Categoria: Cultura

  • A fonte

    A fonte

    Aquele número que ali estava diante de si, no seu smartphone, era inteiramente novo para a Cátia que odiava ter de atender números desconhecidos que não lhe diziam nada. Tinha medo.

    Mas o aparelho até parecia que estava mais nervoso que o habitual e mesmo o som aparentava estar mais estridente e intenso.

    E a proveniência podia muito bem vir do seu ex-namorado, o que seria um problema, pensou ela. Já em tempos o fizera, ligando de uma velha cabine perdida no tempo, achava ela.

    Não queria falar com ele por nada deste mundo, e suspeitava que o rapaz pudesse estar muito bem a ligar de outro telemóvel, embora ele soubesse de antemão, que Cátia raramente atendia quando os números eram de origem desconhecida.

    Desligou o som.

    Para ela, ele era um stalker, mas, para ele, ela também era uma stalker.

    Mas isso é outra história.

    Ficou a olhar para o telemóvel a vibrar enquanto se decidia.

    Já tinha tido problemas por não atender chamadas, sobretudo quando se tratava do campo laboral, tinha noção disso, e pagou um preço bem caro da ultima vez por ter investido nessa opção arriscada do não atendimento, mas era a pior coisa que lhe podiam fazer, e jamais queria ter de voltar a ouvir a voz do Marco, o seu stalker, isso é que não. A acontecer só no tribunal caso chegassem a esse ponto. 

    Tinham namorado dois anos e a relação acabara em violência doméstica segundo os dois e teriam mesmo acabado em tribunal, não fosse o aparecimento da pandemia mediática. Mas hoje ela pondera fazer queixa  novamente. E ele também. São, até prova do contrário, ambos vitimas de “stalkerismo ”.

    Estranho mundo o nosso.

    Na altura ele fez queixa dela, alegando que levara um tareão à antiga, invocando que ela era cinturão castanho em Full Contact e até era mais alta que ele.

    Mas ela sempre o negou. Ele era apenas cinturão verde em Judo.

    Naquela altura atípica e singular da pandemia e de confinamentos loucos e radicais, cujas regras mudavam dia sim dia não, os advogados chegaram a acordo para não levarem o caso a tribunal. Nenhum dos quatro se via de máscara nas audiências. Áí estavam todos de acordo.

    Mas isso é também outra história.

    E agora que tudo aparentemente passou, o Direito e a verdade eram de novo uma hipótese de voltar à carga para ambos.

    Mas talvez seja tarde. Os tempos mudaram.

    Cátia era uma reincidente em não atender números anónimos, mas com algum desconforto, e depois de pensar bem, atendeu a chamada.

    Era da Agência Funerária que estava a tratar da lápide do pai que já morrera há um ano, e só agora a família tinha decidido fazer uma, com uma inscrição a recordar o bom homem que o Sr. Américo Santos tinha sido, uma enorme mentira, uma vez que nenhum dos quatro filhos tivera entretanto qualquer tipo de saudades do pai, nem mesmo a mulher, que rejuvesnecera dez anos após a morte do marido.

     O Sr. Américo tinha sido uma má pessoa e até um pai ausente, fazia tudo à sua maneira, não ouvia ninguém, era malcriado, gordo, corrupto e mil coisas mais bastante negativas por sinal, no entanto tinha sido em vida católico e a família estava a ser forçada pela outra parte da família para que essa lápide ganhasse vida.

    No que resta do mundo católico, é assim.

    Cátia ficou aliviada quando percebeu a origem da chamada.

    O processo já tinha avançado, já estava até a maquete feita, e era por isso mesmo que esta ligação se estava a efectuar.

    A senhora da Agência disse:

    – Estou a falar com o Sr. Timóteo?

    – Não! Sou a Cátia. O Timóteo é o meu irmão.

    – Olá, eu sou a Dulce da funerária Anjos. Pode ser consigo também. Já trocámos uns e-mails.

    A Cátia estava descansada naquele momento, não era nenhum desconhecido, nenhum stalker, nenhum ET, nenhum vampiro. E de forma calma respondeu:

    – Sim, sim.

    – Olhe, é porque a fonte de letra que me está a pedir nós efectivamente não temos.

    – Não tem a Helvética?

    – Não. Sabe, essa não tem muita saída. Nós trabalhamos com a Comic Sans. Normalmente os clientes ficam satisfeitos com essa. Não leve a mal, mas para mim também é a mais gira de todas. Eu uso-a para quase tudo… E aconselho.

    – Sim. Mas eu trabalho na área do Design.

    Interrompeu a Cátia, irritada.

    – E não quero essa letra. Não tem nenhuma Garamond?

    – Gara… quê?

    – …Mond. Garamond. É um tipo de letra. Não conhece?

    – Pois. É o que lhe digo. Nós aqui não trabalhamos com a Garamond. Pois… Se a senhora trabalha nessa área, deve ser mais exigente. É como eu com a Fórmula 1. Vej…

    – Então trabalham com quais?

    Interrompeu.

    – Não lhe sei assim dizer. É que é a primeira vez que alguém se queixa da fonte.

    – Sim, mas eu queria saber com que fontes trabalham, se não se importa. Até porque essa aí não tem nada a ver com a situação. Estamos a falar de uma pessoa morta não é!

    – Pois. Estou a perceber. Queria assim uma coisa… Como dizer?.. Mais, vá… Pesada!.. Vá!

    – Não é pesada. É ajustada.

    – Pois. A Comic é assim mais leve e simpática. Mas percebo. Quer assim uma coisa…

    – Mas diga-me, com quem é que posso falar aí da Agência que saiba do assunto?

    Interrompeu a Cátia novamente, ainda mais irritada.

    – Com o Sr. Alves mas está com covid em casa. Pelo menos ele acha que é. Está sem olfato e está muito irritado. Está isolado, sabe!.. Eu já lhe disse que não era preciso o isolamento mas é teimoso o raio do homem. E não quer falar com ninguém. Ainda há pouco tentei comunicar com ele e quase me ofendeu. Tente mandar um e-mail para o Sr.Alves.

    – Dê-me o e-mail então.

    Simultaneamente a Cátia recebe entretanto uma chamada na outra linha e o número é outra vez desconhecido, até diz sem ID, o que faz com que fique ainda mais nervosa.

    – Espere, estou aqui à procura. Mas olhe, entretanto vi aqui qualquer coisa no nosso catálogo sobre isso das letras, quer que lhe diga?

    – Sim.

     Entretanto a chamada anónima caiu.

    – Arial. Gosta?

    – Não.

    – Verdana?

    – Também não. É horrível.

    – Também acho.

    – Bold.

    – Isso não é fonte. Isso é quando se quer a letra mais marcada. Mais escura.

    – Ai sim? Que engraçado. Mas fica muito gira, assim mais escurinha.

    – Diga mais.

    – Vicking.

    – Não acredito que têm essa. Para que é que a usam?

    – Pois, não sei. Tem de perguntar ao Sr. Alves. Deve ser para cartões. Aqui em Arouca usa-se muito. É assim… Dinâmica!

    – Isso é absurdo.

    – Só temos aqui mais uma, que é… Deixe ver… Ah!.. Times New Roman.

    – Tem essa?

    – Aqui diz que sim. Não é do meu departamento, repito. Isto é mais com o Sr. Alves. Mas pelo menos é o que diz aqui. Mas eu se quer que lhe diga, gosto muito da outra dos Comic Sans. É muito gira, mesmo para lápides. Torna assim a coisa mais leve sabe?.. Quando eu morrer q…

    – Mas isto não é para ser giro.

    Interrompeu a miúda novamente, e desta vez ainda de forma mais abrupta. Continuou:

    – O meu pai está morto. Estamos a falar de uma lápide.

    Aparece novamente a inscrição sem ID no telemóvel. A rapariga começa a ficar muito ansiosa.

    – Olhe eu vou pensar melhor e mando um e-mail para vocês a dizer a nossa opção. Vou reunir com os meus irmãos e com a minha mãe. Mas por favor reencaminhe para o Sr. Alves a nossa opção.

    – Já agora. Podia avaliar a minha prestação?

    Sugeriu a empregada.

    – Como?

    – A seguir vai receber um inquerit…

    – Agora não. Obrigada.

    – É o meu irmão que vai ligar. É uma voz verdadeira. Nã…

    Desligou e ficou a olhar para o telemóvel que entretanto já estava com o som do toque activo, cada vez mais estridente. Cada vez mais agudo. Até lhe pareceu que era a primeira vez que ouvia aquele toque.

    E num ápice atendeu.

    – Sim. Com quem falo?

    Perguntou.

    E o telefone ao fim de uns segundos desligou-se mas ainda se ouviu uma voz ao longe, meio cavernosa e imperceptível, embora com um tom bem marcado mas dúbio.

    Estranho.

    A Cátia ficou branca. Não queria acreditar no que achava que acabava de ouvir.

    Foi à cozinha beber um copo de água. Sentiu um ligeiro frio interior que normalmente anunciava quebra de tensão e sentou-se numa cadeira da cozinha.

    Ía jurar que era a voz do pai a pedir a Comic Sans.

    Ruy Otero é artista media

    Ilustrações de Ruy Otero


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  • História Global da Literatura Portuguesa

    História Global da Literatura Portuguesa


    A obra ‘História Global da Literatura Portuguesa‘, com direcção de Annabela Rita, Isabel Ponce de Leão, José Eduardo Franco e Miguel Real, constitui uma releitura da Literatura Portuguesa em contexto internacional: 100 autores oferecem 100 focais de diálogos que atravessam as habituais fronteiras do espaço e do tempo, da periodologia e da genologia, das letras, das artes e das ciências. O PÁGINA UM apresenta os textos das intervenções de Annabela Rita (moderadora) e Alberto Manguel (conferencista) no Seminário Internacional de Estudos Globais (Universidade Aberta, Salão Nobre do Palácio Ceia), no passado dia 11 de Novembro, em uma das apresentações que se estão a suceder pelo país.


    NOTA DE ABERTURA – ANNABELA RITA

    Saudações ao Professor Alberto Manguel, ao Professor José Eduardo Franco, Director do CEG da UAb, à Dra. Guilhermina Gomes, representante da Editora Temas & Debates, a todos os presentes, dirigentes institucionais, Colegas, Alunos, Amigos, e, enfim, aos que tornaram possível a HGLP.

    Agradeço ao Professor José Eduardo Franco o honroso convite para moderar esta sessão.

    A minha tarefa começa com um gesto desnecessário e algo irreverente: apresentar Alberto Manguel, grande personalidade das Letras mundiais.

    Vou evitar a dupla impertinência desse gesto, optando por homenageá-lo com algumas evocações expressivas do pensamento que nos motivou a convidá-lo para apresentar a nossa História Global da Literatura Portuguesa, que agradecemos aos seus Directores, Coordenadores, Colaboradores e Conselheiros, para já não mencionar as instituições que a patrocinaram, apoiaram e editaram.

    Em 2014, na conferência que proferiu no ciclo Fronteiras do Pensamento (Brasil), Alberto Manguel

    “Contou que uma vez, ao conversar com um taxista na Espanha, se viu inquirido a confirmar se havia mesmo lido Dom Quixote. “Todo mundo fala que leu, mas ninguém chegou ao final deste livro, pois ele é composto de muitos volumes”, disse o incrédulo e mal informado motorista. Partindo desta anedota, Manguel afirmou ser esta a metáfora que exemplifica nossa biblioteca imaginária: ela é formada por “entesouramentos” de tudo o que ouvimos, conversamos, lemos, lembramos e imaginamos. “Usamos a palavra imaginário como algo inexistente e que por si só parece não possuir materialidade. Mas o que pertence à imaginação tem raízes muito profundas na realidade, pois é assim que a conhecemos. Nós imaginamos as experiências, e quando as colocamos no papel contribuímos para esta biblioteca imaginária universal”, explicou Manguel.[1] E continua: “”A biblioteca de cada um de nós está na identidade individual, criada pelo que pensamos que somos e por nosso palimpsesto de recordações – episódios, personagens, frases, palavras.” [2]

    Annabela Rita, Alberto Manguel e José Eduardo Franco.

    Alberto Manguel é mestre já de gerações académicas, autor de Uma história da leitura, A biblioteca à noite, Dicionário de lugares imaginários, No bosque do espelho – Ensaios sobre as palavras e o mundo, A cidade das palavras – As histórias que contamos para saber quem somos, etc., Oficial da Ordem das Artes e das Letras do Ministério da Cultura da França, e Prémio Grinzane Cavour e Roger Caillois, e, hoje, Conselheiro Científico da e-Letras com Vida — Revista de Estudos Globais: Humanidades, Ciências e Artes [e-LCV]. Fundou, recentemente, “Espaço Atlântida – Para os Leitores do Mundo”, que dirige e onde se propõe partilhar

    “uma biblioteca (40 000 títulos) de descobertas fortuitas das expressões dos escritores de diferentes línguas, culturas e contextos, que encoraj[a] o diálogo e question[a] a mente” [3]

    Ora, este mestre da palavra, Alberto Manguel, confessou que o que mais admira na biblioteca imaginária: o bibliotecário invisível que percebeu habitar o seu cérebro, e que “sempre tem palavras à disposição, algumas, inclusive, que eu não sabia que dariam voz aos meus desejos mais antigos, às minhas lembranças mais inefáveis.” [4], pois

    “A história da literatura, tal como consagrada nos manuais escolares e nas bibliotecas oficiais, parecia-me não passar da história de certas leituras — /…/ dependentes do acaso e das circunstâncias.” (HL, p. 24)

    Na sua História da Leitura[5], conta uma experiência infantil fundadora:

    “Então, um dia, da janela de um carro (o destino daquela viagem está agora esquecido), vi um cartaz na beira da estrada. A visão não pode ter durado muito; /…/ o suficiente para que eu lesse, grandes, gigantescas, certas formas semelhantes às do meu livro, mas formas que eu nunca vira antes. E, contudo, de repente eu sabia o que eram elas; escutei-as em minha cabeça, elas se metamorfosearam, passando de linhas pretas e espaços brancos a uma realidade sólida, sonora, significante. Eu tinha feito tudo aquilo sozinho. Ninguém realizara a mágica para mim. Eu e as formas estávamos sozinhos juntos, revelando-nos em um diálogo silenciosamente respeitoso. Como conseguia transformar meras linhas em realidade viva, eu era todo-poderoso. Eu podia ler.” (HL, p. 9)

    E avança na reflexão, afirmando:

    “em cada caso é o leitor que confere a um objeto, lugar ou acontecimento uma certa legibilidade possível, ou que a reconhece neles; é o leitor que deve atribuir significado a um sistema de signos e depois decifra-o. Todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar, é nossa função essencial.” (HL, p. 10)

    Assim, na história da leitura de um texto ao longo da vida de cada um de nós, projecta-se a nossa própria autobiografia ou fragmentos de um diário descontínuo ou, ainda, um palimpsesto de auto-representações (a dos autores lidos e as do leitor que as lê).

    A obra de Alberto Manguel é uma notável demonstração disso: toda a reflexão é embebida por projecções suas, revisitações mnésicas.

    Neste caso, fragmentos dos autorretratos temporalmente datados dos leitores que convergiram nesta História Global da Literatura Portuguesa.

    “Lemos e escrevemos para entender a experiência antes de tê-la e para ativar a nossa própria experiência, para dizer que essa é a forma como sentimos e entendemos, para que as gerações futuras possam sabê-lo.”

    Por isso, talvez, os leitores são sempre subversivos (HL, p. 25), como afirma nessa sua/nossa Bíblia da Leitura.

    Um dia, perguntou a Jorge Luís Borges: “Por que está sozinho?”. E Borges respondeu: “Eu nunca estou sozinho, tenho minha biblioteca.”

    Pois é, Professor Alberto Manguel, também nós (cada um a seu modo) sentimos a mágica da metamorfose estimulada pela imagem do verbo, sentimos que não estamos sós pela mesma companhia, fomos subversivos neste projecto e representámo-nos nesta História Global da Literatura Portuguesa. E, nessa cumplicidade, entregámo-la à sua leitura. Bem haja! A palavra é sua e a expectativa é nossa.


    APRESENTAÇÃO – ALBERTO MANGUEL

    Introdução à História Global da Literatura Portuguesa

    Possuo todas as qualificações para não fazer esta apresentação, que tão confiante e generosamente me convidaram a fazer. Possuo apenas um limitado conhecimento da língua portuguesa. Só um superficial conhecimento da vasta literatura escrita em português. Apenas um vislumbre da complexa história de Portugal e da sua aventurosa exploração do mundo. Vivo em Lisboa desde Setembro de 2020, o que é dificilmente tempo suficiente para perceber a sua secreta cultura. Tendo feito esta óbvia confissão, devo depender do que vim a conhecer como a sempre presente cortesia portuguesa, e responder ao vosso convite da melhor maneira que consigo.

             Confesso que o vosso projeto me atraiu imediatamente pela palavra ‘global’ no título. As histórias de literatura nacionais tendem a soar, se não estridentemente gabadas, pelo menos crédulas na sua convicção de que (como comentava Plutarco ironicamente) “a lua de Atenas é melhor do que a lua de Esparta”. Porque se há algo que define a literatura, é a falta de fronteiras, políticas e geográficas. Gil Vicente é considerado pelos espanhóis um escritor espanhol e Dante é um dos poetas nacionais da Albânia. Quando Saul Bellow, numa tentativa de menosprezar as literaturas do continente africano, perguntou “Quem é o Tolstoi dos Zulus?”, Wole Soyinka respondeu: “O Tolstoi dos Zulus é Tolstoi”. Felizmente, os escritores não têm de mostrar os passaportes cada vez que se sentam à secretária.

             A minha atração pela palavra “global” é parcialmente explicada pela minha convicção de que nenhum escritor é singular. Os escritores são como árvores cujas raízes se estendem pela sua inteira biblioteca e cujos ramos carregam novas vozes alimentadas pelas suas palavras. Jovens escritores aqui presentes, que, com bastante razão, desprezam o abuso de metáforas, irão sem dúvida tratar a minha com desdém, mas não deixa de ser verdade que a floresta da literatura é mais bem compreendida como uma selva de vozes individuais em que nenhuma árvore, nenhuma voz, é absolutamente única. Felizmente, penso eu, a língua portuguesa tem pouca paciência para a originalidade só pela originalidade. Não tem a obsessão francesa de tentar a todo o custo ser original, como se comprova pelo vocabulário de um Lacan ou Badiou.

             A questão da identidade de uma língua é, acredito, importantíssima. Assumo que a palavra “portuguesa” no vosso título não se refira à casualidade de um certificado de nascimento, mas sim à idiossincrasia essencial dada por uma língua nativa. Como todos sabemos, a língua que usamos, não importa quão imperfeitamente, molda os nossos pensamentos e, por isso, molda não só como dizemos algo mas determina também o que esse algo será. A língua é um prisma pelo qual vemos o mundo de uma determinada maneira, uma visão que é diferente se falarmos árabe ou swahili, tão diferente como a visão concedida ao olho humano ou ao olho de uma vespa. Por exemplo, ‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’ não pode ser dito em inglês porque em português o verbo reflexivo desdobra o Tempo e a Vontade sobre si mesmos, tomando um papel ao mesmo tempo passivo e activo. Em inglês, talvez porque a Reforma decretou a brevidade e a precisão as mais importantes virtudes linguísticas, um conceito similar pudesse talvez ser pensado como “Times change, desires change” — perdendo no processo o entrelaçamento dos significados ‘arbítrio’ e ‘desejo’, implícitos em vontades, empobrecendo assim aquele profundo pensamento existencialista dos humanistas da Renascença. Shakespeare, em Inglaterra, foi levado a conceber algo parecido quando escreveu da sua Cleópatra: “Time has not withered nor custom stale/ her infinite variety”, versos que têm um tipo de riqueza muito diferente. Talvez seja por essa razão que Camões possa ser considerado um poeta português e Shakespeare um inglês. A sua língua, não a sua corda umbilical ou a época do seu nascimento, é o fator que os define.

             Datas são úteis, mas incertas convenções. A maioria dos historiadores da linguagem concordam que a consolidação daquilo a que chamamos a língua portuguesa pode ser datada a 1536, quando Fernão de Oliveira publicou a sua Gramática da Linguagem Portuguesa. O português, em comparação com o chinês ou o hindu é uma língua jovem, mas (graças à História Global da Literatura Portuguesa, por exemplo) podemos ver que as qualidades definidoras da língua portuguesa começam a aparecer e a enraizar-se muito mais cedo. Seria um exercício interessante tentar determinar algumas destas características primordiais da língua portuguesa presentes em épocas recentes, para descobrir as suas primeiras aparições na literatura. Pessoa, por exemplo, notou o desconforto da língua portuguesa com a ironia. Antero de Quental lamentou a sua relutância em quebrar com convenções passadas. Ana Hatherly mencionou a sua timidez para com o barroco. Eduardo Lourenço comentou o seu persistente e melancólico olhar interior. Eu não tenho nem o conhecimento nem o talento para empreender tamanha investigação, mas pode ser que seja útil, de forma a dar aos escritores portugueses um reflexo mais verdadeiro das suas identidades.

             A biblioteca que doei à Cidade de Lisboa e que agora constitui o centro do futuro Espaço Atlântida, inclui uma razoável quantidade de livros em Português. Comecei a ler literatura de língua portuguesa (em tradução, claro) muito antes de ter noção de uma literatura portuguesa. A criança que fui está para sempre grata a Monteiro Lobato e Sophia de Mello Breyner Andersen pelas suas mágicas histórias de aventuras. O leitor adolescente a Eurico Verissimo pelo seu Olhai os lírios do campo e a Eça de Queiroz por O Mandarim. Mais tarde vieram João Guimarães Rosa, Machado de Assis, José Eduardo Agualusa, Mia Couto, Lobo Antunes, Agustina Bessa Luís, José Saramago, Moacyr Scliar e muitos outros memoráveis. Não descobri Pessoa (mea culpa, mea maxima culpa) até ao fim dos anos oitenta quando o romancista Canadiano Graeme Gibson me recomendou o Livro do Desassossego. E depois vim para Portugal. Iniciação na literatura portuguesa, de António José Saraiva e recomendado pela minha amiga Joana Meirim, foi um guia esclarecedor.

    book lot on black wooden shelf

             O que me impressionou quando comecei a descobrir outros escritores aqui em Portugal foi a relutância que os Portugueses têm em se exibir. Com o Português do Brasil é ligeiramente menos restringido, mas, no geral, como leitor senti-me (e ainda me sinto) que conseguir que uma pessoa portuguesa elogie ou insulte um escritor português é quase tão mau como pedir-lhe que seja insultuoso para com um familiar ou convidado. Gide, quando lhe foi perguntado qual o melhor escritor francês, respondeu: “Hugo, hélas”. Nenhum português se atreveria a responder: “Pessoa, infelizmente”.

             A História Global da Literatura Portuguesa é também uma espécie de Gradus ad Parnassum para a Biblioteca Universal, iniciando um caminho que apenas alguns, poucos, escolhidos poderão tomar. Pedindo já perdão por recorrer agora à alegoria, sugiro que concebamos a Biblioteca Universal como um lugar visitado por dois, muito diferentes, leitores: a Justiça que, como nos ensinaram os clássicos, é cega, e a Sorte que, como declararam outros clássicos, é caprichosa e imprevisível. Na secção Portuguesa da Biblioteca Universal, a Justiça não vê o suficiente para selecionar sempre os autores certos, os que mais merecem reconhecimento e fama. A Sorte, no entanto, anda sem rumo entre as pilhas de livros, apanhando este ou aquele livro, guiada por uma capa peculiar, um título surpreendente, uma disposição particular. Na História global da literatura portuguesa encontramos, claro, a maior parte dos nomes esperados, assim como muitos outros que eu, na minha ignorância, não sabia existirem, mas há também alguns autores que se destacam saudosamente pela sua ausência. Nenhuma visão do mundo, nem uma verdadeiramente ‘global’ como esta de mais de 700 páginas, pode aspirar à omnisciência divina, e qualquer história da literatura, tal como qualquer biblioteca, está sempre acompanhada pela sombra daquilo que não inclui. A totalidade catequista, no mundo da literatura, é uma invenção imaginária e não permite aos leitores olhar entre as linhas e adicionar as suas próprias escolhas.

             Quero terminar esta introdução com uma palavra de agradecimento. A vossa História Global da Literatura Portuguesa é um trabalho colossal e magistral. Especialistas cuja profissão é implicar, sem dúvida encontrarão pequenos detalhes com os quais reclamar, mas, enquanto leitor comum, posso apenas expressar gratidão por ter nas mãos um guia tão essencial para o vasto, variado, introvertido e fundamental cosmos da literatura Portuguesa.

    Alberto Manguel, 11 novembro 2024

    (tradução de Flor Filgueiras)


    NOTA FINAL – ANNABELA RITA

    Professor Alberto Manguel, muito obrigada por esta magistral leitura de bibliotecário (in)visível da biblioteca imaginária colectiva que perscrutámos na HGLP!

    Afirmou no início da sua HL:

    “Dizem que nós, leitores de hoje, estamos ameaçados de extinção, mas ainda temos de aprender o que é a leitura. Nosso futuro — o futuro da história de nossa leitura — foi explorado por santo Agostinho, que tentou distinguir entre o texto visto na mente e o texto falado em voz alta; por Dante, que questionou os limites do poder de interpretação do leitor; pela senhora Murasaki, que defendeu a especificidade de certas leituras; por Plínio, que analisou o desempenho da leitura e a relação entre o escritor que lê e o leitor que escreve; pelos escribas sumérios, que impregnaram o ato de ler com poder político; pelos primeiros fabricantes de livros, que achavam os métodos de leitura de rolos (como os métodos que usamos agora para ler em nossos computadores) limitadores e complicados demais, oferecendo-nos a possibilidade de folhear as páginas e escrevinhar nas margens. O passado dessa história está adiante de nós, na última página daquele futuro admonitório descrito por Ray Bradbury em Fahrenheit 451, no qual os livros não estão no papel, mas na mente.” (HL, p. 27)

    Afinal, “/…/ ler é cumulativo e avança em progressão geométrica: cada leitura nova se baseia no que o leitor leu antes.” (HL, p. 23)

    Mais: essa progressão geométrica da escrita e da leitura combina-se intimamente com uma dinâmica estocástica, marcada pelo princípio da incerteza e da indeterminação, pelo movimento browniano, exponencialmente enriquecedor e redimensionador.

    Da esquerda para a direita.: Annabela Rita (uma das direcoras da HGLP), Alberto Manguel (apresentador), Carlos Carreto (um coordenador da HGLP), Guilhermina Gomes (editora da Temas e Debates) e José Eduardo Franco (um doos directores da HGLP)

    Lewis Thomas, na sua estimulante reflexão “Sobre o Pensamento” (A Medusa e o Caracol, 1979),descreve o seu processamento recorrendo à analogia da microbiologia, assinalando o modo como as ideias se vão conformando a partir de imprevisíveis movimentos de atracção que resolvem a dispersão inicial.

    Seria essa, também, uma excelente descrição do modo como esta HGLP se for construindo: perscrutando uma outra paisagem, implicada na que as anteriores Histórias da Literatura representa(ra)m, mas constituída por redes relacionais a partir de núcleos pregnantes, nós de ancoragem de movimentos exploratórios e relacionais de múltipla direccionalidade que se estendem para além dos horizontes. Sob a paisagem habitual que temos da Literatura Portuguesa, outra mais subtil, intrincada e “tabular” (J. Kristeva) foi surgindo, como num palimpsesto que vamos descobrindo com o deslumbramento dos investigadores que recorrem à IA para decifrarem papiros carbonizados (v. desafio conhecido como “Vesuvius Challenge”) ou para a arqueologia. A diferença é que a paisagem oferecida pela HGLP não pretende ser um mapeamento definido, nem definitivo, nem exclusivo, nem exaustivo: deseja-se signo-sinal estimulado pelo actual contexto do pensamento complexo (Edgar Morin) e da globalização anunciando a continuidade da aventura… a Odisseia continua…

    Agora, a História Global da Literatura Portuguesa, uma (re)leitura de (re)leituras feita, tem nesta sua apresentação, Professor Alberto Manguel, um belíssimo posfácio! E este é, no fundo, o meu encantado comentário de moderadora. Bem haja!


    [1] Cit de: conferências 2014 do Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre [https://www.fronteiras.com/noticias/a-biblioteca-imaginaria-segundo-alberto-manguel].

    [2] Idem.

    [3] Cit. de: https://www.espacoatlantida.pt/sobre-nos/.

    [4] Cit. de: conferências 2014 do Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre https://www.fronteiras.com/noticias/a-biblioteca-imaginaria-segundo-alberto-manguel

    [5] Alberto Manguel. Uma História da Leitura [HL], S. Paulo e R.J., Companhia das Letras, 2004 (ebook). Para maior comodidade do leitor, todas as citações desta obra serão feitas a partir desta edição.


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  • Um quarto de hora antes da partida

    Um quarto de hora antes da partida


    (haikus)

    Levanto as mãos

    para um céu de chumbo –

    nada se mexe.

    Mochila pesada

    nos ombros doridos –

    faltam-me as rodas.

    Durante o dia

    não conheço o tédio –

    mesmo deitado.

    Para onde vou,

    que ninguém me siga –

    para não sofrer.

    Olho a noite,

    olha para mim o escuro –

    encontro feliz.

    Acelera o trem

    sobre os carris direitos –

    a vida torta.

    “Leone ruggente”
    Estação central de Milão (foto do autor)

    Un quarto d’ora alla partenza

    Alzo le mani
    verso un cielo di piombo –
    nulla si muove.

    Zaino pesante
    dolore sulla spalla –
    mi mancan le ruote.

    Durante il giorno
    non conosco la noia –
    neppure steso.

    Dove vado io
    non mi segua nessuno
    per non penare.

    Guardo la notte,
    pure il buio mi osserva –
    felice incontro.

    Il treno sfreccia
    sui binari diritti –
    vita storta.

    “Pilastro ieratico”
    Estação central de Milão (foto do autor)

    Antonio Delfino é Professor da Universidade de Pavia (em Cremona)

    (Tradução de José Melo Alexandrino)


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  • Dunas que falam com o céu

    Dunas que falam com o céu


    Telefonei para um grande amigo a incitá-lo:

    — Viste a notícia?

    — Que cena marada!

    — Vamos lá amanhã?

    No dia seguinte, à hora marcada, mais minuto menos minuto, seguimos rente à vertigem.

    Animava-nos uma irrequietude de ver o invisível. Desejávamos a devastação que irrompe do insondável. Intuíamos que quem se compraz a invocar prodígios terá visões que se derramarão sobre toda a carne e todo o espírito.

    Estava um tempo esplêndido. O carro seguia ligeiro raspando as estradas do litoral alentejano. Conversávamos com bonomia, brio e provocações brejeiras. O som saía das colunas e obrigava-nos ao trauteio, ao vociferar, ao canto.

    Com entusiasmo, parávamos em tascas e cafés, perguntando por aquilo.

    — Não, não ouvi falar de nada disso.

    — Como é que soube? Eu cá não sei…

    — É melhor perguntarem mais à frente.

    Aparentemente, a informação pretendida não queria chegar-se à rede, mas acossá-la-íamos até cair nos nossos braços. Um velho com vontade de ajudar falou que a coisa estava na praia das Areias Brancas.

    Ainda mais seduzidos pelo nosso desígnio, quase tremíamos, cheios dessa bravia inclinação de quem não quer esquivar-se a nada.

    Uma seta com o nome do lugar deu-nos rumo: via sem asfalto onde as pedras estalavam contra o carro, e a poeira entrava sem vagar pelo habitáculo. Margens feitas de pinheiros mansos estreitavam o percurso.

    Um aroma de resina enleada em sal entrava pelas narinas.

    — Estamos lá quase, puto.

    — Já cheira!

    O céu parecia querer casar-se mais e mais com o mar. O horizonte abria-se com doçura, cedendo à violenta pulsão que nos guiava.

    Eis-nos chegados onde tudo parece estar em ordem. O barulho das ondas é como sino que reverbera interminável ladainha — cada dia sem exaltar Deus é uma afronta.

    O manto dourado e branco das areias vem das dunas altas e termina chão deste oceano. Viramos para o lado direito e marchamos com avidez. O calor varre as frontes e deixa-nos sedentos de água e acontecimentos. Não tarda.

    Os pés ardem nos quilómetros. Chego-me ao mar para poder molhar-me.

    Sabe bem a humidade atlântica.

    Ao longe, ao longo duma duna recortada contra definido azul, vai-se definindo uma matriz cujo sentido ainda nos escapa.

    O espanto renova-se a cada passo. À medida que nos aproximamos a admiração toma-nos mais e mais e mais. Letras enormes, do tamanho dum homem alto, formam, ao longo de dezenas de metros, abreviaturas que levam a versículos da Bíblia. Isaías, Coríntios, Actos, Romanos, Hebreus, Génesis, Jó, Provérbios, Salmos — excertos escolhidos dos Testamentos.

    Tudo feito com plantas daquelas que aguentam o calor, o fraco solo, o sal.

    Verde linguagem virada para o céu como solene exposição de perturbadoras jóias.

    Aquilo esmagou-nos. Estava ali trabalho de meses, pesado amor. Nada ali poderia ser corrigido. Que desmesura. Salmos 91:15 Ele me invocará, e eu Lhe responderei; estarei com Ele na angústia; dela O retirarei, e O glorificarei.

    Jó 17:11 Os meus dias passaram, e malograram-se os meus propósitos, as aspirações do meu coração.

    Só não choro porque estou acompanhado, mesmo que de um grandioso amigo. Humanidade rima com orfandade. Ninguém é livre. Ninguém se livra.

    2 Coríntios 4:18 Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno.

    Actos 2:17 E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do Meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos sonharão sonhos.

    Actos 22: (fragmentos seleccionados e livremente sequenciados) E persegui este caminho até à morte, de repente rodeou-me uma grande luz do céu. E caí por terra, e ouvi uma voz que me dizia: porque me persegues? E, como eu não via, por causa do esplendor daquela luz, fui levado pela mão dos que estavam comigo. E aconteceu que, voltando eu para Jerusalém, quando orava no templo, fui arrebatado para fora de mim.

    Tirámos várias fotografias, de perto e ao longe, atentas a pormenores ou de vistas mais largas. Por mim, mais do que poder contar toda a história com recurso a imagens, queria era compreender o fito de tudo aquilo. Depois de trocar aqueles símbolos e citações por frases e parágrafos, revelar-se-iam apenas esparsos aforismos, ou à luz viria um arrebatamento, um milagre?

    Possuídos por aquela ignição, regressámos às nossas casas. Nem me lembro de nada desse caminho de volta. Cada um na órbitra do seu Sol, a congeminar o soberbo.

    No dia seguinte, claro, um telefonema de troca de perplexidades e tecer de hipóteses poéticas. Mas, e depois? O que fazer de tudo aquilo?

    — Nada, olha que merda. Fascista do caralho, deixa que se renove o Mistério!

    Mas eu ardia do querer-saber. Assim que pude, fui ao laboratório buscar as revelações das fotografias. Continham tudo, mas não Tudo. E foi essa a ponte que quis atravessar. Através duma Bíblia, fiz corresponder boa parte daquelas abreviaturas a texto.

    Apareceram-me trechos como se fossem o silêncio que antecede o trovão, palavras como arados que rasgam raízes, desagregam terra e abrem sulcos.

    Quanto a agarrar o porquê de alguém querer falar com o Céu através destes índices plantados nas dunas — nada. O sangue que alimentou aquele projecto permaneceria passível de ser usado para transfusões mil, cama para todas as especulações.

    Havia de lá voltar, anos mais tarde. Poucos vestígios restavam. Um sentimento igual a pernoitar num local sacro. Mas o aroma mais claro e intenso vinha dum cheiro a aventura só possível na irmandade que se borda nas grandes amizades — sem compromisso senão o de um gosto pelo que é vasto. Imponentes nos braços da fortuna, fervilhávamos nos meandros do combate contra a indiferença das estrelas

    Paulo Vero é homem dos sete ofícios


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • A estrada para Jerusalém

    A estrada para Jerusalém


    Prólogo

    No ano dito da graça de 1939, a Inglaterra dominava a maior e melhor parte do Médio Oriente na sequência dos mandatos que lhe tinham sido atribuídos após a vitória sobre o império otomano na 1ª Grande Guerra.

    Com a tempestade da Segunda Guerra Mundial, surgiu nas areias do Norte da África, uma força tão imprevista como o vento do deserto que tudo varre à sua frente: o exército do marechal Rommel que, após sucessivas vitórias sobre os britânicos, chegou a 4 de Julho de 1942 a El Alamein, às portas de Alexandria.

    Quem sabe o que teria sucedido se Rommel não tivesse sido detido nesse verão em El Alamein pelas forças do 8º Exército britânico do general Auchinleck? Quem sabe se, após conquistar o Egito, não marcharia pelo Próximo Oriente adentro em direção à Palestina e, depois, quem sabe, em direção ao Iraque para capturar os poços de petróleo aos Aliados ou em direção ao Irão para atacar a União Soviética, enquanto o 6º Exército alemão se aproximava de Estalinegrado?

    Não sabemos. E porque não sabemos podemos imaginar pois é desse estofo que são feitos os mitos e, neste caso, a novela improvável que dá pelo título de Rommel em Jerusalém.


    A 1 de Agosto de 1942, à cabeça de uma longa coluna do Africa Korps, o 33º Batalhão de Reconhecimento rolava em direção a Jerusalém, culminando o formidável avanço das forças do marechal Erwin Rommel no Próximo Oriente. Deixando para trás Tobruk, conquistada no primeiro dia daquele Verão, o Afrika Korps triunfara em El Alamein contra o 8º Exército britânico. Após a queda de Alexandria em 10 de Julho, o Panzer Gruppe Afrika e os aliados italianos dirigiram-se para o canal de Suez, e cruzaram-no em Port Said, sem mais delongas nem dificuldades. Após uma paragem para reabastecer e reforçar, em que recebeu a 164ª Divisão, vinda de Creta, Rommel decidiu continuar a avançar. Conquistou El Arish no deserto do Sinai, e dirigiu-se para a Terra Prometida, via Gaza. Para trás ficava o norte de África; à sua frente estendia-se o Médio Oriente.

    Entrando na Palestina por Siquém, o Afrika Korps realizou a habitual manobra em tenaz, do Blitzkrieg. Enquanto a 15ª Divisão Panzer subiu para norte pelos montes de Hebron, a 21ª Panzer dirigiu-se para Haifa de onde depois obliquou para Jerusalém. Os generais ingleses encaixavam golpe sob golpe, preferindo retirar a serem derrotados em campo aberto. E após uma derrocada de três meses, que começara nas linhas de Gazala, na Tripolitânia, recuaram para a linha de obstáculos naturais da Cisjordânia, – formada pelo rio Jordão, o Mar Morto e o Lago Tiberíades – procurando negar o acesso dos alemães aos cada vez mais próximos campos petrolíferos do Médio Oriente. Os soldados britânicos sentiam-se bravos, mas confundidos e os generais reconheciam-se confundidos mas bravos. Jerusalém foi declarada cidade aberta e nela apenas ficaram as células do Hagannah.

    Ao longo da estrada batida pelo pó levantado pelas viaturas alemãs, os árabes saudavam o desfile com ramos de palmeira enquanto as mulheres emitiam trinados de aprovação. Sem dúvida um momento glorioso a ser proclamado pelos jornais e rádios nazis como mais uma soberba vitória do Eixo. O Terceiro Reich chegava ao Reino de Deus. Sr. Marechal os jornais vão dizer de si que é um novo Alexandre Magno ou um novo Frederico Barbaroxa gritava-lhe o tenente Berndt, dos serviços de propaganda da Wehrmacht e que gozava de confiança particular junto de Hitler. Talvez, talvez, Berndt, sorria-lhe o marechal enquanto se dessedentava bebendo água da sua caneca de zinco e acenando à multidão. Vamos escrever que o senhor traz o Ocidente às ruas de Jerusalém. Rommel gritou-lhe passados uns instantes. Escreva o que quiser, Berndt. Mas sabe bem o que faziam nos triunfos romanos. Berndt sabia.Havia sempre um escravo atrás do conquistador que repetidamente aproximava-se do ouvido do general e dizia: “Lembra-te que és mortal!”

    A coluna de veículos roncava no meio dos povoados que salpicavam as colinas dos montes de Hebron, onde piteiras e figueiras separavam as culturas em socalcos das populações da região. Enquanto se sucediam os quilómetros, os pensamentos de Rommel voavam para paragens bem longínquas. Uma vez chegado a Jerusalém teria de decidir o passo seguinte. Como um touro que investe, teria de escolher com qual dos dois cornos possantes acossaria os adversários. Poderia seguir em direção aos poços de petróleo do sul do Iraque, privando os Aliados do nervo da guerra que alimentava tudo o que se movia na terra, mar e ar; ou então poderia seguir até ao Irão e às portas do sul da Rússia, levando a guerra até perto de Estalinegrado. Qualquer dos objetivos seria um alvo grandioso a acrescentar à sua grandiosa vitória no solstício de Verão. Hitler fizera-o marechal nessa noite ainda recente. mas já tão distante de 21 de Junho. Rommel apenas comentara “Preferia que me enviasse mais uma divisão” enquanto impelia as unidades a seguir para o Egipto.

    As longas filas de veículos eram como os anéis de uma serpente a aproximar-se da vítima. Sucediam-se os blindados de reconhecimento, os transportes de rodas e lagartas cheios de infantaria, tratores de artilharia e muitos camiões capturados aos ingleses – o chique inglês do Afrika Korps – e ainda mais blindados, camiões tanque e, sobretudo, os tanques, vencedores de cem batalhas, cavalos de aço, com os seus trilhos, cascos e torres de onde emergiam as poderosas peças de 50 e 75 mm, curtas e longas, prontas a cuspir a morte. Era o Afrika Korps sempre à míngua de homens, veículos e abastecimentos, mas impelido pela vontade de aço do seu comandante. Os soldados mastigavam nacos de carne fria, extraída das latas de conserva da administração militar italiana, onde se destacavam as letras AM, que os alemães por irrisão liam como Armes Mussolini. “Pobre Mussolini”, o chacal da 2ª Guerra Mundial que vinha sempre no fim de cada batalha à procura de despojos. Mussolini até mandara bombardear Tel Aviv, Haifa e Acre no início da campanha do norte de África, em Junho de 1940, infligindo estragos e vítimas e dando origem a grande ansiedade nas povoações.

    Após ladear as colinas da Judeia pontilhadas por pequenas casas, a estrada começou a subir suavemente até Jerusalém. Oh Jerusalém! Esplendorosa, antiga, eterna, suja, ruidosa, estirada ao sol, cheia dos bons e maus cheiros de alimentos e estercos, e repleta de gentes, religiões, fés e mistérios. Por entre a massa de casa baixas, erguiam-se minaretes de mesquitas, torres de igrejas, cúpulas moles de sinagogas, a torre de David, e basílicas que subiam pelo monte das oliveiras, apontadas ao céu, como antenas dirigidas a um mistério maior do que a humanidade que cá em baixo se arrastava. A mais poderosa máquina de guerra do mundo chegava à mais santa das cidades, à cidade da paz, Oh Jerusalém devassada, que mais te aguardava? Que te iria suceder?

    O marechal Rommel, numa das suas viaturas

    À medida que entrou nas encostas urbanizadas de Jerusalém, a coluna mudou de dispositivo: para trás ficavam colonatos judaicos, aldeias de árabes cristãos e de árabes muçulmanos. Entrava-se agora nos arrabaldes e a estrada aberta cedeu lugar a ruas onde poderia espreitar o perigo. Os soldados empunhavam as espingardas nas mãos crispadas e as metralhadoras pesadas giravam nas torres dos veículos blindados. Contudo, não se via sinais de hostilidade e aqui e além, novos grupos saudavam a entrada dos conquistadores   

    As colunas aproximavam-se da cidade velha. Na esquina da estrada de Jaffa com a rua de Malka, o general Bayerlein gritou ao condutor enquanto consultava o mapa “Vire à direita e siga na direção da avenida do Rei David. Nessa esquina, onde estava a loja do fotógrafo Marar, a sapataria Jevod com a sua bela montra, e a empresa de construção Seraphim, vários soldados saltaram dos veículos e ofereceram cigarros à população. Eram a guarda avançada aos veículos que agora avançavam em marcha lenta, com os motores a roncar. A serpente de aço estava agora no coração moderno de Jerusalém com ruas arejadas e edifícios de porte.

    Nessa beira ocidental da cidade, avultava um edifício que tinha sido assinalado para estabelecer o quartel-general do Panzer Armee. No alto de uma colina rodeada de amplos jardins, erguia-se a Associação Cristã da Juventude, abandonado pelos proprietários norte americanos; era um marco orgulhoso erguido por Arthur Harmon, o mesmíssimo arquitecto do Empire State Building, contraponto do novo mundo da América à antiga torre de David que se erguia a pouco mais de um quilómetro de distância. Para ali se dirigiu a guarda avançada de Rommel.

    O esquadrão passou pelos grandiosos portões abertos e entrou no pátio rodeado de palmeiras do complexo de edifícios do YMCA, imaculadamente brancos. Ao centro, destacava-se uma torre sineira ladeada por dois corpos de quatro andares. Os veículos pararam, os soldados montaram um dispositivo de segurança. Após uma primeira inspeção ao edifício pelos pioneiros, para lá se dirigiu o alto comando alemão. Ali se instalaria o novo senhor da guerra na Terra Prometida. Quantos conquistadores por lá tinham passado… Quantos tinham ficado às portas, como Ricardo Coração de Leão. Quantos tinham ali conhecido o triunfo e a glória. Quantos tinham ali saboreado a copa da vitória…

    Militares britânicos em Jerusalém, 1940, próximos da torre de David.

    Nabucodonosor arrasou o primeiro templo e expulsou os judeus para Babilónia. Tito e Vespasiano destruíram o segundo templo após a revolta de Simão bar Kosheba. Adriano aplanou a cidade e mudou-lhe o nome para Aelia Capitolina. Heráclio perdeu-a para o califa Omar. Os muçulmanos perderam-na para os Cruzados e Godofredo e Balduíno tornaram-se reis de Jerusalém. E estes voltaram a perdê-la para Saladino. Os britânicos de Allenby conquistaram-na em 1918 aos otomanos e agora perdiam-na para os alemães. As cruzes gamadas iriam drapejar em Jerusalém, não se sabe por quanto tempo. Por certo que o mundo se preparava para algo de terrível.

    “Marechal, por quanto ficar tempo ficaremos aqui? “perguntou-lhe o tenente Berndt. Rommel deixou passar alguns momentos. “… Sabe uma coisa Berndt? Esta cidade é um mistério…”

    [CONTINUA]


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  • Verde, verde… 

    Verde, verde… 

    Raimundo nasceu em berço de ouro. Na verdade, em berço dourado, mandado fazer de propósito para o único filho da família Souza. O menino medrou. Cresceu. Cresceu. Cresceu. Diziam os pais que o rebento era espigadote. Os avós, que era bom para ir ao figo. Os amigos, que devia jogar basquete. E ele, que não compreendia o que significava espigadote, nunca tinha visto uma figueira nem gostava de basquetebol, ignorava os comentários. Aliás, tudo lhe era indiferente. Sem preocupações e sem nada melhor para fazer, crescia.

    A escola era um grande aborrecimento.  Os professores chamaram a atenção dos pais. O rapaz andava desinteressado e em más companhias:

    ⎼ Já não basta ele andar de cabeça no ar. Olhem que o Carlos não é flor que se cheire. ⎼ avisaram.

    fig on brown wooden surface

    Com uma longa carreira no ensino,  o diretor afirmava que o problema do rapaz era falta de motivação. Estava enganado. Muito enganado, como se veio a provar quando o Sr. Souza adquiriu o colégio. O Raimundo passou a ser o primeiro a chegar e o último a sair. Sentia-se em casa. Tornou-se um aluno exemplar. Não falhava o quadro de excelência. Ele e o Carlitos, quem diria?

    Por esta altura, o Carlos jogava futebol e o Raimundo decidiu entrar também para a equipa. O treinador dizia que o rapaz era grande, mas não era grande coisa. A Souza & Filho Lda. não tardou em perceber as dificuldades do clube da vila. Um patrocínio generoso. O nome da empresa estampado nas camisolas dos jogadores. O estádio pintado de fresco. A bancada presidencial renovada. E, finalmente, um treinador capaz de reconhecer o verdadeiro talento. Raimundo, esse, perdeu o gosto pelo desporto. Já não lhe apetecia.

    Entediado, deambulava horas e horas pelo calçadão, junto à praia. Certo dia, perdeu-se de amores por uma ruiva que ali passava. Não a voltou a ver, mas tinha a certeza de que era o amor da sua vida.  Sentado na gelataria, lambia colheradas de gelado de baunilha e procurava-a com o olhar. Enquanto isso, crescia, crescia, crescia. Para passar estas horas lentas e acalmar o coração, começou a versejar. Rimas únicas, de uma singularidade irrefutável: amor a rimar com pavor; olhar com almoçar; correr com morder; amanhã com maçã; mulher com colher; coração com leitão. Quatro longas tardes. Dezenas de poemas. Era obra. Reuni-la em livro, inevitável. O pai, que nem era apreciador de poesia, ficou fascinado. Reservou para si 500 exemplares. Toda a tiragem. Não houve cliente, fornecedor ou funcionário da Souza & Filho que não recebesse um volume de A ruiva que me cativa. Estava ali um grande poeta, sim senhor:

    – Um Pessoa, se ele quisesse! exclamou o professor de literatura.

    Mas o Raimundo não tinha vontade de continuar a escrever. Estava visto que a ruiva não voltava e já estava tudo dito.

    person wearing brown boots

    Uma banda! Uma banda é que era! A música nunca fez mal a ninguém. Tinha tocado flauta no colégio. Um saxofone não havia de ser assim tão diferente. O Carlos era afinado. Podia ser o vocalista. Comprou mais uns instrumentos, o pai mandou preparar uma sala de ensaios na cave. Juntou uns amigos e  formou a Raimundo & Friends. Ensaiaram uns dias. Gravaram duas músicas e enviaram-nas para uma conhecida editora de Lisboa. A resposta foi estranha: queriam conhecer o Carlos. Não fosse haver engano, o motorista da empresa levou os dois amigos até à capital. Mas não havia. Queriam mesmo conversar com o Carlos. Seguiu-se um concurso de novos talentos. Depois o Festival da Canção, um CD, a rádio, concertos… O Carlos não parava. O Raimundo já mal conseguia falar com ele. Assistia ao longe, fascinado pelas ovações, pelos elogios, pelos grupos de fãs que seguiam o amigo por todo o lado.

    Enquanto isso, a Raimundo & Friends continuava a ensaiar. Tocavam nos bares e restaurantes da vila, nos bailes, nas feiras. Entristecia-os ver o público conversar enquanto atuavam. As bocas cheias de farturas, de fogaças, de sandes de porco no espeto. O Raimundo foi desanimando. E, à medida que desanimava, a sua pele ganhava um tom estranho. Esverdeado. Os médicos não conseguiam explicar. Fechava-se cada vez mais no quarto. Seguia quase ao minuto a vida do Carlos. Parou de crescer. Encolhia, ao invés. Completamente verde.

    Na vila, a mudança não passou despercebida. Tornou-se tema de conversa. Havia teorias:

    ⎼ É da comida. Só comem porcarias. ⎼ dizia a D. Amélia.

    ⎼ Eu digo que é da água. Está cheia plástico. ⎼ respondeu o Sr. Jorge.

    man holding his neck

    ⎼ Aquilo é da vacina. Eu bem avisei, mas não quiseram acreditar. ⎼  afirmava a D. Manuela, feliz por finalmente provar que tinha razão.

    Uma velha, enrolada sobre o cajado à porta do Centro de Saúde, levantou o rosto. Com ar grave e seguro, fez o diagnóstico:

    ⎼ É inveja, digo-lhe eu, que já vi tudo.

    O Raimundo, verde, verde, continuava a mirrar. Deixaram de o ver. A vila inteira foi mobilizada. Nada. Nem sinal do rapaz. Tinha encolhido tanto que tinha de se esconder não fossem pisá-lo.  Um dia, aproveitando a calma do amanhecer, trepou a uma folha de malva para apanhar os primeiros raios de sol. Estendeu-se, espreguiçou-se, bocejou. Uma toutinegra ensonada saiu de dentro de um arbusto e comeu-o.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve


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  • Num futuro perto de si

    Num futuro perto de si


    Um homem jazia no centro da sala prateada com eléctrodos na cabeça que comunicavam com um computador. A tela exibia o cérebro com várias cores.

    — Com um simples toque no botão, conseguimos eliminar as memórias traumáticas, as maiores tristezas, os maiores medos. Sairá daqui um ser renovado. Esta criatura apegou-se à religião, a psicólogos, a psiquiatras. Em segundos, sairá liberto de todos os seus problemas.

    Os dois continuaram a caminhar.           

    — Está a ver esta mulher?               

    — Sim.

    — A mãe repudiou-a, o pai abusou dela sexualmente… Viveu na pobreza material e emocional, o seu companheiro batia-lhe, foi prostituta, drogada, alcoólica. Está a ver o grau de dor que esta senhora transportou nos últimos anos? Veja bem — o seu dedo indicava uns gráficos numa tela. — Uma dor intolerável. Mutilava-se para deslocar a dor. Acha isso agradável? Só não recorreu ao suicídio por causa da ideia bacoca da fé. Converteu-se ao veneno da religião, porque nada mais lhe restava. Com esta máquina, vamos inocular no seu cérebro cargas de fx47 até que se recomponha. Ela pediu que não removêssemos memória…

    — Pessoas de palavra.

    — Deixe lá a palavra e o valor da palavra… Por higiene, dispenso ouvir a tralha dos «valores». O importante é maximizar a utilidade. Os valores cegam a capacidade de ver o real, enquanto os resultados são objectivos e verificáveis. Este método tem uma eficiência menor do que o primeiro. Se isto não funcionar, se isto não funcionasse, quero eu dizer, teríamos de remover memória. 

    — Já têm casos de êxito?

    — Meu Bom Deus da Tecnologia! Quantos!

    — Mas li um estudo há duas semanas…

    — Duas semanas! Homem, na sociedade tecnológica, duas semanas são uma eternidade! Isso já não tem validade nenhuma. Isso é para arqueólogos!

    — Que lhe garante então que as verdades provisórias de hoje não sejam as mentiras de amanhã?

    — Você é um homem de museus, já percebi. Não quer ou não consegue acompanhar a velocidade do progresso. Os próximos milagres a que irá assistir talvez lhe dêem a dimensão…

    Uma porta abriu-se.

    — Viu? A porta respondeu ao meu desejo. Nesta sala, estamos a trabalhar no sentido de que os objectos respondam automaticamente a apetites do cérebro. A fé move montanhas aqui! Desejo, logo tenho.

    — Se tiver o dinheiro para isso.

    — Isto é apenas o princípio do princípio. Já imaginou o que será quando cada humano tiver o que deseja mal o desejo nasça?

    — Parece-me que a estrada natural é interrompida: definição do objectivo, esforço, concretização do objectivo, satisfação. Levando ao limite: conseguir tudo o que se quer sem fazer nada por isso pode ser quase tão desmotivador no longo prazo como não conseguir quase nada do que se quer fazendo tudo por isso. Ponderaram as consequências disto e de como o cérebro dos humanos deixará de ser um músculo exercitado?

    — Lá vem a cantilena das cavernas… Para já, humano é um conceito em transição. Nós não ponderamos, homem, nós andamos a reboque da tecnologia… Mas ouça: se preferir ir a pé para outro continente a usar tecnologia… vá! Entendeu?

    Andaram mais uns passos.

    — Conhece esta cara, certamente…

    — Este é o sujeito que anda a ser procurado…

    — Exactamente! Os robopolícias apanharam-no. Este indivíduo é… ou era… extremamente violento. Um agressor. Teve de ser internado aqui. Veja ali — apontava para um gráfico. — Os nossos aparelhos já diminuíram 873 tmy do seu índice de agressividade. Está um doce. Mas ainda queremos fazer mais. Muito mais. Bem, deixe-me mostrar-lhe uma coisa.

    Com o comando, desligou uma máquina.

    — Levanta-te.

    O homem levantou-se e sorriu.

    — Tu és um cabrão de merda! Vai para o caralho! A tua mãezinha chupa a minha pila como ninguém.

    O homem continuou sorrindo.

    — Toma, seu filho de puta! — disse, enquanto lhe dava uma vigorosa chapada na cara.

    O sorriso permanecia.

    — E agora só para ti…

    Um grande escarro acertou na cara do outro.

    O homem limpou-se, balbuciando palavras de repreensão.

    — Senta-te! Imediatamente!

    O sujeito obedeceu.

    — Temos de continuar a trabalhar nele. Ainda mostra sinais de rebeldia. Se tivesse vindo para cá mais cedo, não teria matado ninguém.

    — Se isto é um homem…

    — Já não era um homem antes! Era um monstro! Agora… é um monstrinho inócuo.

    — Mas…

    — Você é o homem do «mas»! Já sei, já sei! O discurso do Homem Fossilizado… Os velhos preconceitos: contra naturam, a identidade, a autonomia, o livre-arbítrio, o domínio da mente por forças exógenas, blá-blá-blá. Isso é uma visão de fora. Uma abstracção típica de quem está preso à canga dos filósofos, dos poetas. Mas vou adaptar-me ao seu linguajar. Deve gostar de conceitos arcaicos como liberdade e justiça. À luz dessas obsolescências, tente entender que a tecnologia também é boa. Somos todos escravos: do sítio em que nascemos, da família, da idade, dos genes. Pois bem, é dessa escravatura que nos estamos a libertar. Da dupla escravatura do Homem e da sua circunstância. Repare na idade: a degenerescência, a falência dos órgãos. Essa escravatura está a ser contrariada. Estamos a transplantar cérebros para corpos autónomos. Poderemos chegar muito longe. Acha a lotaria dos genes algo justo e libertador? Pois também essa escravatura está a ser corrigida. Bem, vamos para a próxima sala.

    Entraram na sala com maior número de imagens e sons.

    — Sala das Evasões… Esta sala sozinha tem aguentado o sistema… enquanto as outras não avançam significativamente… Estamos a trabalhar em filmes, músicas, vídeos, jogos, produtos de consumo, publicidade de produtos e ideias. Isto é uma parafernália. Estamos a trabalhar nos bastidores do entretenimento, do cozinhado perfeito das emoções induzidas… Num estádio mais avançado, esses próprios instrumentos serão desnecessários. Passo a explicar: se uma pessoa sente uma ou duas emoções fortes com um filme ou um livro, porque não tocar directamente na corda dessas emoções num instante, em vez de se perder tempo com poemas, enredo, personagens, essa treta toda? Queremos conhecer o cérebro até o dominar completamente.

    — Se esse poder cair em mãos…

    — O seu preconceito pessimista crónico… Coitado de si! Que infeliz!

    — Quem legitimou esse poder? Quem vos deu esse direito de enganar e manipular as pessoas?

    — Largue a posição de provocador e ponha-se na de aprendiz. Talvez lhe entre algo na massa encefálica… O senhor não mentiria para salvar a sua filha de ser morta? Temos mais informações sobre a sua filha do que o ela tem sobre si própria, fique sabendo. Cale-se e não ponha a verdade acima da felicidade. A coisa passa-se assim… Quer sentir calma? Sentirá. Quer sentir excitação? Sentirá. Não quer, mas precisa de sentir para não pôr em perigo outros nem alimentar ideias anti-sistema? Sentirá também. Melhor ainda: quer sentir-se anti-sistema? Nós damos-lhes mecanismos para alimentar essa ilusão.

    — Nem lhe pergunto se quem toca na corda de pôr o outro feliz, artificialmente feliz na minha estreita e obsoleta cabecinha, não poderá igualmente tocar na corda do sofrimento e provocar os maiores horrores. Tirando este senão de pessimista…

    — Homem, isso será útil para a tortura mais apurada. Você é amigo de algum terrorista? Se não é, não percebo a sua reserva. Mas o caminho que trilhamos, ou que queremos trilhar, não é o da repressão, é o da diversão.

    — Permita-me apenas fazer-lhe notar que essa bela ilha, não lhe chamarei de estupidificação para não lhe causar melindre, essa bela ilha de diversão ou de alienação que me apresenta, essa fuga sem a qual os humanos não suportariam viver na sociedade hodierna, afasta o ser humano da sabedoria, da procura interior, das coisas que o elevam… Isto não tem uma base técnica e, por isso, não percebe.

    — Não pessoalize. Não é de mim ou de si que se trata. É de algo colossal, do qual assumo orgulhosamente a minha condição de servo.

    — Nem é perceber… é sentir. Há coisas verdadeiramente importantes que não têm necessariamente justificação ou base técnica, como os direitos humanos, a liberdade, a poesia lato sensu.

    — Homem, as pessoas não querem ser sábias nem comem abstracções; querem ser felizes. Temos aí uma caterva de arruinados cerebralmente que estamos a recuperar por causa da «procura interior». E, além disso, você nem enxerga o paradoxo criado pelo seu caos mental quando fala da «sabedoria»: nós aqui laboramos no sentido do conhecimento do cérebro!

    — Para que as pessoas sejam plasticina nas vossas mãos.

    — Liberte-se do poder das palavras dos Fossilizados… Faça esse favor a si próprio! Não fique no triste papel do último resistente. As intenções não contam, contam os resultados. Se discorda, responda a si próprio: preferiria que um bem-intencionado ajudasse a atravessar a velhinha sua mãe na estrada e isso tivesse como corolário o atropelamento da sua progenitora ou que alguém que a tentasse matar não conseguisse sequer arranhá-la? Aquele jogo ali, homem — apontava com o olhar e o dedo indicador —, vai ser a maior droga que já existiu! Irá, aliás, benemeritamente substituir muitas drogas que matam e arruínam lares. Veja os olhos esbugalhados daquele indivíduo. Não pensa em mais nada! Só no jogo! Mas ainda estamos a aprimorar a necessidade de dependência e a capacidade de alheamento que o produto provoca.

    — Mas o vício não é prazer, requer obediência e mata a liberdade.

    — Veja se percebe… Se não há uma fracção de segundo para o desprazer durante o jogo e se o jogador consegue estar sempre imerso no jogo, um mínimo de lógica dir-lhe-á que ele é feliz a tempo inteiro.

    — No próprio jogo, suponho que tenha de haver desprazer para depois haver prazer. Ganhar sempre tornaria o jogo bocejante mais dia, menos dia. Mas vejo que temos conceitos diferentes de felicidade… Felicidade, no meu pobre espírito, não é maximizar o prazer, é o tom de fundo, a paz, a satisfação interior para lá dos bons e maus momentos. O que me mostra são apenas poderosas drogas que criam um mundo virtual, mas, ainda assim, nos interstícios, quando o indivíduo volta ao real, quando se olha ao espelho…

    — Está tudo pensado. O jogo é tão viciante, que quase não haverá interstícios. Até porque não os queremos a causar distúrbios. Quanto ao mais, temos comprimidos para os interstícios. Homem, veja o que está à sua volta e deixe a realidade destruir os pedregulhos do seu cérebro. Eles estão deliciados, não se queixam, mas você quer que eles se queixem de coisas etéreas, de conceitos que o aprisionam a si, educado, rigidamente educado que foi na velha escola caduca dos líricos. O seu ódio da teologia do lirismo cega-o! Isto é útil para o jogador e, não menos importante do que isso, mais seguro para todos.

    — A vossa utopia reside em o Homem, ou um arremedo dele, passar a adaptar-se totalmente às necessidades do sistema tecnológico. Apesar de ser beato da tecnologia, sendo a sua condição a de humano, pergunto-lhe se considera a hipótese de um dia os próprios humanos serem dispensáveis em certo estádio tecnológico?

    — Dormi a meio da sua prédica… Você insiste em querer suscitar problemas… Que dizer? Um asno é mais inteligente do que você. Vejamos, então, à luz do Homem, como é que as coisas se passam, meu caríssimo poeta. Olhe para eles, olhe para eles… Eles não nos ouvem. Os jogadores conseguem esquecer-se dos problemas individuais, dos problemas da sociedade, e os outros deixam de ser prejudicados por eles. É difícil para si entender que todos ganham?

    — Uma maravilha, ainda que isto talvez não seja atacar o problema pela raiz. Nem me atreverei a aventar que o sistema estará a ter cada vez mais casos de inadaptados, de pessoas que não conseguem sobreviver mentalmente nele e que aquilo que me mostra são apenas as formas que o sistema tem de garantir a sua preservação e expansão. Observo apenas que o sábado deixa de ser feito para o Homem; o Homem volta a ser feito para o sábado. Digo-lhe ainda que, por incapacidade minha certamente, tenho alguma dificuldade até, imagine!, em aderir a propostas que resolvam todos os problemas de toda a gente.

    — Ora aí está o lastro da pequenez mental… São milénios de provincianismo a falar na sua cabeça. Tente não pensar e observe. Areje os neurónios… Veja a cara de entusiasmo dos jogadores, estão possessos pelos deuses! Veja, veja, veja — gesticulava num frenesi — e deixe-se de uma vez por todas de observações idiotas. Venha agora conhecer os nossos geneticistas…

    — Sim…

    — Está a ver? O gene do crime, de uma série de doenças físicas e mentais, da própria fealdade… Caminharemos para erradicar tudo isso com o corrector dos genes!

    — O crime, por exemplo. Se alguns pais que saibam precocemente não quiserem…

    — Você tem um problema mental estrutural! — interrompeu-o. — Só se concentra no acessório em detrimento do miraculoso. Tenho outra visita a seguir. Não tenho muito mais tempo para si. Queria só mostrar-lhe a Sala Eros. A textura e o olfacto são finalmente equiparáveis à audição e à visão. As pessoas podem tocar-se e cheirar-se a qualquer distância. Iremos dar um salto quântico. Todas as fantasias poderão ser realizadas. Ainda não temos autómatas e autómatos perfeitamente confundíveis com os humanos, mas as similitudes são cada vez maiores. O humano já conversa com o autómato, já se excita. Acha justo um homem ou uma mulher ou qualquer outro género não poder ter uma vida sexualmente cheia por ser menos atraente, seja por que motivos for? E as parafilias? Não acha mais saudável para todas as partes as parafilias poderem ser vividas sem causar dor a outro? As criaturas que vê não sentem. Esta sala tem diminuído as neuroses. E de que maneira!

    — Muito bem, então. Estou convertido. Está na hora…

    — Pois está… Ninguém é infinitamente estúpido, não é verdade? — disse, fazendo que os seus olhares se cruzassem. — Que achou disto tudo?, diga lá.

    — Não sei se é um inferno paradisíaco ou um paraíso infernal. Estava a pensar no seguinte: um homem tirano tem uma propriedade em que trabalham quinhentos trabalhadores de manhã à noite. Com as vossas drogas, eléctrodos, implantes, comprimidos, eles são totalmente obedientes, produtivos e, note bem, felizes. Mas pergunto-lhe: deixam de ser escravos?

    — Não precisava de dizer nada. Ah, ah, ah. A sua actividade cerebral foi captada. Esteve sempre em tensão, sempre dominado pela raiva e pela repulsa. Provavelmente, quereria sair daqui e pôr uma bomba nisto tudo. Deve julgar que andamos a dormir.

    Umas correntes nasceram do chão e imobilizaram o homem.

    — Não sairá daqui… Tem duas hipóteses: ou morre, ou é lavado e enxaguado cerebralmente, passando a integrar esta casa como funcionário exemplar.

    — Escolho a primeira hipótese.

    — Seja feita a sua vontade.

    Passados uns segundos, atirou:

    — Nunca houve senão segunda hipótese. Ah, ah, ah. Sossegue, a sua memória não guardará um átomo das suas obtusas convicções.

    O chão cindiu-se e o futuro funcionário exemplar foi arrastado para uma sala de maquinaria.

    Manuel Matos Monteiro é escritor e director da Escola da Língua


    N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.

  • Um parque humano

    Um parque humano

    Estava calmamente sentado debaixo de uma árvore, sozinho, num parque que já faz parte de mim – ao ponto de por vezes achar que é meu –, e nem mesmo os costumeiros mendigos e consumidores de droga que fazem parte do habitat por lá deambulavam.

    O termómetro não marcaria mais de 20 graus e pairavam algumas nuvens indistintas no céu.

    Junto a mim, passavam os patos e os cisnes habituais naquele parque extremamente verde e com um certo glamour ecológico, até parecendo que já me conheciam.

    Seriam os patos de Pequim assim tão simpáticos?

    Ouviam-se também pássaros a cantarolar e a assobiar. A atmosfera primaveril era perfeita para estar a escrever nas notas do meu telemóvel uma mensagem elaborada para uma amiga, quando vejo um polícia com ar cansado ao longe. Percebi de imediato que se dirigia a mim.

    Tinha uns 45 anos e estava de máscara. Fazia um esforço grande para se deslocar, uma vez que o solo estava ligeiramente inclinado não podendo, no entanto, considerar-se uma subida.

    Parecia que o agente acabara de correr a maratona de Nova Iorque. E como estava, efectivamente, a vir ter comigo, tirei a minha máscara do bolso, mas quando a ia colocar na boca, ele disse ainda ofegante:

    Faz questão de estar a pelo menos dois metros de mim?

    Respondi que sim. E ele continuou:

    Então o senhor não tem de meter a máscara. Boa tarde, era só para lhe dizer que tem de circular!

    Como?

    Sim, tem de circular. Pode estar no parque, mas tem de circular. É uma directiva do Governo.

    Sabe que estamos em confinamento e que foi declarada uma pandemia?

    Respirou fundo, parecia estar mesmo cansado.

    Quer dizer, não posso estar aqui mas posso andar por aí?

    Sim senhor!  Faça o que lhe disse e boa tarde.

    Enquanto se preparava para ir embora, ainda o inquiri:

    Gostava de fazer uma pergunta…

    Claro! Se souber responder…

    Sorriu envergonhadamente.

    Eu sou realizador de cinema e vídeo, e fotógrafo, estou aqui a trabalhar. A rua é o meu local de trabalho…

    Já somos dois!

    Interrompeu. Confirmei que estava com uma respiração anormal e sugeri que tirasse a máscara. Disse-lhe também que não era bom estar a inspirar o seu dióxido de carbono.

    Então se não se importa, acho que vou tirar a máscara por uns segundos. Estou a dois metros de si, não tenha medo.

    Claro que não tenho medo. Fui eu que sugeri.

    Respondi, chateado.

    Nitidamente o homem começou a ficar em poucos segundos com outra cara. Uma ligeira cor rosa apoderava-se paulatinamente do seu rosto bastante comum. Era um homem encorpado mas nitidamente parecia andar em baixo, senti também que gostava de ser polícia.

    Pode fazer então a pergunta.

    Lembrou-me.

    Como dizia, sou artista, pronto… e uso o meu telemóvel para trabalhar… então se quiser filmar ou fotografar aquela árvore por exemplo, ou aquele cisne, posso parar para o fazer? A fotografia, caso contrário corre o risco de ficar desfocada ou tremida…

    Mas é profissional?

    Sim.

    Nesse caso, sim.

    Notei que estávamos parados há pelo menos dois minutos.  

    Já agora, qual é esse critério que vocês usam? Os vírus apanham-se menos a andar?

    Pigarreou nervosamente.

    …Sim!

    Por exemplo, vão ali cinco rapazes juntos, mas em andamento…

    Apontei.

    Estou a ver…

    E é pior eu estar aqui sentado sozinho?

    Parece que sim.

    Pigarreou novamente sem convicção.  

    Ai é?

    Reforcei.

    Diz que sim…

    Mas diz que sim… Quem?

    Você não vê os telejornais?

    Mudou até de tom, tornando-se ligeiramente mais agressivo.

    Vejo. Mas eu não quero que você use a lei dos telejornais. Sentia-me mais seguro se vocês tivessem recomendações próprias… de epidemiologistas por exemplo. Estava mais seguro se o Ministério da Administração Interna contactasse directamente com a DGS, por exemplo. Não me parece que seja o caso. Até parece que quem manda são as televisões através dos telejornais.

    Não queria mais nada. Isto é uma excepção, uma emergência. Pensa que está na Noruega?

    Se é para estarem a seguir o que os telejornais dizem, não era preciso a polícia.

    Atirei só para chatear.

    Não bata mais no ceguinho. Calma!  Também não fique assim. Só mandei circular. Já não se pode dizer nada que ficam logo nervosos os artistas. Ai coitadinho!.. É muito sensível.

    Até achei piada à rápida mudança. E respondi com uma pergunta:

    Então, mas nós estamos aqui parados a falar ao tempo e agora? 

    Tem razão sim senhor.

    Mudou de atitude.

    Se calhar ficámos infectados…

    Arrisquei. O homem pôs automaticamente a máscara e disse:

    Tem razão. Vamos circular.

    Fez uma pausa e quando ía para despedir-me e agradecer-lhe pelo facto de me deixar estar parado a fotografar, o polícia ainda com cara de chateado, perguntou intrigado:

    Que género de filmes faz?

    Policiais.

    Menti.

    Policiais?  Percebe a situação?

    Deu uma gargalhada.

    Está a falar com um polícia e tem uma câmara na mão, um telemóvel, vá. Tem piada. Também gosto muito de policiais. Gosto muito do Millers Crossing.

    Esse não é policial. É de gansters.

    É a mesma coisa. Então e nos seus filmes somos bons ou maus?

    Faço policiais mas com detectives com carros descapotáveis, não é com polícias normais como o senhor agente.

    Menti novamente, lembrei-me do Miami Vice old school que via quando era puto.

    Então e os seus policias também têm crocodilos de estimação a viver em barcos?…

    Deu uma gargalhada forte novamente e tirou automaticamente a máscara como acto reflexo. Entretanto falávamos enquanto andávamos, mas íamos parando quando surgia uma palavra ou uma ideia mais interessante, hábito muito português do pára-arranca. Percebi que o bófia que já tinha uma tonalidade que se visse na cara, também tinha visto a série dos anos oitenta, em que até os mendigos vestiam blazers com chumaços.

    Não. Não faço remakes do Miami Vice.

    Disse a certa altura quando a série veio à baila novamente, fingindo estar chateado, ou estava mesmo, já não sei bem. Não era a primeira vez que PSPs me abordavam na rua nessa altura de confinamento, ou porque não tinha máscara, ou porque não eram horas para estar na rua, ou mesmo só para chatearem.

    Oh amigo, não leve a mal, mas eu gostava muito dessa série. Até chorei no dia em que o Tubbs levou um tiro. Se calhar até foi isso que me fez vir para a polícia. Para vingar o Tubbs. Às vezes penso que, se não fosse polícia tinha-me metido nisso dos filmes. Nós aqui não ganhamos nada. Você deve ser milionário não?

    Não. Mas em que realidade é que você vive? Perdemos dinheiro até.  

    Olhe mas temos outra coisa em comum. Ambos temos de comprar as armas.

    E deu outra gargalhada bem sonora. Até eu me ri desta vez.

    Bem, quem o viu há uns minutos e quem o vê agora…

    Disse eu, notando a transformação evidente.

    Sabe, é que conversar faz bem.

    Naquele momento já estávamos junto da minha mota fora do parque. Ele olhou para ela.

    Não quero acreditar. É sua? Sabe que uma das minhas outras paixões são Vespas. É uma PK 50?

    Não. É 125.

    É linda. Tenho duas Sprint dos anos 70. Tem de lá ir ver à minha garagem em Sesimbra. Se ficarmos amigos… Uma delas é amarela também.

    Não lhe consegui dizer que estas já não eram da Piaggio mas da LML, uma marca indiana que comprou a italiana. Dizem que em caso de avaria da cambota não terá arranjo e irá para o galheiro.

    Sei muito bem quais são.

    Mudei de cara. Também adoro Vespas e gosto sempre de conhecer pessoas que pertençam ao mesmo clube. O polícia, naquele momento, era mesmo outro. Ia dando umas biqueiradas no pneu da frente como os portugueses de uma certa geração fazem, nunca se percebendo bem porquê, enquanto enaltecia aspectos da mota. Uma vez também dei uns pontapés na furgoneta de um vizinho só por dar enquanto falava do tempo, só porque via os outros fazerem. Depois arrependi-me.

    Isto pega sempre não é?

    Mentira! Se havia coisa que as Vespas tinham, era não pegar muitas vezes pelo menos à primeira. Mas respondi que sim, sabendo que ele sabia que não.

    Curioso como ainda há vinte minutos éramos dois desconhecidos mediados por uma autoridade meio ficcional e agora éramos como irmãos. Estranho como a paixão por motas e cinema pode mudar circunstâncias, ainda que sem qualquer espécie de profundidade. Somos latinos, não há nada a fazer. Ele olhou para mim muito amigavelmente e disse:

    Olhe, estou agora a acabar o meu turno. Não quer ir ali beber um café ou qualquer coisa? Eu ofereço com todo o prazer.

    Mas está tudo fechado.

    Fiz notar. Naquela época as cidades pareciam aldeias.

    Sim, mas para nós eles vendem, não se preocupe. Vamos ali ao Morais. Ele até nos deixa entrar lá para dentro para a cave. Acha o quê? Que eu ia agora para casa deprimir-me e ver comédias do canal Hollywood? Ainda dava um tiro na cabeça… Ou na televisão!

    Rimos os dois.

    Está bem.

    Assim vai poder falar dos seus filmes. A vida é fantástica quando somos reconhecidos e temos afinidades. Não acha?

    E deu-me uma palmada amigável nas costas.

    Sim, acho!

    Realmente o mundo anda estúpido.

    Concluiu o agente ainda parado e em silêncio enquanto fitava a minha mota que muitas alegrias me deu enquanto andou.

    Ao fundo ouvia-se ainda o belo canto dos pássaros que vinha do jardim onde nos conhecemos e ainda que indistintamente e de forma abstracta, os pássaros pareciam confirmar a conclusão do polícia.

    Pelo menos para mim e para a minha Vespa, isso era óbvio.

    Ruy Otero é artista media

    Ilustrações de Ruy Otero


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  • A estrelícia 

    A estrelícia 

    É quase primavera. Ajoelhado, arranca pacientemente as azedas que teimam em invadir os canteiros. Um carreiro de formigas entra pela terra seca. Puxam, empurram, arrastam como podem pedaços de granulado. O cão olha espantado a comida que sai da tigela e segue jardim adentro até desaparecer. O trajeto repete-se uma e outra vez. Vaivém implacável que aprisiona os insetos à rotina.  Retomam-na a cada dia.

    Salvador detém-se a observar as minúsculas Sísifos. Talvez devesse tapar a tigela.  Mas dá-lhe pena.  Pergunta-se se as formigas terão memória do dia anterior. Ou será que, como ele, acordam e percebem que o sono foi apenas o alívio permitido entre os dias?

    Pergunta-se se estará sozinho ou se haverá outra criatura no mundo que, a cada amanhecer, seja esmagada pela realidade. Que receba, a cada despertar, a notícia da morte do amor da sua vida. Se haverá, para além dela, mais alguém que faleça um dia e outro e outro. Se mais alguém desperta pronto a viver e é confrontado com o espaço vazio ao seu lado. O silêncio na casa. A solidão. E depois levantar-se. Preparar-se como se estivesse vivo. E ao longo do dia ir rolando a rocha que vai ganhando volume à medida que as memórias a vão adensando: a doença, o medo, a degradação do corpo, a depressão, as dores, as últimas palavras, o último suspiro. O saber que um segundo antes ela ainda o ouvia. O medo de não ter dito tudo. Nunca se diz tudo. A escolha da roupa, do caixão. O retorno a quatro paredes que já não são casa. As roupas nos armários. O anel de noivado e a aliança de casamento que ficaram no móvel da entrada quando saiu pela última vez. Ainda ali estão. Não lhes toca. E se ela voltar?

    Todos os dias são o mesmo dia. Todos os amanheceres o reviver. Pergunta-se quais terão sido os seus crimes? Que outro homem cumpre em simultâneo os destinos de Sísifo e Prometeu? As entranhas renovam-se apesar da sua vontade. Leu recentemente um livro no qual o protagonista perdia a memória e repetia a cada dia o dia anterior. Não é esse o seu caso, pensa. Antes fosse. Lembra-se bem de cada detalhe. De cada sensação. Ainda sente as mechas de cabelo dela a escorrer-lhe entre os dedos. Ainda as vê caídas no chão. Não, não perdeu a memória. Apenas é incapaz de a tornar permanente.

    A memória ressurge incompleta a cada despertar. As lacunas preenchem-se ao longo do dia. Uma escova. Uma fotografia. O sofá. Ao anoitecer está completa. Esmaga-o. E ainda assim, espera a noite. Anseia por ela. Abraça-a. O sono chegará em breve. E depois o sonho. E finalmente o reencontro. Olham-se e sorriem. Há muito que as palavras são desnecessárias entre eles. Passeiam, tomam café no alpendre, brincam com o cão. Às vezes viajam até destinos longínquos. Mergulham felizes em águas tíbias. Conversam muito, ainda que não digam uma palavra. A luz do amanhecer afasta-os lentamente. Já não a consegue tocar. Procura-a e não a encontra. Telefona-lhe, mas ela não atende. Desperta angustiado. Alivia-o perceber que foi um sonho. Afinal ela não partiu. Procura-a com a mão. Vira-se. O travesseiro intocado diz-lhe que o sonho foi doce. E anseia já por mais uma noite, ainda que o preço sejam as entranhas em sangue a empurrar a rocha montanha acima. Quatro mil manhãs.

    ⎼ Morreste quatro mil vezes.  ⎼ ­ sussurra enquanto continua a limpar o canteiro.

    Só ele sabe disso: um segredo bem guardado. Não interessa o que pensam os outros, a religião, a ciência… no traço descontínuo do sonho, são felizes.

    ⎼ Esta noite trago-te cá.  A tua estrelícia floriu. Tens de ver.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve


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  • Não importa, sempre acaba mal

    Não importa, sempre acaba mal


    – Não tenho biografia.

    – Fique tranquilo. Aqui são comuns declarações como esta. Com o choque, os pacientes se perdem de si mesmos.

    A doutora Adriana Kreuzfeuer era a bem-aventurada possuidora de um belíssimo rosto – delicadas sobrancelhas assimétricas, olhos azuis, narizinho empinado e boca esfaimada – coroado por uma encaracolada cabeleira loira herdada de avós imigrantes, a saber: o falecido Helmuth Schatsschneider Kreuzfeuer, construtor de chaminés de tijolos vermelhos para fábricas, e a nonagenária Ângela, em solteira Backheuser Stumpfsinn.

    – Por que o senhor não me conta um pouco da sua vida?

    – Porque o meu corpo foi tomado por alguém. E esse alguém não tem memória da minha vida anterior. Ou seja, esse alguém não pode – e eu também não posso – falar sobre o que aconteceu há, digamos, dois dias.

    – Sei. É como se a mente do senhor tivesse sido tomada por um alienígena.

    – Não. O caso não é tão moderno. Fui ocupado por um espírito, um velho espírito.

    A doutora anotava no computador, batucando com dedos espertos, tudo o que o homem lhe dizia.

    – Compreendo. O senhor é espírita?

    – Agora, sou agnóstico. Antes, não sei. Mas certamente não tinha uma fé muito profunda. Talvez por isso o tal espírito apoderou-se tão facilmente do meu eu anterior. Minha alma estava disponível.

    A bela Adriana Kreuzfeuer esboçou um rápido riso, divertido e intrigado, riso de psiquiatra que se descobre, por fim, diante de um lunático engraçado.

    – O que sabe o senhor sobre o, vá lá, espírito que está de posse de sua alma?

    O homem alto e magro movimentou-se inquieto na cadeira. Defensivamente, cruzou diante do peito os longos braços guarnecidos por mãos ossudas. Seu rosto comprido, atapetado por uma barba mais branca que cinzenta, aparada recentemente por máquina ajustada para dentes de número três, era o de alguém verdadeiramente angustiado.

    A psiquiatra refez a pergunta:

    – O senhor conhece a identidade desse espírito que se apossou da sua alma?

    – Sim. Conheço-lhe o nome, as datas de nascimento e morte. E, por alto, alguns fatos importantes de sua vida na terra.

    – Oh, isso é maravilhoso!

    A expressão do rosto da médica não acompanhou o entusiasmo exclamativo da frase. Era uma médica, uma cientista, e não estava ali para maravilhar-se. O que se podia dizer dela, sem conotação positiva ou negativa, é que era uma mulher nervosa, agitada, apressada, consciente de que, ao longo daquele dia, teria de enfrentar ainda muitos outros contadores de histórias desencontradas.

    – Me passe as datas de nascimento e morte do falecido?

    – 1860 e 1902.

    – Profissão?

    – Médico.

    Por baixo das sobrancelhas bem-cuidadas, um rápido e penetrante olhar azul-piscina partiu em direção ao homem alto e magro. Com os dedos levitando sobre o teclado, a médica parecia questionar-se. Debochando da minha cara?

    Pousou as mãos ao lado do teclado e suspirou. Não, não, aquele era apenas um mais pobre homem desnorteado, acachapado por uma tragédia pessoal que não conseguia compreender, aceitar e superar.

    – Especialidade do seu médico?

    – Clínico geral. Ele não defendeu sua tese de mestrado. Eu, aliás, ele, nós chegamos a fazer uma viagem à ilha de Sacalina…

    – Ele morreu bastante jovem. De quê?

    – Tuberculose.

    – Qual era o seu nome, o nome dele, do médico?

    – Anton.

    – Devo concluir que não era brasileiro.

    – Não. Era russo.

    – Russo?

    Bruscamente, a médica afastou o teclado com os polegares e ergueu os olhos diretamente para a lâmpada que estava sobre sua cabeça. E, congelada nessa incômoda postura, suspirou profundamente. Parecia descontente com a quantidade de luz emitida pela lâmpada. Talvez pensasse em processar o fabricante. Ao cabo de um demorado minuto, ela voltou os olhos celestiais para o paciente.

    – O senhor fala russo? Poderia me dizer umas três ou quatro palavras nessa língua?

    – Não. Claro que não. Sou um homem traduzido.

    Aquela última frase foi demasiada para a doutora Adriana. Ela imobilizou-se com os dedos abertos, a cabeça baixa, os olhos aparentemente procurando uma letra que não havia sido posta no teclado. Racionava. Seu pensamento talvez possa ser sintetizado por uma frase indelicada: esse maluco é de tirar qualquer um do sério.

    – Me dê mais informações sobre o médico russo.

    – Nasceu em uma cidade balneária, no mar Negro, a mil quilômetros de Moscou.

    A médica reproduziu num batuque ligeiro o que ele havia dito e quis mais:

    – Fale da família dele?

    – Éramos seis irmãos. Eu, Anton, tinha o dom de imitar. Todos riam das imitações que eu, ele, fazia dos mujiques, dos cocheiros, dos professores e dos funcionários públicos. O pai deles, o nosso pai, comerciante, adorava música. Treinava-nos para que cantássemos no coral da igreja. Depois de falir, papai, quero dizer, esse chefe de família foi para Moscou. Após concluir o ensino médio, eu segui também para lá. Ingressei na faculdade de Medicina. Como tinha grande habilidade com as palavras, como sabia tecer histórias, comecei então a escrever contos humorísticos para jornais e revistas populares. Logo ele, eu, estava sustentando a família com o que recebia pelos textos.

    – Bela história. Edificante. Mas, voltando ao nosso caso concreto, o senhor sente que é, verdadeiramente, esse escritor russo de contos de humor ou o senhor sabe que é apenas o corpo de um cidadão brasileiro dominado pela mente de um contista estrangeiro?

    O homem descarnado demorou a responder.

    – Sinceramente, eu não saberia lhe responder. As duas situações são igualmente plausíveis. Talvez até mesmo possam ocorrer simultaneamente. Neste exato momento, porém, sinto mais forte a impressão de que sou um pobre corpo ocupado. Mas, é claro, sei também que sou escritor e que escrevo em russo. Tentarei me explicar: o corpo é meu e meus movimentos são orquestrados pelo meu cérebro, no entanto, no fundo, sinto que as minhas palavras não são propriamente minhas. Elas pertencem a Anton. Por isso, se, por acaso, lhe disser algo que possa parecer zombeteiro, não se irrite, fique certa de que essas palavras me foram sopradas por ele.

    Os dedos da mulher corriam céleres, entusiasmados, por cima das teclas, perseguindo as palavras que o homem barbado pronunciava.

    – Nunca vi alguém descrever com tal riqueza de detalhes a sua…

    – Loucura, doutora?

    – Talvez. Mas, se for, será passageira. O senhor sairá dessa logo, eu lhe garanto. O senhor vai se livrar de Anton. Mas, agora, me explique uma coisinha. Como o senhor sente a presença dele, do russo?

    – É como ele fosse uma segunda pele, uma pele que está por baixo da minha pele, da verdadeira. O corpo físico de Anton se resume a essa pele. Ele não tem ossos ou carne. Porém meu cérebro pertence a ele, inteiramente.

    – Tenho uma curiosidade. O senhor me disse que ele, o russo, escrevia historinhas engraçadas. Quando ele pensa em algo divertido, o senhor dá uma gargalhada?

    – Não. No máximo, eu sorrio.

    – Quantos anos ele tem hoje?

    – Quarenta. Devo morrer em breve.

    Nessa passagem, pela primeira vez, o homem ergueu os olhos e os fixou na médica. Encarando-a, parecia esperar um desmentido porque era claro, pelos cabelos, barba e bigode quase totalmente brancos, que ele era já um sexagenário.

    – O que eu quero é que me explique como ele, sendo russo, um russo que certamente não conhece o português, consegue se expressar através do senhor.

    – Ele manipula minhas cordas vocais. É com surpresa e estupefação que percebo as frases que me escapam por entre os lábios. As palavras, obviamente, saem em russo do cérebro dele, mas ao chegarem às minhas cordas vocais automaticamente transformam-se em vocábulos portugueses. Há um programa de tradução instantânea no meu aparelho fonador.

    Depois de anotar aquela resposta, a psiquiatra voltou seus inquisidores olhos azuis para os negros olhos sonhadores do homem.

    – Como ele, o russo, consegue entender as minhas perguntas?

    – Há um segundo aparelhinho de tradução simultânea, instalado nos meus ouvidos. É semelhante ao que se encontra nas minhas cordas vocais, mas de funcionamento inverso.

    – Ótimo, ótimo, o senhor até aqui respondeu bem às minhas perguntas, mas agora eu preciso me aproximar da raiz mais profunda da questão… Então, indago: o senhor Anton se metia com política?

    – De jeito nenhum. Sou apartidário, apolítico. Digamos que sou alguém que só defende um valor: a liberdade. Libertários conscientes como eu não podem pertencer a igrejas, partidos ou qualquer outra agremiação.

    – E com mulheres?

    É importante, nesse ponto, termos em mente que o sobrenome da médica, em alemão, significa cruz de fogo.

    O homem abriu lentamente os braços, como que para ser crucificado. Suas orelhas de abano e bochechas chupadas foram tomadas por uma constrangedora vermelhidão. Era como se ele tivesse recebido um sopro de fornalha na face. Fechou os braços, brusco. Anton quis responder rapidamente, para livrar-se daquela pergunta indecente, mas não conseguiu articular uma só palavra.

    – Esse é o ponto central – prosseguiu a médica, e o homem imaginou ver grossos fiapos de uma gosma esverdeada de concupiscência escorrendo pela comissura dos lábios dela. – É sempre ele, sexo. O nosso obscuro lado animal. O acasalamento. Reprodução ou prazer? Não importa, sempre acaba mal… Enfim, em português, me responda: o doutor Anton comparecia?

    O homem enterrou-se na cadeira. Que grosseria! Comparecia? Era termo aceitável em uma consulta médica?

    Anton quis falar, demonstrar sua muita indignação. Comparecia? Era totalmente inadequado utilizar uma expressão tão rasteira em uma conversação com um escritor russo. Por que a doutora não usava a delicada expressão bíblica: conhecer?

    – O ponto nevrálgico é sempre o aparelho genital, a genitália – silvou a psiquiatra. – Mais adiante nos concentraremos nele.

    Adriana Kreuzfeuer encerrou a consulta fechando os olhos e trançando os dedos das mãos sobre o teclado, sinalizando claramente ao paciente que sequer lhe daria um rápido aperto de mão.

    O homem alto e magro de tristonhos olhos negros concluiu que a doutora Adriana talvez estivesse muito cansada. Ou com vontade de fazer algo muito excitante. Retirar o esmalte lascado das unhas, por exemplo.

    Ainda de olhos cerrados, a psiquiatra soltou um jato de ar fazendo biquinho com os grossos lábios sensuais e lascou na linguagem dos homens das cavernas:

    See you later.

    Quando levou o tronco à frente, no movimento de quem vai se erguer da cadeira, ou pular sobre a médica, o homem sentiu o pouso em seu ombro da mão pesada do enfermeiro, que havia permanecido de pé, imóvel e silencioso, atrás dele, atrás de Anton, ao longo da entrevista, mão que se fechou triturando ossos de omoplata e que chegou acompanhada por um vozeirão cavernoso:

    – Bora nessa, chefe, deu por hoje!

    Lourenço Cazarré é escritor

    Texto originalmente integrado no livro Kzar Alexander, o louco de Pelotas


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