Cristiano Ronaldo continua a aumentar e diversificar o seu império empresarial, mas as contas da CR7, a sociedade que concentra as suas principais participações, mostram que 2025 não foi propriamente época de festejos.
Depois de um lucro de cerca de 725 mil euros em 2024, a holding terminou o ano passado no ‘vermelho’, com 264 mil euros de prejuízo. E não foram piores porque só em juros de investimentos financeiro a empresa-mãe amealhou 1,066 milhões de euros. Em todo o caso, a saúde empresarial do mais internacional dos futebolistas portugueses não está em risco: os activos até aumentaram face a 2024 e aproximam-se agora dos 164 milhões de euros, estando espalhados por hotéis, clínicas capilares, imobiliário, tecnologia, porcelanas, nutrição, media, padel, biotecnologia e até combates.

Quando, em Novembro do ano passado, o PÁGINA UM olhou pela primeira vez com detalhe para as contas do universo CR7, a conclusão tinha uma pitada de ironia financeira: os negócios de um dos futebolistas mais ricos da história estavam, por enquanto, a render menos do que um vulgar depósito a prazo. A sociedade tinha então quase 148 milhões de euros em activos, dos quais cerca de 139 milhões correspondiam a investimentos financeiros, mas terminara 2024 com um lucro de apenas 724.977 euros. Uma rentabilidade modesta para quem, dentro das quatro linhas, fez carreira a transformar oportunidades mínimas em resultados máximos.
As novas contas, referentes a 2025 e entregues há poucas semanas, mostram que Ronaldo não levantou o pé do acelerador no investimento. Pelo contrário. O activo da CR7 cresceu para quase 16 milhões de euros face ao ano anterior e os investimentos financeiros, ou seja, em participações em empresas – como sócio exclusivo, maioritário ou minoritário –, ascenderam a 153,4 milhões. Assim, em apenas um ano, a dimensão patrimonial da holding aumentou cerca de 16 milhões de euros. O plantel ficou mais caro e mais vasto; o marcador, porém, virou para o lado errado: a jogar ‘verde’ em 2024, passou a equipar de ‘vermelho’.
Não está, evidentemente, em causa qualquer problema de solvabilidade de Cristiano Ronaldo, nem sequer uma situação financeira preocupante da CR7. A holding conserva mais de 20 milhões de euros de capitais próprios e cerca de oito milhões em caixa e depósitos bancários. Porém, as contas revelam um aspecto interessante do vista empresarial: Ronaldo construiu uma carteira muito extensa – portanto, não ‘meteu os ovos no mesmo cesto –, mas continua sem conseguir que a generalidade dos investimentos lhe entregue dinheiro. E, sobretudo, o crescimento do activo não trouxe, pelo menos em 2025, crescimento do resultado.

A ficha das participações mostra bem a dimensão da estratégia. Ao longo de 2025 aparecem 30 sociedades participadas directamente pela CR7. Houve uma que, entretanto, desapareceu do portefólio: a espanhola Dutton Invest, saiu do perímetro em Julho, pelo que no final do exercício permaneciam 29 posições. Só numa dezena Ronaldo detém mais de metade do capital. Nas restantes, joga acompanhado: às vezes com 50%, outras como accionista minoritário e, em alguns casos, com posições quase simbólicas.
O mapa parece, aliás, montado por alguém que decidiu não depender de um único campeonato. Em Portugal permanecem alguns dos primeiros negócios associados à marca pessoal, como a CR7 Footwear, no calçado, e a 7EGEND, ligada à tecnologia e ao universo digital. Na hotelaria, a parceria com o Grupo Pestana levou a marca CR7 para unidades em Lisboa, Funchal, Madrid e Marraquexe. Na saúde surgiram as participações no universo Insparya, dedicado aos transplantes capilares, ao lado de projectos de bem-estar e performance como a Erakulis e a Green Fit Recovery.
Depois chega uma segunda linha de investimentos que mostra como o nome CR7 há muito deixou de caber numa camisola de futebol. Ronaldo entrou no imobiliário, na Vista Alegre, em negócios ligados ao desporto e lazer, em sociedades patrimoniais, numa empresa relacionada com meios de transporte aéreo e, naturalmente, na comunicação social. Pelo meio cabem ainda água, projectos tecnológicos e estruturas criadas para explorar comercialmente a própria marca. Não existe uma lógica sectorial única, o que pode ser bom, por um lado, mas mostra-se desfavorável se houver excesso.

Por agora, a lógica parece ser a diversificação: aproveitar capacidade financeira, notoriedade global e oportunidades de investimento para construir um património empresarial que continue a jogar quando Cristiano Ronaldo já tiver pendurado as botas, talvez em meados de 2027.
Além disso, CR7 – a holding e o jogador – tem apostado na internacionalização continua. A carteira inclui, agora, sociedades em Espanha, Países Baixos, Luxemburgo, Reino Unido, Alemanha e Chipre, além da CR7 Middle East. Surgem nomes ligados à biotecnologia, como a Catapult Therapeutics, à saúde, como a Xcell Medical Solutions e a Bioniq, e ao universo tecnológico.
Em 2025 chegaram ainda duas apostas novas: a espanhola WOW Fightcompany, ligada à promoção de combates MMA e na qual a CR7 passou a deter 15,61%, e a NKGen Europa Partner, onde entrou em Novembro com uma posição de 74,5%. Se no relvado Ronaldo sempre apreciou novos desafios, nos negócios também não parece interessado em permanecer fechado numa só táctica.

O problema surge quando se olha para quem, no meio deste vasto plantel, efectivamente marcou no campeonato dos dividendos. Em 2024, três participadas tinham colocado dinheiro na CR7: duas sociedades do universo Insparya e a Expressão Livre, sociedade através da qual Ronaldo participa no grupo de comunicação social Medialivre. Somadas, distribuíram cerca de 1,22 milhões de euros. A maior parcela já vinha dos media, com 720 mil euros. E a ironia não escapava: durante anos, Correio da Manhã e CMTV foram terreno fértil para notícias, polémicas e mexericos sobre Cristiano Ronaldo.
Depois de comprar 30% do grupo, o futebolista passou também a receber uma parte dos resultados das notícias, que deixaram de lhe ser também desfavoráveis ou irritantes. Quem imaginaria que, 10 anos após o cómico episódio do lançamento de um microfone da CMTV a um lago, Cristiano Ronaldo iria receber bom dinheiro da empresa desse canal televisivo.
E bem que lhe falta mais que se comportem como a Medialivre, que mostra ter sido um dos poucos bons investimentos. Em 2025, a situação tornou-se ainda mais evidente. Das participações declaradas, apenas duas pagaram dividendos: a Insparya National, que agrega o negócio português da área capilar, entregou cerca de 106 mil euros; e a Expressão Livre, que controla a Medialivre, que pagou 1,24 milhões.

Isto significa que mais de nove em cada dez euros de dividendos recebidos pela holding vieram do investimento nos media. O sector que tantas vezes colocou Cristiano Ronaldo nas primeiras páginas acabou, pelo menos nesta fase da sua vida empresarial, a assumir o papel de ponta-de-lança das finanças do antigo extremo.
Também aqui convém não transformar ausência de dividendos de todas as outras empresas em prejuízo, porque as contas da CR7 não permitem essa conclusão. Uma empresa pode dar lucro e decidir guardá-lo para investimento; pode estar numa fase de expansão; pode valorizar-se sem distribuir um cêntimo aos accionistas.
Em todo o caso, uma evidência: das 29 posições existentes no fim de 2025, apenas duas fizeram chegar dividendos à holding. As outras 27 não deram retorno directo por essa via – e muitas deram prejuízos, daí terem comido os lucros da Insparya National e da Medialivre, e ainda dos juros de depósitos e outros activos financeiros.

E é aqui que entra outro “jogador” importante: o dinheiro financeiro propriamente dito. A CR7 fechou o ano com pouco mais de oito milhões de euros em caixa e depósitos bancários, menos do que os quase nove milhões existentes anteriormente. Mas a demonstração de resultados regista 1,066 milhões de euros em “juros e rendimentos similares obtidos”.
A expressão contabilística é importante: não permite concluir que todo esse milhão resulta apenas de depósitos bancários. Permite, isso sim, perceber que os rendimentos financeiros funcionaram como uma espécie de guarda-redes das contas. Sem eles, o resultado seria bastante pior.
A actividade da holding, por si, custou bastante mais do que gerou. De uma forma directa, a holding CR7 não apresenta vendas nem prestações de serviços — normal numa sociedade cuja função principal passa por deter investimentos — e suportou quase 915 mil euros em fornecimentos e serviços externos, praticamente o dobro dos cerca de 477 mil identificados no exercício anterior

A estrutura da ‘casa empresarial’ de Cristiano Ronaldo permanece reduzida. Apesar de controlar ou participar em negócios que valem dezenas de milhões de euros, a CR7 propriamente dita tinha apenas quatro pessoas remuneradas a tempo inteiro em 2025, contra cinco referidas no levantamento anterior, e suportou 178,5 mil euros em gastos com pessoal. Trata-se, portanto, de uma pequena equipa de rectaguarda – quatro funcionários e um gerente – para gerir um balneário empresarial muito mais vasto.
Assim, entre esses custos e outras despesas, o resultado operacional ficou negativo em quase 1,2 milhões de euros. O milhão de euros obtido em juros e rendimentos semelhantes recuperou quase todo esse terreno, mas não chegou para evitar o prejuízo final.
O balanço também mostra uma massa significativa de financiamento: 143,1 milhões de euros classificados a longo prazo. As contas não identificam de forma suficiente quem está por detrás da totalidade desse financiamento, mas provavelmente, pelo baixo valor de juros pagos pela holding, será dinheiro emprestado pelo próprio Ronaldo. Em suma, não existe aqui um clube à beira da descida de divisão; apenas uma equipa cara cuja eficácia ofensiva continua aquém da fama do proprietário.

Um ano depois do primeiro levantamento do PÁGINA UM, a fotografia tornou-se, assim, mais curiosa. Cristiano Ronaldo tem mais activos, mais dinheiro aplicado e uma carteira ainda mais diversificada, mas a sua principal holding passou do lucro ao prejuízo. Há apostas que só poderão ser avaliadas daqui a vários anos e outras cujo valor poderá estar na valorização futura e não nos dividendos imediatos. Por enquanto, porém, o marcador contabilístico mostra que o vasto universo CR7 ainda depende de muito poucos negócios para produzir rendimento efectivo.
E entre hotéis, clínicas, tecnologia, porcelanas, imobiliário, biotecnologia, nutrição e combates, quem continua a meter a bola dentro da baliza é sobretudo a imprensa. A Expressão Livre, porta de entrada de Ronaldo na Medialivre, respondeu por 92% dos dividendos que a holding recebeu em 2025. No futebol, Cristiano habituou o mundo a marcar quase sozinho. Nos negócios, para já, é o Correio da Manhã e companhia que lhe vão segurando o resultado.



















































