Leonilde nasceu em pleno Estado Novo. Veio da planície, do Alentejo profundo, para a capital. Os pais empregaram-se numa mercearia. Ela terminou a 4.ª classe e foi para aprendiz de cabeleireira.
Farta de lavar cabeças num bairro da periferia, Leonilde decidiu voltar a estudar. Não ia ficar naquele salão para o resto da vida. Um único entrave: o pai. Era ele que mandava lá em casa e nem queria ouvir falar em escola. A cachopa ainda se perdia. Devia agradecer a sorte de ter um emprego e um ordenadinho. Além do mais, estava na altura de pensar em casar. Qualquer dia começavam a dar à língua.
A Leonilde casou. O Rogério trabalhava na construção naval. Era bom rapaz e tinha prometido deixá-la voltar a estudar. Mas veio uma gravidez. Depois outra. E uma terceira. Queriam um filho varão e só nasciam meninas.
Após a revolução, desiludido com as condições de vida dos trabalhadores, Rogério juntou-se ao sindicato. Incutiu em Leonilde, que, entretanto, voltara a estudar, os valores do socialismo. Não faltavam a uma reunião do partido, a uma manifestação, a um comício.
Terminada a licenciatura, Leonilde, de foice e martelo ao peito, sentia-se mais preparada do que nunca para ajudar. Queria combater o capitalismo. Ser a voz dos desfavorecidos e dos explorados.
Passei há dias por uma das filhas e perguntei pela família. Contou-me que o pai, aposentado, regressou sozinho ao Alentejo. A mãe é candidata a presidente de uma junta de freguesia:
– Faz sentido. – respondi – Sempre esteve muito ligada à política.
– Fazia. – disse ela – Se não fosse ser a candidata da extrema-direita.
Perante a minha perplexidade, explicou-me a razão invocada por Leonilde quando ela própria a questionou:
– Só eles é que me convidaram!
Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve
O dia-a-dia do marechal começava pelas seis horas. Nessa madrugada, enquanto o sol procurava o seu lugar no céu, Rommel redigiu o postal que todos os dias enviava a Lúcia.
“Querida Lu, Ao contrário do que se poderia esperar, faz frio em Jerusalém. As noites têm muitas estrelas e dá vontade de conversar com elas. Espero que o Manfred esteja bem. Em breve deverá ser chamado para a Juventude Hitleriana. Ele que se ofereça antes como voluntário para a Luftwaffe. Teu, Erwin”
Escrevera a carta logo de manhã para melhor enfrentar um assunto que o deixava contrafeito. Da Alemanha chegavam relatórios segundo os quais, e tendo em conta as mentiras oficiais, se davam conta da enormidade de atos bárbaros perpetrados contra os judeus. Se era assim em relatórios oficiais, como seria na realidade? Mais do que uma vez Rommel se indignara na Wehrmacht contra o tratamento infligido a judeus; como comandante, sempre se recusara a realizar deportações. Mas agora chegavam-lhe ordens de Berlim, diretamente de Hitler, para se preparar para executar a diretiva Solução Final, ali mesmo, na Palestina. “Fuehrer’s Befehl”, uma Ordem do Chefe, ali naquela terra de ordens e mandamentos divinos.
Erwin Rommel (primeiro à direita) inspecciona um posto de observação de artilharia na costa da Líbia.
Na reunião de Estado-Maior das oito da manhã, apenas estavam os principais chefes. Gause apresentou a situação do dia e as informações sobre a comunidade muçulmana. Na cidade, não queriam confrontações que redundariam num banho de sangue. Mas no campo, queriam vingar-se dos assaltos vindos dos Kibbutzim. “… E vice-versa, não?”, acrescentou Rommel. “… Naturalmente, Herr Feldmarschall. O Palmach está mais ativo do que nunca e já identificámos várias das suas células em Jerusalém.” “… Tudo isso é muito bonito, mas agora escutem a ordem que veio de Berlim… Westphal: proceda, por favor!”. O Coronel Westphal extraiu um telegrama de um envelope já aberto e começou a ler: “… Operação Solução Final. É minha vontade que o Exército de Panzer de Afrika, antes de iniciar a próxima ofensiva, diligencie a prisão e imediata execução dos cabecilhas judaicos dos movimentos de resistência e prepare a comunidade judaica da região para futuras deportações. Wolfschanze, 5 de Agosto de 1942“. Fuehrer’s Befehl. Ordem de Hitler. O telegrama foi deposto em cima da mesa, como se fosse contagioso.
Um silêncio pesado percorreu a sala. Aquelas cabeças de Estado-Maior, habituadas a pensar em planos, distâncias e métricas, a fazer cálculos e repartir forças, digeriam duas operações de rajada: matar dirigentes judaicos e marchar para o Cáucaso. Assim, sem mais nem menos. Rommel entendia bem esse estado de espírito. Passara pelo mesmo quando o telegrama lhe chegara às mãos, pelas sete da manhã, decerto proveniente de uma das insónias de Hitler. Sabia estar numa encruzilhada; qualquer escolha que fizesse, não iria correr bem. Tinha de sentir como pulsavam aquelas mentes endurecidas por anos de guerra.
“Mais atrocidades?”, perguntou o general Buelowius no salão do Estado-Maior. “… Mais atrocidades, Buelowius? Quer saber o que são atrocidades…?”, replicou Rommel. “Gause, queira informar o Estado-Maior do que falámos esta manhã.” O general Gause ergueu-se e falou vagarosamente. “Várias organizações do Reich, militares e civis, usam os judeus em estações experimentais para a produção de gás, usam corpos para a extração de gorduras e os ossos para a fertilização dos campos, e transportam milhares de judeus de um lugar a outro em caminhões de gado e em comboios especiais.” Gause continuou, após uma pausa para beber água. “… Desde a invasão da Polónia, a Wehrmacht criou um império na Europa Oriental. As nossas forças aprisionaram um grande número de judeus. No início, foram conduzidos para guetos e usados em trabalho escravo; em muitos casos foram assassinados. E, entretanto, os dirigentes planearam a ‘Solução Final’.”
“… Qual solução final?”, perguntou Bayerlein. “… É óbvio para todos que Hitler está determinado a levar a cabo o extermínio físico de todos os judeus na Europa, como afirmou repetidamente nos seus discursos”, disse Gause. “Mas o marechal dar-vos-á mais pormenores.”
Rommel, que colocara ambas as mãos sobre a face, retirou-as lentamente e cruzou-as em cima da mesa. “Senhores oficiais, há já muito tempo fui visitado por um meu amigo, Goerdeler, burgomestre de Estugarda; começou quando regressei da vitoriosa campanha de França.” Os presentes entreolharam-se um pouco receosos do que iria dali sair. “Desde 1934 que Goerdeler instou, em memorandos, que Hitler deveria alterar a sua ‘política judaica’, por questões de justiça e de interesse nacional. Argumentava que a Alemanha poderia desfrutar de boas relações com a Grã-Bretanha, França e Estados Unidos se alterasse as políticas relativas à ‘Questão Judaica’. Em 1941, propôs que a Liga das Nações criasse um estado judaico com a cidadania para todos os judeus, nomeadamente a maioria dos judeus alemães.”
E Rommel continuou: “… Saberão – e se não sabem, ficam a saber – que teve lugar a 20 de Janeiro de 1942, no palacete de Wannsee, junto ao lago, a sudoeste de Berlim, e presidida por Heydrich, uma conferência à porta fechada, sobre o que eles chamam ‘a solução final da questão judaica’, a expulsão dos judeus de todas as esferas da vida do povo alemão, Endlösung der Judenfrage. O braço direito de Heydrich, Adolf Eichmann, foi encarregado de redigir a minuta da reunião.”
Bayerlein, agitado desde o início da reunião, obtemperou: “… Nós somos militares e não creio que tenhamos de nos imiscuir em questões políticas. Temos, desde há muito, uma questão judaica, e muitos são os antissemitas…”“… Bayerlein, não me venha com militarismos a mim. Isto é uma questão de humanidade.” Ninguém poderia, de facto, dar lições a Erwin Rommel de como ser militar, ele que era um puro-sangue dessa raça. Na invasão de França, comandara a 7ª Divisão Panzer, a “Divisão fantasma”, à frente de todas as outras, a tal ponto que nem o Estado-Maior sabia onde se encontrava; capturara mais de 50.000 prisioneiros franceses e britânicos, centenas de carros de combate e milhares de veículos. Essa campanha vitoriosa valera-lhe a Cruz de Ferro de Cavaleiro, laureada com espadas, folhas de carvalho e diamantes, a mais elevada condecoração de guerra. Para Rommel, que já fora condecorado com a medalha Pour le Mérite, na 1ª Grande Guerra, isso pouco acrescentara. E como tudo isso estava longe, agora que se tratava da vida e morte de milhões de pessoas.
“… Eu jamais cumpriria esta ordem de Hitler sem destruir o frágil equilíbrio de forças aqui em Jerusalém e na Palestina… Mas não quero tomar qualquer decisão antes de vos ouvir sobre a segunda ordem de Hitler. Prossiga, Gause: “… O caminho mais direto seria através da Turquia; mas isso está fora de questão. É um país neutro. O segundo caminho exequível leva-nos a atravessar quatro nações: Jordânia, Síria, Iraque, Irão, até chegar ao Cáucaso, às fronteiras da União Soviética, no Azerbeijão.”
Unidade Judaico-Polonesa em Jerusalém,
Rommel tomou a palavra:“Creio que todos adivinham que Hitler não nos quer parados do lado de cá do Cáucaso. Os primeiros 3.000 quilómetros seriam metade do nosso caminho. Certamente, teremos de atravessar a cordilheira, a uns 2.000 metros de altitude. E, finalmente, mais 3.000 quilómetros ao longo do Mar Cáspio até chegarmos ao Volga e talvez até Estalinegrado, que é o objetivo da campanha de verão das nossas forças na Rússia… É uma missão impossível com as forças que temos.” “E não teremos reforços?”, inquiriu Bayerlein.
“… Aqui? Se nem existem reforços para as planícies russas, vamos esperar que cheguem aqui? “… Meus senhores”, rematou Rommel, “A minha primeira decisão está tomada. Não exterminarei cabecilhas judaicos. Da vossa parte, fiquem a pensar na ordem de Hitler de partir em direção ao Cáucaso, sobre a qual ainda faltam pormenores.”
Artur Matos costumava acreditar que as dificuldades enfrentadas pelos navegadores portugueses na costa africana tinham sido, por si só, uma prova de resiliência e génio. Quer dizer, até começar a trabalhar com Elias Mukuba, para quem as “dificuldades” dos colonizadores eram um eufemismo irritante para descrever a brutalidade das expedições e o impacto devastador sobre as populações locais. Já se começara a habituar, mas continuava a ser um cabo de guerra constante: Artur tentava enfatizar os perigos da empreitada em tempos inóspitos, Mukuba insistia que o verdadeiro perigo fora trazido pelos próprios portugueses.
O capítulo que Artur estivera a redigir durante mais de uma semana abordava o fracasso da colonização inicial de Benguela. Descrevera como as expectativas ambiciosas de Paulo Dias de Novais e, mais tarde, de Manuel Cerveira Pereira tinham dado lugar a uma realidade de desastres logísticos, doenças e conflitos com os sobas locais. Era uma narrativa que misturava tragédia e ironia, mas pressentia que Mukuba desejaria que fosse transformado numa lição de moral.
Por isso, Artur não conseguia deixar de se sentir dividido enquanto escrevia. Parecia-lhe claro que a narrativa histórica, mesmo quando embasada em factos, teria sempre, pelo menos aos olhos do seu editor, um prisma interpretativo. E, como escritor, teria de encontrar um equilíbrio, mesmo se a responsabilidade de escolher as palavras servia também para moldar percepções. Havia dias em que sentia que estava apenas a esculpir sombras, contornos de verdades, mas nunca a totalidade.
Chegou o dia daquilo que Artur começou a denominar “revisão”, ou seja, os encontros com o editor, após lhe enviar o manuscrito uns dias antes.
– Matos, o seu texto faz com que estes homens pareçam heróis trágicos. – Mukuba disparou logo que Artur abriu a porta.
Esticou-lhe o manuscrito. Estava densamente sublinhado; passagens com uma força exagerada da caneta vermelha, quase rasgando o papel.
– Colocou os portugueses como se fossem mártires numa cruzada gloriosa. Já parou para pensar que os nativos eram aqui as vítimas, e não os seus patrícios os protagonistas desta tua epopeia de falhanços?
Artur levantou o olhar. As palavras de Mukuba tinham um peso que ressoava, porque ele sabia que, em parte, eram verdadeiras. Mas sentia também que existia uma necessidade de olhar para os eventos com as lentes da complexidade, reconhecendo não apenas o sofrimento infligido, mas também os paradoxos dos que infligiam.
– Elias, estou apenas a relatar os factos. – Artur tentava manter a calma, mas sentia o estômago a apertar. – Sim, eles enfrentaram doenças, dificuldades e hostilidade local. Isso é inegável. Não estou a dizer que foram mártires, mas também não posso ignorar que as condições eram extremamente adversas.
– Adversas para quem, Matos? Para os homens que chegaram em navios armados e deixaram destruição por onde passaram? Ou para as populações que já estavam ali, a viver tranquilamente, até que apareceram os tais “exploradores”?
Eis o dilema do historiador: descrever a História pelos factos, ou pela ética? Este pensamento rondava agora a mente de Artur Matos, desde que conhecera Elias Mukuba, como uma sombra persistente, mesmo se se esforçava para conciliar duas perspectivas irreconciliáveis: a dos vencedores, com as suas narrativas de poder e progresso, e a dos vencidos, cujas vozes muitas vezes se perdiam entre os escombros do tempo. Mas, afinal, quem são os vencedores e os vencidos?
Artur sabia que os factos eram o ponto de partida inegável de qualquer narrativa histórica. Datas, nomes, eventos: eram pilares sólidos, ou pelo menos assim pareciam. Mas os factos raramente são neutros. A escolha de quais factos incluir, de como os enquadrar, de que voz privilegiar ao narrá-los; tudo isso é um acto de interpretação que inevitavelmente reflecte valores e prioridades. Mais do que descrever o que aconteceu, o historiador tinha de decidir o que significava.
Mas a ética, essa companheira incómoda, se lhe abrem a porta, não permite que o historiador se refugie na neutralidade aparente dos factos. Havia algo de perturbador em relatar a violência, o sofrimento, a exploração, sem uma perspectiva crítica. Artur sabia que a História estava cheia de horrores perpetrados sob a bandeira do progresso, mas como capturar a humanidade das vítimas sem cair na armadilha de demonizar todos os que estavam do outro lado?
Esse dilema começara a manifestar-se em cada linha que escrevia sobre Benguela. Relatar as dificuldades enfrentadas pelos colonizadores portugueses poderia ser interpretado como uma tentativa de gerar simpatia por aqueles que, afinal, eram os invasores. Por outro lado, enfatizar apenas os horrores infligidos aos nativos corria o risco de reduzir os acontecimentos a uma batalha simplista entre bons e maus.
Artur queria explicar esses dilemas a Mukuba, mas o editor continuava no ataque.
– Olhe para isto. – Mukuba apontou para um parágrafo que descrevia a escolha de Cerveira Pereira de fundar São Filipe de Benguela num local que mais tarde se revelou insalubre. – Aqui, escreve: “Os sonhos de Cerveira Pereira foram afogados pelos pântanos e pelas febres.” Sonhos, Matos? Sonhos? Este homem chegou, queimou aldeias, matou nativos e roubou terras. E chama a isto sonho?
– É uma figura de estilo, Elias. – Artur suspirou. – Não estou a glorificar o homem. Estou a descrever a ironia do fracasso dele.
Mukuba inclinou-se para trás na cadeira e olhou para Artur com uma expressão que era metade exasperação, metade diversão.
– Ironia, diz? A verdadeira ironia, Matos, é que eles achavam que estavam a civilizar, mas acabaram a construir a sua própria sepultura. Benguela tornou-se um cemitério de brancos porque eles não entendiam a terra, não respeitavam o clima, e, acima de tudo, porque estavam cegos pela ganância.
Artur ficou em silêncio, reflectindo. Havia algo profundamente desconcertante naquela visão. Ele sempre vira os colonizadores como figuras de uma tragédia maior, mas Mukuba conseguia despir a narrativa de qualquer resquício de simpatia. Não havia tragédia em quem vê na exploração uma escolha deliberada. Esse ponto o perturbava mais do que queria admitir.
Saiu da reunião pouco depois, com as folhas avermelhadas de sublinhados e nota para “reflexão”, vincara o editor. Artur passou as duas semanas seguintes a reescrever o capítulo, tentando encontrar um equilíbrio entre a crítica às acções dos colonizadores e a contextualização histórica das suas motivações, descrevendo como os portugueses, ao tentarem transformar Benguela num posto avançado lucrativo, enfrentaram uma resistência feroz dos sobas locais, além do confronto com a Natureza, ou melhor, com a malária que dizimava as tropas, alimentando os motins internos por força do desespero e da desorganização.
Quando enviou, de novo o manuscrito, recebeu três dias depois um telefonema de Mukuba.
– A parte dos motins contra Cerveira Pereira parece-me interessante, excepto a classificação: escreveu que ele foi “vítima de insubordinação.” Mas não menciona que essa insubordinação veio de soldados que estavam a morrer de fome e de doença, enquanto esse homem acumulava escravos e riquezas pessoais.
– Está implícito – retorquiu Artur, embora sabendo que Mukuba não aceitaria esse argumento.
– Implícito? Matos, esse é exactamente o problema. A História nunca é explícita sobre o que os poderosos fazem de errado. Está sempre tudo nas entrelinhas. E sabe quem é que nunca lê as entrelinhas? As pessoas para quem vocês, escritores brancos, escrevem.
Artur ficou calado por um momento. Sentia na pele a cor da sua pele. O editor continuou:
– Ok, Elias. O que sugere, então?
– Sugiro que deixe os seus “sonhos” e “ironia” de lado e que sejas honesto. Escreva como foi: um grupo de homens que chegou para roubar terras, matar pessoas e falhou miseravelmente. É isso que quero ver neste capítulo.
Telefone desligado, Artur Matos sentiu-se também derrotado, e assim despachou a versão final em três tempos, iniciando o capítulo com uma frase que sabia que Mukuba aprovaria: “Benguela tornou-se a tumba de quem chegou para transformar sonhos de conquista em pilhagem.”
No manuscrito que, pouco depois, enviou ao editor, estava lá tudo: os detalhes das batalhas, das alianças instáveis com sobas locais e da doença que devastava tanto portugueses quanto nativos, destacando em detalhe episódios particularmente sombrios, como a destruição de libatas inteiras como represália por ataques aos soldados portugueses, mas também a resistência local e da terra.
Quando reencontrou o editor, Artur estava confiante de que agradaria a Elias Mukuba:
– Este capítulo tem potencial, Matos. Mas ainda falta uma coisa – disse-lhe um sorridente Elias.
– O quê? – perguntou Artur, já receoso.
– A voz dos que resistiram. Não basta dizer que resistiram; quero saber como. Quero ouvir o soba que enfrentou Cerveira Pereira. Quero que a resistência tenha um rosto.
Artur sabia que já nem valia a pena argumentar, assentiu, pegou no manuscrito e regressou a casa. No dia seguinte, adicionou um diálogo ficcional entre Cerveira Pereira e um soba chamado Cangombe. No texto, o soba confrontava o governador português, dizendo-lhe: “Os vossos canhões podem derrubar as nossas casas, mas nunca vão compreender a nossa terra. E é por isso que ela vos vai devorar”.
Poucas horas depois de ter enviado a última versão do terceiro capítulo, a secretária de Elias Mukuba ligou-lhe.
– O doutor pediu-me para lhe dizer: “agora sim, agora estamos a chegar lá”.
[continua…]
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Caminhar à beira-mar ao início da manhã. É a maneira mais natural de começar muitos dos meus dias. Olho distraído, sem interesse, os transeuntes que, como eu, andam de um lado para outro sob as palmeiras e nem sequer invejo os banhistas que vão à procura de um bronzeado do sol escaldante e que hão-de mergulhar na água em busca de alívio. Os meus olhos são atraídos pelo movimento das ondas, pela mudança da superfície arenosa, pelas poucas pedras que surgem aqui e ali, pelas plantas dispostas de acordo com geometrias humanas por vezes artificiais. Mas elas não obedecem à vontade dos outros, sentem-se livres de viver segundo o seu destino e, como seres livres, expressam a sua alma, falam-nos ao coração, se as soubermos ouvir com humildade.
O agave estava ali onde o tinha ultrapassado sabe-se lá quantas centenas de vezes, mas agora eu estava parado na sua frente e fixava-o como, não sei porquê, nunca fizera antes. A sua folha mais externa estava marcada por inúmeras lacerações, profundas e quase todas sobrepostas, fruto de repetidas ofensas cometidas por um vil e anónimo Caim. As feridas sobre aquela pele lisa de seda verde chocaram-me, o sol e a atmosfera de veraneio afastaram-se para longe daquela abominação. Ressoaram então na minha mente as frases solenes e suplicantes do responsório do Sábado Santo «O vos omnes qui transitis per viam»[1] (das Lamentationes de Jeremias 1,12); tinha ficado petrificado e parecia ouvir o ditado sagrado «Attendite et videte, si est dolor sicut dolor meus»[2].
A natureza mostrava os seus sofrimentos, mas não bastava que eu me limitasse à compaixão miserável e superficial do momento, ela queria com essa visão abrir a minha consciência para as dores do mundo, ela queria que eu lembrasse que o Cordeiro de Deus cuida delas todos os dias, como todos os dias em que vivemos e nos divertimos – até na praia pouco distante –, mas também todos os dias em que ficamos surdos às tragédias dos outros ou nos matamos entre irmãos. Diante daquela majestosa planta torturada, eu ainda poderia recorrer ao Senhor: «Par l’horreur de ce dernier vêtement qu’on vous retire, Ayez pitié de tous ceux qu’on déchire»[3] (Paul Claudel, Le Chemin de la Croix, 10ª estação).
Mas permaneci inerte e chorei. Fui-me embora sem querer mais ver o mar luminoso de Junho.
Antonio Delfino, Crucifixus (foto digital, 2023).
Antonio Delfino é Professor da Universidade de Pavia (em Cremona)
[2]Prestai atenção e vede se há uma dor semelhante à minha dor.
[3]Pelo horror desta última roupa que vos é tirada, Tende piedade de todos aqueles que dilaceramos.
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Diziam que o poeta vivia num mundo só dele. Não era verdade. O poeta trabalhava, tinha prazos, contas para pagar, e um cão. O poeta, despido da poesia, era apenas um homem na Terra.
Certo dia, terminou um livro. Imprimiu-o. Lembrou-se, então, de que nem sabia quando tinha comido pela última vez. Dirigiu-se ao frigorífico. Estava vazio. O estômago também. O poeta apontou numa folha: “ovos, galinha, milho e…”. Havia de lembrar-se do que faltava.
Colocou o manuscrito num envelope. Ia entregá-lo pessoalmente na editora. Já que tinha de ir ao supermercado, logo tratava dos dois assuntos.
O espelho da sala mostrou-lhe que estava de pijama e chinelos. O poeta foi ao quarto, arranjou-se e voltou. Pegou no envelope, procurou a lista das compras, mas tinha desaparecido. Nada que o espantasse. Chegou mesmo a duvidar da sua existência. Estava exausto. Já não tinha certeza de nada.
Foi até à editora e entregou o envelope. Sentiu-se aliviado, mas sem vontade de ir às compras. Decidiu, por isso, encomendar o almoço e aproveitar para deitar mãos a um novo projeto.
Algumas semanas depois, o livro foi publicado. Sentia-se ansioso. Os últimos dois não tinham sido recebidos como esperava.
Chegou o dia do lançamento. Sala cheia numa importante livraria da capital. A apresentação a cargo de um conhecido e reputado académico. Tudo corria como no seu melhor sonho. O poeta, no entanto, não percebia o que levava o professor a considerar que a sua obra remetia para temas como o princípio do mundo, o ovo cosmogónico, a dúvida relativa à primazia do ovo ou da galinha, nem porque referia a incerteza expressa pelo final deixado em aberto.
O público aplaudiu. O poeta, encolhido, com cara de ponto de interrogação, perguntou:
– Em que página está esse poema?
– Na página 23. – respondeu o professor. – A propósito, pergunto-lhe: por que não o colocou na página 1? Qual foi o critério de edição?
O poeta abriu o livro e leu:
“Ovos,
galinha,
milho
e…”.
Sem hesitar, dissertou sobre as grandes questões que pretendeu levantar com este poema. Esclareceu todas as dúvidas.
O académico ficou estarrecido com a explicação. Era brilhante. Elogiou e agradeceu a humildade e generosidade do autor.
O poeta, de livro na mão, dirigiu-se ao supermercado:
– E… arroz. – completou.
Críticos, estudiosos, jornalistas, leitores ávidos e grandes conhecedores apressaram-se a ler a obra e ajoelharam-se perante o génio do bardo.
Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve
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N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
Num palco apertado, com uma cortina vermelha janota a servir de fundo, uma jovem rapariga de cabelos castanhos, anelados e frisados, entoava com requebros uma canção que os presentes pareciam conhecer perfeitamente: “Sh’ma Israel elohay ahshav ani levad”. Chegado o momento certo, os convivas elevavam e faziam tilintar as canecas, os copos ou as taças que empunhavam, e escutavam enquanto entoavam o refrão solicitado por Raquel – assim se chamava a cantora: “Escuta, Israel/Quando o coração chora, a alma grita!”
Para os que ali vinham pela primeira vez, a canção estranhava-se, mas logo se entranhava. A melodia insinuava-se, e toda a sua melancolia ajudava os circunstantes a esperar por dias melhores: “…Escuta, Israel, meu Deus, tu és o todo-poderoso/ Tu me deste a vida, tu me deste tudo/ Em meus olhos uma lágrima, o coração chora em silêncio/ E, quando o coração se cala, a alma grita.” Eram apenas palavras, mas todos viviam o refrão, aconchegando-se do frio que se fazia sentir, aproximando-se uns dos outros, no bar Mitzvah, no coração da cidade velha.
Numa mesa encostada a um dos recantos escuros do Mitzvah, trocava impressões um pequeno grupo mais recolhido, após se escutar o Sh’ma Israel. Foi para lá que Raquel se dirigiu após recolher uma salva de palmas e colocar as mãos em gesto de agradecimento.
Via Juliana e a torre do YMCA (Young Man’s Christian Association) em Jerusalém. Anos 40
“… Raquel, vem, vem depressa!”, exclamou Ester. “… Há bolos de mel.” “… E o chá de menta está a ferver.” “Não me fales nisso, que me fazes lembrar como este inverno nevou em Jerusalém.” “… Ainda estou a ver os nossos rapazes a divertir-se, atirando bolas de neve uns aos outros.” “… É verdade. Foi em fevereiro. Os tetos ficaram de uma brancura nunca vista.” “… Os mais velhos dizem que não nevava desde 1921.” “… Em 21 ainda estávamos a nascer.” “… Olha, o frio deve ter ajudado muito”, disse um dos amigos, que usava uma pala negra sobre o olho esquerdo.
O grupo era formado por membros das organizações clandestinas nascidas para defender os colonatos judeus contra os ataques árabes. Estavam ali companheiros como Moshe Dayan e Yigal Allon. Tinham aprendido a táctica das guerrilhas com o capitão britânico Charles Orde Wingate, que organizara os Esquadrões Noturnos Especiais para combater os árabes. Durante os motins de 1936-1939, serviram no Vale do Jezreel e na Galileia e, depois, colaboraram na libertação do Líbano e da Síria das garras de Vichy. Dayan entrara para a Haganah aos 14 anos de idade e perdera o olho esquerdo em combates no Líbano. Quando os britânicos proibiram a Haganah, em 1939, ficou preso e encarcerado por dois anos. Allon, no retorno à Palestina, ajudou a fundar o Palmach.
Ester pegou no prato com azeitonas que estava sobre a mesa e, enquanto as distribuía a cada um dos presentes, disse em tom mais baixo: “… Um dos nossos foi aprisionado por patrulhas alemãs em Tiberíades e levado para o YMCA. Sabemos que é um sargento do 8.º Exército britânico, de seu nome Hans Jonas. Ora aí está alguém que jamais fará má figura, se for torturado pelos alemães.” “… Estes alemães não torturam; o Afrika Korps não é a SS”, obtemperou Ester.
Raquel mudou o rumo da conversa: “… Não me falem só de guerras. Olhem, o que eu queria agora era que me oferecessem um par de sapatos vermelhos, que os meus estão velhos. Não gostavas também de ter um par, Ester?” “Eu preferia os azuis-escuros expostos na montra da Jevod…”, respondeu esta.
Moshe Dayan (à esquerda) aos 20 anos.
Estavam nisto quando frei Werner entrou no Mitzvah. Ali vinha amiúde e imediatamente se dirigiu ao encontro da tertúlia. Nada mais o identificava como sacerdote senão uma minúscula cruz de lata, usada no casaco como flor na lapela. “… Werner!”, disseram alegremente as raparigas. “… Finalmente alguém que não pensa apenas em granadas e metralhadoras”, acrescentou Raquel.
O franciscano esboçou um sorriso cúmplice e serviu-se de uma taça de chá quente, na qual molhou delicadamente o bolo de mel. “… Esta manhã, o marechal Rommel visitou a minha basílica.”
Os olhos de todos, exceto os de Ester, abriram-se mais: “… A sério? Antes deslocou-se ao muro e depois à montanha. Anda a ver o que valem as nossas religiões.” “A nossa vale pouco mais do que o poder no cano das espingardas”, disse Ester. “… E quem fala pelos muçulmanos?”, perguntou Raquel. “… Falas tu, já que lembraste deles e gostas de ser boazinha.”
Raquel assentou uma canelada por debaixo da mesa a Moshe e acrescentou: “… Estejam mas é calados. Quero ouvir o que Werner nos tem a dizer sobre esse marechal.”
Frei Werner continuou. “… Primeiro, foi uma surpresa que ele nos visitasse a nós, em vez do Sepulcro. E eu apenas lhe disse o que vos repito todos os dias: é preciso que alguém venha fazer a paz. Agora ando a ler muito um alemão que diz a mesma coisa. Chama-se Hans Jonas. “… Quem? Como se chama?”, exclamou Ester. “… Jonas.” “… Não é possível. Ontem um alemão com esse nome deu entrada na prisão.” “… Com o mesmo nome?” “… Sim.” “… Com uns 40 anos de idade?” “… Sim.” “… Ruivo, com óculos?” “… Sim…” Dayan, que estivera muito calado até então, sussurrou. “Não sabia que o sujeito escrevia livros. Esquisito.”
Enquanto todos se admiravam daquela coincidência, o franciscano extraía um cachimbo do bolso interior do seu casaco e, com ele, batia na mesinha para retirar os restos de tabaco queimado, acabando por dizer no tom mais natural do mundo: “… Há uma coisa que se pode fazer.” “Então, Werner,” disse Raquel, enquanto lhe pisava levemente o pé por debaixo da mesa. “Queres convertê-lo à tua fé?” … Nada incomodado pela pressão, Werner olhou para dentro do cachimbo, como quem procura um objeto perdido lá dentro, e continuou sem levantar os olhos: “… Ester, podes tentar que Rommel escute um recado?” Ester nada dizia. “… Fazes isso, Ester? Fazes isso por mim?” “… Qual recado, Werner?” À sua volta todos se entreolharam, exceto Ester, sempre muito séria. “… Deveriam pedir a Jonas que ele levasse o mesmo apelo que eu lhe fiz”, exclamou Werner fitando todos, e um a um.
Todos engoliram em seco, à exceção de Yigal, que, pegando na caneca pousada na mesa, emborcou um trago para depois dizer: “… Rommel não é nazi, e também não é parvo.”
Jovem cantora judia . Anos 40
Quase saía fumo da cabeça daqueles jovens que depois se lançaram a trocar impressões sobre se valia a pena convencer o marechal a receber um prisioneiro judeu, alemão mas britânico. Era preciso um motivo à vista. Comunicar informações? Não era crível! Que queria mudar de campo? Seria um golpe baixo e correria mal. Atribuir-lhe a revelação de um plano? No fim foi Raquel quem teve a ideia mais simples, enquanto ajeitava os caracóis. “… Digam a verdade. Que esse Hans Jonas lhe quer comunicar uma verdade. Se o marechal tem fama de homem reto, vai querer ouvi-lo de certeza.” Silêncio geral. “… Esta miúda vai longe”, disse Yigal. “… Ui, tenho que voltar ao palco. Já há novos clientes.
Raquel regressou sorridente ao pequeno palco, onde também se instalaram dois velhotes, um com um violino e outro com uma trompete. “… Agora, em homenagem a um amigo meu que gosta muito da paz, vou cantar de Duke Ellington It don’t mean a thing.” A sala ajeitou-se para ouvir a novidade. O violino atacou devagarinho a melodia, e a trompete preparou os espíritos para o que ali vinha. Depois, Raquel começou a entoar a nova melodia que dera no gosto do swing: It don’t mean a thing. E, por uns momentos, em Jerusalém, pareceram bem longe as guerras enquanto se ouvia a canção de Duke: Não quer dizer nada, tudo o que há a fazer é cantar… Não faz diferença se é doce ou faz calor… Basta dar ritmo a tudo o que te ouço… Mas não quer dizer nada, se não tiver balanço.
[CONTINUA]
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Infiltrara-se em Artur Matos uma inquietação quase impercetível desde que aceitara a encomenda de Elias Mukuba. Não era apenas o peso da tarefa, ou as sugestões habilidosas do angolano que se impunham como exigências. Era algo mais profundo, uma sensação persistente, uma moinha incómoda que o observava com um olhar inquisidor e de desconfiança sempre que estava não apenas a escrever, mas também a respirar.
Embora estivesse em África há mais de dois anos, somente na primeira conversa com Mukuba, e consequente início da feitura do livro, Artur sentiu que estar numa terra outrora subjugada pelos seus antepassados era uma forma de exílio peculiar. Não era exilado de um território físico, mas de um lugar onde a sua voz pudesse ser ouvida sem suspeição.
Essa desconfiança, compreensível e desconfortável, andava agora a assombrá-lo. Reconhecia que, como português, carregava o fardo de uma História que nunca vivera, mas cuja sombra parecia inevitavelmente moldar a sua presença. Mais do que uma barreira de comunicação, era um abismo moral. Como alguém que herdou o privilégio e a memória selectiva de uma potência colonial, poderia ele contar a História de Benguela com a autenticidade que Mukuba exigia?
A questão não era apenas intelectual; era visceral, uma colisão entre a vontade de narrar e a impossibilidade de o fazer sem ser julgado. Artur tentava racionalizar o paradoxo. Afinal, as palavras eram livres, não eram? A linguagem, pensava ele, constituía, assim com esse tom formal, a ferramenta universal para superar as barreiras da História e das identidades. Porém, esta certeza tremia, ou soçobrava mesmo, quando confrontada com a verdade de que as palavras que escolhia carregavam o peso das escolhas que outros fizeram antes dele.
Por exemplo, como explicar, sem paternalismo, sem nostalgia ou heroísmo, o avanço dos portugueses pela costa africana? Como descrever sem cair no erro de romantizar o roubo ou de demonizar a sobrevivência? Cada linha que escrevia parecia uma ponte frágil sobre águas tumultuosas.
E havia ainda a questão da vontade própria. Mukuba, com a sua presença imponente e as críticas afiadas, tinha um poder que não era apenas editorial. Ele era o filtro entre Artur e o público. Seria possível encontrar a verdade na História de Benguela sem essa verdade relatada por um escritor alóctone passar pelo crivo de um editor autóctone? Artur já se conformara que, ali, não se livraria de responder, ou corresponder, a vontades alheias, tanto as de Mukuba quanto as da História maior que pairava sobre ambos.
E foi nesse estado de espírito que Artur escreveu, reescreveu, reformulou, poliu e refinou o segundo capítulo da História de Benguela, embora ciente de que qualquer palavra arriscaria ser palco de uma batalha entre o que queria dizer e o que seria aceite.
“Os portugueses foram, de facto, os primeiros a olhar para a costa africana com os olhos gulosos de quem procura tesouros onde antes havia apenas lendas”. Esta frase inicial, tão cuidadosamente pensada, permanecia no texto, mas já lhe parecia carregar uma intenção com diversas leituras. Artur sabia que as palavras não podiam apenas relatar os factos; precisavam de reconhecer as nuances, os desalinhamentos de poder e as perspetivas que eram frequentemente varridas para debaixo do tapete.
Portanto, na reunião semanal, foi ali logo que Mukuba encalhou.
– “Tesouros onde antes havia apenas lendas”? – começou, pousando o manuscrito com uma leveza que desmentia o peso das suas palavras. – Parece-me, Matos, que continua a escrever com os olhos cobiçosos dos seus antepassados, de quem chegou para explorar, e não de quem sofreu a exploração.
Artur, já habituado às críticas, manteve a compostura. Sabia que responder impulsivamente seria um erro.
– É uma forma de enquadrar a perspectiva europeia sem a endossar – argumentou, controlando a voz. – Não digo que havia apenas lendas, mas que era assim que os navegadores viam a costa. Para eles, era um mapa em branco, mesmo que não fosse. Acreditavam que a seguir ao Bojador, o abismo os engoliria…
Mukuba inclinou-se para a frente, os olhos semicerrados como se tentasse avaliar até onde Artur acreditava naquilo que dizia.
– Muito bem, mas pergunto: e para os que viviam aqui? Acha que o “mapa em branco” não tinha já marcas de sangue, comércio e pertença? É isso que tem de mostrar, Matos. Senão, o seu texto será só mais um a perpetuar a história de uns indignos vencedores.
Artur não tinha resposta imediata, mas percebias as razões de Mukuba. A dificuldade estava, porém, em encontrar a forma de equilibrar a narrativa, que mostrasse, sem ofender mais, que existiam diferenças de tecnologia, de avanço entre europeus e africanos naquelas épocas. Manteve-se calado, a escutar enquanto o editor dissertava.
– Matos – continuou Mukuba, já num tom de quem conversa com um adolescente preguiçoso –, “tesouro” não é apenas ouro, prata e pedras preciosas. Para os povos que aqui viviam já, o tesouro era a terra. Ou acha que as conchas, o peixe, os zimbos, e até o sal não tinham valor? Tem de abandonar a lente do navegador europeu.
Artur respirou fundo. De todas as frases que ouvira até então, esta era a que mais o enervava. “A lente do navegador europeu” era quase um insulto, e Mukuba detinha um talento especial para atingir nervos expostos. Artur viu-se a reagir.
– Elias, desculpe dizer-lhe, mas se a tarefa é contar a História de Benguela, tem de se começar com os navegadores. Foram eles os primeiros a registar, em escrita, o que encontraram.
Mukuba apoiou-se na cadeira, os dedos entrelaçados em frente ao rosto, os olhos semicerrados como se fosse um professor cansado das desculpas de um aluno.
– E os que já estavam lá, Matos? Não percebe que a História já estava escrita, mesmo que não com a sua preciosa tinta europeia? – Mukuba inclinou-se ligeiramente, os dedos a tamborilar na mesa. – Cada sulco no chão, cada canção que ecoava nas libatas, era já uma linha dessa história. Vocês, europeus, só chegaram e rasgaram as páginas.
Artur abriu a boca para ripostar, mas Mukuba levantou a mão num gesto que dizia, sem palavras, que ele ainda não tinha acabado.
– E já agora, se vai usar o termo “temeridade”, explica-me isto: o que é mais temerário, Matos? Navegar mares desconhecidos ou sobreviver ao saque e à pilhagem de invasores que chegam com armamento que nunca viram na vida?
Caiu um silêncio na sala. Elias gostava de pausas dramáticas, mas Artur não lhe queria dar o prazer de o sentir intimidado. Ajustou os papéis que tinha à frente como quem afirma que ainda detém o controlo.
– Concordo que sobreviver é bastante temerário nessas circunstâncias – concedeu Artur, sabendo que, em situações como aquela, a diplomacia era uma excelente maneira de salvar o pouco de auto-estima que ainda tinha, sentindo que os dólares lhe faziam falta se não os tivesse. – Mas isso não anula o feito de desafiar o Cabo Bojador. A História tem de reconhecer que havia coragem e ousadia no gesto dos portugueses.
Elias soltou uma gargalhada seca.
– Claro. Coragem e ousadia. Foi isso que motivou Gil Eanes e os seus patrícios – ironizou Mukuba, com um riso seco. – Coragem e ousadia. Não foi a vontade de agradar ao rei nem a ganância de ser o primeiro a trazer boas novas. Não, foi coragem pura, e a límpida ousados, virtudes desinteressadas, quase angelicais.
Artur não respondeu, desviou o olhar, ajustando os papéis à sua frente. Começara a habituar-se àironia afiada de Elias. Em vez de contra-argumentar, quis que ele avançasse para os parágrafos seguintes, onde nenhum tom apologético sobressaía. Artur mergulhara em relatos precisos sobre as primeiras viagens de Diogo Cão, que em 1483 avistara a foz do rio Congo. Era impossível, julgava, não se fascinar com os detalhes: os padrões erguidos nas praias, as trocas hesitantes entre marinheiros e nativos, e até a audácia de levar reféns para Portugal, como se fossem amostras de uma terra distante. Era História pura, com todas as suas contradições.
Mas, claro, Mukuba tinha as suas opiniões.
– A sua narração parece um diário de aventura, Matos. – Ele apontava com o lápis para o parágrafo onde Artur descrevia os “encontros cautelosos” de Diogo Cão com os nativos. – “Cautelosos” é uma palavra gentil, não acha? Especialmente quando sabemos que esses encontros acabavam com reféns e pilhagens.
– Elias, tentei equilibrar o tom. Se for demasiado crítico ou cáustico, ninguém vai ler isto sem pensar que é propaganda.
– Propaganda, Matos? Chamar as coisas pelo nome é propaganda? Se os portugueses capturaram pessoas, então escreva: capturaram. Não diga “acolheram” ou “receberam”. Escreva: roubaram.
Artur saiu da reunião com mais um maço de dólares, e enfiou-se em casa. E assim os padrões deixaram de ser símbolos de progresso para maculados marcos de uma posse ilegítima. E as viagens, que antes soavam como jornadas heróicas, tornaram-se episódios de exploração mascarados de descoberta.
Dias depois, enviada a versão revistas, Mukuba ligou-lhe.
– Vê, Matos? Nem eles encontraram o ouro que procuravam até Angola, e isso porque estavam cegos pela ganância. A verdadeira riqueza de África sempre esteve nas pessoas, na terra, na cultura. Mas isso nunca foi suficiente, pois não?
Artur não respondeu logo. No outro lado da linha, fechou os olhos por um momento, tentando não explodir.
– Elias, este livro tem de ser um diálogo entre o que sabemos hoje e o que foi feito na altura – retorquiu Artur, controlando a voz –. Não posso mudar o passado. Só posso contar a História.
– Mas a História tem sempre duas faces: uma História certa e a uma História errada, Matos. E a História certa não é só a dos conquistadores; é a de quem resistiu.
—
No final, mais uns dias transcorridos, o segundo capítulo tornou-se uma narrativa de desencontros. Relendo o texto antes de o enviar a Mukuba, Artur sentia um desconforto crescente, como se cada frase cedida fosse também uma concessão da sua integridade enquanto escritor. Era verdade que o texto estava mais equilibrado, mais sensível às vozes e sensibilidades de quem resistira, mas a sensação de perda da sua autonomia permanecia.
Ele questionava-se: onde terminava a honestidade histórica e começava a imposição de uma narrativa alheia? Seria ele um escritor genuíno ou apenas um escriba a soldo, como constava terem sido os cronistas de antanho, moldando as palavras para agradar à crítica do poder e às expectativas de uma leitura contemporânea? Cada linha parecia agora carregada de um peso que não lhe pertencia inteiramente, como se a sua voz fosse agora somente um fino eco moldado pelas vontades alheias.
Ao ceder à inclusão do diálogo ficcional entre Diogo Cão e o soba, Artur sentiu-se especialmente vulnerável. Não que o diálogo fosse desonesto ou inverosímil – pelo contrário, ele sabia que trazia vida à narrativa –, mas a sensação de ter sido forçado a imaginar aquelas palavras fazia-o questionar a fronteira entre História e ficção.
No entanto, outra parte de si sentia-se estranhamente orgulhosa. A versão final, por mais distante que estivesse da sua visão inicial, parecia mais completa, mais fiel à complexidade dos eventos que narrava. Era como se o conflito com Mukuba fosse uma espécie de cadinho literário, onde a sua escrita era testada, desafiada e, no fim, refinada. A questão primordial se mantinha, porém: até que ponto essa, diga-se assim, maturidade não era, na verdade, uma capitulação? Enquanto imprimia o manuscrito, Artur sentiu-se dividido entre a sensação de ter criado algo de valor e o receio de que, ao fazê-lo, tivesse traído algo de essencial em si mesmo. “Talvez escrever História não seja diferente de navegá-la”, pensou, um sorriso cansado surgindo no canto dos lábios. “Ambos exigem que nos adaptemos às marés, mesmo quando elas nos afastam da rota que julgávamos certa.”
Artur terminara o capítulo com a chegada dos portugueses à região de Benguela, ainda esperançosos de ambição, mas prenunciando hostilidades e desilusões. Tudo isto se tornara um compromisso desconfortável, mas necessário. E quando recebeu nova chamadade, Artur não conseguiu evitar perguntar, ao telefone, quando o editor lhe anunciou a aprovação:
– Está feliz agora?
Mukuba respondeu-lhe apenas:
– Não, Matos… Mas está melhor.
[continua…]
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De onde me encontro, olho para a vida como se olha para a casa da infância. Descubro que o edifício outrora enorme é, afinal, diminuto. Os corredores são estreitos, os tetos baixos; as janelas dão para um quintal exíguo. Busco o prado imenso num canteiro relvado.
Vista daqui, a minha existência é como essa casa: ínfima. A passagem, que parecia não ter fim, revela-se feita de breves instantes. Os planos para o futuro, tantas vezes adiados por não haver pressa, serão para sempre planos. Intenções.
O tempo — longo, lento — foi um inimigo a vencer. Falta muito para acabar o curso. Falta muito para acabar de pagar a casa. Falta muito para os filhos serem adultos. Falta muito para chegar à aposentação.
A dor, a tristeza, a raiva… tudo passa:
—Tens de dar tempo ao tempo.
Os minutos tornam-se horas; as horas, uma eternidade. O tempo a arrastar-se. Lento. Lento. Lento. E eu, com pressa de chegar. A dar ao tempo, o tempo que nem desconfio não ter.
Sentamo-nos, tu e eu, num banco junto ao mar. Deixamos o olhar navegá-lo, baloiçando tranquilamente sobre o ondular leve das águas. Deito a cabeça no ombro de um casamento de 50 anos.
A lua, os barcos, a palmeira, o homem que passa com uma canastra na mão, este banco — tudo é enorme. Tudo será para sempre enorme. Não para nós.
Afagas-me as costas. Brincam os dedos das nossas mãos entrelaçadas. Percorre-me um misto de tristeza, melancolia e felicidade contida, de quem sabe que este movimento não é eterno, mas encerra a doçura de uma vida plena e extraordinária na sua normalidade.
Inspiro o cheiro a mar presente. As pálpebras descem lentamente. Um a um, invadem-me os aromas do passado: a pele dos filhos pequenos, as flores do bouquê de noiva, o perfume que usavas quando nos conhecemos, as frésias do quintal, o bolo mármore dos lanches na Alameda, o colo da minha mãe.
Cheguei!
Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve
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Quando Deus fez o mundo e nele jogou o primeiro homem, a primeira pedra e a primeira palavra tudo – ou seja, todo o nada – estava coberto pela umidade. Deus, bom e justo que é, achou bonitas aquelas inofensivas gotinhas de água. Por isso, recolheu-se feliz e satisfeito às sombras do seu reino de justiça e liberdade.
As gotículas de umidade, porém, quando se viram sem governo, resolveram que apenas cobrir o nada era pouco. E decidiram então possuí-lo em todas as suas dimensões e extensões.
Foi por isso que se infiltraram pelas paredes das casas de todos nós, casas erguidas mais como chacota do que como abrigos nas ruas desertas desta cidade fantasmal, que se chama Tapera, assim nomeada porque, na língua dos primeiros homens que habitaram as margens desta Lagoa assombrada, Tapera quer dizer aldeia abandonada contra a mancha negra da noite. Depois elas penetraram até as fibras mais recônditas das tábuas dessas pontes vacilantes. E, também, encharcaram as roupas dos homens para que eles se tornassem fracos e doentes e servis e cabisbaixos. E, ainda, se apossaram da areia para que nela os meninos e as meninas não pudessem brincar e se transformassem nos pálidos fantasmas que vemos por trás das vidraças de todas estas janelas fechadas.
Quando o mundo começou a respirar no primeiro pulmão a umidade já cobria e possuía tudo. É por isso que nossas sempre atormentadas mães varejam os quartinhos de despejo em busca de velhos jornais amarelados para com eles cobrirem as tijoletas gotejantes de suas cozinhas. E depois, quando partimos sobraçando a pasta repleta de lápis de cor do nosso jardim de infância, elas trocam as folhas empapadas por outras, secas.
O mais certo de tudo, dizia-nos a tia-avó, dando golpes no ar com suas agulhas de crochê, é que não se pode aprisionar nem o mar, nem o vento, nem o frio, nem o calor e muito menos esta maldita umidade.
Da umidade virão o mofo e o musgo, cinza e verde. Nascerão em todas as coisas, especialmente sobre as pedras polidas do calçamento destas ruas abertas sobre a pestilência de antigos mangues. O verde veludo é o musgo. O traço cinzento é o mofo. O musgo costura estas ruas, umas nas outras, para que não se dissolvam sob os passos de todos esses enfeitiçados. O musgo veda as rachaduras das paredes descascadas para que espíritos sem paz não adentrem a sonolência dos nossos lares.
O mofo é mais forte porque é cinzento, da cor dos nossos pesadelos. O mofo gris recobre nossos corações e faz com que amemos esta terra inóspita e sombria, até mesmo nos seus piores dias, que começam quando o vento se apresenta na sua carruagem, terrível e barulhenta, na boca daquela rua que acaba dentro das águas barrentas do rio.
O mofo toma conta de todas as coisas que estão perdidas nos porões da memória (relógios de parede, lanças de ébano e escarradeiras de bronze) até que a mão ensanguentada do Negrinho do Pastoreio as venha resgatar.
O musgo cobre até mesmo as alças destes caixões que mãos azuladas e trêmulas conduzirão ao cemitério em um dia de chuva.
O calor é o segundo feitiço.
Quando ele aponta, no alto do morro que domina esta cidade, os homens arrebentam os botões do colarinho e as mulheres escancaram as pernas enquanto dão de mamar ao filho recém-nascido. A praça fica repleta de pessoas afogueadas que se entreolham com amarelados olhos vazios. Na fresca da noite, anunciada pelo cheiro da erva-mate, os velhos vão para as calçadas com suas garrafas térmicas e suas bocas chupadas e mostram à lua suas geométricas dentaduras enquanto seus peitos encatarrados tentam conseguir um pouco de ar. O suor se transforma em rios quando todos aqueles velhos insones pressentem que naquela noite não resistirão ao apelo das forças primitivas e que, por fim, se transformarão em lobisomens. Assim aconteceu com o meu e com o teu avô, enquanto nossas avós percorriam alucinadamente as contas negras dos rosários com seus dedos ossudos e bondosos e murmuravam orações piedosas para a salvação de nossas almas.
O calor é o tempo das noites curtas e dos longos dias vermelhos porque o sol se detém no meio do firmamento, sobre a cúpula da nossa catedral, e ali se queda fustigando e incendiando tudo até a chegada da brisa noturna. Por isso é que só de manhãzinha, bem cedo, quando os raios alaranjados dançam no cume do morro, nossa avó asmática, fatigada pela insônia, consegue adormecer.
O calor é o tempo da mula-sem-cabeça. Por isso todos aqueles meninos se reuniam na frente da nossa casa, ao redor do vô que, sentado em seu mocho cambaio, pitando aquele cigarro de fumo Ouro Pelotense enrolado em papel Colomy, gostava de contar a história do negro Luís e de como ele se transformou em lobisomem numa noite assim escaldante e de como ele mordeu o lençol de linho branco da baronesa e de como o guarda-caça do castelo dos Simões Lopes o feriu com um tiro de bacamarte e de como o médico descobriu no dia seguinte – depois de ter-lhe retirado estilhaços de chumbo da nádega ferida – fiapos de linho entre seus fortes dentes de africano.
E por todo o penoso arrastar desta noite, no intervalo entre um e outro pesadelo, ouviremos a voz de nossa avó que recita com seu cantante sotaque lusitano os versos que nos salvarão do fogo do inferno.
O verão é a gota de suor que é quase a mesma coisa que a primeira gotícula de umidade que estava sobre todas as coisas quando Deus, nosso criador e criador de todas as coisas, admirou Sua obra. O calor é o murmúrio de todos esses homens encerrados como ladrões entre as altas e grossas paredes dessas fábricas fumacentas que são os verdadeiros braços desta nossa cidade febril. O calor é a cantiga dos teares que ensurdece nossas tias operárias e que leva para todo o sempre suas impressões digitais. O calor é também o raio de fogo que fere o cérebro de nossos gatos pretos que nessas noites de labaredas correm desatinados sobre o zinco fervente dos telhados musguentos. Lúdicos gatos lúbricos, lascivos.
O calor é o nosso pai com uma garrafa de cerveja diante dos olhos e um lápis na mão. O calor é tão bruto e insensível quanto a conta que ele faz e refaz, acabrunhado pela fria e indestrutível certeza da matemática, a conta que o mantém escravo daqueles pavilhões sufocantes. O calor é a certeza de que o inferno é aqui mesmo, agora, mas é também a certeza de que esta garrafa de cerveja, coberta de pequenos diamantes de suor, é o único anjo que Deus enviou para nos resgatar deste vale de lágrimas.
A chuva é o terceiro feitiço.
A chuva é o vidro moído que cai sobre esta cidade que um dia foi chamada Tapera, que quer dizer casa sem gente dentro, oco, vazio e nada.
A chuva, nos outros lugares do mundo, nas outras taperas, é destruição e força, ímpeto e arrogância. Aqui não, é serenidade e constância, equilíbrio e delicadeza, porque cai como flocos de algodão ou outra coisa ainda mais leve e mais acariciante. Lenta e doce, ela vai caindo e se amontoando sobre a superfície luminosa dos paralelepípedos centenários. Do jeito que cai, mansa e ordeira, fica. Por isso ninguém sabe, antes que se escoe uma semana, que está chovendo. Até que o primo tagarela nos avisa, quando estamos com o nariz enterrado no vapor cheiroso da xícara de café com leite, que a rua está alagada e que teremos que tirar os sapatos e caminhar três quarteirões até o ponto do ônibus que nos levará à escola.
Ela chegou tão de mansinho, tão manhosa, tão encantadora, que nem percebemos que os nossos dois pares de sapatos, o da missa de domingo e o de ir à escola, estão completamente úmidos e que é preciso colocá-los perto do fogão para que sequem junto com a nossa japona azul empapada. E então, um belo dia, quando faz mais de um mês que esta outra praga veio do céu para nos provar, descobrimos, por fim, que estamos ilhados. As ruas são agora pequenos rios. É por isso que reviramos a casa em busca daquele baralho mofado que não tem o Rei de Espadas ou daquele jogo de víspora que não tem o número 22, marrequinhas com arroz. E nosso pai se irrita e ameaça espatifar na parede aquele radinho japonês que comprou de um contrabandista em Rio Grande porque a minúscula porcaria não serve nem para captar os tangos da Rádio Taperense, até que nosso irmão mais velho se aproxima dele e diz com sua voz cambiante de adolescente que a essas alturas até mesmo a antena da Rádio deve estar debaixo d’água e que o cadáver inchado e insepulto do nosso bisavô possivelmente estará flutuando entre os transmissores.
A nossa chuva é aquela mesma de quarenta dias que está na Bíblia, diz o padre com sua voz alemã cheia de erres e depois ergue seus olhos de esmeralda para o teto do templo a fim de observar o balé daqueles milhões de pardais que, voando entre as vigas do teto alto, esperam a estiagem. Certamente, morreremos todos nós afogados – afirmou ele no sermão da missa das seis, para assustar as beatas que se escondem sob mantilhas negras – porque neste raio de cidade não há nenhum Noé.
Não existe Noé, eu sei, mas acontece que o leiteiro e o padeiro contaram à nossa madrinha que o padre se levanta às quatro da manhã só para rezar uma missa especial, em latim, para os pardais adormecidos. Eu garanto que é ele o nosso Noé porque o leiteiro e o padeiro viram quando os passarinhos entoaram o “Glória a Deus nas alturas” e, depois, bateram com as asinhas no peito enregelado recintando o mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa…
O vento é o quarto feitiço.
Num dia qualquer, os eucaliptos, os plátanos, os umbus e as figueiras voltam a sacudir suas cabeleiras molhadas. É sinal de que as nuvens negras se foram na direção do mar distante. Os homens abrem as portas enferrujadas de suas casas e espicham os ouvidos pelas vielas desta cidade que se chama Tapera, palavra que quer dizer campo arrasado, bandeira aviltada, barco à deriva…
Então chega o vento para revirar os olhos das raparigas nos seus leitos incendiados de virgens imaculadas, para acariciar seus seios de bicos arrepiados, para soprar entre suas coxas vermelhas, para submetê-las a todas essas torturas deliciosas.
Todos os rapazes, até mesmo os musculosos remadores do Clube de Regatas, voltam seus olhos para dentro de si e assombrados observam o que se passa no interior de seus peitos glabros: a louca corrida do sangue que pulsa e explode desgovernado em busca de uma brecha naquele corpo rijo. Por isso, eles se levantam no meio da noite, sonâmbulos, e batem com a testa latejante contra as cerâmicas úmidas do banheiro enquanto resmungam desconexas rezas de primeira comunhão.
O vento é como o apito do marinheiro, triste e solitário. À noite, observado apenas pela lua e pela coruja, ele arranha as paredes sem reboco da nossa casa, aplaina as arestas das esquinas e varre os campos semeados. O vento vai e volta, sereno, por esses becos, mas torna-se furioso, destruidor, quando se defronta com todos os obstáculos que o homem insiste em construir: estátuas, túmulos e palanques.
Por causa do vento nosso tio não larga mais aquela maldita garrafa de cachaça, nem mesmo para ir ao banheiro. O vento não lhe dá sossego, persegue-o por todos os corredores desta casa, espicaçando-o, enlouquecendo-o. Mas nós sabemos que aquele vento, aprisionado no labirinto dos ouvidos do nosso pobre tio, jamais sairá dali.
O vento é meio cabeça-de-vento, diz o professor de História, enquanto nós todos, meninos, damos gargalhadas e nos cutucamos e sussurramos: como é louco este velhinho! Mas nós somos ainda mais patetas – acrescenta o professor, folheando seu álbum de selos franceses – porque nos irritamos com o vento, mesmo sabendo que um dia ele também vai desaparecer dentro da Lagoa, que é o fim de todas as coisas que nos cercam.
Pois bem, certo dia o vento some nas curvas do canal levando consigo seus cortejos de esqueletos, seus comboios de folhas secas e suas caravanas de panelas amassadas. Lento, a passo miúdo, vai dançando sobre charcos e pântanos sempre em busca do Sul do mundo.
Depois vem o frio, quinto feitiço.
O frio é a pedra de gelo que nos recobre as pernas e o sexo e que eletriza nossas gengivas e nossos dentes. O frio é o frio mesmo, diz nossa falecida mãe enquanto coloca fralda sobre fralda na bunda de nosso irmãozinho menor mesmo sabendo que de pouco vai adiantar já que dentro de duas horas, três no máximo, ele vai despertar chorando todo mijado por causa dessa frialdade que nos encaranga a todos, indiferentemente.
O frio é o frio mesmo, sem tirar nem pôr, diz a mãe, puxando as pontas das fraldas, alfinete de segurança entre os dentes, enquanto lança olhares vigilantes para nós que, entrouxados em roupas de lã piniquenta, estamos virando cambalhotas sobre o sofá-cama.
O frio deve ter chegado a esta terra – nossa terra úmida e fria – em companhia dos tropeiros que vieram para fundar sangrentos matadouros nesta perdida parte do Sul do mundo. Eram homens casmurros e teimosos porque construíram aqui sua casa e seu trabalho sem prestar atenção ao que lhe diziam os índios: isto aqui é terra sem gente, gente sem terra, povo sem voz, fogo sem brasa e outros disparates.
O frio percorre todos os andares de nossas costelas e faz com que nos encolhamos entre os ombros e por isso sejamos homens macambúzios e cismáticos sentados ao redor de uma fogueira enquanto algum velho de largas bombachas e barba por fazer vai enfileirando mentiras e se esquece de nos passar a cuia do chimarrão.
E nós, quando nos interrogam, não sabemos responder se é por causa deste frio ou daquele calor, desta umidade ou daquele vento que muitos destes homens e mulheres foram findar seus dias entre as altas paredes do Sanatório, de onde nunca mais sairão por causa daquele enorme portão de ferro e dos cacos de vidros que cintilam sobre o muro depois da chuva.
Lourenço Cazarré é escritor
Texto originalmente integrado no livroEnfeitiçados todos nós
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