Categoria: Opinião

  • A inteligência de Montenegro é insuficiente para entender sátira ou estamos num teste de autoritarismo?

    A inteligência de Montenegro é insuficiente para entender sátira ou estamos num teste de autoritarismo?


    A reacção institucional de Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, à circulação de uma peça satírica nas redes sociais – em que se simula uma apócrifa mensagem do primeiro-ministro português, em inglês, supostamente revelada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – deveria dar vontade para rir, pelo ridículo, mas mostra-se muito grave pela imaturidade política, com claros tiques autoritários, incompatível com um sistema democrático saudável.

    O texto em causa, divulgado por volksvargas – um utilizador anónimo que faz textos satíricos geralmente contra políticos de direita –, não exige descodificação sofisticada nem leitura contextual profunda: denuncia-se a si próprio, desde a primeira linha, pela linguagem que adopta, pelo exagero deliberado e pelo uso consciente de fórmulas que pertencem, sem margem para dúvida razoável, ao campo da sátira política.

    Vejamos o texto que Montenegro considera “desinformação” grave susceptível de ser crime. Logo na abertura, o texto atribuído a Luís Montenegro dirige-se ao presidente norte-americano como “Your excellency, supreme leader and great architect of our modern times” (“Vossa Excelência, líder supremo e grande arquitecto dos nossos tempos”).

    Luís Montenegro a jogar com a democracia.

    Esta expressão não é um deslize estilístico nem um excesso ocasional: “supreme leader” (“líder supremo”) pertence ao léxico da paródia autoritária, associado a cultos de personalidade e regimes totalitários. Alguém com o mínimo de inteligência compreende que o seu uso num contexto supostamente diplomático é intencionalmente grotesco. A sátira não está escondida; está exposta.

    A hipérbole prossegue quando o narrador afirma escrever “still energized by the sheer magnitude of your recent achievements” (“ainda energizado pela pura magnitude dos vossos recentes feitos”). A expressão “sheer magnitude” (“pura magnitude”) não acrescenta informação; acrescenta caricatura. Trata-se de uma inflação retórica deliberada, típica da bajulação vazia, que imita e distorce um certo estilo político reconhecível. A sátira opera aqui por excesso semântico.

    Mais adiante, o texto introduz um deslocamento conceptual que elimina qualquer leitura literal possível: as tarifas norte-americanas – usadas agora por Trump como “mísseis” políticos – são descritas como “a demand for excellence and loyalty” (“uma exigência de excelência e lealdade”). A transformação de políticas comerciais em testes de lealdade pessoal é absurda por definição. Não se trata de um erro factual; trata-se de ironia. A sátira denuncia, por exagero, a personalização extrema do poder e a confusão entre Estado, líder e ego.

    Publicação satírica considerada desinformação por Luís Montenegro e susceptível de apresentação de “queixa nas instâncias adequadas”.

    O ponto de ruptura definitivo surge quando o texto afirma: “we are willing to discuss a vision that would secure American sovereign access to our Azores islands” (“estamos dispostos a discutir uma visão que assegure acesso soberano americano às nossas ilhas dos Açores”). Aqui, a sátira assenta na impossibilidade constitucional absoluta. Não é uma proposta implausível — é uma proposta impossível. A violação explícita da soberania territorial funciona como mecanismo clássico de caricatura: levar uma lógica até ao seu extremo inaceitável para expor o seu absurdo.

    O encerramento — “let Portugal be the exception” (“que Portugal seja a excepção”) — cristaliza o gesto satírico: a fantasia da submissão voluntária apresentada como virtude estratégica. É uma ironia directa sobre a tentação de alinhamento servil, não uma mensagem política disfarçada.

    Perante este quadro linguístico, vermos Luís Montenegro classificar o texto como “desinformação” não é um equívoco inocente – é uma distorção conceptual. A desinformação visa enganar, induzir erro, produzir efeitos reais a partir de falsidades apresentadas como verdade. A sátira visa expor, ridicularizar e criticar através do exagero manifesto. Confundir ambas não protege o espaço público; empobrece-o. E empobrece o conceito que se tem sobre a inteligência de Luís Montenegro. E mais: envergonha pensar que o primeiro-ministro nos acha capazes de pensar que este texto satírico pretendia fazer passar-se por uma carta verdadeira.

    Comunicado do Gabinete do Primeiro-Ministro.

    E é neste ponto que a reacção de Luís Montenegro se torna politicamente reveladora. Um riso ou, vá lá, um desmentido claro e seco teria sido suficiente. Ora, mas não foi isso que sucedeu. A opção por um comunicado solene e pela possível apresentação de uma queixa-crime introduz um elemento novo e inquietante: a judicialização do humor político sob o rótulo elástico da desinformação.

    Mesmo que a queixa não tenha seguimento judicial, o efeito simbólico está produzido. A mensagem implícita é simples: a sátira dirigida ao poder pode ter custos. Trata-se de um efeito de intimidação difusa, agravado pela assimetria de poder entre um cidadão — ou utilizador anónimo — e o aparelho do Estado. Não é necessário condenar para condicionar; basta sinalizar.

    Mais grave ainda é o precedente que Luís Montenegro ensaia – e ensina. Hoje é uma paródia óbvia, fácil de defender. Amanhã poderá ser uma investigação incómoda, uma leitura crítica ou uma ironia menos explícita, igualmente rotulada como “desinformação” por contrariar a narrativa oficial. O mecanismo é o mesmo; apenas muda o grau de desconforto que provoca ao poder.

    Two happy men in a loving, joyful moment, sharing laughter on a sunny day.

    Existe, em todo o caso, uma ironia política incontornável. Um poder confiante distingue caricatura de mentira e segue em frente. Um poder inseguro amplifica o ridículo, legitima-o e transforma uma anedota digital num caso institucional. Ao reagir como reagiu, o primeiro-ministro não protegeu a sua autoridade; expôs a sua fragilidade.

    Combater a desinformação é uma necessidade real numa democracia saturada de ruído e manipulação – mas esse combate exige critério, proporcionalidade e inteligência política. Quando o Estado começa a reagir a expressões como “supreme leader” como se fossem informação factual, o problema já não está na sátira. Está na incapacidade do poder para lidar com o humor e a sátira sem recorrer ao excesso. Ou à normalidade usada geralmente por ditaduras com poderes totalitários. Será esse passo que Montenegro quer tomar?

  • Porque votas tu no Chega?

    Porque votas tu no Chega?


    Em conversa com o Pedro (Almeida Vieira), no fim de mais uma gravação do “Estrago da Nação“, ouvi-o dizer aquilo que, segundo ele, seria o erro crasso e repetido da Esquerda nos anos mais recentes: em vez de hostilizar o Ventura e tentar desmascarar o seu discurso, deveriam, isso sim, tentar perceber porque é que os eleitores votam nele.

    Reconheço alguma racionalidade nesta abordagem. Convenhamos, já todos dedicamos semanas e semanas de debate a desconstruir as mentiras de André Ventura e todo o populismo que forma o programa do Chega. Se considerarmos que a agenda do ódio pode ser um programa, claro.

    O que é que verdadeiramente a esquerda, e todo o campo democrático, ganharam com esse debate? Nada. Rigorosamente nada. Vivemos em Portugal o famoso “momento Trump na 5.ª Avenida”. Ventura pode dizer tudo e o seu contrário: mentir, inventar, perseguir minorias, criar narrativas, usar números falsos, ignorar factos e estatísticas. Tudo isto já aconteceu, repetidas vezes, e os eleitores não o abandonaram.

    Já li e formulei teorias. No fundo, quem não vota no Chega terá a sua própria versão, mais ou menos redutora, do perfil de pessoa que escolhe votar no partido de um homem assente em mentiras sem fim. É um fenómeno, eu diria. E para quem leu o livro do Miguel Carvalho e percebe quem são, afinal, aquelas pessoas, o fenómeno assume formas de mistério.

    Assim sobra-me a pergunta, honesta e interessada: “porque votas, então, tu no Chega?” Consegues explicar, de forma lógica, o que te leva a acreditar no André Ventura e votar em qualquer Rita Matias que te apareça pela frente?

    Fui perguntar a amigos, conhecidos e familiares. Pessoas que trabalham na Função Pública, no sector privado e por conta própria. Adultos com formação universitária, ensino secundário ou educação básica. Entre os 30 e os 70 anos de idade. Não será uma amostra enorme, mas é, pelo menos, variada.

    Um argumento comum era a “luta contra os ciganos” e os apoios que estes recebiam. Perguntei a todos se sabiam qual era o valor do RSI e qual era o seu peso nas prestações sociais. Ninguém sabia, mas não gostavam, propriamente, de ciganos.

    “O único que tenta controlar a imigração de indianos” também foi um dos argumentos mais usados. Neste caso, o problema não era tanto os apoios, mas sim baixarem o valor dos salários. Perguntei se alguém teria interesse em entregar comida de bicicleta, conduzir táxis, apanhar fruta ou levantar paredes. Aparentemente, ninguém tinha grande vontade.

    Tentei debater o facto de uma destas pessoas ser empresário e usar imigrantes com baixos salários, ao que ele respondeu que as margens eram pequenas e, portanto, ou trabalhavam os romenos ou nada feito. Mas, ainda assim, votava no Ventura.

    Também ouvi que “só ele é que quer acabar com a mama dos políticos” e perguntei a cada uma destas pessoas se conheciam os salários e dívidas dos deputados do Chega antes de terem chegado às regalias parlamentares. Aparentemente, ninguém tinha lido o livro do Miguel Carvalho. Um disse-me que seguia um professor no YouTube que explicava tudo muito bem e era fácil de seguir. Referia-se ao João Tilly.

    Um dos entrevistados queixava-se das reformas de miséria, embora, ao longo da sua vida contributiva, tenha fugido sempre que possível aos impostos. Outro disse-me que era insuportável ir a Lisboa e ver aqueles gajos todos nos tuk-tuks.

    white and black letter b

    A dado ponto, perguntei, simplesmente, o que esperavam do Chega para melhorar as suas vidas. Reformas mais altas, mesmo para quem não descontou, e menos “monhés” nas ruas, eram os problemas que vinham, assim de repente, à cabeça.

    Ninguém mostrou qualquer problema com os tiques autoritários ou os elogios a Trump. Não haveria, segundo alguns deles, a mínima hipótese de Ventura fazer em Portugal o que Trump está a fazer nos Estados Unidos. “E mesmo que fizesse, qual era o problema de mandar os drogados de volta para a terra deles?”, acrescentou um que via o noticiário todos os dias na CMTV.

    Nenhuma destas pessoas lia jornais em papel ou artigos de opinião. No caso dos meus familiares, nunca tinham lido sequer qualquer texto meu sobre a extrema-direita. Recebem, todos, a maior parte da informação pelas redes sociais ou pelo jornal das 8 (CMTV, NOW, CNN, SIC e TVI).

    No fim das conversas, quase todos se renderam à evidência de que votam no Ventura porque estão fartos dos outros. Não ficam com a certeza de que o seja melhor, não sabem se mente ou não porque não assistem a debates ou análises, mas concordam com muito do que ele vai afirmando. Acham que devem, pelo menos, dar-lhe a hipótese de fazer qualquer coisa diferente do que foi feito nos últimos 50 anos.

    É uma lógica ligeiramente débil e até perigosa, na minha opinião, mas são opiniões reais e votos que entram na urna. Estarão sós? Serão bons perfis de eleitores do Chega para quem a verdade é um acessório? Esclarece-me. Porque votas tu no Chega?

    Tiago Franco é engenheiro e CEO da techLisbon

  • As eleições presidenciais: o rescaldo

    As eleições presidenciais: o rescaldo


    (oiça no Spotify e no Youtube)

    As eleições presidenciais deste domingo foram o mote para o regresso d’O ESTRAGO DA NAÇÃO, com a moderação de Pedro Almeida Vieira, e participação de Tiago Franco, Luís Gomes e Frederico Duarte Carvalho.

    A conversa centra-se no balanço do processo eleitoral, identificando virtudes e fragilidades da campanha, da cobertura mediática e do comportamento do eleitorado.

    Partindo do resultado da primeira volta, que apurou António José Seguro e André Ventura para a segunda volta, analisam-se as leituras políticas do voto, a fragmentação do campo democrático, o desgaste do centro e a consolidação de discursos de ruptura. Discutem-se também as implicações institucionais deste cenário e os efeitos que poderá ter na governação e no equilíbrio do sistema político.

  • ContraProva ou o rigor como contrapoder

    ContraProva ou o rigor como contrapoder


    ContraProva nasce hoje por uma razão simples e, ao mesmo tempo, exigente: o jornalismo que observa o quotidiano tem obrigação de analisar criticamente os media sem posições corporativistas, assumindo um espaço próprio, autónmo, rigoroso e sistemático.

    Por isso, o ContraProva não é um apêndice, não é um suplemento ocasional, mas um projecto editorial com método, critérios públicos e responsabilidade assumida. O ContraProva foi concebido como um jornal que analisa a imprensa – e não a espuma das redes sociais –, que verifica antes de comentar e que desmonta narrativas quando estas se afastam dos factos, dos números ou da honestidade intelectual. O ContraProva assume que a (re)credibilização do jornalismo como coluna fundamental das democracias passa por exigir mais do jornalismo.

    Vivemos num ecossistema mediático saturado de opinião instantânea, leituras apressadas e consensos fabricados – e também em encontrar nas ‘desvairadas’ redes sociais e na desinformação todos os males do mundo, talvez esquecendo que são externalidades das democracias, e que a simples ‘solução’ de aplicar censura nos aproxima mais das ditaduras do que de democracias maduras. As opiniões ‘desvairadas’ das redes sociais e a desinformação medram porque a imprensa tem falhado em muitas perspectivas.

    Assim, o ContraProva surge precisamente para introduzir fricção onde ela faz falta: na forma como a informação é construída, apresentada e consumida. Aqui não se avaliam intenções nem se disputam alinhamentos ideológicos; analisam-se práticas jornalísticas concretas, escolhas editoriais objectivas e o impacto que estas têm na percepção pública da realidade. O ContraProva não disputa audiências, disputa rigor.

    O funcionamento do ContraProva assentará, nesta fase, numa arquitectura editorial clara, organizada em secções com identidade própria e critérios públicos. O Crivo da Verdade constitui o núcleo central do projecto, dedicado à verificação rigorosa de notícias, dados e afirmações mediáticas, com base em grelhas objectivas e metodologia explícita. O Microscópio analisa linguagem, enquadramentos, títulos, escolhas visuais e subtis mecanismos de condicionamento da percepção do leitor.

    Apanhado na Rede observa as abordagens no espaço mediático. A Acta Diurna regista factos relevantes do dia mediático, criando memória e contexto. O Arquivo Vivo preserva e relaciona episódios passados, revelando padrões, reincidências e contradições ao longo do tempo.

    Aliança das Carteiras escrutina relações económicas, interesses financeiros e dependências estruturais no ecossistema dos media. As Alterações Mediáticas acompanham mudanças editoriais, estratégicas ou societárias no sector. Os Economistas do Diabo dissecam os erros persistentes do jornalismo sempre que se trata de conceitos e dados económicos e financeiros.

    Por fim, o Laus Proba distingue trabalhos que demonstram rigor informativo, clareza factual e honestidade intelectual, sem implicar adesão editorial às conclusões apresentadas. Todas as secções partilham um princípio comum: método explícito, critérios públicos e responsabilidade perante o leitor.

    Uma nota relevante: o ContraProva é um projecto jornalístico irmão do PÁGINA UM – não há forma, nem se quer esconder. Mas não é mais um PÁGINA UM – não será jamais o Página Dois. São projectos jornalísticos complementares e deliberadamente distintos. O PÁGINA UM continuará a ser um jornal de investigação, sustentado exclusivamente pelo apoio individual dos seus leitores — e mais frágil por isso —, focado na produção de informação original com documentos e dados próprios.

    ContraProva actuará num plano diferente: observa, analisa e escrutina o ecossistema mediático. Também por isso, tanto o PÁGINA UM como o ContraProva, possuem uma estrutura societária distinta, embora por mim controlados, adequada à sua função específica. A base empresarial dos dois projectos visa não a distribuição de lucos, mas a transparência de procedimentos legais, designadamente a divulgação de contas e cumprimentos de outras regras.

    A direcção editorial do ContraProva será assegurada por Frederico Duarte Carvalho, jornalista com mais de 30 anos de experiência, percurso sólido e independência reconhecida. Compete-lhe garantir coerência editorial, rigor metodológico e distância crítica. A minha função será sobretudo a de publisher: supervisão estratégica, garantia dos princípios fundadores e salvaguarda da independência editorial.

    Só depois de definidos estes princípios importa esclarecer o modelo de financiamento — não por ser central ao projecto, mas precisamente para que não paire qualquer ambiguidade. Desde a origem, o ContraProva foi pensado com uma separação clara entre financiamento, direcção editorial e método jornalístico. O apoio concedido por Miguel Milhão, a título estritamente individual, é integralmente público, transparente nos montantes, garantindo um pequeno orçamento mensal durante 24 meses.

    Tudo foi formalizado num acordo parassocial disponibilizado de forma voluntária em nome da transparência — e isso é único no espaço mediático nacional —, que consagra de forma explícita a blindagem editorial do ContraProva. Não há participações cruzadas, não há interferência na linha editorial, não há temas proibidos nem conclusões pré-determinadas. O financiamento é declarado; a independência, contratual e editorialmente, está assegurada.

    Este modelo é também, deliberadamente, um modelo de cidadania. Num tempo de radicalização do discurso público e de trincheiras ideológicas, a existência de uma ‘ponte cívica’ entre pessoas com posições diferentes — por vezes profundamente opostas — não deve ser vista como suspeita, mas como um sinal de maturidade democrática.

    A cooperação entre Miguel Milhão e eu demonstra ser possível comungar objectivos — uma melhoria na imprensa — sem exigir alinhamentos e sem diluir divergências, desde que seja para salvaguardar princípios fundamentais como a liberdade de expressão, o primado dos factos e a honestidade intelectual. Num espaço público cada vez mais fragmentado, este projecto afirma assim algo muito simples: o diálogo é possível quando existem regras claras e limites bem definidos.

    ContraProva nasce, portanto, com uma convicção clara: o jornalismo não se defende com slogans nem com fidelidades automáticasDefende-se com método, transparência e responsabilidade. E só fará sentido enquanto cumprir esse desígnio.

    Pedro Almeida Vieira

  • O revisionismo no jornalismo lusitano: o caso da Visão, ou como o Estado agradecerá os donativos

    O revisionismo no jornalismo lusitano: o caso da Visão, ou como o Estado agradecerá os donativos


    No jornalismo não basta invocar palavras nobres — “independência”, “qualidade”, “liberdade” — para que estas recuperem automaticamente o sentido que perderam. Há marcas que se gastam. Há títulos que se tornam resíduos simbólicos. E há redacções que, por acção ou por omissão, atravessam processos históricos decisivos sem jamais prestarem contas do papel que desempenharam. A revista Visão é hoje um desses casos.

    A campanha de angariação de fundos lançada por um grupo de jornalistas da Visão, apresentada como um gesto de resistência cívica e defesa do jornalismo independente, assenta numa premissa falsa e num exercício de amnésia selectiva: a ideia de que a Visão é, ou foi recentemente, um bastião de jornalismo livre, crítico do poder e imune a agendas. Não foi. E não é.

    Na verdade, aquilo que está em curso não é apenas uma recolha de fundos para adquirir um título em leilão da massa insolvente da Trust in News: é um processo de reescrita da história recente. Pretende-se separar artificialmente a marca Visão do jornalismo que efectivamente produziu nos últimos anos, como se a responsabilidade editorial pudesse ser depositada num vácuo metafísico chamado “gestão” ou “contexto”. Não pode.

    A Visão foi o epicentro de uma operação financeira em 2018, nunca devidamente explicada, de alienação do portefólio de revistas da Impresa — que implicou a assumpção de perdas por imparidade de 23,2 milhões de euros por parte do grupo da família Balsemão — para uma empresa com 10 mil euros de capital social, dirigida por Luís Delgado.

    A venda foi anunciada por 10,2 milhões de euros, mas nunca foi cumprido qualquer plano de pagamentos. Tudo evidencia que se tratou de um negócio de fachada para transferir um ‘buraco financeiro’ da Impresa e lesar, mais tarde ou mais cedo, os contribuintes. Só num país de compadrio e sem regulação séria se pode admitir uma transacção desta natureza, ainda mais envolvendo tantos periódicos.

    Visão: um jornalismo que viveu ladeado pelo poder e que agora quer sobreviver através de um revisionismo. Foto: DR.

    Desde cedo, a Trust in News, com a Visão à cabeça, acumulou incumprimentos fiscais e contributivos, opacidade contabilística e um passivo crescente. Um passivo que hoje recai, sobretudo, sobre o Estado — Segurança Social e Autoridade Tributária —, o principal credor da Trust in News, com estatuto prioritário. Tudo isto enquanto a Visão via as vendas descambarem: no terceiro trimestre de 2017 ainda estava acima dos 60 mil exemplares por edição; no final de 2023, último ano com dados auditados, não chegava aos 24 mil. Nos últimos tempos, consta que vende menos de 10 mil.

    É aqui que o discurso moral da campanha dos “12 resistentes” jornalistas da Visão, agregados num grupo auto-denominado “Movimento Imprensa Livre” (MIL), colapsa por completo. O dinheiro que está a ser angariado junto dos leitores para “salvar a Visão” não servirá, na prática, para fazer jornalismo. Servirá, isso sim, para compensar muito parcialmente o Estado pelo buraco deixado por Luís Delgado. E, ainda assim, será uma gota de água num passivo milionário (mais de 30 milhões de euros), é certo, mas suficiente para permitir que a marca continue a circular como se nada tivesse acontecido.

    Portanto, a angariação de fundos que já mobilizou quase cinco mil doadores não visa qualquer investimento editorial; trata-se de uma operação de saneamento simbólico de uma insolvência privada à custa da boa-fé dos leitores. Basicamente, o Estado agradece esse “donativo”.

    Mais: se os jornalistas promotores desta campanha quisessem, de facto, usar os mais de 200 mil euros já angariados para fazer jornalismo “limpo”, independente e sem heranças tóxicas, não precisariam de tentar comprar uma marca já registada e penhorada. Bastava-lhes registar uma nova marca no INPI — um procedimento que custa cerca de 160 euros —, criar uma nova newsmagazine e investir os mais de 200 mil euros de dinheiro já angariado nas primeiras fases da estrutura da redacção.

    Aliás, nomes disponíveis de jornais mortos ao longo de décadas e décadas não faltam. O próprio PÁGINA UM (re)nasceu assim em 2021, registando-se uma marca que já fora utilizada pelo menos duas vezes: primeiro como programa da Rádio Renascença (que chegou a ser suspenso em 1972 pelo Estado Novo) e depois como jornal de extrema-esquerda, criado em 1976 por Carlos Antunes e Isabel do Carmo. Usar um título “penhorado” com o dinheiro de donativos seria, para mim, uma insanidade. Ainda mais se tivesse de pagar 200 mil euros, que representam o orçamento dos primeiros três anos do PÁGINA UM.

    Os jornalistas “resistentes da Visão”, através do MIL, optam assim por tentar gastar 200 mil euros numa marca — Visão —, através de uma operação que nem sequer tem garantias de ser bem-sucedida, por estar em causa um leilão. Preferem comprar uma marca, entregando dinheiro que vai para o Estado, a começar um projecto renovado.

    Luís Delgado e Francisco Pedro Balsemão, presidente-executivo da Impresa, na assinatura do acordo de venda do portefolio tóxico de publicações da Impresa Publishing, que foi celebrado em Janeiro de 2018, aliviando a crise financeira em que se encontrava o grupo dono do Expresso e da SIC. O Novo Banco financiou a operação e também comprou no mesmo ano o edifício-sede à Impresa. / Foto: D.R.

    E é aqui que entro em conflito, porque mais grave do que a degradação financeira da Trust in News foi a degradação editorial da Visão. Aparentemente, os jornalistas do MIL insistem em colocar a Visão como o último dos moicanos do jornalismo pátrio — e isto é já profundamente ofensivo. Durante anos, esta revista tornou-se um exemplo acabado de jornalismo situacionista, particularmente durante o Governo socialista e a pandemia, adoptando uma postura de alinhamento quase militante com o poder político, com as autoridades sanitárias e com a narrativa oficial dominante. Quem questionava, quem investigava, quem pedia documentos, quem exigia contraditório verdadeiro, era tratado como herege, conspiracionista ou irresponsável.

    Sob a direcção de Mafalda Anjos, a Visão não apenas falhou no escrutínio do poder: perseguiu activamente quem ousou fazê-lo fora da cartilha autorizada. E esta jornalista, que saiu do barco quando este estava a naufragar — e tinha especiais responsabilidades porque, como publisher das revistas e directora da Visão durante anos, tinha o direito e a obrigação de conhecer as contas —, chegou mesmo a reputar como “fantasiosas” as investigações do PÁGINA UM que revelaram, em Julho de 2023, o descalabro financeiro da Trust in News. Desqualificou jornalismo sério, enquanto protegia uma estrutura empresarial insustentável, beneficiária de complacência institucional, silêncio regulatório e indulgência política.

    E afinal, os jornalistas da Visão, incluindo muitos do MIL, nem sequer se aperceberam que a marca já estava penhorada pelo Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social desde o ano 2020. Convenhamos que jornalistas que nem sequer sabem bem o que se passa na sua loja não podem dar uma boa visão do que se passa na sua rua quanto mais no mundo.

    Foto: PÁGINA UM

    É esta mesma Visão que agora se apresenta como símbolo de “jornalismo independente”? É esta marca que se quer salvar, como se fosse um património moral da democracia portuguesa?

    Não. Aquilo que está em causa não é salvar jornalismo. É salvar uma marca tóxica, profundamente associada a um período de mau jornalismo, de promiscuidade com o poder, de falência ética e de colapso financeiro que já custou mais de 15 milhões de euros aos contribuintes portugueses. E fazê-lo sem uma única palavra de mea culpa, sem um único balanço crítico, sem uma linha de autocrítica.

    Os jornalistas que hoje angariam mais de 200 mil euros — com uma eficácia notável, diga-se, por via da solidariedade mediática da imprensa tradicional, que de forma corporativista não parou de lançar loas ao MIL — até demonstram que existe capital humano, capacidade de mobilização e apoio público. O PÁGINA UM, de uma forma mais modesta, tem mostrado essa evidência: é um jornal em acesso livre, sem publicidade nem parcerias comerciais, mas que consegue sobreviver e crescer apenas com donativos dos leitores.

    Rui Tavares Guedes, director da Visão, em campanha de angariação de fundos do MIL. O jornalista foi director adjunto da Visão entre Janeiro de 2007 e Setembro de 2016, depois director executivo entre Outubro de 2016 e Dezembro de 2023, e director desde Janeiro de 2024. Atravessou todo o período de descalabro financeiro da Visão, desde os tempos da Impresa, e sobretudo na gerência da Trust in News, sem ver nada,,, talvez porque fechou os olhos.

    Mas é precisamente por isso que a opção tomada pelo MIL é ainda mais grave. Com esse apoio, com essa legitimidade, poderiam criar de raiz uma nova newsmagazine, liberta do peso simbólico da Visão, sem heranças tóxicas, sem pactos implícitos, sem necessidade de limpar o passado.

    Não o fizeram. Preferem gastar dinheiro de donativos (mais de 200 mil euros) e comprar a marca. Apropriar-se da memória selectiva. Fingir que a história começa agora, aproveitando, em todo o caso, um valor de marca. Nesse aspecto, demonstram sobretudo preguiça e falta de coragem.

    Em suma, este editorial não questiona o direito de nenhum jornalista a lutar pelo seu trabalho. Questiona, isso sim, a honestidade intelectual de um discurso que pretende fazer crer que a Visão “não existe sem os seus jornalistas”, quando foram precisamente decisões editoriais tomadas por jornalistas — não por administradores invisíveis — que contribuíram para a perda de credibilidade do título.

    A bustling urban street filled with people walking in the sunlight.

    Acredito que há marcas que não merecem ser salvas. Há nomes que precisam de morrer para que algo melhor possa nascer. Enterrar a Visão enquanto marca seria um acto de higiene democrática, não um atentado ao jornalismo. O jornalismo não vive de títulos históricos nem de nostalgia de bancas. O jornalismo não é fetichismo de logótipos nem nostalgia de bancas — é feito de prática, de ética, de método, de coragem e de ruptura.

    Por isso, se surgisse um mecenas que, em leilão, batesse a proposta do MIL e adquirisse a marca Visão apenas para impedir o seu uso futuro, estaria a prestar um serviço à higiene do espaço mediático português. Talvez então os jornalistas do MIL ganhassem, finalmente, visão. E talvez o dinheiro agora angariado pudesse ser usado para aquilo que realmente importa: em vez de entregar dinheiro ao Estado para tapar um ‘buraco privado’, criar uma newsmagazine nova, exigente, sem culpas herdadas, sem revisionismos, sem necessidade de fingir que nada aconteceu.

  • 8 Unidades de Conta: Os casos (também) julgam os tribunais

    8 Unidades de Conta: Os casos (também) julgam os tribunais


    Disse-me um antigo juiz desembargador, não há muito tempo, uma frase que ficou a ecoar: um tribunal julga um caso, mas um caso também julga um tribunal. Não a disse com cinismo, mas com a gravidade de quem sabe que a Justiça, além de decidir, se expõe; além de aplicar a lei, se dá a ver; além de condenar ou absolver, se revela.

    Essa frase aplica-se, inteiramente, ao julgamento que decorre no Tribunal da Comarca do Porto (também conhecido por Tribunal do Bolhão), onde estou a ser julgado por 31 crimes de difamação – ou seja, por alegado abuso da liberdade de expressão num país democrático (não numa ditadura) – contra Gustavo Carona, um médico que, durante a pandemia, encontrou nos media uma ribalta permanente, sustentada na retórica do medo e da urgência, no alarme contínuo que dividiu cidadãos entre bons e maus, entre responsáveis e irresponsáveis.

    ‘Banco dos réus’ onde me tenho sentado no julgamento no Tribunal do Bolhão.

    Entre as imputações que me são feitas contam-se algumas que dispensariam comentário ou então comentários jocosos – não fosse o facto de serem hoje objecto de acusação criminal: no contexto da pandemia da covid-19, eu critiquei-lhe um mau poema; recorri a alcunhas — Full HD e Braveheart de Leixões — ambas por antonomásia irónica, no registo satírico que a liberdade de expressão protege há séculos; afirmei que o visado não possuía especialidade de Medicina Intensiva —algo que, a 5 de Dezembro de 2025, se mantinha factual, tanto assim que o próprio bastonário o confirmou por oficio — e, por fim, apontei-lhe contradições, omissões e mentiras reiteradas ao longo da pandemia, no exercício de cidadania crítica (de que uso desde os anos 1990) e que, mais tarde, mostrou a genética do PÁGINA UM.

    No início, confesso, surpreendeu-me sobretudo que em 2025 o Ministério Público português ainda subscrevesse uma acusação desta natureza, mais típica de sistemas anti-democráticos do que de uma democracia plena — sobretudo quando o arguido é um jornalista e os factos imputados se inserem no debate público, na crítica e na sátira.

    Hoje, porém, aquilo que mais me surpreende não é já a acusação em si, mas a condução das audiências e, sobretudo, a leitura que delas fez o Tribunal da Relação do Porto, quando, após uma sessão atribulada onde pareceu que valeu tudo para me ser feita um ‘julgamento de carácter’ — e não sobre a matéria factual — me decidi a apresentar um incidente de recusa da juíza deste processo para o Tribunal da Relação do Porto. O acórdão sai ontem, indeferindo o pedido e aplicando-me custas de oito Unidades de Conta (UC), que representarão uma penalidade de 816 euros (102 euros por cada UC).

    Um dos 31 crimes, subscritos pelo Ministério Público, é este: gozar com um mau poema de Gustavo Carona que voluntariamente publicou nas redes sociais.

    Não podendo por lei divulgar ainda esse acórdão por estar apenso ao julgamento em curso — mas será um dia, daí que o título deste editorial —, pode-se dizer, segundo a minha interpretação como jornalista (em causa própria, é certo), que os desembargadores passaram ao lado do essencial, refugiando em fórmulas e desvalorizando aquilo que, felizmente, ficou integralmente gravado e que um dia será conhecido para lá da retórica habitual. Sim, porque uma das grandes vantagens dos julgamentos é a sua gravação para memória futura.

    De facto, quando um tribunal superior considera normal que se peça, antes mesmo de ser iniciada qualquer audiência, uma avaliação prévia das condições de vida de um arguido de ‘folha limpa’— questionando se eu, como jornalista, até se tenho água corrente em casa, como passo os meus tempos livres ou se tenho conflitos com vizinhos —, querendo ignorar que tal diligência apenas está prevista quando há indícios de condenação; quando sanciona com oito UC o simples acto de me insurgir contra desvios processuais; quando normaliza uma condução de audiência que, a meu ver, revela uma quebra grave da aparência de imparcialidade (e quando se puderem revelar as gravações ouvir-se-á isso mesmo); então já não estamos apenas a julgar um caso. Estamos a observar um tribunal a julgar-se a si próprio.

    Depois deste acórdão do Tribunal da Relação do Porto, que em nada se debruça sobre matérias de facto (a questão a dirimir era apenas a imparcialidade da juíza), não escondo já que a minha expectativa quanto a uma absolvição em Portugal é hoje limitada. O episódio do incidente de recusa, que no nosso país é quase sempre indeferido pela Relação (temerosos de se abrirem caixas de Pandora), serviu também como ‘statement’. Digo-o sem dramatismo, mas também sem fingimento. Não se trata de antecipar sentenças nem de clamar perseguições; trata-se somente de reconhecer padrões, atitudes e leituras que, acumuladas, não permitem grande optimismo.

    Gustavo Carona

    Apesar disso, e apesar de ainda restarem audiências nas quais apresentarei testemunhas de defesa, não alimento ilusões convenientes. Poderia optar pela água morna, repetir os lugares-comuns sobre a confiança abstracta na Justiça, vestir a prudência retórica que tantos aconselham. Nunca o farei. Mantenho tudo o que disse sobre Gustavo Carona como verídico e como enquadrado na liberdade de expressão. E continuarei a dizer. E não o faço por bravata, mas por lucidez.

    Os últimos quatro anos — marcados pelo confronto do PÁGINA UM com alguns poderes instituídos e instalados, incluindo até o Conselho Superior da Magistratura (onde se consegui obrigar o seu presidente, simultaneamente presidente do Supremo Tribunal de Justiça, a dar acesso a documentos sob pena de multa — condicionam inevitavelmente a forma como encaro este julgamento.

    A minha esperança — e essa sim muito realista — desloca-se para os recursos a este julgamento no Tribunal do Bolhão e, sobretudo, para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Não por fetichismo internacionalista, mas por experiência empírica: Portugal tem sido, de forma reiterada, condenado e envergonhado pela sua postura relativamente à liberdade de expressão e à liberdade dos jornalistas.

    Um dos casos recentes, envolvendo o antigo embaixador Seixas da Costa, foi curiosamente como epicentro inicial o mesmo Tribunal do Bolhão. Mas só no ano passado, salvo erro, houve quatro ‘reversões’ de sentenças envolvendo liberdade de expressão. Olhar para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos como o sítio mais relevante não se trata de hostilizar a Justiça portuguesa: trata-se apenas de reconhecer que há sistemas que, por hábito, por medo do precedente ou por fechamento corporativo, esvaziam conceitos que deveriam ser estruturantes, como o da liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e a aparência de imparcialidade.

    Este editorial não é, por isso, um apelo à impunidade, nem um ajuste de contas pessoal — é um registo para memória futura. Um lembrete de que a Justiça não se esgota na sentença, nem se protege com multas pedagógicas. Protege-se com transparência, com coragem institucional e com respeito efectivo pelos direitos fundamentais — mesmo quando o arguido incomoda, mesmo quando escreve com ironia, mesmo quando satiriza. Porque é precisamente nesses casos que a democracia se mede.

    Este caso julgará um tribunal. E é o tempo que ditará o veredicto.

  • 2025: O ano da morte do determinismo

    2025: O ano da morte do determinismo


    Durante séculos, o determinismo exerceu um fascínio quase hipnótico sobre filósofos e cientistas. A ideia é simples, elegante e tranquilizadora: tudo o que existe — incluindo o ser humano — é o resultado necessário de cadeias causais. Nada poderia ser diferente. A liberdade seria apenas uma ilusão bem contada. Em Baruch Spinoza, esta visão atingiu a sua forma mais pura; em Yuval Noah Harari, ganhou roupagem contemporânea, algorítmica e biologizante.

    Mas 2025 ficará na história como o ano em que esta construção intelectual começou a ruir. E o motivo tem um nome claro: Inteligência Artificial.

    Paradoxalmente, foi a própria máquina — determinista por excelência — que expôs a fragilidade da filosofia determinista da mente. Pela primeira vez, dispomos de sistemas artificiais capazes de imitar linguagem, argumentação, criatividade e até empatia. Sistemas impressionantes, poderosos, estatisticamente sofisticados. E, no entanto, profundamente limitados.

    Porquê?

    Porque a comparação tornou-se inevitável. A AI mostrou-nos o que um sistema determinista pode realmente fazer — e, sobretudo, o que não pode fazer.

    A mente humana não se limita a processar informação. Ela julgainterpretaassume compromissosatribui significado. Vive e opera dentro de uma matriz cultural aberta, ambígua, normativa e essencialmente não-determinista. Os mesmos símbolos — liberdade, justiça, dignidade, ofensa, verdade — admitem múltiplas interpretações legítimas. O desacordo não é um erro de cálculo; é constitutivo da cultura.

    Aqui surge o argumento fatal, que o determinismo sempre evitou enfrentar de frente:

    Uma mente determinista nunca poderia produzir uma cultura não-determinista.

    Se os seres humanos fossem apenas mecanismos causais — cérebros-máquinas regidos por leis físicas estritas — então a cultura seria um simples output computável: fechado, previsível, semanticamente estável. Mas a cultura humana não é nada disso. É um espaço aberto de significado, onde a interpretação não está pré-fixada e onde a responsabilidade individual faz sentido.

    Os defensores do determinismo tentaram contornar esta dificuldade falando de “complexidade”, “emergência” ou “ilusões úteis”. Mas a AI desmontou essas evasivas. Os modelos de linguagem fazem exatamente isso: lidam com complexidade extrema e emergência estatística. Ainda assim, não decidem, não assumem responsabilidade, não fecham semanticamente o significado sem uma imposição externa.

    A conclusão é desconfortável, mas inevitável: o determinismo da mente não explica a cultura que ele próprio utiliza para se afirmar. Trata-se de uma filosofia autodestrutiva.

    Em 2025, a AI não matou a Humanidade. Fez algo muito mais interessante: matou o determinismo. Caso encerrado.

    Joaquim Sá Couto é médico

  • Marques Mendes, o homem que chega sempre atrasado

    Marques Mendes, o homem que chega sempre atrasado


    Marques Mendes nem para porteiro da Sonae servia porque demorava demasiado tempo a explicar como se entra nas instalações”, disse Belmiro de Azevedo, num daqueles momentos raros em que a lucidez empresarial atravessa a cortina de fumo da política e acerta em cheio no alvo. Talvez nunca se tenha dito tanto, com tão poucas palavras, sobre Luís Marques Mendes.

    Não é apenas uma piada cruel; é uma definição ontológica. Mendes não é incompetente por azar, nem ineficaz por circunstância. É estruturalmente tardio, discursivamente prolixo e politicamente inútil. Chega sempre depois – do problema, da decisão, da coragem – e quando chega, traz consigo apenas palavras gastas, prudência postiça e um ar grave que pretende passar por sabedoria.

    O próprio o admitiu, com aquela falsa humildade ensaiada que tanto aprecia: dizia que chegava atrasado a quase tudo. Garantiu, porém, que isso era coisa do passado, que se corrigira com os anos, que agora era pontual como um relógio suíço. Bastaram minutos para a realidade o desmentir em directo, quando Guilherme Geirinhas o confrontou com o atraso no próprio programa onde se gabava da reforma moral. Não é um detalhe; é um símbolo. Marques Mendes mente sem necessidade, mente por reflexo, mente para manter a pose. Não é um mentiroso engenhoso; é um mentiroso irresponsável, daqueles que acreditam que a gravidade da voz substitui a verdade do conteúdo.

    Mas o atraso crónico de Marques Mendes não é apenas físico; é sobretudo intelectual. Sempre chegou atrasado aos acontecimentos, às crises, às evidências. Quando o país caminhava alegremente para o colapso bancário, lá estava ele, na sua homilia dominical, a garantir que o Banco Espírito Santo estava sólido, seguro, confiável, digno da fé dos depositantes. “O banco está bem”, dizia. “Não há perigo nenhum para as pessoas.” “Isto dá confiança.” Poucos dias depois, o BES colapsava de forma retumbante, levando consigo poupanças, vidas e ilusões.

    Perante isto, há apenas duas hipóteses: ou Marques Mendes não tem a mínima ideia do que diz – hipótese generosa – ou sabia e mentiu com a tranquilidade de quem nunca paga pelos erros. Quando mais tarde afirmou que “as pessoas têm razão para se indignar”, completou o retrato: primeiro engana, depois solidariza-se com os burlados. É a ética do comentador profissional.

    Este padrão repetiu-se, com requintes de perversidade, durante a suposta pandemia. Não há memória recente de Marques Mendes a questionar o vírus invisível, as variantes imaginárias ou o pânico fabricado. Pelo contrário, aplaudiu com entusiasmo o esmagamento das liberdades fundamentais, elogiou a actuação do Partido Socialista, então liderado por Costa, do Capitão Iglo, e apresentou-se como catequista da obediência sanitária.

    As vacinas, dizia, “fizeram milagres”. Milagres! Uma substância experimental, concebida em poucos meses, autorizada de forma excepcional, com ensaios clínicos apressados e resultados discutíveis, elevada por Marques Mendes à categoria de intervenção divina. Quer ser Presidente da República, mas não teve um único sobressalto constitucional quando direitos foram suspensos, pessoas confinadas sem mandado judicial e pessoas segregadas por decreto administrativo. A Constituição, tal como para os demais candidatos, é decorativa: serve para ser citada em tempos normais e ignorada em tempos de medo.

    Há, contudo, um domínio onde Marques Mendes revela um génio indiscutível: os negócios. Em apenas dois anos, encaixou cerca de 709 mil euros, sem que ninguém consiga explicar exactamente a fazer o quê. Não o vimos nos tribunais, não o vimos a defender causas, não o vimos a produzir valor identificável. O que faz? Facilita. É o que agora se chama um “facilitador de negócios”, essa figura etérea que vive da agenda de contactos, do telefonema oportuno, do almoço certo no dia certo.

    Numa sociedade verdadeiramente livre, personagens destas desapareceriam por inanição. Mas num Estado obeso, regulado, licenciado e capturado, são essenciais. Marques Mendes não vive apesar do sistema; vive do sistema há décadas.

    O episódio dos líbios tratados em Portugal – desde que não viessem mortos, mas apenas “tortos” – é mais uma janela para esta ética pantanosa. Escutas, pedidos, favores, humanitarismo selectivo temperado com pragmatismo político. Nada que surpreenda. É o seu “humanismo”, praticado à distância, onde vidas humanas são abstracções logísticas e a moral se ajusta à conveniência do momento. Tudo envolto naquela gravidade solene que Marques Mendes usa como escudo contra qualquer escrutínio sério.

    Quando finalmente se aproxima do terreno das propostas, a indigência torna-se embaraçosa. A ideia de resolver o problema dos jovens colocando um “jovem” no Conselho de Estado é talvez o ponto alto da sua vacuidade intelectual. É como tentar resolver a crise da habitação convidando um sem-abrigo para um painel de debate.

    Esta gente acredita genuinamente que a representação simbólica substitui soluções reais. Nunca trabalharam fora do circuito estatal, nunca criaram riqueza em ambiente competitivo, nunca enfrentaram o risco. Sabem, isso sim, pedir mais intervenção, mais conselhos, mais comissões, mais regulações – tudo o que os torna indispensáveis e bem pagos. Sem o Estado, seriam autênticos zeros à esquerda.

    Na política externa, Marques Mendes não surpreende. Sobre a Ucrânia, repete o catecismo globalista com a disciplina de um aluno aplicado: qualquer plano de paz que não humilhe completamente o agressor “parece escrito em Moscovo”. Sem originalidade, sem reflexão estratégica, sem consideração pelos custos humanos e económicos. Assinaria qualquer medida desde que viesse carimbada pelos círculos certos e abrisse caminho a mais um jantar, mais uma conferência, mais um telefonema, mais um negócio. Venderia o país com um sorriso patriótico, convencido de que está a fazer História, quando na verdade apenas faz carreira e ajuda o seu bolso.

    É aqui que tudo se fecha. Luís Marques Mendes não é perigoso por excesso de convicção; é perigoso pela total ausência de pensamento próprio. Não cria, não arrisca, não rompe. Limita-se a comentar, a validar, a explicar – sempre tarde demais – como se entra nas instalações do poder. É a nulidade elevada a método, a vacuidade transformada em profissão.

    Quer ser Presidente da República não para defender a Constituição, mas para a citar em tom grave; não para travar abusos, mas para os normalizar; não para representar o país, mas para continuar a existir dentro do circuito fechado que sempre o alimentou prodigiosamente.

    Em conclusão, Luís Marques Mendes é uma nulidade bem vestida, um comentador que confundiu tempo de antena com estatuto, prudência com sabedoria e sobrevivência com mérito. Nunca esteve certo quando importava, nunca se calou quando devia e nunca falou quando era preciso coragem. Chega sempre depois. Quando chega, já nada resta.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

  • André Ventura, populista e socialista quando conveniente

    André Ventura, populista e socialista quando conveniente


    Chega quer internamento compulsivo em casos de infecção do Covid-19”, anunciava o Jornal de Notícias em 4 de Março de 2020, no início da (putativa) pandemia, com o entusiasmo de quem relata uma boa ideia! A proposta vinha assinada por André Ventura, o autoproclamado paladino da “liberdade”, então deputado único do Chega, esse mesmo que viria mais tarde brandir a Constituição como se fosse uma relíquia sagrada sempre que lhe convinha.

    Naquele momento inaugural, porém, a Constituição era apenas um incómodo técnico a contornar. Para salvar o país – sempre em nome do povo, essa entidade abstracta que nunca assina nada – Ventura propunha alterar o artigo 27.º da Lei Fundamental, de modo a permitir o internamento compulsivo de cidadãos, saudáveis ou não, culpados ou não, apenas por suspeita sanitária. Prisão sem crime, sem acusação, sem julgamento e sem juiz; ou seja, fascismo sanitário.

    O detalhe delicioso, é que Ventura se esqueceu de ler até ao fim. O artigo 288.º da Constituição da República estabelece os limites materiais da revisão constitucional; entre esses limites estão precisamente os direitos, liberdades e garantias, que não podem ser revistos, nem numa falsa pandemia, nem em pânico, nem para agradar a turbas histéricas.

    Ventura, professor de Direito, ignorava isto? Não. Fingiu ignorar. Porque o autoritário não precisa de razão; precisa de aplauso. Para cartão-de-visita de um candidato à Presidência da República, fica desde logo definido o perfil: um homem que, perante o medo, escolhe sempre o Estado; perante o indivíduo, escolhe sempre a força; perante a Constituição, escolhe sempre a conveniência. Começar melhor era difícil.

    Depois veio aquilo que Ventura faz melhor: escolher um inimigo identificável, palpável, suficientemente minoritário para não se defender e suficientemente visível para ser explorado. Os ciganos. Quando declarou que “só 15% dos ciganos vivem do seu trabalho”, Ventura não estava a produzir sociologia, nem estatística, nem sequer opinião estruturada.

    Estava a lançar uma suspeita colectiva, esse veneno antigo que sempre precede o arbítrio. A frase, na sua lógica implícita, é cristalina: se 15% trabalham, os restantes 85% são suspeitos, parasitas, vigaristas ou criminosos em potência. O que exactamente fazem os 85%? Vivem de subsídios? De crime? De magia? Ventura não explica. Não precisa. O método do populista é este: insinuar, deixar o ódio completar a frase.

    Esta é uma técnica velha como os regimes totalitários que Ventura diz detestar. O inimigo pode ser invisível – um vírus, um “sistema”, um russo, um especulador – ou pode ser um grupo humano inteiro, reduzido a caricatura. O indivíduo desaparece; surge a categoria. O João e o Pedro deixam de existir; passa a existir “o cigano”. Mas crimes são cometidos por pessoas concretas, com nome, rosto e responsabilidade penal. A culpa colectiva é sempre o prelúdio da tirania e da injustiça. Ventura sabe-o; escolhe ignorá-lo porque lhe rende votos. Não combate o crime; combate abstracções étnicas. É mais fácil, mais ruidoso e dá votos.

    Curiosamente, há um domínio onde Ventura toca num problema real: a imigração descontrolada. O país está de facto a ser inundado por imigrantes de terceiro mundo que não resultam de uma escolha livre do mercado, mas de engenharia política e subsídio estatal.

    Aqui, Ventura identifica correctamente o problema. Mas perde imediatamente qualquer razão quando se recusa a atacar a causa estrutural: o Estado Social. No século XIX, quem chegava aos Estados Unidos não tinha nada à espera. Nem escola gratuita, nem hospital gratuito, nem subsídio, nem tribunal gratuito. Trabalhava ou partia. Era brutal? Talvez. Mas era honesto.

    No Portugal moderno, ergueu-se um sistema obsceno: empresários ávidos exploram mão-de-obra barata importada de culturas nos antípodas da nossa, vinda do terceiro mundo, pagando salários de miséria, enquanto o Estado – com dinheiro roubado aos contribuintes líquidos – se encarrega de completar o resto, distribuindo subsídios, serviços “gratuitos” e promessas vazias. Cria-se assim um incentivo artificial à imigração em massa, não para produzir riqueza, mas para sustentar um modelo falido.

    O resultado é visível a olho nu e dispensa estatísticas: salas de aula onde vinte nacionalidades disputam atenção sem língua comum, urgências hospitalares onde a espera se medem em dezenas de horas, repartições públicas paralisadas pela sobrelotação e uma habitação tornada inacessível para quem aqui nasceu, trabalhou e pagou.

    Ventura explora o desespero legítimo de quem vive isto. Mas não oferece qualquer solução. Não propõe acabar com o Estado Social, que é o íman que atrai esta massa humana e a fonte do colapso. Pelo contrário: quer preservá-lo, reforçá-lo, blindá-lo. O seu projecto não é de direita, não é liberal, nem tão pouco conservador; é socialista. Uma fortaleza estatista onde os de dentro continuam a ser espoliados para sustentar o sistema, enquanto se grita contra os de fora.

    Como bom socialista, Ventura não resiste à tentação de comprar votos com promessas economicamente impossíveis. Quando propôs elevar o salário mínimo para 1.150 euros até 2029, não explicou de onde viria o dinheiro. Não podia. Não há poupança, não há fundo, não há capital acumulado. Há apenas pagadores líquidos de impostos, cada vez menos, espremidos até ao osso para sustentar promessas eleitorais. É exactamente o método dos dois partidos socialistas do actual regime, esses que Ventura diz combater mas imita com entusiasmo. A política transforma-se num leilão obsceno: vence quem prometer o maior saque à minoria produtiva. Ventura entrou no jogo; aparentemente, irá ganhar.

    Na prática, Ventura utiliza as mesmas armas do regime que diz detestar. Nunca fala em cortes brutais na despesa pública. Nunca fala em extinguir ministérios inúteis. Nunca fala em despedir milhares de funcionários públicos. Nunca fala em eliminar subsídios, fundações, observatórios, institutos e clientelas. Promete apenas redistribuir melhor o saque. A equação é simples e falsa: não roubar mais, mas dar mais. É a promessa clássica do charlatão político.

    Quando chega a hora da verdade, o instinto estatista revela-se sem pudor. Ventura votou contra a privatização da TAP, alinhado com o Bloco de Esquerda e demais socialistas, preferindo manter uma empresa falida, com prejuízos crónicos e salários principescos, paga pelo empregado do café e pelo pequeno empresário. O patriotismo acaba onde começa a folha salarial.

    Ventura gosta de posar como defensor dos “portugueses que trabalham”. Mas acha natural que uma companhia aérea que perde dinheiro há décadas seja sustentada por impostos. É o socialismo clássico: prejuízos socializados, lucros privados, responsabilidade inexistente. Não é erro; é convicção. Ventura não quer um Estado pequeno; quer um Estado musculado que funcione ao seu serviço.

    No plano internacional, a incoerência é ainda mais evidente. Ventura proclama fidelidade eterna à NATO, mas recusa o envio de tropas portuguesas para a Ucrânia para agradar ao público doméstico, sabendo perfeitamente que, no quadro das alianças militares, Portugal não decide sozinho. É teatro. Promete o impossível e nega o inevitável. Ao mesmo tempo, chama “bandido” a Putin, mas aplaude outros tiranos, ditadores e criminosos de guerra quando isso lhe rende aplauso interno. Condena uns, absolve outros, sempre com o mesmo critério: utilidade política. A moral é acessória; o voto é central.

    Ventura diz combater o sistema, mas vive dele. Denuncia a corrupção, mas defende o Estado que a produz. Ataca os “subsidiodependentes”, mas preserva o sistema de subsídios. Critica o socialismo, mas pratica-o com outro vocabulário. É, no fundo, o herdeiro natural do regime: mais barulhento, mais agressivo, mais histriónico, mas estruturalmente idêntico. Onde o PS fala de justiça social, Ventura fala de ordem. Onde o PSD fala de responsabilidade, Ventura fala de punição. Mas o Estado permanece intacto. O saque continua. A despesa cresce. A liberdade encolhe.

    Em conclusão, André Ventura não é uma ruptura. É uma mutação. No único tema onde tem razão – a bandalheira da imigração – recusa atacar a raiz do problema: o Estado Social, essa máquina insaciável que precisa de mais gente, mais impostos e mais dependência para sobreviver. É por isso que os dois partidos socialistas necessitam de imigração em massa: para alimentar um esquema falido. Ventura não desmonta o esquema; promete geri-lo com mais ruído. Sobre reduzir drasticamente a despesa pública, o seu silêncio é absoluto. No fundo, Ventura pratica a velha táctica populista: agradar sempre, prometer tudo, participar no saque.

    Não é o anti-sistema. É o sistema em versão gritante. Ventura não é a alternativa ao socialismo. Ventura é o socialismo que nos arruína há mais de 50 anos.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

  • António José Seguro, o sonso do regime

    António José Seguro, o sonso do regime


    “Deslealdade e traição…isto não se faz; não foste solidário com o teu partido, nem com o líder do partido.” Assim falou António José Seguro de António Costa em 2014, num daqueles momentos em que o Partido Socialista resolveu devorar-se a si próprio, como é seu hábito, antes de voltar a sentar-se à mesa do poder com o Segundo Partido Socialista, também conhecido por PSD.

    A frase ficou célebre não pelo conteúdo, mas pelo carácter involuntariamente autobiográfico. Porque poucos políticos portugueses encarnam tão bem a deslealdade mansa, a traição higienizada e a ambição sem risco como António José Seguro – o homem que nunca afronta, nunca rompe, nunca decide, mas que aparece sempre quando o cheiro do poder se torna mais intenso.

    Seguro surge agora como candidato presidencial com o ar beatífico, de quem nunca sujou as mãos porque nunca fez nada que exigisse coragem. Ele é o produto acabado de mais cinquenta anos de regime: um político moldado na espuma morna do consenso, onde ninguém é responsável por coisa alguma e todos falam em nome de valores abstractos.

    Senão vejamos: temos mais um devoto da sucessora da defunta União Soviética, a União Europeia, apresentada como espaço natural da soberania portuguesa. Seguro defende a continuação de Portugal na UE e na zona euro com o fervor de quem defende um dogma religioso. Não há reservas, não há dúvidas, não há reflexão. O euro é vital, Bruxelas é vital, o BCE é vital. Vital para quem?

    Não para a classe média, certamente, que vê salários e poupanças destruídos pela inflação do cartel bancário liderado pelo BCE, enquanto os detentores de activos enriquecem obscenamente. É o socialismo reinventado: em vez de todos pobres e miseráveis, temos uma aristocracia financeira e uma plebe assaltada por impostos e inflação.

    E porque todo o bom “europeu” precisa de bons aliados internos, Seguro não escondeu a sua alegria em convergir em tempos com os comunistas trotskistas do Bloco de Esquerda. Há “espaços de diálogo”, diz, designadamente em matérias sociais e europeias. Traduzindo: há espaço para mais Estado, mais redistribuição coerciva e mais integração supranacional.

    Quando tenta pensar o país, a indigência intelectual torna-se quase embaraçosa. Um pacto para a saúde. Um pacto. Como se o Serviço Nacional de Saúde, esse monumento soviético à ineficiência, falhasse por falta de abraços interpartidários. Um sistema sem preços, sem pagamentos voluntários, financiado por impostos arrancados coercivamente à população, há-de funcionar se os partidos e as corporações do sector fizerem as pazes e prometerem portar-se bem. É a economia tratada como um jardim-de-infância, onde o problema nunca é estrutural, mas comportamental. O menino SNS só precisa de carinho e mais dinheiro roubado aos mesmos de sempre.

    Seguro revela-se também um entusiasta da planificação económica em nome da “defesa da Europa”. Acha que a Europa não pode estar sempre a ceder, defende medidas retaliatórias, tarifas e restrições ao comércio, como se os consumidores não pagassem sempre a conta. É o socialismo proteccionista: combate-se a liberdade de troca em nome de uma soberania que já não existe. Para Seguro, a tirana Ursula von der Leyen é uma espécie de espadachim de opereta, enfrentando Trump, enquanto destrói silenciosamente a competitividade europeia. Seguro aplaude, porque planear é sempre mais nobre do que deixar as pessoas escolher livremente.

    Globalista por formação e por instinto, Seguro não caiu de pára-quedas na Europa. Foi eurodeputado, participou em relatórios sobre o Tratado de Nice e sobre o futuro da União. Viveu dentro da máquina. O projecto europeu não é para ele um debate; é um ambiente. Por isso nunca o questiona. Nunca discute a centralização de poder, nunca problematiza a erosão democrática, nunca levanta a questão da soberania. Para Seguro, a União Europeia é como o ar: respira-se, não se interroga.

    Durante a putativa pandemia, esse instinto autoritário floresceu sem constrangimentos. Seguro defendeu confinamentos, restrições, obediência cega às autoridades de saúde e suspensão prática de direitos fundamentais. Apoiou prisões domiciliárias sem mandado, acusação ou julgamento.

    Legitimou a eliminação do consentimento informado, a segregação de cidadãos com base no estado sanitário, a exclusão social dos que recusaram inocular-se com uma substância experimental. Para alguém que se diz defensor da Constituição, revelou-se mais um para quem a Lei Fundamental é papel decorativo em tempos de medo. “Direitos, liberdades e garantias” são para tempos normais; em emergência, manda o Estado.

    A agenda verde encaixa-se perfeitamente neste perfil. Seguro nunca a criticou, nunca falou dos custos económicos, nunca se preocupou com a destruição da indústria europeia provocada pelo encarecimento da energia. Pelo contrário, promove reuniões com especialistas do clima, fala de gerações futuras e abraça a transição energética como se fosse um imperativo moral absoluto. Que a classe média seja esmagada, que empregos desapareçam, que a indústria se desloque – tudo isso é secundário face à virtude abstracta. Ambientalismo de Estado, sem cálculo económico, sem debate democrático, sem legitimidade popular.

    Os apoios que recolhe são elucidativos. Pedro Nuno Santos, o homem que ajudou a enterrar 3,2 mil milhões de euros na bancarroteira nacional, mais conhecida por TAP, surge a apoiá-lo com entusiasmo. O regime reconhece os seus. O cheiro do poder atrai sempre os mesmos, sobretudo aqueles que já demonstraram talento para gastar o dinheiro que roubam aos outros com total impunidade.

    Já em relação aos apoios que dá, como todo o homem do regime reconhece instintivamente os seus, António José Seguro não hesitou em sair em defesa de José Sócrates, o célebre engenheiro dos computadores Magalhães, num vídeo que voltou a circular oportunamente antes de eleições e que o verificador de factos apressou-se a contextualizar como sendo “de outros tempos”, como se a desonra tivesse prazo de validade.

    Seguro falou então de injustiça, de presunção de inocência e de perseguição, esquecendo-se apenas de mencionar, pela mão da mãe do engenheiro, a herança milagrosa de um milhão de contos guardado num cofre, os amigos oportunos, os testas-de-ferro distraídos e o pequeno detalhe de o protegido andar há semanas sem advogado, sinal inequívoco de quem confia serenamente na própria inocência.

    O gesto não surpreende: Seguro sempre teve este instinto maternal para com figuras caídas do regime, desde que caiam dentro do mesmo círculo. Não é solidariedade humana; é solidariedade de casta. Quando o Estado falha, quando a justiça hesita e quando a vergonha devia impor silêncio, Seguro surge – grave, compungido e institucional – para lembrar que, no socialismo português, ninguém é realmente culpado enquanto tiver utilidade política ou cartão partidário.

    No plano internacional, Seguro não falha: a NATO é essencial, repete. Os bombardeamentos de Belgrado em 1999, sem mandato da ONU, não lhe causam incómodo. A guerra na Ucrânia exige sacrifícios, diz. Sacrifícios de quem? Nunca esclarece. Certamente não dele. Os filhos dos outros servem sempre melhor para morrer em nome da democracia abstracta. Se a convicção fosse genuína, talvez já tivesse partido para a frente de combate. Mas a coragem de Seguro é sempre delegável.

    Em conclusão, António José Seguro é a personificação do “choninhas” institucional: aquele rapaz da escola que não fazia mal a uma mosca, mas denunciava todos ao professor, o verdadeiro “queixinhas”.

    Nunca levanta a voz, nunca rompe o consenso, nunca desafia o poder – limita-se a aplaudir, com ar sério e grave, enquanto direitos são atropelados, a riqueza é destruída e o país se afunda numa mediocridade gerida. Seguro não é perigoso por excesso de convicção; é perigoso pela ausência dela. É o homem perfeito para presidir à decadência do regime, sorrindo, pedindo pactos e garantindo que tudo está a ser feito em nome do “bem comum”.

    Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário