Categoria: Cultura

  • A prodigiosa vida e os estupendos milagres do verdadeiro Pai Natal

    A prodigiosa vida e os estupendos milagres do verdadeiro Pai Natal

    O verdadeiro Pai Natal não nasceu na Lapónia, mas sim na Anatólia, actual Turquia. Tendo vivido nos séculos III e IV, o arcebispo de Myra de seu nome Nicolau andou por terrenos e tempos atribulados, ao longo do antigo Império Romano, que só com o imperador Constantino se tornaria cristão. A sua fama de benemérito inspirou em 1823 um professor norte-americano a “criar” o Pai Natal, que viria depois a ser aproveitado pela Coca Cola para uma campanha de marketing. Mais fantasiosa ainda é, contudo, a sua hagiografia – isto é, a sua vida em livro – escrita por um padre português do século XVIII, João Antunes Monteiro, prior da alfacinha freguesia de São Nicolau e influente conselheiro do rei D. João V. Nem contada nem lida se acredita.


    Na véspera de Natal de 1822, o norte-americano Clement Moore, professor de grego contou aos seus filhos, através de um poema, a história de um certo Nicolau, por sinal santo homem da Igreja Católica do século IV, que viajava num trenó puxado por renas, desde o pólo Norte, e distribuía brinquedos pelas crianças, enfiando-se pelas chaminés.

    A fábula pegaria bem de estaca nas décadas seguintes, alimentando-se também de aspectos do folclore alemão e holandês, que então celebravam a data da morte de São Nicolau – dia 6 de Dezembro – com a oferta de prendas.

    São Nicolau de Myra.

    Daí até se encontrar uma figura para o mais famoso e aguardado velhinho foi um pulo. Na segunda metade do século XIX, vários cartoonistas criariam uma iconografia, sempre em evolução: primeiro a preto e branco, mais tarde, já na terceira década do século XX – através de uma campanha de marketing da Coca Cola – com as suas inconfundíveis roupas vermelhas e brancas.

    As primeiras versões do Santa Claus – a alteração fonética da fusão do alemão Sankt Niklaus e do holandês Sinterklaas – até foram pouco politicamente correctas: o velhinho, mais do que bonacheirão – na verdade, a barriga era descomunal –, promovia o tabagismo.

    Os primeiros cartoons – desenhados por T. C. Boyd, F. O. Darley e, sobretudo, pelo anticlerical Thomas Nast – apresentavam-no quase invariavelmente com um fumegante cachimbo nos beiços.

    A Igreja Católica, claro, não apreciou muito. E se, porventura, os autores da brincadeira tivessem vivido um século antes teriam tido problemas. Parodiar um santo do quilate de Nicolau de Myra seria então inadmissível; heresia, no mínimo, com direito, eventualmente, ao crepitar de lenha.

     Ilustração de Thomas Nast de 1881 do Pai Natal

    Se São Nicolau parece ter sido, de facto, um bom filantropo, as suas vidas – a terrena e a celestial – mostram que foi homem que, embora piedoso, não andou por aqui em grandes brincadeiras. O próprio diabo que o diga, que supostamente sofreu amarguras diversas sempre que com ele se cruzou. Pelo menos é o que mostram os biógrafos deste santo, em escritos fantásticos disseminados ao longo dos séculos. Uma dessas biografias – que bebeu inspiração a vários sermões seculares – até é bem portuguesa; publicada em 1720, pelo então prior da paróquia lisboeta de São Nicolau, João Antunes Monteiro.

    Este padre foi, curiosamente, uma figura preponderante na Corte lusitana da primeira metade do século XVIII. Era para o rei D. João V, aquilo que porventura Vítor Melícias foi para o antigo primeiro-ministro António Guterres.

    Ou seja, o prior da alfacinha paróquia de São Nicolau – no centro da Baixa, que foi freguesia até 2013, estando agora integrada na de Santa Maria Maior – era um dos conselheiros predilecto do Magnânimo, não apenas espiritual, mas também em negócios de Estado. Por exemplo, chegou a desempenhar funções de gestão em algumas fases da construção do Aqueduto das Águas Livres. A sua influência no Terreiro do Paço foi tanta que não admira que a dita biografia do nosso Pai Natal – pomposamente intitulada Breve compêndio da prodigiosa vida e estupendos milagres do glorioso Arcebispo de Myra S. Nicolao Taumaturgo, advogado universal de todos os peccadores – tivesse sido oferecida à Virgem Maria pela soberana, augusta e excelsa mão do magnânimo, generoso, esclarecido e sempre memorável monarca D. João V Nosso Senhor”, conforme consta no frontispício. Portanto, estamos perante uma obra escrita para ser levada a sério. Na verdade, muito a sério – naquela época, claro.

    A linguagem usada pelo padre João Antunes Monteiro na biografia de São Nicolau torna-se deliciosa – alguns poderão dizer delirante – pela forma como descreve, em minuciosos e mirabolantes detalhes, a vida daquele santo. Embora não existam quaisquer documentos, as biografias apontam para o ano de 270 depois de Cristo, na antiga cidade marítima de Patara, uma região de Lycia, na actual Turquia. Na Anatólia, portanto – um tanto afastado da comercial aldeia do Pai Natal, na Lapónia.

    E por falar em Jesus Cristo, saiba-se que as hagiografias dizem que São Nicolau teve um nascimento, supostamente a 15 de Março, com contornos semelhantes. Com efeito, remetendo para a biografia do padre João Antunes Monteiro, os pais do santo – Epifânio e Joana – “sendo casados em muita paz, concórdia e santos costumes” desejavam um filho. E tantas instâncias fizeram que a Virgem Maria “apresentou no Consistório da Santíssima Trindade” aqueles desejos paternais, pelo que, pouco tempo depois, “lhe enviou o Senhor do Céu um anjo que os certificou (…) que brevemente haviam de ter um filho muito mais santo e com muito mais préstimo para o serviço de Deus do que tinham desejado”. E assinalou-lhes ainda o dia e hora da chegada.

    A Coca Cola “apropriou-se” do Pai Natal na década de 20 do século XX, dando-lhe o “formato” que hoje conhecemos.

    O recém-nascido parece ter dado sinais de evidente santidade logo que viu a luz do dia. Estava a parteira para o lavar e “ele se pôs de pé com muita notável firmeza (…), com os olhos postos no Céu e as mãos erguidas e postas sobre os peitos”. São Vicente Ferrer – um clérigo do século XIV, actual patrono da Comunidade de Valência – diria que aquele prematuro acto era de agradecimento a Deus por “o ter feito criatura racional à sua imagem e semelhança e porque o tinha livrado dos perigos que poderia ter dentro do cárcere do ventre de sua mãe”.

    Foi por este prodígio que São Nicolau se tornou também, em muitos países, o santo protector dos partos difíceis. Depois disto, o facto de ele, por “mais meiguices que sua mãe lhe fazia para tomar o peito”, ter jejuado, com precisão, às quartas e sextas-feiras, já não pode causar muita admiração ao mais cépticos…

    O seu primeiro grande milagre estava, porém, reservado para a idade escolar, antes de completar os sete anos, segundo a biografia setecentista. Como os pais eram ricos, costumava ele levar dinheiro para distribuir pelos pobres antes de entrar na sala de aulas. Consta que, em certo dia, uma pobre aleijada chegou atrasada, devido à deformidade, e lastimou-se da sorte. Pois bem, o pequeno Nicolau condoeu-se e “levantando o coração a Deus”, fez o sinal da cruz sobre a cabeça da rapariga e disse: “Em nome do Senhor Jesus Nazareno, levanta-te e anda”. O resultado, claro, foi imediato!

    Mas foi em artes da ressurreição que Nicolau de Myra deu cartas, de acordo com os seus biógrafos. E aqui bateu mesmo Jesus Cristo, que apenas fez Lázaro regressar à vida. O primeiro lote de ressuscitados ocorreu ainda na sua adolescência, durante uma peste na região de Lycia. O padre João Antunes Monteiro diz mesmo que “Deus o conservava para ressuscitar mortos” ou coloca como hipótese que “temeu a morte ter encontros com quem a podia consumir e sepultar”.

    Mesmo assim, não teve dotes para salvar os progenitores, embora o prior lusitano informe que a Virgem Maria “lhe limpava as lágrimas e o consolava, mostrando-lhe no Céu as almas dos seus pais entre os coros dos Bem-Aventurados.

    Herdada a fortuna dos pais, Nicolau pôde então dar largas à sua costela filantrópica, que está na base da fábula do Pai Natal. O seu lusitano biógrafo destaca sobretudo a história de um velho viúvo com três filhas donzelas, a quem o demónio tentava, a expô-las ao perigo de perder a castidade” – que é, como quem diz, a prostituí-las.

    Biografia do padre João Antunes Monteiro, publicada em 1720, prior da freguesia de São Nicolau, então pertencente a Lisboa Ocidental.

    Assim, certa noite, Nicolau decidiu deitar anonimamente, pela janela da casa do velho, uma bolsa de ouro suficiente para pagar o dote da primeira filha. Na segunda noite, repetiu a dose, para outra filha. E o mesmo sucedeu na terceira, para a última.

    No entanto, desta vez, o velho fez uma espera e surpreendeu o benemérito, pelo que Nicolau fez-lhe prometer que não divulgaria a sua acção. A manutenção do segredo custou alguns dissabores ao velho, porque o seu tão repentino enriquecimento causou murmuração entre a vizinhança. Como é normal, estes “mais depressa se inclinaram a julgar mal do que bem”, pelo que, para salvar a honra do velho, Nicolau de Myra se viu na contingência de se denunciar como o obsequiador.

    A sua entrada num mosteiro, em data desconhecia, teve como consequência um aumento dos seus milagres, que se sucederam em catadupa, quase sempre tendo o demónio por inimigo. Os seus sucessivos exorcismos até levam mesmo o diabo, certa vez, a lamentar-se: “Ai que Nicolau me vence em tudo e não me deixa executar meus intentos”, assim relata o padre João Antunes Monteiro.

    E como o dito belzebu já não conseguia endemoninhar ninguém, decidiu, noutra ocasião, incendiar uma cidade, mas Nicolau interveio mais uma vez, pelo que o fogo se extinguiu sem deixar lesão alguma nos edifícios. À conta disto, Nicolau também se tornou o padroeiro contra os incêndios urbanos.

    Pouco tempo depois, faria ele uma viagem até à Terra Santa, seguindo os passos de Cristo, tendo os anjos como cicerones, segundo o seu biógrafo. E pelo caminho foi curando enfermos, cegos, surdos, paralíticos e um ou outro endemoninhado. Regressado ao seu mosteiro, teve tempo ainda para multiplicar um pão para dar de comer a 70 operários que estavam construindo uma igreja. E como estes, mesmo de barriga cheia, não conseguiram mover uma grande coluna, Nicolau benzeu a gigantesca pedra e, com a ajuda de apenas dois clérigos, colocou-a no sítio exacto.

    Pouco depois de ter sido nomeado arcebispo de Myra – cargo para o qual tinha recebido três premonições, a última das quais envolvendo Cristo –, houve de obrar mais uma fantástica ressurreição. Dois estudantes de Atenas, em peregrinação, acabaram na salgadeira de um estalajadeiro, cortados em postas. Nicolau, sendo avisado pelo Espírito Santo, obrigou o estalajadeiro a mostrar-lhe os despojos e, juntando-os, ressuscitou os jovens.

    Situação similar terá ocorrido anos mais tarde, numa viagem até Roma. Neste caso, Nicolau descobriu a malvadez de outro estalajadeiro que lhe apresentou um prato de carne retirada de três mancebos, em vez do atum que lhe pedira. Nesta mirabolante viagem, conforme a descrição do padre João Antunes Monteiro, até os animais beneficiaram das suas artes.

    Passagem da biografia onde se destaca a acção de oferta “furtiva” de São Nicolau de Myra.

    Numa noite, perto de Bari, mais outro estalajadeiro foi tentado pelo demónio e, porque o arcebispo de Myra e o seu companheiro fizeram parca despesa, cortou as cabeças dos burros que os transportavam. Na manhã seguinte, ainda um pouco antes da aurora, perante aquele espectáculo, Nicolau mandou coser as cabeças aos respectivos corpos dos burros – ressuscitaram, claro. Com um pequeno percalço nesta operação sem luz, quase às cegas: os burros ficaram com as cabeças trocadas. Ou seja, o burro que era branco ficou com a cabeça do burro que era preto; e ao preto, claro, restou-lhe a cabeça do branco.

    Ainda antes destas aventuras, Nicolau chegou a ser perseguido, preso e mais tarde deportado, durante a época de Lícinio, que liderou o Império Bizantino entre os anos de 313 e 324, quando então foi derrotado por Constantino, o Grande, que concedeu liberdade religiosa aos cristãos. A partir daí tudo se alterou para Nicolau de Myra; mandou arrasar templos pagãos – em especial os dedicados a Diana –, substituindo-os por igrejas. No meio deste processo, a biografia do nosso prior lisboeta diz que os demónios se lamentavam e berravam pelos ares, “testemunhando que iam vencidos pela virtude de Nicolau”.

    Na biografia escrita pelo padre João Antunes Monteiro existem mais uns quantos prodígios obrados por Nicolau de Myra até à sua morte aos 65 anos, supostamente no dia 6 de Dezembro – aliás, a data em que o calendário litúrgico e alguns países o evocam. A causa é desconhecida, mas não terá sido mártir.

    Cripta na igreja de Bari, onde estão depositadas as ossadas de São Nicolau.

    Se a vida lhe cessou, os milagres não. Daí que a segunda metade do livro do padre João Antunes Monteiro, a partir da página 113, seja ocupada a detalhar a infindável quantidade de curas milagrosas e mais ressurreições, por via do maná que saía ininterruptamente do seu corpo, enterrado na zona de Myra.

    Na verdade, eram dois, os manás: um que lhe brotava da cabeça, com a consistência de óleo; outro que lhe escorria dos pés, com aspecto aquoso. Na lista de supostos beneficiados pelos poderes desse santo maná, conforme o relato do seu lusitano biógrafo, constam mesmo duas portuguesas, que no início do século XVIII sofriam de supostas febres malignas.

    Mas, nessa altura, as ossadas de Nicolau já há muito se encontravam em Bari, na Itália. Em 1087, umas dezenas de marinheiros e clérigos conseguiram, no meio de algumas peripécias, roubar as relíquias do santo da sua sepultura original em Myra, região entretanto perdida em 1071 pelo cristão Império Bizantino, no decurso da batalha de Manzikert, para o islâmico Império Seljúcida.

    toddler in black sweater standing in front of Santa Claus

    A chegada desta comitiva com as santas ossadas a terras italianas foi celebrada ao som de sinos, tambores e clarins. Mas essa alegria acabou em tragédia: como o bispo de Bari e os aventureiros não se entenderam quanto ao local para depositar as ossadas, entraram em vias de facto. E daí a pouco “houve pendência, e nela mortes e feridos”.

    O nosso biógrafo lusitano do Pai Natal não esclarece se, após esta estapafúrdia batalha campal, houve ressurreições por intercessão de São Nicolau. Apenas informa que as ossadas acabaram transladadas pelo papa Urbano II para a actual Igreja de São Nicolau. Depois, a biografia é rematada com uma novena. Amen


    N.D. Uma primeira versão deste artigo foi publicada no final de Dezembro de 2006 na extinta revista GR-Grande Reportagem.


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  • O Novo Velho Mundo

    O Novo Velho Mundo


    Artur Matos ajeitou a gola da camisa pela terceira vez, como se o gesto pudesse aliviar uma ansiedade que insistia em instalá-lo na condição de réu. Não fazia calor; o nervosismo era mais interno, fruto de uma convocatória inesperada que chegara na véspera. Passara toda a tarde procrastinando a escrita de um ensaio ambicioso sobre os mistérios da Ordem de Cristo, projecto trazido de Lisboa, que ninguém pedira, que se destinaria, por certo, à prateleira dos esquecidos. Entretivera-se no YouTube, assistindo a cenas de gatos em situações hilariamente patéticas, como se aí encontrasse um reflexo de si mesmo, preso num ciclo de adiamento e auto-ironia.

    Agora, caminhava pelas ruas de Benguela, com o aroma pesado da cidade a invadir-lhe os sentidos: um misto de maresia, poeira e carne grelhada. Por entre edifícios coloniais, que ainda guardavam ecos de um passado nunca completamente resolvido, abeirou-se de uma construção de linhas rígidas, um testemunho do pragmatismo da arquitetura lusa. Era apenas a fachada. Procurou pela placa que indicava a editora AfroHistórias. Quando a encontrou, hesitou por instantes, a cabeça cheia de imagens difusas de historiadores coloniais e o peso de vozes críticas que ele próprio evitava ouvir.

    Enquanto subia a escadas reparou que o interior se modernizara, mesmo mantendo-se europeu, e tocou a uma campainha que trouxe o condão de lhe abrir a porta. O espaço da editora era uma síntese do pragmatismo contemporâneo: linhas limpas, decorações minimalistas e uma recepção dominada por cartazes coloridos com títulos como ‘Revoltas Submersas’ e ‘Nzinga: A História Não Contada’. O logotipo na porta de vidro fosco – o contorno de África coroado por uma águia imperial – parecia sugerir que aquele era um espaço para narrativas que alçavam voo sobre verdades negligenciadas.

    Ao entrar, Artur encontrou uma secretária baixa, em madeira polida, onde uma jovem de cabelos entrançados falava ao telefone num tom de autoridade natural. Não precisou de palavras para ser ordenado a aguardar; o gesto seco da mão foi suficiente para deixá-lo com a sensação de estar numa sala de espera de um dentista ou de um julgamento iminente. Não passara dez minutos, e a secretária, mascando pastilha, e quase sem o olhar, apontou uma porta. Entrou.

    Era uma sala de reuniões austera, quase monástica, com quadros de figuras históricas africanas que pendiam das paredes em poses heróicas. Amílcar Cabral, num canto, parecia olhar directamente para Artur, não com o desdém de quem despreza, mas com a severidade de quem espera. Quando Elias Mukuba entrou na sala, trouxe consigo uma aura de precisão e autoridade. Fácil se mostrou a Artur que era o editor – homem alto, de pele retinta e olhos penetrantes, que pareciam ter o poder de desarmar qualquer tentativa de dissimulação.

    – Matos, agradeço por ter vindo. – A sua voz era quente, mas desprovida de desperdício.

    Artur levantou-se, respondendo ao cumprimento com um aperto de mão. – O prazer é meu – disse, com a casualidade mal ensaiada de quem sabia que aquele não era o seu terreno.

    Mukuba não perdeu tempo.

    – Preciso mesmo de alguém para escrever ‘A História Verdadeira de Benguela’. Queremos uma narrativa que transcenda a tradição paternalista e colonial, mas que, ao mesmo tempo, respeite os factos. O seu nome foi-me recomendado, mas, confesso, hesitei quando soube que era… branco.

    A observação caiu na sala como uma granada silenciosa. Artur piscou os olhos, tentando avaliar se aquilo era uma armadilha ou apenas um teste. Mukuba não desarmou, sustentando o olhar como quem aguardava uma reacção.

    – Imagino que seja uma hesitação natural – respondeu, com um leve sorriso que escondia o desconforto. – Afinal, quando o assunto é História, todos preferem a voz de quem não tem culpa dos desastres.

    Mukuba riu, mas um riso seco, como uma faca que encontra resistência.

    – Não se trata de culpa, Matos. Trata-se de legitimidade.

    Os olhos do editor mantinham-se fixos, inabaláveis, como quem esperava uma confissão. Artur hesitou, não por falta de argumentos, mas por saber que não havia resposta que fosse suficiente.

    – Contudo – continuou Mukuba –, acredito que a legitimidade pode ser conquistada, desde que o trabalho seja feito com honestidade e rigor. Quero que escreva este livro, embora sem metáforas que disfarcem massacres como progresso. Sem paternalismos. Consegue fazer isso sendo português?

    Houve um silêncio carregado. Artur sabia que a questão não era apenas sobre História. Era sobre um peso que ele, na verdade, nunca carregara. Ainda assim, a alternativa era retornar ao conforto desconfortável do seu escritório e ao vazio do manuscrito inacabado.

    – Aceito – disse, sabendo que acabara de entrar numa arena onde o fracasso seria recebido com um júbilo silencioso.

    A quantia prometida, acrescido de um bom adiantamento, choruda, era irrecusável para Artur, ainda mais paga em dólares e sem recibo. E com uma única condição: teria de enviar o manuscrito inicial de cada capítulo na véspera de cada reunião semanal.

    Embrenhou-se, sem mais perda de tempo – os Templários foram engavetados – na complexidade dos documentos que foi vasculhando nas raquíticas bibliotecas de Benguela, nas pesquisas cibernéticas, páginas digitalizadas enviadas de Lisboa. Começou a escrever sobre as primeiras viagens de Diogo Cão, quando a costa africana era ainda um mistério habitado por monstros mitológicos, até à consolidação de São Filipe de Benguela como um pqueno posto avançado daquilo que nomeou ser a violência lusitana. Mas mesmo com esses detalhes linguísticos, cada momento se revelava um labirinto de interpretações possíveis como se a voz de Elias Mukuba lhe sussurasse nos neurónios. Artur sentia-se, por vezes, como Diogo Cão ao desembarcar pela primeira vez em terras africanas: perdido, vulnerável e consciente de que a sua presença não era bem-vinda.

    A tarefa revelou-se assim uma odisseia de desafios históricos e psicológicos. Cada linha escrita se impunha como uma luta entre a tentação de perpetuar a narrativa heróica e a obrigação de expor a crueza dos factos. E viu logo na primeira reunião que, apesar dos seus escrúpulos na escrita, Mukuba não lhe iria facilitar a vida.

    – “Os portugueses avançaram com temeridade”? – disparou Mukuba, logo à entrada desse primordial encontro entre autor e editor, impondo um tom que carregava o peso da crítica. – Temeridade? E o genocídio que acompanhava esses avanços, Matos?

    – Não se pode simplificar assim – rebateu Artur, ainda nem sequer se sentara. – Esses homens enfrentaram mitos e monstros imaginários. Isso é temeridade, não acha?

    Mukuba ergueu uma sobrancelha, impiedoso.

    – Não, Matos. Isso é o poder a subjugar vidas humanas. São narrativas como essa que mascaram tragédias.

    Artur sentiu-se numa corda bamba, tentando equilibrar a factualidade e a sensibilidade. Não ia correr nada bem esta aventura, cogitou. Manteve-se calado, enquanto o editor lhe foi fazendo comentários aqui e ali, mas a discussão atingiu o clímax quando sugeriu adicionar uma citação fictícia para dar voz a um soba local.

    – Não posso fazer isso. Seria inventar História.

    – História inventada, Matos? E o que acha que significa “descobrir”? Os seus antepassados “descobriram” uma costa que já tinha sido habitada por séculos.

    Artur saiu da reunião desanimado, por um lado, animado, por outro. Mukuba acrescentara-lhe mais um pequeno adiantamento, que disse ser extra.

    – Envie-me o manuscrito alterado, e dou-lhe uma resposta antes de avançar para o seguinte.

    Mesmo deixando cicatrizes no ego, Artur refez o texto e o tom, desconstruindo o mito do Mar Tenebroso e mostrando como a História tinha sido, desde sempre, um jogo de manipulação. E deixou o manuscrito na editora. Dois dias mais tarde, recebeu um telefonema de Mukuba, aprovando a versão, mas acrescido de um comentário final que lhe pareceu mais uma adaga:

    – Ficou aceitável, Matos. Para um escriba europeu, não está mal.

    No momento em que desligou o telefone, Artur sentiu que acabara de sobreviver a uma batalha, mas não à guerra.

    [continua…]


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  • Isso que a senhora chama de disfunção profissional

    Isso que a senhora chama de disfunção profissional


    Vou ser totalmente sincero com a senhora.

    Aqui me sobra muito tempo. Em apenas duas horas cumpro minha tarefa obrigatória. Escrevo cinco cartas por dia. É a minha cota diária, estabelecida por sugestão do doutor Oliveira. Mas permaneço nesta sala as horas regimentais, que são cinco. Pode ser que alguém telefone pedindo explicação sobre uma carta.

    Não, ninguém telefona. Nunca. A última ligação ocorreu há uns três anos. Uma pessoa que discou um número errado.

    Antigamente? Quando comecei a trabalhar, e lá se vão mais de três décadas, éramos sete funcionários aqui na Seção. Já naquela época o chefe era o doutor Oliveira. Ingressei como contínuo. Admirava os velhos escriturários, gostaria de ser como eles. Muito contribuinte chegava furioso até este balcão. De dedo em pé, cuspindo marimbondos, o cidadão vinha exigir explicação sobre as cobranças. Alguns até esmurravam o tampo do balcão, soltando fumaça pelas ventas, mas os escriturários daquele tempo praticavam a altivez. Eles retrucavam no mesmo tom. O senhor contribuinte que se colocasse no seu devido lugar…

    Naquela época? Trabalhava-se muito, mas havia um clima de camaradagem. Se alguém precisasse sair para resolver um problema pessoal, os colegas o cobriam sem reclamar. Quando se encerrava o atendimento ao público, às quatro da tarde, o ambiente interno se descontraía rapidamente.

    Quando o doutor Oliveira se aposentou, ficamos reduzidos a três escriturários. E não foi nomeado um novo chefe.

    Há uns cinco anos, os dois outros escriturários fizeram um cursinho de digitação e foram transferidos daqui. Restamos eu e essa máquina de escrever.

    A cota de cinco cartas?

    Uma vez o doutor Oliveira, já aposentado, veio aqui e me disse em confiança:

    – Bartolomeu, faça em uma semana o que poderia concluir em um só dia. Aí, você sempre terá uma boa papelada em cima da sua mesa. Parecerá atolado em trabalho.

    Gente boa, funcionário exemplar, o doutor Oliveira. Faleceu faz dois anos. Fui ao enterro dele. A mãe do coitado tinha morrido uma semana antes. Desconsolado, ele meteu jornais por baixo da porta da cozinha e vedou as frestas da janela com fita isolante preta. Depois abriu as bocas do fogão, mas não tocou nos fósforos. Ficou só esperando.

    Sim. Foi ele quem escreveu a carta-padrão, que leio para a senhora:

    Prezado Cidadão, em revisão rotineira, a Secretaria de Fazenda desta Prefeitura Municipal constatou que Vossa Senhoria não pagou a(s) parcela(s) do Imposto Predial referente(s) ao(s) mês(es). Tendo em vista o fato acima, estamos enviando-lhe novo(s) boleto(s), com o(s) valor(es) corrigido(s), multa e juros acrescidos, a fim de que seja procedido o pagamento do(s) mesmo(s) numa agência bancária credenciada.

    Belo texto, não?

    Nesse ponto, preciso fazer uma confissão à senhora. Sou um sujeito inquieto, criativo. Faz três anos que não repito uma redação. Uma só! A máquina de escrever favorece a minha rebeldia, na verdade a acirra.

    Comecei pelo erro. Um dia escrevi: Prezadi. Veja: a letra i está ao lado da letra o, aqui no teclado. Completei: Prezadíssimo.

    No dia seguinte cheguei aqui empolgado. Resolvi começar uma carta de modo dramático: Prezado Cidadão!

    Veja só que irreverência: meter ponto de exclamação em correspondência oficial. Não é pouca epopeia.

    E fui me aprofundando. Um dia, contrariado com certo contribuinte que eu sabia ser mau pagador, inseri uma palavra:

    …de que seja procedido, imediatamente, o pagamento…

    Por que ajo assim?

    Porque me recuso a desempenhar minha missão de forma burocrática. O uso de um computador me empurraria para a acomodação. Mas isso não, jamais! Quero que meu trabalho tenha sempre um pingo de contestação e resistência. É isso que me fez infiltrar palavras inesperadas e pontos de exclamação ou interrogação no texto oficial.

    Ontem mesmo, por exemplo, escrevi o seguinte:

    A fim de que seja procedido o pagamento do(s) mesmo(s) numa agência bancária credenciada, sob pena de ser Vossa Senhoria…

    A senhora já viu ameaça e reticências em uma correspondência oficial?

    Não viu nem nunca verá. Criatividade total.

    Quando? Eu me aposento neste final de ano. Aí, certamente, aposentar-se-ão também os pontos de exclamação e as reticências.

    Com relação ao inquérito que trouxe a senhora procuradora municipal até esta Seção, quero dizer o seguinte: sim, tem fundamento a denúncia de que não me limito a escrever e enviar aos contribuintes apenas as cartas protocolares, adulteradas, de cobrança. Sim, reconheço que também remeto aos senhores munícipes contos de minha lavra.

    Mas explicarei.

    Desde que me tornei o único funcionário desta Seção, passei também a escrever histórias curtas. Mas só depois de ter cumprido minha cota diária de cinco cartas, claro!

    Eu simplesmente ponho um papel em branco na máquina e me abro para o que vier. Datilografo. Palavra chama palavra. Trato de alinhar os vocábulos que, do cérebro, me chegam às pontas dos dedos.

    Isso era de início um passatempo, uma brincadeira, um jogo. Eu tratava apenas de dar certa coerência à enxurrada de palavras que me avassalava. Tempos depois me surgiram historinhas com princípio, meio, desenlace.

    Se eu tenho uma explicação?

    Claro. Isso que a senhora chama de disfunção funcional decorre do excesso de tempo livre. Redigida minha cota de cartas, todos os dias, constato que aquele relógio, ali na parede, avançou apenas um ou dois números. Então, tendo diante dos meus olhos uma folha branca, passo a batucar no teclado. Sou um homem de vida interior agitada, repito. Tenho imaginação fértil e razoável domínio da língua escrita…

    O que eu faço com as tais histórias?

    Bem, no começo eu as guardava numa pasta que está naquele armário de aço. De vez em quando pegava uma delas e a retocava. Punha uma palavra nova, retirava duas. Botava uma vírgula, eliminava um conetivo. Perseguia as repetições que costumam esconder-se muito bem num texto. Isso na parte, digamos, física. Porém, o que escrevemos possui também uma camada espiritual. Nessa camada, eu me limito a instilar um pouco de humor, melancolia ou até mesmo desilusão.

    Sim. Eu os chamo contos a esses meus trabalhos, mas reconheço que, se nós os analisarmos com maior rigor, descobriremos que de fato são modestas crônicas de um escriturário municipal.

    Sim, de certa forma, a senhora tem razão quando diz que, sendo contos ou crônicas, tanto faz, no fundo são textos roubados ao erário público.

    A remessa aos contribuintes?

    Não! Isso não!

    Foi assim: um dia eu me perguntei: o que fazer com essas histórias?

    A resposta que me veio foi: entregue-as a seus verdadeiros donos, os contribuintes.

    Pensei inicialmente em remeter essas crônicas àqueles que realmente saberiam apreciá-las: professores, artistas e intelectuais, os que aparecem no jornal palpitando sobre o que acontece na cidade. Mas desisti ao concluir que gente assim, sempre ocupada em dar entrevistas, não teria tempo para dedicar aos meus escritos.

    Pensei depois em remetê-las para os aposentados, que são numerosos aqui na cidade. Meu raciocínio era simples: eles têm mais tempo ocioso. Mas, por fim, acabei me decidindo por escolher os destinatários ao acaso no nosso fichário.

    Agora, tem aí um detalhe relevante: sempre comprei envelopes e selos com meu próprio dinheiro.

    Que isso fique bem registrado no seu inquérito! Selos e envelopes saem do meu bolso!

    Lourenço Cazarré é escritor

    Texto originalmente integrado no livro Kzar Alexander, o louco de Pelotas


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  • O estado-maior

    O estado-maior


    “… Meus senhores”, anunciou o marechal Rommel ao seu Estado-maior reunido num amplo salão do segundo piso da torre YMCA, enquanto o seu ajudante, o capitão Aldinger, ajustava um mapa de Jerusalém e arredores sobre a mesa. “…Acabámos de conquistar a cidade mais volúvel do mundo e cujo nome, dizem-me, significa santa paz. Aqui vivem cristãos, judeus e muçulmanos, de várias denominações e obediências. Têm ódios que veem da noite dos tempos e dedicações que temos de compreender se os quisermos dominar. Os nossos antecessores britânicos não tiveram muita sorte nisso”.

    Pelas janelas avistava-se o parque de cedros, plátanos e ciprestes que ornamentavam os jardins da residência e, à distância, via-se a cidade velha de Jerusalém com as suas cúpulas, minaretes e torres. Naquela reunião, estavam os grandes nomes do Exército Panzer de Afrika: Gause, chefe do estado maior: Bayerlein, comandante do Afrika Korps, Westphal, chefe do estado maior; comandantes das grandes unidades como Marcks, Buelowius, von Thomas, von Sponeck. Todos sabiam o que o marechal deles esperava; uma exposição clara e franca das dificuldades e soluções. Sabiam que Rommel dividia os militares em inteligentes, tolos, preguiçosos e ambiciosos. Os tolos e ambiciosos eram perigosos e livrava-se deles. Aos tolos e preguiçosos, atribuía tarefas inócuas. Aos espertos e preguiçosos, fazia-os seus comandantes, zelando para que cumprissem ordens. Aos ambiciosos e inteligentes, colocava-os no seu estado-maior, pois queria ajuda. E eles ali estavam, com a bandeira que serviam, sem nada omitirem dos riscos e ameaças.

    A Via Juliana e a torre do YMCA (Young Man’s Christian Association) em Jerusalém.

    “… Srs. Oficiais”, continuou Rommel: “… O comandante em chefe decidirá como entender; mas tendes de lhe apresentar as possibilidades. O coronel Westphal vai expor a situação, e os desafios para mantermos Jerusalém, antes de passarmos ao nosso próximo objectivo”. 

    Um rumor aprovador percorreu a sala. O coronel Westphal de porte atlético, iniciou a exposição com a determinação do seu chefe. “… O Panzer Armee Afrika está ainda demasiado fraco para uma nova ofensiva, e os britânicos demasiado frustrados para qualquer novo ataque. Tanto podemos continuar a ofensiva para leste pela Jordânia e Iraque até aos poços de petróleo retirando aos Aliados esse nervo da guerra; como podemos seguir até junto à fronteira turca e ao Irão, envolvendo a União Soviética pelo flanco sul e assim levarmos a guerra até às paragens do Volga e apoiar o 6º exército que marcha sobre Estalinegrado…”

    Seguiu-se um debate acalorado sobre este dilema.

    “… Temos de aguardar que Berlim se pronuncie”. A linha ofensiva sobre os campos petrolíferos é insustentável, …” Os territórios do Cazaquistão estão demasiado longe.” “… Hitler prefere a guerra económica”, declarou o general von Thomas. ”… Ele quererá o petróleo”.

    O briefing prosseguiu com o general Gause. “… Até aqui, combatemos sobretudo no deserto, com populações fugidias. Agora estamos numa malha urbana onde existem organizações paramilitares, árabes e judaicas. E nada é fácil com elas, prosseguia o general Gause, o intelectual do grupo, com vastos cabedais de conhecimentos históricos. “Os muçulmanos são os antigos moradores da terra … que se tornaram cristãos com a ascensão do cristianismo e muçulmanos com a chegada do Islão” … A dispersão dos judeus para fora da Terra de Israel após a destruição do Segundo Templo pelo imperador romano Tito é um “erro histórico”. Muitos dos “trabalhadores da terra permaneceram para trás e converteram-se ao cristianismo e ao Islão. Então, interrompeu Rommel, os árabes palestinos são os irmãos de sangue dos judeus.

    A torre da YMCA em Jerusalém, concluída em 1933. Do mesmo arquitecto do Empire State Building.

    Assim é… Palestina é um nome romano que ficou da Antiguidade para indicar estes territórios em que nos encontramos a que os judeus chamam haaretz Israel e os cristãos chamam de Terra Santa E em que nos afecta isso? “…A população da Palestina não tem uma postura unânime face a nós, como não a tinha face aos britânicos,”, respondeu Gause.

    O chefe do estado-maior do AK, o general Bayerlein, um duro de roer, afirmou que muitos líderes e figuras públicas muçulmanas consideravam que a vitória do Eixo seria a forma de garantir que a Palestina jamais seria restituída aos sionistas e aos britânicos.  “… O SS-Reichsfuehrer Himmler, apóstolo das teorias raciais de Hitler, apoia o Grande Mufti de Jerusalém, Mohammad Amin al-Husseini, na luta contra a hegemonia britânica. Vamos ter os muçulmanos todos do nosso lado. E devemos explorar isso ao máximo…”

    “…Não diga disparates”, atalhou o marechal Rommel. “… Devem existir mais de 500.000 muçulmanos a lutar pelos Aliados contra nós. 300.000 marroquinos e argelinos combatiam em França. Eu mesmo lutei contra essas forças coloniais francesas na passagem do Somme em Maio de 1940. E centenas de milhares de muçulmanos lutam no Exército britânico da India. Até os soviéticos têm soldados muçulmanos. Mas já vi que tu, Bayerlein, não gostas do susto que nos deu a 4ª divisão indiana em Tobruk”. Os circunstantes entreolharam-se e riram. Bayerleien não se deu por achado. “…Até capturei o brigadeiro Clinton dessa 4ª divisão”. “… Que depois fugiu, replicaram. “… Mas foi recapturado”, retrucou… “Mas voltou a fugir em Itália...” Rommel não ligou à troca de picardias. Parecia cismar em algo de diferente.

    Gause esboçou um sorriso retorcido. Fritz (era o primeiro nome de Bayerlein) é melhor não ires por aí… Saber quem entre árabes e judeus está por nós, é quase impossível.  Até os sionistas colaboraram com o Partido em meados dos anos 1930 e Goebbels mandou cunhar uma medalha em 1935 comemorando a aliança sionista-nazista.

    Forças em parada no pátio da YMCA

    Uma jovem serviçal que entrou procurando não chamar a atenção. Os seus cabelos escuros formavam uma trança e tinha o corpo bem torneado. Não aparentava mais de vinte e cinco anos, mas nos olhos fulgia uma sabedoria ancestral. Serviu em silêncio um sorbet de limão a todos os oficiais e ia retirar-se quando subitamente Rommel lhe perguntou. “… A menina, espere um pouco”. A jovem estacou, sem ostentar preocupação. “… Qual o seu nome, por favor?” Era Ester. “… Muito bem, Ester, se eu lhe perguntar se os árabes estão por nós, alemães, que diria?” A jovem respondeu em perfeito alemão: “… Sr. Marechal: apenas sei que nesta cidade cada um está por si próprio e o resto conta pouco”. Rommel agradeceu a resposta.

    O briefing se aproximava do fim. Os sionistas, a Yishuv – continuou Gause – vive em grande preocupação desde Tobruk. Falam em duzentos dias de ansiedade. Com apoio britânico, os judeus sionistas formaram o Palmach – uma unidade de élite pertencente a Haganah – grupo paramilitar composta de tropas de reservacom o fim expresso de nos combater.

    “…São, pois o nosso principal inimigo, acentuou Bayerlein. “Mas que sabem eles fazer?”. “…. Atentados terroristas, sobretudo. Foram treinados por Orde Wingate. “…. Wingate, aquele capitão britânico que Churchill chamou para o enviar contra os japoneses em Burma?” “…. Esse mesmo legou ao Palmach as tácticas de guerrilha que vêm do tempo de Lawrence em 1916. Só que Lawrence servia-se dos muçulmanos e Wingate serve-se dos judeus. Os sionistas radicais foram empenhados pelos ingleses em atividades terroristas contra os árabes, mas tanto esfaqueiam árabes, como judeus não-sionistas, ou mesmo ingleses. E agora, temo-los à perna

    Marechal Erwin Rommel ( à esquerda) general Alfred Gause ( ao centro) e outro oficial do Eixo.

    “… Enfim, meus senhores”, concluiu Rommel. “… Como vimos, Jerusalém tem radicais. Os islâmicos de Husseini estão de um lado da barricada. Irgun, Palmach e Hagannah do outro. Esperemos o pior de todos. Teremos que os identificar e neutralizar e procurar quem no meio desta cidade quer as pazes connosco. Quanto ao mais, Berlim decidirá. “

    Houve um rumor de pastas a serem arrumadas quando o coronel Stauffenberg, conhecido como católico, arriscou: Berlim e Deus, Sr. Marechal. “… Deus? Sr. Coronel? Deus marcha com os grandes batalhões” asseverou Rommel, acrescentando com um ar maroto. “…. Mas isso não é razão para que O não visite na sua cidade preferida”.

    O marechal saiu para os seus aposentos acompanhado por Aldinger que lhe perguntou. “… Será que os ingleses nos atacarão?” O marechal tinha pouco a dizer. “… Não travarei batalha se nada ganhar com a vitória. E eu ainda não sei o que posso ganhar em Jerusalém. Agradeceu a Aldinger e, após este ter fechado a porta, sentou-se a uma secretária de mogno e iniciou a breve missiva que todos os dias enviava à sua bem-amada esposa, Lúcia, em Herrlingen. Datou a carta – 2 de Agosto de 1942 – e começou:

    Querida Lu

    Estou bem de saúde e espero que assim estejas tal como Manfred. As minhas primeiras impressões desta cidade são ainda fugidias. Não sei quanto tempo aqui ficaremos, mas tudo me impressiona. Pessoas, árvores, edifícios. Jerusalém é um mistério!

    Teu

    Erwin

    [CONTINUA]


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  • A mulher má 

    A mulher má 

    Vivia no Beco do Espinho uma mulher má. Dizia quem a conhecia que nunca tinha sido melhor:

    — Foi sempre assim. Terá de aprender com a vida. Até lá, temos de ter paciência.

    Certo dia, a mulher adoeceu. O caso era grave. Na vizinhança, todos se apiedaram dela e acorreram a ajudar a família como podiam:

    — Coitados dos pais. É gente boa. Ela é que saiu ruim. O que é que se há de fazer? — comentava-se.

    Não tardaram, porém, a perceber que abusava da generosidade de todos os que a visitavam. Os agradecimentos saíam-lhe a ferros, arrancados da boca pelo olhar severo dos pais envergonhados. Na sua boa fé, a população  acreditou ter chegado o tal ensinamento que a iria mudar:

    — Pobrezita! Ninguém merece uma coisa destas. Não era preciso tanto!

    Recuperada da doença, a mulher retomou os velhos hábitos. A maldade, entretanto mal disfarçada, tomou a sonsice por companheira e ganhou um novo fôlego. E, quando, algum tempo depois, os pais faleceram, partiram com eles os únicos limites que até então conhecia.

    Dois anos mais tarde, a morte, sempre impiedosa e, desta vez, inesperada, arrancou-lhe do colo a única filha.

    — Um golpe destes muda qualquer uma. — pensaram todos. Pensaram mal. Ficou exatamente na mesma. Má.

    Um dia, a mulher zangou-se com uma nova inquilina acabada de chegar ao seu prédio. O objeto da discórdia: vasos e plantas no vão da escada. Coisa grave! Gastou um pacote de sal com as begónias, mas os vasos continuavam no mesmo sítio. Não podia deixar passar a afronta. A sessão de gritos e injúrias que se seguiu também não deu frutos. A vizinha ouviu-a até ao fim, sem qualquer expressão no rosto.  Despediu-se, virou costas e entrou em casa. Fora de si, a mulher correu a escrever uma mensagem em letras raivosas que enfiou por debaixo da porta do 3.º esquerdo. Era, afinal de contas, uma pobre vítima incompreendida. Tinha o direito de se defender. No bilhete, expressava o desejo de que a filha da vizinha tivesse o mesmo destino da sua, só para ver se ela percebia o que custava.

    Os habitantes do Beco do Espinho resignaram-se, então. Deixaram de esperar que a vida lhe pudesse ensinar alguma coisa. Não havia dentro daquela alma o mais pequeno sinal de um ser humano por resgatar. A quem perguntava como estava a mulher depois de tantas provações, os que a conheciam respondiam agora:

    — Má, como sempre. Se mudasse de fora para dentro, era a primeira.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve


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  • Singapura: Escala de três dias num ‘stopover’ de luxo

    Singapura: Escala de três dias num ‘stopover’ de luxo

    Raquel Rodrigues sugere uma ‘paragem’ rápida em Singapura, numa escala em trânsito para um destino (ainda) mais longínquo.


    Na hora de viajar, vale a pena contemplar os ‘stopover‘: paragens mais demoradas aproveitando escalas em vôos para destinos longínquos. Há alguns que são mais populares entre quem viaja. Mas os viajantes não devem ficar apenas pelos ‘stopovers‘ no Dubai, Abu Dhabi, Catar e Istanbul. São todos ‘escalas’ interessantes, nem que seja para se perceber quais os destinos que não se aprecia tanto. Contudo, Kuala Lumpur e Singapura são imperdíveis.

    Singapura deveria mesmo constar da lista de todos os viajantes. Já no final dos anos 90 do século passado era considerada uma “cidade” do futuro.

    Também conhecida como a pérola da Ásia, Singapura é uma cidade-Estado. O país tem 5,6 milhões de habitantes, e é hoje um dos maiores centros financeiros do mundo. Com o maior número de milionários, é o país mais caro para se viver. De acordo com o poder de compra dos seus habitantes, é o quarto país mais rico do mundo, apenas superado pelo Luxemburgo, Catar e Macau (não sendo um país, é uma região administrativa especial da China, desde 1999).

    Recorde-se que há 50 anos, Singapura era uma ilha pobre, com poucos recursos naturais e que não prometia grande futuro. Depois de deixar de estar subjugada ao domínio britânico e conseguir a independência da Malásia em 1965, Singapura tornou-se um Estado autónomo. Estava então sob a liderança de Lee Kuan Yew, que foi primeiro-ministro durante mais de 30 anos e o “arquiteto” do chamado milagre económico e social. 

    Dependendo da época que se visitar Singapura, o clima húmido e quente poderá ser o que mais dificulta a estadia, pois só apetece estar no interior dos museus e hotéis, protegidos pelo fresco ar-condicionado.

    Fiquei três dias em Singapura e partilho aqui o meu roteiro.

    Podendo, não deixe de ficar no Marina Bay Sands. Foi o meu ‘luxo’ desta viagem. Valeu a pena, pois incluiu acesso a espetáculos e outras experiências, o que acabou por compensar.

    O hotel é maravilhoso, gigante (o que não faz muito o meu género). Mas só ficando alojada no hotel poderia ter acesso à piscina mais alta do mundo, uma piscina panorâmica com vista para toda a Singapura.

    A não perder:

    Marina Bay. É o postal de Singapura e a porta de entrada para este ‘mundo mágico’. As maravilhas arquitetónicas, os edifícios extravagantes e a vista para o complexo do hotel ou os 4 quilómetros de caminho pedonal, faz desta zona a mais bonita e preferida de viajantes. Encontra-se num só local espectáculos de luzes, museus e compras.

    Gardens by the Bay é um parque natural, composto por três jardins à beira-ma: Bay South Garden (em Marina South); Bay East Garden (em Marina East); e Bay Central Garden (em Downtown Core e Kallang). O maior destes jardins é o Bay South Garden. É aqui que se localiza a Flower Dome (maior estufa de vidro do mundo), a Cloud Forest e as maravilhosas Supertree Grove & OCBC Skyway, que oferecem imagens icónicas que têm percorrido todo o mundo.

    Dica: todos os dias, pelas 20h45, o espaço oferece um espetáculo de som e luz que tem como pano de fundo as Supertrees.

    Hotel Fullerton – Fullerton Heritage. O Fullerton Hotel Singapore é um luxuoso hotel de 5 estrelas, localizado na baixa de Singapura e em frente à Marina Bay. Mas o Fullerton é muito mais que um hotel. Originalmente, foi um edifício de escritórios e a central de Correios de Singapura. É considerado o ponto zero da cidade. Hoje em dia, o nome Fullerton significa a cultura de toda uma zona, com diversos edifícios históricos, centros comerciais, hotéis, restaurantes, passeios marítimos, que, em conjunto, compõem a Fullerton Heritage. O local é de visita gratuita e vale a pena a visita.

    Jardim Botânico de Singapura. Singapura é a ‘cidade-jardim’. O Jardim Botânico é o primeiro património da Unesco no país. Além de ser um local recreativo para fazer jogging, almoçar ou descansar, é também um centro de pesquisa botânica e agrícola. O espaço é enorme e contempla o National Orchid Garden (o maior jardim de orquídeas do mundo), alguns museus como o SBG Heritage Museum, que apresenta diversas exposições, e o Jardim Infantil Jacob Ballas, onde as crianças podem brincar e realizar atividades pedagógicas tendo por base a vida das plantas. 

    Merlion Park. O mítico Merlion (cabeça de leão e corpo de peixe) é o ícone nacional de Singapura. O corpo simboliza o início humilde de Singapura, como vila de pescadores, e a cabeça o nome original de Singapura, “Cidade do Leão” em malaio. A estátua tem quase 9 metros e pesa 70 toneladas. É um dos locais turísticos mais procurados e um marco de Singapura.

    Singapore Flyer. Localizado no coração da Marina Bay, o Singapore Flyer é a maior roda gigante de observação de toda a Ásia e a segunda maior do mundo. Do topo, consegue-se ver praticamente toda a cidade e em dias de boa visibilidade, a Malásia e partes da Indonésia. Tem 165 metros, 28 cápsulas de vidro e cada volta demora cerca de 30 minutos.

    Museu ArtScience. No coração de Marina Bay Sands, encontramos o Museu de Arte e Ciência, um testemunho da fusão de arte e tecnologia. Esta obra-prima arquitetónica, projetada pelo arquitecto Moshe Safdie, apresenta um formato impressionante inspirado na flor de lótus, que integra perfeitamente os mundos natural e artificial. No interior, os visitantes têm uma série de exposições que exploram a intersecção entre arte, ciência e tecnologia de ponta.

    Uma das exposições mais cativantes do museu é a experiência Future World, uma jornada multissensorial que mergulha os visitantes num mundo de arte digital de ponta e instalações interactivas. Disponibiliza projecções inspiradoras, permite a manipulação ambientes virtuais e até mesmo criar a sua própria arte digital, tudo isto cercado pelos sons e visuais hipnotizantes do futuro.

    Aeroporto de Changi. A porta de entrada para o ‘futuro’ é o Aeroporto Changi de Singapura que espelha o compromisso da cidade-Estado em abraçar o futuro. Além de ser um exemplo de infraestruturas de transporte aéreo de classe mundial, o Aeroporto de Changi tornou-se um destino por si só, ostentando uma infinidade de atracções e comodidades futurísticas que redefinem a experiência de viagem. Uma das características mais impressionantes do aeroporto é o Jewel, um complexo com cúpula de vidro e aço que abriga uma vasta gama de opções de compras, restaurantes e entretenimento. No centro da ‘Jóia’ fica a Rain Vortex, a queda de água interna mais alta do mundo, cercada por jardins exuberantes e exibições de luzes fascinantes. Mas a verdadeira maravilha tecnológica está no Terminal 4 do Aeroporto de Changi, concebido para pensar no futuro viajante. Aqui, encontra-se sistemas de auto-atendimento de última geração para ‘check-in’, tecnologia de reconhecimento facial e até robôs a auxiliar na gestão de bagagens e serviços de ‘concierge‘. É um vislumbre do futuro das viagens aéreas.

    Raquel Rodrigues é gestora, viajante e criadora da página R.R. Around the World no Facebook.


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  • Os pequeninos que torceram um reino

    Os pequeninos que torceram um reino

    Título

    A infância e juventude dos reis de Portugal

    Autor

    SÉRGIO LUÍS DE CARVALHO

    Editora

    Livros Horizonte (Outubro de 2024)

    Cotação

    17/20

    Recensão

    Sendo um dos mais qualificados e profícuos romancistas e divulgadores de História, Sérgio Luís de Carvalho é um mestre na arte de contar estórias. Em ‘A infância e a juventude dos reis de Portugal’, os leitores serão transportados para um fascinante e, por vezes, tumultuoso mundo dos príncipes e princesas que marcaram o rumo do nosso país. Mas não são contos de fadas.

    Longe de uma abordagem académica ou árida, Sérgio Luís de Carvalho oferece uma narrativa viva, didáctica e deliciosamente anedótica, em muitos casos, que alia rigor histórico a um estilo leve e acessível. Com uma curiosidade quase insaciável, com apartes deliciosos e a propósito, e uma escrita desenvolta e cativante desde a primeira página, este livro é um verdadeiro deleite para quem deseja conhecer os ‘bastidores’, em alguns casos escandalosos ou doentios, da outrora Monarquia portuguesa.

    Percorrendo as infância e juventude dos futuros monarcas e suas famílias, o livro vai iluminando os caprichos, as arbitrariedades e as peculiaridades que moldaram não apenas os seus destinos, mas também os do reino. É um retrato humano, por vezes divertido, outras vezes chocante, daqueles que, por nascimento ou desígnio, assumiram o trono e marcaram os rumos de Portugal. As histórias destes príncipes e princesas revelam-se cheias de contradições: entre o esplendor e o grotesco, o privilégio e o sacrifício, a inteligência e a insensatez.

    Sérgio Luís de Carvalho estrutura o livro de forma meticulosa, organizando os capítulos por monarca e oferecendo ao leitor a liberdade de escolher por onde começar. O índice, que apresenta os reis pelos seus cognomes — como ‘D. Pedro I, o príncipe destrambelhado’, ‘D. Sebastião, o príncipe alienado’ ou ‘D. João V, o príncipe galante’ —, já antecipa o tom despretensioso e quase irónico da narrativa.

    Esta escolha editorial é, aliás, um convite à leitura não-linear, permitindo que o leitor explore as personalidades mais fascinantes ou as histórias mais curiosas de acordo com o seu interesse.

    A riqueza de detalhes é notável, fruto do extenso trabalho de investigação, que se baseia tanto em crónicas antigas como em análises modernas. Sérgio Luís de Carvalho apresenta os príncipes e princesas com uma imparcialidade que não tenta desculpar os seus erros, mas também não os reduz a caricaturas simplistas. Assim, conhecemos D. Pedro I, cujas paixões e vinganças o tornaram uma figura tão fascinante quanto controversa; D. Sebastião, cuja obsessão pela glória e religiosidade beirava a alienação; D. João V, que, entre festas e conquistas amorosas, simbolizava o apogeu e os excessos do barroco português; e D. Pedro IV, cuja vida dividida entre Portugal e o Brasil o tornou uma das figuras mais complexas e enigmáticas da nossa história.

    Mas não é apenas o conteúdo que cativa: o estilo de Sérgio Luís de Carvalho é uma das maiores virtudes do livro. A sua escrita combina leveza e profundidade, didactismo e humor. Mostra bem como captar a atenção do leitor – não se tivesse ele dedicado a ser professor do ensino secundário –, seja através de uma anedota curiosa, seja por meio de uma reflexão mais séria sobre o contexto histórico.

    A violência, os desmandos e a opulência que marcam muitas dessas histórias não são romantizados, mas apresentados como parte integrante de uma realidade histórica muitas vezes desconcertante.

    Apesar do carácter lúdico deste livro, Sérgio Luís de Carvalho também nos oferece uma reflexão implícita sobre a natureza do poder e a formação das elites. Ao explorar como as infâncias e juventudes muitas vezes arbitrárias e traumáticas moldaram os futuros monarcas, o autor lança luz sobre os mecanismos que perpetuavam (e, em alguns casos, ainda perpetuam) as desigualdades e os privilégios. Não se trata apenas de reviver episódios pitorescos ou dramáticos, mas também de compreender as forças sociais e políticas que moldaram a História de Portugal.

    Para os leitores contemporâneos, ‘A infância e a juventude dos reis de Portugal’ é também uma oportunidade de olhar para os bastidores da monarquia com o mesmo fascínio que hoje as revistas cor-de-rosa dedicam às casas reais da Europa. No final, fica sobretudo um retrato humano, um mosaico de vidas extraordinárias e, muitas vezes, contraditórias. E Sérgio Luís de Carvalho consegue transformar o que poderia ser apenas um inventário cronológico de príncipes e princesas num relato fascinante e acessível, que diverte e ensina ao mesmo tempo. Uma leitura obrigatória para os apaixonados pela História de Portugal e para todos os que desejam descobrir os traços humanos por debaixo das coroas.

  • Atração dos latinos pelos fracassados

    Atração dos latinos pelos fracassados


    A posição de relativo destaque desfrutada hoje por Fred Hart entre os escritores policiais que atuaram nos Estados Unidos na década de 40 do século passado lhe foi assegurada por um livro intitulado O Resgate da gangue de Frank Butter, de autoria do professor Joaquín Maria Moretti de Aguirre, da Universidade Autônoma de Madri.

    A ressurreição de Fred Hart (1899-1948) só se deu porque Joaquín Maria, uruguaio de Salto, escolheu a metrópole da América do Norte para ali amargar seu exílio. Os pais dele queriam que fosse para a Europa, porém mais alto falou a paixão que o rapaz nutria pela literatura policial norte-americana.

    O modestíssimo sonho de Joaquín Maria, concluído o curso universitário, era passar um ano em uma sonolenta cidadezinha na fronteira com o Brasil, onde sua mãe possuía uma casa herdada de ancestrais bascos. Pretendia ali dominar o áspero português fronteiriço ao mesmo tempo em que mergulharia no cotidiano do vilarejo. De posse desses conhecimentos, a língua de Camões em sua versão para contrabandistas e a vida insossa num cafundó, escreveria mais tarde, com proustiana dedicação, um romance histórico sobre a chegada maciça de bascos espanhóis ao Sul do Continente em meados do Século 19.

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    Esse sonhou evaporou-se em um dia ventoso e frio de julho quando Joaquín Maria subiu a um palanque no qual jovens barbudos raivosos discursavam contra o governo. Desprezando os políticos e a política, Joaquín Maria não chegou àquele púlpito para destratar autoridades ou exigir liberdade, como escreveram depois jornalistas desavisados. Na verdade, sequer subiu ao palanque. Foi colocado lá à força. Mas, aproveitando o ensejo, pronunciou então uma desconchavada e hilariante arenga que ainda naquele mesmo dia correu de boca em boca pelas gélidas ruas da capital uruguaia com a velocidade das labaredas que devoram os campos estorricados de janeiro…

    Não, não nos antecipemos.

    O jovem Joaquín Maria pretendia também, depois de lançar o romance que lhe faria luzir o nome no vasto mundo literário hispânico, escrever soturnos contos campeiros, como o faziam muitos escritores de sua pequena, porém orgulhosa, nação. O núcleo verdadeiro de sua obra seria formado por curtas histórias trágicas protagonizadas por peões taciturnos.

    Mas, por azar, na época de sua desgraça, andava alinhavando – apenas para treinar os dedos, como dizia – um folhetim de casos burlescos protagonizados por um fabuloso coronel, Buenaventura Pasión, veterano de muitas refregas eleitorais e guerreiras, um anti-herói irônico, desbocado, parlapatão e pantagruélico.

    No dia fatídico, Joaquín Maria carregava no bolso de sua jaqueta de couro o original desse folhetim.

    Bem, já que estamos falando de alguém que se tornou renomado professor de literatura, é importante consignar que Joaquín Maria havia publicado, um ano antes, no El Nacional, um ensaio, intitulado “Neblina e escárnio”, com o qual pretendia demonstrar que a Grã-Bretanha e a Irlanda só eram o berço de magníficos escritores satíricos por sofrerem com um dos piores climas do mundo. Por outro lado, defendia que, embora nascidos em terras ensolaradas, portugueses, espanhóis e italianos eram os autores dos livros mais lúgubres da literatura mundial.

    Leitor onívoro, Joaquín Maria entremeava a leitura de romances clássicos (dominava também o inglês, o francês e o português) com coletâneas de contos argentinos, brasileiros e uruguaios. Como muitos rapazes daquelas terras austrais, sentia-se literariamente mais atraído pelo rude cotidiano dos gaúchos do que pelo vazio espiritual das cidades. Para espairecer o espírito, no intervalo entre a leitura de duas obras densas, devorava romances policiais norte-americanos.

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    Como foi Joaquín Maria parar em cima do tal fatídico palanque?

    Foi assim.

    Naquele dia ele havia almoçado num restaurante do Mercado del Puerto em companhia de dois colegas e de quatro garrafas de vinho. A primeira botelha, esvaída antes que fizessem o pedido, já os deixou alegres. A segunda acompanhou o despacho das carnes e a terceira e a quarta foram consumidas, entre gargalhadas, durante a leitura que Joaquín Maria fez dos capítulos iniciais de As mais tristes desventuras do valoroso coronel Buenaventura Pasión.

    Risonhos ainda, bochechas vermelhas e pernas incertas, os três jovens ganharam a rua ventosa. De repente, ao quebrarem uma esquina, viram-se diante de um ajuntamento em uma praça. Enfiaram-se pelo meio da ululante multidão até que se detiveram ao pé dos oradores.

    Livres pensadores, praticamente anarquistas, indiferentes à política, perceberam ali uma excelente oportunidade de diversão. Estavam em um posto privilegiado para a fruição das frases feitas e dos chavões dos furibundos discursadores, muitos dos quais eles conheciam de vista da universidade.

    Resolveram desempenhar o sempre divertido papel de bêbados de comício. Passaram a aplaudir com grande entusiasmo toda e qualquer tirada dos oradores, especialmente as mais idiotas. De vez em quando soltavam em voz alta uma piada.

    Como confessaria trinta anos depois, já então proprietário de veneranda barba grisalha e rotundo e dilatado ventre, Joaquín Maria estava ali também para, se possível, bolinar alguma donzela.

    À época ele era acossado por um recorrente sonho erótico no qual fazia amor com uma guerrilheira tupamara, vestida de Branca de Neve, que o fustigava com um chicotinho, chamando-o de “sórdido porco capitalista”.

    Tudo correu bem no início. Às vezes uma das piadas dos mancebos que recendiam a vinho obtinha o reconhecimento do público. De vez em quando, Joaquín Maria conseguia se roçar em uma garota.

    group of people illustration

    Ocorre, porém, que, no intervalo entre as falas de dois oradores, alguns marmanjos grandalhões – cansados das piadinhas infames e das esfregas – resolveram colocar Joaquín Maria, o menor dos três amigos, em cima do palanque. Pegaram-no pelos braços e pernas e erguendo-o por cima de incontáveis jovens cabeças excitadas lançaram-no deitado sobre o tablado.

    Ao se levantar, Joaquín Maria surpreendeu-se com a visão de uma massa humana que ria às bandeiras despregadas. Não demorou um segundo para descobrir o que tinha de fazer. Retirou do bolso da jaqueta o manuscrito amarfanhado que pouco antes lera para os colegas. E, com voz pastosa e queixo duro, começou a narrar As mais tristes desventuras do valoroso coronel Buenaventura Pasión.

    As gargalhadas e os cacarejos se sucediam num rugido crescente como ondas de um mar furioso.

    Os organizadores do comício demoraram preciosos minutos até perceber que o baixote magricelo tinha de ser arrancado dali imediatamente. Debochava dos militares, sim, mas avacalhava também o protesto. Vacilaram um pouco a retirá-lo dali porque sabiam que não se deve contrariar uma aglomeração que ri.

    Em que consistia a novela de Joaquín Maria? Era um livrinho tosco, porém movimentado e divertido, no qual o autor enfileirava piadas – contadas pelo coronel – sobre a estultícia e a avareza dos poderosos, rurais ou urbanos.

    Como Joaquín Maria construiu sua noveleta?

    Pela junção de inúmeras piadas. Ele simplesmente agarrava o esqueleto de uma história engraçada e decorava-o com roupas e adereços. E depois dava um jeito de uni-la a outra piada também estilizada. Um cáustico militar, o coronel Buenaventura Pasión, era o protagonista/narrador do rosário de chistes e palhaçadas.

    Se fosse atento às coisas da política naquela época, Joaquín Maria certamente não teria concedido uma patente militar a seu pícaro herói.

    Amolecido pelo vinho e pela vertigem de ver-se acolhido por uma cumplicidade multitudinária, Joaquín Maria fez a leitura dos dois primeiros e breves capítulos do seu para sempre inédito folhetim até que, sob palmas e assovios, mais de apoio que de repúdio, foi sacado do palco.

    black and gray condenser microphone

    Horas mais tarde, sóbrio à custa de três xícaras de café amargo, atravessou em alta velocidade, num carro de amigos de sua família, o cenário – pequenas cidades indolentes – que elegera como palco para as patifarias do coronel Buenaventura.

    Ao raiar o sol, no dia seguinte ao de seu efêmero triunfo oratório, cruzou uma rua e adentrou um exótico país chamado Brasil, que também vivia, à época, dias impróprios para piadistas.

    Três semanas mais tarde chegava a Caracas, de onde voou para os Estados Unidos. Lá, já estudante da Universidade de Nova Iorque, recebeu a incumbência de resenhar um livro policial escrito nos anos 40. Deram-lhe a oportunidade de optar entre os consagrados Dashiel Hammet ou Raymond Chandler. Ocorre, porém, que Joaquín Maria Moretti de Aguirre tinha verdadeira obsessão por escritores menores. Achava que a paixão pelos fracassados era um traço distintivo dos latinos, dos católicos, que jamais seria compreendido por mestres norte-americanos, protestantes. Por isso, para desafiar seu professor e afrontar a mentalidade anglo-saxônica, escolheu escrever sobre A gangue de Frank Butter, de Fred Hart, escritor de segunda ou terceira linha.

    Foi assim que saíram do anonimato e do esquecimento um hoje famoso ensaísta latino-americano (que não escreveu um romance histórico e nem mesmo um só conto duro) e o divertidíssimo Fred Butter, protagonista da obra mais representativa do que hoje se conhece como romance policial-pastelão.

    Lourenço Cazarré é escritor

    Texto originalmente integrado no livro Kzar Alexander, o louco de Pelotas


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  • Virada do avesso 

    Virada do avesso 

    Quando nasceu Odete, a mãe colocou-a numa cesta junto à máquina de costura.  Embalada pelo som ritmado do pedal, a menina cresceu sem conhecer outra realidade. Da cesta passou para uma cadeira de criança trazida de um passeio a Reguengos.  Foi nela que aprendeu a dar os primeiros pontos. Dali observava a mãe a tirar as medidas das clientes, a talhar e alinhavar os modelos, a experimentar e fazer os últimos ajustes.  A mãe dizia que gostava que a menina tivesse outra vida. Que não ficasse ali presa na casa de fora, a ver o mundo passar na rua. Mas Odete cedo revelou ter mãos de fada. A chegada da segunda máquina, comprada a prestações na Singer, foi uma espécie de diploma. Primeiro em dupla, depois sozinha, Odete trabalhou grande parte da sua vida como modista.

    person holding white and red plastic toy

    Mas chegou o pronto-a-vestir. Abriram lojas modernas um pouco por toda a cidade. Os vestidos da moda estavam agora à mão de semear. Odete já pouco podia mostrar da sua arte. Vivia de fazer pequenos arranjos. Ganhava bem. Mas o trabalho não brilhava. Os clientes eram desconhecidos com os quais poucas palavras trocava. Dias, meses, anos, sentada a uma máquina que agora era elétrica.  Um rádio. Um pequeno cão peludo, sonolento, enrolado sobre a velha cadeira alentejana. O sol a bater-lhe no focinho tranquilo. Entre bainhas, botões e fechos, Odete encontrava tempo para fazer peças que mostravam a sua destreza e talento. Pendurava-as na porta de reixa, viradas para rua. Entre elas, um talego de cores vibrantes saltava à vista. As pessoas passavam, paravam, perguntavam o preço:

    – Esse não está à venda. – respondia Odete.

    – Que pena! Tão bonito. – comentavam.

    Odete sabia disso. Era justamente essa a razão pela qual não o vendia. Para que admirassem a sua habilidade. Depois, regressava o silêncio.

    Certo dia, uma turista curiosa parou a admirar o talego. Quis saber o que era, para que servia. Odete, entusiasmada com a conversa, respondeu-lhe elevando cada vez mais a voz:

    –  TA-LE-GO! É PA-RA PÔR O PÃ-O! TA-LE-GO!

    A turista enfiou a mão no saco e repetiu sorridente:

    –  TA-LE-GO! PÃ-O!

    Mas no fundo do talego, não foi pão que encontrou. Foi um brinco de ouro. Espantada, entregou-o a Odete que o rejeitou. Não era dela. A turista voltou a meter a mão no talego e encontrou o par do brinco.

    Passados dias, uma outra mulher que parou para ver o talego retirou de lá de dentro um cordão de ouro de duas voltas.  Odete insistiu que ficasse com ele. Não lhe pertencia.

    Cedo correu a notícia pela cidade.   As pessoas começaram a passar com mais frequência àquela porta. Primeiro vinham a medo, disfarçadamente. Como quem  não quer a coisa. O talego nunca desiludia. Não havia por esses dias quem não se lembrasse de vir cumprimentar diariamente a Odete. Passado algum tempo, tinha tantos amigos que a fila se formava durante a madrugada. Quando abria a porta para pendurar o objeto, todos se apressavam a tentar a sua sorte e  já nem se davam ao trabalho de lhe dar os bons-dias. Pelo contrário. Reclamavam. Insurgiam-se:

    – O que custava ao raio da velha deixar aqui o saco durante a noite?

    Tiravam o que queriam e iam embora. Até que um dia, ao chegarem à porta, encontraram o talego virado do avesso. Metiam as mãos e nada. De um lado. Do outro. Nada. Não podiam acreditar. Bateram tão violentamente à porta que a arrombaram.  Invadiram a casa para exigir explicações. Mas não  encontraram a costureira. Estava tudo nos sítios do costume, menos ela e o cão.  Nunca souberam que numa tarde de inverno, cansada das dores do reumático que há muito lhe davam que fazer, Odete resolveu meter a mão dentro do talego na esperança de encontrar uma pomada que a aliviasse. Mas o que de lá saiu foi um cartão dourado. Odete Mendonça diziam as letras em relevo. Não havia dúvidas de que era para ela.

    Há quem diga que a viu deitada numa espreguiçadeira, com o seu Pompom ao lado, a beber água de coco, em Copacabana.

    Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve


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  • A fonte

    A fonte

    Aquele número que ali estava diante de si, no seu smartphone, era inteiramente novo para a Cátia que odiava ter de atender números desconhecidos que não lhe diziam nada. Tinha medo.

    Mas o aparelho até parecia que estava mais nervoso que o habitual e mesmo o som aparentava estar mais estridente e intenso.

    E a proveniência podia muito bem vir do seu ex-namorado, o que seria um problema, pensou ela. Já em tempos o fizera, ligando de uma velha cabine perdida no tempo, achava ela.

    Não queria falar com ele por nada deste mundo, e suspeitava que o rapaz pudesse estar muito bem a ligar de outro telemóvel, embora ele soubesse de antemão, que Cátia raramente atendia quando os números eram de origem desconhecida.

    Desligou o som.

    Para ela, ele era um stalker, mas, para ele, ela também era uma stalker.

    Mas isso é outra história.

    Ficou a olhar para o telemóvel a vibrar enquanto se decidia.

    Já tinha tido problemas por não atender chamadas, sobretudo quando se tratava do campo laboral, tinha noção disso, e pagou um preço bem caro da ultima vez por ter investido nessa opção arriscada do não atendimento, mas era a pior coisa que lhe podiam fazer, e jamais queria ter de voltar a ouvir a voz do Marco, o seu stalker, isso é que não. A acontecer só no tribunal caso chegassem a esse ponto. 

    Tinham namorado dois anos e a relação acabara em violência doméstica segundo os dois e teriam mesmo acabado em tribunal, não fosse o aparecimento da pandemia mediática. Mas hoje ela pondera fazer queixa  novamente. E ele também. São, até prova do contrário, ambos vitimas de “stalkerismo ”.

    Estranho mundo o nosso.

    Na altura ele fez queixa dela, alegando que levara um tareão à antiga, invocando que ela era cinturão castanho em Full Contact e até era mais alta que ele.

    Mas ela sempre o negou. Ele era apenas cinturão verde em Judo.

    Naquela altura atípica e singular da pandemia e de confinamentos loucos e radicais, cujas regras mudavam dia sim dia não, os advogados chegaram a acordo para não levarem o caso a tribunal. Nenhum dos quatro se via de máscara nas audiências. Áí estavam todos de acordo.

    Mas isso é também outra história.

    E agora que tudo aparentemente passou, o Direito e a verdade eram de novo uma hipótese de voltar à carga para ambos.

    Mas talvez seja tarde. Os tempos mudaram.

    Cátia era uma reincidente em não atender números anónimos, mas com algum desconforto, e depois de pensar bem, atendeu a chamada.

    Era da Agência Funerária que estava a tratar da lápide do pai que já morrera há um ano, e só agora a família tinha decidido fazer uma, com uma inscrição a recordar o bom homem que o Sr. Américo Santos tinha sido, uma enorme mentira, uma vez que nenhum dos quatro filhos tivera entretanto qualquer tipo de saudades do pai, nem mesmo a mulher, que rejuvesnecera dez anos após a morte do marido.

     O Sr. Américo tinha sido uma má pessoa e até um pai ausente, fazia tudo à sua maneira, não ouvia ninguém, era malcriado, gordo, corrupto e mil coisas mais bastante negativas por sinal, no entanto tinha sido em vida católico e a família estava a ser forçada pela outra parte da família para que essa lápide ganhasse vida.

    No que resta do mundo católico, é assim.

    Cátia ficou aliviada quando percebeu a origem da chamada.

    O processo já tinha avançado, já estava até a maquete feita, e era por isso mesmo que esta ligação se estava a efectuar.

    A senhora da Agência disse:

    – Estou a falar com o Sr. Timóteo?

    – Não! Sou a Cátia. O Timóteo é o meu irmão.

    – Olá, eu sou a Dulce da funerária Anjos. Pode ser consigo também. Já trocámos uns e-mails.

    A Cátia estava descansada naquele momento, não era nenhum desconhecido, nenhum stalker, nenhum ET, nenhum vampiro. E de forma calma respondeu:

    – Sim, sim.

    – Olhe, é porque a fonte de letra que me está a pedir nós efectivamente não temos.

    – Não tem a Helvética?

    – Não. Sabe, essa não tem muita saída. Nós trabalhamos com a Comic Sans. Normalmente os clientes ficam satisfeitos com essa. Não leve a mal, mas para mim também é a mais gira de todas. Eu uso-a para quase tudo… E aconselho.

    – Sim. Mas eu trabalho na área do Design.

    Interrompeu a Cátia, irritada.

    – E não quero essa letra. Não tem nenhuma Garamond?

    – Gara… quê?

    – …Mond. Garamond. É um tipo de letra. Não conhece?

    – Pois. É o que lhe digo. Nós aqui não trabalhamos com a Garamond. Pois… Se a senhora trabalha nessa área, deve ser mais exigente. É como eu com a Fórmula 1. Vej…

    – Então trabalham com quais?

    Interrompeu.

    – Não lhe sei assim dizer. É que é a primeira vez que alguém se queixa da fonte.

    – Sim, mas eu queria saber com que fontes trabalham, se não se importa. Até porque essa aí não tem nada a ver com a situação. Estamos a falar de uma pessoa morta não é!

    – Pois. Estou a perceber. Queria assim uma coisa… Como dizer?.. Mais, vá… Pesada!.. Vá!

    – Não é pesada. É ajustada.

    – Pois. A Comic é assim mais leve e simpática. Mas percebo. Quer assim uma coisa…

    – Mas diga-me, com quem é que posso falar aí da Agência que saiba do assunto?

    Interrompeu a Cátia novamente, ainda mais irritada.

    – Com o Sr. Alves mas está com covid em casa. Pelo menos ele acha que é. Está sem olfato e está muito irritado. Está isolado, sabe!.. Eu já lhe disse que não era preciso o isolamento mas é teimoso o raio do homem. E não quer falar com ninguém. Ainda há pouco tentei comunicar com ele e quase me ofendeu. Tente mandar um e-mail para o Sr.Alves.

    – Dê-me o e-mail então.

    Simultaneamente a Cátia recebe entretanto uma chamada na outra linha e o número é outra vez desconhecido, até diz sem ID, o que faz com que fique ainda mais nervosa.

    – Espere, estou aqui à procura. Mas olhe, entretanto vi aqui qualquer coisa no nosso catálogo sobre isso das letras, quer que lhe diga?

    – Sim.

     Entretanto a chamada anónima caiu.

    – Arial. Gosta?

    – Não.

    – Verdana?

    – Também não. É horrível.

    – Também acho.

    – Bold.

    – Isso não é fonte. Isso é quando se quer a letra mais marcada. Mais escura.

    – Ai sim? Que engraçado. Mas fica muito gira, assim mais escurinha.

    – Diga mais.

    – Vicking.

    – Não acredito que têm essa. Para que é que a usam?

    – Pois, não sei. Tem de perguntar ao Sr. Alves. Deve ser para cartões. Aqui em Arouca usa-se muito. É assim… Dinâmica!

    – Isso é absurdo.

    – Só temos aqui mais uma, que é… Deixe ver… Ah!.. Times New Roman.

    – Tem essa?

    – Aqui diz que sim. Não é do meu departamento, repito. Isto é mais com o Sr. Alves. Mas pelo menos é o que diz aqui. Mas eu se quer que lhe diga, gosto muito da outra dos Comic Sans. É muito gira, mesmo para lápides. Torna assim a coisa mais leve sabe?.. Quando eu morrer q…

    – Mas isto não é para ser giro.

    Interrompeu a miúda novamente, e desta vez ainda de forma mais abrupta. Continuou:

    – O meu pai está morto. Estamos a falar de uma lápide.

    Aparece novamente a inscrição sem ID no telemóvel. A rapariga começa a ficar muito ansiosa.

    – Olhe eu vou pensar melhor e mando um e-mail para vocês a dizer a nossa opção. Vou reunir com os meus irmãos e com a minha mãe. Mas por favor reencaminhe para o Sr. Alves a nossa opção.

    – Já agora. Podia avaliar a minha prestação?

    Sugeriu a empregada.

    – Como?

    – A seguir vai receber um inquerit…

    – Agora não. Obrigada.

    – É o meu irmão que vai ligar. É uma voz verdadeira. Nã…

    Desligou e ficou a olhar para o telemóvel que entretanto já estava com o som do toque activo, cada vez mais estridente. Cada vez mais agudo. Até lhe pareceu que era a primeira vez que ouvia aquele toque.

    E num ápice atendeu.

    – Sim. Com quem falo?

    Perguntou.

    E o telefone ao fim de uns segundos desligou-se mas ainda se ouviu uma voz ao longe, meio cavernosa e imperceptível, embora com um tom bem marcado mas dúbio.

    Estranho.

    A Cátia ficou branca. Não queria acreditar no que achava que acabava de ouvir.

    Foi à cozinha beber um copo de água. Sentiu um ligeiro frio interior que normalmente anunciava quebra de tensão e sentou-se numa cadeira da cozinha.

    Ía jurar que era a voz do pai a pedir a Comic Sans.

    Ruy Otero é artista media

    Ilustrações de Ruy Otero


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