Na sua habitual retórica de trincheira, o alegado divulgador de ciência David Marçal continua a espraiar no jornal Público a sua peculiar pedagogia — uma pedagogia em que a complexidade do real é tratada como um incómodo e as subtilezas metodológicas parecem meros obstáculos à clareza da tese ideológica que sempre pretende defender.
Com a segurança de quem empunha conclusões antes de examinar cuidadosamente as evidências, este bioquímico de formação volta a montar, na sua mais recente diatribe, o costumeiro e estafado dispositivo argumentativo: um ou dois episódios escolhidos a dedo, alguma gravidade clínica sublinhada a preceito e, no fim, a confortável conclusão de que todo um campo de investigação — neste caso, os suplementos alimentares — deve ser observado com a mesma suspeição que outrora se reservava às poções de uma feira medieval.

O método, convenhamos, tem a elegância de uma caricatura e a delicadeza de um martelo pneumático: parte-se de um caso particular, amplifica-se o seu efeito dramático e conclui-se, com ar de severa racionalidade, que o problema é estrutural. Esta não deixa de ser uma forma curiosa de fazer divulgação científica: não ilumina o fenómeno, mas reduz tudo a cinzas até caber numa narrativa decidida à priori, até porque faz parte de uma rubrica financiada por projecto europeu.
Vejamos como Marçal começa, desta vez, a sua tese. Ora, com uma pergunta que, à primeira vista, soa sensata: seria aceitável que medicamentos fossem colocados no mercado sem provas prévias de segurança e eficácia? Esta pergunta é pertinente, mas o problema surge quando essa premissa é usada para insinuar, de imediato, que o universo dos suplementos alimentares vive num estado de anarquia sanitária e que, por isso, deve ser encarado com suspeição quase generalizada.
A estrutura do argumento é simples, para não dizer simplória: invoca-se uma recente e isolada proibição da ashwagandha na Dinamarca, ocorrida há cerca de três anos, recorda-se um caso dramático ocorrido na Bélgica no início da década de 1990 envolvendo a inclusão errada de plantas do género Aristolochia, e conclui-se que os suplementos alimentares, todos sem excepção, são um território onde impera a lógica da “casa arrombada, trancas à porta”. A narrativa tem impacto retórico, mas, do ponto de vista científico, é bastante mais frágil do que aparenta.

Comecemos pelo primeiro exemplo. A ashwagandha (Withania somnifera) é uma planta usada há séculos na medicina ayurvédica — que não é algo esotérico, mas fruto de um sistema médico tradicional indiano com três milénios — e estudada nas últimas décadas em centenas de ensaios clínicos. Na base de dados PubMed encontram-se 2.139 resultados de artigos científicos sobre a ashwagandha, dos quais 830 desde o ano de 2022. A decisão da Dinamarca de restringir a sua utilização em suplementos foi baseada numa avaliação precautória de potenciais riscos hormonais e hepáticos.
Isto nem sequer é uma prática exclusiva na área dos suplementos alimentares — no sector dos medicamentos existem vários casos de fármacos que, sendo autorizados em determinados países, estão proibidos noutros, mesmo na Europa onde existe uma quase harmonização regulatória por via da Agência Europeia do Medicamento. Veja-se a este respeito o caso da nimesulida.
Além disso, uma decisão regulatória num determinado país está longe de constituir, por si só, prova científica de perigosidade generalizada. A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) não decretou qualquer proibição global, e a planta continua a ser comercializada livremente em grande parte da União Europeia.
Aliás, a literatura científica sobre a ashwagandha mostra um quadro bastante mais complexo do que aquele sugerido por uma leitura alarmista. Ensaios clínicos randomizados publicados em revistas como Medicine, Cureus ou Indian Journal of Psychological Medicine identificaram efeitos relevantes na redução do stress, na melhoria do sono e na modulação do cortisol. Isto não significa que seja uma substância milagrosa, nem que esteja isenta de efeitos adversos — nenhuma substância biologicamente activa o está. Significa apenas que existe investigação séria sobre o tema e que o debate científico está longe de justificar o tipo de generalização implícita no artigo.

O segundo exemplo citado por David Marçal é ainda mais problemático do ponto de vista metodológico. O episódio das nefropatias associadas ao ácido aristolóquico, ocorrido em Bruxelas no início dos anos 1990, é um caso real e grave: cerca de uma centena de mulheres desenvolveu falência renal após consumir comprimidos para emagrecimento adulterados com extractos de Aristolochia.
Mas esse episódio não foi um “problema de suplementos” no sentido genérico do termo. Foi, antes, um caso de erro grave de formulação e substituição de plantas numa preparação específica — erro que levou, aliás, à proibição global das substâncias contendo ácido aristolóquico.
Este tipo de argumento à la Marçal funciona apenas como uma falácia clássica: através de um episódio extremo lança-se a suspeita sobre todo um campo. Se aplicássemos o mesmo método à farmacologia moderna, chegaríamos então a conclusões igualmente dramáticas, porque a História está repleta de episódios que mostram que os sistemas de regulação não eliminam o risco.

Recorde-se a talidomida, responsável por milhares de malformações congénitas na década de 1960. Ou o Vioxx, retirado do mercado em 2004 após evidência de aumento do risco cardiovascular, num caso que alguns estudos estimam ter contribuído para dezenas de milhares de mortes. Em 2004, num artigo no Público, o mesmo jornal onde escreve Marçal, surgem investigadores a dizerem que o fármaco da Merck deveria ter sido retirado do mercado logo no ano 2000. Ou ainda as recentes recolhas massivas de medicamentos contaminados com nitrosaminas, envolvendo substâncias como valsartan, ranitidina ou metformina. Se mais for preciso, pode sempre ler-se este artigo do PÁGINA UM com um repositório de falhanços graves com medicamentos.
Estes exemplos não significam que os medicamentos sejam perigosos por natureza. Significam apenas que nenhum sistema regulatório é infalível e que o risco faz parte de qualquer intervenção farmacológica.
Na verdade, Marçal mistura alhos com bugalhos, porque a diferença fundamental entre medicamentos e suplementos não reside na suposta pureza científica de uns e numa espécie de caos sanitário dos outros. Reside antes no enquadramento regulatório: os medicamentos destinam-se a tratar doenças e, por isso, passam por ensaios clínicos extensivos antes da autorização de introdução no mercado, enquanto os suplementos são classificados como géneros alimentícios e, em regra, são avaliados a posteriori pelas autoridades de segurança alimentar.

Ora, essa distinção pode ser discutida e aperfeiçoada. Pode defender-se, por exemplo, o reforço das exigências de qualidade, rastreabilidade e rotulagem dos suplementos, bem como uma fiscalização mais rigorosa das alegações de saúde abusivas e dos produtos comercializados em mercados digitais escassamente regulados.
Mas transformar esse debate legítimo numa narrativa simplista que coloca medicamentos contra plantas medicinais é intelectualmente pobre e historicamente impreciso, tanto mais sabendo-se que a farmacologia moderna nasceu, em grande medida, da observação de substâncias naturais. E ainda hoje é na biodiversidade, e sobretudo nas plantas, que pode residir a chave para muitos fármacos.

Tal como já aqui alertei, a ciência — pelo menos a ciência que David Marçal diz defender — não se faz por alinhamento ideológico, mas por análise crítica da evidência. E essa evidência mostra que existem suplementos inúteis, suplementos mal regulados e suplementos potencialmente perigosos. Mas mostra também que existem compostos naturais estudados com rigor, com perfis de segurança aceitáveis e com benefícios demonstrados em contextos específicos.
E, nessa linha, apontar ‘armas’ à ashwagandha, sem sequer confrontar com os efeitos (positivos e negativos) dos fármacos modernos, revela-se uma péssima escolha. Ou, talvez, a escolha ideal para os intentos de Marçal e das farmacêuticas: estima-se que o mercado global da ashwagandha tenha atingido cerca de 837,5 milhões de dólares no ano passado, projectando-se um crescimento para 1,86 mil milhões de dólares até 2034. Que interessante seria para a indústria farmacêutica que actua nas mesmas áreas terapêuticas se houvesse, de repente, uma proibição mundial da ashwagandha. Dava jeito, não dava?


























































