Categoria: Opinião

  • Ashwagandha e o método (do susto) científico de David Marçal

    Ashwagandha e o método (do susto) científico de David Marçal

    Na sua habitual retórica de trincheira, o alegado divulgador de ciência David Marçal continua a espraiar no jornal Público a sua peculiar pedagogia — uma pedagogia em que a complexidade do real é tratada como um incómodo e as subtilezas metodológicas parecem meros obstáculos à clareza da tese ideológica que sempre pretende defender.

    Com a segurança de quem empunha conclusões antes de examinar cuidadosamente as evidências, este bioquímico de formação volta a montar, na sua mais recente diatribe, o costumeiro e estafado dispositivo argumentativo: um ou dois episódios escolhidos a dedo, alguma gravidade clínica sublinhada a preceito e, no fim, a confortável conclusão de que todo um campo de investigação — neste caso, os suplementos alimentares — deve ser observado com a mesma suspeição que outrora se reservava às poções de uma feira medieval.

    Raízes secas e em pó de  Withania somnifera , conhecida na medicina ayurvédica há mais de três milénios. Foto: D.R. 

    O método, convenhamos, tem a elegância de uma caricatura e a delicadeza de um martelo pneumático: parte-se de um caso particular, amplifica-se o seu efeito dramático e conclui-se, com ar de severa racionalidade, que o problema é estrutural. Esta não deixa de ser uma forma curiosa de fazer divulgação científica: não ilumina o fenómeno, mas reduz tudo a cinzas até caber numa narrativa decidida à priori, até porque faz parte de uma rubrica financiada por projecto europeu.

    Vejamos como Marçal começa, desta vez, a sua tese. Ora, com uma pergunta que, à primeira vista, soa sensata: seria aceitável que medicamentos fossem colocados no mercado sem provas prévias de segurança e eficácia? Esta pergunta é pertinente, mas o problema surge quando essa premissa é usada para insinuar, de imediato, que o universo dos suplementos alimentares vive num estado de anarquia sanitária e que, por isso, deve ser encarado com suspeição quase generalizada.

    A estrutura do argumento é simples, para não dizer simplória: invoca-se uma recente e isolada proibição da ashwagandha na Dinamarca, ocorrida há cerca de três anos, recorda-se um caso dramático ocorrido na Bélgica no início da década de 1990 envolvendo a inclusão errada de plantas do género Aristolochia, e conclui-se que os suplementos alimentares, todos sem excepção, são um território onde impera a lógica da “casa arrombada, trancas à porta”. A narrativa tem impacto retórico, mas, do ponto de vista científico, é bastante mais frágil do que aparenta.

    Artigo de David Marçal: eis um exemplo como diabolizar os suplementos alimentares de forma enviesada…

    Comecemos pelo primeiro exemplo. A ashwagandha (Withania somnifera) é uma planta usada há séculos na medicina ayurvédica — que não é algo esotérico, mas fruto de um sistema médico tradicional indiano com três milénios — e estudada nas últimas décadas em centenas de ensaios clínicos. Na base de dados PubMed encontram-se 2.139 resultados de artigos científicos sobre a ashwagandha, dos quais 830 desde o ano de 2022. A decisão da Dinamarca de restringir a sua utilização em suplementos foi baseada numa avaliação precautória de potenciais riscos hormonais e hepáticos.

    Isto nem sequer é uma prática exclusiva na área dos suplementos alimentares — no sector dos medicamentos existem vários casos de fármacos que, sendo autorizados em determinados países, estão proibidos noutros, mesmo na Europa onde existe uma quase harmonização regulatória por via da Agência Europeia do Medicamento. Veja-se a este respeito o caso da nimesulida.

    Além disso, uma decisão regulatória num determinado país está longe de constituir, por si só, prova científica de perigosidade generalizada. A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) não decretou qualquer proibição global, e a planta continua a ser comercializada livremente em grande parte da União Europeia.

    Aliás, a literatura científica sobre a ashwagandha mostra um quadro bastante mais complexo do que aquele sugerido por uma leitura alarmista. Ensaios clínicos randomizados publicados em revistas como Medicine, Cureus ou Indian Journal of Psychological Medicine identificaram efeitos relevantes na redução do stress, na melhoria do sono e na modulação do cortisol. Isto não significa que seja uma substância milagrosa, nem que esteja isenta de efeitos adversos — nenhuma substância biologicamente activa o está. Significa apenas que existe investigação séria sobre o tema e que o debate científico está longe de justificar o tipo de generalização implícita no artigo.

    David Marçal. Foto: D.R.

    O segundo exemplo citado por David Marçal é ainda mais problemático do ponto de vista metodológico. O episódio das nefropatias associadas ao ácido aristolóquico, ocorrido em Bruxelas no início dos anos 1990, é um caso real e grave: cerca de uma centena de mulheres desenvolveu falência renal após consumir comprimidos para emagrecimento adulterados com extractos de Aristolochia.

    Mas esse episódio não foi um “problema de suplementos” no sentido genérico do termo. Foi, antes, um caso de erro grave de formulação e substituição de plantas numa preparação específica — erro que levou, aliás, à proibição global das substâncias contendo ácido aristolóquico.

    Este tipo de argumento à la Marçal funciona apenas como uma falácia clássica: através de um episódio extremo lança-se a suspeita sobre todo um campo. Se aplicássemos o mesmo método à farmacologia moderna, chegaríamos então a conclusões igualmente dramáticas, porque a História está repleta de episódios que mostram que os sistemas de regulação não eliminam o risco.

    O artigo de opinião de David Marçal insere-se num projecto editorial do Público que visa especificamente examinar a “indústria dos suplementos e combate à desinformação sobre saúde e nutrição disseminada por influenciadores”. Associar estas duas ‘linhas’ constitui, desde logo, um enviesamento científico.

    Recorde-se a talidomida, responsável por milhares de malformações congénitas na década de 1960. Ou o Vioxx, retirado do mercado em 2004 após evidência de aumento do risco cardiovascular, num caso que alguns estudos estimam ter contribuído para dezenas de milhares de mortes. Em 2004, num artigo no Público, o mesmo jornal onde escreve Marçal, surgem investigadores a dizerem que o fármaco da Merck deveria ter sido retirado do mercado logo no ano 2000. Ou ainda as recentes recolhas massivas de medicamentos contaminados com nitrosaminas, envolvendo substâncias como valsartan, ranitidina ou metformina. Se mais for preciso, pode sempre ler-se este artigo do PÁGINA UM com um repositório de falhanços graves com medicamentos.

    Estes exemplos não significam que os medicamentos sejam perigosos por natureza. Significam apenas que nenhum sistema regulatório é infalível e que o risco faz parte de qualquer intervenção farmacológica.

    Na verdade, Marçal mistura alhos com bugalhos, porque a diferença fundamental entre medicamentos e suplementos não reside na suposta pureza científica de uns e numa espécie de caos sanitário dos outros. Reside antes no enquadramento regulatório: os medicamentos destinam-se a tratar doenças e, por isso, passam por ensaios clínicos extensivos antes da autorização de introdução no mercado, enquanto os suplementos são classificados como géneros alimentícios e, em regra, são avaliados a posteriori pelas autoridades de segurança alimentar.

    Frutos maduros da Withania somnifera , também conhecida como ginseng indiano, cereja de inverno ou ashwagandha Foto: D.R.

    Ora, essa distinção pode ser discutida e aperfeiçoada. Pode defender-se, por exemplo, o reforço das exigências de qualidade, rastreabilidade e rotulagem dos suplementos, bem como uma fiscalização mais rigorosa das alegações de saúde abusivas e dos produtos comercializados em mercados digitais escassamente regulados.

    Mas transformar esse debate legítimo numa narrativa simplista que coloca medicamentos contra plantas medicinais é intelectualmente pobre e historicamente impreciso, tanto mais sabendo-se que a farmacologia moderna nasceu, em grande medida, da observação de substâncias naturais. E ainda hoje é na biodiversidade, e sobretudo nas plantas, que pode residir a chave para muitos fármacos.

    assorted foods on bowls
    Na tradição milenar da medicina ayurvédica, a saúde começa no prato: alimentos frescos, combinações equilibradas e plantas medicinais fazem parte da mesma lógica terapêutica. Entre elas destaca-se a ashwagandha (Withania somnifera), uma das plantas mais estudadas da farmacopeia indiana, usada há séculos para promover equilíbrio físico e mental. Está longe de ser um ‘suplemento da moda’. Foto: D.R.

    Tal como já aqui alertei, a ciência — pelo menos a ciência que David Marçal diz defender — não se faz por alinhamento ideológico, mas por análise crítica da evidência. E essa evidência mostra que existem suplementos inúteis, suplementos mal regulados e suplementos potencialmente perigosos. Mas mostra também que existem compostos naturais estudados com rigor, com perfis de segurança aceitáveis e com benefícios demonstrados em contextos específicos.

    E, nessa linha, apontar ‘armas’ à ashwagandha, sem sequer confrontar com os efeitos (positivos e negativos) dos fármacos modernos, revela-se uma péssima escolha. Ou, talvez, a escolha ideal para os intentos de Marçal e das farmacêuticas: estima-se que o mercado global da ashwagandha tenha atingido cerca de 837,5 milhões de dólares no ano passado, projectando-se um crescimento para 1,86 mil milhões de dólares até 2034. Que interessante seria para a indústria farmacêutica que actua nas mesmas áreas terapêuticas se houvesse, de repente, uma proibição mundial da ashwagandha. Dava jeito, não dava?

  • Durão Barroso, ou breves reflexões sobre o vegetarianismo na política

    Durão Barroso, ou breves reflexões sobre o vegetarianismo na política


    Há poucos dias, Durão Barroso, ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Comissão Europeia, afirmou:

    «Os Europeus não podem ser os únicos vegetarianos num mundo de carnívoros»

    Estas palavras referiam-se diretamente à posição do governo espanhol sobre o mais recente ataque ao Irão por parte dos Estados Unidos e de Israel,  ataque esse que o primeiro-ministro Pedro Sánchez condenou, após ter recusado o uso das bases militares de Rota e de Morón pelos aviões norte-americanos.

    Ninguém duvide que Durão Barroso sabe bem do que fala. Ele mesmo viveu uma situação similar há 23 anos, quando era primeiro-ministro de Portugal e foi o anfitrião da famosa cimeira das Lajes, que reuniu os primeiros ministro da Grã-Bretanha (Tony Blair) e da Espanha (José Maria Aznar) com o presidente americano (George W. Bush). Então, foi essa cimeira que pavimentou a invasão do Iraque, invasão escorada em pretextos que já então eram mais que duvidosos, e que depois se provaram, sem grande surpresa, serem falsos.

    Essa cimeira das Lajes, não foi olvidada por Pedro Sánchez, que a ela se referiu nos termos seguintes:

    «Esse foi o presente do trio dos Açores: um mundo mais inseguro e uma vida pior»

    Diga-se que, ao contrário do “trio dos Açores”, Sánchez tem razão, embora a verdade seja dita: é mais fácil tecer considerações à posteriori do que “antes do jogo”, como dizem os comentadores. Isto, embora, no caso da dita cimeira, o resultado final do “jogo” fosse já então claramente previsto…

    Adiante…

    Mas estas declarações de Durão Barroso sobre o vegetarianismo na política atual são assaz reveladoras, o que não espanta. Aliás, as suas declarações são sempre reveladoras de qualquer coisa e levam-nos a algumas reflexões.

    A primeira, é considerar que os vegetarianos são mansos, frouxos, plácidos, dóceis, pacatos, inertes, brandos e cordatos, em tudo contrastantes com a bravura, assertividade, força, vigor, poder, pujança, energia e robustez dos carnívoros.

    Cimeira das Lajes, Açores, 16 de Março de 2003: o Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, reúne-se com o primeiro-ministro português José Manuel Durão Barroso, o primeiro-ministro britânico Tony Blair e o primeiro-ministro espanhol José María Aznar numa cimeira de emergência que antecedeu a invasão do Iraque. Foto: D.R.

    Não é uma consideração nova. Desde há muito que vários pensadores creem que o consumo de carne aumenta os níveis de agressividade e de violência. O filósofo Jean-Jacques Rousseau, ele mesmo um vegetariano em part-time, associava o consumo de carne à falta de empatia e de compaixão, apontando como exemplo, no seu tempo, os alegadamente violentos ingleses, como hoje poderia apontar os americanos, que são dos maiores consumidores mundiais de carne, com mais 120 quilos de consumo anual por habitante.

    Pela nossa parte, esta associação, referida por Durão Barroso e devidamente apoiada em Rousseau, parece-nos excessiva, e eu nem sequer sou vegetariano. Vegetariano era Hitler, e não parece que o consumo de vegetais lhe tenha potenciado a compaixão ou diminuído a crueldade, a flatulência ou a halitose. Vegetariano é Viktor Anatolyevich Bout, cidadão russo e um dos maiores traficantes de armas da atualidade, não constando que a dieta por ele seguida lhe tenha diminuído a falta de escrúpulos e a canalhice.

    Obviamente que o vegetarianismo assenta em bons princípios, desde questões de saúde à defesa da causa animal, pelo que associar o vegetarianismo à mansidão, frouxidão ou docilidade é uma injustiça, sendo a recíproca também verdadeira.

    Deste modo, ouso afirmar que as palavras supracitadas de Durão Barroso nos parecem – repito – excessivas, como excessivas são sempre todas as generalizações, sejam explícitas ou, como é o caso, implícitas.

    Durão Barroso em entrevista esta semana na RTP 1.

    A segunda reflexão que essas declarações nos despertam, tem a ver com o facto de nos parecerem reveladoras de uma visão do mundo, de uma cosmovisão que, em termos lhanos, podemos apostrofar de “lei da selva”. Por outras palavras, se o mundo é dos carnívoros, então temos todos de “comer carne”, ou seja, desprezar os mais fracos (os vegetarianos, que na natureza são os herbívoros) e “comê-los”, alegoricamente falando, claro.

    Levando este pensamento ao seu lógico desenvolvimento, podemos, enfim, concluir que se o mundo é cruel, temos de ser cruéis; se o mundo é violento, temos de ser violentos; se o mundo é mau, temos de ser maus. Enfim, se o mundo é uma selva, sigamos a sua lei. A compaixão, a empatia, a bondade, a piedade, são coisas de vegetarianos e de herbívoros, pois o que vale é a força e nada mais que a força.

    Não sei, nem tenho de saber, se Durão Barroso é cristão. A verdade é que estas palavras vão no sentido contrário aos ensinamentos cristãos que estão também na base da nossa civilização. Eu, que nem sou crente, não tenho nenhum pejo em o admitir, pois é uma questão de justiça. Se Jesus dizia para perdoar aos nossos inimigos “setenta vezes sete vezes” (Mateus 18:22), se defendia que se devia dar a outra face quando formos agredidos, se proclamava que não devemos fazer aos outros o que não queremos que nos façam, então estamos conversados sobre a impossibilidade de compaginar o “carnivorismo na política” com o “cristianismo na vida”. Pois não foi ainda Jesus que disse aos seus apóstolos, em Mateus 10:16:

    «Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos»?

    Note-se que as ovelhas são herbívoras e que os lobos…

    Bem, talvez Jesus, ao contrário dos atuais carnívoros da política, fosse ingénuo. Quem sabe?

    É certo que os ensinamentos de Jesus são extremamente difíceis de seguir, na política, como na vida. Mas, enfim, ao menos poder-se-ia pensar nisso de vez em quando. Afinal, o atual Presidente dos Estados Unidos considera-se profundamente cristão, com orações televisionadas em direto da Casa Branca e imagens de Bíblia na mão.

    Aliás, as citadas declarações de Durão Barroso não só parecem contrariar o Novo Testamento, mas até o Antigo Testamento, que é considerado pelos exegetas e pelos teólogos como mais “violento”. Está aí escrito em Êxodo 21:24:

    «Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé»

    Pois bem, os carnívoros da política atacam antes de serem atacados (chamam a isso de “ataque preventivo”), arrancam o olho do inimigo antes que ele nos olhe; extraem-lhe o dente mal ele abra a boca; amputam-lhe a mão ou o pé antes sequer que ele os mova…

    green vegetable on brown wooden table

    É possível que estejamos a ser injustos nestas reflexões. É também muito provável que estejamos a pôr na mente de Durão Barroso, conclusões que lhe serão alheias. Sim, é muito provável. Mas, como se disse, tudo isto mais não são que brevíssimas reflexões sobre uma frase de uma entrevista.

    Todavia, e embora admitindo essa potencial injustiça da nossa parte, há algo que não devemos deixar passar. É que, nas suas declarações o primeiro-ministro Pedro Sánchez, demonstrou ter algo que é essencial em qualquer salada, e que muitos carnívoros não apreciam: tomates.

    Sérgio Luís de Carvalho é escritor.

  • Inflação: o imposto que ninguém vê

    Inflação: o imposto que ninguém vê


    Fala-se de inflação como se tratasse de um fenómeno atmosférico. “Os preços estão a subir.” “A inflação acelerou.” “A inflação abrandou.” Como se estivéssemos perante uma força da natureza, uma maré que sobe e desce, um vento que sopra com maior ou menor intensidade.

    A linguagem protege os responsáveis. Quando os preços sobem, a culpa é do “mercado”, da “ganância dos empresários”, das “rupturas das cadeias de abastecimento”, dos “especuladores”, da “guerra”, do “Putin”, do “clima”. Nunca do emissor da moeda.

    person in red blue and white plaid long sleeve shirt holding black leather bifold wallet
    Foto: D.R.

    A inflação, porém, não é um fenómeno atmosférico nem uma fatalidade histórica. É um acto deliberado, inscrito na arquitectura do sistema monetário, e tem um autor identificável: o Banco Central. A definição clássica de inflação não era a “subida generalizada dos preços”, mas a expansão dos meios de pagamento para além do dinheiro previamente existente. A escalada dos preços surge depois, como consequência lógica.

    O processo inicia-se no momento em que o Banco Central, por mera decisão administrativa, credita as contas de reservas dos bancos comerciais – um registo electrónico, um simples apertar do botão. A partir daí, o sistema bancário multiplica esses saldos através da concessão de crédito: cada empréstimo é criado por uma simples partida dobrada, simultaneamente activo (crédito sobre clientes) e depósito (crédito dos clientes). Não há poupança prévia que o sustente; há apenas escrita contabilística que gera novo poder de compra. É nesse instante, invisível para o público mas decisivo para a economia, que a inflação nasce.

    Quando um Banco Central aumenta a base monetária, quando os bancos comerciais expandem o crédito com reservas fraccionárias, o inventário de dinheiro em circulação sobe. Nada de misterioso. Mais unidades monetárias a disputar a mesma quantidade de bens e serviços. Se a produção real não cresce na mesma proporção, o valor de cada unidade monetária cai. Se o valor da unidade cai, os preços expressos nessa unidade sobem. Não é complicado. É aritmética aplicada à moeda.

    Assorted Euro banknotes in denominations of 10, 20, and 100 on a dark surface, highlighting European currency.
    Foto: D.R.

    A confusão começou quando se decidiu redefinir a inflação como um “aumento de preços”. A mudança semântica não foi inocente. Se a inflação é definida como preços altos, a culpa pode ser atribuída ao comerciante, ao produtor, ao especulador, à ganância, ao retalhista. Se a inflação é definida como expansão monetária, a responsabilidade recai sobre quem controla a impressora.

    Ao longo do século XX, esta inversão tornou-se norma. Os Bancos Centrais passaram a vigiar índices de preços como se fossem a máxima expressão da inflação. O público foi ensinado a olhar para o número publicado todos os meses. Dois por cento é aceitável – ninguém sabe de onde veio os 2%! Quatro por cento é preocupante. Dez por cento é dramático. Zero por cento ou valores negativos, a total miséria, estamos em deflação! A atenção deslocou-se do acto de criar moeda para o sintoma visível.

    O problema é que os preços não sobem todos ao mesmo tempo, nem na mesma proporção. Quando nova moeda entra na economia, não cai do céu sobre todos os bolsos. Entra por canais específicos: dívida pública comprada pelo Banco Central, crédito concedido ao sistema bancário, crédito concedido pelo sistema bancário, programas de estímulo, financiamento de défices públicos. Os primeiros receptores desse novo dinheiro gastam-no antes que os preços tenham ajustado. Compram activos, imóveis, acções, matérias-primas. Beneficiam de preços ainda antigos.

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    Foto: D.R.

    À medida que o dinheiro novo circula, os preços começam a reflectir a maior quantidade de moeda. Quem recebe por último, quem vive de salários fixos, quem detém poupanças em depósitos bancários, enfrenta preços já ajustados, mas com rendimentos que não acompanharam o processo. O poder de compra foi transferido. A inflação não cria riqueza. Redistribui-a.

    Este efeito desmonta a narrativa segundo a qual a inflação é neutra ou até útil! Diz-se que um pouco de inflação estimula o consumo, reduz o peso da dívida, favorece o investimento. O argumento ignora o facto de que a inflação altera a estrutura de preços relativos, distorce sinais, induz erros, pois os empresários tomam decisões com base em preços falsos.

    Num mercado livre, os preços e os lucros são sinais. Informam produtores e consumidores sobre escassez, preferências, oportunidades. Quando o Banco Central injecta moeda no sistema, esses sinais deixam de reflectir apenas condições reais. Passam a incorporar um elemento artificial: dinheiro e crédito criado do nada.

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    Foto: D.R.

    Empresários interpretam taxas de juro baixas como um sinal de maior poupança disponível. Investem em projectos de longo prazo. Expansões são iniciadas. Sectores inteiros crescem à sombra de crédito fácil. Mas se a poupança real não aumentou, esses projectos carecem de base sólida. A expansão económica febril contém as sementes da crise.

    A inflação monetária alimenta ciclos. Primeiro, euforia. Depois, ajustamento. O que parecia prosperidade revela-se expansão baseada em crédito sem poupança real prévia. Quando a expansão abranda ou se inverte, os erros tornam-se visíveis. Investimentos mal orientados são liquidados. Empregos desaparecem. O público pergunta o que correu mal. Raramente a resposta aponta para a origem: a manipulação da moeda. Mas, quase sempre, o dedo é apontado ao mercado livre, à necessidade de maior regulação e poder aos que causaram a crise.

    A história fornece exemplos em abundância. Desde a inundação de metais preciosos na Europa do século XVI até às experiências com papel-moeda não convertível no século XX, o padrão repete-se. Sempre que a quantidade de dinheiro cresce de forma desligada da produção real, o poder de compra é corroído.

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    No passado, o limite físico do ouro impunha disciplina. Para aumentar a oferta monetária, era necessário extrair metal, refiná-lo, cunhá-lo. O processo tinha custo e exigia tempo. Hoje, a moeda é fiduciária. A criação ocorre por decisão administrativa de um burocrata ao leme do Banco Central; ou quando um banco comercial concede crédito a um particular ou empresa, criando uma partida dobrada no seu balanço. Um lançamento contabilístico basta.

    A facilidade técnica alterou a escala do fenómeno. Já não se trata de carregar navios com prata. Trata-se de expandir balanços de forma electrónica, com a segurança de estar protegido pelo código de leis. Se um comum mortal o fizesse, teria ordem de prisão imediata.

    Defensores do actual regime monetário argumentam que a gestão activa da moeda permite suavizar crises, estabilizar a economia, evitar colapsos. Hoje, toda a academia o afirma em uníssono. A promessa soa atraente. A prática revela outro quadro. A expansão monetária tornou-se resposta padrão a qualquer desaceleração. Taxas de juro descem. Programas de compra de activos são activados. Défices são financiados com nova moeda.

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    Foto: D.R

    O resultado é um sistema viciado em estímulos sucessivos e “injecções de liquidez” – expressão técnica que mascara o essencial: impressão de dinheiro. A cada ciclo de expansão, o balanço do Banco Central dilata-se e a base monetária aumenta. A cada abalo, a receita repete-se: mais crédito, mais reservas criadas do nada, mais promessa de estabilidade sustentada por escrita contabilística. O efeito acumulado não é neutro. Ao longo do tempo, o poder de compra da moeda é corroído, não por acidente, mas como consequência directa desse regime de expansão contínua.

    O comum dos mortais sente o efeito quando vai ao supermercado, quando paga a renda, quando tenta comprar casa. Observa que o dinheiro já não compra o que comprava. O discurso oficial responde com estatísticas, cestas básicas, exclusões técnicas. Explica-se que a inflação é transitória, que certos aumentos são voláteis, que a tendência está controlada.

    Entretanto, os preços dos activos financeiros e do imobiliário escalam de forma inexorável. Quem detém esses activos protege-se. Quem depende de salário enfrenta custo de vida crescente.

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    Foto: D.R.

    A inflação funciona como um imposto oculto. Ao contrário do imposto explícito, que exige aprovação legislativa, debate e votação, a inflação opera por via monetária. Reduz o valor real dos saldos monetários. Diminui o peso real da dívida pública, transferindo o custo para os detentores de moeda.

    Quando o Estado se endivida e o Banco Central monetiza essa dívida, a despesa é financiada por criação de moeda como aconteceu sem paralelo durante a dita pandemia. Não há necessidade de aumentar impostos no momento. O custo aparece na perda de poder de compra. A população paga sem receber a respectiva factura.

    Alguns economistas defendem metas de inflação positivas, dois por cento, três por cento. Argumentam que uma inflação ligeira evita deflação, encoraja o consumo, mantém a economia em movimento. A ideia parte do pressuposto de que queda de preços é indesejável por natureza, pois o consumidor nunca pode beneficiar de aumentos de produtividade gerados pelo capitalismo e abundância, tem sempre de ser confiscado em grande parte por uma casta parasitária ao leme do estado e à frente do sistema bancário.

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    Foto: D.R.

    No entanto, num contexto de aumento de produtividade, preços mais baixos são sinal de abundância. Se a produção cresce mais depressa do que a oferta monetária, os preços tendem a cair. O consumidor beneficia. O salário compra mais. Não há nada de perverso.

    A aversão à deflação nasce do medo de contracções creditícias após períodos de expansão artificial, fruto de um sistema assente em reservas fraccionárias. Confunde-se o ajustamento necessário com calamidade. Em vez de permitir que erros sejam corrigidos, prefere-se reiniciar a expansão.

    A inflação também afecta a poupança. Numa moeda que perde valor ao longo do tempo, poupar torna-se um exercício de defesa. O aforrador procura activos que protejam o seu poder de compra. Investimentos são escolhidos não pela sua produtividade, mas pela capacidade de servir como escudo contra a erosão monetária, como acontece hoje com a aquisição desenfreada de ETFs.

    green plant in clear glass cup
    Foto: D.R.

    Este ambiente altera incentivos. Endividar-se torna-se racional, pois a dívida futura será paga com moeda desvalorizada. A disciplina financeira é penalizada. A prudência perde atracção.

    Num sistema monetário sólido, a moeda serve como reserva de valor, unidade de conta e meio de troca. Quando a inflação corrói a reserva de valor, a função da moeda é comprometida. A confiança enfraquece.

    Alguns dirão que a alternativa é impraticável. Que o padrão-ouro pertence ao passado. Que a economia moderna exige flexibilidade. A questão não é nostalgia. A questão é responsabilidade na criação de moeda. Enquanto a expansão monetária for instrumento de política corrente, a tentação de usar a impressora para resolver todos os problemas fiscais e políticos persistirá.

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    Foto: D.R.

    A inflação não é acidente. É escolha. Pode haver momentos em que a expansão monetária não se traduz de imediato em subida de preços ao consumidor. Pode haver fases em que o dinheiro novo fica retido em reservas bancárias ou se concentra em mercados de activos. Isso não altera a natureza do processo. O potencial de erosão existe. A pressão acumula-se.

    Quando finalmente os preços reflectem a expansão passada, o público surpreende-se. Pergunta-se de onde veio a inflação. A resposta encontra-se nos balanços do Banco Central, nas decisões tomadas anos antes.

    Compreender a inflação exige recusar a narrativa da ganância dos especuladores. Exige olhar para a origem da moeda, para a estrutura do sistema bancário, para a relação entre política fiscal e política monetária. Exige reconhecer que criar dinheiro não cria riqueza.

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    Foto: D.R.

    Riqueza surge da produção, da poupança, do investimento orientado por sinais de mercado. A moeda é um mero instrumento de troca, não a fonte de prosperidade. Quando se transforma o instrumento em fim, o sistema perde rumo.

    A defesa contra a inflação começa pela clareza conceptual. Enquanto o debate público aceitar a definição superficial de inflação como simples aumento de preços, a atenção permanecerá no sintoma e nunca na doença. A discussão girará em torno de controlos de preços, subsídios, tectos administrativos. Medidas que tratam a febre com gelo, mas ignoram a infecção.

    Se a inflação é expansão monetária, a solução passa por disciplina monetária. Por limites institucionais à criação de moeda. Por transparência quanto ao financiamento do Estado. Por responsabilidade quanto à gestão do crédito. Com a ilegalização das reservas fraccionárias, alterando a legislação sobre o depósito de bens fungíveis no código civil.

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    Sem essa base, a moeda continuará a servir como instrumento de transferência silenciosa de riqueza. O comum mortal continuará a sentir que trabalha mais para obter o mesmo. A inflação continuará a ser apresentada como um fenómeno natural, quando na verdade é uma decisão humana.

    A inflação não é um mistério. É a consequência lógica de uma arquitectura monetária que permite criar poder de compra por decreto. Enquanto essa arquitectura permanecer intacta, a erosão do poder de compra será companheira constante.

    Quem quiser compreender o problema deve começar pela pergunta simples: quem controla a oferta de moeda? Os Bancos Centrais e os bancos. A partir daí, o resto encaixa.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

  • Quem vai ser estúpido (de novo)?

    Quem vai ser estúpido (de novo)?


    Elon Musk partilhou na sua rede social X o orgulho por o seu assistente de inteligência artificial – Grok – ter “previsto” com exactidão que os ataques ao Irão iriam começar no dia 28 de Fevereiro. O nível de petulância rebenta a escala. Os sinais de aviso já circulavam. Os caças e porta-aviões norte-americanos já estavam concentrados em pontos-chave. E, na realidade, tudo estava já escrito nos céus. Os astrólogos já haviam deixado alertas. Os astros alinhavam-se para a guerra, conflitos, revolução. Purificação pelo fogo e a destruição. A roda do ratinho em acção.

    Com ou sem previsões ou adivinhações, o certo é que os homens são soberanos. Quando são (estão) conscientes. Culpar os astros pelas guerras, pelas atrocidades, pelas tragédias é muito conveniente. Mas é errado. Seja por se ser pouco evoluído em termos de consciência, seja por evidente falta de moral, é errado apontar culpas externas, mesmo aos poderosos astros.

      

    Isto é o que observamos. Em 2020, os astros também estavam alinhados para a transformação e a crise. Além das perdas humanas, assistimos, em dois anos a uma das maiores transferências de poder e de riqueza jamais registadas, com transferência de riqueza das famílias e pequenas empresas para os multimilionários e as gigantes multinacionais. Com amarras legislativas a serem orquestradas contra a liberdade de imprensa e de expressão.

    Chamaram-lhe “crise da covid”, mas a crise foi moral, sobretudo. A pandemia serviu como motivo para políticas desastrosas, o reforço do poder (e das fortunas) de uns poucos. Foi igual com a guerra na Ucrânia, que serviu, designadamente, para alimentar uma elite política e empresarial corrupta naquele país a troco da chacina de homens ucranianos e russos, pais e filhos, num conflito que está para durar. E ainda virá a transferência “necessária” de milhares de milhões de euros e de dólares para a “reconstrução” do país. Depois, veio Gaza. Agora, o Irão.

    Há ainda que somar a isto toda a especulação registada em torno de produtos alimentares, dos preços do petróleo e, sobretudo, das políticas públicas que colocaram a habitação nas mãos de gigantes financeiros sem escrúpulos, permitindo que fundos e multimilionários manipulem os preços das casas como se fossem acções de uma qualquer biotecnológica, uma criptomoeda. Um risco a subir num gráfico. Uma peça no jogo Monopólio.

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    Há ainda que somar a manipulação terrível feita pelos media, a pornografia do medo instilado a cada vídeo, a cada foto, a cada comentário de um convidado escolhido a dedo. O ódio e o incitamento à polarização a cada notícia. Na pandemia. Na Ucrânia. Com Gaza. Com o Irão.

    Perante a realidade, o que têm feito as massas, as gentes? Desenhos de arco-íris colados na janela na pandemia. Bandeiras da Ucrânia penduradas na varanda. A seguir, bandeiras da Palestina. Agora, bandeiras do Irão. A seguir, bandeira de…. Desenho de…

    Incrivelmente, o povo manso – novos e velhos – vive, na sua maioria, estes acontecimentos, com a complacência de um cão que, à falta de carne tenra, se entretém a roer o osso e a responder ao ladrar do cão vizinho raivoso. Pelo meio, reage ao incentivo à polarização com o instinto de um cão que corre para apanhar a sua bola favorita.

    Está na hora de tocar o despertador e de sair do transe.

    Um mundo em guerra, numa altura em que a inteligência artificial toma de assalto o mercado de trabalho e os euros digitais – dinheiro programável ao gosto de governantes -, estão prestes a ser lançados… Não haverá nada a fazer se não se sair agora do transe.

    O Irão tem vivido debaixo de terror, atrocidades e morte. É verdade. Mas a guerra em curso é, de novo, contra todos nós. Contra as famílias, as pequenas empresas. E, sobretudo, contra os mais vulneráveis.

    Os preços estão de novo a disparar. Primeiro o petróleo, depois tudo o resto. A “incerteza” será usada, de novo, para a especulação financeira e para o encarecimento (maior) de tudo o que compõe a parte das despesas no orçamento familiar e das empresas. Num dos piores cenários futuros, um alastrar da guerra pode levar políticos a pensar chamar pais e filhos europeus, incluindo portugueses, a estarem prontos para o combate.

    E, ainda assim, perante mais esta guerra, haverá quem trocará a bandeira da Palestina na varanda pela do Irão. Quem irá para a TV vociferar contra Trump e contra Israel. Quem irá cantar pela libertação das mulheres e de jornalistas iranianos. Tudo certo.

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    Só não se deve esquecer de que a realidade bate nas famílias que perdem filhos, maridos, irmãos. Bate na miséria. Na carteira e no salário. A realidade não está nas TVs nem nos jornais. Nem nas redes sociais. Está nas vidas dos que mais são atingidos pelas guerras e a crises. Está no prato vazio. No tecto que não há. Está no bolso. Está nas leis que se fazem pela calada e que retiram direitos e poder às gentes.

    Assim, se o leitor pensar em colocar qualquer bandeira no perfil do Facebook ou Instagram, escolha bem. Talvez a de uma pomba com um ramo de oliveira. Ou então não coloque nada. Saia das redes sociais, desligue as TVs e ligue-se ao mundo. Ele precisa de si, desperto, consciente e presente, mais do que nunca.

    Elisabete Tavares é jornalista

  • Luís Neves: igual a isto só num país classificado em 92.º lugar no Índice da Democracia do The Economist

    Luís Neves: igual a isto só num país classificado em 92.º lugar no Índice da Democracia do The Economist


    Os gestos políticos, independentemente da legalidade formal, e antes mesmo dos actos, são reveladores da maturidade de uma democracia. E há escolhas que não precisam de violar a lei para corroerem, de forma silenciosa, porque normalizadas na sua anormalidade, a confiança nas instituições.

    A passagem directa de um director em funções da Polícia Judiciária para o cargo de ministro da Administração Interna é um desses gestos. Mesmo que Luís Neves seja elogiado por todos os quadrantes. Não é apenas a pessoa em si que está em causa, nem é a decisão discutível que merece reflexão — como bem a faz o jornalista António José Vilela na CNN Portugal: é o sinal da chamada para o Governo de alguém em funções numa instituição tão sensível. E, numa democracia madura, os sinais contam tanto como as normas.

    Luís Neves, em funções de director da PJ, e Luís Montenegro. Foto: D.R.

    As democracias sólidas não confundem planos. Não confundem investigação criminal com governação política. Não confundem o saber acumulado num aparelho de investigação policial do Estado com a conveniência momentânea do poder executivo. E, sobretudo, não normalizam transições que colocam sob suspeita a separação funcional entre quem investiga e quem governa — mesmo quando tudo é feito com a compostura institucional das nomeações “limpas” e dos sorrisos de posse.

    A Polícia Judiciária de hoje não é a PJ de há trinta ou quarenta anos: é um órgão com crescente centralidade nos crimes de colarinho branco, na corrupção político-administrativa, no desvio de fundos públicos, nas fraudes complexas e nas relações opacas entre poder económico e decisão política. O seu director nacional não é um mero gestor de polícia criminal: é alguém que, tendo desenvolvido toda a sua experiência profissional na PJ, conhece prioridades estratégicas, linhas de investigação sensíveis, dinâmicas internas, tensões entre magistraturas, fluxos de informação e, inevitavelmente, processos que tocam o coração do poder político.

    Por isso, em democracias que se levam a sério, esse director não pode saltar directamente para o Governo — e muito menos para a tutela política das forças de segurança e de parte da própria investigação criminal, neste caso da PSP. Pode sair, pode aceitar cargos internacionais, pode até, passado algum tempo, ingressar na política. Mas não deveria, por uma questão de ética da res publica, atravessar, de um dia para o outro, a linha que separa o investigador institucional do decisor político, levando consigo um capital de conhecimento que não pode ser “desaprendido”.

    Luís Neves, da PJ para o Ministério da Administração: um salto que coloca a prova dos limites da res publica. Foto: D.R.

    Este problema não é apenas teórico nem se cinge à figura específica de Luís Neves. Nisto não pode haver visões casuísticas. E esta nomeação torna-se politicamente ainda mais grave quando, no momento dessa transição, se sabe — porque é público — que existem novas investigações e indícios relevantes envolvendo o próprio primeiro-ministro, Luís Montenegro, nomeadamente em torno do caso da sua casa de Espinho. Não é necessário afirmar, insinuar ou sugerir qualquer interferência concreta para reconhecer que a situação é, no mínimo, institucionalmente imprudente. A democracia não vive apenas da ausência de crime; vive da ausência de suspeita razoável.

    Aceitar este convite é, também, uma escolha pessoal. Não se trata apenas do que o primeiro-ministro faz, mas do que o director da PJ aceita fazer. As democracias maduras contam com elites institucionais que sabem dizer “não” quando a aceitação de um cargo compromete — ainda que apenas simbolicamente — a credibilidade do sistema no seu conjunto. Há momentos em que o dever institucional é recusar, precisamente para proteger a instituição que se serve.

    Os exemplos europeus são elucidativos, mas mesmo assim nada comparáveis. Quando, em 2011, o ex-chefe policial anticorrupção Jan Kubice foi nomeado ministro do Interior na República Checa, o país mergulhou numa polémica profunda. Kubice carregava consigo o peso de relatórios e alegações anteriores envolvendo figuras políticas de topo, incluindo primeiros-ministros. A discussão pública não foi sobre a sua competência técnica, mas sobre a corrosão da confiança democrática causada por essa promiscuidade entre investigação e poder político. E note-se: quando foi nomeado ministro, Kubice já estava fora da polícia há mais de dois anos. O caso ficou como um aviso, não como um modelo.

    man standing near traffic lights

    Na verdade, noutros países europeus existem trajectos de responsáveis policiais que chegam à política, mas quase sempre após períodos de afastamento, reconversão institucional ou em contextos em que não pendem investigações sensíveis sobre o núcleo do poder. A regra implícita é simples: quanto maior a sensibilidade do conhecimento acumulado, maior deve ser a distância temporal e funcional antes da entrada no Governo. Não por desconfiança pessoal, mas por prudência democrática.

    O único caso similar ao da nomeação de Luís Neves encontra-se no país que, no Índice da Democracia do The Economist, está entre Marrocos e Tunísia: na Ucrânia, que se encontra na 92.ª posição (Portugal está em 23.º lugar), o actual ministro do Interior, Ihor Klymenko, saltou directamente da chefia da Polícia Nacional em Janeiro de 2023.

    Portanto, em Portugal normalizou-se um atalho, desvalorizou-se o simbolismo, tratou-se a democracia como um sistema que aguenta tudo, desde que a lei não seja formalmente violada. Mas a democracia não é apenas um código penal ou um manual de procedimento administrativo — constitui um ecossistema de confiança, de percepções públicas, de limites não escritos que existem precisamente para evitar que o poder se torne autorreferencial.

    Uma escolha como a de Luís Neves só se encontra na Ucrânia, onde Ihor Klymenko passou directamente da liderança da Polícia Nacional para o Ministério do Interior.

    Aliás, a escolha do novo director da PJ ficará sempre sob suspeita, passada a aura dos elogios parvos — como a do procurador-geral da República, que diz que o novo ministro “é um bom garfo. Prefere peixe e é um bom apreciador de vinho”, assim referido no Público pela jornalista Mariana Oliveira, que ainda acrescenta esta ‘pérola’: “Também gosta de pescar em alto-mar, onde os peixes graúdos dão luta rija”.

    De facto, num futuro breve, não importa quão competente ou íntegro venha a ser o escolhido: a pergunta estará sempre lá. Foi escolhido por critérios exclusivamente profissionais? Houve alinhamento estratégico? Houve preocupação em ‘tranquilizar’ o poder político num momento sensível? Houve interesse em substituir a direcção da PJ por alguém mais ‘fiável’? Estas perguntas não são acusações: são o produto inevitável de uma decisão mal desenhada à partida.

    As democracias testam-se neste tipo de nomeações. Não nos grandes discursos sobre o Estado de direito, mas nos detalhes incómodos da arquitectura institucional. Uma democracia confiante não precisa de instrumentalizar — nem simbolicamente — os seus aparelhos de investigação. E uma democracia madura prefere perder um ministro potencial a ganhar uma dúvida sistémica.

    Luís Montenegro com Maria Lúcia Amaral, que se demitiu de ministra da Administração Interna no dia 11 de Fevereiro. Foto: D.R.

    Ao aceitar esta transição directa, o Governo e o próprio Luís Neves enviam uma mensagem errada: a de que não há problema em fundir saber investigativo e poder executivo; a de que a prudência institucional é um luxo; a de que a aparência de independência é secundária face à conveniência política. E, ao aceitar o convite de forma tão imediata, o director da PJ até à semana passada e o novo ministro da Administração Interna a partir da próxima semana participa, de forma activa, nessa normalização.

    Não é assim que devem funcionar as democracias sólidas. Na verdade, é assim que começam a desgastar-se. Em silêncio, com gestos tecnicamente defensáveis, até aceitáveis, quando não elogiados, pela imprensa e pelos políticos. Quando se perde a noção dos limites da democracia, o problema já não é um nome, um cargo ou um caso concreto: é o próprio regime que se habitua a viver no fio da navalha — convencido de que nunca se corta.

  • Anti-vacinas e pró-vacinas: David Marçal, um caso patológico de cegueira por ‘ideologite’ crónica

    Anti-vacinas e pró-vacinas: David Marçal, um caso patológico de cegueira por ‘ideologite’ crónica


    David Marçal aprecia apresentar-se como “divulgador de ciência” quando se assume colunista do Público, mas ao longo dos anos tenho-o visto como um exemplar da degradação do discurso científico no espaço mediático. Por isso, essa auto-atribuição de autoridade torna ainda mais grave o desvio ético e de rigor consumado no seu mais recente artigo, onde se espraia como militante ideológico que instrumentaliza a ciência para legitimar juízos políticos, substituindo o método pela moralização e a análise pelo veredicto.

    A sua tese central no artigo desta semana no Público— “usar a pobreza da Guiné-Bissau para inventar provas contra as vacinas” — não é uma conclusão derivada da análise de um protocolo científico, da literatura existente ou da prática internacional comparada. Constitui uma acusação de intenção fraudulenta, lançada sem demonstração, sem prova e sem sequer a honestidade intelectual de distinguir entre estudar vacinas e combater vacinas. E apenas com um objectivo ideológico: manter a dogma de que a Administração Trump, e particularmente Robert F. Kennedy Jr., é um “defensor de teorias da conspiração que tem procurado de várias maneiras minar a confiança nas vacinas“.

    David Marçal. Foto: D.R.

    Em Ciência, imputar intenção sem evidência chama-se má-fé; em espaços de divulgação como os jornais, chama-se difamação intelectual. E aqui, no artigo de David Marçal no Público, estamos perante ambas.

    Para compreender a dimensão da distorção de Marçal, é indispensável começar por aquilo que deliberadamente apaga: quem é Peter Aaby (o seu principal alvo de ataque), o que são efeitos não específicos (que aparenta ignorar) e de que ensaio na Guiné-Bissau estamos a falar (relativo à comparação de momentos de vacinação contra a hepatite B).

    Primeiro, Peter Aaby não é um marginal nem um dissidente obscuro: é um dos investigadores mais citados mundialmente na área da vacinação e da saúde pública, fundador do Projecto de Saúde de Bandim, autor de centenas de artigos científicos e referência central no estudo do impacto real das vacinas na mortalidade infantil em contextos de baixo rendimento. Tem um h-index de 89 no Scopus. Marçal – que é investigador profissional na Universidade de Coimbra – tem um h-index de 4.

    Trecho do artigo de David Marçal publicado na edição impressa de 20 de Fevereiro do jornal Público.

    O percurso deste investigador dinamarquês é tão inequivocamente pró-vacinas que, em 2015, foi distinguido com o grau de doutor honoris causa pela Universidade Nova de Lisboa, por proposta do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, precisamente pelo contributo do seu trabalho para a compreensão dos benefícios das vacinas e para a redução da mortalidade infantil. Este facto, de enorme peso académico e simbólico, é simplesmente incompatível com a caricatura de “agente antivacinas” que o texto de Marçal sugere — e é revelador que ele o omita por completo.

    Marçal nem sequer fez o “trabalho de casa” na casa que acoita os seus escritos de pura hipocrisia: porque se arvora em ciência e acaba por produzir pseudociência. Com efeito, quem quiser entender, sem consultar artigos científicos, qual o trabalho da equipa do investigador dinamarquês na Guiné-Bissau pode ler um artigo no Público de Abril de 2021, escrito pela jornalista (e editora de Ciência) Teresa Firmino, que aborda um estudo da investigadora Eugénia Carvalho, da Universidade de Coimbra — exactamente a mesma universidade de David Marçal — sobre a interligação entre a diabetes e a tuberculose. Ora, nesse artigo aborda-se o Projecto de Saúde de Bandim, e pode-se ler o seguinte:

    Nas conversas de Eugénia Carvalho com Christine Stabell Benn e Peter Aaby falou-se de vários estudos que sugerem que as vacinas vivas atenuadas — o agente patogénico é enfraquecido, como a vacina oral da poliomielite e a da tuberculose — reduzem a mortalidade infantil por outras doenças. Ou seja, parecem fortalecer o sistema imunitário, tendo efeitos benéficos para lá das doenças às quais se dirigem especificamente. Chamam-lhes ‘efeitos não específicos’ das vacinas.

    Artigo do Público de 25 de Abril de 2021 que aborda o projecto fundado por Peter Aaby na Guiné-Bissau a pretexto de um estudo sobre efeitos não específicos da vacina contra a tuberculose na hepatite.

    E mais adiante surge a seguinte passagem:

    «O que temos descoberto recentemente é que muita coisa acontece quando uma vacina é administrada. Isto começou com observações epidemiológicas ao nível populacional — isto é, através do efeito das vacinas na saúde global —, descobrindo que faltava algo nesta equação. Há efeitos na mortalidade global que não podem ser todos explicados apenas com base no efeito protector específico de uma vacina contra uma doença», dizia Christine Stabell Benn, que, à semelhança de outras equipas, procura agora saber se os efeitos não específicos da BCG e da vacina oral da poliomielite conferem alguma protecção contra a covid-19, atenuando os casos mais graves e reduzindo a mortalidade.

    Ou seja, o núcleo da investigação de Aaby, que Marçal trata como mais do que suspeito — mesmo anti-vacinas —, incide sobre os chamados efeitos não específicos das vacinas. E importa clarificar aquilo que a ignorância ou a má-fé de Marçal não quer esclarecer — e não sei o que será pior —, porque aqui reside a inversão mais grotesca de todo o texto do auto-nomeado “divulgador de ciência”.

    Os efeitos não-específicos não se tratam de efeitos adversos ocultos, nem de procura de danos encapotados, e menos ainda de pesquisas para encontrar “provas contra as vacinas”. São, pelo contrário, os benefícios adicionais observados em múltiplos estudos, sobretudo com vacinas vivas atenuadas como a BCG ou a do sarampo, e que concedem reduções da mortalidade por todas as causas que excedem largamente a prevenção da doença-alvo, modulação benéfica da imunidade inata e menor susceptibilidade a outras infecções.

    Peter Aaby em 2015, quando recebeu o título de doutor honoris causa pelo seu trabalho como investigador na área dos efeitos não-específicos das vacinas. Fonte: IHMT-UNL.

    Esta não é, na verdade, nenhuma novidade: existem inúmeros estudos que investigaram a hipótese de que certas vacinas protegem mais do que aquilo que prometem no rótulo. Este campo de investigação, longe de alimentar discursos antivacinais, reforça a racionalidade da vacinação e permite optimizar políticas públicas. Por exemplo, apesar de grande parte dos estudos não terem sido conclusivos sobre esse efeito não específico, investigou-se a hipótese de os vacinados contra a tuberculose (vacina BCG) terem menor susceptibilidade à covid-19. E mesmo para a vacina contra a covid-19 estão em curso, ou já concluídos, estudos para tentar verificar se existem efeitos não específicos positivos. A Ciência avança-se por tentativas e estudo.

    Mas, para sustentar a sua narrativa anti-americana sobre vacinas, Marçal precisou de transformar as investigações sobre efeitos não específicos — que visam demonstrar vantagens acrescidas das vacinas — numa ameaça. E ainda por cima chega ao absurdo de tentar descredibilizar esses estudos — que são pró-vacinas —, indicando uma meta-análise recente que, segundo Marçal, demonstraria que os ensaios de Aaby e da sua equipa na Guiné-Bissau “não mostraram de modo consistente a existência desses efeitos não específicos, havendo fortes indícios de interpretações especulativas dos resultados”. E isto para depois concluir que “a base científica para novos ensaios inspirados na referida hipótese — como o estudo planeado para a hepatite B — é muitíssimo frágil”.

    Não deixa de ser curioso o raciocínio do “divulgador de ciência do Mondego”: se alguém conclui, numa meta-análise (e é só uma, o que em Ciência vale pouco), que as vacinas não concedem vantagens acrescidas para além da sua eficácia específica, isso é mau para as correntes antivacinais. Será que Marçal tem noção do que escreve ou ignora completamente o que são efeitos não específicos? Acho que nem sequer foi ao Google Académico fazer uma simples pesquisa para não parecer ridículo e tonto…

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    Além disso, David Marçal acomete ainda mais contra a ciência quando olha para os estudos sobre o momento óptimo da vacinação e a resposta imunitária como tentativas de “fabricar argumentos antivacinas”. Este raciocínio é profundamente anti-científico. A ciência progride precisamente investigando efeitos marginais, contextuais ou inesperados, e não decretando tabus em nome de consensos administrativos. Ainda mais quando nem nos países europeus existe, para a hepatite B, consenso sobre o melhor período de vacinação.

    É neste ponto que surge o erro estrutural mais grave de todo o texto de David Marçal: a confusão deliberada entre “não vacinar” e “vacinar mais tarde”. Marçal escreve como se o ensaio previsse a privação de cuidados, a existência de bebés “sem nada”, a negação de uma vacina comprovada. Isto é factualmente falso.

    O grupo de controlo seguiria o calendário nacional vigente na Guiné-Bissau. Não havia placebo, não havia retirada de vacinação, não havia privação de cuidados. Havia, sim, a comparação entre dois momentos de administração de uma vacina amplamente utilizada — algo que ocorre em inúmeros países europeus, incluindo países que Marçal jamais ousaria acusar de antivacinação. Apagar esta distinção não é um lapso técnico inocente; é uma manipulação semântica indispensável para sustentar a carga emocional do texto. Sem ela, toda a narrativa colapsa.

    Depois surge a hipocrisia ética de David Marçal, acusando que “o trabalho de Aaby e Stabell Benn tem sido feito essencialmente em países pobres, nos quais a realização destes estudos costuma ser aprovada mais facilmente. No fundo, estão a aproveitar-se da pobreza desses países. Repare que este ensaio clínico não é feito na Dinamarca.”

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    A carga epidemiológica não é distribuída uniformemente e muitos estudos só podem e devem ser realizados onde o problema existe. Na Guiné-Bissau, detectar o melhor período para vacinar contra a hepatite B é cientificamente mais relevante porque a vacinação ocorre num ambiente de elevada prevalência e de exposição precoce ao vírus.

    Com cerca de 22% dos adultos infectados neste país africano, a probabilidade de contacto com o HBV nos primeiros meses de vida é elevada, seja por transmissão vertical, seja por transmissão horizontal intrafamiliar. Nestes contextos, vacinar demasiado tarde pode significar vacinar após a infecção, reduzindo drasticamente a eficácia preventiva; vacinar demasiado cedo, sem considerar factores imunológicos neonatais ou interacções com outras infecções, pode comprometer a resposta imunitária.

    Assim, o momento da vacinação deixa de ser um detalhe logístico e passa a ser uma variável biológica e epidemiológica determinante. Optimizar esse momento permite maximizar a probabilidade de ser administrada antes da infecção, garantir uma resposta imunitária eficaz e reduzir a progressão para infecção crónica — que, em contextos de elevada prevalência, representa um fardo sanitário estrutural.

    O Projecto de Saúde de Bandim (BHP) é um sistema de vigilância sanitária e demográfica em operação na Guiné-Bissau desde 1978. Foto: BHP.

    Em Portugal, onde a prevalência ronda 1,4%, o risco de exposição precoce é baixo. A vacinação universal neonatal funciona sobretudo como uma estratégia de blindagem populacional, com ampla margem de segurança temporal. Aqui, pequenas variações no momento da administração têm impacto marginal na eficácia global. O mesmo não é verdade em contextos como o da Guiné-Bissau, onde cada semana conta em termos de risco real de infecção.

    Em suma, não é a vacina que muda; é o contexto que muda o peso do tempo. Estudar o período óptimo de vacinação em países de alta prevalência não é hesitação nem relativismo; é epidemiologia aplicada, orientada para maximizar eficácia onde o risco é concreto e permanente.

    Mas isto, para Marçal, são “detalhes” que não interessam para a sua “missão ideológica”. Aliás, Marçal nem sequer quer explicar — ou não sabe — a razão de este “ensaio clínico não ser feito na Dinamarca”. Eu explico, citando as autoridades de saúde deste país escandinavo: “Actualmente, o programa dinamarquês não inclui a vacinação contra a hepatite B, pois o risco de infecção entre crianças dinamarquesas é, em geral, limitado. […] A Dinamarca optou por uma estratégia focada na vacinação de grupos de risco, como, por exemplo, filhos de mães com hepatite B.”

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    Mas David Marçal quis fazer mais. E seguiu-se a instrumentalização da OMS, tratada como selo moral definitivo, ignorando que a própria organização reconhece a diversidade legítima dos calendários vacinais e que Ciência não se faz por comunicados institucionais (contrariados pelos autores do ensaio clínico da Guiné-Bissau), mas por dados, ensaios e debate crítico. Confundir autoridade administrativa com verdade científica é cientificismo burocrático, não método científico.

    O texto de Marçal fecha, tal como começa, com o truque retórico final: a associação obsessiva a figuras politicamente controversas, substituindo a análise do protocolo pela culpa por contiguidade. No fim, o ensaio desaparece, a metodologia evapora-se e resta apenas a narrativa política.

    O resultado global desta “coisa” em forma de texto de David Marçal é um artigo que não esclarece, não informa e não protege a ciência. Pelo contrário: instrumentaliza a ciência como arma ideológica, usando o prestígio simbólico da “luta contra a desinformação” para silenciar debate legítimo, intimidar investigadores e transformar investigação científica em heresia moral.

    Na cegueira obsessiva de atacar Robert F. Kennedy Jr., David Marçal nem olha para quem atira.

    Mas há uma ironia final cruel: na cegueira de atacar um político (Robert F. Kennedy Jr.), desanca num investigador pró-vacinas e, involuntariamente, num campo científico que pretende demonstrar vantagens acrescidas das vacinas, David Marçal acaba por produzir exactamente aquilo que diz combater — desinformação sofisticada, emocionalmente eficaz e cientificamente vazia. E, já agora, convém dizer que os Estados Unidos têm uma lista de 17 doenças cobertas por vacinas nos seus programas de vacinação, enquanto Portugal conta apenas 13.

    A Ciência não precisa destes paladinos armados de certezas absolutas e sofrendo de ‘ideologite’ crónica; precisa, sim, de quem aceite a complexidade, a dúvida e o incómodo. Tudo o resto é ideologia — ainda que escrita com vocabulário científico.

  • Revista Visão: quem quer parecer ovelha não dorme com o lobo

    Revista Visão: quem quer parecer ovelha não dorme com o lobo


    Nos últimos meses, tem sido amplamente celebrada — e em parte com razão — a abnegação de uma dúzia de jornalistas que, sem recursos, em teletrabalho, sem salários regulares, continuaram a produzir a revista Visão a partir de casa, mantendo o título vivo enquanto se aguarda um veredicto sobre o seu futuro.

    Esse esforço foi elevado quase a um hino cívico: jornalistas despojados, mas dignos, fiéis à missão e resistentes num deserto empresarial. A isso somou-se um crowdfunding liderado pelos próprios jornalistas, sob a direcção de Rui Tavares Guedes, com sucesso assinalável — até hoje foram angariados 263.311 euros provenientes de cerca de 6.100 doadores — e com o apoio entusiástico de múltiplas figuras públicas, para tentar salvar a marca que deverá ir a leilão no próximo mês, no contexto da insolvência da massa falida da Trust in News, permitindo, ao menos em teoria, compensar parcialmente os credores.

    Campanha de crowdfunding dos jornalistas da Visão apela para que não se fechem os olhos.

    Convém, porém, suspender por um instante o aplauso e perguntar: o que é que está realmente a acontecer aqui?

    Os credores não são uma abstração. Entre eles estão a Segurança Social, a Autoridade Tributária, jornalistas, fornecedores e outros lesados. E no centro do descalabro está a Trust News, empresa que em 2018 adquiriu cerca de uma dezena e meia de títulos à Impresa, controlada pela família Balsemão, que então já apresentava dificuldades financeiras em manter essas publicações.

    A Trust in News ‘caiu do céu’ para salvar o imbróglio da família Balsemão, e foi criada pelo antigo jornalista Luís Delgado com um capital social de apenas 10 mil euros. Pouco tempo depois, começaram os incumprimentos em cadeia, as dívidas ao Estado, os salários em atraso, até que o passivo conhecido atingiu valores na ordem dos 31 milhões de euros — e isto sem que as contas de 2024 tenham sequer sido apresentadas, o que por si só já diz muito. Há sinais fortes de fraude, engenharia financeira, há opacidade estrutural, há um rasto de destruição que não pode ser explicado apenas com a palavra mágica “crise”.

    Luís Delgado com Francisco Pedro Balsemão em 2018 aquando da compra das revistas da Impresa, incluindo a Visão.

    Este desastre não aconteceu por acaso. Foi protagonizado por Luís Delgado e foi permitido pelo Estado e pelo Governo — sobretudo pelo Governo socialista — que assistiram durante anos, com uma passividade cúmplice, a um dos maiores colapsos da imprensa portuguesa recente. Mais grave ainda: Luís Delgado e outros gerentes têm já condenações judiciais e execuções fiscais em curso, tornando todo o enredo ainda mais pesado do ponto de vista ético e institucional.

    E é aqui que o caso deixa de ser apenas trágico para se tornar verdadeiramente obsceno.

    Porque, apesar de todo este quadro, apesar de os jornalistas da Visão, e o seu director Rui Tavares Guedes, afirmarem ser vítimas de uma má gestão; apesar de a empresa estar falida; apesar de não se saber sequer, hoje, quem responde juridicamente pela Visão nem como é paga a produção da revista – eis a surpresa obscena: Luís Delgado continua a ser cronista regular da Visão, e não me parece que seja ao arrepio da vontade do seu director editorial, Rui Tavares Guedes. Este ano já escreveu nove artigos publicados na edição online, o mais recente na segunda-feira passada.

    Isto não é um detalhe. É o nó central da história.

    Não se pode, ao mesmo tempo, apresentar-se como vítima e manter como voz legitimada e publicada, o principal responsável pelo desastre. Não se pode pedir solidariedade pública, donativos, compreensão moral, apelos a perdões do Estado, enquanto se oferece espaço editorial a quem conduziu o navio ao fundo e deixou uma montanha de dívidas ao Estado, aos trabalhadores e ao sector. Não se pode invocar a ética do jornalismo e normalizar esta promiscuidade como se fosse um pormenor secundário.

    Algo está muito mal contado na história da revista Visão. Muito mesmo.

    Neste momento, a revista parece existir num limbo jurídico e financeiro: sem empresa claramente responsável, sem transparência sobre os fluxos que permitem a sua produção, sem respostas claras a perguntas elementares. E, perante isto, a indulgência acrítica não ajuda o jornalismo – só o descredibiliza.

    Rui Tavares Guedes, director da Visão que, após o descalabro da Trust in News, com calotes de mais de 30 milhões de euros, ainda acha boa ideia ter Luís Delgado como colunista da revista.

    A tolerância cega, mesmo quando movida por boas intenções, transforma-se em cumplicidade. E o jornalismo, se quer sobreviver com dignidade, não pode aceitar dormir com o lobo enquanto se apresenta ao público como uma ovelha que luta para não ser sacrificada.

    É duro dizê-lo. Mas é ainda mais duro fingir que não se vê. Os jornalistas da Visão que permanecem a bordo — e, sobretudo, o seu director, Rui Tavares Guedes — perderam a noção do limite. Se é verdade que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele, neste caso impõe-se uma máxima ainda mais justa: quem quer parecer ovelha, para colher condescendência pública, não pode então dormir com o lobo.

  • E eis que temos um procurador do Ministério Público a querer condenar quem denuncia um político que apoiou a discriminação biológica…

    E eis que temos um procurador do Ministério Público a querer condenar quem denuncia um político que apoiou a discriminação biológica…


    No dia 3 de Agosto de 2021, escrevi publicamente que o então bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães — que foi entretanto ‘premiado’ com um cargo de deputado da Nação pelo PSD — assumia uma postura de discriminador-mor. Escrevi-o de forma clara, assumida e consciente. Não foi um insulto. Foi um juízo ético.

    A razão era simples e factual: Miguel Guimarães defendeu no Verão de 2021, enquanto bastonário, a separação em restaurantes entre vacinados contra a covid-19 e não-vacinados, independentemente do estado real de imunidade das pessoas. Essa distinção ignorava, além de tudo o resto, e de forma deliberada, um facto científico elementar: a existência de imunidade natural adquirida por infecção prévia, reconhecida pela literatura científica e por entidades internacionais. Eu próprio estava nessa situação.

    Em 2021, em plena democracia e de consolidação de direitos fundamentais, um baastonário da ordem dos Médicos defendeu a discriminação com base biológica: criticá-lo aludindo à memória histórica

    A proposta de Guimarães não distinguia comportamentos, riscos efectivos ou evidência clínica. Distinguia corpos. Distinguia estatutos biológicos. E é aqui que começa o problema civilizacional.

    Chamei-lhe, por isso, discriminador-mor aludindo a períodos negros da História da Humanidade. E escrevi, cito literalmente o que escrevi então: “Certamente teria um lugar adequado em certo país europeu da década de 30 do século XX. Ou talvez na ‘Espanha’ do século XV para coadjuvar o Torquemada.

    Esta frase — uma única frase, que a repito aqui — é hoje, em 2026, o único excerto, entre dezenas de textos, investigações e análises que produzi, que um procurador do Ministério Público entendeu, na sétima audiência do meu julgamento, mais concretamente nas alegações finais, ocorrida esta sexta-feira no Campus de Justiça, configurar difamação, no processo que me foi intentado pela Ordem dos Médicos, por Miguel Guimarães, por Filipe Froes, por Luís Varandas e por Henrique Gouveia e Melo.

    Convém sublinhar: não fiz a Miguel Guimarães uma acusação infundada, não lhe fiz uma imputação de factos falsos; não fiz um ataque pessoal gratuito.

    Foi uma análise ética do exercício do poder por um titular de um cargo público de enorme influência social: a Ordem dos Médicos é considerada uma entidade pública.

    E isso muda tudo.

    A História ensina-nos uma coisa com brutal clareza: sempre que o Estado ou uma autoridade moral começa a classificar pessoas com base em critérios biológicos, o desastre não vem a seguir — já começou.

    Não é uma hipérbole. É um padrão histórico.

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    A Inquisição ibérica criou os estatutos de limpieza de sangre, onde a fé já não bastava: o sangue herdado tornava-se critério de exclusão.
    O nazismo classificou cidadãos pelo número de avós com certas características genéticas, não pelas suas ideias ou actos.
    O apartheid transformou características físicas em documentos legais.
    As leis Jim Crow fixaram, nos Estados Unidos, a cidadania com base na cor da pele.
    A eugenia científica, no século XX, esterilizou pessoas por alegadas taras genéticas.
    No Ruanda, o nascimento foi sentença de morte…

    Em todos estes casos, e muitos mais, o mecanismo foi o mesmo: o indivíduo é julgado sem ser pelos seus actos mas sim pelas características biológicas.

    Ora, quando em 2021 um bastonário da Ordem dos Médicos defende a segregação de cidadãos com base no seu estatuto biológico simplificado — vacinado / não vacinado — ignorando imunidade natural, contexto clínico, proporcionalidade e direitos fundamentais consagrados na Constituição de um país democrático, estamos perante um desvio ético grave. E dizê-lo não é difamar. É cumprir um dever cívico.

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    Disse José Ortega y Gasset — e ontem citei-o em tribunal, depois de o procurador do Ministério Público pedir a minha condenação por considerar que difamei Miguel Guimarães: “Eu sou eu e a minha circunstância; e se não a salvo a ela, não me salvo a mim.

    Esta frase é central para compreender aquilo que está aqui em causa — e explico-a aqui melhor do que consegui no tribunal. Em democracia, as acções de quem exerce poder moldam a circunstância moral da sociedade. Quem discrimina, como fez Miguel Guimarães, a partir de um cargo institucional cria precedentes. Quem perseguiu colegas, como fez Miguel Guimarães, cria medo. Quem pretende normalizar, como fez Miguel Guimarães, a exclusão biológica, degrada o espaço público.

    E quem assiste e cala — ou, pior, quem deseja a condenação de quem denuncia, como pretende este procurador do Ministério Público — legitima uma acção infame. E torna-se cúmplice dessa degradação.

    Por isso, comparar as atitudes de Miguel Guimarães a períodos sombrios da História não é dizer que vivemos nesses regimes. Não é dizer que ele é nazi ou fanático religioso — é dizer que os mecanismos éticos são reconhecíveis. A História não se repete mecanicamente, mas repete padrões. E é precisamente para evitar o retorno desses padrões que a memória existe.

    Dizer que alguém, pelo seu comportamento público, ecoa lógicas inquisitoriais ou segregacionistas não é um ataque pessoal — constitui uma avaliação ética da função exercida.

    Ora, se esta crítica for criminalizada — como parece ser o desejo deste procurador do Ministério Público —, então não é apenas um jornalista que pode ser condenado: é o próprio direito de escrutinar o poder e a liberdade de expressão enquanto pilar democrático.

    Editorial

    Particularmente chocante é que este desejo do procurador do Ministério Público de me ver condenado por difamação se enquadre num julgamento em que ele foi testemunha presencial de mentiras em tribunal, de conluios documentais, de omissões graves, de ilegalidades evidentes praticadas por entidades com poder — incluindo responsáveis máximos de organismos reguladores, como a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde e o Infarmed, bem como a Ordem dos Médicos e o Estado-Maior-General das Forças Armadas, de onde provinha Gouveia e Melo — e, ainda assim, escolha concentrar-se numa frase de crítica ética a um defensor de discriminação biológica.

    Em 2026, ver este comportamento de um magistrado do Ministério Público choca-me como cidadão do século XXI — e ainda mais sendo eu um arguido a quem ele, nas seis audiências anteriores, não conseguiu encontrar qualquer mentira em tudo o que escrevi, e por isso pediu absolvição em tudo o resto.

    Mais do que choque, indigna-me. E não apenas por mim. Indigna-me pela democracia.

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    Se eu for condenado por isto, na sentença a ser lida pela juíza do processo no próximo dia 10 de Março — e, sinceramente, custa-me a acreditar nessa possibilidade —, não serei apenas eu a ser condenado.

    Será condenada a ideia de que recordar a História é perigoso.
    Será condenada a ideia de que criticar o poder é um crime.
    Será condenada a própria noção de cidadania activa.

    E isso, sim, seria um recuo para tempos que jurámos nunca mais aceitar.

  • Cheias no Baixo Mondego: não nos atirem Girabolhos para os olhos

    Cheias no Baixo Mondego: não nos atirem Girabolhos para os olhos


    Desenterrou-se agora o projecto da barragem de Girabolhos e atirou-se ao espaço público como solução milagrosa, tardia mas redentora, para um problema complexo: as cheias do Baixo Mondego. Esta, diga-se já, é uma solução intelectualmente desonesta, tecnicamente errada, financeiramente pesada e politicamente estúpida.

    Por piada — mas apenas por piada — poderia dizer que, se a garantia de controlo das cheias é feita por um Governo cujo líder, Luís Montenegro, parece acreditar que os caudais do Mondego se regularizam com telefonemas para Madrid, quando toda a bacia hidrográfica se encontra no nosso país, talvez fosse mais eficaz fazer promessas e ir a Fátima.

    Mas este não é um assunto para sarcasmos fáceis. Custa dinheiro público, cria expectativas infundadas e, no fim, entrega apenas soundbites de acção governativa. A ciência, porém, não se governa por conferência de imprensa.

    Convém começar pelo princípio. O Baixo Mondego é, historicamente, uma zona susceptível a inundações. Sempre foi. Durante séculos, as cheias sazonais faziam parte do regime natural da região e, mesmo sendo uma calamidade, contribuíam para a fertilidade agrícola dos campos. Foi para domesticar esse comportamento que, a partir das décadas de 1970 e sobretudo de 1980, se avançou com grandes obras de regularização hidráulica: diques longitudinais (para aumentar a capacidade de encaixe de caudais sem inundação adjacente), canais, rectificações e barragens.

    Entre estas, destacam-se as barragens da Aguieira e do Raiva, que entraram em exploração nos anos 80 e reduziram de forma clara a frequência e a severidade das inundações a jusante. Isto é um facto histórico e técnico, não uma opinião.

    Luís Montenegro a visitar o Baixo Mondego. Foto: CMMV.

    Não foi aí que “algo falhou”. Pelo contrário: durante décadas, o sistema funcionou de acordo com os objectivos para que foi concebido. Também não é sério atribuir as cheias actuais a uma alegada pluviosidade excepcional. Conforme destaca Paulo Fernandes, professor da Universidade de Trás-os-Montes, os dados são claros: Janeiro de 2026 foi apenas o 11.º mês de Janeiro mais chuvoso desde 1940 na série de Coimbra. Não estamos, assim, perante um episódio extremo em termos históricos.

    Quando há cheias significativas sem precipitação recorde, o problema raramente está no céu; está quase sempre na bacia.
    E é aqui que o debate se torna incómodo e nos remete para o Verão passado — e por isso mesmo politicamente evitado: os incêndios rurais.

    Nos últimos anos, e de forma particularmente intensa em 2025, vastas áreas da bacia hidrográfica do Mondego, sobretudo no alto curso e em sub-bacias críticas, foram devastadas por incêndios florestais de grande dimensão. Na bacia do Mondego, na Serra da Estrela e zonas de cabeceira e vertentes declivosas arderam como há muito não se via. Em Agosto houve um incêndio iniciado em Arganil que devastou mais de 65 mil hectares de áreas florestais e de matos; na região de Trancoso, outro que dizimou quase 47 mil hectares. Do ponto de vista hidrológico, isto não é um detalhe: é uma alteração estrutural do comportamento da bacia.

    Solos queimados perdem cobertura vegetal, reduzem, de forma drástica, a infiltração, tornam-se mais susceptíveis à erosão e aceleram o escoamento superficial. O tempo de concentração da água encurta; os picos de cheia tornam-se mais rápidos e mais altos; o transporte de sedimentos aumenta, assoreando linhas de água e reduzindo a capacidade hidráulica dos canais. Tudo isto está documentado há décadas na literatura científica. E tudo isto ocorre quer se construa ou não mais uma barragem a montante.

    Barragem da Aguieira. Foto: D.R.

    Chegados aqui, importa desmontar o mito central: o que mudaria, na realidade, a barragem de Girabolhos? Do ponto de vista técnico, a resposta é muito menos impressionante do que o discurso político sugere. Girabolhos regularizaria apenas uma fracção limitada da bacia do Mondego — abarcará uma área de drenagem de apenas 980 km², cerca de 15% quer da área total contributiva quer do escoamento total anual.

    Não estamos a falar, portanto, de uma albufeira com capacidade para controlar todo o sistema; estamos a falar de uma infra-estrutura que interceptaria uma pequena parte do escoamento a montante, deixando intactos contributos significativos de sub-bacias a jusante e de afluentes críticos.

    Além disso, mesmo a regularização inter-anual proporcionada por Girabolhos não elimina cheias em cenários de precipitação concentrada ou de resposta rápida da bacia — precisamente aqueles que os incêndios tornam mais prováveis. As barragens não “absorvem” cheias por decreto: têm limites operacionais, volumes já ocupados antes das chuvas invernais (ainda mais se o uso predominante for hidroeléctrico), regras de exploração e constrangimentos de segurança. Em certos contextos, podem até agravar picos a jusante se forem obrigadas a descarregar.

    Dizer, portanto, que Girabolhos “resolveria” as cheias do Baixo Mondego é vender uma solução simples para um problema que deixou de ser simples há muito. É ignorar a degradação do território, a política florestal errática, a ausência de gestão integrada da bacia e a incapacidade crónica de lidar com as consequências hidrológicas dos incêndios. E, em suma, é preferir betão a planeamento, obra visível a intervenção estrutural, fotografia de capacete a políticas de gestão do solo.

    Nada disto significa que o debate sobre Girabolhos seja ilegítimo. Pode discutir-se a sua utilidade para armazenamento, para regularização de caudais em certos cenários, para produção energética ou para abastecimento. Aquilo que não se deve fazer é instrumentalizar a barragem como resposta automática a cheias que têm causas múltiplas e bem identificadas. E a imprensa engolir.

  • Sondagens: o jornalismo está a transformar a Estatística em charlatanismo

    Sondagens: o jornalismo está a transformar a Estatística em charlatanismo


    Durante semanas — para não dizer meses — o espaço público português foi inundado por sondagens, tracking polls, “barómetros” diários e projecções que se pretendiam científicas, mas que acabaram por revelar outra coisa: um sistema inteiro a falhar em bloco. Não falhar por um ou dois pontos, não falhar pontualmente, mas falhar de forma sistemática, previsível e sempre no mesmo sentido. A eleição presidencial confirmou aquilo que já era evidente para quem não confunde números com oráculos: as sondagens deixaram de medir a realidade para passar a condicioná-la.

    Os resultados definitivos são claros: 66,8% para António José Seguro, 33,2% para André Ventura. Uma vitória confortável, inequívoca e politicamente relevante. Mas muito distante da narrativa construída até à exaustão pelas sondagens e, sobretudo, pelas projecções à boca das urnas, que apontavam para resultados entre os 68% e os 73%, com insinuações reiteradas de um “resultado histórico” capaz de ultrapassar Mário Soares. Nada disso aconteceu. E não aconteceu porque nunca esteve verdadeiramente nos dados — esteve apenas na expectativa que se quis criar.

    António José Seguro, eleito Presidente da República. Foto: D.R.

    A gravidade deste falhanço não pode ser relativizada com o argumento, recorrente mas estatisticamente iletrado, de que “se errou por pouco”. Sempre que uma projecção à boca das urnas — que não é uma sondagem típica mas já uma medição comportamental que deveria reduzir a incerteza e aproximar a estimativa do resultados real — é apresentada sob a forma de intervalo, existe necessariamente uma estimativa central. Esye ‘ponto médio’ corresponde ao valor mais provável do modelo; é o intervalo é apenas a sua margem de incerteza, por vezes generosa.

    Ora, recorde-se, então, o que foi dito no início da noite eleitoral após o fecho integral das urnas: das três projecções distintas, de entidades diferentes, apresentadas como independentes, todas sobrestimaram Seguro e subestimaram Ventura.

    Mesmo assim, a Intercampus — responsável pela projecção para a CMTV, Now e Jornal de Negócios — pode considerar-se que acertou no intervalo de incerteza estimado, que se situava entre 66,8% e 71,8% para Seguro, mesmo se o ponto médio era de 69,3%, traduzindo um erro de cerca de +2,5 pontos percentuais face ao resultado real. [leia a nota de direcção no final do texto]

    Muito pior esteve o consórcio ICS/ISCTE-GfK-Pitágórica — que trabalhou para a SIC, SIC Notícias, TVI e CNN — indicava 67% a 71,4%, com um ponto médio de 69,2% e um erro de +2,8 pontos; e a Universidade Católica Portuguesa — que realizou a projecção para a RTP — avançava com um intervalo entre 68% e 73%, cujo ponto médio, 70,5%, falhou por +4,1 pontos.

    Nem a melhor projecção à boca das urnas, feita pelo consórcio ICS/ISCTE-GfK-Pitágórica, conseguiu acertar no intervalo e ficou a 2,8 pontos percentuais do ponto média da estimativa.

    O resultado real, de 66,8% para Seguro e 33,2% para Ventura, ficou fora de dois dos três intervalos estimados, sendo que um acerta marginalmente (para um intervalo implícito de erro de ±2,5%).

    Convém salientar que, para projecções à boca das urnas, um intervalo implícito de ±2,5% fica claramente acima dos benchmarks internacionais, onde é comum trabalhar-se entre ±1% e ±2%, descendo ainda mais à medida que a noite avança e entram calibrações com resultados reais.

    Do ponto de vista técnico, este erro de ±2,5% significa que se usou uma uma amostra efectiva de apenas cerca de 1.500 inquiridos (assumindo p≈0,5 e IC≈95%), um número modesto para um exit poll nacional, sobretudo quando segmentado por regiões, idade e sexo — o que reduz drasticamente a amostra útil por estrato.

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    Um intervalo desta dimensão não traduz prudência estatística, mas, na verdade, uma grande fragilidade metodológica. E esta pode resultar de uma amostra curta ou mal estratificada, de níveis elevados de não-resposta corrigidos à pressa com ponderações agressivas, ou de um viés sistemático que o próprio intervalo tenta acomodar. Ou seja, em qualquer cenário, alargar a margem de incerteza não resolve o problema: apenas o disfarça — e mal.

    No limite do absurdo, se um órgão de comunicação social quisesse garantir que nunca falha uma projecção num confronto entre dois candidatos, bastar-lhe-ia ouvir quatro pessoas num universo de 10,9 milhões de eleitores: assumindo os pressupostos estatísticos habituais (intervalo de confiança de 95%, proporção no pior caso p = 0,5 e amostragem aleatória simples), seria então possível apresentar uma projecção “seguríssima”, atribuindo 50% a cada candidato, com uma margem de erro próxima dos 49% — formalmente defensável, mas de uma absoluta inutilidade informativa.

    Mas o problema não começou nesta noite eleitoral nem nestas eleições presidenciais. Começou muito antes, com as chamadas tracking polls, esse produto patético que passou a ser apresentado como acompanhamento científico do “sentimento do país”, quando não passa de uma sucessão de micro-amostras instáveis, metodologicamente frágeis e altamente sensíveis a enviesamentos sociais. Sondagens diárias, semanais, quase horárias, usadas não para informar, mas para criar climas de inevitabilidade, de vitória esmagadora, de consenso moral.

    A projecção da Intercampus acertou no intervalo por uma ‘unha negra’ mas graças a um intervalo ‘generoso’.

    A isso somou-se um fenómeno ainda mais corrosivo: o condicionamento social explícito. Quem não votava em Seguro era tratado, em muitos espaços mediáticos, como um problema a corrigir.

    Houve censura, crítica moral, desqualificação pública e uma pressão simbólica constante para alinhar com o “lado certo da História”. Isto não é neutro. Isto afecta respostas em sondagens. Isto produz o chamado efeito de desejabilidade social, em que o inquirido responde aquilo que sente ser socialmente aceitável — não aquilo que efectivamente vota.

    O resultado foi um eleitorado de Ventura sistematicamente sub-medido. Não porque não existisse, mas porque foi empurrado para a invisibilidade estatística. Quando esse mesmo viés atravessa todo o ecossistema — das sondagens pré-eleitorais às projecções à boca das urnas — o problema deixa de ser técnico e passa a ser estrutural.

    André ventura. Foto: D.R.

    Do ponto de vista da ciência estatística, aquilo a que assistimos é grave. Porque a estatística vive de uma coisa simples: confiança pública.

    Quando os números falham repetidamente, quando os intervalos de confiança são usados como ferramentas narrativas e não como limites prudentes, quando o topo do intervalo é apresentado como destino provável e não como hipótese extrema, o resultado é inevitável: a estatística passa a ser percebida como adivinhação. Ou pior, como manipulação.

    Isto é profundamente lamentável. Não porque as sondagens tenham de acertar sempre — não têm. Mas porque não podem errar sempre do mesmo lado sem consequências. Cada erro deste tipo fragiliza a credibilidade das medições futuras, alimenta o cinismo dos eleitores e contribui para a degradação do debate democrático. Uma democracia saudável precisa de informação rigorosa, não de climas fabricados. Precisa de números que iluminem a realidade, não que a distorçam.

    António José Seguro venceu com clareza. Não precisava de sondagens inflacionadas para o legitimar. Quem precisava delas era o próprio sistema mediático, preso à lógica do espectáculo, da inevitabilidade e da pedagogia moral disfarçada de ciência.

    Se a estatística continuar a ser usada de forma alegre, irresponsável e acrítica, o dano será duradouro. Não para um candidato ou outro, mas para a própria ideia de que os números servem para compreender o país — e não para o conduzir pela mão. E isso, sim, é um mau serviço à democracia.

    N.D. 10/2/2026 – Originalmente, o editorial referia que “a Intercampus — responsável pela projecção para a CMTV, Now e Jornal de Negóciosapontava para 69,3% a 71,8% para Seguro, o que implica um ponto médio de 70,6%, traduzindo um erro de +4,2 pontos percentuais face ao resultado real”. Ora, esta referência tinha sido retirada de uma notícia do Público [ver aqui], mas que se revelou falsa. Na verdade, o intervalo da projecção da Intercampus para António José Seguro estava compreendida entre 66,8% e 71,8%, conforme se pode observar aqui, o que considerando o resultado provisório de 66,82% deve concluir-se que acertou, mesmo se por uma ‘unha negra’ do limite inferior do intervalo. Embora por um erro involuntário, e decorrente da informação do Público, um pedido de desculpas à Intercampus e aos órgãos de comunicação social da Medialivre.

    Projecção da Intercampus para a CMTV, Now e Jornal de Negócios