Alves dispensa inquéritos, factos e documentos: basta-lhe uma fé cega, conveniente e politicamente alinhada.

    Filipe Alves, primeiro à esquerda, na companhia de Marco Galinha, accionista de referência da Global Notícias, dona do DN, que ainda não apresentou contas de 2024.

    Mas a verdadeira pérola surge quando se refere à minha “forma de estar na vida”, para contrapor que é diferente da dele — supostamente mais elevada. Que sabe ele da minha vida, das minhas escolhas, do meu trabalho, do meu percurso? Nada — mas isso nunca impediu um hipócrita de pontificar. A solidariedade, aqui, não passa de pretexto para repetir insinuações, reavivar manipulações e tentar, com mão leve, embrulhar lama em papel de embrulho de Natal.

    Dir-me-ão: por que não o processo depois do que escreveu em Agosto e desta repetição pública. E a resposta é simples — mas tem de ser dita com franqueza. Primeiro, porque é de mau tom processar profissionais do mesmo métier, mesmo se maus — a punição deve ser concedida pelos leitores, algo que já sucede no caso do Diário de Notícias.

    Segundo, receio sinceramente que, perante a exuberância do seu texto e a fragilidade das suas ilações, um tribunal acabe por declará-lo inimputável, não por malícia, mas por generosa compaixão clínica.

    Terceiro, porque sempre me pareceu mais elegante brindá-lo, não com o estrépito da litigância, mas com aquilo a que os nossos prosadores oitocentistas chamariam umas bordoadas de pena: dou-lhe golpes de escrita à moda antiga, vibrados com a compostura aristocrática de uma luva de pelica, que não esmagam o corpo mas, com paciente crueldade, reduzem o amor-próprio do visado a pó — pó esse que nada mais é do que a decantação natural da lama retórica que os seus intestinos, usurpando funções ao cérebro, têm o deplorável hábito de esguichar sobre o mundo.

    Convenhamos: quem se aventura a escrever aquilo que Filipe Alves escreveu sobre mim não merece o solene aparato de um tribunal; merece antes os correctivos literários que outrora Camilo ou Eça reservavam aos espíritos tacanhos, que, não podendo elevar-se, insistem em rastejar.

    E aqui convém acrescentar também algo óbvio: a credibilidade do personagem está ao nível da tiragem do Diário de Notícias, e o impacto das suas palavras rivaliza com o de uma nota de rodapé mal impressa. Mas isso, em todo o caso, não me impede de sentir um profundo asco perante a teatralização deste súbito abraço simbólico, que mais não é do que uma tentativa de encenar generosidade onde só existe cálculo.

    Termino como comecei: há adversários cuja solidariedade se aceita, porque nasce da grandeza, da frontalidade, do respeito mútuo, mesmo quando se combate. Filipe Alves, director do Diário de Notícias, não é adversário de ninguém; é apenas um torpe homúnculo, desses seres civicamente anões que acreditam que gestos falsamente amáveis podem mascarar carreiras feitas de velhacaria ladina, petulância imberbe e hipocrisia saloia.

    Que me poupem, pois, às solidariedades de opereta. Prefiro a hostilidade honesta de quem assume a própria posição à solidariedade fingida dos que se ajoelham apenas para parecerem grandes.

    Assim, fica dito. Com a precisão e a higiene que o caso merece.