O número é repetido com ênfase, acompanhado de sorrisos e de comparações com a chamada “inflação oficial”, sempre convenientemente inferior, como se o poder de compra real pudesse ser apurado por decreto, por alquimias estatística do INE, por comunicado do Conselho de Ministros.
Para o espectador distraído, a encenação funciona: o Estado aparece como benfeitor, o trabalhador como protegido e o empregador como figurante silencioso de uma peça que nunca escolheu representar.
Mas estas proclamações são, na realidade, uma fraude aritmética cuidadosamente embalada. Vejamos os números, que têm o mau hábito de não respeitar a retórica. No final de 1997, o salário mínimo era de 294 euros. Em 2025, com o recente anúncio, será de 920 euros. Nominalmente, o crescimento impressiona.
Traduzido em taxa anual composta, dá cerca de 4,2% ao ano durante quase três décadas. É um ritmo mais do que suficiente para alimentar discursos sobre o progresso “económico” e para justificar a sensação enganadora de melhoria contínua. O problema, como quase sempre, não está no numerador, mas no denominador que ninguém menciona.
Evolução do valor do salário mínimo entre 1997 e 2025 – para 2025, assume-se o aumento recentemente anunciado (unidade: Euros por mês); Fonte: INE; * Taxa anual de crescimento composta
Porque o euro de hoje não é o euro de 1997. Não o é por uma razão simples: o dinheiro foi massivamente adulterado. Se, em vez de olharmos para índices politicamente domesticados, olharmos para a expansão monetária efectiva, o quadro muda radicalmente. O agregado M2 em Portugal passou, no mesmo período, de cerca de 94 para 342 mil milhões de euros, o que corresponde a uma taxa anual próxima de 5%, superior ao crescimento do salário mínimo. Traduzido em linguagem clara, isto significa que um euro de 1997 vale hoje apenas cerca de 27 cêntimos. Mais de 70% do seu poder aquisitivo foi destruído, não por acaso, mas por política deliberada.
Evolução do agregado M2 entre 1997 e 2025 – previsão com base no valor de Outubro de 2025 (Unidade: milhares de milhões de Euros); Fonte: Banco de Portugal; * Taxa de crescimento anual composta
Feita esta conversão elementar, o milagre desvanece-se. Os 920 euros de 2025, corrigidos pela expansão monetária, correspondem a cerca de 253 euros em euros de 1997. Ou seja: abaixo dos 294 euros de então. O saldo real é uma perda de cerca de 14%.
Em quase trinta anos de anúncios triunfais, o trabalhador no salário mínimo não foi elevado; foi lentamente empurrado para trás, enquanto se lhe dizia, com voz grave, que estava a avançar. Eis a essência da fraude: devolver em prestações uma parte do que foi previamente roubado, e ainda assim devolver menos do que se tirou.
Mas o embuste não se fica pela erosão monetária. Há uma segunda camada, mais obscena, que explica o entusiasmo sincero da classe política sempre que o salário mínimo sobe. Ao contrário do que a narrativa sugere, um salário mínimo não é uma dádiva; é um custo imposto.
Evolução do salário mínimo entre 1997 e 2025 – para 2025, assume-se o aumento recentemente anunciado (unidade: Euros por mês, ajustado pelo crescimento do agregado M2); Fonte: INE e Banco de Portugal
Esse custo vem acompanhado de um prémio fiscal imediato. Em Portugal, o salário mínimo paga “descontos” – na realidade mais um imposto – para a Segurança Social: 11% atribuídos ao trabalhador e 23,75% ao empregador. Esta divisão é uma ficção contabilística. Tudo sai do mesmo bolso: o do empregador, enquanto o Estado, quando contrata, não paga nada disto. No total, estamos perante um confisco adicional de 34,75% sobre o valor pago.
Com um salário mínimo de 870 euros, pagos em 14 meses, o encargo anual em contribuições rondava os 4.233 euros. Com o novo valor de 920 euros, esse encargo sobe para cerca de 4.476 euros por trabalhador por ano. A diferença é clara: mais 243 euros por ano enviados directamente para o Estado, por cada trabalhador no salário mínimo! Eis a verdadeira razão do entusiasmo oficial.
O aumento não é apenas “social”; é fiscalmente rentável. O trabalhador recebe um pouco mais no recibo; o Estado, obviamente, garante que também recebe mais; o empregador, como sempre, financia o espectáculo e ainda é convidado a aplaudir.
Evolução do valor de segurança social pago pelo empregador privado (11% + 23,75%; 14 salários ano); Unidade; euros por ano
Perante isto, impõe-se uma pergunta que nenhum governante ousa formular em voz alta: se é legítimo decretar um salário mínimo de 920 euros, por que não 10.000 euros? A resposta surge de imediato, até nos corredores do próprio regime: porque isso destruiria a actividade económica. Ao admitir este limite, o Estado confessa o essencial: o salário mínimo não é um princípio moral; é um instrumento táctico. Não serve para criar prosperidade, mas para extrair o máximo possível sem matar a galinha depressa demais. É a arte antiga de desnatar o povo em lume brando, enquanto se declama poesia social.
Do ponto de vista económico e moral, o problema é ainda mais profundo. O salário resulta de um contrato voluntário entre duas partes: quem oferece trabalho, dispondo do seu tempo e da sua capacidade, e quem paga o trabalho, dispondo do seu capital e antecipando o consumo presente ao trabalhador em troca de produção futura.
Quando o Estado impõe um salário mínimo, está a declarar que esse contrato só é legítimo se obedecer a um número arbitrário fixado politicamente. Está a dizer ao empregador: “és obrigado a pagar X, mesmo que X seja superior à produtividade marginal desse trabalhador.” Isto não é regulação; é invasão directa da propriedade privada.
As consequências não são abstractas. Em empresas do interior, em sectores de margens estreitas, num país com fraca procura interna e custos crescentes, este novo patamar pode significar a diferença entre sobreviver e fechar. Não porque os empresários sejam cruéis ou gananciosos, mas porque a aritmética não responde a discursos.
O salário mínimo não cria valor; apenas proíbe contratos abaixo de um certo nível. Quando se proíbem contratos, proíbem-se empregos – sobretudo os de entrada, os que permitem aprender, produzir pouco no início e mais depois.
Os defensores do presente regime apressam-se então a brandir a expressão mágica: “pleno emprego”. Mais um número encantado. Em 2020, a população activa em Portugal era de cerca de 5,076 milhões. Em 2024, passou para 5,507 milhões, um aumento de 431 mil pessoas. No mesmo período, o número de estrangeiros residentes saltou de cerca de 662 mil para mais de 1,544 milhões, um acréscimo próximo de 900 mil. Estes números, por si só, não provam automaticamente ilegalidade em massa – há estudantes, dependentes, reformas, emigração de portugueses –, mas revelam um desfasamento estrutural que não pode ser varrido para debaixo do tapete.
Um mercado que absorve fluxos migratórios desta dimensão, sem que a população activa cresça proporcionalmente, só pode fazê-lo de três maneiras: comprimindo salários reais, empurrando pessoas para a informalidade ou recorrendo a esquemas contratuais cada vez mais opacos.
Aqui reside a hipocrisia suprema: o mesmo Estado que proclama o salário mínimo como estandarte da dignidade tolera, por omissão ou conveniência, um mercado paralelo onde muitos trabalham abaixo desse mínimo, sem contrato e sem papéis. O decreto serve para o discurso; a realidade trata-se nos bastidores.
O salário mínimo não protege os trabalhadores; protege apenas aqueles cuja produtividade já se encontra acima do patamar imposto. Os outros ficam de fora. Jovens, imigrantes recentes, pessoas sem qualificações, trabalhadores de regiões pobres – precisamente os que mais precisavam de entrar no mercado – são empurrados para o desemprego, para a economia informal ou para a dependência do Estado. O salário mínimo não eleva salários baixos; elimina empregos baixos.
A isto soma-se o velho problema do cálculo económico. Nenhum comité central possui a informação dispersa necessária para determinar preços justos, salários adequados ou produtividades individuais. Os salários são sinais. Condensam informação local, sectorial, temporal.
Impô-los por decreto é desligar o sinal e fingir surpresa quando o sistema entra em curto-circuito. No longo prazo, a consequência é inevitável: menos investimento, menor acumulação de capital, falências de pequenos produtores e favorecimento de grandes estruturas capazes de absorver custos e navegar a teia regulatória. Não é política social; é política anti-capital e anti-mobilidade.
Tudo isto torna ainda mais embaraçosa a comparação internacional. Países como Áustria, Dinamarca, Finlândia, Itália e Suécia não têm estabelecido um salário mínimo nacional estatutário. Não praticam este confisco encenado por decreto. Ainda assim – ou talvez por isso mesmo – são, em média, muito mais ricos do que Portugal. A prosperidade não nasce de anúncios nem de números mágicos. Nasce de produtividade, investimento, capital acumulado, segurança jurídica e liberdade contratual. O resto é teatro.
Valor do salário mínimo para os diferentes países da União Europeia (Unidade: Euros por mês; ajustado a 14 salários anuais); Fonte: Eurostat
No fim, sobra a verdade nua, que raramente cabe nos comunicados oficiais: o salário mínimo, tal como é praticado, não é um instrumento de justiça social. É um mecanismo de extracção fiscal, de controlo político e de gestão simbólica da miséria. Serve para extorquir mais dinheiro ao sector privado, enquanto se proclama virtude.
Quem paga, como sempre, é o mesmo: quem trabalha, quem investe, quem arrisca – tratado como uma vaca leiteira, com a diferença de que a vaca, ao menos, não é obrigada a agradecer enquanto é ordenhada.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
Por vezes, a crítica deixa de ser um exercício de escrutínio público para se transformar num ritual de caça. Não porque os factos possam ser desmentidos, mas porque tocam nervos expostos, vaidades profissionais e corporações habituadas a não serem contrariadas. Tem sido isto que se seguiu às revelações do PÁGINA UM sobre os inquéritos psicométricos aplicados a candidatos ao Centro de Estudos Judiciários: um ataque em matilha, ruidoso, pouco elegante e intelectualmente indigente.
O resultado foi um desastre. Nove em cada dez chumbos aplicados pela empresa de Mauro Paulino foram revertidos numa segunda avaliação, realizada por outros psicólogos. Se isto não fosse matéria de enorme gravidade institucional, seria apenas anedótico. Felizmente para os candidatos — e para o próprio sistema judicial —, houve uma segunda avaliação. Caso contrário, estaríamos perante um escândalo silencioso, daqueles que só mais tarde se descobrem, quando já nada há a fazer.
Perante este falhanço, seria razoável esperar pudor, reflexão, talvez até um pedido de desculpas. Mas não. Houve sim um exercício clássico de corporativismo defensivo.
Soube hoje que o gerente da empresa responsável pelas avaliações, a Thinking About, não só não assumiu o erro como passou ao ataque. O psicólogo (e comentador da SIC) Mauro Paulino apresentou uma extensa queixa à ERC e, não satisfeito, arregimentou mais 19 pessoas para o mesmo efeito, muitas delas anónimas, numa tentativa transparente de criar volume onde não há razão, barulho onde não há argumento.
O comportamento de Mauro Paulino revela um traço que, a esta altura, parece estrutural: uma extraordinária cara de pau. Em vez de explicar os critérios que levaram à escolha da sua empresa pelo anterior director do CEJ — critérios que continuam por esclarecer —, optou pela estratégia do cerco administrativo.
Vinte queixas, num processo administrativo do regulador com 117 páginas, um alvo, uma tentativa de intimidação por exaustão. A ERC, sem sequer indicar onde eventualmente possa eu ter errado, achou adequado conceder-me dez dias para responder a vinte participações.
Miguel Ricou, como um corporativista usa como falácia o argumento de autoridade investindo-se de dono da ciência.
Nem um demoro: respondi hoje mesmo à senhora presidente do Conselho Regulador que não tenho tempo para palermices. O meu tempo é demasiado útil para ser gasto a defender-me para, no fim, receber bitaites da ERC sem noção travestidos de deliberação regulatória.
Convém ser claro: o PÁGINA UM não atacou pessoas; expôs factos. Não inventou perguntas; publicou-as. Não fabricou chumbos; contou-os. E não criou a reversão; limitou-se a noticiá-la. Quem se sente incomodado com isto não está zangado com o jornalismo, está zangado com a realidade.
Quanto a Mauro Paulino, tudo o que tenho vindo a conhecer não me autoriza a considerá-lo um grande psicólogo. Mas o seu comportamento, esse sim, daria um grande case study. Talvez não tanto para a Psicologia — porque o seu mal não me parece reversível por essa via —, mas certamente para a Psiquiatria, que possuí terapias químicas eventualmente mais adequadas.
Excerto do inquérito PAI usado nas provas psicológicas do CEJ.
E é aqui que a ironia se fecha: quem se arrogou o poder de avaliar a aptidão mental de futuros juízes acabou por oferecer, sem o querer, um retrato clínico de si próprio.
Enfim, a matilha ladra, mas os factos continuam de pé. E é com eles — não com queixas em barda, nem com solidariedades corporativas — que o jornalismo sério continuará a trabalhar.
Quatro anos não são uma eternidade, mas no jornalismo independente português são já uma pequena ousadia. O PÁGINA UM nasceu num tempo pouco propício à dissidência informada, à paciência investigativa e ao incómodo deliberado. Nasceu quando o ruído substituía o debate, quando o alinhamento editorial se confundia com responsabilidade cívica e quando a pergunta certa era, demasiadas vezes, tratada como uma inconveniência. Nasceu, em suma, contra a corrente — e manteve-se aí, teimosamente.
Ao longo destes quatro anos, o PÁGINA UM não procurou ser consensual, nem confortável, nem palatável aos poderes instituídos. Procurou ser rigoroso. Procurou ser documentado. Procurou ser honesto no método e transparente na dúvida. E isso, num ecossistema mediático cada vez mais dependente de agendas externas, de fluxos publicitários opacos e de narrativas pré-fabricadas, tornou-se um acto quase subversivo.
Fizemos jornalismo onde ele faz mais falta: na análise crítica das políticas públicas, na desconstrução de discursos oficiais, na leitura fria dos dados, na recusa da simplificação enganadora. Fizemo-lo sem publicidade, sem parcerias comerciais, sem patrocinadores, sem favores. Fizemo-lo apenas com leitores — leitores exigentes, atentos, muitas vezes incómodos, mas sempre livres. E essa é talvez a maior conquista destes quatro anos: provar que é possível sustentar um projecto jornalístico independente apenas com a confiança de quem lê.
Ilustração em inteligência artificial com recurso a fotografia real do Serafim, o ‘Mascot’ do PÁGINA UM.
Não fomos imunes ao erro, nem reclamamos infalibilidade. Mas nunca confundimos erro com desleixo, nem crítica com hostilidade, nem independência com neutralidade vazia. O PÁGINA UM tomou posições quando os factos o exigiam e manteve distância quando a prudência o aconselhava. Pagou por isso um preço: processos, pressões, tentativas de descredibilização, silêncios cúmplices. Pagou-o consciente de que o jornalismo que não incomoda dificilmente cumpre a sua função democrática.
Quatro anos depois, o essencial mantém-se intacto: a recusa da propaganda travestida de notícia, a rejeição da autoridade sem prova, a defesa intransigente do direito a perguntar — mesmo quando a resposta não agrada. Num país onde tantas redações se habituaram a repetir, o PÁGINA UM escolheu verificar. Onde tantos optaram por alinhar, escolheu divergir.
Este aniversário, já o quarto, não é um ponto de chegada, mas uma confirmação. A confirmação de que há espaço para um jornalismo que respeita a inteligência do leitor. A confirmação de que a independência não é um slogan, mas uma prática diária. A confirmação de que, enquanto houver leitores dispostos a apoiar o incómodo, o PÁGINA UM continuará a fazer exactamente aquilo para que nasceu: jornalismo sem concessões.
A confiança pública não nasce do silêncio. Nasce do acesso à informação, do escrutínio e da possibilidade de contraditório informado. Sempre que uma instituição pede confiança em troca de opacidade, não está a pedir maturidade cívica; está a pedir resignação. E isso, numa democracia, é um sinal de alarme.
O estudo recentemente publicado na BMC Medicine, co-assinado por John P. A. Ioannidis — o mais conceituado epidemiologista da actualidade — e que o PÁGINA UM noticiou nesta quarta-feira, não denuncia uma conspiração nem aponta dedos a indivíduos. Faz algo muito mais incómodo: demonstra, com método e números, que há informação relevante em matéria de fármacos conhecida pelos reguladores que não chega à literatura científica, mesmo quando essa informação põe em causa a fiabilidade de ensaios clínicos amplamente citados. A ciência publicada, afinal, nem sempre reflecte tudo o que os reguladores sabem.
Este dado muda o enquadramento do debate público. Porque, se a ciência publicada não é o espelho completo do conhecimento institucional, então o acesso aos dados regulatórios deixa de ser um luxo académico e passa a ser uma exigência democrática.
É neste contexto que se torna impossível ignorar uma realidade institucional concreta: o actual presidente da Agência Europeia do Medicamento (EMA) é, simultaneamente, o presidente do Infarmed. E é também um facto — reiterado, documentado, contestado — que o Infarmed tem recusado divulgar dados detalhados sobre eventos adversos associados às vacinas contra a covid-19, apesar de uma sentença do Tribunal Administrativo nesse sentido. A manipulação da base de dados, com a retirada de variáveis, está, neste momento, sob nova apreciação judicial, tendo sido pedida a aplicação de sanção pecuniária compulsória, como já ocorreu com o Conselho Superior da Magistratura e com a Administração Central do Sistema de Saúde. O processo do Infarmed está, contudo, desde Julho deste ano a aguardar decisão do tribunal, adiando um desfecho que se iniciou em… 2021.
Estas situações levantam uma questão que já não é técnica, mas política no sentido mais sério do termo: quem vigia a vigilância farmacêutica quando a informação fica concentrada e inacessível?
O estudo de Ioannidis mostra que o sistema regulatório europeu (EMA) detecta problemas que não chegam aos artigos científicos. Não afirma que os medicamentos sejam ineficazes, nem que fármacos — incluindo vacinas — sejam perigosos. Afirma algo mais simples e mais perturbador: há assimetrias de informação que persistem sem correcção automática. E quando essas assimetrias existem, o ónus da transparência não diminui — aumenta.
Ora, se sabemos hoje que os reguladores detêm informação crítica que não é reflectida na literatura; que os artigos científicos continuam a ser apresentados ao público como síntese suficiente do conhecimento; e que os cidadãos são chamados a confiar “na ciência” como argumento de autoridade final, então recusar a divulgação de dados detalhados de farmacovigilância deixa de ser uma decisão neutra. Passa a ser uma escolha com impacto directo na qualidade do debate público e na confiança institucional.
Não se trata de exigir conclusões pré-fabricadas nem de alimentar suspeições fáceis. Trata-se de reconhecer que a transparência não fragiliza a ciência — protege-a. Só sistemas inseguros temem o olhar externo. Só autoridades pouco confiantes confundem escrutínio com desinformação.
Rui Santos Ivo; presidente do Infarmed e da Agência Europeia do Medicamento.
A acumulação de cargos ao mais alto nível europeu e nacional no sensível área da farmacovigilância não é, por si só, ilegítima. Mas multiplica a responsabilidade. Quando a mesma figura — Rui Santos Ivo — preside (desde Março deste ano) ao regulador nacional e ao europeu, a exigência de abertura não pode ser menor do que seria se as funções estivessem separadas. Tem de ser maior. Muito maior.
A pergunta que se impõe não é agressiva, nem ideológica, nem irresponsável. É simples e cívica: se até os reguladores sabem que nem toda a informação relevante chega à ciência publicada, por que razão se nega ao público o acesso aos dados que permitiriam avaliar essa diferença?
Não basta pedir confiança. É preciso justificá-la todos os dias. A ciência não é um dogma; é um método. E o método vive da exposição aos factos, não da sua ocultação paternalista.
O PÁGINA UM não pede segredos industriais, nem dados pessoais identificáveis, nem conclusões alarmistas. Pede aquilo que qualquer sociedade adulta tem o direito de exigir: dados completos, contextualizados e escrutináveis. Só assim a confiança deixa de ser um acto de fé e passa a ser um juízo informado.
Quando a ciência pede silêncio para se proteger, deixa de ser ciência. E quando o regulador pede confiança recusando dados, deixa de ser apenas regulador — passa a ser actor político. E actores políticos, numa democracia, devem responder a perguntas incómodas.
Desde que o PÁGINA UMrevelou em Novembro que cerca de uma centena de candidatos ao curso de formação de magistrados do Centro de Estudos Judiciários (CEJ) haviam sido chumbados numa avaliação psicológica inicial — reprovações essas que viriam a ser revertidas, em nove casos em cada dez, por uma segunda avaliação conduzida por outras equipas de psicólogos —, o debate público em torno da Psicologia não seguiu o caminho que a ciência exige. Seguiu, antes, o trilho gasto do corporativismo defensivo, da protecção acrítica de práticas erradas e da recusa em enfrentar dados empíricos incómodos.
Aquilo que estava — e continua — em causa não é a Psicologia enquanto ciência, nem a legitimidade da avaliação psicológica em contextos sensíveis. O que estava em causa era algo muito mais concreto e muito mais grave: a utilização de instrumentos e ferramentas manifestamente desadequados para um universo específico de candidatos — neste caso, candidatos ao curso de magistrados, que já tinham ultrapassado exigentes avaliações de conhecimentos jurídicos e culturais —, com consequências profissionais e pessoais profundas, e que foram depois desmentidos, de forma esmagadora, por uma segunda avaliação técnica, conduzida por outras equipas, com critérios distintos e instrumentos adequados.
Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Foto: FMUP.
Perante este facto — a reversão massiva dos chumbos — seria expectável um debate sério, científico, baseado em evidência, sobre a validade dos instrumentos utilizados, com especial destaque para o Personality Assessment Inventory (PAI), a sua adequação ao perfil dos candidatos, a taxa anormal de falsos negativos e os riscos de decisões erradas em processos de elevada responsabilidade institucional. Nada disso aconteceu.
Em vez disso, assistiu-se a uma sucessão de reacções absurdamente corporativistas que ficam mal em qualquer classe profissional e pior ainda numa organização como a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), porque revelam infantilidade institucional e um comportamento de tribo. Primeiro, surgiu a reacção de um membro do Conselho Jurisdiccional da Ordem dos Psicólogos, Mauro Paulino, que — surpresa das surpresas — acumula essa função com a posição de proprietário da empresa responsável pelos testes iniciais no CEJ. Trata-se de um conflito de interesses óbvio, utilizado para tentar descredibilizar o trabalho jornalístico, recorrendo a um órgão de comunicação social complacente, neste caso o Sol.
Depois, veio a própria bastonária da Ordem, Sofia Ramalho, que, em vez de promover uma reflexão interna séria, preferiu usar o Expresso para contestar indirectamente as notícias do PÁGINA UM (o que mereceu a minha resposta aqui) e a reacção da ministra da Justiça, sem nunca enfrentar o dado central: a reversão esmagadora das reprovações.
Mauro Paulino, membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos e gerente da empresa Talking About que aplicou, entre outras ferramentas, o Personality Assessment Inventory (PAI) por questões completamente absurdas num contexto de candidatos à magistraturas. Nove em cada 10 chumbos seriam revertidos por uma segunda avaliação por outros peritos.
Agora surge Miguel Ricou — num artigo de opinião no jornal Público sugestivamente intitulado “Quando a avaliação psicológica é julgada fora da ciência” — a erguer um discurso de defesa genérica da Psicologia, como se a crítica a um procedimento concreto fosse um ataque à ciência enquanto tal. E fá-lo com um argumento tão antigo quanto intelectualmente preguiçoso: o do declive fatal. Se alguém “fora da ciência” (leia-se, “fora da sua corporação”) questiona uma avaliação psicológica num contexto judicial, amanhã questionará nas forças de segurança, depois na saúde e assim sucessivamente, até ao colapso civilizacional.
Este raciocínio não é apenas falacioso — é profundamente desonesto, ainda mais lamentável em alguém que integra o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. Espera-se que Miguel Ricou, para bem dos seus alunos da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, não confunda deliberadamente ciência com corporação, método com prática, escrutínio com blasfémia. O seu texto é de um corporativismo confrangedor, servindo para blindar procedimentos defeituosos atrás de uma retórica de autoridade e para transformar qualquer crítica informada num atentado ao edifício científico. É o argumento clássico de quem evita responder ao essencial porque prefere dramatizar o acessório.
A Psicologia enquanto ciência não está em causa porque Mauro Paulino introduziu ferramentas de avaliação que erraram em nove em cada dez reprovações. Está em causa, sim, a má Psicologia enquanto prática — e quem a defende. Não se questionou o escrutínio científico; denunciou-se a sua ausência. Não se atacou a avaliação psicológica em abstracto; criticou-se a sua aplicação acrítica, dogmática e tecnicamente errada a um grupo específico de candidatos, em claro desrespeito por décadas de investigação que demonstram que certos instrumentos não são adequados a contextos de selecção altamente especializada, como é o caso do CEJ. Invocar a “defesa da ciência” para proteger procedimentos mal fundamentados não é ciência: é corporativismo com verniz académico.
Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Transformar uma crítica concreta — ainda mais num caso em que, repita-se, houve reversão de nove em cada dez chumbos — num ataque à ciência é uma manobra de distracção. É uma estupidez pegada, que deveria fazer corar Miguel Ricou, que, ainda por cima, assina pomposamente a peça como “Presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses”. Isto é atirar areia para os olhos do público. É refugiar-se numa torre de Babel corporativa, onde qualquer questionamento externo é rotulado como ignorância, populismo ou “analfabetismo científico”.
Miguel Ricou e a própria bastonária da Ordem dos Psicólogos usam uma estratégia de defesa da Psicologia que é, paradoxalmente, a melhor forma de minar a credibilidade da Psicologia.
A ciência, em qualquer área, não se protege com silêncio nem com autoridade invocada. Protege-se com dados, com comparação de resultados, com revisão crítica de métodos e com a humildade de reconhecer erros quando estes são evidentes. Repita-se: quando uma segunda avaliação, feita por outras equipas de psicólogos, reverte nove em cada dez chumbos, o problema não está no “escrutínio mediático”. Está no primeiro processo de avaliação.
Excerto do inquérito PAI usado nas provas psicológicas do CEJ.
Ao optar por não discutir os instrumentos concretos, a sua validade preditiva, a sua adequação ao perfil dos candidatos e a taxa anómala de reprovações, a Ordem dos Psicólogos não está a defender a Psicologia. Está a defendê-la mal. Está a confundir autoridade institucional com infalibilidade científica. E está a contribuir para um descrédito que nasce, não da crítica jornalística, mas da recusa em enfrentar factos.
A Psicologia, enquanto ciência aplicada, tem tudo a ganhar com o escrutínio sério, informado e documentado. Não pode é exigir imunidade à crítica, porque quando uma ordem profissional se fecha sobre si própria, reage em bloco e substitui a análise científica por artigos de opinião indignados, não está a proteger a ciência. Está a fazer-lhe um péssimo serviço. E isso deveria preocupar, antes de mais, os psicólogos — que são muito mais do que o doutor Mauro Paulino, a doutora Sofia Ramalho e o doutor Miguel Ricou.
“Na ditadura era melhor”. Enunciado com certo ar de superioridade, como se nele estivesse encerrada alguma forma de argumento de autoridade, o mote dos reacionários brasileiros ilude muita gente. Numa época em que o desconhecimento de História é ainda mais crónico do que o desconhecimento de disciplinas básicas como o Português e a Matemática, a repetição incessante dessa fórmula infelizmente ainda atrai muitos jovens.
Não que isso seja exclusividade do bolsonarismo, registe-se. A bem da verdade, o reacionarismo brasileiro deita raízes muito mais profundas na formação da nossa identidade nacional. Após a proclamação da República, saudosistas do Brasil Império bradavam contra as iniquidades do novo regime, afirmando que “na monarquia era melhor”. Já na República Velha, protestava-se contra o duopólio político de São Paulo e Minas Gerais – resumido na fórmula do café (SP) com leite (MG) –, a alegar-se que “na época da República da Espada era melhor”.
Verifica-se, portanto, que a invocação de um passado radiante, em que tudo era belo e perfeito, a contrastar com o presente duro e penoso, obedece a critérios cronológicos móveis na experiência política brasileira. Sob esse prisma, o bolsonarismo nada apresenta de novo. Ele é, talvez, apenas a formulação mais recente – e certamente a mais tosca – de um sentimento relativamente atemporal que acomete parte da população.
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O teste da realidade
Mas será que isso é verdade? Será que, durante a ditadura militar, de facto o Brasil era um país melhor?
Deixemos de lado qualquer análise moral sobre as óbvias vantagens da democracia sobre qualquer regime de supressão das liberdades. Será possível aferir, com base em dados concretos, que o regime inaugurado com a Constituição de 1988 é realmente melhor – no sentido de garantir melhores condições de vida – do que o que lhe precedeu, o regime militar de 1964?
Uma vez que a moralidade está a ser colocada de lado em favor de uma análise, digamos, estritamente pragmática, vamos focar em cinco aspetos geralmente utilizados pelos reacionários para justificar a sua opção preferencial pela ditadura:
1 – “Na ditadura, a qualidade de vida era maior”;
2 – “Na ditadura, a economia desenvolvia-se bem”;
3 – “Na ditadura, a lei valia para todos e quem era bandido ia preso”;
4 – “Na ditadura, as pessoas tinham mais segurança”; e
4 – “Na ditadura, não havia corrupção”.
“Na ditadura, a qualidade de vida era maior”
Toda a gente sabe que, em alguns círculos do reacionarismo brasileiro, constrói-se uma realidade paralela, na qual a Terra é plana e o Brasil vive sob uma exótica “ditadura judicial”, comandada por Alexandre “Xandão” de Moraes”. A afirmação de que os indicadores sociais na época da ditadura eram melhores não se encontra no mesmo nível de bizarrice dessas “teorias”, mas chega perto. Sob nenhum aspeto, considerado qualquer parâmetro, o regime militar pode ser tido como melhor do que o período democrático inaugurado em 1988.
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Educação
Tomemos, primeiramente, o analfabetismo. Quando os militares saíram dos quartéis para derrubar João Goulart, 40% da população não sabia ler ou escrever. Vinte e um anos depois, quando entregaram o poder aos civis, esse índice sofreu apenas uma discreta redução de 7%, com 33% ainda iletrada. Com um detalhe: até a Constituição de 1988, analfabetos não podiam votar. Talvez esteja aí a explicação para um desempenho tão miserável.
Já a detestada democracia recebeu esse percentual e, em menos de quarenta anos, reduziu-o a 5,5%. Trata-se ainda de um patamar alto para um país rico e com as dimensões do Brasil. Ainda assim, não há comparação com o que entregou a ditadura. E, desde 1988, os analfabetos votam.
Saúde
Na área da saúde, então, a desproporção é ainda mais evidente. No amanhecer da ditadura, apenas os trabalhadores que contribuíam para o falecido Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) tinham direito a atendimento hospitalar na rede pública. Isso deixava uma parte considerável da população à margem de qualquer assistência médica.
Com a Constituição de 1988, inaugurou-se o SUS (Sistema Único de Saúde). Universal, o SUS garante atendimento gratuito a absolutamente qualquer pessoa. O indivíduo não precisa sequer ser brasileiro. Não são raros os casos de turistas norte-americanos que precisam socorrer-se de atendimento médico quando gozam férias em território nacional. Todos eles ficam espantados ao não serem cobrados à saída, quando o mesmo atendimento custaria dezenas de milhares de dólares em seu país de origem.
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Em termos estritamente numéricos, a incompetência do regime militar também fica evidente. A expectativa de vida em 1964 era de 55 anos. Nos estertores da ditadura, o total era de apenas 64 anos (9 anos a mais). Já na democracia, esse número subiu para quase 77 (13 anos a mais). E isso apesar de uma pandemia que ceifou 700 mil vidas no meio do caminho, cortesia do negacionismo criminoso de Jair Bolsonaro, que distribuía a ineficaz cloroquina até às emas do Palácio do Alvorada, em vez de comprar vacinas e respeitar o isolamento social. A extrema pobreza saiu de 22% (1985) da população para menos de 3% hoje. Quanto à mortalidade infantil, saímos do vergonhoso patamar de 94 mortes por 1.000 (1970) nascimentos para ainda insuficientes 11/1000 nascidos vivos atualmente.
“Na ditadura, a economia desenvolvia-se bem”
Outra alegação frequentemente utilizada pelos reacionários para sustentar os benefícios da ditadura face à democracia é o de que, naquela época, “a economia desenvolvia-se bem”. Sustentada pelo mito do “Milagre Económico Brasileiro”, a ditadura militar ficou marcada no imaginário nacional como um período de grande bonança económica, incensada pela parolice do “Brasil Potência”. Infelizmente, contudo, a realidade era bem mais dura do que a propaganda oficial do regime.
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A inflação
Entre as muitas causas do golpe de 1964, uma delas, sem sombra de dúvidas, foi a carestia. Naquele ano, a inflação alcançara quase 100% no cômputo de doze meses. Jamais se vira coisa igual. Algo que custava Cr$ 100,00 em 1 de Janeiro custaria, em 31 de Dezembro, o dobro. A redução do patamar pornográfico da perda do valor da moeda era uma das principais bandeiras dos militares golpistas. Entretanto, em vinte e um anos os resultados não foram dos melhores. Em 1985, o Brasil atingiria o patamar até então recorde de 235% ao ano.
Por quase uma década, economistas com prestígio inversamente proporcional à capacidade transformaram o Brasil em um verdadeiro laboratório de experimentações económicas heterodoxas. Foi somente em 1994, com o Plano Real, que enfim a ortodoxia financeira prevaleceu. Com ela, desmontou-se a armadilha inflacionária e o país pôde descobrir novamente o valor da moeda. Mas o ponto a destacar é: os militares receberam uma inflação ruim e entregaram-na em patamar duas vezes e meia pior. Foi somente na democracia que esse problema crónico foi definitivamente resolvido.
O poder de compra do trabalhador
Considerando que a maior parte da população depende do trabalho assalariado para pagar suas contas e comprar mantimentos, um bom parâmetro de comparação é o poder de compra do salário-mínimo. Criado noutro regime de exceção (a Ditadura Vargas), o patamar mais baixo de remuneração mensal assegurada pela lei ao trabalhador chegou a 1964 valendo Cr$ 42.000,00 (“impressionantes” US$ 30). Em 1985, esse valor tinha subido para Cr$ 600.000,00 (ainda ridículos US$ 43). Tudo isso, destaque-se, em termos nominais. Em termos reais, o salário-mínimo de 1985 comprava apenas metade do que comprava o de 1964.
Com a estabilização financeira promovida pelo Plano Real, o salário-mínimo foi elevado inicialmente para US$ 100,00. Hoje, ele vale R$ 1.525,00 (cerca de US$ 282). O patamar ainda é irrisório, mas representa quase três vezes o valor de 1994 e mais de seis vezes o de 1985, quando os militares voltaram para os quartéis.
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A dívida externa
Em termos puramente quantitativos, nenhum fracasso da ditadura é mais expressivo do que a dívida externa. Em 1964, o Brasil devia aos seus credores externos US$ 3 mil milhões (14% do PIB). Em 1985, ao saírem do poder, os militares legaram-nos a maior dívida externa do planeta: US$ 102 mil milhões (quase 50% do PIB). Tudo porque o mito do “Brasil Grande”, alicerçado em obras faraónicas, estava estruturado numa espécie de esquema de pirâmide, através do qual empréstimos antigos eram pagos através da contratação de empréstimos novos.
As duas crises do petróleo (1973 e 1979), juntamente com a marretada que Paul Volcker deu nos juros norte-americanos para conter a inflação, estouraram a festa no começo dos anos 80. Resultado: o Brasil faliu, declarou moratória e ficou condenado a quase uma década de crescimento económico pífio (período que ficou conhecido no país como “década perdida”). Grandes feitos económicos, como se observa.
“Na ditadura, a lei valia para todos e quem era bandido ia preso”
De todas as alegações utilizadas pelos reacionários para defender a ditadura, nenhuma é mais cínica do que a afirmação de que, naquela época, “a lei valia para todos e quem era bandido ia preso”. Para desmontar essa falsidade, nenhuma personagem é mais emblemática do que o famoso “Delegado Fleury”.
O caso Carioca
Sérgio Fernando Paranhos Fleury foi um bandido. Desde sempre. Mesmo antes de tornar-se nacionalmente conhecido como ícone da repressão torturadora dos porões, Fleury trabalhava a vender “proteção” a quadrilhas de tráfico de drogas. Numa briga, digamos, “societária” entre dois barões do tráfico, Juca (José Iglesias) e Miroca (Waldemiro Maia), Fleury tomou o partido de Juca e foi em busca de Luciano (Domiciano Antunes Filho), que tinha consigo a caderneta de contabilidade da propina distribuída aos bófias.
Fleury e mais quatro capangas encontraram Luciano e levaram-no até o quilómetro 32 da rodovia Castello Branco. Fizeram-no sair do carro e metralharam-no, deitando fora seu cadáver numa vala comum. Qual o problema? Carioca (Odilon Marcheroni de Queiróz), que denunciara a localização de Luciano, contou tudo à polícia. Por via das dúvidas – seguro, afinal, morreu de velho –, resolveu contar o que vira também à televisão.
Duas semanas depois, logo após a edição do AI-5, a repressão prendeu Carioca e entregou-o a Fleury. O delegado levou o preso até à casa de Fininho (Adhemar Augusto de Oliveira), um investigador da Polícia Judiciária. No dia seguinte, Carioca deu uma entrevista aos jornais paulistas, a renegar tudo o que dissera. Depois disso, nunca mais se ouviu falar da figura.
Tempos depois, Fininho contou a um jornalista que matara Carioca com um fio de náilon passado pelo pescoço. Como “prémio”, carregava parte da língua do defunto no seu chaveiro. Uma “lembrança” para quem se aventurasse novamente a denunciar os desmandos dos meganhas.
Sérgio Fernando Paranhos Fleury, policial considerado um dos lideres do Esquadrão da Morte durante a ditadura brasileira. Fonte. DR.
A morte de Marighella
Fleury fez-se famoso sobretudo depois do assassinato de Carlos Marighella. Fundador da Aliança Libertadora Nacional (ALN), Marighella era um dos inimigos públicos número 1 do regime. Comunista e guerrilheiro, Marighella cabia perfeitamente no figurino da “ameaça vermelha” que os milicos usavam para vender a tortura e a repressão como preço a pagar pela “segurança da família brasileira”.
Numa emboscada noturna, o próprio Fleury saiu das sombras disparando seu .38 contra Marighella. Desferiu-lhe cinco tiros. No estádio do Pacaembu, no intervalo de uma partida entre Corinthians e Santos, o alto-falante anunciou: “Foi morto pela polícia o líder terrorista Carlos Marighella”. Peça útil do esquema de repressão, Fleury foi subitamente alçado à condição de herói do regime. Como o regime sabia premiar quem lhe prestava serviços, chegaria o momento em que o Delegado Fleury cobraria a sua fatura.
A “Lei Fleury”
Depois de anos de batalha árdua e solitária, Hélio Bicudo, um promotor obstinado, encurralara o ícone da meganha. Com dezenas de acusações de tortura e de assassinatos do seu esquadrão da morte, era apenas questão de tempo até que o Delegado Fleury passasse para o outro lado do balcão e fosse finalmente preso.
De acordo com o texto original do Código de Processo Penal, sempre que um indivíduo fosse acusado de homicídio, encerrada a primeira fase do rito do júri, o juiz, ao pronunciar o réu, “recomendá-lo-á na prisão em que se achar, ou expedirá as ordens necessárias para sua captura” (CPP, art. 408, §1º). Preso, Fleury certamente colocaria a boca no trombone.
A hipótese de ver um de seus agentes mais prestimosos ser enviado para detrás das grades era um risco grande demais para os militares correrem. Sabendo disso, os milicos correram para livrar o delegado da cadeia. Veio, então, a famosa “Lei Fleury”. Agora, se o réu fosse “primário e de bons antecedentes, poderá o juiz deixar de decretar-lhe a prisão ou revogá-la, caso se encontre preso” (CPP, art. 408, §2º, com a redação da Lei nº. 5.491/73).
Carlos Marighella foi assassinado em 1969. Foto: DR.
Não bastou ao regime apenas proteger um notório facínora. Foi necessário mudar a lei para garantir a sua impunidade. Subvertendo o brocardo jurídico de que dura lex, sed lex, na ditadura vigorava o dura lex, sed látex (“a lei é dura, porém, por ser de borracha, também estica”).
“Na ditadura, o povo tinha mais segurança”
Se há um ponto em que, estatisticamente, a comparação parece ser favorável aos saudosistas da ditadura é a relacionada à segurança pública. Embora seja impossível comparar metodologias diferentes de épocas distintas, um estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) chegou à conclusão de que, em 1980, a taxa de homicídios era de aproximadamente 11,7 por 100 mil habitantes. Hoje, a mesma taxa representa quase o dobro desse número: 21 homicídios por cada 100 mil habitantes. Há, porém, duas ressalvas importantes a se fazer.
A primeira delas diz respeito à natureza da violência. No final dos anos 1960 e por todos os anos 1970, a maior parte das causas de letalidade estava relacionada à violência política praticada por agentes do Estado. A segunda diz respeito à sensação de segurança imposta pelo medo generalizado às ações ilegais da ditadura militar. Uma vez que não havia liberdades civis nem meios para obter dados ou questionar as políticas de segurança pública, mesmo os crimes que aconteciam não eram objeto de debate público. Se algo por acaso escapasse, a censura à imprensa encarregava-se do resto.
A génese das facções criminosas
Convém, contudo, ressaltar que a maior parte da violência urbana vivenciada hoje no Brasil conhece sua génese nos governos militares. Com efeito, a repressão política levou ao cárcere inúmeros militantes de esquerda. Uma parcela considerável dos presos políticos havia sido treinada em táticas de guerrilha, com o propósito de derrubar pela força a ditadura dos generais. Ocorre, todavia, que não havia separação nas cadeias entre presos políticos e presos comuns. Resultado: com essa “convivência forçada”, criminosos comuns começaram a desenvolver a noção de estrutura e organização hierárquica. Foi através da fusão entre as atividades criminosas ordinárias e o conhecimento técnico de redes associativas que nasceu a primeira facção criminosa organicamente estruturada no país: o Comando Vermelho (CV).
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Com o CV, os outros grupos criminosos passaram a usar a sua estrutura como “exemplo” para organizarem-se. Bastava replicar o modelo instituído pelo Comando Vermelho para que a lógica de incremento contínuo e organizado de poderio bélico e controle territorial se impusesse às forças de segurança pública. Se hoje a população sofre não só com o CV, mas com facções rivais, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), é aos militares da ditadura que devemos “agradecer”.
“Na ditadura não havia corrupção”
“Na ditadura não havia corrupção”, propalam os apologistas do regime.
Será?
Para além do facto de ser inexplicável um governo de “honestos” estar associado a figuras como José Sarney, António Carlos Magalhães e, crème de la crème, Paulo Salim Maluf, o grande ícone da corrupção do nosso país, apenas dois episódios são capazes de desmontar mais essa falsidade:
A construção de Itaipu
Maior hidrelétrica do mundo até à construção de usina de Três Gargantas, na China, Itaipu foi a maior obra de todos os governos militares. Sem sombra de dúvidas, trata-se de uma maravilha da engenharia mundial, em geral, e um orgulho para a engenharia brasileira, em particular. São 14 mil gigawatts de potência, geradas através de 20 turbinas.
Ninguém se lembra, todavia, de que, para construí-la, foi necessário “afogar” Sete Quedas debaixo do seu lago. Se hoje os turistas apinham-se para visitar as famosas Cataratas do Iguaçu, pouca gente recorda-se de que ali perto havia uma maravilha da natureza que era treze – isso mesmo, treze – vezes maior do que as Cataratas. Com algumas quedas de mais de 40m de altura, Sete Quedas era considerada a maior queda d’água em volume do planeta. Visitantes do Brasil e do mundo inteiro vinham a Foz do Iguaçu apenas para conhecer essa maravilha da natureza.
A tragédia ambiental
Pelo projeto original, a construção de Itaipu implicaria um reservatório de absurdos 1.350 km². Pela altura da barragem, dentro dessa imensa área alagada submergiria, sem direito a defesa, o Salto de Sete Quedas. Ambientalistas da época argumentaram que, caso o trajeto da represa fosse alterado, ou mesmo a barragem não tivesse um pé direito tão alto, o alagamento de Sete Quedas poderia ser evitado.
Mas, como sabemos, o Brasil vivia uma ditadura. E, numa ditadura, mandam os burocratas. O restante cala a boca ou enfrenta as consequências, incluindo perseguição, tortura e morte. Durante mais ou menos uma década, Itaipu foi sendo erguida naquele ponto específico do rio Paraná, ao sul de Sete Quedas.
Barragem de Itaipu construída no rio Paraná, entre o Brasil e o Paraguai. Com uma capacidade instalada de 14.000 MW, a sua produção daria, em condições normais, para o consumo eléctrico de Portugal durante cerca de dois anos. Foto: DR.
Quando a construção foi finalizada e as comportas da usina iam se fechar para represamento da água, a comoção foi geral. Milhares de pessoas acorreram para Foz do Iguaçu, na esperança de ver pela última vez a maravilha das Sete Quedas. No meio do tumulto, muita gente se aglomerou em uma das pontes que permitia a visão das cachoeiras. A ponte rompeu pelo peso e trinta e duas pessoas morreram depois de caírem no rio. À tragédia ambiental somava-se a tragédia humana.
A morte para abafar a corrupção
Como se isso não bastasse, a construção de Itaipu não ficou marcada apenas pela morte metafórica de Sete Quedas. Outra morte – essa literal – marcaria a obra. E, assim como outros escândalos da ditadura militar, esse também foi convenientemente varrido para debaixo do tapete.
Orçada inicialmente em US$ 2,5 mil milhões, Itaipu saiu ao final pelo décuplo desse preço. O embaixador José Jobim reuniu diversas provas sobre a corrupção na construção da usina. Após correrem rumores de que denunciaria o escândalo, José Jobim foi “suicidado” em 1979. Os documentos que ele mantinha desapareceram após agentes do regime vasculharem a sua casa.
O caso Alexander von Baumgarten
De todos os casos de corrupção na ditadura, nenhum é mais intrigante do que aquele que levou à morte de Alexander von Baumgarten. Agente do Serviço Nacional de Informações (SNI), o braço de Inteligência do regime militar, Baumgarten era também jornalista e escritor. Valendo-se dos seus dotes literários, Baumgarten resolveu publicar uma “novela” ficcional. Intitulada Yellow Cake, Baumgarten relatava a suposta venda ilegal de urânio extraído de minas brasileiras para abastecer reatores nucleares no Iraque, comandado à época por Saddam Hussein. Organizada pelo SNI, a venda teria a participação do então governador de São Paulo, Paulo Maluf.
O nível de profundidade da obra e a riqueza de detalhes descrita por Baumgarten sempre pareceu muito suspeita. Para piorar, Baumgarten também teria descoberto o desvio de US$ 10 milhões da venda de madeira ilegalmente extraída após a construção da usina hidrelétrica de Tucuruí. Entre os beneficiários do desvio, estariam oficiais do SNI e um dos próceres do regime: o general Newton Cruz, chefe da Agência Central do SNI em Brasília. Resultado: em 25 de Outubro de 1982, o corpo de Alexander von Baumgarten foi encontrado na Praia da Macumba, no Rio de Janeiro, com três tiros na cabeça e um no abdómen. Ambos os casos – o desvio de dinheiro e a morte de Baumgarten – foram abafados pelos militares.
Quanto à trama de Yellow Cake, somente depois de inspetores da ONU irem inspecionar as instalações nucleares iraquianas após a primeira Guerra do Golfo (1991), foi possível constatar que o tráfico de urânio foi real.
Em conclusão:
Em menos de quarenta anos de democracia, o Brasil ostenta índices muito superiores aos da ditadura militar. Não só isso. Conseguimos superar problemas que nem sequer existiam, ou que tinham dimensão diminuta no período pré-64 (como a dívida externa), sem que para isso tivéssemos de romper com a legalidade. A violência e a tortura ainda existem, mas, pelo menos, pode-se dizer que não constituem mais política de Estado. Há muita coisa ainda a melhorar? Sem dúvida. Mas não será através do fechamento do regime que chegaremos lá.
A saber de tudo isso, chega a ser cómico ver gente até hoje defender que “na ditadura era melhor”. Quem fala uma parvoíce dessas vive numa fantasia em que a memória é seletiva e a corrupção usa farda. Não se sabe se o sujeito que propala semelhante asneira anseia pelo papel de vilão ou de vítima, mas, seja como for, trata-se de um saudosismo doente por um passado que nunca existiu.
A farsa do “na ditadura era melhor” só se sustenta, portanto, com a cumplicidade de ignorância. Toda vez que você vier a ouvir algo semelhante, a primeira pergunta a ser feita é:
“Melhor pra quem?”
Arthur Maximus é advogado no Brasil e doutorado pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa
Quinta-Feira, 11 de Dezembro de 2025. Doze anos depois da última greve geral, Portugal voltou a parar – ou, mais precisamente, voltou a fingir que parava. O motivo invocado foi o costumeiro: alterações à lei laboral.
Desta vez, as palavras-chave repetidas até à náusea foram três: despedimentos, contratos a prazo mais longos e reintrodução do banco de horas individual. O cenário montado foi o habitual: proclamações inflamadas, discursos morais, cartazes indignados e uma narrativa simples, infantil, mas eficaz – a de que o trabalhador português estava, mais uma vez, à beira de ser atirado para a fogueira do “capitalismo selvagem”.
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Nada de novo, portanto. O novo – e verdadeiramente revelador – esteve em quem protestou e em quem ficou em casa.
Porque há um facto que ninguém ousou sublinhar com clareza: as alterações ao Código do Trabalho não se aplicam aos trabalhadores da função pública. Não se aplicam aos professores, aos funcionários das repartições, aos quadros do Estado, aos empregados das empresas públicas, aos que vivem directa ou indirectamente do Orçamento. E, no entanto, foram precisamente esses os que fizeram greve, os que saíram à rua, os que empunharam cartazes e deram entrevistas. Estranha-se – ou talvez não. Protestam os não afectados. Os que não correm risco. Os que não podem ser despedidos. Os que nunca enfrentaram o consumidor. Os que nunca tiveram de fechar uma empresa, despedir um colaborador, assumir um prejuízo.
Os directamente visados pelas propostas – empregadores e trabalhadores do sector privado – esses trabalharam. Abriram portas. Produziram. Pagaram impostos. Não se manifestaram. Estavam ocupados a sustentar o espectáculo.
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Mas o mais fascinante desta greve geral não foi apenas a sua sociologia. Foi a sua unanimidade ideológica. Descobrimos, com espanto apenas aparente, que todas as soluções políticas em Portugal são socialistas – quando não abertamente marxistas. Da extrema-esquerda à suposta extrema-direita, todos falam a mesma língua, usam os mesmos conceitos, partilham os mesmos dogmas.
O almirante das “vacinas”, Gouveia e Melo, elevado a herói nacional durante a putativa pandemia, brindou-nos com a pérola final: a lei laboral não deve “atacar o núcleo essencial dos direitos dos trabalhadores” e deve procurar um “equilíbrio entre protecção social e flexibilidade económica”. Marxismo de farda branca, com galões.
O diagnóstico impõe-se: Portugal é um país marxista, onde as divergências são apenas estéticas. Todos aceitam o mesmo pressuposto falso – o de que existe um conflito estrutural entre empregador e trabalhador, o de que o salário é uma variável política, o de que o contrato livre é uma ameaça, o de que o Estado é o árbitro moral da economia.
Quem são os autores deste teatro? Uma casta política que nunca arriscou um cêntimo do seu bolso, que nunca contratou ninguém, que nunca teve de despedir, que nunca enfrentou uma folha salarial sem saber se haveria receitas no fim do mês. Uma casta que não conhece o risco, não conhece o mercado, não conhece a incerteza. Vive do pote do saque, esse manancial inesgotável chamado Orçamento do Estado, onde se pode debitar atoardas ideológicas sem qualquer consequência.
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Importa, pois, clarificar o essencial. Não existe qualquer conflito natural entre empregador e trabalhador. Não deveria existir. A relação laboral é – ou deveria ser – uma relação contratual livre e voluntária entre adultos.
O verdadeiro conflito não é entre quem contrata e quem é contratado. O verdadeiro conflito é entre pagadores líquidos de impostos e receptores líquidos de impostos. Entre os que produzem e os que vivem do que é produzido. Entre o sector privado – empregadores e trabalhadores – e o Estado e os seus dependentes. Os que ontem protestaram pertencem, quase sem excepção, ao segundo grupo. Os que não protestaram pertencem ao primeiro.
Para perceber a fraude intelectual que sustenta todo este debate, é preciso explicar conceitos simples, que o ensino oficial evita cuidadosamente. Produzir implica utilizar recursos escassos: trabalho, capital e tempo; este último é o mais ignorado – e o mais decisivo. Sem capitalismo, surgem perguntas insolúveis. Como se reparte o produto final entre os factores produtivos? Em igualdade? Em função do esforço? Da necessidade? Mais importante ainda: como se vive enquanto o produto não é vendido?
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Consideremos uma vinha. Entre plantar e vender vinho passam-se anos. Durante esses anos, os trabalhadores precisam de comer, vestir, viver. De onde vem esse rendimento? A resposta marxista é o silêncio. A resposta capitalista é clara: vem das poupanças de alguém.
O capitalismo resolve este problema com um contrato simples e genial. O trabalhador vende bens futuros – o vinho que ajudará a produzir daqui a cinco anos – para poder consumir no presente. O empregador adianta poupança, arriscando-a, na esperança de ser compensado no futuro. Não há exploração. Há troca. Há risco de um lado e segurança do outro. É uma relação contratual que só deveria interessar às partes envolvidas.
Quando o Estado intervém, tudo se corrompe. Se o produto não se vende, se o mercado rejeita o bem, o empregador sofre o prejuízo. Se não pode ajustar a estrutura de custos, se não pode despedir, o que lhe é imposto é um confisco. Uma obrigação de pagar indefinidamente por um erro empresarial ou por uma mudança no mercado.
Portugal construiu um sistema onde é quase impossível despedir. Na prática, só há três vias: mútuo acordo – isto é, pagar para sair; extinção de posto – quase sempre chumbada em tribunal; despedimento colectivo – um ritual kafkiano. O resultado é previsível: salários mais baixos, para compensar o risco. Depois, protesta-se contra os salários baixos.
A hipocrisia é total. Discutimos um Código do Trabalho que não deveria existir. Ninguém se deve intrometer numa relação voluntária entre quem quer contratar e quem quer ser contratado. O Estado cria conflitos artificiais para se legitimar, alimenta a ideia falsa de expropriação do valor, enquanto é o maior expropriador.
Por fim, convém distinguir papéis que o discurso dominante mistura propositadamente: o capitalista, que arrisca poupança; o trabalhador, que troca bens futuros por consumo presente; o empresário, que coordena recursos; e o consumidor, o verdadeiro soberano. Todos servem alguém. Excepto a casta parasitária – funcionários públicos, empresas resgatadas, imprensa subsidiada, projectos dependentes da publicidade institucional e do dinheiro jorrado pela impressora do BCE, esse imposto invisível chamado inflação.
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Nada disto é acidental. Não foi por acaso que o partido Nazi se chamava Partido Nacional Socialista. Da direita à esquerda, todos idolatram o bandido estacionário, o Estado, porque todos querem viver do saque. Para que o saque seja fácil, é preciso dividir. Criar conflitos imaginários. Alimentar greves gerais encenadas por quem não trabalha, contra leis que não os afectam, em nome de um conflito que nunca existiu.
Portugal não parou. Portugal fingiu, mais uma vez, que luta contra fantasmas para não enfrentar a realidade.
Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
Morrerá um dia — como morrem todos, até os que se julgam eternos por decreto associativo — uma criatura chamada José Jorge Letria, nascida em Cascais, em 1951, de méritos escassos e currículo generosamente inflacionado, cuja principal contribuição mensurável para a indústria cultural portuguesa tem sido indirecta: o estímulo involuntário à proliferação de eucaliptais, indispensáveis ao fornecimento de celulose para o papel onde se imprimiram centenas dos seus romances, ensaios, poemas e declarações de intenções de reduzido fulgor literário e nula necessidade histórica.
Não se lhe conhece obra que tenha deslocado o eixo do pensamento, perturbado consciências ou acrescentado uma vírgula essencial à literatura portuguesa. Conhecemo-lo, isso sim, pela longa e pachorrenta ocupação de cargos — não no sentido nobre de servir, mas no sentido viscoso de ocupar a Sociedade Portuguesa de Autores: cadeira aquecida, clube fechado, presidência inamovível, dessas que trespassam décadas como as pirâmides atravessam desertos, desde os tempos em que Moisés azucrinava a paciência de um faraó com pragas pedagógicas até ao presente burocrático, onde a rotina colapsa qualquer ideia de grandeza.
Foi nesse contexto — de longevidade institucional sem equivalente em produção intelectual — que surgiu a proeza final. O senhor José Jorge Letria, ou alguém por ele (o que, tratando-se de instituições fossilizadas, vai dar ao mesmo), subscreveu uma nota de pesar pelo falecimento da Clara Pinto Correia que conseguiu a rara façanha de ser simultaneamente mesquinha, falsa, injusta, infeliz e mal escrita — aquilo a que, com rigor geométrico, se poderá chamar a ‘pentatura do círculo’ da mediocridade cultural portuguesa.
Não foi apenas um nojo por conter uma afirmação sobre uma suposta carreira académica “complexa” marcada por uma acusação de plágio inexistente — frase lançada sem rigor, sem contexto e sem pudor, como quem atira lama para um caixão ainda quente. É um nojo maior por reduzir uma mulher de obra científica e literária ímpar a uma nota lateral, quase uma cláusula subordinada de rodapé moral, numa hora que exigia contenção, elevação e respeito.
Mais grave ainda: afirmar que Clara Pinto Correia estaria “afastada dos círculos culturais e mediáticos” quando, no ano anterior, lançara novo romance, mantinha vários projectos literários em curso e se aproximava já da centena de crónicas publicadas no Página Um, onde escrevia com regularidade desde Setembro de 2022. Não é ignorância: é desleixo travestido de autoridade.
Trecho da versão inicial da nota de pesar da Sociedade Portuguesa de Autores.
Mas o que torna o parágrafo verdadeiramente imperdoável — e aqui entramos no domínio elementar da filologia — é o português da Sociedade Portuguesa de Autores. Um português de escola primária fatigada: gramática manca, tempos verbais em guerra civil — “tendo”, “viria a ter”, “teve”, “tendo estado” — arremessados em duas frases onde cabem três ideias malcozinhadas e nenhuma consciência sintáctica. Um estilo que faria corar um aluno desleixado da quarta classe do Estado Novo e que, vindo de quem passou décadas a administrar direitos de autor, se constitui como uma performance conceptual involuntária sobre a falência da forma.
E ainda assim, o mais grave nem foi o erro inicial. Erros cometem-se. Foi o gesto subsequente: corrigir em silêncio, apagar à socapa, fingir que ninguém reparou e não pedir desculpa.
A Sociedade Portuguesa de Autores do senhor José Jorge Letria, de má letra e pior decência, eliminou a versão original e substituiu-a por um texto anódino, saturado de banalidades, como se a memória colectiva fosse um rascunho editável. Nem à memória de Clara Pinto Correia, nem aos leitores, nem à língua portuguesa — ali violentada sem consentimento — foi dirigido um pedido sincero de desculpas.
Clara Pinto Correia e o seu cão Sebastião.
Este não é, pois, o obituário de um homem. É sobretudo o obituário de um estilo de poder cultural neste portugalzinho mesquinho: o do dirigente que confunde longevidade com relevância, cargo com autoridade moral e nota pública com licença para o desleixo ético e linguístico. Um estilo que sobreviverá talvez mais alguns anos, alimentado por papel de eucalipto e solenidades ocas, até que, como tudo o que é oco, colapse por falta de substância.
Quando esse dia chegar, não será preciso escrever nota de pesar. Bastará fechar o parágrafo.
De repente, como se o calendário tivesse recuado para 2020, regressam as máscaras. Não porque novos estudos tenham demonstrado eficácia miraculosa contra a gripe, não porque a ciência tenha produzido um súbito consenso, não porque a evidência epidemiológica o exija. Regressam porque é o gesto mais fácil, mais barato e mais politicamente cómodo para mostrar que “se está a fazer alguma coisa”. É um símbolo — nada mais do que isso. Símbolo de zelo higiénico, de submissão à autoridade sanitária ou de pseudociência travestida de ciência: cada um escolhe o que quer ver.
Desde a pandemia da covid-19 que a máscara se tornou um objecto estranho, simultaneamente fetiche e culpa. Fetiche, porque as autoridades a erguem como instrumento de salvação colectiva — mesmo quando os melhores ensaios clínicos apontam para benefícios residuais ou inexistentes no uso comunitário. Culpa, porque sempre que um surto cresce, o argumento é o mesmo: a culpa é de quem “não usou”, “não colocou bem”, “não cumpriu”. A máscara tornou-se o bode expiatório pré-fabricado das políticas públicas de saúde: se tudo correr bem, foi mérito dela; se correr mal, foi insuficiência do povo. Eis a alquimia política mais perfeita que alguma vez um pedaço de tecido conseguiu produzir.
É neste contexto que vemos agora a Unidade Local de Saúde da Região de Leiria a decretar o uso obrigatório de máscara nas unidades de saúde e a suspensão da actividade não urgente, enquanto a ministra Ana Paula Martins recomenda o seu uso em espaços fechados e vaticina oito semanas “exigentes”. A narrativa é a mesma: aumento de infecções respiratórias, pressão nos hospitais, a gripe que “chegou mais cedo” e uma solução que, apesar de pouco eficaz, soa familiar. A ciência, propriamente dita, é tratada como nota de rodapé.
A gripe, recorde-se, não é a covid-19. Tem uma carga viral que atinge o pico muitas vezes antes dos sintomas, um período de incubação curto, uma elevada capacidade de transmissão por aerossóis finos e um padrão sazonal recorrente. As máscaras comunitárias — e mesmo as cirúrgicas — nunca demonstraram capacidade substancial para travar a transmissão da influenza.
Em termos estritamente científicos, existe plausibilidade mecânica para que uma máscara reduza a emissão e a inalação de partículas respiratórias — algo demonstrado em estudos laboratoriais realizados em condições controladas. Contudo, quando se avalia o impacto em situações reais, o benefício clínico demonstrado é fraco ou modesto: antes do SARS-CoV-2, os ensaios comunitários sobre gripe revelavam pouco ou nenhum efeito robusto; durante a pandemia da covid-19, os ensaios mais rigorosos apontaram para reduções pequenas e frequentemente não significativas, sem prova sólida de um impacto populacional relevante. As máscaras de maior desempenho (como as FFP2/N95) podem ter utilidade em contextos de alto risco e exposição prolongada, como hospitais ou lares, mas isso não justifica a sua aplicação genérica à população.
Por isso, posições absolutas não são compatíveis com a evidência. Não é correcto afirmar que “as máscaras nunca funcionam”, porque há sinais de benefício em situações específicas com uso consistente e adequada adaptação ao rosto; mas também não é correcto afirmar que “as máscaras são altamente eficazes para controlar epidemias na comunidade”, porque tal não é sustentado pela melhor ciência disponível.
A formulação mais honesta é esta: as máscaras podem reduzir modestamente o risco individual de infecção em circunstâncias particulares, mas a evidência de um benefício substantivo e consistente em contexto comunitário é limitada e incerta, sendo o seu impacto populacional isolado provavelmente pequeno.
Mas as autoridades agem agora como se a máscara fosse um talismã. Não porque desconheçam a evidência, mas porque a psicologia política é mais poderosa do que a Epidemiologia. Em momentos de tensão, governa-se primeiro pela percepção; depois, pelo conhecimento. A máscara é visível, teatral, fácil de implementar e — para muitos — ainda transporta a aura messiânica da pandemia. É o instrumento perfeito para o “gesto político de contenção”: aquele que nada resolve estruturalmente, mas transmite solenidade e acção.
Há também outro elemento que começa a instalar-se sub-repticiamente no discurso público: a nostalgia reguladora. A pandemia lançou uma geração política e administrativa que encontrou no controlo sanitário um mecanismo de poder. Confinamentos, certificados, cancelamentos, recomendações permanentes: tudo isso criou um imaginário de governação onde a acção se mede pela capacidade de restringir. Hoje, as máscaras surgem como último reduto dessa pulsão. Não se confina, não se suspende circulação, não se fecha comércio — mas ressuscitam-se pequenos rituais que lembram tempos de autoridade reforçada. A máscara tornou-se, assim, uma miniatura de confinamento psicológico.
Nada disto significa que a gripe seja irrelevante ou que os hospitais não estejam sob pressão — estão, como sucede ciclicamente nos picos invernais. A situação actual é agravada pelo facto de se verificar uma efectividade vacinal reduzida, consequência de um desajustamento entre a estirpe do vírus influenza A actualmente predominante (H3N2) e as estirpes incluídas na formulação vacinal desta época, fenómeno conhecido como mismatch antigénico, que diminui a protecção conferida pela vacina.
A diferença é que, desta vez, a resposta institucional parece querer reenquadrar a gripe na gramática da pandemia da covid-19: dramatização antecipada, medidas de visibilidade imediata e um apelo quase moral à obediência sanitária. Mas a gripe não precisa de dramaturgia; precisa de capacidade assistencial, planeamento e comunicação honesta.
Honestidade — eis a palavra que falta no discurso público. Quando se impõe o uso de máscara, mas não se explica que a sua eficácia para influenza é limitada; quando se recomenda o seu uso indiscriminado, mas não se diz que o efeito real depende quase exclusivamente da qualidade (N95/FFP2) e da adesão perfeita; quando se promove o ritual em vez da medida eficaz, isso não é ciência: é política mascarada de ciência. E quando a política se disfarça de ciência, o resultado não é confiança — é superstição institucionalizada.
Ao contrário da covid-19, que chegou sem manual e exigiu decisões numa névoa de incerteza, a gripe é velha conhecida. Tem décadas de estudos, modelos e vigilância. A sua dinâmica é conhecida dentro da imprevisibilidade: pode iniciar-se mais cedo, manifestar-se tardiamente, apresentar picos múltiplos até Março ou manter uma circulação contínua ao longo do Inverno.
Aquilo que se exige não é uma resposta dramatizada, mas sim um controlo assistencial rigoroso, especialmente dirigido aos lares de idosos, onde a combinação de idade avançada, fragilidade imunológica e múltiplas comorbilidades aumenta substancialmente o risco de complicações, designadamente pneumonias bacterianas secundárias e outras infecções oportunistas. Nestes contextos, a vigilância clínica, a identificação precoce de agravamentos e a gestão das recaídas têm maior impacto sanitário do que medidas simbólicas aplicadas à população em geral.
Durante a pandemia, o discurso sanitário descobriu que a máscara é, acima de tudo, um marcador de alinhamento: os bons usam, os maus resistem. Essa dicotomia — infantil e, sobretudo, científica e politicamente fraudulenta — está a ser, de forma discreta, recuperada.
É por isso que, quando vejo a máscara voltar, não vejo ciência; vejo nostalgia regulatória e falta de coragem política para dizer o essencial: a gripe é sazonal, aumenta todos os anos, pressiona sempre os hospitais — em especial numa população envelhecida — e não há solução simples. A máscara nada vai resolver: serve apenas para mostrar movimento, com a ciência a ser reduzida a uma coreografia.
Há vidas cuja grandeza assusta os medíocres, e poucas, como a de Clara Pinto Correia, foram tão meticulosamente desfiguradas pela inveja baixa que fermenta nos recantos mais mochos do nosso país. Hoje, que nos deixou, continuo a ver nos obituários a frieza moralista de quem encontra até na morte um álibi para continuar a humilhar — confirmando esse traço triste do nosso carácter colectivo: a incapacidade de reconhecer a complexidade humana sem reduzir tudo ao momento mais frágil de alguém.
De facto, é quase obsceno ver como certas penas, tão ágeis em autoproclamar-se guardiãs do rigor, aproveitaram, ainda na morte da Clara, a calculada elegância cínica para voltar a espetar-lhe a mesma farpa, como se temessem que o brilho dela ressurgisse até depois do seu passamento.
Essa persistência em revisitar, com um zelo quase necrológico, o episódio de um plágio ocasional entre milhares de textos revela mais miséria em quem escreve do que em quem é visado. A Clara foi tratada, durante anos, como uma ré perpétua, condenada ao degredo simbólico por um erro que, em qualquer país com maturidade cultural, teria sido absorvido pelo contexto, pela obra e pela vida.
Mas Portugal não perdoa facilmente quem um dia ousou ser demasiada em demasiadas coisas: demasiado inteligente, demasiado bonita, demasiado brilhante, demasiado livre. É o preço que se cobra a quem um dia teve asas. E há décadas que o país se especializou em cortar asas a quem voa acima da mediocridade.
Quando a Clara chegou ao PÁGINA UM, no Verão de 2022, quase por razões terapêuticas — um escritor definha se não escreve —, trazia ainda essas cicatrizes abertas há mais de duas décadas. Mas trazia também a fome de escrever — uma fome que nunca perdeu, nem nos dias de maior sombra. Recebemo-la com entusiasmo, como se se resgatasse uma autora injustamente atirada para as margens. E depressa percebi que, por trás do mito da ‘diva’, havia uma mulher frágil e de uma simplicidade desarmante, que me tratava por “Boss” com um humor trocista que dissolvia qualquer formalidade. Nas teleconferências, chegava a brincar com a distância dos meus dentes da frente — e era exactamente nessa irreverência afectuosa que se revelava o que ela era: uma mulher cuja ternura sobrevivia à dureza do seu mundo em pantanas.
Houve, sim, períodos difíceis. Instabilidade, hesitação, noites que seriam pesadas, mil e um desnortes em que nem sei se eram reais ou fantasiados. Mas até nas suas fragilidades havia uma espécie de grandeza. A Clara era obsessiva no melhor sentido: escrevia, reescrevia, refazia, enviava mais duas ou três versões porque nenhuma lhe parecia suficientemente lapidada. Buscava uma perfeição que sabia inatingível — e, no entanto, persistia, com uma disciplina involuntária que só quem já conheceu o desamparo entenderá.
Clara Pinto Correia e Mário de Carvalho, em entrevista na RTP em 1996, após a publicação em livro do famoso folhetim do Diário de Notícias, “E se Tivesse a Bondade de Me Dizer Porquê?” (1985-1986)
Entre todos os gestos que recebi dela, há um que guardo com um cuidado quase religioso: a crónica que escreveu sobre a morte do meu pai em Setembro de 2022. Tínhamo-nos conhecido pessoalmente há poucas semanas, nada nos ligava ainda além da promessa de colaboração. No entanto, quando soube da minha perda, a Clara não hesitou um instante: enviou-me um texto de uma delicadeza tão funda que, ainda hoje, me comove ao recordá-lo.
Foi uma crónica feita não para cumprir um dever profissional, mas para segurar um desconhecido pela mão no exacto ponto onde a vida se quebra. Foi ali, naquele impulso espontâneo de generosidade, que percebi quem era verdadeiramente a Clara: alguém que, mesmo caída, mesmo magoada, mesmo ferida por julgamentos alheios, ainda encontrava dentro de si um núcleo intacto de bondade. E é a esse momento — mais do que a qualquer polémica, mais do que a qualquer rumor — que volto sempre quando penso nela.
Ao longo destes três anos no PÁGINA UM, a Clara deixou-nos 97 textos, incluindo crónicas e até um delirante folhetim-novela. Noventa e sete mundos. Noventa e sete formas de continuar a existir nas letras quando a vida tantas vezes já lhe pesava, mesmo se na companhia do seu Sebastião. O último publicámo-lo hoje, antecipando-o do fim-de-semana, num gesto que não sei se é homenagem ou se é apenas a tentativa ingénua de adiar a ausência.
Sebastião e Clara, em Estremoz.
Ao longo destes anos, nunca soube delimitar com precisão onde terminava a sua memória e começava a ficção. Mas isso pouco importa: o grande escritor é, como escreveu Pessoa, um fingidor que finge tão completamente que chega a fingir a dor que deveras sente. A Clara sabia isso melhor do que ninguém. A sua escrita não era autobiografia pura — era a reinvenção literária de si mesma, num país que nunca lhe perdoou ter ousado ser mais do que se espera de uma mulher inteligente.
A única crónica que me aterrorizou, pela possível verdade nela contida, foi a do ‘Me Too‘. A primeira versão chegou-me em Agosto, excruciante, quase insuportável. Durante meses pedi-lhe que ponderasse: não porque duvidasse da sua coragem, mas porque temia pela ferida que pudesse reabrir — nela e nos leitores. Um dia, porém, enviou um e-mail, dirigido a mim e a um amigo em comum, que nunca esquecerei: “Peço-vos o que nunca pedi: leiam com atenção e falem comigo. Encaro isto como um dever cívico, mas não me sinto segura. Coragem.” Naquele apelo estava toda a Clara: a vulnerabilidade íntima e a valentia pública. Acreditava — e bem — que há silêncios que são complacências.
Publicámos o texto no final do mês passado, depois de ela ter refinado, por várias vezes, as sucessivas versões. E nada aconteceu. Talvez ela esperasse que acontecesse — ou talvez soubesse, com aquela ironia fina que a vida lhe depurou, que Portugal raramente está preparado para verdades desconfortáveis, sobretudo quando vêm de uma mulher que ousa dizer “eu”.
Hoje, multiplicam-se os curiosos tardios, os abutres que farejam mais escândalo do que luto. A eles não devemos nada. À Clara devemos tudo: a inteligência que nunca perdeu, a generosidade que ofereceu mesmo quando lhe doía oferecer, a coragem de quem, mesmo esmagada, insistiu em escrever como quem luta contra a extinção.
Nos três anos em que a acompanhei, e que ela nos acompanhou no PÁGINA UM, lamento apenas uma coisa: não ter tido mais tempo para insistir para que escrevesse sempre mais. O jornal devora-nos. A vida também. Mas a escrita dela — aquela escrita feita de luz e cicatriz — merecia outro fôlego, outro país, outro espelho onde pudesse reencontrar-se sem ser julgada, mas antes apenas idolatrada.