Está um dia que muitos achariam mau: cinzento, chuvoso, frio… Para mim é perfeito. A casa vazia, uma caneca de café XXL, uma tablete de chocolate com amêndoas — 553 calorias por 100 gramas — terá de pagar o mal que faz com o bem que sabe —, e um audiolivro, porque a moleza é tanta que nem dá para virar páginas.
Apetece-me hibernar. O único senão é ter prometido a uma amiga ir ao lançamento do seu primeiro romance. Vem-me à mente um conjunto de desculpas esfarrapadas: já comprei o livro, chove a potes, tenho o carro na oficina, vai estar imensa gente… Espero que não se ofenda, que não dê pela minha ausência. Porém, uma notificação no telemóvel diz-me o contrário:
— Jantamos juntas depois da apresentação?
Sinto-me a pior amiga do mundo. Como pude sequer pensar em não ir? Levanto-me, arranjo-me e dirijo-me à estação. Aos domingos, o comboio costuma ir vazio. Hoje, não. Há uma multidão a aguardar, e já vem cheio. Percorro a carruagem em que entrei, depois a seguinte e, finalmente, avisto um lugar vago. Um passageiro colocou uma mala de viagem e uma mochila no banco. Aproximo-me, na expectativa de que desvie os pertences. Olha para mim, eu para ele… e nada. Avanço mais um pouco. Voltamos a encarar-nos, mas, desta vez, tem no rosto uma expressão de desagrado. Digo-lhe:
— Dá-me licença?
Responde, num inglês com sotaque alemão, que não tem onde colocar a bagagem. Aponto para cima:
— Ali! — digo em português.
E, enquanto ele continua com ar de enfado, ouço uma voz:
— Há de querer que o senhor ponha as malas à cabeça!
Ignoro e insisto. Percebendo que não vou recuar, e com uma irritação indisfarçável, o homem coloca a mala no corredor e a mochila ao colo.
Sento-me, e uma senhora, indignada com a minha petulância, lamenta o facto de o coitado ter de ir assim até Lisboa.
Acomodada no meu lugar, coloco os auscultadores e continuo a ouvir a leitura, entretanto interrompida. Procuro relaxar e concentrar-me, mas sem sucesso. Há um barulho e uma movimentação fora do comum nestas viagens. Os passageiros, maioritariamente mulheres de meia-idade, agitam os braços no ar de modo sincronizado e cantam. Fico curiosa. Retiro um auricular: cantigas de amor, daquelas em que “coração” rima com “canção” e que se entoam revirando os olhos. O volume aumenta, no que é claramente uma competição para mostrar quem sabe melhor as letras, quem é a maior fã, a verdadeira. A excitação está ao rubro. Erguem-se cartazes, cachecóis, camisolas, almofadas com o rosto do ídolo, fotografias tiradas ao seu lado.
É dia de concerto e caí no olho do furacão. Estou no Inferno! Espreito de soslaio o senhor das malas e, pela expressão, aposto que não volta a Portugal. Bem feita!
Regresso ao meu livro, aumento o volume e vou ouvindo o que consigo até chegarmos ao Parque das Nações. As fãs, enlouquecidas, atropelam-se para sair. Sim, porque também na pressa de chegar se expressa a devoção.
Lá fora, avisto vendedores de grinaldas de flores brancas e luzinhas, rodeados de senhoras que se enfeitam como podem, na ânsia de serem notadas.
— Amo-te, Tony! – Grita uma.
— Bates forte cá dentro, Tony! – Grita outra.
— Ai, Tony, se eu não fosse casada! – Ameaça uma terceira.
É muito amor! Podia até ser comovente, não fosse a mesma senhora que expressou grande preocupação com o cavalheiro alemão ter chocado com um grupo de rapazes que estava na plataforma. Estes, percebo de imediato, não batem forte lá dentro.
Mão na anca, o pêlo eriçado e a mandíbula escancarada a escorrer saliva de quem ataca em matilha, vocifera:
— Isto está cheio desta gente!
— Não se pode andar na rua sem dar com esta canalha!
— Não há quem tenha mão nisto e os mande para a terra deles?
Tento imaginar que crime hediondo poderão ter perpetrado aquelas criaturas para assanharem, desta forma, uma senhora tão doce, tão misericordiosa, tão preocupada com o próximo… E não posso deixar de pensar como teria ela reagido quando entrei na carruagem se, em vez de um alemão loiro e de olhos azuis a ocupar dois lugares, lá estivesse sentado um daqueles rapazes, mesmo que encolhido.
Tanto amor para dar… a alguns.
Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve
N.D. As ilustrações foram produzidas com recurso a inteligência artificial.
Há sempre uma sensação estranha que se nos entranha quando, diante de um palco iluminado pela maestria de um artista, percebemos que o espaço à nossa volta permanece desapropriadamente vazio. Não falo do desconforto logístico de cadeiras desocupadas, mas do vazio simbólico de uma sala como o Capitólio, apenas de 400 lugares, que não reflete a grandiosidade do que ali se está a passar.
Este sabádo, essa sensação foi inequívoca. Dardust – a persona artística do italiano Dario Faini – apresentou-se com o seu espetáculo Urban Impressionism, e fê-lo com uma entrega rara, num concerto que, por direito e mérito próprio, merecia casa cheia, e talvez mesmo um espaço mais condizente, não apenas em número, mas sobretudo em reconhecimento.
Dario Faini é uma das figuras mais prolíficas e discretamente influentes da música italiana contemporânea. Como compositor e produtor, assina sob o seu nome próprio sucessos que atravessam fronteiras linguísticas e emocionais. Mas embora essa sua faceta de compositor, produtor e pianista lhe granjeiem estatuto na Itália e mesmo nos circuitos de música comercial europeia, é como Dardust que Faini se transcende e, simultaneamente, se recolhe.
Dardust não é um simples nome artístico; é uma persona cuidadosamente construída, onde habita a sua vertente mais introspectiva e experimental. Aqui, não há canções pop nem refrões simples. Há um laboratório estético e emocional onde o piano se funde com a eletrónica minimalista, criando um território de expressão que oscila entre o neoclássico e o ambiental.
O próprio nome Dardust carrega em si essa duplicidade conceptual. Trata-se de uma fusão de referências fundamentais para o compositor: por um lado, Dar , evoca Darren Aronofsky, o cineasta norte-americano conhecido pela intensidade emocional e pelo rigor estético das suas obras, como Requiem for a Dream ou Black Swan ; por outro, Dust, numa alusão directa a Stardust , o universo de David Bowie, símbolo de uma visão cósmica, experimental e profundamente inovadora.
A conjunção destas duas influências – o peso dramático de Aronofsky e o espírito vanguardista e espacial de Bowie – deu origem a Dardust, uma entidade artística que habita o espaço entre a solenidade da música erudita contemporânea e a liberdade imaginativa da pop mais visionária.
A coleção Urban Impressionism, lançada no final do ano passado – que sucede a 7 (2015), Birth (2016), S.A.D. Storm and Drugs (2020) e Duality (2022) -, é o mais recente testemunho desta identidade múltipla. Trata-se de um projeto ambicioso em que Dardust propõe um ciclo de peças para piano e sintatizadores que mescla uma música neoclássica e contemporânea com influências explícitas da arquitetura urbana e do impressionismo pictórico. Cada composição é inspirada em diferentes lugares e atmosferas das cidades europeias por onde passou, desde edifícios brutalistas às periferias modernas, traduzidas em expressões musicais depuradas e tangíveis.
Ao longo deste álbum – e da sua versão deluxe, que conta com 19 arranjos instrumentais – Dardust abandona propositadamente os elementos convencionais da música popular, mergulhando em territórios minimalistas e de vanguarda para criar um universo sonoro profundamente emocional. As composições evocam uma ampla gama de estados de espírito, do melancólico e introspectivo ao esperançoso e quase eufórico.
A precisão quase cirúrgica da sua execução pianística, conjugada com harmonias intrincadas e delicadas camadas de cordas, cativa imediatamente o ouvinte. O álbum propriamente dito funciona como refúgio e convite à contemplação, permitindo ao espectador um afastamento da atracção do quotidiano. O espectáculo, por sua vez, aparentou-se-me mais visceral e mais techno, mas, embora menos melodioso (a sonoridade do Capitólio não ajuda), torna-se mais efusivo e contagiante e deconcertante, no bom sentido.
De facto, no concerto no Capitólio, Dardust não se limitou à execução das peças, até pela interacção com o público (onde pontificavam muitos italianos); foi antes uma experiência imersiva, onde a música se fundiu harmonicamente com um bom jogo de luzes e samples de sons ambientais ou loops minimalistas.
Ao piano e aos comandos dos sintetizadores, Dardust é um intérprete comedido e elegante, com uma boa sintonia e diálogo com o pública. Evita o histrionismo dos performers electrónicos habituais e opta antes por uma presença discreta, quase tímida, que sublinha a solenidade da experiência estética. Mas denota-se a mestria capaz de tanto colocar um estádio a dançar, na sua faceta mais techno, como a contemplar o sentido da vida, na sua faceta de pianista na sua faceta de pianista que esculpe silêncios e melodias com as soluções de uma arte da emoção. Aliás, o seu toque ao piano, aparentemente minimalista, é preciso, mas nunca frio. Cada nota parece medida e fortemente intencional, como se cada acorde fosse um ato de comunicação direta com o íntimo do ouvinte.
A acústica do Capitólio, embora não seja ideal para a transparência das camadas eletrónicas, foi suficiente para que se mantivesse a clareza das diferentes linhas melódicas. Mas a grande dissonância da noite esteve na sala: demasiadas cadeiras vazias, um eco de indiferença que não deveria ter lugar quando se apresenta uma obra desta natureza. Não por vaidade do artista, mas por uma questão de justiça: Urban Impressionism é uma proposta séria, desenvolvida, que reconcilia a música contemporânea com uma dimensão emocional acessível sem ser simplista.
Dardust continua, assim, a ser um segredo resguardado – um artista que trilha um caminho entre o pop que escreve para outros e a música erudita que assume para si. Mas quem esteve no Capitólio sabe que testemunhou um momento raro: um espectáculo de maturidade e beleza contida, que permanecerá longamente na memória.
Diziam-lhe os pais que casasse com o Eduardo. Era bom rapaz, tinha um bom emprego e era óbvio que lhe andava a arrastar a asa. Era jovem, mas tinha mais tino que muitos homens feitos. Bastava ver como tinha cuidado da família quando o pai morreu. Ser homem aos 16 anos não era para todos. Único sustento da casa, cuidou da mãe e ajudou-a a criar as gémeas. Saiu-lhe do corpo, mas fez delas umas senhoras. Andaram sempre nos eixos, sem espaço para deslizes. Não havia pai, mas era uma casa de respeito.
Inês ouvia e não respondia. Ficava a pensar. O Eduardo era bem parecido, mas tinha o semblante pesado de um ancião. Um homem sério, sem dúvida. Um sorriso tímido: um gesto de ternura que guardava só para ela. Passava duas vezes por dia debaixo da sua janela: mais certo que um relógio. Olhos postos na calçada. Apenas aquela janela… A vida era simples: casa, trabalho; trabalho, casa. Tão diferente dos outros rapazes do bairro. Passos pesados, firmes, seguros, redondos na rotina de uma vida já desenhada.
A mãe insistia:
– Olha que como este não encontras por aí muitos, Inês. É uma rocha, este rapaz! – exclamava, tentando arrancar da filha uma expressão ou uma palavra que demonstrassem interesse no pretendente.
Inês, muda e queda, percebeu finalmente o que a impedia de dar troco aos sorrisos do Eduardo. Ele era um homem-rocha, mas ela não tinha a mínima intenção de se transformar numa mulher-lapa. Não se imaginava colada a ele. A carne em chaga agarrada à superfície rugosa com medo das marés.
Inês ansiava pelo mar bravio. Pela turbulência das ondas. Pela força das águas que a levariam a ver o mundo. Por correntes incompatíveis com as que o prendiam às ruas do bairro.
O Eduardo passou, como todos os dias, na rua da Inês, mas hoje não teve a quem sorrir. Uma leve brisa trazia consigo o cheiro a sal e agitava as cortinas da janela vazia.
Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve
N.D. As ilustrações foram produzidas com recurso a inteligência artificial.
E como chegou, atropelou-a, agarrou-a, apertou-a, abraçando-a pela cintura, metendo a perna entre as dela, forcejando por derrubá-la, respirando duro, furioso, desembestado… mais mordendo que beijando o pescoço amorenado… e garboso…
No manantial, João Simões Lopes Neto
Está vendo aquele prédio verde mais alto, ali, à direita? É, o sobrado. Na parte de baixo funciona uma padaria. E lá, à esquerda, aquela casinha rosa bem na esquina? Imagine só: de um lado a outro, isso era só barraco. Um coladinho no outro, sem muro nem pátio. Uma amontoação que descia banhado dentro, quatro, cinco quadras. Ia mais ou menos até aquele poste lá na curva. Isso, onde a avenida dobra. Era muita gente que morava aqui.
Faz mais de trinta anos, se não me engano. Eu era pequeno de uns nove anos quando chegamos aqui. A família toda: o pai, a mãe, a mana e eu.
Não, não sei o ano direito, só sei que foi depois de uma enchente. A gente morava do outro lado da cidade, na Cerquinha. Perdemos quase tudo no aguaceiro.
A vila surgiu num tapa. De repente, tinha aquele monte de barracos. O pai trouxe de charrete as madeiras da casa antiga, que a água tinha arrebentado. A gente veio de noite. De dia já me acordei morando na Vila dos Agachados.
Ficamos sem colégio aquele resto de ano. Foi bom. A gente se metia pelo banhado: jogando bola, pescando, nadando e matando passarinho. A gente comia passarinho, claro. Pomba era melhor.
Para todos os lados que se olhasse, só se via bandos e bandos de guris de canelas embarradas.
No verão, a gente ia nadar num poço grande que tinha bem mais para a frente, depois dum matinho. O nome era Redondo, porque tinha o formato de uma roda mesmo. A gurizada passava o dia nadando. Só os machinhos, claro. As gurias não desciam das casas.
O Redondo? Era como um açude, mas feito pela natureza mesmo. Fundo, sim. Bem no meião a água tampava a cabeça do indivíduo.
Foi na beira desse tal Redondo que se deu a coisa mais tremenda que eu já vi nesse banhado aí.
A senhora tem tempo? Tem mesmo? Olha que é história enrolada!
Foi assim. Eu morava bem no meio da vila. Quero dizer, a minha casa ficava mais ou menos na metade da rua, a única rua, a que cortava de cima a baixo. Mais para lá, uns três barracos depois, morava o Magro. Era um bem mais alto do que eu, mas leviano de peso, cara fina. Parece que se chamava Nadir, não sei direito. Vivia só ele e mais o pai dele, um senhor emburrado, caladão. Tinham vindo da campanha e parece que o pai dele vivia de biscate.
Mais adiante, bem no finzinho da rua, morava a Marianita. Era uma mulata sarará, de olho verde. O cabelo era bem loiro, mas ruim. Quando chegou na vila, ela era uma guria sem graça, gordinha, meio corcunda, com a carapinha sempre enfiada num lenço.
A idade do Magro? Acho que tinha uns treze quando veio para cá. Mas o caso que eu vou lhe contar se deu depois, uns dois anos e pico depois. Então, a senhora faça os cálculos. É isso mesmo: o Magro tinha uns quinze e a guria devia andar pelos quatorze…
Ah, tem mais uma pessoa nessa história: o Negãozinho. O nome dele era engraçado, nunca esqueci: Dionvaine. Ele morava perto da Marianita, mais na banda de lá. Era uma penca de filhos, uns sete. Tudo guri. O Negãozinho era o mais velho. De idade ele regulava com o Magro, mas era muito maior, ombrudo. O Negãozinho só entrava dobrado, de cabeça gacha, no barraco da família dele.
Como eu lhe disse, a gurizada passava o dia no banhado. Na parte mais de cá a gente jogava bola. Num arroiozinho que tinha mais para lá se pescava. A gente caçava passarinho no mato que tinha perto do Redondo. Mas também se fazia guerra de bodoque com bolinha de barro. Teve um até que ficou caolho, um gordo foguinho.
Eu gostava mesmo era do Redondo. Dava para fazer corrida de nado. Tinha prova de mergulho, para ver quem ficava mais tempo afundado. Até campeonato de ponta-cabeça fizemos, para ver quem é que saltava mais longe.
No primeiro verão, todo mundo nadava. O Magro, o Negãozinho e eu. O Negãozinho era dose. Gostava de afogar os menores. Pegava pela nuca e empurrava para o fundo. Ele se prevalecia porque tinha muita força. O Negãozinho roubava na corrida. Puxava os outros pelo pé. Nadava mal, chegava atrasado e tinha a cara de pau de dizer que tinha ganhado. Todo mundo se arrolhava para ele, menos o Magro. Que era um peixe nadando.
– Tu pode dizer o que tu quisé, Negãozinho, mas eu te ganhei – dizia o Magro. – E nadando de camisa!
Ah, tinha isso também: o Magro não tirava a camisa nem para nadar, nunca. Dizia que tinha uma queimadura no peito que era uma coisa feia de se olhar. Nadava com camisa de botão por cima e com camiseta por baixo.
Depois de perder uma carreira de nado para o Magro, o Negãozinho ficava buzina e ia embora, pateando. Ele podia, se quisesse, dar uma tunda no Magro, mas nunca saiu no pau.
Por que isso? Eu lhe digo: o Magro era o mais esperto de todos. Era um piá estranho. Falava pouco. Acho que era por causa da voz dele, que era fina, meio fanhosa. Não fazia questão de mandar, mas a gente obedecia tudo que ele mandava. No futebol, ele dividia os times. E nunca deixava ninguém brigar. Se um se esquentava, ele mandava baixar a bola. O Magro jogava no golo. Era corajoso, se metia nos pés dos outros. Uma vez levou um baita bolaço no peito e caiu desmaiado. Na caça, ele era o melhor de pontaria. Mas não deixava ninguém matar só de maldade.
– A gente só mata o que vai comer – ele dizia.
O Negãozinho ficava fulo, chiava, mas acabava se michando.
O Magro tinha uns tiques de nervoso. Se sacudia assim: girava a cabeça bem ligeiro e depois dava um coice para o lado.
Um dia, a gente estava só os dois, e eu perguntei o porquê daqueles tirões com o pescoço e o pataço. O Magro me olhou, pensou um pouco e disse:
– É a minha alma que quer se livrar do meu corpo.
Fiquei arrepiado, me benzi e tudo.
Um carroceiro, que também tinha vindo da campanha, disse uma vez no boteco da vila que a mãe do Magro tinha aparecido enforcada num galho de umbu.
Então, eu achava que os tiques dele eram de recalque.
No segundo verão, o Magro não foi mais nadar. Ficava em casa ouvindo radinho de pilha. Parou de brincar com a gente e, aí, a coisa complicou. O Negãozinho ficou de chefe. Eu era dos menores e tinha que obedecer. Um dia inauguraram o supermercado e o Negãozinho me mandou roubar cinco rolos de cordão para a pandorga dele. Roubei me borrando de medo, mas roubei. Então a gente começou a ir em bando para o centro da cidade e os guris do colégio dos padres trocavam de calçada quando viam a gente.
Uma vez, anoitecendo, uns brigadas nos cercaram quando a gente vinha voltando pelo canalete. E, sem conversa, baixaram a borracha no nosso lombo. O Negãozinho foi o que tomou mais pau, mas não chorou. Um brigadiano disse:
– Fiquem naquela vila de merda e não saiam de lá! Se aparecerem de novo por aqui, vai ter para vocês, maloqueiros!
O tempo foi passando.
Eu só sei que um dia os guris mais velhos estavam todos loucos pela Marianita. Foi de repente. Era feiosa, mas, de uma hora para outra, botou corpo. Um corpaço. Ajeitou o cabelo numa trança, comprou sapato de salto e começou a se pintar.
Sempre fui um piá observador. Era menor que os outros, ainda nem dava bola para gurias, mas notei que o Magro foi o que mais se engraçou para o lado da Marianita. Ele ia até o fim da vila, passava na frente do barraco dela e voltava. Era um passeio sem fundamento porque não tinha nada para ver lá. Se entrava no banhado, e só entrava sozinho, o Magro sempre voltava trazendo uma coisa que dava um jeito de deixar com a Marianita. Era flor, era plantinha, era passarinho: cardeais e canários da terra. Uma vez pegou um ninho inteiro com filhotes de caturrita.
Depois, começaram a conversar na porta do barraco dela. A Marianita toda arrumadinha de saia curta. O Magro sempre ficava de cabeça baixa, meio que rindo sem jeito, cavando o chão com a ponta do chinelo.
A mãe da Marianita era uma polaca que trabalhava de faxineira na Santa Casa. Tinha também três guris. Dizem que cada um era de um pai. A Marianita, apesar de clarinha, era filha de negro, aposto. Tinha as feições. Os três menores eram um ruço, um meio índio e um alemão melado.
Dizem que a mãe dela tinha descido do Morro Redondo ou do Monte Bonito para se virar na Tiradentes. Um dia, não se sabe como, arranjou o emprego de faxina e deixou a vida. Depois, ela e a filharada foram dar com os costados na vila.
Mas aí tem um detalhe que eu ia me esquecendo. Um dia a prefeitura cercou a favela com arame farpado. Não podia levantar mais barraco nenhum. Os empregados vieram numa camionete com alto-falante. Botaram as pessoas em fila e fizeram um levantamento. Disseram que iam regular a nossa situação. O meu pai até ficou meio desconfiando, mas acabou enchendo uma ficha para eles.
Tempo vai, tempo vem, a gente via uns sujeitos descendo pela nossa rua com umas fitas métricas compridonas e uns aparelhos de mirar. Começou a falaçada. Que iam nos jogar no banhado. As pessoas discutiam. Meu pai dizia:
– Por mim, está tudo bem. Podem me botar até nos quintos, mas tem que ser de papel passado em cartório.
Um dia, armaram um palanque na entrada da vila. A gente se chegou. Disseram que ia ter bandinha da Brigada, foguetório, churrasco, guaraná e até uns drinques. Depois apareceu um caminhão. Dele desceu o prefeito, que era um gordo, baixinho, de óculos. Ele foi para o palanque e começou o nhenhenhém. O bicho falava complicado, mas o caso era que iam mesmo nos dar uns lotes demarcados.
Foi durante a fala do prefeito que o Negãozinho se enfiou pela traseira do caminhão da prefeitura. Pegou só duas garrafas da cachaça, para os funcionários não desconfiarem muito, e se mandou banhado adentro. Fomos dois guris atrás dele: eu e o Perninha, um que era rengo.
O Negãozinho deu uma garrafa para nós e ficou com a outra para ele. Bebia e se gabava, dizendo que era homem e tal, que não ficava borracho nunca. O Perninha não falava nada, só bebia e careteava. Eu me fiz de sonso e não tomei quase. Aquilo me queimava as tripas.
Lá pelas tantas o Perninha se foi embora, mais manco que nunca, meio que se vomitando. Em seguida caiu a noite. O Negãozinho tinha tomado mais da metade e continuava se balaqueando. Eu nem escutava direito o que ele dizia.
Eu olhei para a vila e vi que as pessoas estavam acendendo as velas e os lampiões. Se acabou a festa, pensei.
– Vambora, Negãozinho – eu disse. – A mãe deve de tá me procurando.
– Eu vou é destampar a Marianita – disse ele e meteu o dedo no meu peito. – E tu vai olhá.
Senti que a coisa estava ficando feia, mas não falei nada. No fundo, eu queria ver como ele ia…
A senhora me entende?
Eu era gurizinho novo, só sabia daquilo de ouvir falar.
Além do mais, eu não tinha coragem de contrariar o Negãozinho. Ele era meu amigo. Não deixava os maiores me pegarem no futebol. Mas eu também gostava de ver o jeito como ele olhava para os brigadianos, assim de cima.
– Vem comigo, piá – disse o Negãozinho. – Mas fica meio de longe. Não te mete. Eu vou trazer ela para cá. Depois, ela se lava aí no Redondo.
Fomos. Era noite de lua cheia. Lembro de tudo, tintim por tintim. Lembro até do barulho dos bichos do banhado: era muito nhé de sapo e muito ruuu de coruja.
O Negãozinho bateu na porta do barraco. Quando a mãe da Marianita abriu a porta, de vela na mão, o Negãozinho mandou um soco nos queixos da mulher. Entrou no barraco, pegou a Marianita assim, na gravata, e se veio. Um dos guris correu de atrás, o menorzinho. O Negãozinho deu-lhe um pontapé que o coitadinho levantou no ar e depois caiu deitado.
Meio correndo e trazendo a guria de arrasto, o Negãozinho passou pelo matinho e se foi até o Redondo. Eu fiquei por trás, meio escondido num pé de araçá, só bombeando. Ele jogou a Marianita no capim e ela não gritou nem nada. Se levantou, fez que ia ajeitar o vestido, mas voou no pescoço do Negãozinho e cravou as unhas nele. O Negãozinho urrou de dor e derrubou ela com uma rapada. Depois se jogou em cima, metendo a perna no meio das pernas dela. Os dois rosnavam como animais. Ela quebrava a corpo e ele forcejava em cima. Não tenho vergonha de confessar: era uma coisa bonita de se ver, embora fosse maldade.
Olha, vou dizer uma coisa – que Deus me perdoe, se eu estiver mentindo. Eu estava de olho bem aberto, vendo tudo. De repente, o Diabo me roncou nas tripas: achei que a Marianita estava gostando. Foi quando os corcoveios diminuíram e ela aceitou a boca dele.
Mas, bah, aquilo não durou um segundo.
Eu só vi um vulto branco – parecia uma assombração! – passar pela frente dos meus olhos. Um vulto que fez uns movimentos rápidos e aí eu escutei um grito. Um grito de dor.
Demorei a entender.
Era o seguinte: o vulto era o Magro. E ele tinha feito, de canivete, um xis nas costas do Negãozinho.
O Magro estava de calça branca e de camisa branca, bem como eu tinha visto ele no discurso do prefeito, no gargarejo do palanque, ao lado da Marianita.
– O que tu me fez, seu filho da puta? – perguntou o Negãozinho.
– Só te marquei na paleta – disse o Magro, naquela voz esganiçada.
– Eu vou te matar – disse o Negãozinho, e se levantou.
Então eles começaram a caminhar de lado, como que se toureando.
A lua brilhava no canivete do Magro.
A cada volta o Negãozinho se aproximava mais. Estava meio encolhido, como gato pronto para atacar um rato.
Então, com a mão esquerda o Magro começou a desabotoar a camisa. E perguntou:
– Tu gosta mesmo de mulher, Negãozinho?
Negãozinho não respondeu.
Aí, o Magro deu um jeito de corpo e se livrou da camisa. A lua batia bem nele. Ele estava com uma faixa de pano enrolada no peito.
Negãozinho parou de andar.
O Magro deu um puxão e a faixa se foi ao chão. Duas tetas saltaram no peito dele. Duas tetas de mulher.
O Negãozinho recuou um passo e ficou duro. O Magro abriu a cinta e deu um giro de bambolê na cintura, assim. E a calça dele caiu. O Negãozinho já tinha até abaixado os braços. O Magro meio que se agachou, arrastando a cueca com o dedão. Credo, que coisa! Ele deu um passo em frente, nu, e eu vi um corpo inteiro de mulher.
– Se tu gosta mesmo, hoje tu vai ter que comer duas.
Eu já nem respirava. O banhado estava em silêncio, como que estuporado pelo que estava se dando ali.
O Negãozinho estava de costas para mim, parado. Dava para ver a sangueira na camisa dele.
Então aquela mulher que tinha saído de dentro das roupas do Magro se encaminhou até onde estava a Marianita e deu a mão para ela. Sempre de canivete levantado, sem tirar os olhos do Negãozinho.
A Marianita, que estava assistindo aquilo sentada, se levantou. A primeira coisa que fez foi ajeitar o cabelo. Depois recolheu do chão as roupas do Magro.
Então as duas se foram, uma vestida, outra pelada, de mãos dadas, em direção ao casario.
Eu me chispei banhado acima, na pontinha dos cascos. Dei uma volta bárbara para chegar até os barracos. Não queria que o Negãozinho soubesse que eu havia assistido aquilo tudo de camarote. Ele ia ficar com medo que eu saísse contando.
Dias depois, houve a mudança da vila. Foi feita no rapidão porque todo mundo tinha pouca coisa. O pai ganhou um lote bem bom, naquela banda de lá. Em seguida, eu arrumei emprego de mandalete na cidade e comecei a trabalhar.
Bem, para encurtar. O Magro tomou chá de sumiço naquela noite mesmo. A Marianita logo depois saiu da vila. Falavam mal dela, diziam que tinha seguido a antiga profissão da mãe.
O Negãozinho só durou mais dois anos. Morreu de balaço pelas costas. Parece que foi um brigadiano.
Lourenço Cazarré é escritor
Texto originalmente integrado no livroExercícios espirituais para insônia e incerteza
Passaram umas horas depois do incidente que toda a gente viu, e Volodymyr Zelensky continua abatido. Entra no SUV ainda com o fantasma bem presente da impressionante conversa que tivera, horas antes, com Trump e J. D. Vance, com o mundo todo a assistir.
Está apenas com o seu chaffeur na viatura.
Passado uns minutos de silêncio, e depois de se aperceber da postura melancólica e cansada do político-actor, diz-lhe o chauffeur:
— Não leve a mal, senhor presidente, mas numa coisa concordei com o que vi.
— Bem… Tu também?
— Se me permite senhor presidente…
— O que é que foi? — pergunta sem convicção o ucraniano, pusilânime e com alguma condescendência, consequência do cansaço acumulado. — Já não me bastou ter de levar com aqueles dois atrasados…
Zel comendo um Chupa-Chups.
— Sim, mas… — pigarreia para aclarar a voz. — Senhor presidente, eu, se mandasse num país, e graças a Deus que não… — pigarreia novamente. — Não me vestia assim para uma cimeira, ou lá o que é que foi aquilo.
Zelensky abana a cabeça e, com um olhar vago, fita a paisagem sem se fixar nela.
O chaffeur continua:
— Nisso a minha mãe tem razão: devemos ir sempre bem vestidos para os encontros importantes. Desculpe a arrogância.
—Mas tu achas que eu gosto de andar assim vestido? — responde Zelensky com uma nova e súbita energia. — Achas que eu ando assim porque quero?
— Bem…
— Achas que já não tenho problemas suficientes lá na Ucrânia para ainda ter de estar aqui a levar contigo?
—Eu não qu… — o motorista tenta interromper sem sucesso enquanto Zelensky continua no mesmo tom:
— Achas que isto tudo é escolha minha? Já viste o que é que eu tenho de ouvir? Já percebeste que levei o maior raspanete da História da televisão? Achas que estou para isto? Também tenho honra, ou não?
Zel ouvindo ‘Karma Police’ dos Radiohead.
— Bem, senhor Zelensky, eu não queria estar na sua posição. Isso é verdade. Uma vez na escola levei cá um raspanete na aula, à frente de toda a gente, que ainda hoje me lembro. Foi cá uma vergonhaça!
Zelensky recompõe-se.
—Agora multiplica essa aula por triliões. — diz, novamente, o politico, mas já com a voz normalizada.
— Fogo! Eu nunca mais dormia. —responde o motorista, levantando os olhos.
— Estás a falar das minhas roupas… Mas nem sequer sabes de que marca são!
—Isso é verdade. Lacoste não são, senão tinham aí o lagartinho. —diz o chaffeur, enquanto faz uma cara ameaçadora para um outro condutor que o acabou de ultrapassar.
Zelensky continua:
— Esta t-shirt custa para aí uns 500 dólares. Devias estar calado e guiar com atenção. E não penses que o Trump e o barbichas country vestem assim tão bem. A gravata do Trump estava suja de gordura.
— Bem, senhor presidente… Desejo-lhe sorte agora, quando tiver de dormir sem comprimidos. A alma até dói depois de um raspanete destes. E o senhor já não é propriamente um adolescente.
O motorista está ainda fixado naquele seu pequeno trauma.
— Eu, só com aquele raspanete que levei na escola, demorei anos a conseguir dormir bem outra vez. E eram só uns 20 na sala. Mas foi cá uma vergonha. — reforça o homem.
Zelensky, no entanto, aproveita a boleia da conversa para não pensar no seu assunto e diz:
—O que é que tinhas feito?
— Tinha posto pimenta nas hóstias na capela do colégio, senhor Zelensky.
O ucraniano por segundos esquece-se de Trump e ri-se.
— E depois ?
— Depois, durante a missa, as velhas, sobretudo, tossiram e espirraram muito e foi de morrer a rir vê-las.
Zelensky tem um novo assomo de energia e parece divertir-se com a historieta do motorista.
— Mas depois, lá no colégio interno, descobriram que fui eu. Fui delatado por um puto que me odiava. Olhe, presidente, imagine que era o Putin, tá a ver?
— Sim, mas não é preciso fazer comparações.
— Desculpe.
Faz-se um silêncio e depois, de repente, o chaffeur atira:
— Isto era mais fácil quando o Zelensky era actor, não?
— Estás a brincar? Prefiro, ainda assim, ser presidente na vida real.
— Mas lá não levava raspanetes destes…
— Não, que não levava… Do realizador da série, era quase todos os dias. Eu sempre levei raspanetes na vida. Não como o de hoje, claro. Isto não foi um raspanete. Isto foi um ataque de um porta-aviões.
— Não foi um; foram dois.
— Isso. Ainda pior.
— Mas, se me permite, Zel… posso tratá-lo por Zel?
—Sim, estás à vontade. Até prefiro. Mete-me no meu verdadeiro lugar.
Zel chora.
— Bom… O Zel também foi para lá com duas pedras na mão. — arrisca o homem. E continua:
— É preciso muita coragem para chegar à Casa Branca e dizer o que o Zel disse. Ainda por cima àqueles dois. Bolas, eu não tinha essa coragem. No outro dia, na reunião do condomínio, quis também ter assim um pouco a sua postura, mas não tive coragem. E depois não sei se estava preparado para o raspanete certo da minha mulher.
— Pois. Percebo isso.
— Ainda tentei armar-me em duro, mas…
Faz-se de novo um silêncio e Zelensky suspira como uma criança.
O motorista olha pelo retrovisor e atira com ar amistoso de quem está a falar com alguém nitidamente fragilizado:
— Se calhar, agora, o melhor era o Zel ir para o hotel descansar, porque nestes dias de raspanetes há sempre tendência de tudo piorar a seguir.
— Sim, eu conheço a sensação.
— Mas, bolas, eu nem quero acreditar que estou no mesmo carro com o homem que levou o maior raspanete da História dos raspanetes, em directo.
— Já chega, está bem!
— Sim mas mesmo assim, e se me permite Zel, você até teve muita coragem.
— Obrigado.
— O J. D. Vance fez-me mesmo lembrar o contínuo chefe da minha escola numa das muitas rabecadas que levei, em que percebeu que o director lhe estava a dar espaço e acabou por, através de mim que não tinha culpa nenhuma, mostrar o seu poder. Nessas situações estamos sempre lixados, sobretudo quando são dois ou mais a darem-nos cabo da cabeça. Mesmo que tenhamos razão. Tendemos sempre a fazer como o Zel fez, assim com os ombros em posição defensiva — imita —, e com a cabeça para a frente.
— Olha para a estrada!
— Revi-me muito em si. — voltando a olhar para a frente — Provavelmente, eu e muitos milhões de injustiçados do mundo vitimas de reprimendas das antigas. É muito humilhante.
— Já chega. Tudo o que estás a dizer é verdade. Mas se queres saber, já levei muito piores. Olha para a minha cara. Não se vê logo que tenho ar de quem levou muitas na vida?
— Sim, por acaso, agora que penso nisso, tem sim. Mas ainda assim chegou a presidente.
— Isso é outra historia que não interessa para aqui e é melhor não quereres saber.
— Sim… BlackRock e não sei quê… A União Europeia a parecer uma equipa de natação sincronizado no que respeita à guerra é esquisito… Sim, sim. Percebo.
— Então… Olha lá a confiança. Não vás por aí.
— Zel, já agora, queria dizer-lhe uma coisa… chata. — interrompe o motorista.
— O que é que foi agora?
— O Zel, quando se filma a si próprio e aparece na televisão…
-Sim. E então?..
O motorista pigarreia novamente para aclarar a voz.
— … Bem… Não é muito bom a filmar-se. Não me leve a mal. Mas primeiro, não devia filmar-se na vertical, e depois devia de ter maior distância entre si e a lente. Não me leve a mal novamente, mas fica sempre com o nariz muito grande. Não é nada contra si. Mas eu estudei cinema.
— Quando um homem está em baixo, toda a gente lhe dá pontapés. Tens razão. Vou pedir ao Spielberg para andar sempre comigo nessas situações. Deve levar barato.
— Não queria ofender. — responde o chaffeur.
E Zelensky, visivelmente chateado insiste:
—Se calhar, também não gostas da minha maneira de falar!
— Por acaso, não. Mas não me leve a mal. São gostos. O seu inglês é esquisito.
Zelensky vai para responder, mas o seu telefone toca. Olha para o nome e atende. É Olena, a sua mulher.
— Sim…
— É só isso que tens para dizer? Sim. Sim o quê?..
— O que é é que eu fiz agora?
Com Olena quase aos gritos, a conversa torna-se perceptível para o motorista.
— Tu nunca fazes nada! —ataca Olena.
— Estiveste a ver? —pergunta Zelensky, a medo.
— Eu e mais três biliões de pessoas. Não tens vergonha? Olha para mim agora. Vai ser tudo a gozar comigo.
— Mas o que é que eu fiz? Estás mais preocupada contigo do que comigo?
— Olha Linskinho, a tua sorte é eu estar aqui. Devias agradecer eu ainda estar aqui a falar contigo e não te virar as costas.
— Mas eu não fiz nada de mal!
— Vocês nunca fazem nada de mal!
— Está bem. Entrei um bocado à bruta…
— À bruta? Então tu vais para a Sala Oval armado em Stallone!
— Não exageres.
— Eles têm alguma razão. Sobretudo o barbichas country. Devias era estar agradecido por estares lá com eles. Já viste que, a esta hora, podias estar na televisão a fazer sketches estúpidos e a apresentar programas de merda tipo Big Brother?
— Mas…
— Não há aqui mas, nem meio mas… É mesmo assim. O que há é o que é.
Zel faz balão com pastilha elástica.
— O que é que isso quer dizer?
— Não é o que isso quer dizer. Não fujas da conversa.
— Mas eu não estou a fugir.
— Já viste a sorte que tens de ainda estar aqui a falar comigo e eu estar a dar-te bola?
— Olena, não sejas assim…
— E, já agora… Anteontem deixaste a roupa toda no chão e saíste do quarto sem arrumar.
— Desculpa mas isso não fui eu. Foi a Olga. Tu sabes bem.
— Ai não? Ok. Sim…
— Precis…
— Não foste tu, mas podias ter sido. Vocês são sempre a mesma coisa.
— Mas vocês quem? Estás a falar comigo.
— Vocês todos. Tu não tinhas necessidade disto…
O motorista interrompe com uma voz nervosa, no momento em que o ucraniano vai a responder:
— Não leve a mal, senhor presidente, mas, se calhar, devíamos sair do carro.
— O que é que foi? — pergunta o presidente, meio atordoado.
— Já fiz asneira. O motor parece estar a arder, mas a culpa não foi minha. —diz o motorista, saindo apressadamente do SUV.
— Foda-se!!! —grita Zelensky, enquanto tosse e bate com a cabeça no vidro.
N.D. Os textos de opinião expressam apenas as posições dos seus autores, e podem até estar, em alguns casos, nos antípodas das análises, pensamentos e avaliações do director do PÁGINA UM.
Estudar em Lisboa e partilhar quarto com uma estranha poderia ter sido uma experiência horrível. Mas não foi. Conheci a Luz, uma miúda como eu, oriunda da província. Ela do Norte, eu do Sul. Rapidamente nos tornámos inseparáveis. Mesmo quando vinha de fim de semana ao Algarve, era frequente a Luz viajar comigo. Amorosa, de conversa fácil e sorriso luminoso, toda a gente a adorava, e ela correspondia com longos abraços e palavras doces.
A naturalidade com que se integrou na nossa rotina, rapidamente a tornou uma de nós, parecendo que sempre fizera parte do nosso mundo. E isso levou a que me questionasse sobre o silêncio em torno da sua família: os telefonemas e idas a casa eram raríssimos. Viajava apenas duas vezes por ano e, ainda assim, percebia-se o esforço hercúleo que fazia. Obviamente, nunca me atrevi a tocar no assunto.
Foi, por isso, com enorme espanto que um dia recebi o convite para ir passar uns dias com ela:
— Vou a casa no fim de semana prolongado. Queres vir comigo? — perguntou.
Achava que eu ia gostar da aldeia. Falou-me de pessoas calorosas, de um rio com um lugar perfeito para nadar, dos amigos de infância que lá viviam, das broas de milho que a mãe fazia como ninguém. Repentinamente, fez uma pausa. Explicou-me que com a mãe eu teria de ter muita paciência.
— É muito complicada, muito difícil. Especialmente depois da morte do meu pai… está impossível. — declarou, mantendo o tom de voz, mas não conseguindo disfarçar uma irritabilidade que lhe percebi pela primeira vez.
De súbito, começou a falar de uns livros que tinha de ir devolver à biblioteca. O assunto da mãe estava encerrado.
Os dias seguintes passaram num ápice. Havia muito a fazer: aulas, trabalhos para entregar, e compras, muitas compras. A Luz fazia questão de levar um visual novo para cada dia. Eu achava-lhe graça, porque em Lisboa e no Algarve nunca se preocupava com o que vestia e muito menos em maquilhar-se. Dizia-lhe que parecia os emigrantes em agosto. Ela encolhia os ombros, sorria e passava os modelos para eu dar opinião.
Chegou, finalmente, o grande dia. Mochilas prontas, um café no Galeto para despertar, e rumámos ao Saldanha para apanhar o expresso. Partimos em direção à autoestrada. Eu, animadíssima, a reparar em todas as placas: Vila Franca, Santarém, Torres Novas, Fátima, Coimbra, Aveiro, Estarreja, Porto. Ela, nem tanto.
Chegadas à Invicta, aguardámos a boleia da Telma, uma amiga da Luz que estudava na FLUP. Atirámos as mochilas para a bagageira e entrámos à pressa no carro parado em segunda fila, frente ao terminal.
Enquanto as velhas amigas punham a conversa em dia, eu, refastelada no banco de trás, deixava-me encantar pelo verde intenso, pela água abundante, pelas cameleiras dos jardins, pelas terreolas embutidas nas encostas e pelas pequenas hortas em socalcos. Habituada ao azul do mar e à maresia, deslumbrava-me o verde interminável e o cheiro a eucalipto.
A Telma deixou-nos à porta de casa. Marcou-se encontro para a tarde do dia seguinte. O Rui fazia 19 anos e ia dar uma festa na garagem. Toda a aldeia estava convidada.
— Foi por isso que viemos. — explicou a Luz, com uma piscadela de olho.
Não reconheci a minha amiga. Incomodou-me que me tivesse ocultado a festa. Ia preparada para fazer caminhadas, andar de bicicleta, nadar. Nem roupa adequada, nem presente. Perguntei-me porque teria agido daquela forma, mas optei por não a confrontar.
Despedidas feitas, eis que surge a mãe da Luz. Vestida de preto da cabeça aos pés, um ar pesado e um sorriso que quase não o era, a contrastar com a pele e os olhos muito azuis, brilhantes e joviais. A Luz dirigiu-se lentamente em direção à mãe, deu-lhe um beijo esquivo, sussurrou um olá frio, e apresentou-nos. A viúva dirigiu-me um olhar desconfiado, que me atravessou. Murmurou umas palavras incompreensíveis e não consentiu que me aproximasse demasiado. Nesse preciso momento, tive a estranha sensação de que aquela viagem tinha sido uma péssima ideia.
A filha, ignorando a atitude da mãe, comunicou que iríamos subir para descansar. Logo à entrada, desculpou-se:
— Aqui cheira a cemitério, mas lá em cima não. Fica descansada. Ela enche a porcaria da mesa de velas.
A um canto, junto ao vão das escadas, uma mesa-redonda servia de altar. Imagens da Sagrada Família, da Virgem de Fátima, de santos e santinhos misturavam-se com jarras de flores de plástico, lamparinas vermelhas, restos da decoração de um Natal passado e fotografias de um homem que imaginei ser o pai da Luz.
Descemos apenas à hora do jantar. Pedi licença para usar o telefone e avisar a minha família de que tinha chegado bem. A chamada foi breve. Ainda assim, foi suficientemente longa para que, ao chegar à cozinha, encontrasse a Luz já entediada. A mãe falava, e ela suspirava. Quando entrei, calaram-se.
Quebrando o gelo, a senhora perguntou-me se os meus pais estavam bem. Respondi que sim, e, sem saber como, a conversa passou dos meus pais para o pai da Luz: que já lá estava, coitadinho; que muito sofrera com a doença; que tudo aguentara, sem proferir um ai; que trabalhara até perder as forças; que fora tão poupado; um homem sem vícios…
A filha interrompia-a. Dizia que não era conversa para ter à mesa. A mãe ignorava-a. Prosseguia, desfiando o rosário: minuto a minuto, consulta a consulta, cateter a cateter, escara a escara. A filha pedia que se calasse. Não era assunto para ter à hora da refeição. Indignada, a mãe olhava-a com ar de reprovação e retomava a ladainha: o último suspiro do seu homem; os gritos que ela dera; o caixão…
Não haviam decorrido trinta minutos, desde que me sentara à mesa, e já presenciava desavenças entre mãe e filha. — Vamos ao café! — ordenou-me a Luz, a meio do jantar.
Nunca a tinha visto alterada. Fiquei presa num limbo, constrangida, hesitante entre a descortesia de me ausentar, ofendendo a dona da casa, e a de abandonar a minha amiga.
Levantei-me, incomodada. Desculpei-me. A senhora olhou-me com desprezo. Senti pena dela. Pareceu-me muito só no mundo. Sem a filha por perto, mantinha-se fechada num casulo de silêncio. Desde que regressara de França, para onde emigrara com o marido, vivia entre quatro paredes. Encarei com normalidade a necessidade de falar que demonstrava. Acreditei perceber o sofrimento que ambas encobriam. A mãe precisava de verbalizar e lembrar; a filha, de silenciar e esquecer.
Quando desci para sair, a conversa havia subido de tom. Pelo caminho, esperei, em vão, que a Luz tocasse no assunto. Limitou-se a dizer que, depois do café, íamos para casa do Rui.
Mais uma vez, senti-me traída. Não me tinha arranjado para ir a uma festa. Lá chegada — botas de montanha, calças de ganga, camisolão de xadrez e bandolete a aguentar a melena selvagem —, recolhi-me a um canto, tentando passar despercebida, mas a Luz insistiu em levar-me até à pista de dança improvisada. Valeu-me a fraca iluminação e o fumo espesso dos cigarros. Já a Luz, dava nas vistas. Vestida e penteada de forma exuberante, e a mostrar os passes de dança aprendidos nas discotecas da capital, fazia o possível por ser o centro das atenções.
Regressámos tarde a casa. Disse-me que não me preocupasse com o barulho:
— A “santa” está acordada. Passa a noite a rezar.
No dia seguinte, acordámos tarde. A mãe saíra logo pela manhã. Tinha ido à missa, como todos os dias, explicou.
— Coitada — respondi —, deve sentir-se muito sozinha.
— Esquece. Foi sempre assim — respondeu, revirando os olhos.
— Mas… — tentei, acreditando que poderia ajudar a negociar uma trégua naquele campo de batalha.
— Mas, mas… Mas vamos é pôr-nos a andar, que temos programa para o dia inteiro. — atalhou.
Caminhámos pelas ruelas estreitas da aldeia, rodeadas por casinhas de pedra cinzenta. Todos a conheciam. Faziam-lhe perguntas sobre Lisboa, sobre os estudos. Queriam saber quem eu era. Perguntavam-me se estava a gostar da aldeia. Uns falavam com saudades de quando tinham vindo ao Algarve, outros de como sonhavam cá vir.
O dia passou depressa. Em casa, a mãe parecia de melhor humor. Tinha acabado de cozer broa. Sentámo-nos a comer. Perguntou-me se tinha namorado. Procurando arrancar uma gargalhada à minha amiga, decidi responder que sim, que ia casar no verão seguinte. Ela aguentou-se. Mas a verdadeira surpresa foi a reação da mãe. Pousou a caneca de café e a broa que tinha nas mãos e olhou-me fixamente.
— Não achas que és muito nova para isso? — perguntou de chofre. Na dúvida, fui em frente. Contei-lhe que namorava havia muito tempo e que o rapaz era mais velho.
— Muito tempo? Eu namorei oito anos. — respondeu. — É um passo muito sério. Vocês têm a vida pela frente. Têm muito tempo para casar. Parece que estão fartas de estar bem.
Feita a advertência, acomodou-se na cadeira e mudou o tom. Seguiu-se a receita da broa, a lembrança do quanto o pai da Luz a apreciava e, claro, já que vinha a propósito, a repetição do relato feito ao jantar na noite anterior. Mais uma vez, a Luz, impaciente, pedia-lhe que parasse. Dizia-lhe que era mórbida. A mãe ignorava a irritação da filha, que me “convidou” novamente a abandonar a mesa. A situação repetiu-se várias vezes ao longo dos três dias.
Não foi preciso muito tempo nem particular perspicácia para perceber que na aldeia toda a gente conhecia a história daquela família. Todos perguntavam pela “santa”. A figura da viúva, longe de causar comiseração, era alvo de ironia. Pareceu-me errado e comentei com a Luz. Compreendia que a senhora fosse muito aborrecida, e que rezava o suficiente para mandar uma dúzia de alminhas para o Céu, que tinha alguma falta de noção, mas, caramba…. Nenhuma de nós podia avaliar o sofrimento de alguém que perde assim o companheiro de uma vida. Insisti para que fosse mais paciente e que se esforçasse por compreender a mãe.
Respondeu-me em forma de pergunta:
— Porque é que achas que ela reagiu daquela forma quando falaste em casamento? És muito nova para casar. Tens a vida à tua frente. Parece que estás farta de estar bem. Achas que é resposta de quem teve um casamento feliz?
Confidenciou-me que o pai era alcoólico e extremamente violento. Que levou alguns anos a associar as nódoas negras da mãe e as quedas quase diárias aos punhos do pai. Só percebeu quando chegou o momento em que começou a ter de explicar, na escola, os seus próprios desequilíbrios e tropeções.
Explicou-me como viviam ambas aterrorizadas. O pavor que sentiam quando ouviam ranger a porta. Disse-me que um vizinho chegou mesmo a dar-lhe “uns apertos”. Teve esperança, mas nada mudou.
A mãe, essa, defendeu-o sempre. Era um bom homem. Um bom pai. Nunca tinha deixado faltar nada em casa. A culpa era do vinho e das más companhias. Além disso, a roupa suja era para lavar em casa.
Talvez para sobreviver à dor, tinha inventado um marido que nunca existira e falava dele como se ninguém conhecesse a verdade. Os vizinhos, os amigos, os familiares não a contrariavam, apesar dos comentários sarcásticos que proferiam nas suas costas. Para a Luz, aquela hipocrisia era insuportável: as rezas sem fim, o luto, as visitas diárias ao cemitério, o ar de viúva sofrida, as lamúrias. Sentia-se aliviada e desejava muito que a mãe se libertasse do passado.
Partilhámos casa por mais dois anos. A “santa” deixou de ser tabu, apesar de estarem cada vez mais distantes. O Rui também passou a fazer parte das nossas conversas.
Terminámos o curso em 1992. Ela foi colocada no Minho, eu no Algarve. em breve, perderíamos o contacto.
Há dias, encontrei a Telma numa conferência. Perguntei-lhe pela Luz. Contou-me que a mãe tinha falecido havia meses. Quanto à Luz, casara com o Rui. Disse-me que tinham tido uma filha, a Estela, estudante de Arquitetura, e que viviam nos arredores do Porto, onde ambos tinham arranjado colocação.
— O Rui!? Que bom! Fico tão feliz por ela.
— Não fiques — respondeu.
Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve
Seria a identidade e toda a sua doença contemporânea associada, uma questão de branding, fruto de uma necessidade quase patológica de pertença?
Nessa época conturbada que já vinha de há muito (talvez mesmo desde a Origem dos Tempos ou mesmo do Tempo só), muitas pessoas não sabiam bem quem eram, tendo a necessidade de comprar a sua identidade, ao invés de terem simplesmente uma…
Porque sim.
Ela podia estar num iPhone, numas Levi’s 501 de ganga, nas músicas de uma banda do momento, mas que rapidamente passará de moda, na pertença a um grupo de runners conhecidos na rede que vestem verde-luz para fazer-se à estrada e que gostam de correr das 23 horas em diante, ou ainda podia mesmo residir no cartão de sócio de um clube de futebol cotado em bolsa mas cuja direcção nem um rosto corrupto visível tem para uma hipotética selfie com o presidente.
Podia estar também numa mota, num skate, num blusão de cabedal como no filme de David Lynch Wild at Heart, ou estar ainda plasmada nuns ténis ou meias do Lidl, e mesmo numa vacina da Pfizer ou da Moderna, para lembrar um passado recente.
Enfim, aquilo que dava sentido de pertença às pessoas podia ser tudo isto e muito mais, mas raramente seria possuir um pensamento claro, genuíno ou mesmo arrojado.
Ter uma identidade não custava muito, as redes sociais encarregavam-se de ser a caderneta para a colecção dos cromos identitários que por aí pululavam e quanto mais barata custasse a identidade, melhor seria.
Depois também havia as identidades espirituais e religiosas, como o eco-espiritualismo, a ioga, o sexo tântrico, budismo, hinduísmo, neo-paganismo, meditação no zoom e muitas outras.
Se se pertencesse ao ramo das artes, então nesse caso seria crucial ter uma à séria, mas mais sofisticada.
Ser-se humanista era muito valorizado neste ramo da sociedade, mas não um humanismo à século XX pela via do Socialismo ou da Social Democracia, esse já tinha os pés para a cova. Hoje era exigida uma alavanca mais cultural. E era bom dizer-se e escrever-se de vez em quando “alavancagem” ou “igualdade”, o que por si só não seria nenhum problema.
Já ser pelos “trabalhadores” era considerado démodé e seria marca e identidade do Partido Comunista ainda que estivesse a perder de ano para ano cada vez mais votos.
Falar na pobreza já não assegurava deputados, mesmo que a sociedade estivesse mais pobre.
Os velhotes andavam a morrer em barda e parecia que já ninguém queria saber deles.
Mesmo os mais desfavorecidos não acreditavam que algum partido político fizesse alguma coisa pela sua situação, alguns acreditavam mesmo mais na Cristina Ferreira e na TVI, ou ainda pior, no Cláudio Ramos e na sua incrível “honestidade intelectual” como se ela fosse salvívica.
O esquema desse tempo era outro e o futuro não parecia contar muito com os mais pobres.
Eram abstratos de mais e não trabalhavam, atrapalhavam até.
A sociedade do Bem (mal) Estar estava a ficar desumana, sem duvida.
Aos olhos dos menos pobres, os mais pobres não queriam trabalhar, não se percebendo muito bem de onde vinham essas ideias.
O novo paradigma era cultural e climático.
Muitas vezes bastava ser-se cisgénero ou do género binário e querer acabar com o carbono e queimar todos os carros à face da terra, ou mesmo ter novamente o hino nacional e o ódio à emigração muçulmana a viver no Tik Tok para se ter uma identidade, consoante a pseudo-geografia por onde se esteja a ver, que isso certamente já seria música para os ouvidos das redes (anti) sociais, que cada vez mais tinham as orelhas maiores, tipo lobo-mau.
O novo bilhete de identidade já não era carimbado pelo Governo, mas por um canal de You Tube ou por uma conta de Instagram. O carimbo era um like.
Que mundo!..
Não se podia era não se ser nada.
Se se fosse artista mas se se identificasse com a direita mais clássica, corria-se o risco de acabar nas galerias do Casino Estoril a pintar casas de férias com paisagens naïvesque desencantam sempre riachos e moinhos vindos não se sabe de onde, sobretudo as pessoas mais velhas que ainda acreditavam em valores clássicos e tradicionais.
Mesmo assim, isso era ter uma identidade. Os cromos de Cascais fechados no seu gueto de camurça anacrónico também tinham o direito à vida e muitas vezes o objecto ou o gadget que dava o passaporte identitário encontrava-se em saldos.
Já não havia assim tantos ricos para que prescindissem dos saldos.
E desta forma chegamos ao Ricardo Campos de Almeida, o pequeno herói desta historia que achava também que era hora de nos alimentarmos de livros em vez de informações digitais. Era hora de lembrarmos o humano em vez de imaginarmos o transumano. Sabia muito bem que conquistar um direito podia demorar um século mas perdê-lo, podia ser numa hora.
Para ele estava na altura de valorizar a inteligência natural novamente em prol da inteligência artificial e de pensar. Portanto… De existir, para transformar.
Este rapaz era um clássico, mas para a frentex, achava ele.
Fosse o que fosse, pensasse o que pensasse, disparatasse o que disparatasse, não se identificava na totalidade com grupo algum.
Em qualquer era das trevas, foi sempre a centelha da razão que fez a humanidade renascer para reconstruir o presente e imaginar o futuro. Parecia que nesse tempo o acto mais revolucionário era pensar diferente.
O Ricardo Campos de Almeida pensava diferente. Achava que perder-se na maré da ideologia ou no oceano da ignorância nada mais era do que o conforto de ter destinado a função de pensar para os outros, e ter apenas o impulso de agir. Age, não penses, era a frase lapidar da New (brand) Age.
O mundo que se avizinhava era impensável de certa forma, em que as grandes empresas de investimento e multinacionais estariam aparentemente ainda mais com as minorias, com os pobres, e com os injustiçados em geral.
Tipo Black Rock e Vanguard que davam cada vez mais cartas no jogo absurdo da economia política. Uma estética que podia ter os dias contados.
Interessante, desafiador, cómico, e claro… Mentiroso.
Portanto, o Ricardo Campos de Almeida compenetrava-se de que simplesmente pensava e contrariava as tendências que não só povoavam o subconsciente global mas também o próprio consciente colectivo, se assim se poderia dizer.
E isso era satisfatório. Era o autor e o publico ao mesmo tempo, mas era incapaz de motivar fosse quem fosse com as suas ideias.
Havia dias em que nem ele próprio acreditava minimamente naquilo que tinha pensado no dia anterior, denominando-se facilmente essas pessoas, de indivíduos com transtorno bipolar aos olhos do directório de saude mental americano (DSM). O directório europeu ainda não sucumbira totalmente às novas sensibilidades psiquiátricas.
Pensar e sentir coisas opostas podia ser sinónimo de um transtorno bipolar, sobretudo se ao sujeito-vítima-de-si-próprio que sofra desse mal, a coisa o esfrangalhasse sem contemplações e passasse os limites do sofrimento, e essa pessoa podia não ser apenas vítima de uma conjuntura.
Mas embora o Ricardo Campos de Almeida o soubesse, não se considerava assim.
Era apenas inseguro e sabia não ser uma pessoa extrovertida ao ponto de recuperar facilmente das agruras do dia anterior só porque falava do assunto. As coisas eram substancialmente mais complexa, mas ele dava-se bem com isso, achando ser natural. Pelo menos até ter sido observado por um médico especializado-em-nada, que o contrariou.
O Ricardo Campos de Almeida era controlador aéreo e isso obrigava-o a estas acções de controle médico de rotina.
Mas desta vez o especialista parecia ser diferente do anterior, sendo novo na empresa já que o antigo que o observara durante anos, bastante mais velho, tinha-se retirado devido a uma crise nervosa aguda.
Mas esse era pouco exigente e estava lá mais para conversar sobre cinema, o que normalmente agradava ao controlador aéreo já que ambos eram admiradores de Eric Rohmer e dos seus filmes palavrosos.
O novo e dinâmico especialista em saúde mental contratado pela empresa, era de outra estirpe mais perigosa e incisiva, tinha a escola toda e fora certamente bom aluno. Era um bom cão-de-fila das novas sensibilidades médicas e psiquiátricas seguindo protocolos atrás de protocolos sem pô-los minimamente em causa.
Apesar de tudo, o Ricardo Campos de Almeida era uma pessoa bem-disposta, ria-se bastante em geral e tentava não andar triste, embora fosse titubeante para fazer raccord com um mundo cada vez mais inseguro, tendo até confessado essa sua característica ao médico que disparando de rajada, assegurou que essa consideração fosse anómala.
Para o especialista, a boa disposição poderia estar a esconder uma depressão profunda, ainda que o Ricardo Campos de Almeida o negasse, confessando também que lia bastante e que isso tinha um efeito positivo nele quando estava mais triste.
O especialista afirmou que isso também não era normal, parecia saber bem o que era a normalidade.
O tipo de literatura que o controlador aéreo lia não podia pôr uma pessoa bem-disposta, já que se tratava de uma literatura intelectual e difícil, à base de filosofia com clássicos tipo Dostoyevsky no cardápio literário.
Aconselhou-o a ler uns livros mais leves, literatura light, essa sim fá-lo-ia esquecer a dura realidade e torná-lo-ia mais ligeiro, menos problemático e mais apto.
Mas o especialista achou estranho o especialista anterior não ter anotado essa anormalidade na sua ficha clínica.
Para o Dr. Paulo Souto e Silva o que o Ricardo Campos de Almeida precisava era de uma boa dose de ligeireza.
E, se tomasse o que lhe receitava, poderia trabalhar sem problema.
Saiu da consulta de rotina medicado com o patrocínio da Bial.
Foi para casa, agora sim melancólico e meio deprimido e ainda passou pela farmácia para aviar as estranhas receitas, mas jamais pela livraria, não iria tão longe.
Assim poderia continuar a agradar à entidade empregadora que o contratara e que andando em restruturações já se tornavam visíveis as mudanças.
Recentemente a empresa tinha posto a bandeira colorida do Arco-íris na sua entrada e garantia publicamente estar a fazer guerra ao carbono embora estivesse ligada aos transportes aéreos.
Rumou até casa a pé e achou estranho a cidade estar tão calma, como se estivesse a meditar sobre si própria. Tinha estado a chover, mas uns raios de sol típicos de Abril, penetravam por entre o cimento dos prédios e o plástico dos automóveis, convertendo-se num cenário fílmico e até poético. Foi uma caminhada sem tempo definido tal o turbilhão de pensamentos em que a cabeça do homem se encontrava.
Chegou a casa, mas ao invés do comprimido receitado, tomou um duche rápido e depois ligou a televisão enquanto preparava umas almôndegas.
E mal ligou o aparelho ficou atónito com o que viu. Ainda mais que àquela hora de almoço do dia 11 de setembro de 2001 quando foi comer a casa da mãe no intervalo das aulas.
A SIC Notícias estava em directo de Washington, porque uma bomba explodira na Casa Branca. 41 mortos já contabilizados.
Nada disto podia estar a acontecer. Pensou que podia ser uma brincadeira já que era dia 1 de Abril, o dia das mentiras.
Mudou de canal e foi parar à TVI 24, que fazia um directo também, mas a partir de Bruxelas. Por envenenamento várias pessoas que trabalhavam no Parlamento Europeu, sucumbiram, entre elas o próprio presidente da Comissão Europeia.
Não podia ser.
Alguma coisa estava errada. Mas com isto das fake news todos os dias eram dia 1 de Abril. Tentou pesquisar na Internet mas estava extremamente lenta ao ponto de voltar aos canais convencionais.
Passou para a RTP3, e em rodapé por baixo de um jornalista que vociferava uns disparates imperceptíveis, informava que a sede da Google havia sido bombardeada com uns drones verdes e estranhíssimos que deram cabo do edifício num ápice, vitimando pelo menos 88 pessoas. Mesmo sendo dos poucos que ouvira falar do projecto Blue Beam e do Cyber poligon, não estava a acreditar na ocorrência.
Noticiavam também que o novo Zuckerberg que tinha passado a ser pela liberdade de expressão estava em paradeiro incerto, tendo o seu avião particular sido encontrado no meio de uns penhascos californianos, sem ninguém lá dentro.
Mas pareciam tudo suposições embora lembrasse uma alucinação colectiva.
Ainda em grandes parangonas lia-se que a casa do presidente Orban da Hungria tinha explodido com o próprio lá dentro, o que afastava a possibilidade de ser um atentado da extrema-direita, segundo a RTP.
Tentou os canais internacionais. Nada de mais, pareciam as mesmas notícias copiadas mas nos contextos desses países. Mal por mal antes Portugal e voltou à SIC, mas desta vez aparecia chuva no seu plasma. Uma chuva analógica e a fazer lembrar outro tempo televisivo.
Experimentou a CMTV e diziam com um directo mal-amanhado, que os estúdios da SIC haviam sofrido uma espécie de atentado, mas a jornalista estava atónita e mal conseguia falar.
Deslocava-se para lá, mas parecia estar drogada. Não enchia chouriços, enchia malas de viagem com estupefacientes.
O mundo enlouquecera e ele é que tinha de tomar comprimidos? Baixou até ao silêncio o volume da televisão, fitou os medicamentos que ainda não tinham saído das embalagens correspondentes, e pensou no especialista que lhe receitara aquilo. Estaria ele também a seguir a novela da terceira guerra mundial em directo, enquanto bebericava um gin tónico? Da terceira não! Para aí da quarta ou da quinta, já lhe perdera a conta.
Divertiu-se com a imagem e decidiu não tomar os medicamentos.
Foi até à janela ainda com a toalha de banho pela cintura e com o cabelo húmido, viu o entardecer quase a abraçar a noite que ao invés daquilo que as televisões mostravam, era belo e sumptuoso, contrariando totalmente a adrenalina vigarista espelhada no som estridente do seu plasma.
Para ele o pior era o som. As imagens por si eram inofensivas sem o áudio. Até podiam ser cores em movimento. O som era o inferno.
A ultima voz que ouviu foi a de um comentador de geopolítica que estava a chorar em directo e a jurar que tinha avisado desta catástrofe humana mas que nunca ninguém o ouvia, nem a mulher. O pivot muito conhecido aproveitava para pedir desculpas ao público pelos seus últimos trinta anos de teatro, assumindo-se como um mau actor. Pedia de joelhos à audiência para que não o deixassem acabar como Gaddafi, arrastado pelo chão de Tripoli. Parecia mesmo o fim do mundo.
Abriu a janela e o silêncio mostrava-se de uma beleza comovedora. Ao longe via-se a linha do horizonte que dividia o azul do rio com o azul alaranjado do céu. Parecia uma pintura digital. A paisagem e a sua beleza sempre foram a sua aspirina e foi atingido por uma lufada de ar que trazia o aroma primaveril de terra fresca.
O rio, lá em baixo, estendia-se preguiçoso, numa dança silenciosa com os prédios envolventes.
Não havia pressa no cair da noite – era um entardecer sem a mínima intenção de chegar a lado algum.
O Ricardo Campos de Almeida enquanto desfrutava do silêncio envolvente, acendeu um cigarro e percebeu que voltava a estar bem disposto.
Foi no início da tarde, pouco depois da hora do almoço, quando todo mundo estava sesteando, que se deu o causo, aquela barbaridade. Por que os loucos e os guris não sesteiam?
Todo santo dia, mesmo que fosse inverno e que as águas estivessem frias como chapa de aço, ele nadava no rio. Dava um mergulho e sua cabeça grisalha só reaparecia bem longe. Depois, com braçadas largas, avançava. Era um pouco antes do nascer do sol, escuro ainda. Mesmo nos dias de vento e chuva, quando o rio se encrespava e rugia, ele nadava quase até a outra margem e voltava na mesma braçada segura.
O grito de morte correu por entre as casas, mas depois ficou parado no ar, cristalizou-se bem no meio da rua. Por isso, todos os homens pularam da cama, entorpecidos.
Era um sábado, calor dos infernos. O mulato voltava para o barraco dele. Até aquele dia, era manso, manso. Gostava de missa. Colecionava santinhos. Diziam que de noite, à luz de vela, ficava lá no barraco dele apreciando os bentinhos que ganhava do padre da igreja do Porto depois da missa das dez de domingo. Se naquela tarde traiçoeira ele tivesse passado um pouco antes, ou depois, talvez não tivesse se defrontado com os guris, que estavam ali pela esquina. E, se fosse mais cedo ou mais tarde, podia ser que houvesse algum adulto por ali, para impedir a tragédia.
Quem esqueceu aquela maldita acha de lenha justo ali, na beirinha da calçada?
Os moleques disseram depois que o crioulo se agachou com um movimento muito ligeiro, elástico, que os olhos dele estavam brilhantes de fúria.
Aí, ele voltava até a margem de cá e saía da água, luzindo, nu em pelo. Depois ia até a cabaninha dele, que é um moquiço de lata, e botava a roupa por cima do corpo molhado: uma calça esfarrapada e uma camisa no fio.
Os homens se reuniram na esquina, onde já havia um círculo ao redor do corpo ensanguentado. Alguns nem olharam direito, se contentaram em observar pelo canto do olho o filete vermelho que corria por cima do cimento.
Os outros meninos estavam um pouco mais afastados, assustados. Aí, um dos homens, um de olhos bem azuis, se aproximou deles e perguntou:
– Para onde ele foi?
Pouco antes, os guris estavam por ali, naquela mesma esquina, quando o mulato se veio, gingando naquele passo mole, a cabeça cravada no peito. Eram quatro os piás. Aqueles estavam ali porque não sesteavam. Alguns garotos não têm descanso, são como almas penadas. Estavam debaixo do plátano, na sombrinha. Era cedo para entrar no rio ou para jogar bola, estavam papeando.
– A gente só estava esperando a comida baixar – disse um deles, e desatou a chorar.
O mulato seguia, depois, direto para o Mercado. Era como um relógio, cruzava sempre pelo primeiro ônibus que descia para a Balsa.
– Para onde foi o louco? – insistiu o homem.
O menino apontou para os grandes armazéns à beira do rio.
O homem passou a mão pela cabeça do pequeno que soluçava e voltou até onde estavam os outros homens, ao redor do corpo. Nem falou quase, apenas resmungou. Eles se entenderam mais pelos olhos. Então, cinco ou seis deles foram até as suas casas, mas logo saíram de volta para o calor.
A gurizada estava acostumada com o mulato. Todo dia ele passava por aqui, sempre naquele seu jeito gingado, olhando para o chão. Era mansinho como boi velho, mas naquele dia estava alterado. Por dentro. Por fora, era igualzinho o de sempre, um bicho inofensivo. Aí, eles gritaram:
– Tarcísio louco!
Cedinho, quando o fiscal da Prefeitura, ainda bocejando, enfiava a chave no portão do Mercado, o crioulo já estava por lá. Alto, parecia ainda mais alto no meio dos portugueses das bancas, quase todos baixinhos. Uma mancha escura no meio de rostos pálidos, uma sombra gigantesca e desengonçada. Enfiado na portuguesada, ele entrava Mercado adentro, afoito e displicente ao mesmo tempo.
Ao voltarem à rua, os homens estavam armados. Dava para ver por baixo de cada camisa o volume do revólver. Tinham todos os olhos injetados de quem não sesteou bem.
Então o homem que tinha passado a mão na cabeça do piá, o homem dos olhos azuis, cujo nome agora me escapa, se encaminhou para o rio. Os outros foram atrás. Iam devagar. Devagar demais, como se lhes pesasse muito o andar, como se carregassem um fardo. Seguiram pelo meio da rua. As pedras do calçamento estavam fervendo de tanto calor.
Como se deu a coisa? Bem, primeiro, os guris gritaram. O mulato seguiu em frente, deu ainda mais dois ou três passos. Quando o coro se repetiu, ele parou e levantou a cabeçorra. Tinha sempre uns olhos tristes de vaca, mas, naquele dia, não, os olhos dele brilhavam alucinados. A gurizada tornou a gritar. Foi o erro deles. O mulato olhou em volta. Viu a acha de lenha caída junto ao meio-fio.
– Foi muito rápido – contou um dos meninos, depois. – Ele se agachou, como se fosse de mola. A gente parou de gritar. Quando se levantou, ele já tinha a lenha na mão. A gente saiu correndo.
Aí, ele começava a percorrer os corredores do Mercado. Ia de um lado a outro, arreganhando as narinas, para sentir melhor o cheiro bom que vinha do interior das mercearias. Só parava, e por pouco tempo, diante dos viveiros de passarinhos. Então, um português o chamava. Não importava quem, trabalhava para todos, mesmo para o mais pão-duro. O português apontava uma carroça qualquer e ele ia até lá e agarrava as caixas de frutas. Carregava três de cada vez. Depois, outro portuga lhe gritava o nome e ele ia até outra carroça.
Os homens enveredaram pelo campinho e foram direto ao muquifo do mulato. Para dizer a verdade: era mais ou menos uma casa de cachorro grande. Metro e meio, se tanto, de altura. O homem que tinha afagado a cabeça do moleque do que chorava sacou o revólver e agachou-se, cauteloso, diante da abertura. Não havia nem mesmo uma tábua que servisse de cama. Engatinhando, enfiou-se lá dentro e voltou pouco depois trazendo na mão uma caixa de charutos. Em silêncio, os outros homens o cercaram. Levantada a tampa, todos puderam ver as dezenas de santinhos.
– O pobre maluco – resmungou um deles.
Depois, quando não havia mais carroças para descarregar, um dos portugueses lhe dava uma vassoura e ele varria os corredores. Já havia então bastante gente por ali, na maioria velhas de cabeças cobertas por mantilhas negras, mal saídas da missa na Beneficência Portuguesa. Finda a varrição, o crioulo ia a uma das lancherias para receber sua paga: um litro de leite e um pão sovado de meio quilo recheado com mortadela.
Saindo do barraco, os homens pegaram a trilha que levava ao rio, a trilha aberta pelos pés do próprio mulato. Só pararam junto à margem, amontoados debaixo da sombra pouca de um salso chorão. Viram logo um ponto no meio do canal de navegação. Era a cabeça dele.
Aí o homem de olhos azuis, assumindo o comando, ordenou que dois fossem até o Clube de Regatas para trazer uns caíques.
O ponto escuro no meio do rio sumia aqui e reaparecia lá adiante.
– Mais dia, menos dia, a gente ia ter que fazer isso mesmo – disse um deles. – Não existe louco manso.
Foi o quinto e último filho. Seus quatro irmãos eram pretos como a noite. Quando viu o recém-nascido, clarinho, o homem que deveria ter sido seu pai, se foi para nunca mais voltar. Sumiu sem fazer uma só pergunta à mulher, sumiu sem um só xingamento.
A mulher rezara muito para Santa Bárbara pedindo que a gravidez não vingasse, mas a santinha não lhe ouviu as preces.
Desesperada por ter sido abandonada, ela descontou a desgraça no filho. Negou-lhe o peito, mas, mesmo assim, ele cresceu forte como um novilho. Negou-lhe cafunés, mas, mesmo assim, ele era amoroso. Então, ela começou a bater nele de rebenque. Por onde pegasse, na cabeça de preferência. Na cabeça de cabelos cacheados, cacheados como os cabelos do branco.
Pouco depois chegaram os dois barquinhos. Os homens embarcaram em silêncio. O homem dos olhos azuis, na proa de um deles, não desgrudava sua mirada do pontinho negro no dourado das águas.
– Ele está girando em círculo – disse alguém. – Vai ser fácil pegar ele.
Quando chegou o tempo das primeiras palavras, o mulatinho não se pronunciou. Não falaria uma só palavra em toda sua vida. Ainda bem pequeno, ganhou o jeito esquivo dos bichos do mato. Depois de muito escorraçado pelos irmãos, não tentou mais brincar com eles. Mirava a mãe de soslaio, à espera de um aceno carinhoso que nunca veio. Começou a se refugiar no mais escuro do mato e ali passava os dias.
Tempos depois, mais taludo, passou a perambular pelos campos. Voltava à tardinha, depois da janta dos irmãos, para comer os restos. Cada vez ia mais longe nessas andanças. Certo dia descobriu duas coisas assombrosas: a Lagoa, que era um mundo de água que não acabava nunca, e o negro velho que não tinha uma perna.
Os barcos deslizavam embora os remos estivessem levantados.
– Temos muito tempo ainda antes de escurecer – disse o homem dos olhos azuis, mirando o céu vermelho.
Ficou morando por ali, num canto da cabana do negro velho. Não apanhava mais de rebenque, e isso era bom. No verão, passava os dias dentro da água. Da margem, mal equilibrado na muleta, o velho fazia uns gestos que o menino tentava imitar. Foi assim que aprendeu a nadar. O velho o ensinou também a pescar de caniço e a matar marrecões a pedrada.
– Com esse tempo todo dentro d’água, ele deve estar cansado – disse alguém.
Um dos homens apontou para onde vinha deslizando uma lancha. Compreenderam então que ela passaria entre eles e aquele que caçavam.
Acordava e ia pescar. Quando voltava com a fieira de peixes, o fogo já estava aceso e o velho mateava. Enquanto os peixes fritavam, o velho contava histórias que o pequeno não compreendia. Falava principalmente das barbaridades que vira nas revoluções: degolas e capações.
Após a passagem da lancha, quando a paisagem se refez, os homens só viram o largo rastro da água que se abria. Não havia nem sinal do nadador. Os caícos ficaram totalmente parados, como que pendurados no calorão da tarde.
– Lá está ele – disse um homem, por fim. – Não é sonso como a gente pensa. Aproveitou a passagem da lancha para escapar.
Depois de vencer os juncos da margem, o homenzarrão nu corria pelo descampado em direção ao seu barraco.
– Se eu tivesse um fuzil… – disse alguém.
Ofegante, apressado, o mulato se agachou diante de abertura do seu barraco, enfiou-se por ela e apanhou a caixa de charutos. Com os dedos molhados, manipulou as estampas de santos.
– Força nos remos! – gritou o homem dos olhos azuis.
Quando reapareceu, correndo, aquele homem que era a caça estava se dirigindo ao rio, mas agora fazia um caminho diverso do anterior: cortava pelo meio do capinzal crescido.
– Já nos viu – disse alguém. – Está desviando.
– Não adianta – disse o homem dos olhos azuis. – Ele sabe que não nos escapa.
Às vezes, aparecia com um marrecão, um préa ou uma perdiz. Ou frutas do mato. O negro velho cultivava um roçado de mandioca.
Entenderam o que ele ia fazer. Corria para a barranca alta de onde os guris gostavam de pular de ponta-cabeça na água. Sem se falar, os remadores mudaram o curso dos barquinhos.
Embalado pela corrida, o mulato escalou a barranca e lá de cima saiu voando: o imenso corpanzil estirado, as mãos unidas na frente.
Então, alguém fez fogo. Foi um gordo, que trabalhava de balconista numa farmácia.
A explosão desfez a beleza do movimento do homem que voava. Ele se contraiu e caiu de lado, levantando uma nuvem de água.
– Acertei no costado dele – comemorou o gordo, erguendo o revólver.
Num dia de inverno, ao voltar da Lagoa, o mulato não encontrou o fogo aceso. O velho dormia ainda. Agachou-se junto à porta e esperou. Esperou por todo o dia, mas o velho não se levantou.
No amanhecer seguinte, tangido pela fome, saiu caminhando. Precisava encontrar alguém que tivesse um fogo para assar os peixes que havia pescado no dia anterior.
Mais uma vez os caçadores ficaram em silêncio nos botes imóveis. Por mais que mergulhasse, e o mulato mergulhava uma barbaridade, ele não podia ir muito longe já que estava baleado.
– Talvez tenha morrido – disse alguém.
Aí, como que para desmenti-lo, o caíque virou. Duas grandes mãos escuras seguraram na borda e a puxaram para baixo. Foi rápido e inesperado. O pequeno barco oscilou bruscamente e os homens não tiveram tempo de se segurar.
A calmaria da tarde foi cortada pelos gritos dos que caíam na água e dos que estavam no outro bote. Esses, agarrados à borda, tiveram tempo de sacar seus revólveres, mas não encontraram um alvo.
Os que tinham sido jogados na água nadaram até a margem, mas um deles teve que ser recolhido porque não sabia nadar.
– Foi tudo muito de repente – disse o resgatado. – Eu só vi as mãos na borda, bem pertinho de mim, e veio a puxada forte. Malandro! E eu, trouxa, achando que ele já estava mortinho no fundo do rio.
Lá pelas tantas, encontrou cabanas parecidas com a do velho, cinco ou seis, também na beira de um curso de água. Sentiu vontade de nadar ali, mas tinha fome, muita fome. Precisava de alguém que lhe cozinhasse os peixes. Entregou-os a uma velha magricela de carapinha branca.
A mulher resmungou um bocado antes de perceber que havia alguma coisa errada com aquele rapagão com olhos macios de criança. Deve de ser atrasadinho das ideias, pensou ela. Então jogou fora os peixes, mas botou um feijão para cozinhar.
Por um tempo ele ficou parado diante da água. Não entendia por que a água não se perdia de vista, como na frente da cabana do preto velho. Dali podia ver a margem do outro lado. Mesmo estranhando, entrou na água e se pôs a nadar.
– Só pode ser doidinho mesmo – resmungou a velha. – Como é que me entra numa água gelada dessas?
O mulato reapareceu no meio do rio, nadando forte.
– O que é que ele vai aprontar agora? – perguntou alguém.
O homem de olhos azuis suspirou fundo. Havia alguma coisa de muito dolorosa naquelas largas braçadas, pensou ele. Por que não se entrega de uma vez?
– As palmas das minhas mãos estão em carne viva – disse um dos remadores.
Estava terminando de comer o feijão quando chegaram os homens da Guarda Municipal. Queriam ver seus documentos, queriam saber de onde vinha. Como não respondesse, eles o levaram preso, algemado. No quartel, só quando ele já estava muito ensanguentado, o cabo desistiu de interrogá-lo.
– Para apanhar desse jeito, que nem boi ladrão, sem dizer nem água nem sal, só pode ser mudo ou louco. Ou as duas coisas juntas.
Perto da ponte, o mulato parou de nadar. Boiou de costas por um tempo, como disposto a esperar pelos seus perseguidores. Mas, de repente, quando os homens se aproximaram, submergiu.
– Desgraçado!
Os remadores levantaram os remos e o barco seguiu escorregando pela chapa das águas, perdendo velocidade.
– O que esse louco danado está preparando agora?
– Talvez queira virar o nosso barco também.
Quando foi solto, no dia seguinte, bem cedo, andou pelo centro da cidade, aparvalhado com todas aquelas construções enormes.
Perseguido pelos moleques que o xingavam, refugiou-se no Mercado. Ali, um português apiedou-se dele e mandou que descarregasse uma carroça que estava atulhada de engradados de cerveja.
O fugitivo tornou a reaparecer, já fora da água, na margem direita, debaixo da ponte. Rengueando, meio vergado, corria para um capão de mato.
– Agora, não nos escapa mais – disse alguém. Os remos voltaram a bater com fúria na água. – Ali no mato a gente faz o serviço nele.
O mulato reapareceu, além das árvores, subindo o barranco que levava à rodovia. A escalada era penosa.
– Será que pretende fugir pela estrada?
O mulato chegou à ponte. Encurvado, o torso projetado para diante, as mãos pendentes ao lado do corpo, pôs-se de pé sobre o parapeito.
– Deve ter perdido muito sangue – disse alguém.
Com os braços abertos, como equilibrista de circo, o perseguido começou a caminhar sobre o parapeito.
Naquele dia mesmo, o português lhe arranjou um nome.
– Na minha terra, lá em Cinfães, havia um gajo grandalhão como tu, e igualmente comilão e tolo. Chamava-se Tarcísio aquele estupor. Por isso, vou chamar-te Tarcísio.
A proa do caíco voltou a ser apontada para o meio do rio e os homens tornaram a avançar, mas devagarinho. Acompanhavam a lenta caminhada do ferido por cima da amurada da ponte.
– O que é que esse desgraçado vai fazer, meu Deus?
Passou sua segunda noite na cabana da preta velha. De manhã cedo, nadou no rio. Mais tarde, quando sentiu fome, dirigiu-se ao Mercado.
Na metade da ponte, exatamente no centro do rio, ele se deteve. Virou-se de frente para o lado do porto. Levou a mão direita à cintura, ao local onde havia sido atingido, e ficou esperando que o bote deslizasse até perto de onde estava. Então, num movimento vagaroso, que lembrava o de um pássaro grande prestes a alçar voo, ele abriu os braços.
A negra velha morreu pouco depois.
Um dia, os homens da Prefeitura vieram e derrubaram todos os barracos. Mas ele, só ele, continuou por ali. Não adiantava destruir o casebre porque ele sempre voltava a reconstruí-lo. Então o deixaram de mão.
O mulato se abaixou um pouco. Tomou a feição de uma pantera pronta para atacar.
O homem dos olhos azuis tentou inutilmente secar na camisa úmida a mão empapada de suor que segurava o cabo do revólver.
O grande corpo musculoso descreveu uma curva elegante contra a vermelhidão do sol e fendeu a água quase sem levantar respingos.
Os homens empunhavam os revólveres. A espera se alongava.
Ele deve ter ido ao fundo, pensou o homem dos olhos azuis. Não sei o motivo, mas acho que ele precisa tocar pela última vez o lodo do fundo do rio, pensou o homem de olhos azuis, o homem cujo filho fora assassinado no início daquela tarde.
Então, a cabeça já grisalha e a cara morena afloraram a água.
A distância entre o caçador e a presa era de dois metros.
O homem de olhos azuis mirou na testa sem rugas.
O som seco do tiro ficou ecoando entre as pilastras da ponte.
Quando a água voltou a se imobilizar, o gordo que trabalhava na farmácia estendeu o remo e pegou o santinho que flutuava.
– É São Benedito – disse.
Lourenço Cazarré é escritor
Texto originalmente integrado no livroHistórias suburbanas
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Leonilde nasceu em pleno Estado Novo. Veio da planície, do Alentejo profundo, para a capital. Os pais empregaram-se numa mercearia. Ela terminou a 4.ª classe e foi para aprendiz de cabeleireira.
Farta de lavar cabeças num bairro da periferia, Leonilde decidiu voltar a estudar. Não ia ficar naquele salão para o resto da vida. Um único entrave: o pai. Era ele que mandava lá em casa e nem queria ouvir falar em escola. A cachopa ainda se perdia. Devia agradecer a sorte de ter um emprego e um ordenadinho. Além do mais, estava na altura de pensar em casar. Qualquer dia começavam a dar à língua.
A Leonilde casou. O Rogério trabalhava na construção naval. Era bom rapaz e tinha prometido deixá-la voltar a estudar. Mas veio uma gravidez. Depois outra. E uma terceira. Queriam um filho varão e só nasciam meninas.
Após a revolução, desiludido com as condições de vida dos trabalhadores, Rogério juntou-se ao sindicato. Incutiu em Leonilde, que, entretanto, voltara a estudar, os valores do socialismo. Não faltavam a uma reunião do partido, a uma manifestação, a um comício.
Terminada a licenciatura, Leonilde, de foice e martelo ao peito, sentia-se mais preparada do que nunca para ajudar. Queria combater o capitalismo. Ser a voz dos desfavorecidos e dos explorados.
Passei há dias por uma das filhas e perguntei pela família. Contou-me que o pai, aposentado, regressou sozinho ao Alentejo. A mãe é candidata a presidente de uma junta de freguesia:
– Faz sentido. – respondi – Sempre esteve muito ligada à política.
– Fazia. – disse ela – Se não fosse ser a candidata da extrema-direita.
Perante a minha perplexidade, explicou-me a razão invocada por Leonilde quando ela própria a questionou:
– Só eles é que me convidaram!
Sílvia Quinteiro é professora da Universidade do Algarve